A utilização de acrobacias circenses na preparação do trabalho do ator



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Em busca do método  

 

 

Início  de  2013,  fazia,  pela  segunda  vez,  a  disciplina  Acrobacia  de 

Solo. O professor Antônio Rigoberto, era cubano e bastante severo, geralmente 

dava aulas de contorção, acrobacia de solo e trampolim. Sua figura rigorosa se 

misturava a uma certa ternura e admiração que conquistava dos alunos, o que 

me fez posteriormente ter com ele um certo grau de amizade. Nesse dia, meu 

nariz  sangrava  e  Antônio  insistia  de  modo  firme  que  eu  repetisse  o  salto  no 

mesmo momento: eu havia feito uma sequência de saltos-leão, que consistiam 

em correr, saltar em mergulho e cair em rolamento e, em um deles, meu joelho 

bateu violentamente em meu nariz, causando o doloroso acidente.  




Antônio  gritava  e  insistia  para  que  eu  repetisse  o  salto  no  mesmo 

instante, - 

“Se ela não fizer agora, vai sempre ter medo. ”- eu, chorando, pedia 

para respirar um pouco, mas ele estava irredutível. Após cinco ou dez minutos, 

repeti o salto, o qual tive que repetir inúmeras vezes e eu as fiz, em cada uma 

delas, sangrando e sentindo muito medo. Hoje tenho receio de executar o salto-

leão,  uma  acrobacia  relativamente  simples,  e  não  sei  se  sentiria  caso  tivesse 

repetido o salto ao primeiro comando de Antônio. Nesse momento, eu comecei 

a entender a necessidade de ultrapassar os limites do corpo e estaria sob essa 

condição em muitos momentos de dor e desafio. 

 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 




Figura 2 - Com o professor Antônio Rigoberto em uma aula de contorção. 

 

Fonte: Carla Muzenza (2012). 



 

Entrei na Escola Nacional de Circo 

– ENC – em setembro de 2012, 

através  de  um  edital  de  processo  seletivo  que  me  exigia  provar  flexibilidade, 

força  e  equilíbrio,  além  de  um  número  teatral.  Ao  chegar  ao  Rio  de  Janeiro, 

percebi o grau de dificuldade e exigência: não estava no meio de alunos do meu 

nível, mas entre pessoas que realizavam exercícios dificílimos e que, em muitos 



casos, preparavam-se desde a infância para o circo.  O  choque me dividiu em 

medo e excitação: a expectativa era grande e eu tinha sido aprovada, mesmo 

que me perguntasse, por muitos momentos, o que eu fazia ali.  

As pessoas, diferentes umas das outras, em nível pessoal e cultural, 

enriqueciam o ambiente como um todo, e o primeiro contato, receoso, mostrava 

que minha vida mudaria em com algo completamente fora de meu eixo, mas que, 

ao mesmo tempo, remetia a uma parte muito natural de minha vida: tudo tinha 

começado.  A  recepção 

–  famoso  trote  circense  –  fez  com  que  todos  nós 

relaxássemos um  pouco  de  todo  o  peso  e  preocupação  por  aquele  momento, 

adiando tudo para depois.  

           

              Figura 3 - Imagem do trote na ENC. 

Fonte: Mariana Matos (2012).

 

 

 




 

O primeiro mês foi bem doloroso, tínhamos uma grade para cumprir e 

atividades  muito  intensas;  pela  manhã,  aula  de  nutrição,  anatomia,  dança  e 

teatro  e,  após  o  almoço,  as  atividades  de  circo  obrigatórias  como  trapézio, 

malabares, arame e acrobacia de solo. Nesse período,  dia após dia, todas as 

minhas habilidades físicas eram postas em desafio, durante nove horas do meu 

dia,  tentando  adestrar  meu  corpo  àquele  padrão  de  excelência  exigido  pela 

Escola. Com febre e dor constante, meu corpo se adaptava às horas incansáveis 

entre  tentativas  massacrantes  de  ganhar  mais  destreza,  força,  flexibilidade  e 

equilíbrio.  

Passei, então a identificar minhas facilidades no âmbito circense: as 

primeiras respostas corporais positivas foram relacionadas à flexibilidade para a 

contorção  e  acrobacia  de  solo,  como  também  no  arame.  No  mais,  buscava 

diariamente  uma  compreensão  psico-física  das  possibilidades  que  haviam  ao 

meu alcance, sob a rigorosa disciplina a qual me sujeitava. Compreendi, ainda 

nesse período, que ao me propor a ultrapassar limites para quaisquer objetivos 

–  artísticos  ou  atléticos  –  a  rigorosidade  no  ambiente  e  consigo  mesmo  é 

essencial:  minha  rotina  foi  mudada  consideravelmente  para  que  houvesse 

crescimento. 

Nos meses seguintes, passei a adaptar minha rotina para chegar ao 

nível  de  excelência  exigido,  nesse  processo,  conseguia  ultrapassar,  pouco  a 

pouco, as barreiras do meu corpo em rotinas mais severas de treino, alimentação 

e  aos  finais  de  semana  fazia  treinamentos  extras  com  mais  alguns  colegas. 

Assim, nossa vida estava completamente focada nessa superação de barreiras. 

Dentro  desse  processo  de  busca,  sentindo-me  ainda  perdida  em 

relação  aos  meus  objetivos  na  Escola,  tendo  como  norte  apenas  a  existência 

deles  e  a  promessa  de  sua  importância,  comecei  a  entender  que  o  corpo 

acrobático  falava,  assim,  pude  identificar  de  forma  mais  ampla  o  que  teóricos 

como  Meyerhold,  Grotovisky,  Stanislavisky  se  referiam  quando  tratavam  do 

corpo acrobático do ator ou do teatro físico. Meu olhar foi, assim, afunilando-se 

para sair do campo lúdico do imaginário circense da minha infância e entrar em 

um espiral de entendimento do corpo como item de composição dramatúrgica e 

criativa. 

 

 



 

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