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                                      80

ABB review 2|14




                                      

81

60 anos de HVDC



AnDreAs Moglestue – 

um olhar retrospectivo sobre a disputa entre a Corrente 

Contínua de edison e a Corrente Alternada de tesla, na chamada “guerra das 

Correntes” da década de 1880, poderia levar-nos a assumir sumariamente que 

a questão tinha ficado resolvida de uma vez por todas, e a favor da corrente 

alternada. Mas no decurso dos últimos 60 anos a corrente contínua – a níveis 

de tensão muito mais elevados do que Edison alguma vez imaginaria – tem 

estado a regressar em força. A Corrente Contínua em Alta Tensão (HVDC, High 

Voltage Direct Current) é agora uma parte indispensável das redes de transporte 

de energia eléctrica por todo o mundo e encontra-se em expansão para outros 

mercados. A história da ABB está intimamente ligada com a história do trans-

porte em HVDC. As empresas predecessoras da ABB foram pioneiras desta 

tecnologia e a ABB é hoje não só um firme líder de mercado, mas também 

a única empresa com capacidade de fornecimento da gama completa de compo-

nentes HVDC, incluindo quer serviços globais de engenharia, quer equipamentos 

tais como transformadores, estações conversoras, semicondutores, cabos 

e sistemas de controlo.

O percurso da ABB de pioneiro 

até líder de mercado

60 anos 


de HVDC

Foto de rosto

Os primeiros tirístores para HVDC a nível mundial 

(em primeiro plano), ligados em série com o 

conversor original (em segundo plano) na estação 

conversora de Gotland (c. 1970)




                                      82

ABB review 2|14

manha, em 1882. Sintomaticamente com 

o  definhamento  da  corrente  contínua,  a 

linha do Oregon teve uma vida curta: foi 

fortemente danificada por uma inundação 

em 1890 e posteriormente reconstruída 

como uma instalação CA pelo concorrente 

de Edison, a Westinghouse.

Mas a história do transporte em CC não 

terminou com aquela inundação. Ainda 

mesmo em 2006 existiam cerca de 60 cli-

entes ligados ao fornecimento em CC de 

Edison na cidade de Nova Iorque, o qual 

seria  finalmente  desactivado  no  ano  se-

guinte. Mais é significativo que, já durante 

a vida do inventor, 

a utilização de CC 

estivesse em ex-

pansão em secto-

res tais como o 

transporte fer-

roviário,  a  fundição 

de alumínio e as 

telecomunicações, 

sectores nos quais 

ainda mantém presentemente grande rele-

vância. Novas aplicações entretanto adi-

cionadas incluem o processamento de 

dados e a energia fotovoltaica. Contudo, 

em termos de transporte e distribuição, a 

superioridade da corrente alternada pare-

cia inabalável. Mas seria mesmo assim?

Inconvenientes da Corrente Alternada

Apesar da rápida adopção de CA trifásica 

para o transporte e distribuição, as linhas 

de CA de grande comprimento sofrem de 

vários  inconvenientes.  Um  dos  mais  im-

portantes provém do fenómeno da energia 

cada bairro, dado a distância limite para o 

transporte de 110 V CC ser de cerca de 

1,6 km. Embora tais centrais fossem dar 

origem a um problema grave de poluição 

urbana, em particular dada a tecnologia 

de geração eléctrica da altura, e apesar 

também de a própria sugestão nos pare-

cer  hoje  risível  quando  vista  através  da 

perspectiva da História, a ideia de Edison 

recolhe presentemente alguma vindicação 

através do conceito de microgeração – se-

gundo o qual os clientes de uma rede 

eléctrica  podem  nela  injectar  energia 

(p.ex., solar) que eles próprios geram.

A segunda frente do contra-ataque de 

Edison consistiu numa tentativa de desen-

volvimento de um sistema próprio de 

transporte de energia eléctrica a tensões 

mais elevadas (aparentemente em con-

tradição com o seu activismo anti-alta-

-tensão). Em 1889, Edison construiu uma 

linha entre Williamette Falls e Portland, no 

Oregon, com uma extensão de 22 km e 

transportando cerca de 130 kW a 4 kV 

CC. Esta tensão era obtida através da liga-

ção em série de geradores CC, um 

princípio primeiramento demonstrado 

numa exposição em Munique, na Ale-

transporte de energia eléctrica 



a longas distâncias requer  

elevados níveis de tensão. 

Dado as perdas resistivas se-

rem proporcionais ao quadrado da cor-

rente e a potência ser proporcional ao 

produto entre a tensão e a corrente, uma 

duplicação da tensão diminui para metade 

a  corrente  necessária  para  uma  dada 

potência transportada, reduzindo-se as-

sim as perdas resistivas para um quarto. A 

forma mais simples de conseguir níveis  

elevados de tensão é por meio de trans-

formadores. Mas, infelizmente para a 

facção da corrente contínua (CC) durante 

a Guerra das Correntes, o princípio da 

transformação só se aplica à corrente al-

ternada (CA). O principal proponente da 

CC, Thomas Edison, não era contudo uma 

pessoa de desistência fácil. Em vez de as-

sumir a derrota perante este simples facto 

da Física, recorreu a um contra-ataque 

com duas frentes. Por um lado, chamou a 

atenção para os riscos para a segurança 

provindos das tensões mais elevadas, 

recorrendo por vezes a métodos horríficos 

para estimular a desconfiança do público 

(chegou a electrocutar um elefante, e tam-

bém esteve envolvido na criação da pri-

meira cadeira eléctrica). Como alternativa 

à transmissão em alta tensão, Edison pro-

moveu a ideia da geração local de energia. 

Na altura isto implicava praticamente a 

construção de uma central eléctrica em 

Já durante a vida de Edison  

a corrente contínua se encon-

trava em expansão em muitos 

sectores.

1   A potência reactiva limita a distância sobre a qual a transmissão em AC é viável

Capacidade de transporte (MW)

0

1,000



2,000

3,000


4,000

800 kV


500 kV

HVDC


HVAC

765 kV


500 kV

5,000


Comprimento da linha (km)

0

200



400

600


800

1,000



                                      

83

FACTS (Flexible Alternating Current Trans-



mission Systems), que efectuam a com-

pensação da potência reactiva. Contudo, 

o transporte em CC elimina completa-

mente o problema, visto os campos eléc-

trico e magnético na linha serem constan-

tes  e  assim  só  ser  necessário 

estabelecê-los no arranque do sistema.

Válvulas de vapor de mercúrio

As tentativas iniciais de transporte em cor-

rente contínua a tensões mais elevadas 

suportavam-se na ligação em série de 

geradores ou em grupos motor-gerador.1 

Estes sistemas eram assim limitados por 

restrições mecânicas e não conseguiam 

competir economicamente com a corrente 

alternada.

O interesse na conversão CC ressurgiu 

com o aparecimento em cena de uma 

nova  tecnologia:  a  válvula  de  vapor  de 

mercúrio.2 Esta válvula é formada por uma 

ampola hermética contendo vapor de mer-

cúrio, vários ânodos metálicos (frequente-

mente  de  aço)  e  um  cátodo  de  mercúrio 

-2

. Após o estabelecimento de um arco 



eléctrico entre ânodo e cátodo, a corrente 

que flui através do arco gera calor e ioniza 

o vapor de mercúrio. Na interface entre o 

arco e o mercúrio, o bombardeamento por 

iões leva à libertação de electrões. O âno-

do de aço consegue absorver os elec-

trões, mas às temperaturas de operação 

não  os  liberta  em  quantidades  significati-

vas.  A  corrente  pode  assim  fluir  do  aço 

para  o  mercúrio  mas  não  no  sentido  in-

verso. A válvula de vapor de mercúrio exi-

be funcionalidade diódica, tornando-se 

60 anos de HVDC

reactiva. A energia reactiva consiste no 

fluxo  de  energia  que  continuadamente 

carrega e descarrega os campos eléctrico 

e magnético da linha, em sincronismo com 

as oscilações periódicas da tensão e da 

corrente, respectivamente. Embora não 

representando directamente um desperdí-

cio, dado a energia ser transferida periodi-

camente entre os campos eléctrico e 

magnético, a corrente e tensão adicionais 

na linha reduzem a sua capacidade 

económica útil. Quando o comprimento da 

linha aumenta, aumentam também a sua 

capacidade e indutância, e portanto a 

potência reactiva, até se atingir um ponto 

no qual o transporte comercial de energia 

deixa de ser viável. É irónico que as leis da 

Física que permitem o fenómeno da trans-

formação de tensão e corrente, assim 

possibilitando o transporte de CA em alta 

tensão,  sejam  as  mesmas  que  limitam  a 

sua distância de utilização 

-1

.



 

Existem soluções para o desafio da potên-

cia reactiva – por exemplo, os dispositivos 

Quando o compri-

mento da linha au-

menta, aumentam 

também a sua ca-

pacidade e in-

dutância, e portan-

to a potência 

reactiva, até se 

atingir um ponto 

no qual o trans-

porte comercial de 

energia deixa de 

ser viável.

3  Uno Lamm, “o pai da HVDC”, na sala de controlo da instalação HVDC de Gotland

notas


1  Um motor-gerador é um par formado por um 

motor e um gerador partilhando o mesmo veio. 

Um agregado de motores-geradores pode ser 

utilizado para aumentar a tensão CC através da 

ligação dos motores em paralelo e dos 

geradores em série.

2  As válvulas de vapor de mercúrio e o papel da 

ABB no seu desenvolvimento são discutidos em 

maior detalhe em “From mercury arc to hybrid 

breaker”, ABB Review 2/2013, pp. 70–78.

3  Contudo, a Brown Boveri & Cie. demonstrou 

temporariamente em 1939 o transporte em CC 

de 500 kW ao longo dos 25 km entre Wettingen 

e Zurique, na Suíça.

2  Válvula de vapor de mercúrio 

Vapor de 

mercúrio

Cátodo 


(mercúrio)

Arco


Ânodo 

(aço)



                                      84

ABB review 2|14

assim apropriada para a conversão de AC 

para CC (rectificação).

Mas as válvulas de vapor de mercúrio po-

dem também realizar a conversão inversa, 

de CC para CA. O estabelecimento artifi-

cial do arco, p.ex., utilizando um inductor 

para aplicar um pico de tensão a um eléc-

trodo auxiliar, permite o início da condução 

num ponto arbitrário do ciclo.

As válvulas de vapor de mercúrio, pela sua 

capacidade de realização de ambas as 

conversões, permitiram a utilização de 

transformadores, combinando assim as 

vantagens de transformação da CA com 

as vantagens de transporte da CC.

A  válvula  de  vapor  de  mercúrio  foi  de-

monstrada pela primeira vez em 1902 pelo 

inventor americano Peter Cooper Hewitt. 

A Brown Boveri & Cie., uma das empresas 

predecessoras da ABB, foi líder no seu de-

senvolvimento e inicializou a sua comer-

cialização em 1913. As primeiras instala-

ções não tinham contudo como objectivo 

o transporte de energia em CC, sendo 

antes  utilizadas  para  rectificação  de  ten-

sões mais baixas (até cerca de 2,5 kV) 

para utilizações industriais e em transpor-

tes.


Um  dos  problemas  encontrados  com  o 

aumento dos níveis de tensão foi o arco de 

retorno. Um arco de retorno ocorre quan-

do  uma  tensão  inversa  numa  válvula  não 

ionizada origina um arco não desejado (no 

sentido do cátodo para o ânodo), causan-

do não só uma anomalia na operação do 

circuito mas também possíveis danos per-

manentes na válvula. Foi a Allmänna Sven-

ska Elektriska Aktiebolaget (ASEA), a outra 

predecessora da ABB, que iria fornecer o 

próximo avanço tecnológico. Em 1929, 

Uno Lamm 

-3

 obteve uma patente para o 



controlo do arco de retorno através da uti-

lização de um eléctrodo de repartição de 

potencial. Este é um eléctrodo intermédio 

ligado a um divisor de tensão que impede 

a formação de um arco directamente do 

ânodo para o cátodo. Por este trabalho e 

pelas  suas  consequências,  Lamm  é  fre-

quentemente designado “o pai da HVDC”.

Apesar desta patente, foi longo o caminho 

necessário entre a ideia básica e uma im-

plementação  fiável.  Devido  ao  comporta-

mento muitas vezes pouco previsível dos 

arcos, o desenvolvimento destas válvulas 

rectificadoras  era  em  grande  parte  um 

processo de investigação empírica. Para 

não desestabilizar a rede eléctrica na ci-

dade  de  Ludvika,  onde  se  localizava  o 

laboratório de desenvolvimento, os en-

saios a potências elevadas tinham por 

vezes de ser realizados a altas horas da 

noite. 

O supervisor sueco do sector energético 

(SSPB,  hoje  Vattenfall)  seguia  com  inte-

5  As três válvulas de um conversor do

sistema Gotland (na foto, a esposa de Lamm) 

A linha de Gotland 

originou vários no-

vos desafios para a 

ASEA, um dos 

principais dos 

quais a travessia 

marítima.

4  Diagrama da ligação Gotland, mostrando a ligação série de conversores em ambas as 

estações


The synchronous condenser (28) was to control reactive power and assure local commutation  

on the Gotland side (the link replaced a local power plant; there was thus no local commutation).

ASEA Journal, 1954, p. 142



                                      

85

gotland



Em 1950, o parlamento sueco aprovou a 

construção de uma linha HVDC entre a ilha 

de Gotland e o território continental sueco 

- 4-5


. Esta linha originou vários novos de-

safios para a ASEA, um dos principais dos 

quais a travessia marítima. Foi seguida 

uma solução de ligação submarina, para a 

qual foi desenvolvido um cabo.

Em 7 de Março de 1954, a linha de 200 A 

foi energizada a 50 kV. Este valor foi dupli-

cado para 100 kV em 26 de Julho, quando 

foi adicionado em série um segundo par 

de conversores. Tinha começado a era da 

HVDC comercial.

O ASEA Journal assinalou o acontecimen-

to com um artigo escrito pelo próprio 

resse o progresso da ASEA. No princípio 

da década de 1940, a tecnologia já se en-

contrava  suficientemente  madura  para 

permitir a construção de uma estação 

conversora experimental. A localidade es-

colhida foi Trollhättan, dada a sua proximi-

dade a uma central geradora. A con-

strução começou em 1943, iniciando-se a 

operação em 1945. Foi construída uma 

linha de 50 km de extensão, operando a 

90 kV e transportando 6,5 MW, interligan-

do esta localidade a Mellerud, localidade 

onde foi construída uma segunda estação 

conversora. Esta linha foi construída ex-

clusivamente  para  fins  de  ensaios,  tendo 

continuado a desempenhar esse papel até 

à sua desactivação no final da década de 

1960.

60 anos de HVDC



6  Primeira página do artigo de lamm aparecido no AseA Journal  de 1954, onde era 

apresentado o sistema de gotland

Os laboratórios da 

ASEA iniciaram o 

desenvolvimento 

de tirístores em 

meados da década 

de 1960.



Como alternativa à 

transmissão em 

alta tensão, Edison 

promoveu a ideia 

da geração local 

de energia. 

                                      86

ABB review 2|14

7  Uma selecção dos numerosos projectos HVDC entregues pela ABB. A empresa forneceu 

mais de metade dos 170 projectos existentes a nível mundial.

Ano

Projecto


Conversores

Distância 

(km)

Potência  



(MW)

tensão  


(kV)

1946


Trollhättan - Mellerud (test line)

Válvulas de vapor de 

mercúrio

50

6,5



45

1954


Gotland 1

98

20



100

1961


English Channel

64

160



100

1970


Pacific Intertie

1300


1,440

500


1979

Cahora Bassa

Silício

1420


1,920

533


1983

Gotland 2

99

130


150

1987


Itaipu

780


6,300

600


2004

Three Gorges – Guangdong 

940

3,000


500

2007


Three Gorges to Shanghai

1060


3,000

500


2008

NorNed


580

700


450

2010


Xiangjiaba – Shanghai 

1980


6,400

800


2013

Rio Madeira

2375

7,100


600

Tensão (kv)

0

200


400

600


800

1940


1950

1960


1970

1980


1990

2000


2010

2020


Ano

Distância (km)

0

500


1,000

1,500


2,000

2,500


1940

1950


1960

1970


1980

1990


2000

2010


2020

Potência (MW)

0

2,000


4,000

6,000


8,000

1940


1950

1960


1970

1980


1990

2000


2010

2020


Ano

Ano



                                      

87

Lamm 



-6

. Inicia-se com as seguintes pala-

vras:

“A realização do transporte em corrente 



contínua a alta tensão entre o território 

continental sueco e a ilha de Gotland é o 

culminar de um extenso trabalho de de-

senvolvimento  realizado  na  Suécia,  cujas 

origens remontam longe no tempo.”

 

“As válvulas conversoras, o elemento mais 



crítico de uma instalação CC, constituíram 

desde sempre o ponto focal deste traba-

lho  de  desenvolvimento.  O  conjunto  de 

todo o trabalho, contudo, cobriu muitas 

outras  áreas,  tais  como  as  técnicas  de 

conversão em geral, os problemas do re-

torno de terra, a construção e assenta-

mento do cabo, a interferência com circui-

tos de telecomunicações, os fenómenos 

de efeito de coroa em linhas aéreas, o 

comportamento em CC de isoladores sus-

pensos, etc.”

O  último  parágrafo  teria  cabimento  em 

qualquer publicação sobre HVDC dos últi-

mos 60 anos. Os princípios básicos esta-

belecidos para Gotland continuam válidos 

ainda  hoje,  tendo  a  ASEA  (e  posterior-

mente a ABB) continuado a construir ex-

periência em todas as áreas mencionadas. 

De facto, a ABB é a única empresa a nível 

mundial com capacidade para forneci-

mento próprio de todos os componentes 

de um sistema HVDC, desde transforma-

dores e estações conversoras e suas 

componentes até cabos, sistemas de con-

trolo e, mais recentemente, disjuntores.

O  segundo  projecto  comercial  HVDC  da 

ASEA foi uma linha de 160 MW entre In-

glaterra e França inaugurada em 1961. 

Seguiram-se  outros  projectos  durante  a 

década de 1960 em locais como a Escan-

dinávia,  Itália,  Japão,  Canadá  e  Nova 

Zelândia, alguns dos quais envolvendo de 

novo travessias submarinas. O culminar 

do  desenvolvimento  de  projectos  HVDC 

baseados  em  válvulas  de  vapor  de  mer-

cúrio  foi  o  Pacific  Intertie,  nos  EUA,  uma 

linha com 1300 km de extensão entre Ce-

lio (Oregon) e Sylmar (sul da Califórnia), 

construída conjuntamente com a General 

Electric e inaugurada em 1970, operando 

a 500 kV e transportando 1440 MW (au-

mentada para 1600 MW em 1982).

Até 1971, data em que a ASEA cessou o 

desenvolvimento de válvulas de vapor de 

mercúrio,  as  linhas  HVDC  em  que  essas 

válvulas foram aplicadas totalizavam uma 

potência transportada de 3400 MW 

-7



tirístores



No início dos anos 1960 entrou em cena 

um novo tipo de rectificador que pôs ter-

mo à utilização da tecnologia de vapor de 

mercúrio 

-8

.

O princípio do tirístor foi proposto por Wil-



liam Shockley em 1950. Um tirístor é um-

60 anos de HVDC

HVDC Light utiliza 

conversores por 

fontes de tensão 

(VSC) com transís-

tores bipolares 

com porta isolada 

(IGBT), uma tecno-

logia derivada da 

utilizada em accio-

namentos industri-

ais.

8  um dos primeiros conversores baseados em tirístores da AseA



notas

4  A ligação Gotland 1 manteve-se em serviço até 

1986. Presentemente a ilha é alimentada por 

duas ligações HVDC, Gotland 2 e 3, entradas 

em serviço em 1983 e 1987, respectivamente, 

com uma capacidade total de 260 MW.




                                      88

ABB review 2|14

sem necessidade de esperar por um zero 

da corrente. Este foi uma dos avanços 

mais marcantes na conversão desde 

1954, permitindo uma melhoria na contro-

labilidade e na redução da potência reac-

tiva. Esta tecnologia foi utilizada pela pri-

meira vez na interconexão de 1999 entre o 

Brasil  e  a  Argentina  (projecto  Garabi), 

transportando uma potência de 2200 MW.

A ABB continuou a elevar os níveis de ten-

são e corrente. Em 2004 foi inaugurada a 

linha HVDC Três Gargantas – Guangdong 

(China), transportando 3000 MW a ± 500 

kV através de uma distância de 940 km 

-9



Em 2007, uma linha de 1060 km com as 



mesmas estipulações interligou as Três 

Gargantas a Xangai. O ano de 2010 viu a 

entrada em serviço da linha UHVDC (cor-

rente contínua a ultra-alta tensão) entre 

Xiangjiaba e Xangai (China), a uma tensão 

de ± 800 kV, 6400 MW de potência e com 

1980 km de comprimento. Em 2013, o 

sistema Rio Madeira (Brasil) iniciou o trans-

porte de 7100 MW a uma distância de 

2375 km.


Mas HVDC não é apenas o transporte de 

potências cada vez mais elevadas a dis-

tâncias cada vez maiores. Seguindo na 

tradição da linha de Gotland, os sistemas 

HVDC são também altamente adequados 

para interligações submarinas, dado a  

elevada capacidade dos cabos blindados 

utilizados tornarem o transporte em HVDC 

vantajoso  sobre  HVAC  para  distâncias  a 

partir de algumas dezenas de quilómetros 

-10

. Por exemplo, em 2008 o sistema 



NorNed, com 580 km, interligou a Norue-

ga e os Países Baixos.

9  A estação de Jingzhou da ligação Três Gargantas – Guangdong

dispositivo semicondutor com três termi-

nais (ânodo, cátodo e porta). Tal como um 

díodo semicondutor, conduz corrente ape-

nas num sentido, quando accionado por 

uma tensão directa; uma tensão inversa 

esvazia a área da junção de portadores de 

carga livres e portanto impede a con-

dução. O tirístor tem camadas adicionais 

entre as zonas n e p que normalmente 

também impedem a condução, mas a 

aplicação de uma tensão de disparo na 

porta do dispositivo inunda esta área com 

portadores de carga, permitindo a con-

dução. Uma vez esta iniciada, a produção 

de portadores de carga torna-se auto-

sustentável e a corrente de porta pode ser 

retirada. A condução só se interrompe de-

pois de a corrente principal descer abaixo 

de um valor de limiar. A sua funcionalidade 

global  é  pois  a  traços  largos  comparável 

com  a  de  uma  válvula  de  vapor  de  mer-

cúrio com eléctrodo de disparo, mas com 

as vantagens de ser muito mais compac-

to, apresentar menores perdas, eliminar o 

risco associado à utilização do mercúrio e 

ser apropriado para a ligação em série de 

vários  dispositivos  de  forma  a  criar  recti-

ficadores para tensões mais elevadas.

A ASEA iniciou o desenvolvimento de tirís-

tores em meados da década de 1960. Em 

1967 foi agregada à linha de Gotland uma 

estação conversora experimental. Em 

1970, foram adicionados conversores a 

tirístor em série com as unidades de vapor 

de mercúrio já existentes 

-Figura de ros-

to

, aumentando a tensão de operação 



para 150 kV (contudo sem necessidade 

de substituição do cabo original, capaz de 

suportar a tensão mais elevada). 4

Os projectos HVDC desenvolvidos durante 

a década de 1970 incluem as ligações 

Noruega – Dinamarca (através do Skager-

ak) e Inga – Shaba (Congo), bem como os 

projectos  CU  no  North  Dakota  (EUA)  e 

Nelson River 2 (Canadá).

Durante  a  era  do  vapor  de  mercúrio  a 

ASEA  era  praticamente  a  única  empresa 

no mercado de HVDC, mas a inovação 

disruptiva trazida pela muito maior simpli-

cidade dos tirístores permitiu o apareci-

mento  de  um  grande  número  de  novos 

competidores. A Brown Boveri & Cie., por 

exemplo, associou-se à Siemens e à AEG 

para o fornecimento da ligação de Cahora 

Bassa entre Moçambique e a África do 

Sul, em meados dos anos 1970. A ASEA 

respondeu a esta nova competição com 

investimento em investigação que lhe per-

mitisse estabelecer a liderança em tirís-

tores HVDC.

Um projecto marcante dos anos 1980 foi a 

linha de 6300 MW do Itaipu (Brasil), adjudi-

cada a um consórcio formado pela ASEA 

e PROMO e entrada em serviço por fases 

entre 1984 e 1987. O projecto Quebeque 

– Nova Inglaterra, de 2000 MW e com en-

trada serviço pela mesma altura, foi a pri-

meira instalação HVDC multiterminal a 

nível mundial.

Em 1988, a ASEA e a Brown Boveri & Cie. 

fundiram-se para formar a ABB. Em 1995 

a ABB lançou uma nova geração de esta-

ções conversoras, tendo como caracte-

rística-chave a utilização de conversores 

de condensadores comutados (CCC) que 

permitiam o corte controlado da condução 

Já em 1992 a ABB 

propôs uma rede 

HVDC sobreposta 

à rede existente 

com a finalidade 

de a aliviar do 

transporte de 

fluxos energéticos 

de grande volume 

a longas distân-

cias.



                                      

89

sido construídas principalmente próximo 



dos  centros  de  consumo,  mas  o  rápido 

aumento da quota de mercado das ener-

gias renováveis implica que cada vez mais 

energia venha de regiões remotas. Esta 

energia terá de ser transportada a grandes 

distâncias, muitas vezes através de áreas 

onde a rede tradicional é fraca e não adap-

tada  ao  suporte  da  carga  extra.  Já  em 

1992,  Gunnar  Asplund,  da  ABB,  propôs 

uma rede HVDC sobreposta à rede exis-

tente com a finalidade de a aliviar do trans-

porte de fluxos energéticos de grande vo-

lume a longas distâncias.

Mas a construção de uma rede de cor-

rente contínua não é tão simples como 

possa parecer, sendo um dos obstáculos 

técnicos principais a inexistência de um 

disjuntor apropriado. Em redes CA, os dis-

juntores são utilizados para isolar de forma 

rápida e segura uma secção da rede, por 

exemplo para evitar que uma perturbação 

nela ocorrida afecte a parte restante. 

Quando  um  disjuntor  CA  abre,  forma-se 

entre os contactos um arco que continua a 

conduzir corrente até à próxima passagem 

por zero da corrente. Não existindo em CC 

tais passagens por zero, é necessária uma 

nova  abordagem,  e  essa  falta  vinha  há 

muito impedindo o desenvolvimento de to-

pologias HVDC mais complexas. A ABB 

resolveu  finalmente  este  problema  em 

2012. O disjuntor híbrido utiliza uma com-

binação de semicondutores e interrup-

tores mecânicos para cortar o fluxo CC de 

uma forma atempada e segura.5

sistemas mais leves

Numa escala mais reduzida, HVDC pode 

também ser utilizada para interligação  

energética com instalações offshore tais 

como parques eólicos ou plataformas de 

petróleo ou gás 

-11


. Para as gamas mais 

baixas de potência a ABB introduziu na 

década de 1990 o sistema HVDC Light®. 

Em lugar do uso de tirístores, HVDC Light 

utiliza conversores por fontes de tensão 

(VSC, Voltage Source Converters) com 

transístores bipolares de porta isolada 

(IGBT, Insulated Gate Bipolar Transistor), 

uma tecnologia derivada da utilizada em 

accionamentos  industriais.  HVDC  Light 

apresenta as vantagens de melhor contro-

labilidade, capacidade de controlo da 

potência reactiva e possibilidade de ar-

ranque sem alimentação externa, poden-

do assim ser ligado a redes autónomas 

sem comutação local e além disso tam-

bém ser utilizado para estabilizar redes CA 

pré-existentes. A concepção compacta do 

sistema HVDC Light permite que as esta-

ções conversoras sejam contentorizadas e 

entregues no local de instalação como 

uma peça única de equipamento, simplifi-

cando os ensaios e a entrada em serviço.

A rede HVDC

Muitos  novos  desafios  se  apresentam  às 

redes de energia eléctrica do futuro, um 

dos principais sendo a transformação ra-

dical do panorama da geração eléctrica. 

As centrais geradoras tradicionais têm 

60 anos de HVDC

Andreas Moglestue

ABB Review

Zurique, Suíça

comunicacao-corporativa@pt.abb.com

leitura adicional

U. Lamm, The First High Voltage D.C. Transmission 

with Static Convertors: Some Notes on the 

Development, ASEA Journal 1954, pp. 139–140.

I. Lidén, E. Uhlmann, S. Svidén, The Gotland D.C. 

Link: The Layout of the Plant, ASEA Journal 1954, 

pp. 141–154.

R. Wetzel, Die Geschichte des Quecksilberdampf-

gleichrichters bei BBC Deutschland 1913–1963, 

PhD thesis University of Stuttgart, 2001.

G. Asplund, L. Carlsson, O. Tollerz, 50 years HVDC 

– from pioneer to world leader, Parts 1 and 2, ABB 

Review 4/2003, pp. 6–13.

L. Haglöf, P. Danfors, HVDC Veterans Presentation, 

Visby Gotland, 2004.

H. R. Zeller, The winning chips: History of power 

semiconductors at ABB, ABB Review 3/2008, pp. 

72–78.


G. Asplund, L. Carlsson, HVDC: ABB – from 

pioneer to world leader, ABB Review 4/2008, pp. 

59–64.

11  Elevando um módulo offshore HVDC Light para colocação em plataforma petrolífera no 



Mar do norte

10  Cabo da ligação HVDC Fenno – Scan, 

completado em 1989 entre a suécia e a 

Finlândia, a ser carregado para um navio. 

notas

5  Ver também “Breakthrough!: ABB’s hybrid HVDC 



breaker, an innovation breakthrough enabling 

reliable HVDC grids”, ABB Review 2/2013, pp. 

6–13.

CC ou AC?



Afinal, quem ganhou na realidade a Guerra 

das Correntes? A corrente contínua está a 

avançar  dentro  de  áreas  que  têm  sido 

tradicionalmente aplicações de corrente 

alternada,  mas  provavelmente  nunca  irá 

conseguir  destroná-la  completamente. 

Talvez, passados mais de 120 anos, pos-

samos declarar um empate: Os livros de 

História do futuro darão reconhecimento 

tanto a Tesla como a Edison.




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