A tomada de lisboa



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A TOMADA DE LISBOA
CONFORME DOCUMENTO COEVO DE UM CÓDICE HEBRAICO DA BIBLIOTECA NACIONAL
Elegia de Rabi Abraham Ibn Ezra (1092-1167) sobre a Tomada de Lisboa
Pequeno manuscrito hebraico de forma oblonga, de 64 folhas de pergaminho de 14,5 x 10 cms., com a encadernação de carneira despegada. Vê-se logo que o livro está incompleto na parte final, podendo calcular-se, pela lombada da encadernação, que devem faltar-lhe umas duas folhas. Não tem quaisquer iluminuras, sendo de estranhar que fosse catalogado como “iluminado”.
Ao iniciarmos o estudo do códice, cumpre-nos agradecer à Ex.ma Sr.a D. Carolina Gil Pereira Nunes Claro, ilustre chefe dos Reservados da Biblioteca Nacional, pelas facilidades que obsequiosamente nos prestou no desempenho do nosso trabalho e na obtenção das fotocopias que neste estudo se publicam. Bem haja!

Este livrito, que por milagre escapou à sanha destruidora do Santo Ofício, devia pertencer, no século XV, a qualquer pessoa particular ou Comunidade israelita portuguesa ou espanhola. Por indicação existente na capa sabe-se que, no século XVIII, fazia parte da colecção bibliográfica do ilustre prelado de Beja, Frei Manuel do Cenáculo, mais tarde arcebispo de Évora, o qual o deu «em dádiva", conforme reza o texto, ao eminente académico e insigne hebraista António Ribeiro dos Santos, autor das notáveis "Memórias da Literatura Sagrada dos Judeus Portugueses" publicadas pela Real Academia das Ciências de Lisboa, nas Memórias de Literatura Portuguesa, tomos II a VIII (1702-1812).


Frei Manuel do Cenáculo, estava igualmente empenhado no salvamento e conservação de relíquias hebraicas em Portugal, de que juntou algumas na sua colecção particular, que ficou integrada no Museu de Évora. Deve-se-lhe principalmente a salvação, depois do terramoto de 1755, da lápide com inscrição hebraica da antiga sinagoga de Lisboa de 1307. Esta lápide, que jazia fendida nos destroços do edifício da antiga sinagoga, foi amorosamente recolhida pelo eminente prelado de Beja e levada para a sua diocese, de onde transitou para o Museu de Évora. Actualmente, constitui uma das jóias paleograficas do Museu Luso-Hebraico de Tomar.
Mas voltemos ao estudo do Manuscrito:

O seu titulo hebraico é: Tikun Le-Leil Tet Be-Ab, que se traduz por: "Liturgia para a noite do dia 9 do mês de Ab". O mês de Ab é o penúltimo mês do ano judaico, ou ainda o quinto do seu ano agrícola, aproximadamente entre Julho e Agosto. O dia 9 do mês de Ab é o aniversário da conquista de Jerusalém e destruição do Templo (Templo Salomónico) pelos exércitos babilónicos de Nabucodonosor, no ano 586 antes de Cristo.


Dá-se o caso de que o 2.0 Templo de Jerusalém, construído por Herodes, arrasado e incendiado pelos exércitos romanos de Tito, o foi igualmente num dia 9 de Ab, do ano 70 da era cristã, pelo que os judeus consideram este fatídico dia como luto nacional, celebrando-o com rigoroso jejum e pranteando as Lamentações de Jeremias e de Job.
Durante a noite recitam também diversas outras elegias do martirológio judaico, das quais o manuscrito da Biblioteca Nacional contém uma colectânea muito curiosa e rara, a ponto de a famosa Biblioteca hebraica de Cincinati ter encomendado um microfilme do seu texto.
Não se conhece a data do Manuscrito, por lhe faltar a página final, onde se mencionam habitualmente o nome do copista, a data e a pessoa ou comunidade em intenção da qual o manuscrito se estava preparando. Todavia, há possibilidade de deduzir a data de um manuscrito hebraico pelo exame de certas particularidades da sua escrita, o que nos permitiu atribuir ao Manuscrito, objecto de nosso estudo, a data aproximada do século XV, como teremos ocasião de adiante explicar.
Este Códice contém 96 elegias, numeradas por letras hebraicas, que, como se sabe, valem também como números. Sabe-se assim que não falta nenhuma página, além das páginas finais, de que já falámos. A actual numeração das folhas é moderna e feita pela própria Biblioteca Nacional. As primeiras 13 elegias - até à folha 12 - são parecidas com as elegias da liturgia judaica moderna, embora com certas variantes no texto litúrgico em uso nas comunidades israelitas de rito sefardi (Peninsular). As restantes elegias são menos conhecidas e referem-se principalmente a perseguições de que foram vítimas diversas comunidades judaicas espanholas, como as de Sevilha, Toledo, Córdova, Burgos, Valença, Baeza, Toro e outras.
A última elegia, que tem o número 96, refere-se à Tomada de Lisboa pelos Cruzados e é da autoria do Rabi Abraham Ibn Ezra, eminente poeta e sábio espanhol que floresceu no século XII.
E a única elegia de que nos ocuparemos neste estudo. Achamos, todavia, interessante dar previamente uma resumida resenha biográfica do seu autor, coevo da conquista de Lisboa.
Abraham ben Mair Ibn Ezra, que pertenceu a uma das mais eminentes famílias judaicas de Espanha, nasceu em Toledo em 1092. Viveu e trabalhou em Córdova, terra da naturalidade do grande filósofo Maimónides, de quem era contemporâneo.
Era condiscípulo (e provavelmente também parente) do eminente exegeta Moses Ibn Ezra, e do maior poeta hebraico de todos os tempos, Jehuda Ha-Levi.
Estava-se então na idade de ouro do judaísmo espanhol, e Córdova era um dos centros de cultura judaica.
Em 1137, Abraham Ibn Ezra deixou a sua pátria, indo viajar e viver em França, Itália (Roma) e África do Norte, principalmente em Marrocos. Antes de morrer desejou, todavia, voltar a Espanha, tendo falecido em 2 de Janeiro de 1167 em Calahora, na sua viagem de regresso à pátria.
Além de outras obras, Abraham Ibn Ezra deixou muitas composições poéticas, das quais 200 foram publicadas pelo Dr. Jacob Egers, sob o título de Divan (Berlim 1886), onde existem três elegias, das quais uma, que se refere à Tomada de Lisboa, é idêntica embora com algumas variantes, devidas a erros de copistas, à elegia no 96 do manuscrito da Biblioteca Nacional.
Para mais perfeito estudo dessa elegia publicamo-la em fac-simile em ambas as versões e, para as distinguir, chamaremos à do manuscrito da Biblioteca Nacional “versão do Manuscrito” e à outra “versão do Divan”.
Das duas outras elegias do mesmo autor, publicadas no “Divan”, uma refere-se à Espanha, e mais especialmente, às cidades de Sevilha, Córdova, Almeria e Maiorca, e a outra a cidades marroquinas. tais como Marraquexe, Fez, Tlemcen, Mequinês e outras.
O manuscrito da Biblioteca Nacional que, como dissemos, acaba pela elegia sobre a Tomada de Lisboa, contém ainda as duas primeiras linhas da elegia referente à Espanha, que começa por Sevilha, seguindo-se, sem qualquer intervalo de separação, à elegia referente a Lisboa. Mais adiante explicaremos os porquês da supressão do intervalo entre as duas elegias por parte do copista do manuscrito da Biblioteca Nacional.
O Códice acaba ai, faltando-lhe, consequentemente, o fim - ou seja a maior parte - da segunda elegia, bem como a totalidade da terceira, referente a Marrocos, obra do mesmo autor.
Foram, sem dúvida, estas duas elegias que existiam nas duas folhas de pergaminho que, pelo simples exame da encadernação, se presume faltarem no final do Manuscrito.
Publicamos também a página do rosto, que é apenas a primeira página do texto do Códice, encimado pelo titulo da obra, por essa página nos proporcionar a possibilidade de podermos determinar a data aproximada do Manuscrito, como adiante explicaremos.
Todavia, para cabal inteligência do que vamos expor, é-nos forçoso dar previamente, para os leitores leigos em matéria de hebraísmo, a seguinte explicação:
O tetragrama J H V H, com o qual se representa nos textos bíblicos a ideia de Deus, não forma, na lingua hebraica, uma palavra vulgar pronunciável, mas sim um ideograma, muito embora os não judeus tenham o costume de o pronunciar Jehova ou Jahvé, conforme os seus sinais vogais. Como se sabe, o hebraico, como as demais linguas orientais. escreve-se só com consoantes, sendo as vogais representadas por sinais colocados por baixo - algumas vezes também por cima ou no meio - das letras, que se escrevem da direita para a esquerda.

O tetragrama J H V H, por ser inefável como ideograma, não tem pronuncia literal, lendo-se em hebraico: Adonai, que equivale a “Meu Senhor”.


Contudo, o tetragrama tem significado particular. E, com eleito, constituído pelos três tempos: passado, presente e futuro, do verbo SER - em hebraico HAVA - e é suposto representar a divina eternidade (1).
(1) Além da forma ideográfica, existem em hebraico outras formas para designar Deus, por meio de palavras vulgares, como por exemplo, pela palavra EL, ou no plural ELOHIM, que é pronunciável e se pode traduzir por: Omnipotente.
Fora do tetragrama, acima mencionado, existem em hebraico ainda outras formas ideográficas para designar Deus que se utilizam cm textos profanos extra-bíblicos.
Uma delas, muito curiosa, empregada desde o principio da Idade Média, é constituída por um trigrama, formado por três letras iude - que é a letra mais pequena do alfabeto hebraico - dispostas em forma de triângulo isósceles, uma em cima e duas em baixo.
Sendo a forma da letra iude um simples ponto, prolongado por um pequeno traço do lado direito, o trigrama apresenta aproximadamente um conjunto de três pontos dispostos em triangulo. Trata-se, evidentemente, de um ideograma, que, como o tetragrama, os judeus lêem Adonai. Cremos que a concepção do trigrama provém do “trigono mágico” dos gregos.
Enquanto que o tetragrama ficou estável, sem nunca ter mudado de forma, o seu parceiro trigrama tem variado de aspecto desde o século XIII, por razões fáceis de compreender, acabando por desaparecer por completo no século XVI, substituído pelo digrama ou bigrama e por monogramas, na século XVII.
Felizmente, possuímos em Portugal bastantes exemplos das sucessivas transformações do trigrama, com datas certas, que permitem determinar a sua cronografia.
Temo-los, entre outros, nos incunábulos hebraicos, impressos em Portugal e nas inscrições hebraicas existentes no Museu Luso-Hebraico de Tomar, onde ficaram esculpidas na pedra.
Assim, por exemplo, na lápide proveniente da sinagoga de Belmonte, que data do ano 1297, e é a lápide mais antiga do Museu Luso-Hebraico de Tomar, encontramos o trigrama teogónico na sua forma mais antiga, que é a dos três iudes dispostos em triângulo isósceles, sem nenhum traço de união lateral, figura 1.


Outros exemplos da forma primitiva do trigrama encontram-se na famosa Bíblia manuscrita em pergaminho, que data do ano 1300, e que constitui uma das mais valiosas jóias entre os manuscritos iluminados da Biblioteca Nacional. No texto bíblico, propriamente dito, encontra-se única e exclusivamente o tetragrama. Porém, nos diversos textos extra-biblicos, que existem no dito códice, antes e depois do texto da Escritura Sagrada, aparecem exemplares de trigrama na sua forma inicial. Não vale a pena citá-los todos, contentando-nos com os dois exemplares característicos existentes na folha, logo a seguir ao texto bíblico. Nessa folha, conforme é uso, menciona-se o nome do distinto copista, que era Rabi Abraham Ibn Natan, a data, que foi a de 5060 do computo judaico, que corresponde ao ano de 1300 da era cristã, etc.
Na parte final da dita folha encontram-se dois bonitos exemplares de trigrama, sendo o primeiro na sua forma triangular simples, sem traço de união exterior, e o segundo com um ligeiro e incipiente traço de união do lado esquerdo, o que prova que os traços de união nos trigramas começaram a usar-se desde o principio do século XIV, figura 2.
Com efeito, numa outra lápide hebraica do mesmo Museu, na lápide proveniente da antiga sinagoga de Lisboa. cuja inscrição indica a data de 1307, também existem dois exemplares de trigrama em forma de triangulo, acrescidos de traço de união arqueado, aposto ao lado esquerdo, figura 3.

O mesmo sucede nos incunábulos hebraicos impressos em Portugal, que datam dos últimos decénios do século XV, onde já existe a visível tendência de englobar a terceira letra cimeira no traço de união (Vide, Bibliografia Gera1 Portuguesa, da Academia das Ciências, Lisboa, 1941, págs. 10, 11, 12, 13, etc.).


A razão das transformações do trigrama divino foi, sem dúvida, a de evitar a sua confusão com a Trindade.
Desde então o trigrama começa a degenerar. Da sua forma inicial de três iudes em triângulo isósceles, passou, a pouco e pouco, à forma de triângulo rectângulo, munido de traço de união lateral tendente a englobar a letra cimeira e confundi-la com o próprio traço de união. A letra cimeira acabou por desaparecer completamente, por alturas do século XVI, reduzindo o trigrama a digrama (ou bigrama), constituído por dois iudes em linha recta.

O digrama foi, por sua vez, substituído, no século XVII, por monogramas, constituídos por letras únicas, o “d” (dalet) e “h” (hei), encimadas por dois tracinhos, grafia mais conforme com a ideia monoteísta Judaica (2).





Pedimos desculpa de todo este indigesto arrazoado de tetragrama, trigrama, bigrama, etc. que nos vimos obrigados a trazer à colação para podermos explicar a razão pela qual nos foi possível determinar a data aproximada do manuscrito hebraico da Biblioteca Nacional, que estamos estudando.
Para este efeito, publicamos o fac-simile da primeira página do dito manuscrito (fig. 4), onde se encontram dois nítidos exemplares de trigrama, um, na quarta linha e o outro, na linha final, que nos fornecem a chave para a determinação da data do Manuscrito.
Para melhor compreensão, sublinhamos os trigramas nas figuras 1, 2, 3 e 4, para que os leitores, sem perceber nada de hebraico, possam seguir o nosso raciocínio.
No primeiro trigrama, da figura 4, a letra iude cimeira, separada nitidamente do traço de união lateral, parece formar, com as duas letras de baixo, um triangulo recto. No segundo trigrama, a letra iude cimeira fica ainda mais deslocada para a esquerda e quase englobada no traço de união. Este segundo trigrama marca perfeitamente uma data quatrocentista.
Determinada a data aproximada do Manuscrito. que prova que não se trata de um original mas de um apógrafo do século XV, voltemos ao estudo da elegia sobre a Tomada de Lisboa.
(2) A mudança do trigrama não escapou à clarividente observação do insigne hebraista António Ribeiro dos Santos que nas suas Memorias Da Literatura Sagrada dos Judeus Portugueses, de que já falamos vol. II, pags 278/9, diz:
Nos antigos exemplares Mss dos Judeus o nome de Jehova aparecia sempre escrito com três Jodhs, … e nesta maneira de escrever entenderão muitos dos antigos e modernos, que se ocultava hum mysterio e se denotavao as três Pessoas da Trindade. Porém os Judeos que negao porfiosamente este mysterio, vendo que os Christaos se podiam apoiar no argumento Cabbalistico, que se formava desta maneira de escrever o nome de Jehova, mudarao de estilo, e começárão de escrever este nome com quatro letras, como se ve principalmente nos Mss Alemães, e até negárão que os seus maiores o escrevessem de outra sorte.”
Pelo trecho acima citado vê-se que o distinto académico, posto que pressentisse exactamente a razão do abandono da grafia dos três iudes (ou Jodhs, como escreve Ribeiro dos Santos), faz contudo confusão com a leitura Jehova do tetragrama. Além disso, contrariamente ao que afirma Ribeiro dos Santos, o tetragrama constitui a forma mais antiga. A sua proveniência ascende às origens do Judaísmo, talvez ao próprio Moisés, enquanto que o trigrama é muito mais recente e a sua introdução não deve ser anterior ao século X da era cristã.



A data da composição da elegia não pode ser muito afastada da própria data da Tomada de Lisboa, pelo facto do autor da elegia ter falecido apenas 20 anos depois. As suas obras poéticas e outras iam sendo copiadas desde 1167, data do seu falecimento, não sendo de estranhar que, no andar dos séculos, erros gráficos se tenham introduzido e que textos da mesma poesia, mas de origem diferente, apresentem variantes, que até podem ser aproveitadas para os corrigir e completar. E o que conseguimos fazer à elegia da Tomada de Lisboa, objecto do nosso estudo.
Possuímos, como já dissemos, duas versões do mesmo poema, sendo uma do Manuscrito, cujo fac-simile publicamos na figura 5, e outra, mais completa e melhor apresentada, proveniente da colectânea do “Divan”, cujo fac-simile publicamos na figura 6.


Ambas as versões têm erros gráficos, embora a do Manuscrito seja a que tenha mais desleixos de copista. Ambas, todavia, nos serviram utilmente para podermos apresentar uma tradução completa e mais exacta do poema.
Pelo estudo comparativo das duas versões, veremos que o copista do Manuscrito, além de erros gráficos vulgares e habituais - errare humanum est - cometeu ainda verdadeiros descuidos, saltando, por exemplo, uma linha inteira, não repetindo, para poupar espaço, palavras duplicadas, nem sequer quando a duplicação obedece a um texto bíblico formal, suprimindo o estribilho no final do poema, apesar da dita repetição ser necessária para o complemento das rimas, e não deixando, finalmente, nenhum intervalo entre o fim da elegia sobre Lisboa e o começo da elegia seguinte que já se refere a Espanha. O copista do Manuscrito parecia mais cioso em aproveitar todo o espaço possível das folhas de pergaminho que vinha preenchendo do que em apresentar os versos e as rimas na sua devida forma clássica, como fez o copista do “Divan”. Para dividir os versos, o poupado copista do Manuscrito marcou as rimas intermediárias por traços simples, em forma de apóstrofe, e as rimas finais por traços duplos, como se vê na figura 5, o que lhe permitia escrever os versos sem os separar.
Ao leitor inexperiente na grafia hebraica não será fácil comparar as palavras e as linhas nas duas versões. Para facilitar a comparação, lembrámo-nos de marcar, com traços verticais, o começo e o final da elegia, abstracção feita da repetição do estribilho no fim do poema, que só existe na versão do “Divan”, (fig. 6), sublinhando com traços horizontais as palavras ULISSANA, nome dado a Lisboa, e as que representam a data da sua conquista. Repetimos que o hebraico se lê da direita para a esquerda.
Estudando a versão do Manuscrito, (fig, 5) diremos que a primeira palavra com letras maiores representa o vocábulo KINA, que significa: Elegia, que é seguido pelo nome do autor, Rabi Abraham lbn Ezra, e a evocação à sua memoria., conforme se vê na tradução.

As duas palavras seguintes constituem o primeiro verso da elegia, sendo as duas letras separadas, que se vêem na margem esquerda, encimadas por dois leves traços, as que indicam o número de ordem 96.


Na versão da figura 6, vê-se também, na margem direita, uma letra isolada, sinal de outra numeração que não interessa ao nosso estudo, sendo as primeiras palavras, com que principia a elegia, idênticas às últimas palavras da primeira linha da figura 6.
Na versão do “Divan”, (fig. 6), não se menciona o nome do autor porque todas as poesias do “Divan” são do mesmo autor.


A segunda linha da versão da figura 6, falta completamente na versão da figura 5.
O salto de uma linha inteira constitui a mais grave falta do copista do Manuscrito.
Quanto à própria elegia sobre a Tomada de Lisboa, forma ela, no seu original hebraico, um admirável poema de ritmo equilibrado e harmonioso, repassado por intimo e fundo sentimento de dor e de mágoa, que, infelizmente, não foi dado às nossas apoucadas possibilidades literárias transmitir condignamente à nossa desluzida tradução, cujo único mérito talvez seja o de ser fiel e rigorosa.
O ritmo equilibrado de que falámos é constituído pela divisão de cada linha em três partes, das quais as duas primeiras são formadas, cada uma, por duas palavras curtas e incisivas, de quatro sílabas, sendo as terceiras partes, no fim de cada linha, formadas por três palavras com o total de seis sílabas.
As duas primeiras partes de cada linha são constituídas por versos que rimam entre si, rimando também entre si as palavras lineares finais, que obedecem à mesma rima sónica.
Há algumas excepções, mas muito poucas, que, pela licença poética, não derogam a regra geral de que acima falámos.

As rimas lineares finais correspondem, em geral, à expressão sónica de “ana” (exceptuando uma que acaba em "ina” ), salvo as do estribilho que acabam em “aim”, bem como a última linha do poema, que também acaba em “aim”, o que prova que deve ser seguida da repetição do estribilho inicial.


Infelizmente, o bisonho copista do Manuscrito não o entendeu assim, resolvendo não repetir o estribilho ...
Outra observação prévia: Na versão do “Divan” a elegia vem publicada inteiramente numa só página que reproduzimos na figura 6. Já não acontece o mesmo na versão do Manuscrito, que começa na folha 64 em baixo, onde existem apenas as três primeiras linhas do poema, e continua no verso da mesma folha, onde acaba, e onde, logo a seguir, começa o texto de outra elegia do mesmo autor, relativa à Espanha, como já acima dissemos. Todavia, para facilitar a comparação entre as duas versões, juntámos as reproduções fotográficas de ambas as partes da elegia do Manuscrito, publicando-as ligadas numa só fotocopia, na figura 5.

Que o delito confessado seja meio perdoado!

Chegámos finalmente à parte mais importante das nossas considerações:
Vem logo a talho de foice o nome dado a Lisboa, que é ULISSANA na versão do Manuscrito e ELIOSSANA na do “Divan”. Nenhum deles é exacto.
A corrupção do nome da cidade conquistada aos mouros poderia atribuir-se aos copistas. Os pobres copistas têm as costas largas. No presente caso, porém, ficam ilibados de culpa. O erro procede da própria origem, o que se prova pela rima linear dos versos, que, como acima dissemos, está vocalizada pela expressão sónica de “ana”. Encontrando-se o nome da cidade no final de uma linha, a sua terminação em “ana” deve ser exacta e corresponder à que existia realmente no original. Não é provável pois que no original figurasse o nome de ULISIPONA ou OLISIPONA, devendo a culpa de viciação do nome ser, consequentemente, atribuída ao próprio autor do poema, o qual, encontrando-se naquele tempo fora da Ibéria, em viagem algures por Marrocos, a noticia da Tomada de Lisboa deve ter-lhe chegado com certo atraso e certas deformações de pormenor.
Na nossa tradução optámos pela grafia que figura na versão do Manuscrito, ou seja ULISSANA, que se nos afigura ser a que mais deve concordar com o original. Escusado será dizer que o duplo “s” que empregamos não provém do texto hebraico, onde a palavra ULISSANA se escreve com um só "'s'', quer dizer, com uma só letra hebraica que corresponde a “s”.
Passamos agora à última parte da nossa, já tão extensa, exposição, para tratarmos da data da Tomada de Lisboa, indicada na elegia do poeta judaico coevo. Em ambas as versões a data que figura é de Mil e setenta. Conforme o costume judaico de então, as datas eram contadas desde a queda do Templo de Jerusalém, destruído pelos exércitos romanos no ano 70 da era cristã, o que perfazia, para a Tomada de Lisboa, a data de 1140, cm vez de 1147 (3).
Esta pequena diferença de data poder-se-ia imputar igualmente ao próprio autor da elegia. Todavia, neste ponto, bem que a data em ambas as versões fosse a mesma, existe contudo uma ligeira diferença de texto a assinalar entre elas, na redacção da mesma data, o que nos dará o ensejo de deitarmos, mais uma vez, a culpa aos pobres copistas ...
Com efeito, se compararmos, nas figuras 5 e 6, as porções de texto que exprimem a data, textos que intencionalmente sublinhamos para que possam ser comparados por pessoas leigas na língua hebraica, veremos que, enquanto na versão do Manuscrito (fig. 5), a data esteja expressa por três palavras, na versão do “Divan” (fig. 6), figura com quatro palavras. Vamos traduzi-las:

As três palavras da figura 5 traduzem-se por “Mil e setenta anos” (a conjunção “e” fica ligada, em forma de prefixo, à palavra setenta) e as quatro palavras, da figura 6 rezam: “Mil anos e setenta anos”.


(3) Não é verosímil que se trate da tentativa de conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques de 1140, que falhou, embora podesse, talvez, dar lugar a certa confusão de datas ….

Semelhante repetição da palavra anos não é, na verdade, contrária ao carácter da lingua hebraica, principalmente em versos.


Estudando a questão do ponto de visto rítmico, devemos advertir previamente, que a palavra Mil (em hebraico Elef) pertence, nas duas versões, ao verso antecedente ao do fim de linha, que exprime o resto da data.
Resulta de ai que, na versão da figura 6 -se não contarmos com a palavra Mil, conforme acima explicámos - o ultimo verso da terceiro linha, que exprime o resto da data, fica constituído por três palavras, em concordância com a regra geral do poema, de que acima falámos, todavia o número de sílabas reduzidas a 5 – em vez de 6 - o que ainda pode ser considerado normal.
Todavia, na versão do Manuscrito, (fig. 5), o mesmo verso final relativo à data, fica constituído apenas por duas palavras - em vez de três -, sendo o numero total de sílabas reduzido a 5 - em vez de 6 - o que não está de acordo com a regra geral.
Como acima dissemos, a diferença no numero de palavras na formulação da data, presta-se a conjecturas acerca da sua possível deturpação. E possível, com efeito, que qualquer copista primitivo tivesse mudado, por engano, a palavra hebraica cheva (sete) em chanim (anos), palavras cujas letras hebraicas podem possivelmente confundir-se.
Se assim realmente aconteceu, o texto hebraico primitivo, referente à data, teria sido:


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