A ufrrj como identidade territorial: a espacialidade e a territorialidade afetiva da instituiçÃO


O TERRITÓRIO E AS SUAS IDENTIDADES



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O TERRITÓRIO E AS SUAS IDENTIDADES

A UFRRJ, por meio dos seus sujeitos representados por alunos e servidores, propõe nas ações de seu cotidiano um conjunto de identidades que perpassam por todo o território ruralino. Resgatando os estudos de Raffestin (2003) apud Saquet (2010), os territórios podem ser classificados como do cotidiano, das trocas, de referência e sagrado. No caso da Rural entende-se que as identidades atribuídas a esta circulam claramente entre o cotidiano, a troca e a referência.

Para melhor compreensão, Raffestin (2003) definiu o que cada uma delas representa. A primeira, intitulada por território do cotidiano, é por definição o território de todos os dias, aquele que se garante a satisfação das necessidades, um arquipélago de lugares isolados, no entanto, espaços de mobilidade que permitem tensões e distensões, o previsível e o imprevisível. É a linguagem do cotidiano se fazendo presente.

A segunda identidade territorial atribuída a instituição seria a da troca, a qual se constrói e se desconstrói ao sabor das relações e conforme a frequência. Uma grande articulação entre o regional, o nacional e o internacional. E por fim, a referência territorial, um lugar que outrora habitado, na atualidade faz parte da memória, material e imaterial, do subjetivo e do histórico. Um lugar alimentado por imagens na identidade atual. Importante frisar o aspecto objetivo material e imaterial da Universidade, tanto no aspecto espacial (nacional e internacional), quanto no funcional (como órgão e entidade), em grau de importância ao que ela representa, oferece, se faz conhecida e que traz conhecimento e relações com demais universos de meios afins.

Assim como o espaço da universidade se torna carregado de significados, composto por algumas identidades, ele também é responsável por gerar esse novo sujeito que dantes possuía uma identidade unificada e estável, e hoje se torna fragmentado, composto por várias identidades, algumas contrastantes e por vezes não resolvidas. Para Hall (2006), as identidades que compunham as paisagens sociais e asseguravam uma conformidade subjetiva às necessidades objetivas da cultura estão em declínio, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O processo de identificação ao qual idealizamos nossas identidades culturais apresenta aspecto provisório, variável e até problemático.

Este sujeito fragmentado se mostra presente no cotidiano do espaço universitário, transitando entre o real e o imaginário, no que tange ao território de suas ações. A territorialidade, por um conceito de Soja (1971) apud Raffestin (2003) é concebida por três elementos: senso de identidade espacial, senso de exclusividade e compartimentação da interação humana no espaço. Pela natureza dos elementos elencados só é possível a apreensão das relações que sejam recolocadas em um mesmo contexto sócio histórico e espaço-temporal, logo, o que conhecemos por Universidade Rural, em Seropédica, não se traduz com a mesma intensidade nos outros Campi que a instituição possui, quais sejam, Instituto Multidisciplinar (IM), localizado na cidade de Nova Iguaçu e o Instituto de Três Rios (ITR), localizado no município de Três Rios.

Para melhor ilustrar a existência de dois Campis fora da sede localizada em Seropédica é necessário que seja feito um breve histórico sobre a criação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). No ano de 2001, para dar cumprimento ao art. 205 da Constituição Federal de 1988, o qual define a educação como um direito de todos e dever do Estado e da família, foi elaborado o Plano Nacional de Educação (Lei nº 10.172/2001), que fixou metas responsáveis por um aumento considerável dos investimentos nessa área, além do escopo previsto para ampliação do número de estudantes atendidos em todos os níveis da educação superior.6

Passado um quinquênio, o governo federal e o Ministério da Educação (MEC) estabeleceram discussões, das quais fizeram parte as Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), a fim de superar o número de universidades federais, além da reestruturação e expansão das já existentes por meio do REUNI). A demanda se justificava pela elitização do acesso à educação superior percebida, questionada e apontada como uma das formas de exclusão social, portanto necessária a ação a fim de que houvesse a superação de tal processo discriminatório.

Por uma iniciativa do governo federal, em 24 de abril de 2007, foi publicado o Decreto 6.096/07 que Instituiu o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - REUNI. A intenção do programa era se debruçar sobre a ampliação do acesso e a permanência dos estudantes na educação superior implantando uma série de medidas que fortalecessem o resgate da importância de se ter um ensino superior público de qualidade.7

O projeto pretendia congregar esforços para a consolidação de uma política nacional de expansão da educação superior pública, por meio do Ministério da Educação (MEC) ao qual cumpre o papel atribuído pelo Plano Nacional de Educação (PNE), quando estabelece o provimento da oferta de educação superior para uma faixa de 30% dos jovens com idade entre 18 a 24 anos, até o final de 2010.8

O momento de ação do REUNI era propício para ações estruturais modificadoras, quais sejam, a abertura de cursos noturnos e a flexibilização de currículos, a fim de que as universidades federais desempenhassem o papel multiplicador do conhecimento produzido na academia, recorrendo a sua aplicação útil e de qualidade, não obstante a proposta essencial dos espaços universitários seja a produção do conhecimento científico e tecnológico capaz de solucionar problemas e produzir inovações tecnológicas aplicáveis ao fomento de políticas públicas e estratégicas de desenvolvimento.

Para sobreviver, as universidades têm de estar ao serviço destas duas ideias mestras – sociedade de informação e economia baseada no conhecimento – e para isso têm de ser elas próprias transformadas por dentro, por via das tecnologias da informação e da comunicação e dos novos tipos de gestão e de relação entre trabalhadores de conhecimento e entre estes e os utilizadores ou consumidores. (SANTOS, 2004, pág.19)


A reestruturação proposta agrega dimensões que respeitam as diversidades regionais, às particularidades locais, tal como às múltiplas áreas do conhecimento que fazem parte dos diferentes cursos, preservando desta forma, o caráter de universalidade representado pelo saber acadêmico. No entanto, a renovação pedagógica da educação superior, por exemplo, representada por uma das dimensões descritas, indica uma articulação da educação superior com a educação básica, profissional e tecnológica, o que para uma década de plena aplicabilidade e acompanhamento, seria necessário que de fato essa premissa fosse levada em consideração de forma eficiente, permitindo que os frutos pudessem ser vistos e colhidos nos dias atuais.

O projeto de reestruturação e expansão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro indica estratégias para o alcance de metas, onde a divulgação dos cursos de graduação por meio do então Decanato de Ensino de Graduação, dos Institutos e Coordenação de Cursos, com a elaboração de materiais de divulgação e esclarecimentos sobre as profissões as quais a UFRRJ oferece formação e pensamento crítico. Por visar, primordialmente, à aspectos quantitativos o programa REUNI não contempla a adoção de políticas públicas de combate à discriminação e às desigualdades, as quais constituem um dos grandes tabus a serem quebrados e desafiados pela academia;

A expansão das oportunidades de escolarização em todos os níveis permitiu a inserção no ensino superior de estratos sociais anteriormente excluídos, sendo cada vez mais comum a chegada à universidade de uma primeira geração que se beneficiou da ampliação do acesso à educação. (PAULA, 2008, p. 224)

Os territórios da UFRRJ criados por tal medida possuem identidades, das quais inferimos que sejam diversas daquela que conhecemos por intermédio da eloquência de quem cursou a sua graduação ou pós-graduação no campus Seropédica. O projeto de reestruturação e expansão da UFRRJ reforçou aquilo que já percebíamos, tal como o discurso de um egresso do Campi ou mesmo de um ex-servidor ressaltando o quanto o espaço ocupado outrora foi importante para a sua formação acadêmica, ou a sua formação profissional, seja por um corpo de docentes cativantes, por um ambiente propício a grandes desafios profissionais, ou por simplesmente usufruir de uma atmosfera exuberante da natureza, construída e pensada para acolher aqueles que buscam o saber acadêmico, mesmo que este não fosse o seu objetivo inicial.

A identidade dos Campi IM e ITR expõe interseções tais por meio das demandas locais que apresentam. As cidades anteriormente citadas exibem peculiaridades diversas às apresentadas pelo município de Seropédica, principalmente no que diz respeito à força do termo “rural” na avaliação de seu território, se bem que, na atualidade, este critério encontre apoio, em alguns casos, somente no valor da palavra.

O fato é que a identidade, na vida, é multidimensional e, ambos os processos, de ser e não ser, constituem-se e estão presentes na própria territorialização, nas próprias territorialidades. É no movimento que está a unidade, a interação, a fluidez. Há unidade contraditória e complexa: a política está na economia e esta, naquela; a cultura, na política e vice-versa; o mesmo ocorre na relação cultura-economia. Cada um destes processos está no outro: economia-política-cultura, unidos com a natureza exterior ao homem. A vida é natural e social. É multidimensional, multiterritorial. (SAQUET, 2010, pág. 155)

Mesmo não apresentando as mesmas características marcantes do Campi Seropédica, os IM e ITR são tocados pela definição de Raffestin (2003) quanto a formação de sua identidade territorial. Há indícios que o cotidiano, a troca e a referência também façam parte desta construção, por uma abordagem múltipla do território, onde as suas interfaces se tornam simultâneas e superpostas em uma mesma área, como o autor exemplifica, territórios políticos, culturais e econômicos concomitantes e interligados.

Para Chelotti (2010) a identidade é concebida baseada nas subjetividades individuais e coletivas relacionadas aos grupos sociais ou ao pertencimento territorial. Destarte, trazer à dimensão simbólica, do imaterial no discurso geográfico torna possível uma farta análise sobre a produção do espaço, das paisagens e das territorialidades. De forma a enriquecer a definição do autor, Anderson (2008) acrescenta o conceito de uma comunidade percebida por uma profunda camaradagem horizontal, onde fraternalmente os seus integrantes se reconhecem, apesar de nunca terem se visto ou se relacionado, o que faz entender e refletir sobre o sentimento ruralino de ser.






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