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1.2  Território e Memória
Há uma relação direta entre a construção da memória e a construção 
de identidades, como demonstram os trabalhos de Le Goff (2003), Pollak 
(1989), Oliven (2006) e Souza (2007). A identidade recorre à memória 
com a finalidade de se definir e ao mesmo tempo, a memória fornece as 
referências históricas e geográficas para a reafirmação identitária. A me-
mória é uma construção histórica, formada de imagens necessárias para os 
processos de “constituição e reforço da identidade individual, coletiva” e ter-
ritorial, que fornece “quadros de orientação, de assimilação do novo, códigos 
para classificação e para intercâmbio social”, diz Menezes (1999, p. 21). A 
memória, mais do que simples arquivo classificatório de informação a rein-
ventar o passado, é um referencial norteador na construção de identidades. 
Para Pollak (1992), a memória é um elemento constituinte do sentimento 
de identidade, “na medida em que ela é também um fator importante do 
sentimento de continuidade e de coerência do grupo em sua reconstrução 
em si” (p. 204).
O crescente interesse que a memória vem suscitando hoje, entre os su-
jeitos sociais e o poder público, decorre da busca pela diferenciação espacial 
em detrimento da mercantilização da cultura, a fim de reafirmar identida-
des específicas de sujeitos sociais e também para justificar reivindicações 
territoriais. Nesse sentido, se inserem as reivindicações empreendidas pelos 
diversos movimentos sociais no intuito de reivindicarem uma identidade 
política que significa, outrossim, reconhecimento por territórios, como 
também, do ponto de vista das identidades regionais, onde é produzida 
uma narrativa discursiva e se desenvolve um trabalho de “patrimonializa-
ção dos territórios” (DI MËO, 1998); daí o discurso de “memória” alcançar 
tamanho significado nos dias de hoje. Como ressalta Abreu (1998, p. 07), a 
“busca da identidade dos lugares, tão alardeada nos dias de hoje, tem sido 
fundamentalmente uma busca de raízes, uma busca de passado”, relaciona-


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da à importância da memória para manter o sujeito social e consolidar as 
identidades territoriais.
A discussão acerca da memória individual e coletiva tem como pre-
cursoras as reflexões do sociólogo francês Maurice Halbwachs. Ele inicia 
os estudos sobre memória na década de 1920, com a publicação da obra 
Os contextos sociais da memória, em 1925, e, em 1950, é publicada a obra 
póstuma Memória Coletiva. Este livro estabelece, inicialmente, a relação en-
tre memória individual e memória coletiva. Halbwachs mostra que nossas 
lembranças são sempre coletivas, pois recordamos em função dos outros
mesmo quando se trata de eventos que presenciamos sozinhos. Isso ocorre, 
de acordo com Halbwachs (2006[1950]), porque nunca estamos sozinhos: 
“carregamos conosco”, sempre, outras pessoas (p. 82-83). Por outro lado, 
Halbwachs também estabelece uma relação entre a memória coletiva e o 
tempo e o espaço. Nesse caso, a memória é enfatizada valendo-se da inse-
parabilidade entre o tempo e o espaço, como um conjunto de lembranças 
construídas socialmente e georeferenciadas espacialmente ao longo do tem-
po.
Para Halbwachs (2006[1950]), “cada memória individual é um ponto 
de vista sobre a memória coletiva” (p. 69), mas não se confunde com ela, pois 
a memória coletiva é “um conjunto de lembranças construídas socialmente 
e referenciadas em um conjunto que transcende o indivíduo” (p. 69), ten-
do como suporte “um grupo limitado no tempo e no espaço” (170). Nesse 
sentido, não existe memória coletiva que “não se desenvolva em um quadro 
espacial”. 
Em Halbwachs (2006[1950]), a memória não é só um fenômeno de 
interiorização individual, mas uma construção social e um fenômeno cole-
tivo. A memória coletiva está, o tempo todo, se beneficiando da memória 
individual, mas não basta que os outros “nos apresentem seus testemunhos”: 
é preciso, outrossim, que concordemos com “as memórias deles e que haja 
muitos pontos de contato entre uma e as outras para que a lembrança que 
nos ajude recordar venha a ser reconstruída sobre uma base comum” (p. 39); 
faz-se necessário, igualmente, que a memória dos “outros venha reforçar 


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e completar a nossa”, pois é preciso que “as lembranças desses grupos não 
deixem de ter alguma relação com os acontecimentos que constituem meu 
passado” (p. 98). 
No que se refere à memória nacional e/ou regional, Halbwachs 
(2006[1950]) destaca que: pelo fato de não termos participado dos aconte-
cimentos do passado, quando os invocamos, somos obrigados a nos remeter 
à memória dos outros. Nesse sentido, as memórias coletivas se reforçam 
por meio das comemorações públicas, dos acontecimentos que marcaram a 
história coletiva. Desta forma, quando o que é comemorado está distante se 
faz necessário recorrer à institucionalização da memória, como bem ressalta 
Halbwachs: 
Quando a memória de uma sequência de acontecimentos não 
tem mais por suporte um grupo, o próprio evento que nele es-
teve envolvido ou que dele teve consequências, que a ele assistiu 
ou dele recebeu uma descrição ao vivo por atores e expectadores 
de primeira mão (...), então o único meio de preservar essas lem-
branças é fixá-las por escrito em uma narrativa (HALBWACHS, 
2006[1950], p. 101).
Halbwachs traz uma importante contribuição para a discussão das 
identidades territoriais. Primeiramente, porque enfatiza a relação entre me-
mória e lugar: “não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro 
espacial”. Em seguida, porque ressalta, também, que existe um dinamismo 
nas memórias coletivas. Elas estão sempre se modificando e se redefinin-
do, transformando-se de acordo com a inserção dos indivíduos em outros 
grupos sociais.
De acordo com Halbwachs, a função da memória coletiva, quando ins-
titucionalizada, é a de definir e reforçar, em uma tentativa mais ou menos 
consciente, sentimentos de pertencimento e de fronteiras entre coletivida-
des diferentes. Para que esta função seja exercida, é necessário um trabalho 
de enquadramento da memória, o qual se vale de fontes fornecidas pela his-
tória e das pessoas qualificadas para isso, ou seja, dos guardiões da memória.
Nesse caso, entra em cena o trabalho dos “homens-memória”, pois 
“quanto menos a memória é vivida coletivamente, mais ela tem necessidade 


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de homens particulares” que realizam o trabalho de lembrar (LE GOFF, 
2003, p. 415). O trabalho de enquadramento da memória coletiva, segundo 
Pollak (1989), “se alimenta do material fornecido pela história” e esse ma-
terial deve “ser interpretado e combinado a um sem-número de referências 
associadas”, guiado pela preocupação não só de “manter as fronteiras sociais, 
mas também de modificá-las, pois esse trabalho reinterpreta incessante-
mente o passado em função dos combates do presente e do futuro” (p. 10). 
A memória nacional e/ou oficial se vale do trabalho de enquadramento, 
pois: 
(...) essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpreta-
ções do passado que se quer salvaguardar se integra em tentativas 
mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de 
pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos 
diferentes (POLLAK, 1989, p. 09).
O trabalho de enquadramento da memória coletiva se materializa em 
narrativas oficiais, sobretudo, nos discursos em torno de acontecimentos 
e personagens históricos, e em lugares, como os monumentos, museus e 
memoriais que servem para sustentar os discursos identitários (POLLAK, 
1989, p. 10). No Acre, esse papel foi desempenhado, durante o Governo 
da Floresta, principalmente, pelo historiador Marcus Vinicius Neves, ex-
-diretor da FEM e ex-diretor da Fundação de Cultura Garibaldi Brasil, 
do município de Rio Branco, e também pelo ex-diretor da FEM, Toinho 
Alves, ambos responsáveis pelo setor cultural e histórico do estado do Acre 
e responsáveis pela composição da história oficial, alusiva às datas come-
morativas.
Pollak (1992) traz outra importante contribuição na discussão da me-
mória, que é a relação entre identidade e memória, na qual se destacam 
as fronteiras de pertencimento e o sentimento de coerência. Pollak (1992) 
elenca três elementos constitutivos da identidade: os “acontecimentos”, as 
“pessoas e personagens” e os “lugares” da memória.
Os acontecimentos se dividem entre os “vividos pessoalmente” pelos 
sujeitos e os “vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente 


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perceber” (POLLAK, 1992, p. 201). Esses últimos são os acontecimentos 
dos “quais a pessoa nem sempre participou”, mas tomaram tamanha ampli-
tude diante da construção da memória coletiva que, no “fim das contas, é 
quase impossível que ela (a pessoa) consiga saber se participou ou não” (p. 
201). Nesse caso, as pessoas são inseridas no enredo do “acontecimento”. 
É como se elas tivessem participado e/ou se sentem pertencentes a essa 
“história”. Mas, é preciso que o acontecimento lembrado seja reconstruído 
valendo-se de dados e de noções comuns aos diferentes membros da cole-
tividade. 
No que diz respeito às “pessoas e personagens”, a lógica é idêntica: 
existem as pessoas e personagens “realmente encontradas no decorrer da 
vida ou personagens que não pertenceram necessariamente ao espaço/tem-
po da pessoa” (POLLAK, 1989, p. 201). Já no que diz respeito aos “lugares”, 
Pollak ressalta que estes estão “particularmente ligados a uma lembrança, 
que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no 
tempo cronológico” (p. 202). Nesse sentido, os locais muito longínquos, 
“fora do espaço/tempo da pessoa, podem constituir lugar importante para a 
memória do grupo, e, por conseguinte, da própria pessoa” (p. 202), seja por 
aproximação, ou por pertencimento a esse grupo, dependendo da narrativa 
construída em torno deles. É o que acontece com a patrimonialização ter-
ritorial, tanto pelo processo de identificação provocado por ela quanto pela 
perfomatividade do discurso identitário.
A expressão “lugares de memória”, encontrada em Nora (1993, p. 13), 
é toda unidade significativa, de ordem material ou ideal, na qual a vontade 
dos homens ou o trabalho do tempo fez dele um elemento simbólico do pa-
trimônio, da memória coletiva de uma comunidade. Esses são classificados 
em Nora (1993, p. 26-27) nas seguintes tipologias: Lugares Topográficos diz 
respeito aos arquivos, às bibliotecas e aos museus; os Lugares Monumentais 
estão relacionados aos cemitérios, altares da pátria ou conjuntos arquite-
tônicos; os Lugares Simbólicos se referem às comemorações, festas, peregri-
nações, centenários ou emblemas e os Lugares Funcionais, dizem respeito 
aos manuais, autobiografias ou associações. Sobre essa temática, Le Goff 


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acrescenta que não podemos esquecer os verdadeiros lugares da história e/
ou da memória, aqueles “onde se devem procurar não a sua elaboração, não 
a sua produção, mas os criadores e os denominadores da memória coletiva” 
(2003, p. 467).
Os “lugares de memória”, em Nora (1993), são pontos de condensação 
da memória em três sentidos: material, simbólico e funcional. E são lugares 
de memória somente quando «a imaginação investe-os de uma aura sim-
bólica” e só entra nessa “categoria se for objeto de um ritual» (p. 21). Os 
lugares de memória “são antes de tudo, resto”, diz Nora (1993, p. 12), não 
porque a memória não é mais vivida no cotidiano, mas porque a ruptura 
com o tempo eterno se realizou, pois o passado já foi reconhecido, tanto 
que passa a ser arquivado:
O tempo dos lugares é esse momento preciso em que um imenso 
capital que vivíamos na intimidade de uma memória desaparece 
para viver sob o olhar de uma história reconstituída (...). Os luga-
res de memória nascem e vivem do sentimento que não há memó-
ria espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter 
aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, 
notariar atas, porque essas operações não são naturais e sem vigi-
lância comemorativa, a história depressa as varreria (NORA, 1993, 
p. 12-13). 
Os estudos de Halbwachs sobre memória coletiva, e os de Nora sobre 
os lugares de memória, enfatizam, por isso, o peso que determinados refe-
renciais exercem sobre as memórias individuais, estruturando-as, organi-
zando-as e inserindo-as na memória de uma coletividade.
O passado, seletivamente escolhido, pode se materializar na paisagem, 
como, por exemplo, os sítios históricos. Deve ser preservado em “institui-
ções da memória”, ou estar vivo na memória coletiva se for constantemente 
referenciado.



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