A seleção The Selection 01


parte  dos  quartos  de  visitas,  mas  não  se  preocupem:  ainda  temos  espaço



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parte  dos  quartos  de  visitas,  mas  não  se  preocupem:  ainda  temos  espaço 
para quem chegar.     
— Estas portas aqui dão para o jardim dos fundos. Olá, Hector. Olá, 
Markson. 
Os dois guardas à porta cumprimentaram com a cabeça. Demorou um 
pouco para eu reconhecer que a grande arcada à nossa direita era  a porta 
lateral  para  o  Grande  Salão,  o  que  significava  que  o  Salão  das  Mulheres 
ficava no próximo corredor à direita. Fiquei orgulhosa de mim mesma por 
ter percebido isso. O palácio era uma espécie de labirinto opulento.     
—  Vocês  não  podem  sair  do  palácio  em  nenhuma  circunstância  — 
prosseguiu Silvia. — Às vezes, durante o dia, poderão ir até o jardim, mas 


nunca  sem  permissão.  Isso  é  exclusivamente  para  manter  vocês  seguras. 
Apesar de nossos esforços, os rebeldes entraram no palácio uma vez.     
Um calafrio percorreu minha espinha.     
Entramos em um corredor e subimos as enormes escadas que davam 
para  o  segundo  andar.  Eu  sentia  tapetes  tão  espessos  sob  meus  pés  que 
tinha  a  impressão  de  afundar  um  centímetro  a  cada  passo.  A  luz 
atravessava janelas no alto; tudo cheirava a flores e raios de sol. As paredes 
estavam repletas de pinturas grandes que retratavam os reis do passado e 
alguns  líderes  americanos  e  canadenses.  Pelo  menos  era  isso  que  eu 
achava, já que nenhum deles usava coroa. 
—  As  coisas  de  vocês  já  estão  nos  quartos.  Se  não  gostarem  da 
decoração,  basta  avisar  as  criadas.  Cada  uma  de  vocês  tem  três,  e  elas 
também já estão nos quartos. Vão ajudar vocês a desfazer as malas e a se 
preparar para o jantar. Antes do jantar de hoje, vocês se reunirão no Salão 
das  Mulheres  para  uma  projeção  especial  do 
Jornal  Oficial  de  Illéa.
 
Semana  que  vem,  estarão  ao  vivo  no  programa!  Esta  noite  vocês  verão 
algumas  das  imagens  feitas  desde  quando  saíram  de  suas  casas  até  a 
chegada aqui. Será bem especial. Saibam que o príncipe Maxon ainda não 
viu  nada.  Ele  verá  o  mesmo  que  Illéa  esta  noite.  Amanhã  vocês  o 
conhecerão  oficialmente.  Vocês  jantarão  em  grupo,  para  que  possam  se 
conhecer melhor, e amanhã os jogos começam!     
Engoli em seco. Regras demais, estrutura demais, gente demais. Eu só 
queria ficar sozinha com um violino.     
Começamos  a  percorrer  o  segundo  andar;  e  cada  menina  ia  ficando 
em  seu  quarto.  O  meu  era  depois  de  uma  curva  no  corredor,  em  um 
pequeno saguão onde também estavam os quartos de Bariel, Tiny e Jenna. 
Fiquei feliz de não ser bem no meio do tumulto, como o de Marlee. Talvez 
assim eu tivesse um pouco mais de privacidade. 
Assim que nossa guia saiu, abri a porta do meu quarto, para o susto de 
três  mulheres.  Uma  estava  costurando  em  um  dos  cantos,  as  outras 
limpavam  um  quarto  já  perfeito.  Elas  largaram  apressadamente  o  que 
faziam  para  se  apresentar:  Lucy,  Anne  e  Mary.  Esqueci  quem  era  quem 
quase imediatamente. Custou bastante convencê-las a me deixar sozinha. 


Não  queria  ser  grossa,  já  que  estavam  ansiosas  por  ajudar,  mas  eu 
precisava de um tempo sozinha.     
—  Eu  só  preciso  tirar  uma  soneca.  Tenho  certeza  de  que  o  dia  de 
vocês também foi longo. O melhor que podem fazer por mim é me deixar 
descansar  e  dar  uma  relaxada  também.  Mas,  por  favor,  me  acordem 
quando for hora de descer.     
Depois de uma nova enxurrada de agradecimentos e reverências, que 
tentei  interromper,  eu  estava  a  sós.  Não  ajudou.  Tentei  me  esticar  na 
cama,  mas  cada  milímetro  do  meu  corpo  estava  tenso,  como  se  não 
quisesse que eu me sentisse confortável em um lugar que obviamente não 
era para mim.     
Havia  um  violino  no  canto,  e  também  um  violão  e  um  piano 
maravilhoso, mas não consegui me empolgar com eles. Minha mala estava 
bem fechada, esperando ao pé da cama, mas me pareceu trabalho demais. 
Sabia  que  eles  tinham  guardado  algumas  coisas  especiais  para  mim  no 
armário e nas gavetas, mas também não tive vontade de explorar. 
Só fiquei lá deitada, quieta. Sabia que deviam ter passado horas, mas 
elas  pareceram  uns  poucos  minutos  quando  minhas  criadas  bateram 
levemente  à  porta.  Deixei-as  entrar  e,  apesar  de  parecer  estranho,  me 
vestir.  Elas  estavam  tão  felizes  em  ser  úteis  que  eu  não  podia  pedir  que 
saíssem outra vez.     
As criadas puxaram partes do meu cabelo para trás e prenderam com 
presilhas delicadas, além de retocar minha maquiagem. O vestido — que, 
como o resto do guarda-roupa, fora criado pelas mãos delas — era verde-
escuro e sua barra tocava o chão. Sem aqueles saltos médios, eu tropeçaria 
nele. Silvia bateu à minha porta pontualmente às seis para me levar para o 
salão, junto com  minhas três vizinhas. Esperamos as  demais no vestíbulo 
ao pé da escada e então marchamos até o Salão das Mulheres. Marlee me 
viu e caminhamos juntas.     
O  som  de  trinta  e  cinco  pares  de  salto  alto  contra  o  mármore  da 
escada era como a música de uma manada elegante. Escutavam-se alguns 
cochichos,  mas  a  maior  parte  das  moças  permanecia  em  silêncio.  Notei 
que  as  portas  da  sala  de  jantar  estavam  fechadas  quando  passamos.  Será 


que a família real estava lá, fazendo sua última refeição a três?     
Era  estranho  sermos  convidadas  e,  no  entanto,  ainda  não  termos 
conhecido nenhum deles. 
O Salão das Mulheres tinha mudado na nossa ausência. Os espelhos e 
cabides  já  não  estavam  lá.  Em  seu  lugar,  havia  mesas  e  cadeiras 
preenchendo  o  salão,  além  de  uns  sofás  que  pareciam  bem  confortáveis. 
Marlee olhou para mim e apontou com a cabeça para um deles. Nós nos 
sentamos juntas.    Quando todas estávamos acomodadas, ligaram a TV e 
assistimos ao Jornal  Oficial. As mesmas notícias de sempre  —  novidades 
sobre  o  orçamento  dos  projetos,  a  situação  das  guerras  e  outro  ataque 
rebelde  no  leste  —  para  depois  dedicarem  os  trinta  minutos  finais  aos 
comentários de Gavril sobre as imagens do nosso dia.     
—  Aqui  vemos  a  senhorita  Celeste  Newsome  se  despedir  de  seus 
muitos  admiradores  de  Clermont.  Essa  adorável  garota  precisou  de  mais 
de uma hora para dizer adeus aos fãs.     
Celeste  sorriu  convencida  ao  se  ver  na  TV.  Ela  estava  ao  lado  de 
Bariel  Pratt,  com  seus  cabelos  alisados  até  o  talo  e  de  um  loiro  tão  claro 
que pareciam brancos. E não havia como dizer de um jeito mais educado: 
ela  tinha  seios  enormes.  Eles  se  insinuavam  no  seu  vestido  tomara  que 
caia, desafiando todos a tentar ignorá-los.     
Bariel  era  linda,  mas  de  um  jeito  comum.  Tinha  um  estilo  parecido 
com  o  de  Celeste.  Ao  ver  as  duas  juntas  pensei  na  expressão  “Mantenha 
seus  inimigos  por  perto”.  Acho  que  uma  viu  na  outra  a  concorrente  mais 
forte logo de cara. 
— E as outras garotas do meio-leste também são muito populares. A 
atitude  calma  e  refinada  de  Ashley  Brouillette  a  define  imediatamente 
como uma dama. Sua expressão humilde ao caminhar em meio à multidão 
não é muito diferente da expressão da própria rainha. E Marlee Tames, de 
Kent, estava toda eufórica em sua partida hoje, tendo até mesmo cantado o 
hino com a banda enviada ao local.     
Fotos  de  Marlee  sorrindo  e  abraçando  a  multidão  da  sua  província 
natal apareceram na tela.     
— Ela é uma das favoritas de muitas pessoas que entrevistamos hoje.    


Marlee estendeu o braço e apertou minha mão. Estava feito: eu ia torcer 
por ela.     
— Quem também viajou com a senhorita Tames foi America Singer, 
uma das três Cinco a chegar à Seleção.     
Eles me fizeram parecer melhor do que eu realmente estava naquele 
momento.  Tudo  de  que  eu  me  lembrava  era  da  minha  triste  busca  por 
alguém na multidão. Mas o trecho que escolheram me fez parecer madura 
e responsável. A imagem do abraço com meu pai era linda e comovente.     
Ainda  assim,  não  foi  nada  comparado  às  minhas  imagens  no 
aeroporto. 
— Sabemos que castas nada significam na Seleção, e parece que não 
devemos desprezar a senhorita America. Assim que aterrissou em Angeles, 
tornou-se  a  queridinha  da  multidão,  parando  para  tirar  fotos,  distribuir 
autógrafos e conversar com quem estava por lá. Ela não tem medo de sujar 
as mãos, uma qualidade que muitos creem ser necessária à nossa próxima 
princesa.     
Quase  todas  olharam  para  mim.  Pude  ver  em  seus  olhos  o  mesmo 
olhar que recebi de Emmica e Samantha. De  repente, aquelas encaradas 
fizeram sentido. Minhas intenções não importavam. As outras garotas não 
sabiam que eu não queria ganhar. Na visão delas, eu era uma ameaça. E 
dava para notar que me queriam fora. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  durante  o  jantar.  No  Salão  das  Mulheres,  fui 
corajosa porque Marlee estava ao meu lado, e ela me achava legal. Mas ali, 
espremida  entre  duas  pessoas  que  emitiam  ondas  de  ódio  na  minha 
direção,  não  passava  de  uma  covarde.  E  Ashley,  com  todo  o  seu  jeito  de 
dama, fazia bico e não falava comigo. Eu só queria fugir para o quarto.     
Não entendia por que aquilo era tão importante. As pessoas gostavam 
de  mim,  e  daí?  Elas  não  tinham  poder  no  palácio.  Seus  cartazes  e 
incentivos não importavam.     
Depois  de  tudo  o  que  foi  dito  e  feito,  eu  não  sabia  se  me  sentia 
honrada ou incomodada.     
Concentrei minhas forças no jantar. A última vez em que vira um bife 
tinha  sido  no  Natal,  alguns  anos  antes.  Minha  mãe  tinha  feito  o  melhor 
que podia, mas não tinha chegado nem perto daquele bife. Era suculento, 
tenro e saboroso. Queria perguntar a alguém se também era o melhor bife 
que tinha comido na vida. Se Marlee estivesse por perto, perguntaria a ela. 
Tentei ver minha amiga pelo canto dos olhos em algum lugar da sala. Ela 
conversava tranquilamente com as pessoas a seu redor.     
Como  fazia  isso?  Por  acaso  a  mesma  gravação  não  a  tinha  apontado 
como uma das favoritas? Por que as pessoas ainda falavam com ela? 
A  sobremesa  consistia  em  frutas  variadas  e  sorvete  de  baunilha. 
Nunca tinha comido coisa igual. Se isso era comida, o que era aquilo que 


eu tinha posto na boca até então? Pensei em May e em como gostava de 
doces tanto quanto eu. Ela teria adorado a sobremesa. Podia apostar que 
se daria muito bem ali.     
Ninguém tinha autorização para deixar a mesa até que todas tivessem 
terminado.  Depois  disso,  recebemos  ordens  estritas  para  ir  direto  para  a 
cama.     
—  Afinal,  vocês  vão  conhecer  o  príncipe  Maxon  pela  manhã  e  vão 
querer  estar  bem  dispostas  e  apresentáveis  —  explicou  Silvia.  —  Ele  é  o 
futuro marido de alguém nesta sala, afinal.     
Algumas garotas suspiraram diante dessa perspectiva.     
O toc-toc dos sapatos subindo as escadarias era mais baixo dessa vez. 
Eu mal podia esperar para tirar os meus. E o vestido também. Tinha uma 
muda de roupas na mala e estava pensando se as usaria apenas para sentir 
que era eu mesma por uns instantes.     
O  grupo  se  dispersou  no  alto  da  escada  e  cada  menina  foi  para  seu 
quarto. Marlee me puxou de lado.     
— Você está bem? — ela perguntou. 
—  Estou.  É  que  umas  garotas  ficaram  me  olhando  torto  durante  o 
jantar — respondi, tentando não parecer reclamona.     
— Elas só estão nervosas porque todo mundo gostou tanto de você — 
Marlee  garantiu,  não  dando  muita  importância  ao  comportamento  das 
outras.     
—  Mas  as  pessoas  também  gostaram  de  você.  Eu  vi  os  cartazes.  Por 
que as meninas não foram umas chatas com você também?     
—  Você  nunca  passou  muito  tempo  com  um  grupo  de  garotas, 
passou? — ela tinha um sorriso malicioso nos lábios, como se soubesse o 
que estava acontecendo.     
— Não. Quase sempre fico só com minhas irmãs — confessei.     
— Você foi educada em casa?     
— Sim.     
— Bem, eu estudo com um monte de outras garotas da casta Quatro 
na  minha  província.  Cada  uma  delas  tem  seu  jeito  de  pisar  no  calo  das 
outras.  Elas  querem  conhecer  a  pessoa,  descobrir  o  que  mais  a  irrita. 


Várias  meninas  me  fazem  elogios  falsos  ou  comentários  atravessados, 
coisas assim. Eu sei que pareço eufórica, mas no fundo sou tímida, e elas 
acham que podem me atingir com palavras.     
Cocei a cabeça. Então elas faziam de propósito? 
— E ainda mais você, uma pessoa quieta e misteriosa...     
— Não sou misteriosa — cortei.     
—  É  um  pouco.  E  às  vezes  as  pessoas  não  sabem  se  interpretam  o 
silêncio  como  confiança  ou  medo.  Elas  olham  como  se  você  fosse  um 
inseto para que você talvez se sinta como se fosse.     
— Hum...     
Fazia  sentido.  Comecei  a  pensar  se  meus  modos  de  certa  forma  não 
cutucavam a insegurança das outras.     
—  O  que  você  faz?  Quero  dizer,  como  você  tira  o  melhor  delas?  — 
perguntei a Marlee.     
Ela sorriu.     
—  Ignoro.  Conheço  uma  garota  na  minha  cidade  que  fica  muito 
irritada  quando  não  consegue  me  incomodar  e  acaba  de  cara  fechada. 
Então,  não  se  preocupe  —  ela  continuou.  —  Tudo  o  que  você  precisa 
fazer é não deixar que percebam que estão atingindo você.     
— Elas não estão.     
— Estou quase acreditando — disse Marlee dando uma risadinha, um 
som cálido que evaporou naquele corredor quieto. — E você acredita que 
vamos  conhecer  o  príncipe  amanhã?  —  ela  perguntou,  passando  para  o 
assunto que considerava mais importante.     
— Na verdade, não. 
Maxon parecia um fantasma assombrando o palácio. Fazia parte dele, 
mas não estava lá de fato.     
— Bem, boa sorte — ela desejou, e eu sabia que era de coração.     
—  Mais  sorte  ainda  para  você,  Marlee.  Tenho  certeza  de  que  o 
príncipe vai ficar mais do que encantado ao conhecer você.     
Apertei as mãos dela. Marlee sorriu de um jeito emocionado e tímido 
ao mesmo tempo, depois foi para o quarto.     
Quando me dirigia ao meu escutei Bariel resmungar alguma coisa com 


a dama de companhia. Ela me viu e bateu a porta na minha cara.     
Muito educada.     
Minhas criadas estavam no quarto, claro, esperando para me despir e 
me  lavar.  Minha  camisola,  uma  coisinha  verde  e  frágil,  já  tinha  sido 
estendida na cama. Elas tiveram a delicadeza de não tocar na minha mala. 
As criadas eram eficientes e cuidadosas. Era óbvio que sabiam de cor 
essa  rotina  do  fim  do  dia,  mas  não  a  faziam  às  pressas.  Acho  que  a 
intenção delas era oferecer conforto, mas eu queria mesmo era despachá-
las. Não podia apressá-las enquanto lavavam minhas mãos, desamarravam 
meu  vestido  e  punham  o  broche  prateado  com  meu  nome  na  camisola. 
Enquanto  faziam  essas  coisas,  elas  ainda  lançavam  perguntas  que  me 
deixavam  incrivelmente  constrangida.  Eu  tentava  responder  sem  ser 
grossa. Sim, eu tinha visto as outras meninas; não, elas não falavam muito; 
sim, tinha sido um jantar fantástico; não, eu só ia conhecer o príncipe no 
dia seguinte; sim, eu estava muito cansada.     
—  E  ia  me  ajudar  muito  a  espairecer  se  pudesse  passar  um  tempo 
sozinha  —  acrescentei  ao  final  da  última  resposta,  na  esperança  de  que 
entendessem a deixa.     
Na verdade, elas ficaram com um ar decepcionado. Tentei consertar.     
— Vocês todas são muito prestativas. É que estou acostumada a ficar 
um pouco sozinha. E fiquei rodeada de gente o dia todo.     
— Mas senhorita Singer, é nosso dever ajudá-la. É nosso trabalho — 
replicou Anne, que parecia ser a chefe delas. Ela estava à frente de tudo, 
Mary era a mais sossegada e Lucy parecia bem tímida. 
—  Gosto  muito  do  trabalho  de  vocês,  e  com  certeza  vou  precisar  de 
ajuda  para  começar  o  dia  amanhã.  Mas  esta  noite  só  preciso  relaxar.  Se 
quiserem  ajudar,  um  tempo  sozinha  seria  bom  para  mim.  E  se  vocês 
estiverem bem descansadas pela manhã, estou certa de que poderão fazer 
tudo da melhor maneira, não acham?     
Elas trocaram olhares.     
— Bem, imagino que sim — concordou Anne.     
—  Uma  de  nós  deve  ficar  aqui  enquanto  a  senhorita  dorme.  Caso 
precise de algo — disse Lucy, aparentando nervosismo, como se temesse a 


decisão  que  eu  tomaria.  Ela  parecia  dar  uma  leve  tremida  de  vez  em 
quando. Acho que era a timidez vindo à tona.     
— Se eu precisar de algo, toco a campainha. Vai ficar tudo bem. Além 
disso, eu não ia conseguir dormir sabendo que alguém está me vigiando.     
Elas trocaram olhares de novo, ainda um pouco céticas. Eu  sabia um 
jeito de pôr fim nisso, mas detestava ter que usá-lo.     
— Vocês devem obedecer todas as minhas ordens, certo?     
Elas concordaram com a cabeça, esperançosas.     
—  Então  eu  ordeno  que  vão  para  a  cama  e  me  ajudem  amanhã  de 
manhã. Por favor. 
Anne sorriu. Acho que ela estava começando a me entender.     
— Sim, senhorita Singer. Nós a veremos pela manhã.     
As  três  fizeram  uma  reverência  e  saíram  do  quarto.  Anne  me  lançou 
um último olhar. Acho que eu não era exatamente o que ela esperava, mas 
não parecia estar muito irritada com isso.     
Assim que elas saíram, descalcei minhas luxuosas pantufas e estiquei 
os dedos dos pés no chão. Ficar descalça dava uma sensação boa, natural. 
Comecei a desfazer minha mala, o que foi rápido. Mantive minha muda de 
roupa enfiada na mala e a guardei no armário gigantesco. Dei uma olhada 
nos vestidos. Eram poucos, o suficiente para mais ou menos uma semana. 
Acho  que  as  outras  tinham  o  mesmo  número  de  vestidos.  Por  que  fazer 
dúzias para uma garota que talvez saísse no dia seguinte?     
Peguei  as  poucas  fotos  que  tinha  da  minha  família  e  prendi  na 
moldura do espelho. Era tão alto e largo que podia ver as fotos sem tapar a 
visão do meu corpo. Eu tinha uma caixinha com bijuterias e laços que eu 
adorava. Provavelmente seriam considerados simples demais ali, mas eram 
tão  pessoais  que  eu  tive  que  levá-los  comigo.  Os  poucos  livros  que 
carregara  encontraram  um  lugar  na  útil  prateleira  próxima  da  porta  que 
levava para a sacada. 
Enfiei  a  cabeça  pela  porta  e  vi  o  jardim.  Havia  um  labirinto  de 
alamedas  com  bancos  e  fontes.  As  flores  brotavam  de  toda  parte,  e  cada 
uma delas estava perfeitamente podada. Para além desse pedaço de terra 
claramente produzido ficava um campo aberto, e mais adiante havia uma 


floresta imensa. Estiquei-me ao máximo, mas não consegui ver se toda ela 
ficava  dentro  dos  muros  do  palácio.  Pensei  por  alguns  minutos  por  que 
motivo ela existia, e então deparei com o último item de casa que segurava 
nas mãos.     
Meu  pequeno  jarro  com  a  moedinha  dançante.  Rolei-o  nas  mãos 
algumas  vezes,  escutando-a  deslizar  pelos  cantos  do  vidro.  Por  que  eu 
tinha levado aquilo? Para me lembrar de algo que não podia ter?     
Esse simples pensamento — de que o amor que tinha construído por 
anos  em  um  lugar  quieto  e  secreto  estava  fora  de  alcance  —  fez  meus 
olhos  se  encherem  de  lágrimas.  Eu  não  conseguia  aguentar  mais  essa 
depois de toda a emoção daquele dia. Não sabia onde o jarro ficaria, mas 
deixei-o no meu criado-mudo.     
Baixei as luzes, arrastei-me sobre aqueles cobertores luxuosos e olhei 
para  o  jarro.  Deixei-me  levar  pela  tristeza.  Deixei  meu  pensamento  ir  até 
ele.     
Como eu podia ter perdido tanto em tão pouco tempo? Pensava que 
deixar minha família, viver em um lugar estranho e ser separada da pessoa 
amada  eram  acontecimentos  que  demoravam  anos  para  ocorrer,  não 
apenas um dia. 
Eu me perguntava o que exatamente ele queria me dizer antes de eu 

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