A seleção The Selection 01


participar. Não vou nem ser sorteada



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participar. Não vou nem ser sorteada.     
— Se não vai ser sorteada, por que se preocupar? 
Ele esfregava meus braços com as mãos. Eu não conseguia resistir.     
— Só quero que você participe, que tente. E, se for sorteada, vá para o 
castelo. Se não for, pelo menos não vou sofrer por ter impedido você.     
—  Mas,  Aspen,  eu  não  amo  o  príncipe.  Não  gosto  dele.  Nem  o 
conheço.     
— Ninguém o conhece. E esse é o ponto: talvez você goste dele.     
— Chega! 
É você 
que eu amo.     
— E é você que eu amo.     
Ele me beijou para confirmar essas palavras.     
— E se me ama, vai fazer isso, para que eu não fique louco de tanto 
pensar no que poderia ter acontecido.     
Quando se pôs como vítima, ele ganhou: eu era incapaz de magoá-lo. 
Fazia de tudo para facilitar a vida dele. E estava certa: não havia nenhuma 
chance  de  ser  escolhida.  Assim,  tudo  o  que  precisava  fazer  era  me 
submeter  ao  processo  e  agradar  a  todos.  Depois,  quando  não  fosse 
sorteada, o assunto seria esquecido.     
— Por favor? — Aspen suspirou no meu ouvido, e eu pude sentir um 
arrepio por todo o corpo. 
—  Certo  —  sussurrei.  —  Vou  me  inscrever.  Mas  sei  que  não  quero 


ser princesa. Tudo o que quero é ficar com você.     
Ele passou a mão no meu cabelo.     
— E você vai ficar.     
Acho  que  foi  a  luz,  ou  a  falta  dela,  mas  juro  que  os  olhos  dele 
marejaram quando disse isso. Aspen tinha passado por muita coisa, mas só 
o vi chorar uma vez, quando chicotearam seu irmão no meio da praça. O 
pequeno Jeremy tinha roubado uma fruta de uma banca no mercado. Um 
adulto  teria  sido  submetido  a  um  julgamento  rápido  e  seria  jogado  na 
prisão  ou  condenado  à  morte,  dependendo  do  valor  do  item  roubado. 
Jemmy tinha apenas nove anos e por isso foi espancado. A mãe deles não 
tinha dinheiro para levar o menino a um médico decente, por isso Jemmy 
ficou com cicatrizes de alto a baixo.     
Naquela noite, esperei na janela para ver se Aspen subiria até a casa 
da  árvore.  Ele  subiu,  e  saí  escondido  para  encontrá-lo.  Ele  chorou  em 
meus  braços  por  uma  hora,  lamentando-se  por  não  ter  trabalhado  mais, 
por não ter sido melhor, para que Jemmy não precisasse roubar. Chorava 
porque era injusto Jemmy ter sido punido por suas próprias falhas. 
Foi uma agonia. Aquilo não era verdade. Mas eu não podia dizer isso a 
Aspen: ele não me daria ouvidos. Carregava nas costas as necessidades de 
todas  as  pessoas  que  amava.  Como  que  por  milagre,  eu  me  tornei  uma 
delas, e tentava pesar o mínimo possível.     
—  Você  pode  cantar  para  mim?  Uma  música  bem  bonita,  para  eu 
lembrar na hora de dormir?     
Sorri. Adorava cantar para ele. Aconcheguei-me mais e comecei uma 
cantiga de ninar bem serena.     
Aspen me deixou  cantar por uns minutos antes  de começar a descer 
os  dedos  distraidamente  por  minha  orelha.  Abaixou  a  gola  da  minha 
camiseta  e  me  beijou  do  pescoço  às  orelhas.  Em  seguida,  arregaçou 
minhas  mangas  e  foi  beijando  meu  braço  de  ponta  a  ponta.  Comecei  a 
perder  o  fôlego.  Ele  fazia  isso  quase  todas  as  vezes  em  que  eu  cantava. 
Acho  que  gostava  mais  da  minha  respiração  aguda  do  que  das  próprias 
músicas.     
Em  pouco  tempo  estávamos  enlaçados  sobre  o  tapete  sujo  e  gasto. 


Aspen me puxava para cima dele, e eu acariciava seus cabelos bagunçados, 
hipnotizada por aquelas sensações. Ele me dava beijos ardentes e intensos. 
Eu  sentia  seus  dedos  apertarem  minha  cintura,  meus  quadris,  minhas 
coxas. Sempre ficava surpresa que não deixasse marcas no meu corpo. 
Tomávamos  o  cuidado  de  sempre  parar  antes  de  chegar  ao  que 
realmente  queríamos.  Desrespeitar  o  toque  de  recolher  já  era  o  bastante. 
Ainda  assim,  com  todas  as  limitações,  eu  não  conseguia  imaginar  que 
alguém em Illéa estivesse mais apaixonado que nós.     
— Eu te amo, America Singer. Vou te amar enquanto viver.     
A voz dele transmitia uma emoção profunda e me pegou desprevenida.     
— Eu te amo, Aspen. Você sempre será meu príncipe.     
E ele me beijou até a vela se consumir por inteiro.     
Devia fazer horas que estávamos lá, e meus olhos começaram a pesar. 
Aspen nunca se importava com o próprio sono, mas não podia suportar o 
meu. Assim, desci a escada cansada, levando o prato e uma moeda. 
Aspen  se  deliciava  com  minhas  canções.  Às  vezes,  quando  tinha 
algum dinheiro no bolso, ele me dava uma moeda para pagar pela música. 
Eu queria que ele desse cada moeda que conseguisse juntar para a própria 
família:  sem  dúvida,  eles  precisavam  até  do  último  centavo.  Mas  aquelas 
moedas — que eu era incapaz de gastar — serviam como um lembrete de 
tudo o que Aspen queria fazer por mim e de tudo o que eu significava para 
ele.     
De  volta  ao  quarto,  tirei  o  pote  cheio  de  moedas  do  esconderijo  e 
escutei o alegre tilintar da mais nova sobre as antigas. Esperei dez minutos 
na janela até ver a silhueta dele descer a escada e correr pela estrada.     
Fiquei acordada mais um pouco, pensando em Aspen e no quanto eu 
o  amava  e  me  sentia  amada  por  ele.  Era  uma  sensação  especial, 
insubstituível, que não tinha preço. Nenhuma rainha no trono poderia se 
sentir mais importante que eu.     
Adormeci com esse pensamento gravado no fundo do coração. 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  Parecia  um  anjo.  Ainda  estávamos  em  Carolina, 
mas não havia ninguém por perto. Estávamos sozinhos, mas não sentíamos 
falta  de  ninguém.  Aspen  fez  uma  coroa  de  ramos  para  mim  e  ficamos 
juntos.     
—  America  —  irrompeu  minha  mãe,  sacudindo-me  até  que  eu 
acordasse.     
Ela acendeu a luz, ofuscando minha visão, e tive que esfregar os olhos 
para me adaptar.     
— Acorde, America. Tenho uma proposta para você.     
Olhei para o despertador: eram sete e pouco da manhã. Cinco horas 
de sono.     
— Dormir mais? — balbuciei.     
— Não, querida. Sente-se. Temos um assunto sério para discutir.     
Fiz  um  esforço  enorme  para  me  sentar.  Minhas  roupas  estavam 
amassadas  e  meus  cabelos  se  rebelavam  para  todos  os  lados.  Minha  mãe 
batia palmas, como se isso fosse acelerar o processo.     
— Vamos, America. Preciso falar com você.     
Eu me espreguicei duas vezes.     
— O que é? — perguntei. 
— Você precisa se inscrever na Seleção. Acho que daria uma princesa 
excelente.     


Era cedo demais para aquilo.     
— Mãe, sério, eu... — suspirei enquanto lembrava minha promessa a 
Aspen na noite anterior de que ia pelo menos tentar. Mas, agora, à luz do 
dia, não estava muito certa de que queria me submeter àquilo.     
— Sei que você é contra, mas pensei em um acordo para você mudar 
de ideia.    
 Apurei os ouvidos. O que ela tinha a oferecer?     
—  Seu  pai  e  eu  conversamos  ontem  e  decidimos  que  você  já  está 
madura o bastante para trabalhar sozinha. Você toca piano tão bem quanto 
eu,  e  com  um  pouco  de  esforço  vai  ficar  perfeita  no  violino.  E  sua  voz... 
bem, se você quer minha opinião, não há melhor na província.     
Sorri, um pouco grogue de sono:     
— Obrigada, mãe. De verdade.     
Acontece que eu não dava tanta importância a trabalhar sozinha. Não 
entendia como isso seria um incentivo. 
—  Mas  não  é  só  isso.  Você  pode  pegar  seus  próprios  trabalhos,  ir 
sozinha e... ficar com metade do que você ganhar  —  ela disse, meio que 
fazendo uma careta.     
Arregalei os olhos.     
— Mas só se você participar da Seleção.     
Minha  mãe  sorriu.  Ela  sabia  que  assim  me  ganharia,  embora  eu 
achasse  que  ela  esperava  um  pouco  mais  de  resistência  da  minha  parte. 
Mas como eu poderia resistir? Eu já ia me  inscrever mesmo, e ela dava a 
chance de eu ganhar um pouco de dinheiro só para mim!     
—  Você  sabe  que  o  máximo  que  posso  fazer  é  me  inscrever,  certo? 
Não tenho como garantir que eles me sorteiem.     
— Eu sei, mas não custa tentar.     
— Nossa, mãe... — balancei a cabeça, ainda chocada. — Tudo bem. 
Preencho hoje o formulário. É sério o negócio do dinheiro?     
— Claro que é. Cedo ou tarde você ia trabalhar sozinha mesmo. E vai 
ser  bom  para  você  ser  responsável  por  seu  próprio  dinheiro.  Só  não  se 
esqueça da família. Ainda precisamos de você.     
— Claro, mãe. Como esquecer todas as broncas?     


Dei uma piscadinha e ela riu. O acordo estava feito. 
No  banho,  tentei  digerir  tudo  o  que  tinha  acontecido  em  menos  de 
vinte e quatro horas. Preencher aquele simples formulário me garantiria o 
apoio  da  família,  faria  Aspen  feliz  e  me  ajudaria  a  guardar  dinheiro  para 
casar com ele!     
Eu não me preocupava tanto com o dinheiro, mas Aspen fazia questão 
de  fazer  uma  poupança  para  o  casamento.  A  parte  burocrática  custava 
caro,  e  queríamos  fazer  uma  festinha  para  a  família  depois  da  cerimônia. 
Eu  imaginava  que  não  demoraríamos  muito  para  juntar  a  quantia 
necessária  assim  que  tomássemos  a  decisão,  mas  Aspen  queria  mais. 
Talvez ele acreditasse que não ficaríamos sempre apertados agora que eu 
ia trabalhar mais. 
Depois do banho, penteei os cabelos e me maquiei o mínimo possível 
para comemorar. Então abri o armário e me vesti. Não havia muito o que 
escolher.  Quase  tudo  era  bege,  marrom  ou  verde.  Eu  tinha  uns  vestidos 
melhorzinhos  para  as  apresentações,  mas  já  estavam  bem  fora  de  moda. 
Era  assim;  não  tinha  o  que  fazer.  Os  Seis  e  Sete  quase  sempre  vestiam 
jeans  ou  outro  tecido  grosseiro.  A  maior  parte  dos  Cinco  usava  roupas 
simples,  já  que  os  artistas  as  cobriam  com  um  avental  e  as  cantoras  e 
bailarinas  só  precisavam  estar  bem  vestidas  para  as  apresentações.  As 
castas  superiores  usavam  calça  cáqui  ou  jeans  de  vez  em  quando  para 
mudar o visual, mas sempre de  um  jeito que elevava  o tecido  a  um  novo 
patamar.  Como  se  não  bastasse  ter  tudo  o  que  queriam,  ainda 
transformavam nossas necessidades em artigos de luxo. 
Vesti  um  short  cáqui  e  uma  blusinha  verde  —  de  longe  as  melhores 
roupas  que  tinha  para  usar  durante  o  dia  —  e  me  olhei  no  espelho  mais 
uma vez antes de descer para a sala. Eu me sentia linda. Talvez fosse só a 
empolgação influenciando meus olhos.     
Minha mãe estava na mesa da cozinha com meu pai, cantarolando. Os 
dois me encararam algumas vezes, mas nem seus olhares foram capazes de 
me perturbar.     
Fiquei um pouco surpresa ao pegar a carta. A qualidade do papel era 
impressionante.  Eu  nunca  tinha  posto  as  mãos  em  algo  assim.  Espesso  e 


levemente  texturizado.  O  peso  do  papel  me  deixou  atônita  por  uns 
instantes; lembrava-me da grandeza daquilo que eu ia fazer. Duas palavras 
pipocaram na minha cabeça: “E se...?”.     
Mas eu espantei esse pensamento e pus a caneta no papel. 
Era tudo bem simples. Preenchi nome, idade, casta e informações de 
contato. Também tinha que completar peso, altura e cor de cabelo, olho e 
pele.  Fiquei  muito  satisfeita  ao  escrever  que  podia  falar  três  idiomas.  A 
maioria das pessoas falava pelo menos dois, mas minha mãe fez questão de 
que  aprendêssemos  francês  e  espanhol,  já  que  essas  línguas  ainda  eram 
usadas em algumas partes do país. Isso também ajudava na hora de cantar. 
Havia  músicas  lindas  em  francês.  Era  preciso  informar  também  a 
escolaridade, o que variava muito, porque apenas os Seis e Sete estudavam 
em escolas públicas, onde se seguiam anos escolares oficiais. Eu já tinha 
quase  completado  os  estudos.  Na  seção  “habilidades  especiais”,  incluí 
canto e todos os instrumentos que tocava.     
—  Você  acha  que  a  capacidade  de  dormir  até  tarde  conta  como 
habilidade especial? — perguntei a meu pai, fingindo estar indecisa.     
— Sim, pode colocar aí. E não se esqueça de escrever que consegue 
comer um prato em cinco minutos  — ele respondeu. Eu ri. Era verdade: 
eu praticamente engolia a comida. 
—  Ah,  vocês  dois!  Por  que  não  anota  aí  que  você  é  completamente 
desalmada?  —  explodiu  a  voz  da  minha  mãe  na  sala.  Eu  não  podia 
acreditar que ela estivesse tão brava. Afinal, tinha conseguido exatamente 
o que queria.    Olhei para meu pai com um ar de interrogação.     
— Ela só quer o melhor para você, é isso — ele se reclinou na cadeira
relaxando  um  pouco  antes  de  começar  a  trabalhar  em  uma  encomenda 
para o fim do mês.     
— Você também, mas nunca fica assim nervoso — comentei.     
— É, mas sua mãe e eu temos ideias diferentes sobre o que é melhor 
para você — ele disse, e um sorriso brilhou em seu rosto.     
Puxei  a  boca  do  meu  pai,  tanto  na  aparência  quanto  na  tendência  a 
dizer  coisas  inocentes  que  depois  me  causavam  problema.  O 
temperamento era da minha mãe, mas ela era melhor na hora de segurar a 


língua  quando  o  assunto  era  importante.  Eu  não.  Como  naquele 
momento...     
—  Pai,  se  eu  quisesse  casar  com  um  Seis  ou  um  Sete  e  o  amasse 
muito, você ia deixar?     
Meu  pai  apoiou  a  caneca  na  mesa  e  concentrou  o  olhar  em  mim. 
Tentei  não  entregar  nada  na  minha  expressão.  Seus  olhos  pareciam 
pesados, cheios de dor. 
— America, se você amasse um Oito, eu deixaria que se casasse com 
ele. Mas você precisa saber que o amor às vezes acaba com o peso da vida 
de casado. E ia ser ainda pior se você não pudesse sustentar seus filhos. O 
amor nem sempre sobrevive nessas circunstâncias.     
Ele  pegou  minha  mão,  procurando  meus  olhos  com  os  dele.  Tentei 
esconder minha preocupação.     
— Mas o que mais me importa é que você seja amada. Você merece 
isso. E eu espero que se case por amor, e não por número.     
Ele não podia dizer o que eu queria ouvir — que eu de 
fato
 me casaria 
por amor e não por número —, mas me deu um pouco de esperança.     
— Obrigada, pai.     
— Tenha calma com sua mãe. Ela está tentando fazer a coisa certa.     
Ele beijou minha mão e foi trabalhar.     
Suspirei e voltei à ficha de inscrição. Tudo aquilo me dava a sensação 
de  que  nem  passava  pela  cabeça  da  minha  família  que  eu  tinha  vontade 
própria. Isso me chateava, mas eu sabia que não ia poder deixar isso claro 
no futuro. Vontade era um luxo que não podíamos ter. Éramos movidos à 
base de necessidades. 
Peguei  o  formulário  preenchido  e  fui  levá-lo  para  minha  mãe,  no 
quintal. Ela estava sentada fazendo a barra de um vestido, enquanto May 
fazia a lição de casa. Aspen costumava reclamar da rigidez dos professores 
da escola pública, mas eu duvidava que eles superassem minha mãe. Ela 
estava de férias, meu Deus!     
— Você fez mesmo? — May perguntou, agitando os joelhos.     
— Com certeza.     
— Por que mudou de ideia?     


—  Mamãe  pode  ser  bem  convincente  quando  quer  —  respondi, 
marcando bem as palavras. Mas minha mãe não sentia nenhuma vergonha 
de ter me subornado.     
—  Podemos  ir  ao  Departamento  de  Serviços  Provinciais  assim  que 
você estiver pronta, mãe.     
Ela deu um sorrisinho:     
— Essa é a minha garota! Pegue suas coisas que a gente já vai. Quero 
que sua carta seja uma das primeiras.     
Fui pegar a bolsa, como minha mãe mandou, mas estaquei no quarto 
de  Gerad.  Ele  estava  olhando  fixamente  para  uma  tela  de  pintura  vazia. 
Parecia  frustrado.  Fazíamos  um  rodízio  de  opções  com  ele,  mas  nunca 
dava  certo.  Bastava  ver  a  bola  de  futebol  gasta  em  um  canto  ou  o 
microscópio  usado  que  recebemos  como  pagamento  em  um  Natal  para 
ficar óbvio que ele não tinha jeito para a arte. 
— Sem inspiração hoje, hein? — perguntei, entrando no quarto.     
Ele me olhou e balançou a cabeça.     
—  Talvez  devesse  tentar  a  escultura,  que  nem  Kota.  Você  tem  mãos 
para isso. Aposto que se sairia bem.     
—  Não  quero  esculpir  nada.  Nem  pintar,  cantar  ou  tocar  piano. 
Quero jogar bola! — ele exclamou, chutando o carpete velho do quarto.     
— Eu sei. E você pode, por diversão. Só que precisa achar uma arte 
em que seja bom para ganhar dinheiro. Então vai poder fazer os dois.     
— Mas por quê? — ele choramingou.     
— Você sabe o motivo. É a lei.     
— Mas não é justo!     
Gerad jogou a tela no chão, o que levantou uma nuvem de poeira, que 
logo foi embora pela janela.     
— Não é culpa nossa se nosso bisavô ou sei lá quem era pobre.     
— Eu sei. 
Parecia mesmo irracional limitar as opções de vida com base na ajuda 
que seus antepassados deram ao governo, mas as coisas eram assim. Talvez 
devêssemos apenas dar graças por estarmos seguros.     
—  Acho  que  era  o  único  jeito  de  as  coisas  funcionarem  naquele 


tempo — completei.     
Ele ficou calado. Dei um suspiro, peguei a tela do chão e a coloquei 
de volta no lugar. A vida era assim, e ele não podia simplesmente chutá-la.     
— Você não precisa deixar seus gostos de lado. Mas você quer ajudar 
mamãe e papai, crescer e casar, certo?  — perguntei, cutucando a barriga 
dele.    Gerad botou a língua para fora, fingindo estar com nojo, e nós dois 
rimos.     
—  America!  —  minha  mãe  gritou  lá  de  baixo.  —  Por  que  você  está 
demorando tanto?     
— Estou indo! — gritei de volta. — Sei que é difícil, querido, mas as 
coisas são assim, está bem? — prossegui, olhando para Gerad.     
Eu sabia, porém, que aquilo não estava bem. Nem um pouco bem. 
Minha mãe e eu andamos até o departamento local. Às vezes, a gente 
pegava um ônibus para ir a lugares muito distantes ou para trabalhar. Era 
chato  chegar  à  casa  de  um  Dois  todo  suado.  Eles  já  nos  olhavam  de  um 
jeito  estranho  sem  isso.  Mas  o  dia  estava  bonito,  e  a  caminhada  não  era 
assim  tão  longa.        Obviamente,  não  éramos  as  únicas  que  queriam 
entregar a inscrição o mais rápido possível. Quando chegamos lá, a rua em 
frente ao Departamento de Carolina já estava lotada de mulheres.     
Na  fila,  havia  um  monte  de  meninas  do  meu  bairro,  esperando  para 
entrar. Cada uma delas tinha mais três a seu lado, e a fila já se estendia até 
a metade do quarteirão. Todas as garotas da província iam se inscrever. Eu 
não sabia se ficava assustada ou aliviada.     
—  Magda!  —  chamou  alguém.  Tanto  eu  como  minha  mãe  nos 
viramos ao som do nome dela.     
Celia  e  Kamber  estavam  caminhando  até  nós  junto  com  a  mãe.  Ela 
devia  ter  tirado  o  dia  de  folga.  Suas  filhas  usavam  a  melhor  roupa  que 
tinham  e  estavam  bem-arrumadas.  Não  era  muito,  mas  elas  ficavam 
bonitas  com  qualquer  roupa,  como  Aspen.  Kamber  e  Celia  tinham  os 
mesmos cabelos escuros e o mesmo sorriso do irmão. 
A  mãe  deles  sorriu  para  mim,  e  eu  sorri  de  volta.  Eu  a  adorava.  Só 
conseguia  falar  com  ela  de  vez  em  quando,  mas  era  sempre  simpática 
comigo. E eu sabia que não era porque eu estava uma casta acima. Já tinha 


visto  a  mãe  deles  dar  roupas  que  não  serviam  mais  nos  seus  filhos  a 
famílias que não tinham quase nada. Ela era uma pessoa generosa.     
— Oi, Lena. E como vocês estão, meninas? — cumprimentou minha 
mãe.     
— Bem! — elas responderam em uníssono.     
—  Vocês  duas  estão  lindas  —  eu  disse  enquanto  jogava  um  dos 
cachos de Celia para trás.     
— Queríamos ficar bonitas para a foto — afirmou Kamber.     
— Foto? — perguntei.     
—  Sim  —  disse  a  sra.  Leger  em  voz  baixa.  —  Eu  estava  limpando  a 
casa de um juiz ontem. Parece que o sorteio não é bem um sorteio. É por 
isso  que  eles  tiram  fotos  e  pegam  um  monte  de  informações.  Qual  a 
importância de saber quantas línguas você fala se é tudo aleatório?     
Achei estranho. Mesmo. Pensava que toda a informação ia ser usada 
depois do sorteio.     
—  Parece  que  a  notícia  vazou.  Olhe  para  os  lados:  está  cheio  de 
garotas produzidas. 
Passei os olhos pela fila. A sra. Leger tinha razão. E a diferença entre 
quem  sabia  e  não  sabia  era  bem  clara.  Logo  atrás  da  gente  havia  uma 
moça,  com  certeza  uma  Sete,  ainda  com  as  roupas  de  trabalho.  As  botas 
cheias  de  lama  provavelmente  não  iam  sair  na  foto,  mas  não  havia  como 
esconder  o  pó  no  avental.  Um  pouco  mais  atrás  estava  outra  Sete, 
ostentando seu cinto de ferramentas. O melhor que posso dizer sobre ela é 
que seu rosto estava limpo.     
No extremo oposto, uma moça tinha feito um coque e deixara uns fios 
encaracolados  caindo  no  rosto.  A  garota  ao  lado  dela  —  claramente  uma 
Dois,  pelas  roupas  —  tinha  um  decote  do  tamanho  do  mundo.  Outras 
tinham tanta maquiagem que para mim mais pareciam palhaços. Mas pelo 
menos elas estavam tentando.     
Minha  aparência  era  razoável,  mas  eu  não  tinha  me  produzido  como 
as outras garotas. Como as Sete, eu não sabia que tinha que me preocupar 
com isso. De repente, comecei a tremer de ansiedade.     
Mas por quê? Parei e refleti sobre a situação. 


Eu não queria aquilo. Então não estar bonita era bom. Eu ficaria pelo 
menos  um  ponto  abaixo  das  irmãs  de  Aspen.  Elas  tinham  uma  beleza 
natural  e  aquele  pouquinho  de  maquiagem  as  deixava  ainda  mais 
adoráveis. Se Kamber ou Celia ganhasse, toda a família subiria na escala. 
E  a  minha  com  certeza  não  ia  se  opor  se  eu  me  casasse  com  alguém  da 
Um,  mesmo  que  não  fosse  o  príncipe.  Minha  ignorância  era  na  verdade 
uma dádiva.     
— Acho que você tem razão — minha mãe disse. — Aquela menina 
está arrumada para uma festa de Natal — completou, rindo. Mas eu sabia 
que ela odiava estar em desvantagem.     
—  Não  sei  por  que  algumas  garotas  exageram  tanto.  Olhe  para 
America. Ela está tão linda. Fico contente por você não ter ido nessa linha 
— disse a sra. Leger.     
—  Eu  não  tenho  nada  de  especial.  Quem  me  escolheria  perto  de 
Kamber ou Celia?     
Pisquei  para  as  duas,  que  sorriram.  Minha  mãe  também  deu  um 
sorriso,  mas  forçado.  Ela  devia  estar  dividida  entre  ficar  na  fila  ou  me 
obrigar a correr para casa e trocar de roupa. 
—  Não  seja  boba!  Toda  vez  que  Aspen  volta  para  casa  depois  de  ter 
ajudado o irmão ele diz que a família Singer passou duas vezes na fila do 
talento e da beleza.     
— Verdade? Que gentil! — murmurou minha mãe.     
—  É  mesmo.  Eu  não  podia  querer  um  filho  melhor.  Ele  é  muito 
companheiro e trabalha duro.     
—  Vai  fazer  uma  moça  muito  feliz  algum  dia  —  comentou  minha 
mãe,  sem  dar  muita  atenção  à  conversa.  Ela  ainda  estava  analisando  a 
concorrência.    A sra. Leger olhou ao redor.     
— Cá entre nós, acho que ele já tem alguém em mente.     
Gelei.  Não  sabia  se  fazia  algum  comentário  ou  não.  Tinha  medo  de 
dar uma resposta que me entregasse.     
—  Como  ela  é?  —  minha  mãe  quis  saber.  Embora  estivesse 
planejando meu casamento com um completo estranho, tinha tempo para 
fofoca.     


— Não sei direito. Ele não me apresentou ninguém. Só acho que ele 
está  de  olho  em  alguém  porque  parece  mais  feliz  ultimamente  —  ela 
respondeu, radiante.     
Ultimamente?,
  pensei. 
Faz  quase  dois  anos  que  Aspen  e  eu  nos 
encontramos. Por que só ultimamente? 
— Ele fica assoviando — foi a contribuição de Celia para o assunto.     
— É, e também canta — concordou Kamber.     
— Canta? — perguntei espantada.     
— Pois é — confirmaram as duas em coro.     
—  Então  ele  está  mesmo  com  alguém!  —  palpitou  minha  mãe.  — 
Quem será?     
—  Aí  você  me  pegou.  Mas  deve  ser  uma  moça  ótima.  Ele  tem 
trabalhado  muito,  mais  do  que  o  normal,  e  guardado  dinheiro.  Acho  que 
está tentando economizar para o casamento.     
Não  consegui  segurar  um  gritinho  de  empolgação.  Para  minha  sorte, 
todos acharam que era só por causa das notícias.     
—  Nada  me  deixa  mais  feliz  —  prosseguiu  a  sra.  Leger  —,  mesmo 
que  ele  ainda  não  esteja  pronto  para  contar  quem  ela  é.  Aspen  está 
sorrindo;  dá  para  notar  a  alegria  dele.  As  coisas  ficaram  tão  difíceis  para 
nós desde que perdemos Herrick, e ele assumiu muitas responsabilidades. 
Qualquer garota que o faça feliz já é uma filha para mim.     
— É uma moça de sorte! Aspen é um garoto maravilhoso — observou 
minha mãe. 
Eu  não  podia  acreditar.  A  família  estava  sempre  tentando  fazer  o 
dinheiro durar até o fim do mês, e Aspen guardava  uma parte por minha 
causa!  Não  sabia  se  dava  uma  bronca  ou  um  beijo  nele.  Eu...  não  tinha 
palavras.     
Ele ia 
mesmo
 me pedir em casamento!    
Era  tudo  em  que  eu  conseguia  pensar: 
Aspen,  Aspen, Aspen. 
Fiquei 
na  fila,  cheguei  ao  guichê,  assinei  os  papéis  confirmando  que  as 
informações eram verdadeiras e tirei a foto. Antes de encarar o fotógrafo, 
sentei  na  cadeira  e  balancei  os  cabelos  uma  ou  duas  vezes  para  que 
ficassem com vida.     


Acho  que  nenhuma  outra  garota  de  Illéa  estava  mais  sorridente  que 
eu. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O Jornal Oficial de Illéa
 começava às oito. Ninguém era 
oficialmente obrigado a ver, mas era burrice não fazer isso. Até os Oito — 
os mendigos, os andarilhos — achavam uma loja ou igreja onde pudessem 
acompanhar  o  noticiário.  E  com  a  data  da  Seleção  se  aproximando,  o 
Jornal  Oficial 
era  mais  que  uma  obrigação.  Todo  mundo  queria  saber 
como caminhava o assunto.     
—  Você  acha  que  eles  vão  anunciar  as  ganhadoras  hoje?  —  indagou 
May, enfiando uma porção de purê na boca.     
— Não, querida. Todas as selecionáveis têm nove dias para entregar o 
formulário. Provavelmente só vamos saber daqui a duas semanas — a voz 
da  minha  mãe  estava  calma  como  não  ficava  havia  anos.  Ela  estava 
totalmente  tranquila,  satisfeita  por  ter  conseguido  algo  que  queria  de 
verdade.     
— Ah! Não aguento esperar! — reclamou May.     
Ela
 não aguentava esperar? Era o meu nome na urna!     
— Sua mãe me contou que vocês passaram um bom tempo na fila.     
Fiquei surpresa por meu pai querer entrar na conversa. 
—  Pois  é.  Eu  não  esperava  tantas  meninas.  Não  sei  por  que  vão  dar 
mais nove dias. Juro que todo mundo na província estava lá.     
Meu pai deu uma risadinha.     
— Foi divertido analisar as concorrentes?     


— Nem quis saber disso — respondi com sinceridade. — Deixei esse 
trabalho para mamãe.     
Ela confirmou com a cabeça.     
— Eu analisei mesmo. Não pude evitar. Mas acho que America estava 
bem. Ajeitada, natural. E, de verdade, querida: você é linda. Se eles forem 
mesmo  olhar  as  fotos  em  vez  de  sortear  uma  moça,  você  vai  ter  mais 
chances ainda.     
— Não sei — tentei tirar o corpo fora. — Tinha uma garota com tanto 
batom  vermelho  que  parecia  estar  sangrando.  Talvez  ela  faça  o  tipo  do 
príncipe.     
Todos  riram.  Minha  mãe  continuou  comentando  as  roupas  que 
chamaram  a  atenção  dela.  May  bebia  suas  palavras,  ao  passo  que  Gerad 
dava uns sorrisos entre uma colherada e outra. Às vezes era fácil esquecer 
que  a  vida  em  casa  ficara  mais  estressante  quando  Gerad  começou  a 
entender o mundo ao seu redor. 
Às oito, todos nos juntamos na sala: meu pai em sua cadeira; May no 
sofá  perto  de  mamãe,  com  Gerad  no  colo;  e  eu  esparramada  no  chão. 
Ligamos a TV no canal da rede pública, o único pelo qual não era preciso 
pagar, de modo que até os Oito poderiam vê-lo, se tivessem TV.     
O hino nacional tocou. Pode parecer meio bobo, mas sempre adorei o 
hino. Era uma das músicas que mais gostava de cantar.     
O retrato da família real surgiu na tela. No alto do palanque, estava o 
rei  Clarkson.  Seus  conselheiros  sentavam-se  ao  lado,  e  a  câmera  os 
focalizou. Parecia que haveria uma porção de anúncios naquela noite. No 
lado esquerdo da  tela, estavam a  rainha e o  príncipe  Maxon, com  roupas 
elegantes, sentados no trono, com um ar nobre e importante.     
— É o seu namorado, America! — May anunciou. Todos riram.     
Observei  Maxon.  Talvez  ele  fosse  bonito,  a  seu  modo.  Mas  não  era 
nem um pouco parecido com Aspen. Seu cabelo tinha uma cor meio mel e 
seus  olhos  eram  castanhos.  Ele  tinha  uma  cara  de  verão,  o  que  muita 
gente  deveria  gostar.  Seu  cabelo  batido  estava  em  perfeita  ordem,  e  a 
roupa se ajustava perfeitamente ao seu corpo. 
Só  que  Maxon  ficava  travado  demais  naquela  cadeira.  Parecia  tenso. 


Seus  cabelos  brilhantes  eram  perfeitos  demais,  seu  terno  sob  medida 
estava engomado demais. Era mais uma pintura que uma pessoa. Cheguei 
a  ter  pena  da  garota  que  ficasse  com  ele.  Aquela  devia  ser  a  vida  mais 
chata que alguém poderia imaginar.     
Concentrei  a  atenção  na  rainha.  Ela  parecia  calma.  Também  estava 
sentada, mas não de um jeito frio. Então eu me dei conta de que ela — ao 
contrário do rei e do príncipe — não tinha sido criada no palácio. Era uma 
gloriosa filha de Illéa. Talvez antes tivesse sido alguém como eu.     
O rei já estava falando, mas eu tinha que perguntar.     
— Mãe? — sussurrei, para não distrair meu pai.     
— Sim?     
— A rainha... o que ela era? Quer dizer, de que casta?     
Minha mãe viu meu interesse e abriu um sorriso.     
— Quatro. 
Uma  Quatro.  Ela  tinha  passado  a  infância  trabalhando  em  uma 
fábrica ou em uma loja; talvez em uma fazenda. Eu imaginava como teria 
sido  a  vida  dela.  Será  que  tinha  uma  família  grande?  Provavelmente  não 
tinha  que  se  preocupar  com  comida.  Será  que  suas  amigas  ficaram  com 
inveja quando ela foi escolhida? Se eu tivesse amigos de verdade, será que 
eles ficariam com inveja de mim?     
Que besteira. Eu não ia ser sorteada.     
Comecei a prestar atenção nas palavras do rei.     
—  Esta  manhã,  outro  ataque  na  Nova  Ásia  comprometeu  nossas 
bases, deixando as tropas em um número pouco inferior ao do inimigo. No 
entanto, estamos confiantes de que os recrutas do mês que vem chegarão 
com o moral elevado e renovarão nossas forças.     
Eu odiava a guerra. Infelizmente, nosso país era jovem e tinha que se 
defender de todo mundo. Talvez não sobrevivêssemos a outra invasão.     
Após  o  rei  nos  informar  do  recente  ataque  a  um  campo  rebelde,  a 
equipe  de  economia  anunciou  a  situação  da  dívida  do  país,  e  o  chefe  do 
Comitê  de  Infraestrutura  informou  que  em  dois  anos  começariam  a 
trabalhar  na  reconstrução  de  inúmeras  estradas.  Algumas  delas  estavam 
abandonadas desde a Quarta Guerra Mundial. Por fim, a última pessoa — 


o mestre de cerimônias — subiu ao palanque. 
—  Boa  noite,  senhoras  e  senhores  de  Illéa.  Como  sabem,  enviamos 
pelo  correio  os  formulários  para  a  Seleção.  Acabo  de  receber  o  primeiro 
lote  de  inscrições  e  tenho  o  prazer  de  anunciar  que  milhares  de  lindas 
illeanas já deixaram seu nome nas urnas para a Seleção!     
Ao fundo, em um dos cantos, o príncipe mudou de posição na cadeira. 
Será que estava suando?     
— Em nome da família real, quero agradecer-lhes por seu entusiasmo 
e  patriotismo.  Com  um  pouco  de  sorte,  comemoraremos  no  Ano-Novo  o 
noivado de nosso amado príncipe Maxon com uma encantadora, talentosa 
e inteligente filha de Illéa!     
Os  conselheiros  ali  sentados  aplaudiram.  Maxon  sorriu,  mas  não 
parecia  à  vontade.  Quando  as  palmas  cessaram,  o  mestre  de  cerimônias 
prosseguiu:     
—  É  claro  que  teremos  muitas  horas  de  programação  televisiva  para 
conhecer as jovens da Seleção, incluindo especiais sobre a vida no palácio. 
Não podemos imaginar ninguém melhor que nosso Gavril Fadaye para nos 
guiar durante esses dias tão emocionantes! 
Outra salva de palmas, mas bem menor. Ela partiu da minha mãe, do 
meu  pai  e  de  May.  Gavril  Fadaye  era  uma  lenda.  Fazia  mais  ou  menos 
vinte  anos  que  ele  comentava  os  desfiles  da  Festa  da  Gratidão,  os  shows 
de  Natal  e  qualquer  outro  evento  realizado  no  palácio.  Nunca  vi  uma 
entrevista  com  membros  da  família  real  ou  com  pessoas  próximas  a  eles 
que não tivesse sido feita por Fadaye.     
— America, talvez você conheça Gavril! — minha mãe cantarolou.     
— Lá vem ele! — festejou May, agitando os braços delicados.     
De  fato,  ali  estava  Gavril,  entrando  em  cena  com  seu  terno  azul 
engomado.  Ele  devia  ter  quase  cinquenta  anos,  mas  continuava  afiado. 
Conforme  caminhava  pelo  palco,  a  luz  refletia  no  broche  da  lapela, 
produzindo um brilho dourado semelhante ao das notas fortes nas minhas 

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