Acreanidade indb



Baixar 91.93 Kb.
Pdf preview
Página21/136
Encontro30.05.2021
Tamanho91.93 Kb.
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   136
1.3  Discurso e Identidade
As identidades nacionais, diz Souza (2007), precisam de símbolos, em 
formas de bandeiras, hinos, heróis. Necessitam também de valores com-


48
partilhados com os nacionais ancorados nos pais fundadores, visto que são 
signos de um passado sacralizado que precisa ser reverenciado. Determina-
dos acontecimentos, lugares e personalidades são selecionados. Relatos his-
tóricos também fazem parte desse processo, “passando a importar não o que 
ocorreu, porém a forma como o passado justifica a imagem que a sociedade 
exibe de si e de seus governantes ou aquela construída pelos governantes” 
(SOUZA, 2007, p. 18), segundo os modelos considerados ideais. 
Para Hall (2005a), as culturas nacionais, ao produzirem sentidos sobre 
a nação, “sentidos com os quais podemos nos identificar”, constroem iden-
tidades. A cultura nacional é um discurso, diz Hall (2005a), é um “modo 
de construir sentido que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a 
concepção que temos de nós mesmos” (p. 50). Ela passa a ser representada 
por imagens e símbolos, cujas memórias conectam o presente ao passado, 
construindo a ideia de pertencimento a um lugar, a um povo e a uma he-
rança cultural.
A narrativa da nação é contada e reforçada de várias maneiras. Hall 
(2005a) elenca alguns elementos dessa narração. Um deles diz respeito à 
forma como é “contada e recontada na história e na literatura, na mídia 
e na cultura popular” (p. 52), a história da nação. Nessa direção, são con-
tadas e recontadas “as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os 
desastres” (p. 52) que nos dão sentido. Outro é a ênfase dada às “origens, às 
continuidades, à tradição e à intemporalidade” (p. 53). Os signos do caráter 
nacional, segundo Hall (2005a), “permanecem imutáveis, apesar de todas as 
vicissitudes da história” (p. 53). A narrativa da nação tem sempre um mito 
fundador: “uma estória que localiza a origem da nação, do povo e de seu 
caráter nacional num passado tão distante que eles se perdem nas brumas 
do tempo, não do tempo real, mas do tempo mítico” (p. 54-55). A ideia 
da nação é também, simbolicamente, baseada “na identidade de um povo 
original” (p. 55).
Outro elemento elencado por Hall (2005a), com base em Hobsbawm 
e Ranger (2002), diz respeito à “invenção das tradições”. Os autores em 
tela entendem por tradição inventada “um conjunto de práticas normal-


49
mente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de 
natureza ritual ou simbólica, objetivam inculcar certos valores e normas 
de comportamento por meio da repetição, o que implica automaticamente 
uma continuidade em relação ao passado” (HOBSBAWM e RANGER, 
2002, p. 09). A “invenção das tradições” diz respeito, por conseguinte, tanto 
às “tradições realmente inventadas, construídas e formalmente instituciona-
lizadas”, quanto às que “surgiram de maneira mais difícil de localizar num 
período limitado e determinado de tempo e se estabeleceram com enorme 
rapidez” (p. 09). 
Hobsbawm e Ranger, em Invenção das Tradições (2002), mostram como 
grupos que precisam de coesão forjam, muitas vezes, pelo passado, rituais 
e imagens a partir das quais buscam se fortalecer no tempo presente e que 
possuem, acima de tudo, uma função identitária e simbólica, facilmente 
perceptível.
As identidades nacionais não são coisas com as quais nascemos, mas 
são formadas e transformadas no interior da representação. As identidades 
nacionais “... não são literalmente impressas em nossos genes... As pessoas 
não são apenas cidadãos legais de uma nação: elas participam da ideia da 
nação tal como representada em sua cultura nacional” (HALL, 2005a, p. 
49). E é pelo discurso que se opera a construção/desconstrução da identi-
dade.
Do ponto de vista da construção da identidade social, gostaríamos de 
destacar alguns pontos. O primeiro é o caráter relacional no qual a identi-
dade é construída, isto é, para que uma identidade exista se faz necessário 
que haja algo fora dela, outras identidades que ela não é. É por meio da 
“relação com o Outro, da relação com aquilo que não é, com aquilo que 
falta, com aquilo que é seu exterior constitutivo, que o significado ‘positivo’ 
de qualquer termo pode ser construído” (HALL, 2005b, p. 110). A identi-
dade como construção histórica dos sujeitos na relação e interação espaço/
temporal com a alteridade, pressupõe que tenha “um núcleo essencial que 
distinguiria um grupo do outro” e, também, ser “produto de interseções de 


50
diferentes componentes, de discursos políticos e culturais e de histórias par-
ticulares” (WOORDWARD, 2005, p. 38).
Na construção da identidade, a produção de significados e/ou sím-
bolos ocorre em uma relação com o poder, já que é preciso definir quem é 
incluído e quem é excluído. Para Silva (2005, p. 81), nesse ato, “a afirmação 
da identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos diferentes 
grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir o acesso privilegiado 
aos bens sociais”. Ou seja, traduzem-se numa disputa por recursos simbó-
licos e materiais. 
A identidade pressupõe, portanto, uma “relação de semelhança ou de 
igualdade, uma busca de reconhecimento que se faz frente à alteridade”, 
pois é no “encontro ou no embate com o Outro que buscamos nossa afir-
mação pelo reconhecimento daquilo que nos distingue e que, por isso, ao 
mesmo tempo, pode promover tanto o diálogo quanto o conflito com o 
Outro” (HAESBAERT, 1999, p. 175). 
A identificação consiste, para Bossé (2004), em dois processos: o pri-
meiro, “em designar e nomear qualquer coisa ou qualquer um, e depois, em 
caracterizar sua singularidade”; e, o segundo, “em se assemelhar a qualquer 
coisa ou a qualquer um”, que se traduz, principalmente, “tanto para o indi-
víduo quanto para o grupo, por um sentimento de pertencimento comum, 
de partilha e coesão sociais” (p. 161). Toda forma de identificação supõe 
também um processo de diferenciação: identificamo-nos com alguma coisa 
ou contra qualquer coisa. Para Bossé, a identidade é uma: 
(...) construção social e histórica do ‘próprio’ e do ‘outro’, entidades 
que, longe de serem congeladas em uma permanência ‘essencial’, 
estão constante e reciprocamente engajadas e negociadas em re-
lações de poder, de troca ou de confrontação mais ou menos dis-
putáveis e disputadas, que variam no tempo e no espaço (BOSSÉ, 
2004, p. 163).
Outro ponto destacado por nós, na construção da identidade, é o cará-
ter contrastivo pelo qual a identidade é construída, de oposição com vistas 
à afirmação individual ou grupal. Isso supõe relações sociais tanto quanto 
códigos de categorias, orientando o desenvolvimento das relações com o 


51
Outro. A identidade contrastiva, segundo Cardoso de Oliveira (1999), é a 
essência da identidade étnica, por meio de interações espaciais uma pessoa 
ou grupo se define como tal e passa a visualizar o outro de forma diferente. 
O que significa dizer que “quando uma pessoa ou um grupo se afirmam 
como tais, fazem-no como meio de diferenciação em relação a alguma 
pessoa ou grupo com que se defrontam. É uma identidade que surge por 
oposição” (p. 111), o que implica a afirmação do “nós” diante dos “outros”. 
Ela surge por oposição e se afirma isoladamente, afirma-se negando a outra 
identidade, etnocentricamente por ela visualizada.
A identidade é construída em uma relação de poder, ou seja, o proces-
so de diferenciação não é natural, preexistente, não é um mero dado, mas 
construção e invenção de si, pois, afirmar a identidade “significa demarcar 
fronteiras... fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora” (SIL-
VA, 2005, p. 90). E é nessa afirmação que se revela que quem tem o poder 
de representar tem também o poder de definir e determinar a identidade.
A produção da identidade, por isso, também está indissociavelmente 
ligada à construção das representações. Ela inclui as práticas de significação 
e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzi-
dos, posicionando-nos como sujeito. O símbolo ou o signo, segundo Silva 
(2005, p. 78), é uma “marca, um traço que está no lugar de uma outra coisa, a 
qual pode ser um objeto concreto, um conceito ligado a um objeto concreto 
ou um conceito abstrato”.
No que diz respeito à representação, Silva (2005) distingue duas di-
mensões: uma externa, como os sistemas de signos; outra interna ou ex-
perimental, como a representação do “real” na consciência, isto é, a nossa 
identificação com aquilo que representamos. Nesse sentido, a representação 
tem um papel fundamental na definição/construção da identidade, pois é 
pela representação que a identidade e a diferença passam a existir. 
A identidade se exprime e se comunica de maneira interna e externa
por meio de práticas simbólicas, da representação e das práticas discursivas, 
como fala Bossé (2004). Hall (2005b), situando a discussão no campo das 
representações e do discurso, comenta que as identidades são construídas 


52
dentro do discurso e que, por isso, é preciso compreendê-las nos locais onde 
foram produzidas. Comenta, ainda, que:
(...) elas emergem no interior do jogo de modalidades específicas 
de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e 
da exclusão do que o signo de uma identidade idêntica (HALL, 
2005b, p. 109).
Outro aspecto da construção da identidade é a questão da peforma-
tividade, ou seja, o peso dos enunciados que “orientam” um pensamento, 
que ao serem proferidas faz com que algo aconteça. Nesse caso as proposi-
ções não se limitam a “descrever um estado de coisas, mas fazem com que 
alguma coisa aconteça. Ao serem pronunciadas, essas proposições fazem 
com que algo se efetive, se realize” (SILVA, 2005, p. 92-93). A eficácia dos 
enunciados performativos ligados à identidade depende de sua incessante 
repetição, diante do Outro e de sua assimilação, tanto internamente quanto 
pelo Outro.
Outro aspecto que gostaríamos de ressaltar, no que se refere à identi-
dade, é a perspectiva de que não há identidade “pura”. Não é pura, pois são 
muitos os ‘outros’ que nos servem de espelho no estabelecimento de nossa 
identidade, seja no sentido de marcar a diferença, seja no desejo de estar-
mos em consonância com eles, ou de pertencermos a várias identidades e 
ao mesmo tempo, diz Hall (2005a). A identidade, na sua origem, é fruto de 
uma mescla de outras identidades e tem um caráter híbrido. Corroboran-
do com essa ideia, Ortiz (2005, p. 08) lembra que “não existe identidade 
autêntica, mas uma pluralidade de identidades”, construídas por diferentes 
grupos sociais em diferentes momentos históricos.
As identidades são construções históricas e sociais que revelam amplas 
relações de poder, como o poder de decidir o que pode ser incluído e o que 
deve ser deixado de fora. Elas estão sempre sujeitas ao jogo da história, 
da cultura e do poder. A construção da identidade envolve escolhas entre 
os “múltiplos eventos e lugares do passado” que possam dar sentido a essa 
construção (HAESBAERT, 1999, p. 180).


53
A identidade remete, portanto, a uma construção permanentemente 
refeita dependendo da natureza das relações sociais que se estabelecem, ao 
longo do tempo, entre os vários sujeitos sociais. Tal construção busca deter-
minar “especificidades que estabeleçam fronteiras identificatórias entre ele 
e o outro e, obter o reconhecimento dos demais membros do grupo ao qual 
pertencemos” (MALHER, 2002, p. 116). 
A construção da identidade, segundo autores como Silva (2005), Said 
(2003), Oliven (2006) e Orlandi (2008[1990], 2003[1993]), está ligada a 
estruturas discursivas e narrativas oficiais. Para que essas narrativas pro-
duzam um efeito de coesão, faz-se necessário que a mensagem veiculada 
seja “verossímil, pois para que uma ideologia se realize como tal, capture 
os sujeitos, provoque adesão, é preciso que as significações produzidas pelo 
discurso encontrem eco no imaginário dos indivíduos aos quais se dirige”, 
isto é, “é preciso que se dê uma certa adequação entre as significações desse 
discurso e as representações dos sujeitos” (OLIVEN, 2006, p. 27-28). 
As narrativas são estratégias discursivas que vão inventando e reinven-
tando um passado, uma história, uma paisagem, uma sociabilidade e uma 
origem comum, pois é necessário criar os “laços imaginários que permitam 
ligar pessoas” as quais, “sem eles, seriam simplesmente indivíduos isolados, 
sem nenhum sentimento de terem qualquer coisa em comum” (SILVA, 
2005, p. 85). Nesse sentido, compreender a identidade valendo-se dos dis-
cursos é uma estratégia elucidativa, uma vez que o discurso é produzido 
em determinadas condições históricas e, também, porque ele cria tradição, 
passado e influencia novos acontecimentos. É pelo discurso, diz Orlandi 
(2008[1990]), que a história ultrapassa a mera perspectiva de evolução e se 
faz sentido.
Vejamos a síntese do discurso identitário da “acreanidade”, valendo-se 
do texto do vídeo “Centenário da Revolução Acreana”, veiculado na TV 
Aldeia, em 2003.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   136


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal