Ações de saúde mental na atenção básica: caminho para ampliação da integralidade da atenção



Baixar 288.12 Kb.
Página8/11
Encontro17.03.2020
Tamanho288.12 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11
Resultados

Este trabalho apontou que os pediatras apresentam baixa sensibilidade para reconhecer problemas de saúde mental em crianças de cinco a onze anos atendidas em uma UBS da cidade de São Paulo. De modo geral, os pediatras têm alta especificidade, isto é, têm boa capacidade para distinguir os verdadeiros negativos. A reduzida capacidade de reconhecimento dos PSM pelos pediatras é semelhante à apontada na literatura, indicando dificuldade destes profissionais nessa área específica, mesmo considerando as diferenças de contexto social.

Para análise da capacidade de detecção dos PSM na atenção básica, foi utilizado o CBCL18 para a identificação de casos com diagnóstico provável de transtorno mental. Os resultados da aplicação deste instrumento foram comparados com as hipóteses diagnósticas de PSM anotadas nos prontuários das crianças. A aplicação deste instrumento indicou que apenas 25,3% das crianças com escore clínico no CBCL e, portanto, com provável PSM, foram detectadas pelos pediatras.

Quanto às hipóteses diagnósticas de PSM realizadas pelos pediatras, foi possível verificar que aquelas relacionadas à área dos transtornos específicos do desenvolvimento (linguagem, por exemplo) ou à área somática (enurese, bruxismo) são as hipóteses diagnósticas mais freqüentes. Por outro lado, hipóteses diagnósticas de transtornos ansiosos ou depressivos, que na literatura internacional correspondem a uma prevalência média, nesta faixa etária, de aproximadamente 10,0%19, não foram feitas pelos médicos. Outro achado interessante foi que, em muitos casos, o pediatra identifica que algo não vai bem com a criança e aponta como hipótese diagnóstica apenas um aspecto do quadro clínico, isto é, acaba explicitando o diagnóstico, por exemplo, de enurese para uma criança com quadro clínico de ansiedade.

Quanto à preocupação dos pais em relação aos PSM dos filhos, foi encontrada associação positiva significativa entre escore clínico do CBCL e preocupação dos pais, indicando boa sensibilidade dos pais em relação à presença de sintomas de PSM nos filhos. Por outro lado, a presença de preocupação dos pais não aumenta a capacidade de diagnóstico de PSM pelos pediatras, o que aponta para problemas na abordagem de questões do campo da saúde mental durante o atendimento pediátrico. O processo da consulta médica, centrado em queixas a serem confirmadas pelo exame físico e/ou exames laboratoriais, acaba levando a uma desvalorização das queixas psicossociais que, apesar de verbalizadas no início da consulta, perdem sua potência e acabam ficando sem encaminhamentos adequados.

Quanto à conduta mais freqüente do pediatra anotada nos prontuários frente aos problemas detectados, foram identificados orientação (23,6%) e encaminhamento para serviço de saúde mental e fonoaudiologia (15,3%). Apenas 1,7% do total das crianças com hipótese diagnóstica de transtorno mental recebia ou estava para receber assistência especializada em saúde mental. Também vale ressaltar que, dentre as 72 crianças com hipótese diagnóstica de PSM feita pelo pediatra, 21 (29,2%) ficaram sem nenhum tipo de conduta registrada no prontuário, o que poderia estar indicando deficiência na formação profissional ou carências do próprio serviço.

A análise do material coletado a partir das entrevistas com os médicos pediatras que prestam assistência na UBS permitiu algumas considerações que possibilitam ampliar o entendimento da questão e apontou direções a serem seguidas em busca de uma assistência à saúde mental na atenção básica com maior qualidade.



No eixo temático sobre concepção dos PSM (Quadro 2), foi claramente reconhecido o referencial teórico ampliado característico da pediatria, que inclui expressões como assistência integral, biopsicossocial e psicoprofilaxia. Também foi possível identificar um enfoque descritivo, que se aproxima das atuais formas de classificação dos transtornos mentais. Uma idéia marcante nas falas foi a concepção que implica o meio ambiente nas origens dos PSM das crianças, praticamente isentando-as, seja biológica ou psicologicamente, como co-participantes da gênese destas dificuldades.

 

 

No eixo temático sobre reconhecimento dos PSM (Quadro 3), aparece uma ampla gama de imagens. Não há clareza da magnitude dos PSM; porém, entendendo que quando o problema é grave ele "chega aos olhos da gente". Um importante núcleo de idéias relaciona-se com a incapacidade do profissional de acolher as questões de saúde mental, apesar das concepções ampliadas do atendimento em pediatria verbalizadas anteriormente. Os próprios médicos elencam as possíveis causas destas dificuldades, que passam pela linguagem hermética do campo da saúde mental (em especial a psicanálise), pelas características de personalidade do próprio profissional e, principalmente, por falhas na formação profissional. As deficiências estão presentes desde a formação básica (faculdade de medicina), em que os aspectos psicológicos e emocionais da prática médica são relegados a um segundo plano. Por outro lado, as tecnologias de intervenção frente aos problemas detectados privilegiam medicamentos e intervenções "armadas", e valorizam pouco outros tipos de abordagens.



 

 

No eixo temático sobre ação dos pediatras frente aos PSM (Quadro 4), foi identificada uma dicotomia: o que é possível fazer e o que não é possível fazer na atenção básica. Os pediatras reconheceram que não dominam a área de saúde mental nem seus problemas e instrumental de intervenção com a mesma profundidade que outras especialidades da medicina. A dificuldade de se deparar com um problema que não sabem abordar ou não têm instrumentos claros de intervenção para lançar mão faz com que se mantenham longe destas questões, desvalorizando-as na prática clínica diária. O desconhecimento de tecnologia apropriada imobiliza os pediatras, fazendo-os minimizar as queixas explícitas e não inquirir, durante a consulta, sobre questões de saúde mental.



 

 

Dentre as possibilidades de atuar dos pediatras foram encontrados aspectos contraditórios. Em muitas falas foram descritas situações de intervenções concretas que não são valorizadas pelos pediatras. Estas atuações são remetidas ao senso comum, ao bom senso de cada um, deixando de serem vistas como procedimentos científicos, tecnologias de intervenção respaldadas pelo "saber oficial". Intervenções do tipo: "ouvir mais", "marcar consultas mais freqüentes", "dar mais atenção", "conversar com a criança", "tentar conter", por não fazerem parte do arsenal terapêutico clássico dos pediatras, não são entendidos como científicos. Desta forma, eles acabam verbalizando que "criança é uma coisa ótima, acaba resolvendo sozinha", ou mesmo "quando a gente entra neste campo parece que a gente não é mais médico".



A organização do processo de trabalho dos médicos também foi apontada como obstáculo para a detecção destes problemas. Duas foram as principais justificativas levantadas: o curto tempo das consultas e a falta de profissionais especializados (ou equipes multiprofissionais) que pudessem servir de retaguarda no caso de dificuldades durante o atendimento. O encaminhamento para serviços especializados também é visto como algo problemático, difícil, com baixo retorno e não confiável.

Os resultados encontrados nesta pesquisa apontam que o planejamento das ações destinadas à melhoria da qualidade da assistência à saúde mental da infância na atenção básica deve incluir mudanças na formação profissional do médico, tanto na graduação como nos diversos tipos de pós-graduação (residência médica e especializações), que permitam otimizar sua capacidade de fazer diagnósticos precoces, realizar intervenções pertinentes à atenção básica e encaminhamentos oportunos e com co-responsabilização.

Há também a necessidade de investir no aperfeiçoamento da organização do trabalho, tanto na unidade como na articulação entre as várias instâncias do sistema de saúde, visando a uma atenção em rede.

Da análise do estudo acima e a partir da realidade concreta dos serviços do SUS, é possível inferir pelo menos duas linhas principais de ações:

. Implantação efetiva de oferta concreta de serviços de apoio em saúde mental e sua articulação em rede. Fica claro na fala dos médicos que a falta de rede de suporte é componente importante, pois quando o profissional identifica questões de saúde mental muitas vezes não sabe o que fazer e para onde encaminhar;

. Capacitação dos profissionais da rede básica de saúde. O referido estudo mostrou que as atividades de educação permanente devem enfatizar, para além de questões conceituais, formas práticas de intervenção, pois os pediatras já têm, em grande parte, conceitos ampliados de saúde que envolvem aspectos psíquicos e sociais. A dificuldade principal é transformar em prática esta conceituação, tendo em vista a sua formação essencialmente biomédica.

 




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal