A ufrrj como identidade territorial: a espacialidade e a territorialidade afetiva da instituiçÃO


A UFRRJ COMO IDENTIDADE TERRITORIAL: A ESPACIALIDADE E A TERRITORIALIDADE AFETIVA DA INSTITUIÇÃO



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A UFRRJ COMO IDENTIDADE TERRITORIAL: A ESPACIALIDADE E A TERRITORIALIDADE AFETIVA DA INSTITUIÇÃO.

A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, mais conhecida como “Rural”, ocupa um espaço territorial considerável no que tange as áreas limítrofes dos municípios de Seropédica e Itaguaí, pertencentes ao Estado do Rio de Janeiro. Apesar do município de Itaguaí no passado estar em evidência ao indicar a instituição de ensino como parte de seu território, quando Seropédica ainda não havia passado pelo processo de emancipação, esta sempre a acolheu com as suas limitações e perspectivas de progresso sugeridas.

O propósito deste trabalho é apresentar a UFRRJ como parte integrante do território de Seropédica, município do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, sob a ótica de um agente de mudanças e a personificação do que é urbano em um espaço considerado rural. Para além do desenvolvimento urbano da região, busca-se compreender o sentimento de pertença ao espaço imaginário da Rural, quando são indicadas as relações criadas em torno de uma dimensão territorial que se conecta aos sujeitos que por ela percorrem, as quais ajudam a evidenciar uma identidade construída pela reciprocidade nas relações de afetividade, confiança e reconhecimento.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município de Seropédica possui uma população estimada de 84.416 pessoas em uma área de unidade territorial de 283,766 km₂1, ressaltando uma população de estudantes da UFRRJ que podem ou não impactar os números citados no que diz respeito à população do território, visto que alguns residem nos alojamentos durante o período da graduação e outros buscam os imóveis da localidade para alugarem. Esta ação indica uma movimentação econômica em torno do município para atender uma demanda que permanece excessiva em todo o período letivo, sendo recorrente desde a instalação da Instituição no território de Itaguaí.

A partir de então, segundo a proposta de Monte-Mór (2004), a vida no campo possui privilégios aos quais estão inseridos qualidade de vida e produção agrária, porém a sua subordinação é total à cidade industrial. Em um conjunto de circunstâncias, o município de Seropédica apresenta uma identidade urbana, deveras incipiente, não impeditiva do papel desempenhado de território do poder e obra civilizatória. O que se observa é que as atividades demandadas pela UFRRJ, em seu papel rural, se tornaram essenciais na manutenção econômica do município.

O local tem uma territorialidade específica, uma delimitação, ao mesmo tempo em que tem a predominância das questões ligadas ao cotidiano, mesmo que fortemente influenciadas por questões distantes ligadas aos processos do espaço econômico abstrato. O local é então, de fato, uma escala que tem uma espacialidade marcada e uma sociabilidade específica ditada pelo cotidiano. (MONTE-MÓR, 2007, p.110)

No ano de 1948 a UFRRJ ganhou o espaço que hoje conhecemos, tendo como um dos objetivos oferecer aos discentes do curso de agronomia um ensino menos “livresco” e mais prático, já que o campus outrora localizava-se na cidade do Rio de Janeiro, capital do Brasil. As ações para que a instituição fosse de fato instalada em Seropédica foram iniciadas pelo presidente Getúlio Vargas que determinou que fossem reunidos todos os serviços do ensino agrícola e de experimentação e pesquisas, constituindo, desta forma uma genuína Universidade Rural. O distrito de Seropédica acolhia as instalações da Rural, bem como as residências dos funcionários e suas respectivas famílias, possibilitando o desenvolvimento comercial da região.2

Dois anos mais tarde, a Embrapa Agrobiologia deu início as suas atividades no antigo Centro Nacional de Ensino e Pesquisas Agronômicas, do Ministério da Agricultura, protagonizando os estudos sobre fixação biológica de nitrogênio (FBN), sob a liderança da pesquisadora Johanna Döbereiner.

Por oferecer um meio de vida àqueles que habitavam a região, a UFRRJ e a EMBRAPA passam da representação do rural por uma práxis que deveria nascer na cidade e se expande para o espaço social como um todo, na lógica industrial produtiva de acumulação capitalista. Para Silva (2001) o desenvolvimento local sustentável tem o mérito de permitir a superação das arcaicas dicotomias urbano/rural e agrícola/não agrícola, e que neste caso, excede a qualquer ideia já impregnada por tal lógica.

Daquela época aos dias atuais, a UFRRJ ajudou o território de Seropédica a se desenvolver em suas práticas comerciais, ressaltando que embora seja notória a presença da instituição universitária no município, não se deve negar a importante produção de seda, introduzida no século XIX, durante o reinado de D. Pedro I, no município de Itaguaí, onde se instalou a primeira indústria de seda nacional a “Imperial Companhia Seropédica Fluminense”.3

O próprio nome do hoje município de Seropédica é resultado de um neologismo formado por duas palavras de origens distintas, quais sejam, “sericeo” ou “serico”, de origem latina, que significa seda, e “pais” ou “paidós”, de origem grega, com o significado de tratar ou consertar. Da aglutinação de duas palavras, temos a definição de um local onde se cuida ou fabrica seda. Após o declínio da produção de seda e demais culturas o local passou por um longo período de abandono, só resgatando a sua posição de prestígio com a construção da antiga rodovia Rio-São Paulo (BR465) e outras atividades em distritos vizinhos, como é o caso do então distrito de Paracambi com sua recente instalação industrial têxtil4.

No cerne da decadente atividade agrícola de café, açúcar, farinha e aguardente da região no século XIX, encontra-se a abolição da escravatura, motivo de grave crise econômica regional, pois muitos libertos rejeitaram as ofertas nas plantações onde haviam trabalhado como escravos, ensejando oportunidades que, embora fossem em outras fazendas, exigiam que os aspectos cruéis da escravidão pudessem ser abolidos, como, por exemplo, o uso de chicotes, das trancas nos barracões e a isenção da exigência do trabalho de mulheres e crianças.

Impossível considerar a hipótese da reconstituição da cidade antiga; possível apenas encarar a construção de uma nova cidade, sobre novas bases, numa outra escala, em outras condições, numa outra sociedade. Nem retorno (para a cidade tradicional), nem fuga para a frente, para a aglomeração colossal e informe – esta é a prescrição. Por outras palavras, no que diz respeito à cidade, o objeto da ciência não está determinado. O passado, o presente, o possível não se separam. É um objeto virtual que o pensamento estuda. O que exige novas dérmaches. (LEFEBVRE, 2001, p.106/107)
Há na época de sua criação, bem como nos dias atuais uma importante representação da UFRRJ no território de Seropédica, como agente de mudanças e personificação do que é urbano, se bem que a proposta das atividades acadêmicas foram sempre de ordem agrícola e encontravam-se definidas pelo Decreto nº 6.155 de 30 de dezembro de 1943 ao qual criou a Universidade Rural e outros órgãos responsáveis pela ministração do ensino agrícola e veterinário, da mesma maneira que a execução, coordenação e direcionamento das pesquisas agronômicas no país.

Para Raffestin (1993), a territorialidade se inscreve em um quadro de produção de troca e de consumo, não sendo adequado entendê-la como uma simples ligação com o espaço. Na verdade, a relação território/espaço está inserida em uma mutuação que envolve energia e informação, podendo produzir vizinhanças, acessos e convergências ou disjunções, rupturas e distanciamentos ao sabor das relações, as quais se manifestam em todas as escalas espaciais e sociais e dão acesso a face vibrante do poder.

Na contemporaneidade, os habitantes do município de Seropédica se deparam a cada ano com novos moradores que irão compor os espaços reservados aos que buscam os saberes acadêmicos. Suas especificidades, modos de vida e cultura são levados por estes. Saquet (2010) compõe em seu discurso a anterioridade da territorialização, a desterritorialização e a reterritorialização da UFRRJ e a construção, desconstrução e reconstrução da identidade da universidade, ressaltando que as imagens identitárias e as territoriais se confrontam de acordo com as linguagens. Logo, o novo que a princípio causa estranhamento aos nativos do município, adere ao cenário como parte dos costumes do território e da flutuante população de discentes.

O olhar para o espaço ao qual se estabelece a UFRRJ nos anos de 1947, com aproximadamente 3.024 hectares e um conjunto arquitetônico de 131.346 metros quadrados de área construída5, torna possível entender a dinâmica construída pelo “ir e vir” dos estudantes que fazem parte da comunidade acadêmica, ainda que na prática do cotidiano essa lógica seja incompreensível, tendo em vista a dimensão do território e de todo o caminho percorrido por discentes durante o tempo de permanência no campus, ressaltando também a presença constante de professores mestres e doutores, não só do Rio de Janeiro, como também de outros estados da federação.



Isto posto, as relações criadas em torno de uma dimensão territorial unem os sujeitos que por ela percorrem, evidenciando desta forma a identidade construída, como sugere Saquet (2010) uma vida em sociedade, um campo simbólico que envolve a reciprocidade nas relações de afetividade, confiança e reconhecimento. O autor ressalta que a espacialidade e/ou territorialidade estão ligados a este conceito, logo o que é vivenciado no território da Rural se constrói e se materializa através destas manifestações de dileção.

Em um resgate temporal, por meio da pesquisa da Professora Célia Regina Otranto, sob o título Uma Viagem no Túnel do Tempo. A Ditadura Militar vista de dentro da Universidade, encontram-se registros de alunos pretensos ao preenchimento de uma vaga na UFRRJ, que à época vinham de várias partes do país para prestar o vestibular. Uma das falas, denominada por “Estudante I”, se inicia desta forma,

Os candidatos que vinham de fora ficavam nos alojamentos existentes na Universidade, onde eram organizados grupos de estudos. Cada um estudava por conta própria. Tínhamos grande apoio do Diretório Acadêmico, que organizava apostilas com todas as questões que haviam caído nos concursos dos últimos 10 anos e nós passávamos os dias estudando. Eram, também, nossos primeiros contatos com o campus universitário. Comíamos no Restaurante Universitário (RU), a preços módicos e morávamos de graça nos alojamentos, enquanto os alunos estavam de férias. A partir daquele momento começávamos a aprender a amar a Rural. (OTRANTO, 2010, pág. 27)

O momento antecedeu ao regime militar, porém o discurso se assemelha ao de um aluno da Rural nos dias atuais, no tocante a afeição pelo espaço de convivência. Em um diálogo com Saquet (2010), Anderson (2008) afirma que em uma comunidade imaginada os indivíduos, mesmo nunca se conhecendo integralmente, compartilham dos mesmos signos e símbolos e, desta forma, tornam-se conhecidos e pertencentes a esse lugar.

Esta afirmação propõe uma reflexão a respeito da materialidade e a imaterialidade dos processos sociais a partir de uma perspectiva cultural e como as comunidades se diferenciam umas das outras, se distanciando por marcas de sua existência pontual e criativa. Para Anderson (2008), a nação é nada mais que uma comunidade limitada, soberana e acima de tudo imaginada. Limitadas e soberanas por maior que sejam as suas fronteiras, há que se saber superar e lidar com um grande pluralismo de seus componentes.

A UFRRJ acolhe personagens de vários Estados do Brasil e de alguns países da América Latina formando um grande “melting pot” de diferentes elementos, que de uma mistura heterogênea compõem uma cultura comum, qual seja, a grande nação “Ruralina”. Por ela, os respectivos cidadãos criam os seus códigos de conduta, como em qualquer comunidade acadêmica, iniciando os sujeitos recém-chegados à instituição. Os “trotes” são um exemplo da primeira regra a ser conhecida pelos novos integrantes da academia, posto que, de forma pouco agradável em alguns casos.

No intuito de entender a relação particular que um grupo social mantém com seu respectivo território, utilizo o conceito de cosmografía (Little, 2001), definido como os saberes ambientais, ideologias e identidades - coletivamente criados e historicamente situados - que um grupo social utiliza para estabelecer e manter seu território. A cosmografía de um grupo inclui seu regime de propriedade, os vínculos afetivos que mantém com seu território específico, a história da sua ocupação guardada na memória coletiva, o uso social que dá ao território e as formas de defesa dele. (LITTLE, 2004, pág. 254)

As “normas” foram concebidas em algum momento, para uma boa convivência no campus, seja nos alojamentos, ou nas estradas que os levam até aos institutos, caminhos percorridos, em alguns casos, por grupos formados por suas ideologias, que em determinadas situações são responsáveis por mobilizar a instituição para clamar por segurança no deslocamento de todos os discentes e componentes, em especial as estudantes mulheres e professoras.

No ano de 2016, o movimento de mulheres “me avise quando chegar” foi criado em virtude do aumento dos casos de violência – estupros e assédios – dentro do campus e na cidade de Seropédica. Nesse mesmo período, os discentes ocuparam a reitoria da universidade em ato contra a PEC 241, que limitou o teto dos gastos públicos por 20 anos. A decisão pela ocupação, à época, foi tomada em assembleia de forma unânime. O prédio principal (P1), também fez parte da estratégia de ocupação.

O espaço da universidade cumpre também o papel reivindicatório de demandas internas, bem como externas, que abarcam assuntos de grande impacto na vida acadêmica, como exemplo, a PEC 241. Os discentes são considerados protagonistas em muitos aspectos, uma vez que os saberes adquiridos no território acadêmico transbordam para além deste universo, permitindo que desta ação seja construído um capital cultural, “um ter que se tornou ser, uma propriedade que se fez corpo e tornou-se parte integrante da “pessoa”, um habitus. Aquele que o possui “pagou com sua própria pessoa” e com aquilo que tem de mais pessoal, seu tempo” (BOURDIEU, 2007).

Embora o aluno da Rural seja o grande destaque, outras engrenagens precisam estar ajustadas, quais sejam, os docentes e os técnicos-administrativos, e sem os mesmos a UFRRJ não conseguiria desempenhar o seu papel profícuo de cultivo do saber humano. O tripé aluno, professor e técnico-administrativo se mostra eficaz no sentido da interação e junção, não obstante essa dinâmica possa ser prejudicada por objetivos contrários a tais ações.

Contudo, para Raffestin (1993) em toda prática espacial, conquanto incipiente, incentivada por um sistema de ações ou de comportamentos se materializa em uma produção territorial a qual resulta em tessitura, nó e rede. Destaca-se, portanto, que em nenhuma sociedade, por mais simples que seja, resiste a necessidade de organizar o campo de sua ação. Castells (2018) propõe que quem constrói a identidade coletiva e o objetivo proposto para a sua existência, determina o conteúdo simbólico dessa identidade como também o seu significado para aqueles que com ela se identificam ou dela se excluem, tendo como fonte originária a identidade de resistência.






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