A utilização de acrobacias circenses na preparação do trabalho do ator



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“Alô, criançada, o circo chegou” 

 

Dez ou onze anos. Do Bairro da Glória, caminhamos até o igapó 

– o 

lugar mais distante da vizinhança 



– para brincar na casa de uma amiga; era a 

última  casa.  O  caminho  era  falho,  mas  ela  não  sabia:  com  naturalidade  se 

equilibrava na ponte improvisada por cima do rio, onde nossos pés por vezes 

quase imergiam, com a firmeza que o ir e vir da rotina dá. A casa última, alta e 

pequena, parecia balançar a cada passo na escada que dávamos, um de cada 

vez, assim como o vento. Ali, todos nos equilibrávamos.

  

Figura 1 - Igapó do Bairro da Glória em Período de Cheia. 



Fonte: autor desconhecido (2011). 

 

 Ao me arriscar falar de todo lado técnico, artístico e até pomposo da 



multidisciplinaridade entre circo e teatro, sinto a necessidade de entregar parte 

de  minha  história  e  vivências  de  minha  infância  que  hoje  considero 

assertivamente serem as bases do que tenho me tornado como artista. Nasci no 

Bairro da Glória, em Manaus, periferia localizada na zona Oeste à beira de um 

igarapé que deságua no Rio Negro. Cresci vendo as cheias e secas do rio no 

quintal de minha casa, fui cercada pelas águas de um rio sagrado e por toda sua 




história.  Hoje,  com  minha  frágil  memória,  tento  buscar  o  mais  distante  dos 

acontecimentos neste relato, como o igarapé que tenta chegar ao rio. 

As  brincadeiras  do  bairro  sempre  eram  guiadas  pelos  períodos  de 

seca e de cheia. Durante a seca, do fundo de casa, via a área verde, como um 

quintal vivo, conjunto, de toda a vizinhança: campo de futebol, balanço, árvores 

frutíferas,  bancos  e  seringueiras  compunham  todo  o  cenário  necessário  a 

formação  de  um  corpo  vivo,  que  pulsa  e  busca.  Nós  nos  equilibrávamos, 

corríamos, pulávamos. Dos balanços de pneu, íamos ao nosso limite: uma parte 

de nós se aventurava a subir nele em seu ponto mais alto, outros, a pular dali. 

As sementes de seringueira testavam nossa destreza ao jogar para cima e pegar 

de  diversas  formas.  Na  rua,  os  elásticos  avaliavam  rapidez,  flexibilidade  e 

precisão e os colchões colocados na frente de casa em um dia de apagão, eram 

palco de acrobacias em simples cambalhotas. O circo começou ali. 

Quando o rio começava a encher, os moradores já preparavam suas 

madeiras e ficávamos a mercê de uma vontade alheia, a fim de saber até onde 

ele iria naquele ano. A casa de alguns amigos alagava, todos faziam suas pontes 

e  as  brincadeiras  mudavam  de  acordo  com  cada  novidade.  Na  jangada  de 

garrafas pet,  íamos em  pares  até  o  limite  seguro,  assim  como dentro  de  uma 

geladeira velha, que fora jogada fora, e boiava saindo da área verde; mas foi em 

uma canoa que ultrapassamos alguns limites: eu me equilibrava no meio do rio, 

em pé, na canoa furada, enquanto alguém tirava a água de dentro para mantê-

la flutuando na água negra. 

No  início  dos  anos  2000,  enquanto  acompanhava  os  ensaios  da 

quadrilha de festa junina, preenchidos de brincadeiras e experimentos cênicos 

para  o  momento  de  encenação  tradicional  dessa  dança,  eu  e  minha  mãe 

conhecemos um ator que posteriormente encabeçou a criação de um grupo de 

teatro na pastoral da igreja.  Através de uma ferrenha mobilização,  essa figura 

movimentou o Bairro da Glória para a inserção desse grupo, que passou a se 

encontrar rotineiramente, nas quintas-feiras, percorrendo as pontes bambas do 

igapó,  onde  se  localizava  a  pastoral.  E  ali  montamos  nossa  primeira  peça,  



bruxinha que era boa, de Maria Clara Machado, sendo meu primeiro contato com 

o teatro. 

Mais tarde, eu estava sob a lona, prestes a assistir o momento mais 

esperado: o trapézio de voo. Aquelas pessoas muito bonitas, apresentando-se 

de forma virtuosa, com brilhos, maquiagens e roupas características que antes 

compunham a figura viva do meu imaginário e agora estavam presentes, ali. O 




fato foi que antes, no mesmo ano, ocorreu como nos filmes: o carro com alto-

falante,  vários  artistas,  palhaços  em  romaria  pelo  bairro  em  um  convite 

ludibriante. Os passos, os gritos, as cores, tudo dizia: o circo chegou. 

 

 






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