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  Território e Identidade



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1.1  Território e Identidade
O conceito de território foi inicialmente tratado nas Ciências Natu-
rais, onde foi estabelecida a relação entre o domínio de espécies animais ou 
vegetais em uma determinada área física. No domínio das Ciências Sociais, 
esse conceito é associado a uma dimensão de apropriação e/ou sentimento 
de pertencimento, seja esta apropriação no sentido de controle efetivo por 
parte de instituições ou grupos sobre um dado segmento do espaço, seja 
na apropriação mais afetiva de uma identidade territorial (HAESBAERT, 
2004).
Em Haesbaert (1997, 2004), encontramos a discussão em que o ter-
ritório é compreendido em suas várias dimensões, isto é, em uma dimen-


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são material-concreta (política, econômica) e uma dimensão subjetiva e/ou 
simbólica. Nesse sentido, o território envolve:
(...) sempre e ao mesmo tempo, mas em diferentes graus de corres-
pondência e intensidade, uma dimensão simbólica, cultural, atra-
vés de uma identidade territorial atribuída pelos grupos sociais, 
como forma de ‘controle simbólico’ sobre o espaço onde vivem 
e uma dimensão mais concreta, de caráter político-disciplinar: a 
apropriação e ordenação do espaço como forma de domínio e dis-
ciplinarização dos indivíduos (HAESBAERT, 1997, p. 42).
Ao elaborar esse conceito, Haesbaert (1997) leva em consideração as 
definições de “espaço dominado” e “espaço apropriado” de Lefebvre, para o 
qual, “através das práticas sociais e das técnicas, o espaço natural se trans-
forma e é dominado”. Ainda de acordo com Lefebvre, quando ocorre a 
“dominação do espaço natural para servir às necessidades de um grupo, este 
se apropria dele” (LEFEBVRE, 2000 [1984], p. 191-192). Na perspectiva 
integradora, defendida por Haesbaert, o território responde “... pelo con-
junto de nossas experiências ou, em outras palavras, relações de domínio e 
apropriação, no/com/através do espaço” (HAESBAERT, 2004, p. 78).
Um diferencial na definição de território em Haesbaert é a ressalva que 
faz quanto às relações de poder. Para ele, o território “em qualquer acepção, 
tem a ver com poder, mas não apenas ao tradicional poder político. Ele diz 
respeito ao poder no sentido mais concreto, de dominação, quanto ao poder 
no sentido mais simbólico, de apropriação” (2004, p. 01). Nesta perspectiva, 
o território pode ser concebido “a partir da imbricação de múltiplas relações 
de poder, do poder mais material das relações econômico-políticas ao poder 
mais simbólico das relações de ordem mais estritamente cultural” (HAES-
BAERT, 2004, p. 79). 
Nas Ciências Sociais, a temática do território tem sido, tradicional-
mente, discutida em três vertentes. Uma, denominada de jurídica-política, 
em que são contempladas as relações espaço-poder em geral e as relações 
espaço-poder institucionalizadas. Nessa vertente, o território corresponde 
ao “espaço delimitado e controlado”, no qual se “exerce um determinado 
poder, especialmente o de caráter estatal” (HAESBAERT, 1999: p. 39). 


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Outra vertente é a cultural ou simbólico-cultural, que “prioriza a dimensão 
simbólica e mais subjetiva”, sendo o território definido como o “produto 
da apropriação feita através do imaginário e/ou da identidade social sobre 
o espaço” (p. 39). E na vertente econômica, o território é visto como “fonte 
de recursos” (p. 40).
Na vertente jurídica-política, o território aparece institucionalizado no 
Estado nacional. Assim, o espaço da nação é o locus do exercício do poder de 
um Estado, de forma a constituir uma entidade jurídica reconhecida como 
tal pelo fórum internacional.
A discussão do território, nessa direção, tem em Ratzel o seu precursor. 
Este, no final do século XIX, colocava o estudo da formação dos territó-
rios como “objeto da sua antropogeografia”. Nesse sentido, o território era 
concebido como um espaço qualificado pelo domínio de um grupo huma-
no, sendo definido pelo controle político do Estado de um dado âmbito 
espacial, configurando-se como uma característica do mundo moderno, a 
delimitação de “áreas de dominação estatal e, mais recentemente, estatal 
nacional” (MORAES, 1990, p. 09).
Em Ratzel, vemos a importância que era dada ao território como es-
truturante do Estado, não sendo possível concebê-lo “sem um território e 
sem fronteira”. Mesmo para o Estado mais simples, este “não seria possível 
sem o seu território, assim, também a sociedade mais simples só poderia 
ser concebida junto com o território que lhe pertence” (MORAES, 1990, 
p. 73). Ou, dito de outra forma, o território era visto “como o movimento 
de um grupo social que se expande no espaço e passa a controlar porções 
do planeta, que são integradas ao seu território” (MORAES, 2002, p. 50). 
Nessa direção, Ratzel definia o território como uma determinada por-
ção da superfície terrestre apropriada por um grupo humano, e como um 
movimento de expansão e conquista de novos espaços. Essa identificação 
entre o Estado e o território forneceu o material para a elaboração do con-
ceito de “espaço vital”, no qual o “ideal nacional” ou a “política nacional” são 
fenômenos que devem expressar, mais do que a raça e a língua comuns, um 


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território comum. Para Ratzel, o território é, portanto, o espaço geográfico 
onde se exerce o poder do Estado (MORAES, 2002).
Além dessa dimensão de poder centrada no Estado nacional, existem 
outras discussões acerca do território também centradas no poder, mas não 
exclusivamente do poder estatal.
Um dos primeiros trabalhos a trazer a temática do território para a 
geografia, em uma dimensão que não fosse exclusivamente estatal, foi o de 
Claude Raffestin (1993), com o livro Por uma Geografia do Poder, publicado 
na língua francesa em 1988. 
Para Raffestin (1993, p. 143), espaço e território não são idênticos; pelo 
contrário, o espaço antecede ao território. E nessa perspectiva, o território 
se “forma a partir do espaço” como o resultado de uma “ação conduzida por 
um ator sintagmático em qualquer nível”. Na argumentação que o autor 
faz para diferenciar espaço de território, ele diz que o território é fruto de 
uma ação programada de um sujeito que se apropria concreta e/ou simbo-
licamente do espaço. De forma que “ao se apropriar de um espaço, concreta 
ou abstratamente, o ator ‘territorializa’ esse espaço” (1993, p. 143). Dessa 
forma, o espaço é a possibilidade de uso que preexiste a qualquer ação. E 
é por meio da ação humana que ele se torna território. Essa “passagem” do 
espaço ao território sempre acontece no campo das relações de poder e de 
dominação (1993, p. 144).
Raffestin destaca o caráter político do território, definindo-o a partir 
das relações de poder de uma forma mais geral que o estatal. Para ele, o 
poder, assim como para Foucault (1976), é parte intrínseca de toda relação 
social e, nesse sentido, “toda relação é o ponto de surgimento do poder e 
isso fundamenta a sua multidimensionalidade” (RAFFESTIN, 1993, p. 53). 
O poder, com base nas contribuições de Foucault, está em todos os luga-
res; não é adquirido, mas exercido, é multidimensional e “visa o controle e 
a dominação sobre os homens e sobre as coisas” (RAFFESTIN, 1993, p. 
58). Como “trunfos do poder”, Raffestin (1993) destaca: a população, o 
território e os recursos. A população “está na origem de todo o poder”; nela 
“residem as capacidades virtuais de transformação; ela constitui o elemento 


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dinâmico de onde procede a ação”. Já o território é um trunfo particular, 
“é a cena do poder e o lugar de todas as relações, mas sem a população; ele 
se resume a apenas uma potencialidade, um dado estático a organizar e a 
integrar numa estratégia” (p. 58). O território “... é o espaço político por 
excelência”, o campo de ação dos trunfos de poder (p. 60). Quanto aos re-
cursos, eles “determinam os horizontes possíveis da ação” e condicionam o 
alcance possível das ações (p. 58).
O território é, portanto, nessa acepção, a expressão concreta e abstrata 
do espaço apropriado, produzido. É formado, em sua multidimensionalida-
de, pelos sujeitos que o redefinem, constantemente, em suas cotidianidades, 
em um “campo de forças” das mais variadas intensidades e ritmos. 
Para Raffestin (1993), “toda prática espacial” é passível de criar terri-
tório. Isso se dá porque as práticas implicam relações por meio de “malhas, 
redes e nós”, constituindo o sistema territorial. Tal sistema é organizado 
valendo-se dos critérios de distância e acessibilidade, da importância so-
cial de determinados pontos e da necessidade de controle (RAFFESTIN, 
1993, p. 150). Isso permite assegurar a coesão de territórios e o controle de 
pessoas e coisas.
No que se refere à territorialidade, o autor a define como o “conjunto 
de relações mantidas pelo homem, enquanto pertencente a uma sociedade, 
com a exterioridade e a alteridade, com ajuda de mediadores ou instrumen-
tos” (RAFESTIN, 1988, p. 265). A territorialidade humana não é, pois, 
constituída só por:
(...) relações com territórios concretos, mas também por relações 
com os territórios abstratos como línguas, religiões, tecnologias, 
etc. Esta relação é então organizada segundo uma série de regras, 
comunicabilidade que está implícita na mesma relação societária 
(RAFFESTIN, 1988, p. 266).
A territorialidade humana reflete, para Raffestin, a muldimensionali-
dade do vivido territorial pelos membros de uma coletividade, e se mani-
festa em todas as escalas espaciais e sociais; ela é consubstancial a todas as 


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relações e seria possível dizer que “é a face vivida da face agida do poder” 
(RAFFESTIN, 1993, p. 162). 
Um autor que privilegia o campo cultural na construção do território 
é Joel Bonnemaison (2000 e 2002). Para este autor, não existe nenhum 
indivíduo ou grupo que escape ao princípio de territorialização. Assim, 
não poderia haver grupos coerentes, nem de etnia e, talvez, nem mesmo 
de cultura, sem um território-portador. Isso equivale dizer que há uma 
correspondência “entre os homens e os lugares”, entre “uma sociedade e 
sua paisagem”, que está “carregada de afetividade e exprime uma relação 
cultural” (2002, p. 91). De acordo com esse princípio, os territórios, os lu-
gares e a paisagem não podem ser compreendidos senão em referência ao 
universo cultural em que estão inseridos. 
A territorialidade, em Bonnemaison (2002, p. 107), aparece como “a 
expressão de um comportamento vivido que engloba ao mesmo tempo a 
relação com o território e, a partir dela, a relação com o estrangeiro”. Isto é, 
a territorialidade inclui “aquilo que fixa o homem aos lugares que são seus e 
aquilo que o impele para fora do território”. O autor destaca, ainda, o papel 
da etnia ou, em um sentido mais amplo, do “grupo cultural” na construção 
de um espaço-território, quando diz que a territorialidade:
(...) emana da etnia, no sentido de que ela é a relação culturalmen-
te vivida entre um grupo humano e uma trama de lugares hierar-
quizados e interdependentes, cujo traçado no solo constitui um 
sistema espacial (BONNEMAISON, 2002, p. 96-97).
Para Bonnemaison, o território é “... um conjunto de lugares hierar-
quizados, conectados a uma rede de itinerários” (2002, p. 99) e é, ao mesmo 
tempo, “espaço social” e “espaço cultural” associado tanto à função social 
quanto à simbólica. O espaço social é produzido e o cultural, vivenciado. 
O social é concebido em termos de “organização e de produção”, e o cultu-
ral, em termos de “significação e relações simbólicas” (BONNEMAISON, 
2002, p. 103).
A partir do entrecruzamento entre cultura, território e etnia, o autor 
elabora o conceito de geossímbolo, “definido como um lugar, um itinerário, 


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uma extensão que, por razões sejam elas religiosas, culturais ou políticas, 
assume uma dimensão simbólica que fortalece os grupos culturais em sua 
identidade”. O geossímbolo é, portanto, um espaço cultural que pode se 
tornar um território-santuário, um espaço de comunhão (BONNEMAI-
SON, 2002, p. 109).
Em Bonnemaison e Cambrèzy (1996), o território é considerado 
como o “lugar fundador das identidades locais e a mola secreta de sua so-
brevivência” (p. 09). Nessa consideração, os autores partem do princípio de 
que existe “uma imperiosa necessidade para toda sociedade estabelecer uma 
relação com os lugares”. De modo que o “poder do laço territorial revela 
que o espaço é investido de valores não só materiais, mas também éticos, 
espirituais, simbólicos e afetivos” (p. 10). Reforçam, ainda, que o território 
é, portanto, um “construtor de identidade, talvez o mais eficaz de todos” (p. 
14). 
Os autores, falando das sociedades camponesas pré-industriais, exem-
plificam mostrando que, naquelas situações,
(...) o território não se define por um princípio material de apro-
priação, mas sim por um princípio cultural de identificação, ou de 
pertencimento. O território não pode ser percebido apenas como 
uma posse ou como uma entidade externa à sociedade que o habita 
(BONNEMAISON e CAMBREZY, 1996, p. 13-14).
E, sim, como: 
(...) uma parcela de identidade, fonte de uma relação de essência 
afetiva, e até mesmo amorosa com o espaço. Pertencemos a um 
território, nós não o possuímos, nós o guardamos, nós o habita-
mos, nos impregnamos dele (BONNEMAISON e CAMBRE-
ZY, 1996, p. 13-14).
Outro autor que traz uma contribuição importante para a discussão da 
identidade territorial é Guy Di Méo (1998). Di Mèo destaca a importância 
do espaço vivido na constituição do território, enquanto “referência identi-
tária e mediador das relações sociais” (p. 61). 


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Para esse autor, o caráter identitário tem um duplo sentido. Por um 
lado, são os “detalhes que constroem nossa memória coletiva”, isto é, o fun-
damento do nosso universo cultural, que se encaixam nas crenças, ideias, 
linguagem, e nas referências territoriais. Por outro lado, em sentido inverso, 
quando o território é moldado como “representação e valor social, este rece-
be a marca de toda uma memória espacial [coletiva]: a memória dos gestos, 
dos hábitos, dos trabalhos e dos deslocamentos cotidianos” (p. 48-49). Mas, 
ao mesmo tempo, ressalta que tanto a memória quanto o território, “não são 
realidades mortas e fixas”, elas são construídas, reafirmadas e reinventadas 
(p. 61-62).
No que diz respeito à construção da identidade territorial, Bossé 
(2004) e Haesbaert (1999) são elucidativos. Para o primeiro, o território 
identitário “não é apenas ritual e simbólico, é também o local de práticas 
ativas e atuais, por intermédio das quais se afirmam e vivem as identidades” 
(p. 169). Já para Haesbaert: 
(...) a identidade territorial é uma identidade social definida fun-
damentalmente através do território, ou seja, dentro de uma rela-
ção de apropriação que se dá tanto no campo das ideias quanto no 
da realidade concreta (1999, p. 172).
E acrescenta que “as identidades só são territoriais quando sua estru-
turação depende da apropriação simbólica no/com o território” (HAES-
BAERT, 1999: p. 179).
A construção das identidades territoriais possui duas dimensões: uma, 
ancorada na memória coletiva, “construída em torno do passado para con-
firmar uma diferenciação e construir, com maior sucesso, uma identidade”. 
E outra, ancorada nos “referenciais espaciais, tanto do passado como do 
presente e que podem ter várias origens” (HAESBAERT, 2007, p. 45).
A identidade territorial é construída valendo-se do reconhecimento 
de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com 
outros grupos ou pessoas, ou ainda, com base em um mesmo ideal. O que 
significa dizer que o passado transforma-se em uma narrativa não fixa e 
permeável pelos interesses do presente, pois, ao “reconstruirmos o passado 


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de um povo, esquecemos e lembramos-nos dos fatos, informações e inter-
pretações que nos interessam para reafirmar uma identidade” (DEALTRY, 
2002, p. 190).
Di Méo (1998, p. 55) ressalta que os “atores sociais” nessa construção 
identitária retêm as sequências da história, as mais aptas, a fim de “conso-
lidar a identidade sócio espacial”, porém, a seleção dessas sequências na 
construção da memória coletiva não é aleatória. Elas servem para conso-
lidar uma identidade territorial. E essa seleção mostra a ancestralidade da 
identidade, uma vez que:
(...) não apenas as experiências comuns vividas em um passado 
fundam a coletividade como entidade [social e territorial], mas 
também, o fato da coletividade se esforçando em produzir um pas-
sado comum e, frequentemente, um território (DI MÉO, 1998, 
p. 62).
É na trama de todos os dias, como fala Di Méo (1998: p. 48), “aquém 
e além do político e do econômico, que se manifestam, realizam-se e 
concretizam-se os mecanismos de identificação coletiva”. Esses mecanismos 
contribuem para a manifestação identitária em termos de pertencimento a 
um território. 
E nesse sentido, a identidade territorial visa destacar o caráter único de 
um grupo, de um lugar e, longe de mergulhar unicamente em suas raízes no 
passado, emerge antes de tudo nos desafios da atualidade e das lógicas so-
ciais do cotidiano. Como lembram Gupta e Ferguson (2000, p. 34), a iden-
tidade de um lugar “surge da interseção entre seu envolvimento específico 
em um sistema de espaços hierarquicamente organizados e a sua construção 
cultural como comunidade ou localidade”. 
Como vimos, o território é o resultado de uma apropriação simbóli-
co-expressiva do espaço, portador de significações e relações simbólicas. E 
a sua construção e/ou invenção perpassa, principalmente, pela dimensão 
histórica e pela construção do imaginário. Essa construção envolve relações 
de poder, como o poder de definir quem é incluído e quem é excluído, ou 

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