Acreanidade indb


Figura 12 - Jorge Viana na inauguração do Monumento a Chico Mendes



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Figura 12 - Jorge Viana na inauguração do Monumento a Chico Mendes.
Fonte: Página 20, 23/12/2003.
Com as comemorações cívicas são reforçados os ideais de coragem e 
determinação dos acreanos revolucionários e dos acreanos autonomistas. Já 
com as comemorações em memória a Chico Mendes são “resgatados” os 
ideais da sustentabilidade, segundo o discurso oficial.
5.4  A manipulação da memória 
coletiva: espaços e tempos esquecidos 
na construção da “acreanidade”
Como vimos no primeiro capítulo, com base nas reflexões de Pollak 
(1989, 1992), Halbawachs ([1950] 2006), Santos (2007) e Oliven (2006), o 
enquadramento da memória, que é realizado pelas vozes autorizadas para a 
construção de uma memória oficial, define o “passado a ser recuperado”, o 
passado que deve “ter direito à perpetuidade” (SANTOS, 2007, p. 130) no 
intuito de que este possa contribuir para a coesão social, para a construção 
de um sentimento de pertencimento, de um passado comum a todos, bem 
como invocar tradições como fundamento “natural” da identidade que está 
sendo criada e/ou reafirmada. 


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Nesse sentido, são trazidos para o presente, eventos do passado que 
possam contribuir com sucesso para a construção da identidade. Igualmen-
te, é realizado o trabalho de esquecimento, seja por fatos que causem ver-
gonha, seja porque os “eventos esquecidos” não contribuem positivamen-
te para a identidade em questão, podendo vir à tona em outro momento 
(POLLAK, 1992).
A reconstrução da identidade territorial está cheia de ambiguidades 
e contradições, pois seleciona e elege para si, principalmente no que diz 
respeito à construção da identidade regional, os símbolos do poder consti-
tuído ou aqueles passíveis de também se constituírem como tal. Essa será a 
questão discutida a partir de agora.
No Acre, o Governo da Floresta investiu em uma reconstrução de uma 
memória histórica sacralizada, “fixa na lógica, não, de pessoas comuns”, 
como os índios, os brasileiros do Acre,
(...) os migrantes de outras nacionalidades como os sírios, os liba-
neses, os peruanos e bolivianos que com suas trajetórias marcaram 
a conflituosa existência deste território e sim nos grandes feitos de 
alguns poucos nomes (ALBUQUERQUE, mimeo).
Ao mesmo tempo e com imensa rapidez, reconstruiu muitas obras e 
revitalizou outras, no sentido de dar nova vida a um patrimônio histórico 
já existente no Acre. A obra desse governo se funde com uma noção de es-
tética e cultura presente em outras partes da Amazônia da belle époque, com 
ênfase dada à revitalização e criação de um patrimônio cultural em respeito 
à memória dos grandes proprietários, comerciantes, patrões seringalistas e 
políticos, as classes dominantes do passado. O patrimônio foi reproduzido 
em nome do “resgate da autoestima” da população, atrelada a uma história 
de vencedores, e, aliado a tudo isso, com um amplo auxílio dos meios de 
comunicação.
Os “elementos constitutivos da memória” acreana, enaltecidos pelo 
Governo da Floresta na invenção e reinvenção da “acreanidade”, contam 
a história da elite dominante, personificada em heróis extraordinários, em 
acontecimentos que representam, sempre, os feitos grandiosos, especial-


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mente a “Revolução Acreana” que incorporou o Acre ao Brasil, a “autono-
mia” do Estado a partir da transformação do Acre Território para Estado 
da Federação e a personificação do movimento social dos seringueiros em 
torno de seu mártir, Chico Mendes. 
No Acre, com o Governo da Floresta, o trabalho inicial de enquadra-
mento da memória, foi eleger três eventos históricos. A partir da seleção 
dos três eventos históricos, o passo seguinte foi encontrar um elo para os 
fatos históricos significativos, tendo em vista o discurso oficial. O ‘histo-
riador oficial’ Marcus Vinicius Neves, na entrevista que nos concedeu, nos 
disse textualmente que: “no início do governo do Jorge”, quando começou a 
trabalhar com ele e diretamente com o Toinho (secretário de Cultura), ele 
“conseguiu elaborar uma síntese da história do Acre, demarcando os signos 
da sua história política”, e foi aí, continua Marcus, “onde eu pude dar uma 
singela contribuição a esse processo todo, que foi a ideia de luta”. 
No artigo de sua autoria Uma Breve História da Luta Acreana, publi-
cado na Revista Povos da Floresta, da Secretaria Executiva do Comitê Chico 
Mendes, em dezembro de 2003, Marcus Vinicius Neves qualificou a “ideia 
de luta”, na história acreana. O texto é justificado a partir da seguinte pas-
sagem:
A identidade histórica e cultural do povo acreano tem apenas 100 
anos de reconhecimento. Um século apenas, breve, mais intenso 
o suficiente para forjar um povo consciente e orgulhoso de suas 
raízes. Alguma coisa deve haver de especial nesse lugar que criou 
as condições para que tivéssemos homens como Wilson Pinheiro 
e Chico Mendes (NEVES, 2003, p. 12).
Esse ‘quê’ de especial do qual fala Marcus Vinicius Neves seriam as ‘lu-
tas’ empreendidas pela sociedade acreana ao longo de 100 anos. A primeira 
luta destacada foi a luta contra o meio, luta empreendida pelos nordestinos 
que migraram para as margens de rios que hoje formam o Acre, na qual: “os 
retirantes, que fugiam da seca do sertão, iam pelo caminho sendo assom-
brados pelas histórias de fome, do impaludismo, do beribéri e das feridas 
brabas que nunca saravam”. Além disso, “para os fugitivos da Guerra de 
Canudos, para os tangidos da seca, para os repudiados de toda sorte, não 


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havia outro caminho possível senão a floresta que a todos acolhia e escon-
dia”. Chegando nos seringais ainda enfrentavam o “trabalho imposto ... que 
era sobre-humano”. E conclui que “apesar de tantos obstáculos, reais ou 
imagináveis, há pouco mais de um século o povoamento do Acre se realizou 
e conseguiu fixar uma sociedade que vivia da e na floresta” (NEVES, 2003, 
p. 13).
Outra luta foi a luta contra os outros. No caso, esses ‘outros’ foram os 
bolivianos que reivindicavam do Brasil o reconhecimento do utis possidetis 
jure, ou seja, o respeito aos tratados em vigor, quando surgiram as insurrei-
ções dos brasileiros do Acre. A primeira delas foi logo após a Bolívia esta-
belecer um porto aduaneiro e ter fundado a vila Puerto Alonso nas mar-
gens do Rio Acre. “Logo, alguns brasileiros revoltados contra duas medidas 
alfandegárias dos bolivianos decidiram contestar a administração estran-
geira daquele território povoado por brasileiros”. Depois, veio a República 
de Galvez sintetizada na frase ‘heróica’, “já que nossa pátria não nos quer, 
criamos outra”, seguida pela Expedição dos Poetas “poderosa em ideais e 
frágeis em combate, cujo maior resultado foi ter mantido viva a luta contra 
a dominação boliviana”. Enquanto o governo não reconhecia a questão em 
prol dos brasileiros do Acre, eles “mantinham a resistência armada contra 
os bolivianos”. E iniciaram a “guerra”, 
(...) de um lado o exército regular da Bolívia entrincheirado em 
alguns pontos estratégicos do Rio Acre. De outro um exército de 
seringalistas e seringueiros organizados pelo ex-militar Plácido de 
Castro 
(NEVES, 2003, p. 14-15).
A luta continua, uma guerra é iniciada “conflagrada em Xapuri, em 
agosto de 1902, e só concluída seis meses depois em Puerto Alonso com 
um saldo de quinhentos mortos em uma população de dez mil indivíduos” 
(NEVES, 2003, p. 14-15).
A terceira luta elencada por Marcus Vinicius foi a tensão dos acreanos 
com o Governo Federal, a luta contra a criação e institucionalização do 
Território Federal do Acre, pois os acreanos “que haviam conquistado pelas 
armas o direito de serem brasileiros, ao alcançar a vitória, foram condena-


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dos a serem cidadãos de segunda categoria em seu próprio país”. A partir 
daí começa uma nova etapa de lutas da sociedade acreana, que culminou 
com o Projeto de Lei apresentado pelo então deputado José Guiomard dos 
Santos, em 1957, que fora sancionado em 1962, com a criação do Estado 
do Acre (NEVES, 2003, p. 16).
E a luta mais recente é a luta com os novos, contra a invasão dos ‘pau-
listas’, que se acirra a partir de 1975, “quando as populações tradicionais da 
floresta começaram a se organizar e a desenvolver diferentes estratégias de 
resistência” para permanecer na terra (NEVES, 2003, p. 18-19). 
Com esse artigo, como o próprio Marcus Vinicius Neves nos relatou 
buscava-se “mostrar a recorrência dessa luta de caráter de resistência re-
gional de uma sociedade que busca se afirmar enquanto povo, no mundo, 
em seus diferentes momentos”. Essa síntese, ainda segundo Neves, muito 
contribuiu para o Governo da Floresta, pois estabeleceu um elo condutor 
do processo histórico e, nesse sentido, ele avalia que o governo agiu com 
muita ousadia, no que diz respeito à “retomada de todos esses sentidos e 
esses elos comuns da identidade” que dão coesão de fatos “comuns a todo o 
Acre, como signo de unificação em torno de um objetivo comum” (entrevis-
ta concedida à autora, em abril de 2008).
A narrativa oficial da história do Acre corresponde aos eventos dessa 
síntese histórica: o povoamento dos altos rios por migrantes nordestinos, a 
questão da fronteira com a Bolívia e o Peru, o movimento autonomista em 
prol da criação do Estado do Acre, e o movimento social de índios e serin-
gueiros. Desses eventos, são retirados seus heróis: Plácido de Castro e Luiz 
Galvez da questão fronteiriça do Acre; José Guiomard dos Santos e Hugo 
Carneiro, no que se refere ao rompimento com o ‘atraso’, uma vez que se 
iniciou a construção de um ‘Acre em alvenaria’ (Hugo Carneiro), e a inicia-
tiva de apresentar o Projeto de Lei que elevou o Acre à categoria de Estado 
(José Guiomard dos Santos); e, por último, Chico Mendes, nesse caso com 
objetivo explícito de sensibilizar a opinião internacional e, também, obter 
apoio irrestrito dos próprios seringueiros para a adoção de um projeto de 
desenvolvimento econômico.


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Com relação à questão da fronteira, ela se resume ao período de 1899 a 
1903, período dos conflitos da denominada Revolução Acreana. A conquis-
ta do Acre, nessa perspectiva, é apresentada como um grande feito, pois tem 
um passado glorioso, original. É o único Estado brasileiro que lutou para 
isso, e para fazê-lo foram necessários atos heróicos e patrióticos, de perso-
nagens que “conquistaram de armas nas mãos um território que não lhes 
pertencia” e, com isso, constitui-se no final do século XIX “como uma uni-
dade de território, povo e Estado” (Jorge Viana, Apud LIMA, 2007, p. 42). 
O território do Acre não estava unificado na virada do século XIX e 
nem depois de criada a figura institucional de Território Federal, pois como 
vimos no capítulo 02, vieram do Juruá vários movimentos que defendiam a 
separação do Acre em dois vales.
Nesse período também começam as divergências da elite local entre si 
e com o Governo Federal no que diz respeito ao destino do Acre, a partir 
da criação do Território Federal do Acre, quando se dá o início do incon-
formismo com a situação territorial.
A respeito dessa personificação dos dois heróis anteriormente descri-
tos, as críticas
3
 podem ser sintetizadas na adaptação do poema de Bertold 
Brecht “Perguntas de um Operário que lê”, no qual se questionava a heroi-
cização de alguns nomes. Eis a adaptação:



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