A violência da administração do corpo pelo Estado o saber/poder da medicina moderna no controle da vida cotidiana. Maria Silvia de Mesquita Bolguese



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DEPARTAMENTO DE PSICANÁLISE – INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE


A violência da administração do corpo pelo Estado

O saber/poder da medicina moderna no controle da vida cotidiana.

Maria Silvia de Mesquita Bolguese

- 2019 -

Neste trabalho, pretendo falar sobre a mais insidiosa forma de violência que nos submete como sujeitos “amansados”, suportando as injustas condições impostas pelas sociedades capitalistas no neoliberalismo. Trata-se de uma violência pulverizada/diluída na vida administrada do sujeito contemporâneo, que sobrevive sempre à custa da disseminação do medo – medo de viver. O que vem acontecendo com o sujeito contemporâneo e seus modos de viver? Quais são as condições de existência propostas/impostas pelas sociedades capitalistas? Para se compreender a violência nas sociedades democráticas, é preciso refletir sobretudo acerca da violência banalizada da vida cotidiana. Mas não apenas, pois gostaria de destacar suas articulações silenciosas com a violência subterrânea, a violência que corrói o sujeito desde dentro e que o atravessa, o impacta, paradoxalmente, partindo de seu próprio corpo.

Nesta intersecção entre indivíduo e sociedade, somos atores, emissários, portadores e, ao mesmo tempo, reprodutores de uma violência que percorre o sistema chamado democrático e que se vale das moções propriamente subjetivas para garantir o que poderia em tese ser considerado impossível: que uma imensa maioria da população mundial se submeta e até aceite “docilmente” viver em condições piores, bem piores ou até indecentes, em relação a uma pífia minoria.

É preciso assim refletir sobre os mecanismos de cooptação, adaptação e abrandamento das pulsões individuais, imprescindíveis para que o sistema se sustente e se mantenha. Mecanismos sofisticados certamente. Em meu ultimo livro O tempo e os medos. A parábola das estátuas pensantes (Bolguese, 2017, p. 89), no qual este trabalho se baseia em grande parte, destaquei uma pesquisa publicada em janeiro de 2016 pela Oxfam1. Existem no mundo, atualmente, 62 pessoas bilionárias (cálculos feitos em dólar). Suas fortunas somadas são quantitativamente equivalentes à riqueza conjunta de 3,6 bilhões de pessoas mais pobres do planeta. Mais recentemente (agosto, 2017), a mesma organização divulgou nos grandes jornais em circulação no Brasil, pesquisa referente exclusivamente ao Brasil, dando a conhecer que apenas 6 bilionários detêm ou acumulam capital equivalente àquele que circula entre 100 milhões de brasileiros mais pobres.

Para tanto, cabe considerar alguns patamares nos quais estamos assentados como sujeitos no século XXI, no mundo e, especialmente, no Brasil e também na América Latina. Se a subjetividade se constitui a partir de um outro, do social (modelo essencialmente freudiano), este social – este modelo de sociedade que nos é apresentado – é na verdade aferido, apreendido muito antes de que, ainda bebê, possamos decodificar e nomear seus sentidos, seus códigos. A impronta da alteridade nos alcança primariamente, nos aprisiona desde o corpo, primeiro território, que será também o último, onde se dão as trocas possíveis e também as impossíveis, os aprisionamentos eróticos, mas também as violações mortíferas.



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