A tradução no tabuleiro da baiana: uma análise discursiva da tradução de “Acarajé” para o inglês e o espanhol



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A tradução no tabuleiro da baiana: uma análise discursiva da 

tradução de “Acarajé” para o inglês e o espanhol 

 

Roberta Rosa Portugal



1

 

Carla Maicá Silva



2

 

Bruna Navarrina de Moura



3

 

 



Mãe negra trouxe acará lá da África/ Mãe negra baiana aprendeu a fazer

4

 

 

comida pode ser abordada unicamente como alimento, quando tratada 

apenas pelo seu caráter nutricional, servindo na busca pela manutenção e saúde 

do corpo. Ou pode ser significada no hall das artes, encontrando seu lugar nos 

vários movimentos gastronômicos que configuram as artes culinárias. Neste 

trabalho, é tomada como uma das bases da cultura de um povo. E é através desta 

mudança, do status de alimento para o status de comida, que podemos perceber 

o processo discursivo: enquanto o alimento diz respeito ao que é necessário para 

a sobrevivência  física,  a  comida, ao  criar  identidades  e, logo, discursos, é 

fundamental para a permanência (e transformação) de uma cultura. Assim, a 

culinária de um povo pode ser entendida como uma materialidade discursiva 

onde, através dela, de suas práticas, de seus ingredientes e de seus ritos podemos 

acessar não só a superfície identitária desta comunidade, mas também seus 

processos culturais que,  atravessados pela língua, pelas suas condições de 

produção e pelas suas memórias, mobilizam sentidos: 

 

Analisar o discurso sobre comida e alimentação é pensar em sentidos 



ideologicamente constituídos e verificar sua inscrição em matrizes de sentido 

que nomeiam, que adjetivam, que predicam essas comidas de forma 

ilusoriamente natural –  como se fosse um procedimento cognitivo. 

(ESTEVES, 2014, p. 15). 

 

E  é  justamente nesse movimento, onde o alimento passa a significar 



comida, que as práticas alimentares encontram as práticas religiosas. A comida 

passa a significar o elo, a comunicação com o sagrado através de seus rituais e 

                                                            

1

 



Docente da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).  Doutoranda do  Programa de Pós-

Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

2

 

Mestranda do



 

Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do 

Sul (UFRGS). Bolsista CAPES.

 

3



 Bacharelanda do Instituto de Letras e bolsista PIBIC-CNPq/UFRGS As três autoras estão vinculadas 

ao Grupo de Pesquisa Discurso, arquivo e autoria, sob coordenação da Profa. Dra. Solange Mittmann. 

4

  Cada  seção  deste artigo inicia com trechos da música Akará, do compositor e  cordelista baiano 



Antonio José dos Santos, conhecido como Antônio Vieira (1949-2007).

  



encantamentos,  e o acarajé, como veremos ao longo do texto, é um bom 

exemplo de como essas práticas são discursivizadas. 

Assim, nossa análise parte de uma formação discursiva religiosa, com 

práticas e dizeres estabilizados pela memória, mas que  ao serem assimilados 

pela sua própria historicidade acabam  tomando sentidos outros. São  a 

historicidade e seus sentidos  em  fuga  que tornam possíveis  outras formas de 

dizer,  que “se definem por sua inscrição em diferentes formações discursivas 

que representam diferentes relações com a ideologia, configurando o 

funcionamento da língua regida pelo imaginário” (ORLANDI, 2001 p.129).  

No movimento da/na história, os objetos vão sendo ressignificados pelas 

relações de forças entre formações discursivas. Vale citar, a título de exemplo, 

que hoje em dia temos novas releituras dessa iguaria de raiz colonial, como o 



acarajé vegano,  que atende a uma nova ideologia alimentar  livre de qualquer 

insumo de origem animal, ou seja, um acarajé sem os camarões que fazem parte 

da receita,  ou ainda o acarajé pentecostal  ou  bolinho de Jesus, vendidos em 

Salvador por evangélicos protestantes numa tentativa de comercializar o acarajé 

apagando a cultura afrodescendente e toda a sua simbologia religiosa em relação 

ao bolinho frito em azeite de dendê. 

Para este trabalho, tomamos como corpus de análise o cardápio trilíngue 

promovido pela ABAM (Associação das Baianas de Acarajé e Mingau) junto ao 

SEBRAE desenvolvido para atender aos turistas por ocasião da Copa do Mundo 

de  2014  (conforme  FERREIRA, 2013).  O cardápio em português, inglês e 

espanhol  expõe a complexidade da tradução gastronômica e, mais 

especificamente, de um objeto particular da gastronomia afro-brasileira. 

 




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