A “SÍndrome” normal da adolescência



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A “SÍNDROME” NORMAL DA ADOLESCÊNCIA 
 
A adolescência é um processo de desenvolvimento do ser humano no qual se deve admitir e 
compreender sua aparente patologia a fim de conhecer a realidade do adolescente, que passa por 
desequilíbrios e instabilidades extremas. Em nosso meio cultural, mostra-nos períodos de audácia, 
timidez, descoordenação, urgência, desinteresse ou apatia, que se sucedem ou são concomitantes 
com conflitos afetivos, crises religiosas nas quais pode oscilar do ateísmo anárquico ao misticismo 
fervoroso, intelectualizações e postulações filosóficas, ascetismo, condutas sexuais dirigidas para o 
heteroerotismo e até a homossexualidade ocasional. Tudo isto é o que chamamos de “síndrome 
normal da adolescência”.
O adolescente tem que conviver com a superação de três lutos correspondentes às perdas do 
corpo infantil, da identidade da infância e da figura protetora dos pais e, a maior ou menor 
anormalidade desta síndrome normal dever-se-á, em grande parte, aos processos de identificação e 
de luto que tenha podido realizar o adolescente. Na medida em que tenha elaborado os lutos o 
adolescente verá seu mundo interno mais fortificado e, então, essa fase de “normal anormalidade” 
será menos conflitiva e, consequentemente, menos perturbadora. 
Sintetizando as características da adolescência pode-se descrever a seguinte sintomatologia 
que integraria esta síndrome: 1) busca de si mesmo e da identidade; 2) tendência grupal; 3) 
necessidade de intelectualizar e fantasiar; 4) crises religiosas; 5) deslocalização temporal; 6) 
evolução sexual manifesta; 7) atitude social; 8) contradições sucessivas em todas as 
manifestações da conduta; 9) separação progressiva dos pais; e 10) constantes flutuações do 
humor e do estado de ânimo.
1. BUSCA DE SI MESMO E DA IDENTIDADE 
Os períodos infância e adolescência não devem ser vistos como preparação para a maturidade, 
mas é necessário compreendê-los com um critério do momento atual do desenvolvimento e do 
comportamento do adolescente. A criança entra na adolescência com dificuldades, conflitos e 
incertezas que se acentuam nesse momento vital, para evoluir em direção à maturidade 
estabilizada com determinado caráter e personalidade adultos. A consequência final da 
adolescência seria um conhecimento de si mesmo como entidade biológica no mundo. Ao 
conceito do self como entidade psicológica, une-se o conhecimento do substrato físico e biológico 
da personalidade.
Durante a puberdade ocorrem mudanças físicas responsáveis pelo aumento do tamanho, do 
peso, das proporções e da fisiologia corporal e, consequentemente, da imagem corporal que é 
uma resultante intrapsíquica da realidade do sujeito, ou seja, é a representação mental que o 
sujeito tem de seu próprio corpo. Aqui são de fundamental importância os processos de luto com 
relação ao corpo infantil perdido, que obrigam a uma modificação do esquema corporal e do 
conhecimento físico de si mesmo, uma forma muito característica para este período.
Concomitantemente, vai se formando um sentimento de identidade, como uma verdadeira 
experiência de autoconhecimento. 
Nessa busca de identidade o adolescente recorre às situações que se apresentam como mais 
favoráveis no momento. Uma delas é a da uniformidade, que proporciona segurança e estima 
pessoal. Em certas ocasiões, a única solução pode ser a de procurar "uma identidade negativa", 
baseada em identificações com figuras negativas, mas reais. É preferível ser alguém perverso, 



indesejável, a não ser nada. Isto constitui uma das bases do problema das turmas de 
delinquentes, dos adeptos aos comportamentos radicais e às drogas, por exemplo.
Tudo o que foi dito anteriormente pode levar o adolescente a adotar diferentes identidades. As 
identidades transitórias são as adotadas durante certo tempo, como, por exemplo, o período de 
machismo no rapaz ou da precoce sedução na moça, do adolescente bebê ou do adolescente 
muito sério, muito adulto; as identidades ocasionais são as que se dão frente a situações novas, 
como, por exemplo, no primeiro encontro com um parceiro, o primeiro baile, etc., e as 
identidades circunstanciais são as que conduzem a identificações parciais transitórias que 
costumam confundir o adulto, surpreendido, às vezes, ante às mudanças na conduta de um 
mesmo adolescente que recorre a esse tipo de identidade, como, por exemplo, quando o pai vê 
seu filho adolescente, conforme é visto no colégio, no clube, etc., e não como ele habitualmente o 
vê no seu lar e na sua relação com ele mesmo. 
Estes tipos de identidade são adotados sucessiva ou simultaneamente pelos adolescentes 
conforme as circunstâncias. São aspectos da identidade adolescente e que surgem como uma de 
suas características fundamentais, relacionadas com o processo de separação das figuras 
parentais, com aceitação de uma identidade independente. Na adolescência tudo isso acontece 
com uma intensidade muito marcada. A situação mutável que significa a adolescência obriga a 
reestruturações permanentes externas e internas que são vividas como intrusões dentro do 
equilíbrio conquistado na infância e que obrigam o adolescente, no processo de conquistar a sua 
identidade, a tentar refugiar-se em seu passado enquanto tenta também projetar-se no futuro. 
Realiza um verdadeiro processo de luto pelo qual, no início, nega a perda de suas condições 
infantis e tem dificuldades em aceitar as realidades mais adultas que vão sendo impostas, entre as 
quais se encontram as modificações biológicas e morfológicas do seu próprio corpo. A 
descoordenação muscular, devido ao desigual crescimento osteomuscular, o aspecto desajeitado, 
a falta de semelhança com os que o rodeiam no meio familiar despertam, no adolescente, 
sentimentos de estranheza e insatisfação. Isso contribui para criar um sentimento de 
despersonalização unido à elaboração psicológica da identidade.
Os processos de identificação que foram se desenvolvendo na infância, mediante a 
incorporação de imagens parentais boas e más, são os que permitirão melhor elaboração das 
situações mutáveis que se tornam difíceis durante o período adolescente da vida. A busca 
incessante de saber qual a identidade adulta que se vai constituir é angustiante.
Sobre essa base é lógico assinalar que a identidade adolescente é a que se caracteriza pela 
mudança de relação do indivíduo, basicamente com seus pais. Logicamente, a separação destes 
começa desde o nascimento, mas é durante a adolescência que os seres humanos "querem 
desesperadamente ser eles mesmos". Dentro de sua identidade os elementos biológicos 
introduzem uma modificação irreversível. Já não terá novamente o corpo infantil. A presença 
externa, concreta, dos pais começa a ser desnecessária. Portanto, a separação destes não só é 
possível, como necessária.
2. A TENDÊNCIA GRUPAL 
Na busca da identidade adolescente, o indivíduo, nessa etapa da vida, recorre como 
comportamento defensivo à busca de uniformidade, que pode proporcionar segurança e estima 
pessoal. Aí surge o espírito de grupo pelo qual o adolescente mostra-se tão inclinado. Há um 
processo de superidentificação em massa, onde todos se identificam com cada um. Às vezes, o 



processo é tão intenso que a separação do grupo parece quase impossível e o indivíduo pertence 
mais ao grupo de semelhantes do que ao grupo familiar. Não pode se separar da turma nem de 
suas atividades ou ações. Por isso, inclina-se às regras do grupo, em relação a modas, vestimenta, 
costumes, preferências de todos os tipos, etc. Em outro nível, as atuações do grupo e dos seus 
integrantes representam a oposição às figuras parentais e uma maneira ativa de determinar uma 
identidade diferente da do meio familiar. No grupo, o indivíduo adolescente encontra o reforço 
necessário para os aspectos mutáveis de seu ego que se produzem nesse período da vida. 
Dessa maneira, o fenômeno grupal adquire importância transcendental já que se transfere ao 
grupo grande parte da dependência que anteriormente se mantinha com a estrutura familiar e 
com os pais, especialmente. O grupo constitui assim a transição necessária no mundo externo 
para alcançar a individualização adulta. Depois de passar pela experiência grupal, o indivíduo 
poderá começar a separar-se da turma e assumir a sua identidade adulta. Vê-se também que uma 
das lutas mais intensas é a que se desenvolve em defesa da independência, num momento em 
que os pais desempenham ainda um papel muito ativo na vida do indivíduo. É por isso que no 
fenômeno grupal o adolescente procura um líder ao qual submeter-se, ou então, elege-se ele 
mesmo em líder para exercer o poder do pai ou da mãe. 
O fenômeno grupal facilita a conduta “psicopática normal no adolescente”, como se enfatizará 
em outros capítulos deste texto. O descontrole frente à perda do corpo infantil une-se ao 
descontrole pelo papel infantil que se está perdendo. Aparecem, então, condutas de desafeto, de 
crueldade com o objeto, de indiferença, falta de responsabilidade, que são típicas da psicopatia, 
mas que podem ser encontradas na adolescência normal. Evidentemente, a diferença 
fundamental é que no psicopata essa conduta é permanente e cristalizada, enquanto que no 
adolescente normal é um momento circunstancial e transitório. 
3. NECESSIDADE DE INTELECTUALIZAR E FANTASIAR 
A necessidade de intelectualizar e fantasiar acontece como uma das formas típicas do 
pensamento do adolescente. A necessidade que a realidade impõe de renunciar ao corpo, ao 
papel e aos pais da infância, assim como à bissexualidade que acompanha a identidade infantil, 
apresenta-se como uma vivência de fracasso ou de impotência frente à realidade externa. Isso 
obriga também o adolescente a recorrer ao pensamento para compensar as perdas que ocorrem 
dentro de si mesmo e que não pode evitar. O fantasiar e o intelectualizar servem como 
mecanismos defensivos frente a essas situações de perdas dolorosas. 
A incessante flutuação da identidade adolescente, que se projeta como identidade adulta num 
futuro bem próximo, adquire características que costumam ser angustiantes e que obrigam a um 
refúgio interior que é muito característico. Tal fuga no mundo interior permite uma espécie de 
reajuste emocional no qual se dá um incremento da intelectualização que leva à preocupação por 
princípios éticos, filosóficos, sociais, que muitas vezes implicam formular um plano de vida muito 
diferente do que se tinha até esse momento. Surgem, então, as grandes teorias filosóficas, os 
movimentos políticos, as ideias de salvar a humanidade, etc. É também aí que o adolescente 
começa a escrever versos, novelas, contos e dedica-se a atividades literárias, artísticas, etc. É 
preciso destacar que esta é uma explicação de certas manifestações culturais e políticas que 
acontecem muito habitualmente na grande maioria dos adolescentes. 



4. AS CRISES RELIGIOSAS 
Quanto à religiosidade observa-se que o adolescente pode se manifestar como um ateu 
exacerbado ou como um místico muito fervoroso, como situações extremas. Logicamente, entre 
elas há uma grande variedade de posicionamentos religiosos e mudanças muito frequentes. É 
comum observar que um mesmo adolescente passa, inclusive, por períodos místicos ou de 
ateísmo absoluto. Isso está de acordo com toda a situação mutável e flutuante do seu mundo 
interno. A preocupação metafísica emerge então com grande intensidade e as tão frequentes 
crises religiosas são tentativas de soluções da angústia que vive o ego na sua busca de 
identificações positivas e do confronto com o fenômeno da morte definitiva de uma parte do seu 
ego corporal. Além disso, começa a enfrentar a separação definitiva dos pais e também a 
aceitação da possível morte dos mesmos. Isso explica como o adolescente pode chegar a ter tanta 
necessidade de fazer identificações projetivas com imagens muito idealizadas, que lhe garantam a 
continuidade da existência de si mesmo e de seus pais infantis. A figura de uma divindade, de 
qualquer tipo de religião, pode representar para ele uma saída mágica deste tipo. 
5. A DESLOCALIZAÇÃO TEMPORAL 
O pensamento do adolescente, tanto frente ao temporal como ao espacial, adquire 
características muito especiais. É possível dizer que o adolescente vive com uma “deslocalização” 
temporal, convertendo o tempo em presente e ativo numa tentativa de manejá-lo. As urgências 
são enormes e, às vezes, as postergações são aparentemente irracionais. O pai que recrimina o 
filho para que estude porque tem um exame imediato fica desconcertado frente à resposta do 
adolescente: "Eu tenho tempo, o exame é somente amanhã”. É o caso, igualmente 
desconcertante para os adultos, da jovem adolescente que chora angustiada frente a seu pai, 
queixando-se da atitude desconsiderada da mãe que não contempla as suas necessidades 
imediatas de ter esse vestido novo para seu próximo baile. Nessas circunstâncias o pai tenta 
solidarizar se com a urgência da filha e compreende a necessidade do vestido novo para essa 
reunião social tão importante para ela; quando interroga a mãe a respeito da sua negativa, fica 
surpreso com a resposta de que esse baile vai se realizar dentro de. . . três meses. 
6. A EVOLUÇÃO SEXUAL DESDE O AUTOEROTISMO ATÉ A HETEROSSEXUALIDADE 
Na evolução do autoerotismo à heterossexualidade que se observa no adolescente pode-se 
descrever um oscilar permanente entre a atividade de caráter masturbatório e o começo do 
exercício genital, que tem características especiais nessa fase do desenvolvimento, na qual há 
mais um contato genital de caráter exploratório e preparatório do que a verdadeira genitalidade 
procriativa, que só acontece com a correspondente capacidade de assumir o papel paternal no 
início da vida adulta. 
Ao ir aceitando sua genitalidade o adolescente inicia a busca do parceiro de maneira tímida, 
mas intensa. É o período em que começam os contatos superficiais, os carinhos - cada vez mais 
profundos e mais íntimos - que enchem a vida sexual do adolescente. O amor apaixonado é 
também um fenômeno que adquire características singulares nessa fase e que apresenta todo o 
aspecto dos vínculos intensos, porém frágeis, da relação interpessoal adolescente. O primeiro 
episódio de amor ocorre na adolescência precoce e costuma ser de grande intensidade. Aparece 



aí o chamado "amor à primeira vista", que pode ser não correspondido ou, inclusive, totalmente 
ignorado pela pessoa amada, como ocorre quando o ser amado é uma figura idealizada, como um 
ator de cinema, uma estrela do esporte, etc., que tem na realidade as características de um claro 
substituto parental ao qual o adolescente se vincula com fantasias edípicas.
A relação genital heterossexual completa que ocorre na adolescência tardia é um fenômeno 
muito mais frequente do que se considera habitualmente no mundo dos adultos de diferentes 
classes sociais. Esses tentam negar a genitalidade do adolescente e não só minimizam sua 
capacidade de relação genital heterossexual, mas também a dificultam. Ocorre aqui também o 
problema da curiosidade sexual, expressa no interesse pelas revistas e filmes pornográficos. O 
exibicionismo e o voyerismo se manifestam nas vestimentas, no cabelo, no tipo de danças, etc. 
Nesse período evolutivo a importância das figuras parentais reais é enorme. A cena primária é 
positiva ou negativa conforme as primeiras experiências e a imagem psicológica que os pais reais 
externos proporcionam. As mudanças biológicas que ocorrem na adolescência produzem grande 
ansiedade e preocupação porque o adolescente deve assisti-las passiva e impotentemente A 
tentativa de negar a perda do corpo e do papel infantil provoca modificações no esquema 
corporal que se tenta negar na elaboração dos processos de luto normais da adolescência. É 
normal que apareçam períodos de predomínio de aspectos femininos no rapaz e masculinos na 
moça. É preciso ter sempre presente o conceito de bissexualidade e aceitar que a posição 
heterossexual adulta exige um processo de flutuações e aprendizagem em ambos os papéis. 
Não devem ser estranhadas as situações fugazes de homossexualidade que o adolescente 
apresente, sobretudo, aquelas que aparecem mascaradas através de contatos entre adolescentes 
do mesmo sexo. A homossexualidade costuma ocorrer transitoriamente como uma manifestação 
típica da adolescência. 
7. ATITUDE SOCIAL REIVINDICATÓRIA 
Nem todo o processo da adolescência depende do próprio adolescente como pessoa isolada. 
Não há dúvidas de que a família é a primeira expressão social que influi e determina grande parte 
da conduta dos adolescentes. Sabe-se que muitos pais se angustiam frente ao crescimento de 
seus filhos, revivendo suas próprias situações conflitivas. Os pais não são alheios às ansiedades 
que desperta a genitalidade dos filhos, o desprendimento dos mesmos e os ciúmes que isso 
implica. Se a isso forem somados os mecanismos típicos do adolescente e a reação da sociedade 
na qual ele está inserido, pode-se verificar que toda a sociedade intervém ativamente na situação 
conflitiva do adolescente. As primeiras identificações são as que se fazem com as figuras 
parentais, mas também o meio em que vive determinará novas possibilidades de identificações 
futuras, aceitações de identificações parciais e incorporação de uma grande quantidade de 
demandas socioculturais e econômicas que não são possíveis de serem minimizadas. 
Na tentativa vital que apresenta o indivíduo para identificar-se com suas figuras parentais, e 
tentar depois superá-las na realidade da sua existência, o adolescente apresenta uma conduta 
que é o resultado final de uma estabilidade biológica e psíquica. A cultura modifica enormemente 
as características exteriores do processo, ainda que as dinâmicas intrínsecas do ser humano 
permaneçam as mesmas. A adolescência é recebida predominantemente de maneira hostil pelo 
mundo dos adultos criando-se estereótipos com os quais se tenta definir, caracterizar, assinalar e 
isolar os adolescentes do mundo dos adultos. Não é uma simples casualidade que a entrada na 
puberdade seja tão destacada em quase todas as culturas. Os chamados ritos de iniciação são 



muito diversos, mas têm fundamentalmente sempre a mesma base: a rivalidade que os pais do 
mesmo sexo sentem ao ter que aceitar como iguais - e posteriormente admitir a possibilidade de 
serem substituídos pelos mesmos - a seus filhos, que assim se identificam com eles. É muito 
conhecida a rigidez de alguns pais, as formalidades que exigem da conduta de seus filhos 
adolescentes, as limitações brutais que costumam impor, a ocultação maliciosa que fazem do 
aparecimento da sexualidade, o tabu da menarca, as negações de tipo moralista que contribuem 
para reforçar as ansiedades paranoicas dos adolescentes. 
Também são conhecidas a contradições da sociedade contemporânea onde possibilidades 
materiais para o ser humano são enormes. Entretanto, quando muitas se tornam praticamente 
impossíveis para o adolescente, sua atitude social reivindicatória torna-se praticamente 
imprescindível. 
A sociedade, mesmo manejada de diferentes maneiras e com diversos critérios 
socioeconômicos, impõe restrições. O adolescente tenta modificar a sociedade que, por outra 
parte, está vivendo constantemente modificações intensas. O adulto projeta no jovem a sua 
própria incapacidade em controlar o que está acontecendo ao seu redor e tenta, então, 
deslocalizar o adolescente. Muitas vezes as oportunidades para os adolescentes capazes estão 
muito restringidas e, em várias oportunidades, o adolescente tem que se adaptar, submetendo-se 
às necessidades que o mundo adulto lhe impõe. Na medida em que o adolescente não encontre 
o caminho adequado para a sua expressão vital e para a aceitação de uma possibilidade de 
realização, não poderá ser um adulto satisfeito. As demandas sociais e o domínio de um mundo 
adulto incompreensível e exigente acabam por instigar as atitudes reivindicatórias e de reforma 
social do adolescente, que podem ser a ação do que já ocorreu no seu pensamento.
Frente ao adolescente individual é preciso não esquecer que grande parte da oposição que se 
vive por parte dos pais é transferida ao campo social. Além disso, parte da frustração que significa 
fazer o luto pelos pais da infância projeta-se no mundo externo. Dessa maneira, o adolescente 
sente que não é ele quem muda, quem abandona o seu corpo e o seu papel infantil, mas que são 
os seus pais e a sociedade que se negam a seguir funcionando como pais infantis que têm com ele 
atitudes de cuidado e proteção ilimitados. Descarrega então contra eles o seu ódio e a sua inveja 
e desenvolve atitudes destrutivas.
8. CONTRADIÇÕES SUCESSIVAS EM TODAS AS MANIFESTAÇÕES DA CONDUTA 
A conduta do adolescente está dominada pela ação que constitui o modo de expressão mais 
típico nesses momentos da vida, em que até o pensamento precisa tornar-se ação para poder ser 
controlado. O adolescente não pode manter uma linha de conduta rígida, permanente e absoluta, 
pois tem uma personalidade permeável, que recebe tudo e que também projeta enormemente, 
ou seja, é uma personalidade na qual os processos de projeção e introjeção são intensos, variáveis 
e frequentes. Isso faz com que não possa ter uma linha de conduta determinada. No adolescente, 
um indício de normalidade se observa na fragilidade da sua organização defensiva. É o mundo 
adulto quem não suporta as mudanças de conduta do adolescente, quem não aceita que o 
adolescente possa ter identidades ocasionais, transitórias e circunstanciais, e exige dele uma 
identidade adulta. Essas contradições, com a variada utilização de defesas, facilitam a elaboração 
dos lutos típicos desse período da vida e caracterizam a identidade adolescente.



9. SEPARAÇÃO PROGRESSIVA DOS PAIS 
Uma das tarefas básicas, concomitante à identidade do adolescente, é a de ir separando-se dos 
pais, o que está favorecido pelo determinismo que as mudanças biológicas impõem nesse 
momento cronológico do indivíduo. Muitas vezes os pais negam o crescimento dos filhos e os 
filhos enxergam os pais com as características persecutórias mais acentuadas. A presença 
internalizada de boas imagens parentais, com papéis bem definidos, e uma cena primária 
amorosa e criativa, permitirá uma boa separação dos pais e facilitará ao adolescente a passagem 
à maturidade. Por outro lado, figuras parentais não muito estáveis nem bem definidas em seus 
papéis podem aparecer ante o adolescente como desvalorizadas e obrigá-lo a procurar 
identificação com personalidades mais consistentes e firmes, pelo menos num sentido 
compensatório ou idealizado. Nesses momentos a identificação com ídolos de diferentes tipos, 
cinematográficos, desportivos, etc., é muito frequente. Em certas ocasiões podem acontecer 
identificações de caráter psicopático, onde por meio da identificação introjetiva começa a viver os 
papéis que atribui ao personagem com o qual se identificou. 
Grande parte da relação com os pais está dissociada e estes são vistos então como figuras 
muito más ou muito boas, o que logicamente depende fundamentalmente de como foram 
introjetadas essas figuras. As identificações se fazem, então, com substitutos parentais como 
professores, heróis reais e imaginários, companheiros mais velhos, que adquirem características 
parentais, e podem começar a estabelecer relações que nesse momento satisfazem mais. 
10. CONSTANTES FLUTUAÇÕES DO HUMOR E DO ESTADO DE ÂNIMO 
Um sentimento básico de ansiedade e depressão acompanhará permanentemente o 
adolescente. A quantidade e a qualidade da elaboração dos lutos da adolescência determinarão a 
maior ou menor intensidade desta expressão e desses sentimentos. No processo de flutuações 
dolorosas permanentes, a realidade nem sempre satisfaz as aspirações do indivíduo. O ego realiza 
tentativas de conexão prazerosa com o mundo, que nem sempre se consegue, e a sensação de 
fracasso frente a esta busca de satisfações pode ser muito intensa e obrigar o indivíduo a se 
refugiar em si mesmo. Eis ai o retorno a si mesmo, que é tão singular no adolescente, e que pode 
dar origem a esse sentimento de solidão característico da típica situação de frustração e 
desalento e desse aborrecimento que "costuma ser uma característica distintiva do adolescente", 
que se refugia em si mesmo e no mundo interno que se foi formando durante sua infância.
A intensidade e a frequência dos processos de introjeção e projeção podem obrigar o 
adolescente a realizar rápidas modificações no seu estado de ânimo, já que se vê, de repente, 
submerso nas desesperanças mais profundas ou, quando elabora e supera os lutos, pode 
projetar-se numa presunção que muitas vezes costuma ser desmedida. As mudanças de humor 
são típicas da adolescência e é preciso entendê-las sobre a base dos mecanismos de projeção e de 
luto pela perda de objetos. Ao falharem essas tentativas de elaboração tais mudanças de humor 
podem aparecer como pequenas crises maníaco-depressivas.
Texto modificado a partir do original:
 
Aberastury A, Knobel M. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 
Editora Artmed, São Paulo, 2003. 

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