A seleção The Selection 01


partir para cima do pão. Eu não fazia ideia de quando havia sido sua última



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partir para cima do pão. Eu não fazia ideia de quando havia sido sua última 
refeição.     
—  Você  cozinha  tão  bem.  Um  dia  vai  dar  muitas  alegrias  e  quilos  a 
mais para alguém — comentou enquanto mastigava a maçã.     
— Vou dar alegrias e quilos a mais para você. Sabe disso.     


— Ah, engordar!     
Rimos,  e  ele  me  contou  as  novidades  desde  a  última  vez  que  nos 
vimos. Aspen tinha trabalhado no escritório de uma fábrica e ia ficar mais 
uma  semana  nesse  serviço.  Sua  mãe  tinha  finalmente  conseguido  um 
emprego  fixo  de  faxineira  na  casa  de  alguns  Dois  da  nossa  região.  As 
gêmeas estavam tristes porque a mãe as fizera largar o curso de teatro da 
escola para que pudessem trabalhar mais. 
—  Vou  ver  se  arranjo  um  trabalho  aos  domingos  para  ganhar  um 
pouquinho mais. Detesto ver as duas abandonarem uma coisa que adoram 
— ele disse, esperançoso, como se fosse mesmo conseguir.    
 — Aspen Leger, nem se atreva! Você já trabalha demais.     
— Aaah, Meri — ele sussurrou ao meu ouvido. Arrepiei. — Você sabe 
como  Kamber  e  Celia  são.  Elas  precisam  ver  gente.  Não  aturam  ficar 
limpando e escrevendo o tempo todo. Não é da natureza delas.     
— Mas não é justo que esperem tudo de você, Aspen. Sei exatamente 
como se sente, mas você precisa se cuidar. Se ama suas irmãs de verdade, 
tem que se preocupar também com o responsável por elas.     
— Fique tranquila, Meri. Acho que coisas boas vão surgir lá na frente. 
Não vou ficar fazendo isso para sempre.     
Mas ele ia. Porque sua família sempre ia precisar de dinheiro. 
—  Aspen,  sei  que  você  aguenta.  Mas  há  um  limite.  Você  não  pode 
achar  que  é  capaz  de  dar  tudo  para  todo  mundo  que  ama.  Não  dá  para 
você fazer tudo.     
Ficamos em silêncio por uns instantes. Eu tinha esperança de que ele 
estivesse refletindo sobre minhas palavras, de que percebesse que, se não 
diminuísse  o  ritmo,  podia  se  desgastar  demais.  Não  era  raro  que  pessoas 
da Seis, da Sete e da Oito morressem de exaustão. Eu não suportaria isso. 
Apertei-me  ainda  mais  contra  o  peito  dele,  tentando  apagar  essa  imagem 
da minha mente.     
— America?     
— Sim? — sussurrei.     
— Você vai entrar na Seleção?     
—  Não!  Claro  que  não!  Não  quero  que  as  pessoas  pensem  que 


considero a hipótese de me casar com um estranho. É você que eu amo — 
disse bruscamente.     
— Você quer ser uma Seis? Sempre faminta? Sempre preocupada? — 
ele perguntou.     
Sua  voz  carregava  muita  dor  e  uma  pergunta  sincera:  se  eu  pudesse 
escolher  entre  dormir  no  palácio  real  rodeada  de  empregados  e  num 
apartamento de três cômodos rodeada pela família Leger, o que seria? 
— Aspen, nós vamos conseguir. Somos inteligentes. Vamos ficar bem 
— eu disse, desejando que isso acontecesse de verdade.     
—  Você  sabe  que  as  coisas  não  vão  ser  assim,  Meri.  Eu  ainda  teria 
que sustentar minha família. Não sou do tipo que abandona os outros.     
Estremeci nos braços de Aspen, que continuou:     
— E se tivermos filhos...     
— 
Quando
 tivermos filhos. E vamos tomar cuidado. Não precisamos 
ter mais de dois.     
— Você sabe que isso é uma coisa que não podemos controlar!     
Sentia a raiva tomando conta da voz dele. Não podia culpá-lo. Quem 
tinha  dinheiro  podia  controlar  o  número  de  filhos.  Mas  os  Quatro  em 
diante  tinham  que  se  virar.  Esse  foi  o  assunto  de  muitas  das  nossas 
discussões  nos  seis  meses  anteriores,  quando  começamos  a  pensar 
seriamente num jeito de ficar juntos. Filhos eram uma incógnita. E quanto 
mais deles, mais trabalho. Já havia tantas bocas famintas...     
De novo veio o silêncio. Nenhum dos dois sabia ao certo o que dizer. 
Aspen  era  passional;  tendia  a  se  exaltar  nas  discussões.  Ele  tinha 
aprendido  a  se  conter  antes  de  ficar  irritado  demais.  Era  o  que  estava 
fazendo agora. 
Eu não queria deixá-lo preocupado ou nervoso. Acreditava mesmo que 
podíamos  lidar  com  a  situação.  Se  planejássemos,  sobreviveríamos  ao 
impossível.  Talvez  eu  fosse  esperançosa  demais.  Talvez  estivesse 
apaixonada  demais.  O  fato  é  que  realmente  acreditava  que  Aspen  e  eu 
alcançaríamos tudo o que quiséssemos de coração.     
— Acho que você devia... — ele soltou de repente.     
— Devia o quê?     


— Participar da Seleção.     
Olhei para ele furiosa:     
— Você perdeu o juízo?     
— Escute, Meri.     
Sua  boca  estava  bem  perto  do  meu  ouvido.  Não  era  justo;  ele  sabia 
que  isso  ia  me  distrair.  Sua  voz  veio  devagar,  aos  sussurros,  como  se  ele 
fosse dizer algo romântico, embora se tratasse do contrário.     
—  Se  você  tivesse  a  oportunidade  de  melhorar  de  vida  e  não  a 
aproveitasse  por  minha  causa,  eu  nunca  ia  me  perdoar.  Não  ia  aguentar 
uma coisa dessas.     
Respondi bufando:     
—  Mas  que  ridículo.  Pense  nos  milhares  de  garotas  que  vão 

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