A voz do instrumental


Referencial teórico complementar



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2.5 Referencial teórico complementar

É importante salientar que todo filme é um documentário, conta sua história, mas as narrativas se dão de diversas maneiras, a depender do gênero cinematográfico. O produto deste memorial pode ser considerado um Documentário de representação social, o que chamamos de não-ficção. Segundo Cristina Melo:

O gênero documentário não pode ser definido a partir da presença de determinados enunciados estereotipados ou de tipos textuais fixos (narração, descrição, injunção, dissertação). No entanto, não temos dúvidas de que o documentário é um gênero com características particulares, e que são essas características que nos fazem apreendê-lo como tal. (...) Uma diferença marcante entre o documentário e o cinema de ficção é aquele não poder ser escrito ou planificado de modo equivalente a este último; o percurso para a produção do documentário supõe uma liberdade que dificilmente se encontra em qualquer outro gênero. Um documentário é construído ao longo do processo de sua produção. Mesmo existindo um roteiro, o formato final somente se define com as filmagens, a edição e a montagem. (MELO, 2002, p. 24 – 26)

Salvador: A Voz do Instrumental expressa compreensões da música instrumental na capital baiana, do que seu cenário é, em certa parte, e do que poderá vir a ser. No caso específico do produto expresso neste memorial, fica a cargo do espectador avaliar os argumentos, afirmações, reivindicações, explanadas no filme, e se eles merecem o nosso crédito. Percebi que oferecer de alguma forma uma representação reconhecível do mundo, um recorte da realidade, sendo necessário utilizar uma linguagem cinematográfica simples. Todos os entrevistados são tratados como “atores sociais” na presença da câmera, independente do grau de reconhecimento que recebem pelos seus trabalhos. Seus comportamentos e personalidades serviram às minhas necessidades na composição e enquadramento.

O documentario pode se converter numa fonte de “memória popular”, dando a sensação vivida de como alguma coisa aconteceu num determinado tempo e lugar. Além disso, os espectadores se servem do que já viram para interpretar o que estão vendo, o que pode proporcionar, ao meu ver, um choque de reflexões, mais discussões e debates, ou seja, a propagação do filme.

O termo música instrumental, sob uma perspectiva semiológica, pode ser entendido e utilizado em diversos sentidos, a depender da circunstância em que o emissor está inserido, ou da sua intenção em determinado contexto. No caso do documentário, eu quis emitir o termo música instrumental como um significante, agrupado principalmente a dois significados, e, portanto, formulando dois signos. Segundo os conceitos de Roland Barthes (1978), pude focar em dois enquadramentos. Para entender essas cadeias de signos e significados, tomamos, no documentário, a cidade de Salvador como ponto de referência local, para entender conceitos globais. Tomando a capital baiana como exemplo, nós ampliamos nosso entendimento sobre música instrumental e sua relação com políticas públicas, educacionais e culturais, que valem de aprendizado para a atuação transformadora em qualquer lugar do globo. Outro ponto relevante para o enquadramento do documentário, especificamente a respeito da percussividade de influência africana que é evidenciada, foram minhas reflexões a respeito do pensamento do autor Stuart Hall, que nos revela as diversas experiências negras. Apesar de o filme não focar em questões raciais, podemos refletir que pela música podemos ter experiências negras, independentes da cor da pele, ou da árvore genealógica pertencente ao indivíduo:



No momento em que o significante "negro" é arrancado de seu encaixe histórico, cultural e político, e é alojado em uma categoria racial biologicamente constituída, valorizamos, pela inversão a própria base do racismo que estamos tentando desconstruir. (...) E uma vez que ele é fixado, somos tentados a usar "negro" como algo suficiente em si mesmo, para garantir o caráter progressista da política pela qual lutamos sob essa bandeira - como se não tivéssemos nenhuma outra política para discutir, exceto a de que algo é negro ou não é. (HALL, 2003 p. 345)

Fica implícito no documentário, através das reflexões no grupo de pesquisa do Etnomídia, é o fato de como as experiências negras no lado instrumental da música podem ser renegadas do cenário da música instrumental. Todavia, essas próprias experiências podem ser ricas, tanto artisticamente, quanto mercadologicamente, a exemplo da Jam no Mam, que usa do poder de penetração do jazz conjuntamente com as influências percussivas locais, latinas e africanas.

Podemos ainda refletir que essas experiências locais negras, a respeito da percussividade como cultura popular na música instrumental, podem ser diluídas pelo mercado, sendo transformadas em cultura de massa. É possível analisar ainda este fato sob duas óticas, dois movimentos, sendo um prejudicial à cultura popular e o outro a favor dela, conforme Milton Santos diz:


(...)Um primeiro movimento é resultado do empenho vertical unificador, homogeneizador, conduzido por um mercado cego, indiferente às heranças e às realidades atuais dos lugares e das sociedades. Sem dúvida, o mercado vai impondo, com maior ou menor força, aqui e ali, elementos maciços da cultura de massa, indispensável, como ela é, ao reino do mercado, e a expansão paralela das formas de globalização econômica, financeira, técnica e cultural. Essa conquista, mais ou menos eficaz segundo os lugares e as sociedades, jamais é completa, pois encontra a resistência da cultura preexistente. Constituem-se, assim, formas mistas sincréticas, dentre as quais, oferecida como espetáculo uma cultura popular domesticada associando um fundo genuíno a formas exóticas que incluem novas técnicas. (...) Mas há também - e felizmente - a possibilidade, cada vez mais frequente, de uma revanche da cultura popular sobre a cultura de massa, quando, por exemplo, ela se difunde mediante o uso dos instrumentos que na origem são próprios da cultura de massas. (SANTOS,2001, p.143 e 144).

Por um lado, a cultura popular quando diluída pelo mercado pode perder elementos que a identificam. Por outro, ela pode se servir com a aparência mercadológica para se disseminar, se tornar mais popular e perdurar no tempo. Tudo isto dependerá das circunstâncias. 
Sobretudo, se partimos de uma perspectiva Frankfurtiana, na análise sobre indústria cultural, podemos refletir em cima da fala de Mou Brasil, a respeito do profissionalismo, que segundo o guitarrista, pode ser bom no sentido produtivo e disciplinar, mas negativo quando em excesso compromete a capacidade criativa do instrumentista. Sendo assim, a Indústria Cultural quer produção, e instrumentistas que sejam capazes de reproduzir tecnicamente o que é vendável, renegando muitas vezes a capacidade artística. Podemos conceber que a música instrumental como gênero musical não está fora dessa lógica.


Em relação a crítica de alguns entrevistados sobre o fato de a música instrumental ser restrita a grupos que possuem influência política e mercadológica, corrompendo até editais públicos, podemos fazer uma associação com o livro Microfísica do Poder (FOCAUT, 1979), em que o autor resume as relações de poder em todas as relações humanas, e não somente no sentido de cima para baixo. Portanto, o cenário da música instrumental não está longe das desigualdades e do uso de poder que oprime a equiparação de oportunidades justas.




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