Acreanidade indb



Baixar 91.93 Kb.
Pdf preview
Página113/136
Encontro30.05.2021
Tamanho91.93 Kb.
1   ...   109   110   111   112   113   114   115   116   ...   136
de índios e seringueiros 
resultou na formação do 
Estado Independente do 
Acre.  Depois, liderado por 
Plácido de Castro, o povo 
dez a Revolução Acreana.
Houve luta e derramamento 
de sangue para que esta ter-
ra e seu povo pertencessem 
ao Brasil (grifo nosso).
Figura 13 - Campanha publicitária em comemoração 
à Revolução Acreana (pé de mouse)
Nessa construção identitária, são acionados três eventos históricos que 
coincidem com a sua história econômica periodizada nos seguintes mar-
cos: de 1877 a 1920 (primeiro ciclo da borracha), período de formação dos 
seringais, expansão da ocupação em direção aos altos rios, e da produção e 
exportação da borracha, e da guerra del Acre. De 1942 a 1945 (segundo ciclo 
da borracha), da chegada dos soldados da borracha. E o terceiro período, 
a partir de 1964, com as políticas públicas dos militares que incentivaram 
a bovinização do Acre. Com essa periodização, é dada pouca importância 
ao período entre 1921 a 1941. Entretanto, alguns autores têm trazido uma 


299
importante contribuição, discutindo o que se passou no interior da floresta 
naquele período. Entre esses autores, destacamos Porto-Gonçalves (1998), 
Almeida & Wolff (2002) e Wolff (1998). Esse período é o da gênese do se-
ringueiro liberto e/ou do seringueiro autônomo. Igualmente, após a morte 
de Chico Mendes, em 1988, parece que nada existiu no Acre, até surgirem 
os “meninos do PT” fazendo uma “nova revolução”, ganhando a eleição 
e dando continuidade aos sonhos do seu líder maior, Chico Mendes que 
lutou contra a pecuarização do estado do Acre.
No período de 1921 a 1941, a exportação da borracha brasileira foi ul-
trapassada no mercado mundial pela borracha asiática. A partir daí o patrão 
enfraquece, uma vez que o barracão fica destituído de mercadoria. Houve 
uma substituição dos vínculos dos seringalistas com o mercado por uma 
economia de subsistência (realizada pelos seringueiros) e se constatou uma 
maior liberdade nas relações entre seringueiros e seringalistas. Porém, como 
nos lembra Reis (1953, 76), os seringais “não entraram em colapso. E, se 
não experimentavam o esplendor dos dias venturosos no princípio do sécu-
lo XX, tampouco voltaram à fase de decadência das décadas posteriores a 
1912”. Considerando-se que no Acre produzia-se a borracha do tipo Acre/
fina, apesar da redução da renda regional, a região apresentava um saldo 
positivo em relação ao resto da região Amazônica coberta pelo extrativismo 
da borracha.
No entanto, os seringais sobreviveram. A crise, para Almeida e Wolff 
(2002), deu origem a dois processos de movimento populacional. De um 
lado, houve evasão dos seringais por parte daqueles seringueiros que tinham 
acumulado algum capital e se retiraram para os seus estados de origem, ou 
para as proximidades das cidades, onde se dedicaram a outras atividades, 
como a extração de madeira ou agricultura de subsistência. Nesse caso, os 
seringueiros dos altos rios estavam: “trocando o interior da floresta, onde 
a única alternativa comercial era a extração da borracha, pela margem dos 
rios, onde era possível dedicar-se à agricultura e fazer escoar seus produtos” 
(CASTELO BRANCO, Apud: ALMEIDA e WOLFF, 2002, p. 118).


300
Por outro lado, o movimento foi “rio acima”, em busca de áreas em 
que a produtividade da borracha era tão alta que continuava sendo com-
pensadora, pois, como ressalta Porto-Gonçalves (1998), aos seringueiros 
restavam as seguintes alternativas: tornarem-se rendeiros, migrarem para 
os rios ricos em leite (principalmente, do Vale do Purus), ocuparem ter-
ras abandonadas ou se tornarem seringueiros libertos. Muitos seringalistas 
também voltaram para o Nordeste ou para outras cidades da Amazônia, 
seja “vendendo, arrendando ou mesmo abandonando o seringal por falta de 
trabalhadores ou crédito para aviar os seringueiros” (PORTO-GONÇAL-
VES, 1998, p. 139). 
No período do apogeu da borracha, os patrões, para obrigar os serin-
gueiros a se dedicarem exclusivamente à seringa e mantê-los dependentes 
do barracão que lhes aviava as mercadorias, chegavam a proibir até o cultivo 
de roçados de subsistência. Já com a queda das exportações e o empobreci-
mento dos seringalistas, em muitos seringais, os seringueiros se dedicaram 
à agricultura, com a aquiescência do patrão.
O modo de vida desses trabalhadores, denominados por Almeida & 
Wolff (2002) de ‘camponês florestal’, diferenciava-se bastante daquele se-
guido pelos seringueiros que chegaram no auge da produção da borracha, 
nos tempos de expansão do preço do produto. Agora se dedicavam à agri-
cultura, além do látex, da pesca e da caça. 
Nesse sentido, como ressalta Porto-Gonçalves, nesse período de 1921 
a 1941, forjou-se um “novo padrão de organização societária” a partir das 
novas relações de gênero, onde a presença da mulher e a constituição de 
famílias conformaram um espaço doméstico, até então inexistente. E a par-
tir, também, de uma nova configuração de relações interétnicas, que abriu 
outras possibilidades na relação dos seringueiros com a floresta e com os 
grupos indígenas e, um novo padrão de relações técnicas de produção, ba-
seado no agroextrativismo.
A família teve um papel importante na fixação do migrante na Ama-
zônia, como podemos observar na fala desse cearense, Francisco Lopes, que 
veio para o Amazonas em 1906. Ele havia retornado para o Ceará e estava 


301
voltando para a Amazônia em 1942. Esse foi um dos 55 migrantes entre-
vistados por Samuel Benchimol em 1942, na cidade de Manaus. Francisco 
Lopes relatou para Benchimol tanto o momento de chegada quanto o mo-
mento em que resolveu fixar moradia na Amazônia. Na chegada, em 1906 
dizia que:
Achava tudo esquisito, diferente dos costumes lá de minha terra. 
Tive muita vontade de voltar, mas de nada adiantava, pois não 
tinha com que. O jeito que tive foi eu me amansar na terra. Desse 
jeito virei seringueiro. Conheço quase todos os rios do Amazo-
nas. No Juruá aprendi a ser mateiro, estive no Purus, conheço o 
Madeira e o Abunã muito bem. No Acre foi onde cheguei a fazer 
dinheiro, pois peguei os bons tempos da alta de 1912. Dez anos 
estive por lá trabalhando com um e com outro.
Do Acre eu passei para a Bolívia, pois já estava enjoado daquilo. 
Trabalhei no caucho e fiz alguns cobres. (...) Mas eu precisava me 
situar num lugar. Eu tinha casado e estava cansado de tanto andar 
de cima para baixo (BENCHIMOL, 1977, p. 263)
No que diz respeito às relações interétnicas, Cristina S. Wolff traz uma 
importante contribuição para entender essas relações, uma vez que diferen-
te de outras regiões da Amazônia onde se tinha a experiência do “seringal 
caboclo”, no Acre foi estabelecido o “seringal empresa”.
Cristina S. Wolff (1998) enfatiza o tipo de relação estabelecida naquele 
período, entre índios e seringueiros:
Para os seringueiros(a) este período foi de um intenso aprendi-
zado sobre a floresta e seus recursos. Se no Baixo Amazonas era 
possível contar com a experiência das populações ribeirinhas, nos 
altos rios a única experiência anterior à dos seringueiros era a dos 
índios, com os quais os seringueiros normalmente não mantinham 
relações muito amistosas. Certamente, apesar do massacre físico e 
cultural a que foram submetidos em toda a região, porém, os se-
ringueiros assimilaram muito de seus conhecimentos e tecnologias 
para o aproveitamento dos recursos da floresta 
(WOLFF, 1998, 
p. 174).


302
E, no que se refere ao agroextrativismo, o antropólogo Mauro Almei-
da, que estuda as populações tradicionais do Juruá, sintetiza essa questão na 
seguinte passagem:
Com o colapso do mercado mundial para a borracha, a máquina 
extrativa-exportadora dos barracões tornou-se obsoleta. Com isso 
os seringueiros tiveram que desenvolver, a partir de sua experiência 
camponesa, mas, sobretudo apreendendo tecnologias indígenas, 
um modo de vida florestal, que dependesse ao mínimo de bens 
importados (ALMEIDA  Apud PORTO-GONÇALVES, 1998, 
p. 278).
A agricultura teve um papel significativo na organização do espaço nas 
regiões do alto Juruá e alto Purus, como nos diz Porto-Gonçalves (1998, 
180): primeiro, porque a agricultura foi uma “iniciativa dos seringueiros 
remanescentes do seringal-empresa”. Foi também, uma iniciativa que os 
patrões e as casas aviadoras tiveram de adotar para sobreviver, e muitos 
seringalistas “transformaram-se em rentistas, vivendo da cobrança de renda 
pela exploração das estradas de seringa”. Como alertou Benchimol:
Seringa e roça ... não rimam bem. O roçado só existe quando a 
seringa falece. Na época da crise até que se vive bem nos seringais. 
Pelo menos o homem toma interesse para a plantação e volta as 
suas vistas à terra. Seringa rima bem é com beribéri, com charque 
e farinha, com pirarucu seco e feijão. Não combina com batatas, le-
gumes, galinha, ovos, leite. Se ela juntasse tudo isso o homem não 
vinha para voltar. O homem sentiria alguma coisa de seu trabalho 
e de sua pessoa fincado na terra (BENCHIMOL, 1977, p. 177).
No enfrentamento da crise, como mostra Porto-Gonçalves (1998), 
emergiram os seringueiros autônomos que,
... tiveram que ser previdentes, diversificar sua produção, fazer uso 
múltiplo dos recursos naturais, revolucionar as relações de gênero, 
constituir um espaço doméstico de reprodução, incorporar a ma-
triz da racionalidade indígeno-cabocla e, por essa via, se tornaram 
povos da floresta (PORTO-GONÇALVES, 1998, p. 278).


303
A produção da borracha ganha importância outra vez com o seu se-
gundo ciclo, de 1942 a 1945, com a Batalha da Borracha e a mobilização 
de 60 mil “soldados”, também chamados de “brabos” para distingui-los dos 
“mansos”, isto é, dos que já estavam aqui no Acre e foram domesticados 
pela malária e, sobretudo, pelo sistema de exploração vigente nos seringais. 
Os soldados foram incentivados a migrar, com o argumento de que estavam 
servindo a pátria e a humanidade, mas o que encontraram foram condições 
sub-humanas, desde a viagem até quando chegaram ao Acre, como pode-
mos observar a partir do depoimento de Euclides (soldado da borracha), 
publicado no Jornal Varadouro:
Quem se alistava como soldado da borracha estava proibido de 
recuar, de se arrepender e até de ter saudade da família... Os ame-
ricanos precisavam de borracha, muita borracha e os brabos não 
podiam, agora, dar-se ao luxo de sentir fraquezas (VARADOU-
RO, set./1977).
O que permitiu ao seringal sobreviver durante o período de crise foi 
uma certa retração ou independência frente ao mercado internacional, com 
a transformação do seringueiro especializado em camponês florestal, em 
uma economia permeada por regatões, patrões locais enfraquecidos e no-
vos mercados para pele, madeira ou produtos agrícolas. Os seringueiros se 
transformaram em coletores, pescadores, caçadores, produtores de farinha.
Para os seringueiros, a falência da economia extrativa do látex deter-
minou o enfraquecimento da capacidade de ação e dominação dos patrões. 
Com isso, passaram a ter domínio territorial maior de suas colocações em 
decorrência da falência dos patrões. O espaço doméstico, a colocação como 
espaço de conformação de novas relações societárias, ‘sociedade das colo-
cações’, passa a ser o locus da organização social territorial e não mais, o 
barracão (PORTO-GONÇALVES, 1998).
Nesses períodos de crise foi, por conseguinte, sendo gestado o rom-
pimento da relação seringueiro e seringalista nos seus itens clássicos da 
empresa seringalista: endividamento prévio para o seringueiro a partir dos 
gastos com transporte e utensílios destinados a eles quando eram inseridos 


304
na ‘colocação’; a proibição, para os seringueiros, de realizar outras atividades 
produtivas, como ‘botar’ roçados no interior dos seringais, o que se rompe 
no momento em que o sistema de aviamento se enfraquece; quebra do mo-
nopólio comercial exercido pelo barracão e sintetizado no exclusivismo da 
compra de mercadoria pelo seringueiro e na venda da borracha dele só para 
o patrão; pagamento obrigatório da renda pelo uso das estradas de seringa, 
cerca de 10% da sua produção anual de borracha ao patrão seringalista.
No caso da renda pelas estradas de seringa esta só foi extinta comple-
tamente no contexto dos movimentos sociais a partir da década de 1970 
para o Vale do Acre, e, no final da década de 1980, para o Vale do Juruá. O 
rompimento desse item é o marco da caracterização do seringueiro como 
posseiro e/ou como liberto.
As justificativas dadas pelo discurso oficial para que os seringueiros fi-
cassem na floresta, no período de 1921 a 1941, foi pelas “raízes criadas, pela 
‘acreanidade’”. Nesse sentido, a ‘acreanidade’ surge, também, “desse signo 
de resistência, da necessidade de se manter aqui” (Marcus Vinicius Neves, 
entrevista à autora, em abril de 2008). 
Diante do exposto e visto até aqui, algumas considerações são neces-
sárias. Por um lado, queríamos mostrar que o Governo da Floresta, que 
se auto intitula como sendo a continuação dos anseios dos movimentos 
sociais do Acre, “traiu a confiança dos trabalhadores” que acreditaram nas 
mudanças prometidas para os de baixo, para usar a expressão de Osmarino 
Amâncio. Por outro lado, as supostas inversões dos parâmetros de desenvol-
vimento continuam as mesmas: a exploração dos recursos naturais confere 
lucro para quem sempre se beneficiou das políticas públicas estaduais.

1   ...   109   110   111   112   113   114   115   116   ...   136


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal