A seleção The Selection 01


partir. Quando o grupo diminuir, você verá



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partir. Quando o grupo diminuir, você verá.    


 Olhei novamente para a  rainha.  E  então para Maxon. Depois para o 
rei. E, por fim, para Adele de novo.     
Tanta  coisa  se  passou  pela  minha  cabeça...  Como  as  famílias  eram 
iguais,  independentemente  da  casta.  Como  as  mães  carregavam  suas 
preocupações.  Como  eu  realmente  não  odiava  nenhuma  das  garotas  ali, 
não  importava  quão  erradas  estivessem.  Como  todos  lá  fora  deviam  estar 
fazendo  uma  cara  animada  e  corajosa,  por  um  motivo  ou  outro.  E 
finalmente, como Maxon tinha me prometido algo.     
— Com licença. Preciso falar com uma pessoa.    
Adele  secou  sua  taça  e  deu  um  tchauzinho  contente.  Corri  palácio 
afora  até  chegar  aos  jardins.  Procurei  o  príncipe  por  uns  instantes  e  o 
encontrei  brincando  de  pega-pega  com  o  priminho,  perto  de  um  arbusto. 
Dei um sorriso e me aproximei devagar. 
Maxon  finalmente  parou,  agitando  os  braços  em  reconhecimento  da 
sua  derrota.  Ainda  rindo,  ele  virou  para  trás  e  deparou  comigo.  Com  o 
sorriso  ainda  aberto  no  rosto,  nossos  olhares  se  cruzaram.  O  sorriso  se 
desfez. Ele examinava meu rosto em busca de um sinal do meu humor.     
Mordi  os  lábios  e  olhei  para  baixo.  Era  evidente  que  a  preocupação 
com  meu  destino  enquanto  participante  da  Seleção  implicaria  processar 
uma série de sentimentos para os quais não estava preparada. No entanto, 
eu  os  deixei  vir.  Precisava  ter  cuidado  para  não  os  descontar  nos  outros, 
especialmente em Maxon.     
Pensei  na  rainha,  em  como  ela  recebia  ao  mesmo  tempo  líderes 
estrangeiros,  membros  da  família  e  um  bando  de  meninas  barulhentas. 
Tudo de uma vez. Ela ajudava o marido, o filho e o país. E por baixo dessa 
força estava uma Quatro que lidava com suas próprias dores e que nunca 
deixou  sua  antiga  condição  ou  suas  aflições  recentes  impedi-la  de  fazer 
tudo o que fazia.     
Olhei para Maxon sem levantar a cabeça e sorri. Devagar, ele sorriu de 
volta e cochichou algo com o garotinho, que imediatamente saiu correndo. 
Depois, mexeu na orelha. E eu fiz o mesmo. 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
alguns dias conosco. Os hóspedes da Noruécia 
ficaram  uma  semana  inteira.  O  Jornal  Oficial  exibiu  até  um  quadro 
especial sobre relações internacionais e medidas para promover a amizade 
entre as duas nações.     
Assim  que  todos  partiram,  outra  visitante  chegou:  a  paz.  Já  fazia  um 
mês  que  eu  estava  no  palácio  e  me  sentia  completamente  em  casa.  Meu 
corpo  tinha  se  adaptado  ao  novo  clima.  O  calor  agradável  do  palácio  era 
divino.  Estávamos  quase  no  fim  de  setembro  e  fazia  frio  à  noite,  mas  eu 
me sentia muito mais aquecida do que em casa. Os cantos daquele espaço 
gigantesco  já  não  eram  mistério.  Os  sons  de  sapatos  sobre  o  mármore,  o 
tinir  dos  copos  de  cristal,  a  marcha  dos  guardas:  tudo  isso  já  me  era  tão 
familiar  quanto  o  motor  da  geladeira  de  casa  ou  as  boladas  que  Gerad 
acertava na parede. 
As refeições com a família real e os momentos no Salão das Mulheres 
já eram constantes na minha rotina, mas os momentos entre uma atividade 
e  outra  pareciam  sempre  novos.  Dediquei  mais  tempo  à  música;  os 
instrumentos  do  palácio  eram  bem  superiores  aos  que  eu  tinha  em  casa. 
Precisava reconhecer: estava ficando mal-acostumada. A qualidade do som 
era infinitamente melhor. E mesmo o Salão das Mulheres já tinha ficado 
mais animado com as duas visitas  que a  rainha  nos tinha feito até então. 
Ela  ainda  não  havia  conversado  com  ninguém,  mas  se  sentava  em  uma 


cadeira  confortável  acompanhada  de  suas  criadas  e  observava  nossas 
leituras e conversas.     
No  geral,  a  animosidade  tinha  passado.  Acostumamo-nos  umas  às 
outras. Finalmente pudemos ver a revista com nossas fotos e comentários. 
Imaginem minha surpresa ao descobrir que era uma das favoritas. Marlee 
ficou com o primeiro  lugar, seguida de perto por Kriss, Tallulah e Bariel. 
Celeste deixou de falar com Bariel por dias ao saber disso, mas ninguém se 
importou muito.     
O que mais parecia causar tensão eram as informações lançadas no ar. 
Quem quer que tivesse estado mais recentemente com Maxon não podia 
deixar de contar, encantada, sobre seu pequeno encontro. Pelo jeito como 
todas  falavam,  parecia  que  ele  escolheria  seis  ou  sete  esposas.  Mas  nem 
tudo eram flores para todas. 
Marlee, por exemplo, teve diversos encontros com Maxon, o que dava 
nos nervos das outras. Contudo, ela nunca retornou tão radiante como no 
dia do primeiro encontro.     
—  America,  se  eu  contar,  você  precisa  prometer  que  não  vai  abrir  a 
boca para ninguém — ela disse enquanto caminhávamos pelo jardim.     
Eu sabia que se tratava de algo sério. Ela esperou até estarmos longe 
dos ouvidos atentos do Salão das Mulheres e fora do alcance dos olhos dos 
guardas.     
— Claro, Marlee. Está tudo bem?     
— Sim, tudo bem. É que... Preciso da sua opinião sobre uma coisa.     
O rosto de Marlee estava carregado de preocupação.     
— O que há de errado? — perguntei.     
Ela mordeu os lábios e me encarou.     
—  É  Maxon.  Não  sei  se  vai  dar  certo  —  ela  lamentou,  parecendo 
muito deprimida.     
— Por que você acha isso? — perguntei, preocupada.     
Agora que ela se abrira, retomamos a caminhada. 
—  Bem,  para  começar,  eu  não...  eu  não  sinto  nada,  sabe?  Não  tem 
química, não temos uma ligação.     
— Maxon pode ser um pouco tímido. É só isso. Talvez você tenha que 


dar um tempo a ele.     
Era verdade. Fiquei surpresa por ela não ter reparado nisso.     
— Não. O que quero dizer é que eu não gosto dele.     
— Ah!     
Essa  era  uma  situação  bem  diferente.  Tentei  continuar  a  conversa 
com uma pergunta bem idiota:     
— Você tentou?     
— Sim, e muito! Fico esperando o momento em que ele diga ou faça 
algo  que  me  mostre  que  temos  alguma  coisa  em  comum.  Mas  nunca 
acontece.  Acho  Maxon  bonito,  mas  isso  não  basta  para  construir  uma 
relação.  Quer  dizer,  nem  sei  se  ele  sente  atração  por  mim.  Você  tem 
alguma ideia do que ele, sei lá, do que ele gosta?     
Pensei por uns instantes.     
—  Na  verdade,  não.  Nunca  falamos  sobre  as  expectativas  dele  no 
quesito atributos físicos.     
— Aí é que está! Nós nunca conversamos. Ele sempre fala com você, 
mas  nós  dois  nunca  temos  o  que  conversar.  Passamos  muito  tempo  em 
silêncio, assistindo a algum filme ou jogando cartas. 
Ela parecia cada vez mais preocupada.     
— Às vezes, nós também ficamos em silêncio. Só nos sentamos e não 
dizemos nada. Além disso, esse tipo de sentimento não nasce da noite para 
o  dia.  Talvez  vocês  dois  devessem  ter  mais  calma  —  eu  disse,  cuidando 
para  que  minhas  palavras  oferecessem  algum  conforto.  Marlee  parecia 
prestes a chorar.     
—  É  sério,  America,  acho  que  a  única  razão  para  eu  estar  aqui  é  o 
povo gostar muito de mim. Acho que o príncipe leva em conta a opinião de 
seus súditos.     
Eu  nunca  tinha  pensado  nisso,  mas,  quando  ela  falou,  pareceu-me 
plausível.  Tempos  atrás,  eu  teria  descartado  essa  opinião,  mas  Maxon 
amava seu povo. Talvez a interferência na escolha da futura princesa fosse 
maior do que eu imaginava.     
—  Além  disso  —  ela  continuou  em  voz  baixa  —,  tudo  entre  nós 
parece tão... tão vazio.     


Lágrimas rolaram.    
Respirei fundo e dei-lhe um abraço. Queria muito que ela ficasse, que 
estivesse sempre ao meu lado, mas se ela não amava Maxon...     
—  Marlee,  se  você  não  quer  ficar  com  o  príncipe,  acho  que  deveria 
dizer isso a ele.     
— Ah, não. Eu não poderia. 
—  Você  tem  que  fazer  isso.  Ele  não  quer  se  casar  com  uma  pessoa 
que não o ama. Se não sente nada pelo príncipe, ele precisa saber.     
Marlee balançou a cabeça.     
— Não posso simplesmente pedir para sair! Preciso ficar. Não posso ir 
para casa... Não agora.     
— Por que, Marlee? O que a prende aqui?     
Por  um  instante,  achei  que  compartilhávamos  o  mesmo  segredo. 
Talvez  ela  precisasse  ficar  longe  de  alguém,  como  eu  precisava.  A  única 
diferença  era  que  Maxon  sabia  do  meu  segredo.  E  eu  queria  que  ela  se 
abrisse!  Queria  saber  que  não  era  a  única  que  tinha  ido  parar  ali  em 
circunstâncias ridículas.     
Contudo,  as  lágrimas  de  Marlee  pararam  tão  rapidamente  como 
tinham  começado.  Ela  fungou  algumas  vezes  e  se  endireitou.  Alisou  o 
vestido, sacudiu os ombros e se voltou para mim. Botou um sorriso forte e 
cálido no rosto e disse:     
—  Quer  saber?  Aposto  que  você  está  certa  —  ela  começou  a  se 
afastar. — Tenho certeza de que só preciso esperar e as coisas vão avançar. 
Agora tenho que ir. Tiny está à minha espera.     
Marlee correu até o palácio. O que teria se passado em sua cabeça? 
 
 
 
No dia seguinte, Marlee me evitou. E no outro também. Decidi me sentar 
no Salão das Mulheres a uma distância segura e deixar bem claro que eu a 
notava  sempre  que  passava  por  mim.  Queria  que  soubesse  que  podia 
confiar em mim. Não ia obrigá-la a falar.     
Foram  necessários  quatro  dias  para  ela  me  dar  um  sorriso  triste  de 


quem  sabia  que  alguma  coisa  não  ia  bem.  Apenas  acenei  com  a  cabeça. 
Aquilo parecia ser tudo o que eu tinha a dizer sobre o que se passava no 
coração dela.     
Naquele  mesmo  dia,  enquanto  eu  estava  sentada  no  Salão  das 
Mulheres,  Maxon  me  chamou.  Seria  mentira  se  dissesse  que  não  fiquei 
toda contente de correr porta afora para seus braços.     
— Maxon! — exclamei e me lancei sobre ele.     
Quando  me  afastei,  ele  se  mostrou  um  pouco  atrapalhado.  Eu  sabia 
por quê. No  dia em que deixamos a recepção para os  reis da Noruécia  e 
entramos no palácio para conversar, confessei que tinha dificuldades para 
lidar  com  meus  sentimentos.  Pedi  que  não  me  beijasse  até  eu  ter  mais 
certeza.  Ele  assentiu,  mas  notei  que  ficou  magoado.  Ainda  assim,  não 
quebrou sua promessa. Era difícil demais decifrar esses sentimentos com 
ele agindo como se fosse meu namorado, quando claramente não era. 
Ainda  restavam  vinte  e  duas  garotas  depois  da  partida  de  Camille, 
Mikaela e Laila. Camille e Laila eram simplesmente incompatíveis com a 
Seleção  e  foram  embora  sem  muito  destaque.  Já  Mikaela  sentia  tantas 
saudades  de  casa  que  se  desfez  em  choro  e  soluços  durante  o  café  da 
manhã, dois dias depois. Maxon a acompanhou até o quarto, o tempo todo 
com a mão nos ombros dela. Ele parecia não ficar triste por deixá-las sair, 
mas  alegre  por  poder  se  concentrar  em  outras  possibilidades,  sendo  eu 
uma  delas.  Mas  tanto  o  príncipe  como  eu  entendíamos  que  seria  tolice 
dele  entregar  o  coração  a  mim  quando  eu  mesma  não  sabia  por  onde 
andava o meu.     
— Como você está hoje? — ele perguntou enquanto se afastava.     
— Ótima, claro. O que faz aqui? Não deveria estar no trabalho?     
— O presidente do Comitê de Infraestrutura está doente, por isso, a 
reunião  foi  adiada.  Estou  livre  como  um  pássaro  a  tarde  inteira  — 
explicou, com um brilho no olhar. — O que quer fazer? — perguntou com 
o braço estendido para mim.     
—  Qualquer  coisa!  Há  tanto  no  palácio  que  eu  ainda  não  vi.  Os 
cavalos, por exemplo. E o cinema. Você ainda não me levou lá. 
— Então vamos agora. Um pouco de descanso para a cabeça me faria 


bem.  De  que  tipo  de  filme  você  gosta?  —  ele  perguntou  enquanto 
caminhávamos em direção à escadaria que eu imaginava dar no porão.     
—  Na  verdade,  não  sei.  Não  vejo  muitos  filmes.  Mas  gosto  de  livros 
românticos. E de comédia também!     
— Um romance, então?     
Maxon  levantou  a  sobrancelha  como  se  tivesse  segundas  intenções. 
Não tinha como não rir.     
Viramos  em  um  corredor  e  continuamos  a  conversar.  Quando 
cruzamos  com  um  destacamento  da  guarda  do  palácio,  todos  os  soldados 
abriram caminho e saudaram o príncipe e sua acompanhante. Devia haver 
mais de uma dúzia de homens naquele corredor. Eu já estava acostumada 
com a presença deles. Mesmo um grupo tão grande não era capaz de tirar 
minha  atenção  dos  momentos  agradáveis  que  ia  passar  com  Maxon  em 
breve.     
O que me fez parar foi o suspiro que alguém deixou escapar enquanto 
passávamos. Tanto Maxon como eu demos meia-volta.     
E ali estava Aspen.     
Também suspirei. 
Alguns dias antes, eu tinha ouvido um dos administradores do palácio 
comentar  de  passagem  o  recrutamento.  Aspen  me  veio  à  mente  então,  e 
imaginei  como  ele  estaria.  Mas  como  eu  estava  atrasada  para  uma  das 
várias aulas de Silvia, não tive muito tempo para especular.     
Então  ele  tinha  sido  escolhido,  afinal.  E  entre  todos  os  lugares  para 
onde poderia ir...     
Maxon interrompeu meus pensamentos:     
— America, você conhece este jovem?     
Mais  de  um  mês  havia  se  passado  desde  a  última  vez  em  que  vira 
Aspen, mas ele era a pessoa que eu me forçava para não esquecer, aquele 
que  ainda  habitava  meus  sonhos.  Eu  o  reconheceria  em  qualquer  lugar. 
Parecia  um  pouco  maior,  como  se  estivesse  bem  alimentado,  muito  bem 
alimentado,  e  malhando  muito.  Seu  cabelo  bagunçado  fora  cortado  bem 
baixo, praticamente raspado. Eu estava acostumada a vê-lo com roupas de 
segunda  mão  que  as  costuras  mal  mantinham  inteiras.  E  agora  lá  estava 


ele,  com  um  dos  uniformes  brilhantes  e  bem  ajustados  da  guarda  do 
palácio.     
Ele  parecia  estranho  e  familiar  ao  mesmo  tempo.  Tantas  coisas 
pareciam fora de lugar ao seu redor. Mas aqueles olhos... eram os olhos de 
Aspen.     
Meus  olhos  baixaram  para  a  plaqueta  de  identificação  em  seu 
uniforme: SOLDADO LEGER. 
Tudo isso não deve ter levado um segundo.     
Mantive  a  compostura  o  suficiente  para  ninguém  perceber  a 
tempestade  que  se  armava  dentro  de  mim,  num  milagre  puro  e  simples. 
Quis  tocá-lo,  beijá-lo,  gritar  com  ele,  exigir  que  saísse  do  meu  refúgio. 
Quis cavar um buraco e sumir, mas eu estava ali.     
Nada fazia sentido.     
Limpei a garganta:     
— Sim. O soldado Leger é de Carolina. Na verdade, da mesma cidade 
que eu — respondi com um sorriso para o príncipe.    Sem dúvida Aspen 
ouvira  nossas  risadas  no  corredor  e  notara  que  eu  continuava  de  braços 
dados com o príncipe. Que ele pensasse o que quisesse.     
Maxon se animou por mim.     
— Bom, o que  dizer! Bem-vindo, soldado  Leger.  Deve estar feliz por 
ver a campeã de Carolina novamente.     
Maxon estendeu a mão para Aspen, que o cumprimentou.     
O rosto de Aspen parecia feito de pedra.     
— Sim, Majestade. Muito feliz.    
 O que isso queria dizer? 
—  Estou  certo  de  que  torce  por  ela  —  Maxon  o  animou,  piscando 
para mim.     
—  Claro,  Majestade  —  concordou  Aspen,  inclinando  levemente  a 
cabeça.     
E o que isso queria dizer?     
— Perfeito. Já que America é de seu estado natal, não poderia pensar 
em  alguém  melhor  no  palácio  para  tomar  conta  dela.  Cuidarei  para  que 
faça  parte  do  rodízio  de  guardas  dela.  Essa  garota  nega-se  a  ser 


acompanhada por  uma criada durante a noite.  Tentei  convencê-la, mas... 
— Maxon balançou a cabeça para mim.     
Aspen finalmente pareceu relaxar um pouco.     
— Isso não me surpreende, Majestade.     
O príncipe sorriu.     
— Bem, estou certo de que vocês têm um dia trabalhoso pela frente. 
Estamos de saída. Tenham um bom dia, soldados — Maxon acenou com a 
cabeça e me levou consigo.     
Lutei com todas as minhas forças para não olhar para trás. 
No escuro do cinema, pensei no que fazer. O príncipe tinha deixado 
claro seu ódio a todos que me tratassem com desdém na noite em que lhe 
contei sobre Aspen. Se eu lhe dissesse que o homem que ele acabara de 
designar  como  meu  segurança  era  aquela  mesmíssima  pessoa,  será  que 
Aspen  seria  punido?  Não  queria  testar  o  príncipe.  Ele  tinha  criado  todo 
um sistema de assistência para o país com base nas minhas histórias sobre 
a fome.     
Bem, eu não podia contar. Não queria contar. Porque, apesar de toda 
a minha raiva, amava Aspen. E não suportaria vê-lo sofrer.     
Será  que  eu  devia  ir  embora?  Meu  coração  foi  tomado  pela 
ambiguidade.  Eu  tinha  a  chance  de  fugir  de  Aspen,  de  escapar  de  seu 
rosto,  aquele  rosto  que  me  torturaria  diariamente  quando  eu  o  visse  e 
lembrasse que já não era meu. Mas, se eu saísse, teria que deixar Maxon 
também.  E  ele  era  meu  melhor  amigo,  talvez  até  mais  que  isso.  Eu  não 
podia  simplesmente  ir  embora.  Além  disso,  como  explicar  sem  dizer  que 
Aspen estava ali? 
E tinha a minha família. Talvez os cheques tivessem um valor menor, 
mas  pelo  menos  chegavam.  May  escreveu  contando  que  papai  havia 
prometido que  naquele ano eles teriam o melhor Natal de todos, mas eu 
sabia  que  talvez  nenhum  outro  Natal  fosse  tão  bom  depois.  Se  eu 
desistisse, quem sabe quanto dinheiro minha fama daria à minha família? 
Tínhamos que poupar o máximo possível.     
—  Você  não  gostou  do  filme,  gostou?  —  Maxon  perguntou,  quase 
duas horas mais tarde.     


— Hein?     
— O filme. Você não riu nem teve nenhuma reação.     
— Ah.     
Tentei  me  lembrar  de  qualquer  informação,  uma  única  cena  que 
pudesse citar para dizer que tinha gostado. Nenhum registro.     
—  Acho  que  estou  um  pouco  fora  de  órbita  hoje.  Desculpe  ter 
estragado a tarde.     
— O  que é  isso!  — disse Maxon fazendo pouco caso da minha falta 
de entusiasmo. — Para mim, só sua companhia já vale a pena. Mas talvez 
você devesse tirar uma soneca antes do jantar. Seu rosto parece um pouco 
pálido.        Concordei.  Na  verdade,  considerava  a  hipótese  de  ir  para  o 
quarto e nunca mais sair. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 não optei por ficar escondida no quarto. Em vez disso, 
escolhi  o  Salão  das  Mulheres.  Geralmente,  eu  passava  o  dia  entrando  e 
saindo de lá, em passeios com Marlee ou visitas às criadas no quarto. Mas 
passei a usar o Salão das Mulheres como uma caverna. Nenhum homem, 
nem  mesmo  os  guardas,  tinha  autorização  para  entrar  lá  sem  ordem 
expressa da rainha. Era perfeito.     
Bem,  funcionou  perfeitamente  por  três  dias.  Com  tantas  garotas  no 
palácio, era questão de tempo até uma delas fazer aniversário. E o de Kriss 
era  na  quinta-feira.  Ela  deve  ter  comentado  o  fato  com  Maxon  —  que 
nunca deixava escapar a chance de presentear alguém —, e o resultado foi 
uma  festa  obrigatória  para  todas  as  Selecionadas.  Assim,  quinta-feira  foi 
um  dia  de  correria  louca  por  parte  das  meninas,  que  entravam  e  saíam 
umas  dos  quartos  das  outras,  perguntando  o  que  vestir  ou  imaginando  o 
tamanho da festa.     
Aparentemente,  não  era  preciso  levar  presente,  mas  mesmo  assim 
preparei algo para a aniversariante. 
No dia da festa, pus um dos meus vestidos favoritos e peguei o violino. 
Caminhei na ponta dos pés até o Grande Salão, olhando para os lados em 
cada  corredor.  Assim  que  cheguei,  corri  os  olhos  pelos  guardas  em 
sentinela. Por sorte Aspen não estava presente, e restou-me apenas achar 
graça naquela quantidade enorme de homens uniformizados. Será que eles 


esperavam uma rebelião ou algo do gênero?     
O  Grande  Salão  estava  ricamente  decorado.  Vasos  especiais 
pendurados nas paredes portavam enormes arranjos com flores amarelas e 
brancas,  que  também  enfeitavam  os  vasos  espalhados  pelo  chão.  Janelas, 
paredes  e  praticamente  tudo  o  que  não  era  móvel  estava  envolto  em 
guirlandas.  Havia  um  punhado  de  mesas  preparadas  e  cobertas  com 
toalhas, nas quais cintilavam pequenas contas de confete brilhante. Arcos 
decorativos ornavam as costas das cadeiras.     
Em  um  dos  cantos,  um  bolo  gigante  com  as  cores  do  salão  esperava 
para ser cortado. Do lado, uma pequena mesa com alguns presentes para a 
aniversariante.     
Um  quarteto  de  cordas  dominava  uma  das  paredes  e  tornava  inútil 
minha  tentativa  de  presente  para  Kriss.  Havia  ainda  um  fotógrafo  que 
circulava pelo salão captando momentos para o público. 
O  clima  era  de  descontração.  Tiny  —  que  até  então  só  havia 
conseguido se aproximar de Marlee  — conversava com Emmica e Jenna; 
nunca  a  tinha  visto  tão  animada.  Marlee  estava  parada  em  frente  a  uma 
das  janelas,  como  se  fosse  um  dos  muitos  guardas  que  pontilhavam  as 
paredes. Não fazia a menor questão de sair de lá, mas parava qualquer um 
que se aproximasse para conversar. Todo mundo parecia feliz e amigável.     
As exceções eram Celeste e Bariel. Elas geralmente eram inseparáveis, 
mas  ocupavam  extremos  opostos  do  salão.  Bariel  conversava  com 
Samantha e Celeste estava sentada a uma das mesas, sozinha e agarrada a 
uma taça com um líquido vermelho. Eu com certeza tinha perdido alguma 
coisa entre o jantar da noite anterior e aquela tarde.     
Peguei de novo o estojo do violino e me dirigi ao fundo do salão para 
cumprimentar Marlee.     
— Oi. Que festa, não? — comentei, deixando o violino no chão.     
—  Pois  é  —  disse  Marlee,  e  me  abraçou.  —  Ouvi  dizer  que  Maxon 
passará aqui mais tarde para desejar pessoalmente feliz aniversário a Kriss. 
Não é lindo? Aposto que ele vai trazer um presente também. 
Marlee  agia  com  o  entusiasmo  de  sempre.  Eu  ainda  me  perguntava 
qual seria seu segredo, mas confiava o bastante nela para saber que tocaria 


no  assunto  quando  precisasse  desabafar.  Ficamos  de  conversa  fiada  por 
alguns minutos até ouvir um clamor coletivo na porta de entrada do salão.     
Nós  nos  viramos  para  ver,  e  enquanto  ela  permaneceu  calma,  perdi 
totalmente o fôlego.     
Kriss  tinha  escolhido  seu  vestido  de  uma  maneira  incrivelmente 
estratégica.  Lá  estávamos  nós,  todas  com  roupas  para  o  dia  —  vestidos 
curtos e bonitinhos —, ao passo que ela entrava com um vestido longo de 
gala.  Mas  o  comprimento  era  o  de  menos.  O  chamativo  era  a  cor,  um 
creme  muito  próximo  do  branco.  Seu  cabelo  estava  arrumado  com  uma 
fileira  de  joias  amarelas  que  ia  de  um  lado  ao  outro  da  testa,  sugerindo 
uma coroa. Kriss parecia madura, nobre e esponsal.     
Apesar de eu não saber ao certo onde meu coração estava, senti uma 
pontada  de  inveja.  Nenhuma  de  nós  teria  um  momento  parecido.  Não 
importava  quantas  festas  ou  recepções  surgissem  dali  para  a  frente:  seria 
ridículo  tentar  imitar  Kriss.  Reparei  que  a  mão  de  Celeste  —  a  que  não 
estava agarrada à taça — fechou-se, pronta para socar alguém. 
— Ela está linda mesmo — comentou Marlee, animada.    — Mais do 
que linda — completei.     
A  festa  continuou,  e  Marlee  e  eu  passamos  a  maior  parte  do  tempo 
observando  o  movimento.  Para  nossa  surpresa  —  e  desconfiança  — 
Celeste  grudou  em  Kriss  e  não  parou  de  falar  enquanto  a  aniversariante 
circulava  pelo  salão  para  agradecer  a  presença  de  todas,  embora  na 
verdade não tivéssemos escolha.     
Ela  chegou  ao  fundo  do  salão,  onde  Marlee  e  eu  estávamos, 
absorvendo  a  luz  quentinha  do  sol  que  atravessava  a  janela.  Marlee,  com 
seu jeito de sempre, deu um abraço entusiasmado em Kriss.     
— Feliz aniversário! — gritou.     
—  Obrigada!  —  respondeu  Kriss,  com  o  mesmo  entusiasmo  e  afeto 
que tinha recebido.     
— Então, dezenove anos hoje, certo? — perguntou Marlee.     
—  Sim.  Não  consigo  imaginar  uma  maneira  melhor  de  comemorar. 
Estou tão feliz por estarem fotografando. Minha mãe vai adorar! Ainda que 
sejamos bem de vida, nunca tivemos dinheiro para fazer algo assim. É tudo 


tão lindo! — exclamou Kriss.     
Kriss  era  Quatro,  como  Marlee.  Elas  não  tinham  uma  vida  tão 
apertada como a  minha, mas acho  que qualquer coisa daquela proporção 
seria difícil de acontecer. 
—  É  impressionante  mesmo  —  comentou  Celeste.  —  No  meu 
aniversário  do  ano  passado,  fiz  uma  festa  do  preto  e  branco.  Um 
pouquinho só de cor e você não poderia nem passar na porta.     
—  Uau  —  Marlee  falou  em  voz  baixa  diante  daquele  óbvio  sinal  de 
inveja entre mundinhos fechados.     
—  Foi  fantástico.  Chefs  de  cozinha,  iluminação  teatral  e  música! 
Tessa Tamble pegou um avião só para ir à festa. Vocês já devem ter ouvido 
falar dela.     
Era  impossível  não  saber  quem  era  Tessa  Tamble.  Ela  tinha  pelo 
menos umas dez músicas de sucesso. Às vezes assistíamos seus clipes na 
televisão,  apesar  das  reclamações  da  minha  mãe,  que  pensava  que 
tínhamos  muito  mais  talento  que  gente  como  Tessa.  O  fato  de  essa 
cantora ter dinheiro e fama e nós não, embora fizéssemos essencialmente 
a mesma coisa, mexia com os nervos dela.     
— Ela é minha cantora preferida! — exclamou Kriss.     
— Bem, Tessa é uma amiga querida da minha família, por isso cantou 
na minha festa. Vocês sabem, não podíamos contratar um grupo da Cinco 
para sugar toda a vida do lugar. 
Marlee me olhou rapidamente pelo canto do olho. Deu para notar que 
estava constrangida por mim.     
— Ops — acrescentou Celeste, olhando para mim. — Esqueci. Sem 
ofensas.     
Sua voz melosa era irritante. Mais uma vez eu me senti tentada a bater 
nela... Era melhor nem pensar muito no assunto.     
— Não foi nada  — respondi, mantendo as aparências o máximo que 
pude. — E o que você faz exatamente na Dois, Celeste? Quer dizer, nunca 
ouvi uma música sua no rádio.     
—  Sou  modelo  —  ela  afirmou,  com  um  tom  de  voz  que  dava  a 
entender  que  eu  já  devia  saber  disso.  —  Você  nunca  me  viu  em  um 


anúncio?     
— Nunca tive o prazer.     
—  Ah,  sim,  você  é  da  Cinco.  Acho  que  não  pode  mesmo  comprar 
revistas.     
Aquilo  doeu.  Porque  era  verdade.  May  adorava  espiar  as  revistas 
quando encontrávamos em alguma loja. Só que não havia o menor sentido 
em comprá-las.     
Kriss retomou seu papel de anfitriã e mudou de assunto:     
—  Sabe,  America,  eu  estava  para  perguntar  qual  era  a  sua  área 
quando você era Cinco.     
— Música. 
— Você devia tocar para a gente algum dia!     
—  Na  verdade  —  comecei  com  um  suspiro  —,  trouxe  meu  violino 
para tocar para você hoje. Achei que seria um bom presente, mas já tem 
um quarteto, então acho que...     
— Ah, toque para a gente! — implorou Marlee.     
— Por favor, America. É meu aniversário — reforçou Kriss.     
— Mas você já tem um...     
Meus protestos não importavam. Kriss e Marlee já haviam pedido que 
o  quarteto  parasse  e  chamaram  todas  as  garotas  para  o  fundo  do  salão. 
Algumas  levantaram  as  saias  e  se  sentaram  no  chão,  ao  passo  que  outras 
puxaram algumas cadeiras do canto. Kriss ficou em pé no meio do grupo, 
apertando as mãos de entusiasmo. Celeste permaneceu ao seu lado, com a 
taça de cristal na mão ainda pela metade.     
Assim  que  todas  ficaram  confortáveis,  preparei  o  violino.  O  quarteto 
de  jovens  que  tinha  tocado  se  aproximou  para  me  apoiar,  e  os  poucos 
garçons que perambulavam pelo salão pararam. 
Respirei fundo e levei o violino ao queixo.     
— Para você — falei com os olhos em Kriss.     
Mantive o arco suspenso sobre as cordas por alguns segundos, fechei 
os olhos e deixei a música fluir.     
Por um momento, não houve Celeste perversa, nem Aspen à espreita 
nos  corredores,  nem  rebeldes  tentando  invadir  o  palácio.  Houve  apenas 


uma nota perfeita se prolongando até a seguinte, como que receosa de se 
perder no tempo sem a outra. Mas elas não ficavam juntas. Pairavam até 
as outras. E o presente que seria de Kriss tornou-se meu.     
Eu podia ser uma Cinco, mas tinha valor.     
Toquei a música — tão familiar quanto a voz de meu pai ou o cheiro 
do  meu  quarto  —  por  uns  breves  e  belos  instantes,  para  depois  deixá-la 
atingir seu fim inevitável. Passei o arco sobre as cordas pela última vez e o 
levantei. 
Abri  os  olhos  para  verificar  se  Kriss  tinha  gostado  do  presente,  mas 
nem vi seu rosto. Atrás do grupo de meninas estava Maxon. Ele vestia um 
terno cinza e carregava uma caixa sob o braço. As garotas aplaudiam com 
muita gentileza, mas não pude prestar atenção no som de suas palmas. Só 
conseguia focar Maxon, com uma expressão bela e maravilhada, que logo 
se converteu em um sorriso. Um sorriso para mim e mais ninguém.     
— Majestade — eu disse, com uma reverência.     
As outras garotas se levantaram para cumprimentar Maxon. Em meio 
a tudo isso, ouvi um grito chocado.     
— Ah, não! Kriss, eu sinto muito!     
Algumas  meninas  arregalaram  os  olhos  na  mesma  direção.  Quando 
Kriss  se  virou,  percebi  o  motivo.  A  frente  de  seu  belo  vestido  tinha  sido 
manchada pela bebida de Celeste. Ela parecia ter sido esfaqueada.     
— Desculpe-me, virei muito rápido. Não tive a intenção, Kriss. Deixe-
me ajudá-la.     
Um  estranho  talvez  achasse  que  as  palavras  de  Celeste  soavam 
sinceras, mas eu podia enxergar por trás delas. 
Kriss  levou  as  mãos  à  boca,  começou  a  chorar  e  saiu  em  disparada 
para  o  quarto,  pondo  fim  à  festa.  Maxon  saiu  atrás  dela,  embora  eu 
quisesse muito que ele ficasse.     
Celeste se defendia para quem estivesse disposto a ouvir, dizendo que 
tudo não tinha passado de um acidente. Tuesday concordava, dizendo ter 
testemunhado  a  cena.  Os  olhares  entediados  e  o  sacudir  de  ombros  da 
maioria, porém, mostravam que o apoio era inútil.     
Guardei discretamente meu violino  e comecei  a sair,  quando Marlee 


me agarrou pelo braço:     
— Alguém precisa fazer alguma coisa com ela.     
Se Celeste podia levar alguém tão adorável como Anna à violência, ou 
achar  aceitável  tentar  tomar  meu  vestido,  ou  ainda  fazer  uma  pessoa 
bondosa  como  Marlee  chegar  à  beira  do  ódio,  significava  que  ela  estava 
sobrando na Seleção.     
Eu tinha que livrar o palácio daquela menina. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Maxon, não foi acidente.    
Ambos estávamos no jardim novamente, matando o tempo até o 
Jornal 
Oficial.
 Esperei o dia inteiro para encontrar um momento em que pudesse 
conversar com ele.     
— Ela pareceu triste, e pediu tantas desculpas — ele argumentou. — 
Como pode não ter sido acidente?     
Bufei de irritação.     
—  Estou  dizendo.  Vejo  Celeste  todos  os  dias,  e  aquele  foi  seu  jeito 
discreto  de  arruinar  os  quinze  minutos  de  fama  de  Kriss.  Ela  é 
supercompetitiva.     
—  Bem,  se  a  intenção  dela  era  tirar  minha  atenção  de  Kriss,  falhou. 
Passei quase uma hora com a garota. Bem agradável, por sinal.     
Eu  não  queria  saber  disso.  Tinha  certeza  de  que  existia  uma  ligação 
tênue entre nós, e não queria falar de nada que pudesse mudá-la. Não até 
que eu entendesse meus sentimentos.     
— E quanto a Anna? — perguntei.     
— Quem?     
— Anna Farmer. Ela bateu em Celeste e você a enxotou, lembra? Sei 
que Anna foi provocada. 
—  Você  ouviu  Celeste  falar  alguma  coisa?  —  indagou  Maxon,  com 
voz cética.     


— Bem... não. Mas eu conhecia Anna e conheço Celeste. Anna não é 
o  tipo  de  pessoa  que  parte  direto  para  a  violência.  Celeste  deve  ter  dito 
algo muito maldoso para ela reagir daquele jeito.     
—  America,  estou  ciente  de  que  você  passa  mais  tempo  com  as 
meninas do que eu, mas você realmente as conhece? Sei que gosta de ficar 
escondida no quarto ou na biblioteca. Ouso dizer que tem mais intimidade 
com as criadas do que com qualquer uma das Selecionadas.     
Ele provavelmente tinha razão, mas eu não ia recuar.     
— Isso não é justo. Eu estava certa quanto a Marlee, não estava? Ela 
não é uma garota legal?     
Ele fez uma careta:     
— É, ela é legal... acho.     
— Então por que não acredita em mim quando digo que Celeste agiu 
de propósito?     
—  America,  não  é  que  eu  ache  que  você  esteja  mentindo.  Tenho 
certeza de que acha que foi de propósito. Mas Celeste pediu desculpas. E 
ela sempre é boa comigo.     
— Aposto que é — resmunguei baixo. 
— Chega — disse Maxon, com um suspiro de enfado. — Não quero 
falar das outras agora.     
— Ela tentou tomar meu vestido — reclamei.     
—  Eu  já  disse  que  não  quero  falar  dela  —  o  príncipe  rebateu  com 
raiva.        Isso  era  o  máximo  que  eu  ia  conseguir.  Bufei  e  dei  um  tapa  na 
minha própria perna. Estava tão frustrada que queria gritar.     
—  Se  vai  agir  assim,  vou  procurar  alguém  que  realmente  queira  a 
minha companhia — ele disparou, e começou a se afastar.     
— Ei!     
— Não! — Maxon se voltou para mim e falou com uma voz tão forte 
que eu nunca imaginaria que pudesse sair dele. — Você se esquece de sua 
situação,  senhorita  America.  Faria  bem  a  você  lembrar-se  de  que  sou  o 
príncipe herdeiro de Illéa. Para todos os efeitos e finalidades, sou o senhor 
e  mestre  deste  país,  e  seria  um  coitado  se  deixasse  você  me  tratar  assim 
em minha própria casa. Não precisa concordar com minhas decisões, mas 


deve submeter-se a elas.     
Ele  se  virou  e  saiu.  Não  viu  —  ou  não  quis  ver  —  as  lágrimas  que 
enchiam meus olhos. 
Não  olhei  para  Maxon  no  jantar,  mas  era  difícil  ignorá-lo  durante  o 
Jornal  Oficial. 
Peguei-o  olhando  para  mim  duas  vezes,  e  em  ambas  ele 
mexeu na orelha. Não correspondi. Não queria falar com ele. Minha única 
expectativa  para  a  conversa  era  mais  uma  bronca,  e  eu  não  precisava 
daquilo.     
Fui para meu quarto assim que o programa terminou, tão irritada com 
ele  que  mal  conseguia  pensar.  Por  que  não  me  escutava?  Será  que  me 
considerava  uma  mentirosa?  Pior:  será  que  pensava  que  Celeste  jamais 
mentiria?     
Talvez  Maxon  fosse  apenas  um  cara  normal,  e  Celeste  apenas  uma 
garota bonita. No fim das contas, a beleza dela prevalecia. Depois de toda 
aquela  história  de  querer  uma  alma  gêmea,  quem  sabe  ele  não  queria 
mesmo era um corpo sem alma?     
E se ele era esse tipo de pessoa, por que me incomodar? Burra, burra, 
burra! E eu o tinha beijado! E tinha prometido a ele que teria paciência! E 
para quê? Eu só...     
Virei no corredor onde ficava meu quarto e lá estava Aspen, de pé ao 
lado  da  porta.  Toda  a  minha  fúria  se  desfez  em  uma  estranha  incerteza. 
Pelo regulamento, os guardas deviam olhar para a frente e ficar em posição 
de  sentido.  Mas  Aspen  estava  olhando  para  mim  com  uma  expressão 
indecifrável no rosto.     
— Senhorita America — ele sussurrou. 
— Soldado Leger.     
Apesar de não ser sua função, ele se esticou para abrir a porta. Entrei 
no  quarto  lentamente,  como  que  com  medo  de  dar-lhe  as  costas,  com 
medo de que ele não fosse real. Depois de todo o esforço para expulsá-lo 
da  minha  cabeça  e  do  meu  coração,  só  queria  que  ele  ficasse  comigo 
naquele momento. Ao cruzar a porta, senti sua respiração próxima do meu 
cabelo. Ela me provocou calafrios.     
Ele olhou fixamente meus olhos e fechou a porta devagar.     


Era  inútil  querer  dormir.  Contorci-me  durante  horas  enquanto  a 
estupidez de Maxon e a proximidade de Aspen lutavam em minha cabeça. 
Não  sabia  o  que  fazer  em  nenhum  dos  casos.  Meus  pensamentos 
prenderam  tanto  a  minha  atenção  que  nem  percebi  que  os  fiquei 
ruminando até bem depois das duas da manhã.     
Suspirei.  Minhas  criadas  teriam  que  se  esforçar  mais  para  me  deixar 
com boa aparência de manhã.     
De  repente,  vi  uma  luz  no  corredor.  Aspen  abriu  a  porta  tão 
silenciosamente  que  pensei  que  estava  sonhando.  Ele  entrou  e  a  fechou 
novamente. 
—  Aspen,  o  que  está  fazendo?  —  falei  em  voz  alta  enquanto  ele 
avançava  na  minha  direção.  —  Você  vai  se  meter  em  uma  encrenca 
enorme se for pego aqui!    
Ele continuou avançando em silêncio.     
— Aspen...     
Ele  se  deteve  em  frente  à  minha  cama.  Sem  um  ruído,  depositou  a 
lança no chão.     
— Você o ama?     
Olhei para os olhos profundos dele, quase invisíveis na escuridão. Por 
uma fração de segundo, não soube o que dizer.     
— Não.     
Ele  puxou  meus  cobertores  com  um  gesto  violento  e  gracioso  ao 
mesmo  tempo.  Eu  deveria  ter  reclamado,  mas  não  o  fiz.  Sua  mão  estava 
atrás  da  minha  cabeça,  forçando  meu  rosto  na  direção  dele.  Aspen  me 
beijou ardentemente, e tudo o que havia de bom no mundo pareceu voltar 
à  vida.  Ele  já  não  cheirava  a  sabonete  caseiro  e  estava  mais  forte  do  que 
antes, mas cada movimento, cada toque, era familiar.     
Retomei  o  fôlego  por  um  breve  momento  enquanto  os  lábios  dele 
passeavam por meu pescoço.     
— Eles vão matar você por fazer isso. 
— E eu vou morrer se não fizer.     
Tentei  reunir  forças  para  mandá-lo  parar,  mas  sabia  que  minhas 
tentativas não seriam sinceras. Havia mil coisas erradas naquele momento: 


quebrávamos  várias  regras;  Aspen,  até  onde  eu  sabia,  tinha  namorada; 
Maxon  e  eu  nutríamos  algum  sentimento  mútuo.  Mas  eu  não  conseguia 
ficar  preocupada.  Estava  zangada  com  o  príncipe,  e  Aspen  era  tão 
reconfortante. Só fiquei ali e deixei as mãos dele subirem e descerem pelas 
minhas pernas.    
Aquilo era diferente. Nunca havíamos tido tanto espaço.     
Mesmo  naquela  situação,  podia  sentir  os  pensamentos  se  revolvendo 
em minha cabeça. Estava com raiva de Maxon, de Celeste e até de Aspen. 
Droga, eu tinha raiva de Illéa. Enquanto nos beijávamos, comecei a chorar.     
Aspen  não  tirou  seus  lábios  dos  meus,  e  logo  algumas  das  lágrimas 
eram dele.     
— Odeio você, sabia? — eu disse.     
— Eu sei, Meri. Eu sei.     
Meri. Seu toque, o modo como me chamava... Eu me sentia em outra 
dimensão.  Apesar  do  meu  estado  de  nervos,  a  companhia  de  Aspen  me 
levava de volta para casa.     
Continuamos por quase quinze minutos antes de ele cair em si. 
—  Preciso  voltar.  Os  guardas  que  fazem  a  ronda  esperam  me  ver  à 
porta.     
— O quê?     
—  Há  guardas  que  fazem  rondas  aleatórias.  Posso  ter  vinte  minutos. 
Posso  ter  uma  hora.  Se  a  ronda  for  curta,  posso  ter  menos  de  cinco 
minutos.     
—  Rápido!  —  apressei-o,  aos  pulos,  na  tentativa  de  ajudá-lo  a 
endireitar o cabelo.     
Ele pegou a lança e corremos pelo quarto. Antes de abrir a porta, ele 
me  puxou  para  mais  um  beijo.  Parecia  que  minhas  veias  tinham  sido 
invadidas pela luz do sol.     
— Não posso acreditar que você está aqui.     
Aspen balançou a cabeça.     
— Acredite em mim: ninguém ficou mais surpreso que eu.     
— Duvido.     
Sorrimos juntos.     


— Como você acabou na guarda do palácio? — perguntei.     
Ele deu de ombros: 
—  Parece  que  nasci  para  isso.  Eles  mandam  todos  os  recrutas  para 
aquele centro de treinamento em Whites. America, tudo estava coberto de 
neve,  e  não  eram  aquelas  nevascas  leves  de  casa.  Os  novos  soldados  são 
treinados e testados. Também levam injeções. Não sei do que eram, mas 
fiquei forte bem rápido. Sou um combatente duro e inteligente. Fiquei em 
primeiro na minha turma.     
Sorri orgulhosa:     
— Não me surpreendo.     
Beijei-o mais uma vez. Aspen sempre foi bom demais para levar uma 
vida de Seis.     
Ele abriu a porta e conferiu o corredor. Parecia vazio.     
— Tenho tanto para contar. Precisamos conversar — cochichei.     
— Eu sei. E vamos. Pode demorar um pouco, mas voltarei. Não esta 
noite, mas em breve.     
Aspen me beijou mais uma vez, tão forte que quase doeu. 
— Senti saudades — ele sussurrou com os lábios próximos dos meus 
antes de voltar a seu posto.     
Voltei  para  a  cama  atordoada.  Não  podia  acreditar  no  que  tinha 
acabado de fazer. Parte de mim — a mais nervosa — achava que Maxon 
tinha  merecido.  Se  ele  estava  a  fim  de  poupar  Celeste  e  me  humilhar, 
então eu não participaria da Seleção por muito tempo mais. Se ele podia 
achar brechas nas regras, então nada mais me deteria. Problema resolvido.     
Sentindo um cansaço instantâneo, adormeci em pouco tempo. 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  acordei  me  sentindo  um  pouco  culpada.  Assustada 
até.  Ignorar  Maxon  mexendo  em  sua  orelha  não  lhe  tirava  o  direito  de 
entrar no meu quarto quando quisesse. Seria tão fácil flagrar Aspen e eu. 
Se alguém desconfiasse do que eu tinha feito...     
Foi uma traição. E no palácio só havia um jeito de lidar com traidores.    
Mas uma parte de mim não se importava. Ao despertar, ainda bêbada de 
sono,  revivi  cada  olhar  de  Aspen,  cada  toque,  cada  beijo.  Tinha  sentido 
tanta falta daquilo.     
Gostaria  que  tivéssemos  conseguido  conversar.  Eu  realmente 
precisava saber o que Aspen pensava, embora ele tivesse deixado algumas 
pistas  na  noite  anterior.  Era  inacreditável  que  —  depois  de  me  esforçar 
tanto para não o querer mais — ele ainda me quisesse.     
Era  sábado,  e  teoricamente  eu  deveria  ir  para  o  Salão  das  Mulheres, 
mas  não  ia  aguentar.  Precisava  pensar,  e  sabia  que  não  conseguiria  se 
estivesse  rodeada  por  um  falatório  incessante.  Quando  as  criadas 
chegaram, disse a elas que estava com enxaqueca e que ia ficar na cama. 
Elas  foram  muito  prestativas.  Levaram  meu  almoço  e  limparam  o 
quarto  sem  fazer  barulho.  Quase  me  senti  mal  por  ter  mentido.  Mas  eu 
precisava. Não podia encarar a rainha e as meninas  — e talvez Maxon — 
com o pensamento preso a Aspen.     
Fechei  os  olhos,  mas  não  dormi.  Tentei  clarear  meus  sentimentos. 


Não  consegui  fazer  grandes  progressos,  contudo.  Alguém  bateu  à  porta. 
Rolei  na  cama  e  vi  o  rosto  de  Anne,  que  me  perguntava  sem  palavras  se 
podia  atender.  Sentei-me  rapidamente,  ajeitei  o  cabelo  e  fiz  um  sinal 
positivo com a cabeça.     
Rezei  para  que  não  fosse  Maxon;  tinha  medo  de  que  descobrisse  o 
crime estampado em meu rosto. Não estava, porém, preparada para ver a 
figura  de  Aspen  entrando  pela  porta.  Sentei-me  ainda  mais  ereta  quase 
que  automaticamente,  esperando  que  as  criadas  não  tivessem  notado 
minha agitação.     
— Com licença, senhorita  — ele disse para Anne.  — Sou o soldado 
Leger. Estou aqui para conversar com a senhorita America sobre algumas 
medidas de segurança.     
— Claro — Anne disse, com um sorriso maior que o habitual. 
Ela  estendeu  o  braço  para  dentro  do  quarto,  indicando  que  Aspen 
podia entrar. No  canto, Mary deu  um cutucão em Lucy, que soltou  uma 
risadinha.     
Ao  ouvir  isso,  Aspen  se  voltou  para  elas  e  as  cumprimentou 
levantando um pouco o quepe:     
— Senhoritas.     
Lucy baixou a cabeça e as bochechas de Mary ficaram mais vermelhas 
que  meu  cabelo,  mas  nenhuma  das  duas  respondeu.  Anne,  embora 
também movida pela boa aparência de Aspen, reuniu forças para falar:     
— Devemos sair, senhorita?     
Pensei  um  pouco  antes  de  responder.  Não  queria  ser  óbvia  demais, 
mas gostaria de um pouco de privacidade.     
—  Só  por  uns  minutos.  Estou  certa  de  que  o  soldado  Leger  não 
precisa de muito tempo — decidi.     
As  três  deixaram  o  quarto  de  imediato,  e  assim  que  desapareceram 
porta afora.    
—  Receio  que  esteja  errada.  Preciso  de  muito  tempo  com  você  —  e 
piscou para mim.     
—  Ainda  não  acredito  que  você  está  aqui  —  eu  disse,  meneando  a 
cabeça. 


Sem  perder  tempo,  Aspen  tirou  o  quepe,  sentou-se  à  cabeceira  da 
cama e repousou as mãos de tal modo que seus dedos roçaram os meus.     
— Nunca pensei que veria o recrutamento como uma bênção, mas, se 
me der a chance de pedir desculpas a você, serei infinitamente grato.     
Permaneci em um silêncio atônito.     
Aspen olhou no fundo dos meus olhos e prosseguiu:     
—  Por  favor,  me  perdoe,  Meri.  Eu  fui  um  idiota.  Comecei  a  me 
arrepender  daquela  noite  na  casa  da  árvore  no  instante  em  que  desci  as 
escadas.  Fui  teimoso  demais  para  falar  alguma  coisa,  e  depois  seu  nome 
foi chamado... Não sabia o que fazer.     
Ele  parou  por  um  instante.  Parecia  ter  lágrimas  nos  olhos.  Seria 
possível que Aspen tivesse chorado por mim como eu por ele?     
— Ainda sou muito apaixonado por você — ele concluiu.     
Mordi  os  lábios  para  segurar  as  lágrimas.  Tinha  que  me  certificar  de 
uma coisa antes de pensar no assunto:     
— E Brenna?     
Seu queixo caiu.     
— Quê? 
Tentei respirar fundo e continuei:     
—  Vi  vocês  dois  juntos  na  praça  durante  minha  despedida.  Vocês 
terminaram?     
O  rosto  dele  se  fechou,  concentrado,  para  depois  se  abrir  em  uma 
gargalhada. Aspen cobriu a boca com a mão e se jogou de costas na cama 
para depois se levantar e perguntar:     
— É isso que você acha? Ah, Meri, ela caiu. Tropeçou e eu a segurei.     
— Tropeçou?     
—  Sim,  a  praça  estava  cheia,  as  pessoas  estavam  umas  em  cima  das 
outras. Ela caiu em cima de mim e fez uma piada sobre ser estabanada, e 
você sabe que ela é, mesmo em condições normais.     
Lembrei-me  da  vez  em  que  Brenna  caiu  na  calçada  sem  nenhum 
motivo. Por que não tinha pensado nisso antes?     
— Assim que me livrei dela, corri para o palco — completou Aspen.     
A cena me veio à memória. Aspen tentando desesperadamente chegar 


perto de mim. Não era fingimento.    
 — E o que você ia fazer quando chegasse lá? — perguntei. 
Ele deu de ombros.     
—  Não  cheguei  a  pensar  nisso.  Pensei  em  implorar  para  você  ficar. 
Estava  pronto  para  fazer  papel  de  idiota  se  com  isso  evitasse  sua  entrada 
naquele carro. Mas você parecia tão zangada... e entendo o motivo agora.     
Ele respirou alto.     
— Eu não ia conseguir falar — continuou. — Além disso, talvez você 
fosse feliz aqui.     
Ele  correu  os  olhos  pelo  quarto,  viu  todas  as  coisas  bonitas  que  eu 
podia  considerar  minhas  temporariamente.  Dava  para  entender  porque 
achava isso.     
—  Depois  —  prosseguiu  —,  imaginei  que  poderia  reconquistar  você 
quando  voltasse.  —  De  repente,  a  voz  dele  assumiu  um  tom  de 
preocupação.  —  Tinha  certeza  de  que  ia  querer  sair  assim  que  pudesse. 
Mas... você não saía.     
Ele  fez  uma  pausa  e  olhou  para  mim,  mas  felizmente  não  me 
perguntou  quão  próximos  Maxon  e  eu  estávamos.  Ele  já  tinha  visto  um 
pouco dessa proximidade, mas não sabia que tínhamos nos beijado e que 
tínhamos um sinal secreto. E eu não queria ter que explicar isso. 
— Então veio o recrutamento, e eu julguei que seria injusto escrever 
para você. Poderia morrer por aí. Não queria fazer com que me amasse de 
novo e depois...     
—  Amar  você  de  novo?  —  perguntei,  incrédula.  —  Aspen,  nunca 
deixei de amar você.     
Com  um  movimento  rápido  e  delicado,  ele  se  inclinou  e  me  beijou. 
Aspen  pôs  a  mão  na  minha  bochecha,  apertando-me  contra  seu  peito. 
Cada  minuto  dos  últimos  dois  anos  preencheu  meu  corpo.  Fiquei  muito 
agradecida por não terem desaparecido.     
—  Sinto  muito  —  ele  murmurou  entre  os  beijos.  —  Sinto  mesmo, 
Meri.     
Ele  se  afastou  e  olhou  em  meus  olhos,  com  um  sorrisinho  em  seu 
rosto perfeito. Sua expressão perguntava exatamente o mesmo que eu.  O 


que íamos fazer?     
Nesse  exato  instante,  a  porta  se  abriu  e  fui  tomada  pelo  pânico 
quando minhas criadas flagraram Aspen e eu tão próximos.     
—  Graças  aos  céus,  vocês  voltaram  —  ele  disse,  forçando  a  mão 
contra minha bochecha antes de passá-la para minha testa. — A senhorita 
parece estar com a temperatura muito baixa.     
— O que há de errado? — perguntou Anne. Seu rosto se encheu de 
preocupação e ela correu para o lado da cama.     
Aspen se levantou e mentiu: 
— Ela disse que se sentia mal. Algo com a cabeça.     
— Sua dor de cabeça piorou, senhorita? — perguntou Mary.  — Seu 
rosto está tão pálido!     
Aposto que sim. Sem dúvida cada gota de sangue do meu rosto tinha 
sumido  no  instante  em  que  elas  nos  viram  juntos.  Mas  Aspen,  que 
conseguia  manter  a  calma  mesmo  sob  pressão,  consertou  tudo  em  uma 
fração de segundo.     
— Vou pegar o remédio — avisou Lucy voando para o banheiro.     
—  Perdoe-me,  senhorita  —  disse  Aspen  enquanto  minhas  criadas 
punham as mãos à obra. — Não quero incomodá-la mais. Voltarei quando 
estiver melhor.     
Seus  olhos  revelavam  aquele  rosto  que  beijei  um  milhão  de  vezes  na 
casa da árvore. O  mundo ao nosso redor era completamente novo, mas o 
elo entre nós dois era o mesmo de sempre.     
— Obrigada, soldado — agradeci com a voz fraca. 
Aspen fez uma pequena reverência e saiu.     
Em  pouco  tempo,  as  criadas  já  estavam  em  volta  de  mim,  tentando 
curar uma doença que nem sequer existia.     
Minha cabeça não doía, mas meu coração, sim. O desejo pelos braços 
de Aspen era tão familiar que parecia que nunca havia deixado de senti-lo.     
 
Acordei com Anne me sacudindo violentamente no meio da noite.     
— O quê?!     
— Por favor, a senhorita precisa se levantar!     


Sua voz estava frenética, carregada de terror.     
— O que há de errado? Você está machucada? — perguntei.     
— Não, não. Temos de levá-la ao porão. Estamos sendo atacados.     
Eu  estava  confusa.  Não  tinha  certeza  de  ter  entendido  Anne  direito. 
Mas notei que Lucy já chorava atrás dela.     
— Eles entraram? — perguntei sem acreditar. 
O lamento aterrorizado de Lucy foi a confirmação de que precisava.     
— O que fazemos? — perguntei.    
Um pico súbito de adrenalina me despertou e eu pulei da cama. Meus 
pés mal tocaram o chão e Mary já me calçava os sapatos enquanto Anne 
me cobria com um roupão. Eu só me perguntava uma coisa. 
Norte ou sul? 
Norte ou sul?     
—  Há  uma  passagem  no  corredor.  Ela  conduz  diretamente  ao 
esconderijo  no  porão.  Os  guardas  estarão  à  sua  espera.  A  família  real  já 
deve estar lá, assim como a maioria das garotas. Rápido, senhorita.     
Anne me empurrou para fora e forçou um trecho da parede, que girou 
como uma passagem secreta dos livros de mistério. Certamente havia uma 
escadaria me esperando depois da passagem. Enquanto eu estava ali, Tiny 
passou como um relâmpago vinda de seu quarto e disparou pelos degraus.     
— Muito bem, vamos — eu disse.     
Anne  e  Mary  arregalaram  os  olhos  para  mim.  Lucy  tremia  tanto  que 
mal podia parar de pé.     
— Vamos — repeti. 
—  Não,  senhorita.  Vamos  para  outro  lugar.  A  senhorita  precisa  se 
apressar antes que eles cheguem aqui. Por favor!     
Sabia que na melhor das hipóteses elas seriam feridas se os rebeldes 
as  encontrassem;  na  pior,  elas  seriam  mortas.  Não  suportaria  saber  que 
alguém  as  machucaria.  Talvez  eu  estivesse  sendo  um  pouco  convencida, 
mas  se  Maxon  já  tinha  chegado  ao  ponto  de  fazer  tanta  coisa  por  minha 
causa, quem sabe elas não eram importantes para ele por também serem 
para  mim?  Mesmo  que  tivéssemos  brigado...  Talvez  fosse  abusar  de  sua 
generosidade,  mas  eu  não  podia  deixá-las  lá.  O  medo  fez  com  que  eu 
agisse  rápido.  Agarrei  Anne  pelo  braço  e  a  empurrei  para  dentro.  Ela 


perdeu  o  equilíbrio  e  não  conseguiu  evitar  que  eu  empurrasse  Mary  e 
Lucy.     
— Andem! — ordenei.     
Elas  começaram  a  andar,  mas  Anne  protestou  ao  longo  de  todo  o 
caminho:     
—  Eles  não  nos  deixarão  entrar,  senhorita!  É  um  lugar  só  para  a 
família... Eles vão nos mandar sair!     
Não  me  importei  com  essas  palavras.  Não  importava  qual  fosse  o 
esconderijo delas, não seria mais seguro do que o da família real. 
A  escadaria  tinha  luzes  a  cada  dois  metros,  mas  mesmo  assim  quase 
caí  duas  vezes  em  minha  pressa.  Minha  mente  estava  cega  de  tanta 
preocupação.  Quão  longe  esses  rebeldes  já  tinham  chegado  antes?  Eles 
sabiam  da  existência  dessas  passagens  secretas?  Lucy  estava  quase 
paralisada; eu tinha que puxá-la para não dispersar o grupo.     
Não  saberia  dizer  quanto  tempo  levamos  para  chegar  ao  fim  das 
escadas, mas o caminho estreito finalmente desembocou em uma caverna 
artificial. Pude ver outras escadarias e outras meninas; todas elas corriam 
para  trás  do  que  parecia  ser  uma  porta  de  mais  de  meio  metro  de 
espessura. Nós quatro corremos para o esconderijo.     
—  Obrigado  por  acompanharem  a  senhorita.  Podem  ir  agora  — 
ordenou um guarda para minhas criadas.    
— Não! Elas estão comigo. Vão ficar — eu disse, com autoridade.     
— Senhorita, elas têm seu próprio esconderijo — ele replicou.     
—  Ótimo.  Se  não  entrarem,  eu  não  entro.  Tenho  certeza  de  que  o 
príncipe Maxon gostará de saber que minha ausência é culpa sua. Vamos 
voltar, meninas.     
Puxei  Mary  e  Lucy  pelas  mãos.  Anne  estava  tão  chocada  que  não 
disse nada.     
—  Espere!  Espere!  Muito  bem,  podem  entrar.  Mas  se  houver 
qualquer reclamação, a responsabilidade é sua. 
— Sem problemas — eu disse.     
Dei meia-volta com elas e entrei no abrigo de cabeça erguida.     
Havia um ruído de atividade lá dentro. Algumas garotas se abraçavam 


aos  prantos,  enquanto  outras  rezavam.  Vi  o  rei  e  a  rainha  sentados 
sozinhos, cercados por mais guardas. Ao lado deles, Maxon segurava a mão 
de Elayna. Ela parecia um pouco abalada, mas o toque dele claramente a 
acalmava.  Observei  o  lugar  da  família  real  no  esconderijo...  Tão  perto  da 
porta. Perguntei-me se a escolha tinha a ver com a dos capitães de navio, 
que afundavam com seu barco. Eles fariam tudo para manter o palácio de 
pé, mas, se ele afundasse, eram os primeiros a morrer.     
O grupinho real viu minha entrada e notou que eu tinha companhia. 
Não desviei o olhar de suas expressões confusas. Fiz uma breve reverência 
com a cabeça e continuei a andar com ar altivo. Imaginava que, enquanto 
parecesse estar certa dos meus atos, ninguém me questionaria.     
Estava errada.     
Dei  mais  três  passos  até  Silvia  aparecer.  Ela  passava  a  impressão  de 
estar incrivelmente calma. Com certeza, aquela situação não era novidade 
para ela.     
—  Ótimo.  Temos  gente  para  ajudar.  Meninas,  vão  imediatamente 
buscar  água  no  armazém  dos  fundos  e  comecem  a  servir  comida  para  a 
família real e as Selecionadas. Mexam-se — ela ordenou. 
— Não.     
Voltei-me para Anne e dei minha primeira ordem de verdade.     
—  Anne,  por  favor,  sirva  o  rei,  a  rainha  e  o  príncipe.  Depois  venha 
ficar ao meu lado.     
Então continuei, encarando Silvia:     
—  O  resto  pode  se  virar.  Elas  escolheram  abandonar  suas  criadas. 
Podem  pegar  sua  maldita  água  sozinhas.  As  minhas  ficarão  sentadas  ao 
meu lado. Venham, moças.     
Eu sabia que estávamos bem perto da família real e que eles podiam 
me ouvir. Na minha tentativa de mostrar autoridade,  falei  um pouco alto 
demais.  Mas  não  me  importava  se  eles  me  achassem  grossa.  Lucy  estava 
mais  assustada  que  a  maior  parte  das  pessoas  naquele  lugar.  Tremia  dos 
pés à cabeça, e não havia a menor chance de eu deixá-la servir gente que 
não tinha metade de sua bondade naquele estado.     
Talvez  por  causa  de  todos  os  meus  anos  como  irmã  mais  velha,  eu 


queria apenas manter aquelas três a salvo.     
Encontramos um espacinho no fundo do abrigo. Quem quer que fosse 
o responsável pela manutenção do esconderijo não estava preparado para a 
chegada das Selecionadas. Quase não havia cadeiras suficientes. Mas eu vi 
os estoques de água e comida e supus que poderíamos ficar ali por meses, 
se fosse necessário. 
Tratava-se  de  um  grupo  bem  esquisito.  Era  óbvio  que  muitos 
funcionários tinham trabalhado a noite toda e, por isso, ainda estavam de 
uniforme.  O  próprio  Maxon  estava  nessa  situação.  Mas  quase  todas  as 
garotas  estavam  de  camisola,  um  traje  que  só  servia  para  dormir  nos 
quartos  aquecidos  do  segundo  andar.  Nem  todas  puderam  pegar  um 
roupão  na  pressa  de  fugir.  E  mesmo  eu  sentia  um  pouco  de  frio  com  o 
meu.     
Várias meninas se juntaram na frente do abrigo. Era óbvio: seriam as 
primeiras  a  morrer  se  alguém  invadisse  o  lugar.  Mas,  se  não  houvesse 
invasão,  quanto  tempo  teriam  passado  bem  diante  de  Maxon!  Algumas 
garotas estavam mais próximas de onde tínhamos parado, e a maioria delas 
padecia da mesma condição de Lucy: tremiam, choravam e não se moviam 
de medo.     
Enquanto  Anne  servia  a  família  real,  eu  mantinha  Lucy  sobre  meu 
braço  e  Mary  a  acariciava.  Não  havia  nada  de  agradável  a  dizer  do 
esconderijo  ou  da  situação  e,  por  isso,  permanecemos  um  tempo  em 
silêncio,  ouvindo  as  vozes  dos  outros  refugiados.  Aquele  ruído  lembrou 
meu  primeiro  dia  no  palácio,  quando  nos  maquiaram.  Fechei  os  olhos  e 
imaginei aquelas cenas com os sons do abrigo, com o intuito de ficar  tão 
calma quanto aparentava estar. 
— Você está bem?     
Ergui  os  olhos  e  dei  com  Aspen,  imponente  em  seu  uniforme.  Seu 
tom  de  voz  era  muito  formal,  e  ele  não  parecia  nem  um  pouco  abalado 
com aquela situação.     
— Sim, obrigada — respondi, respirando fundo.     
Não  dissemos  nada  por  alguns  instantes,  observando  as  pessoas  se 
instalarem no abrigo. Mary estava claramente exausta e dormia apoiada em 


Lucy.  Lucy  estava  até  mais  calma,  no  fim  das  contas.  Tinha  parado  de 
chorar e permanecia sentada, olhando para Aspen com um olhar de doce 
admiração.     
—  Foi  bondade  sua  trazer  as  criadas.  Nem  todo  mundo  é  tão  gentil 
com pessoas consideradas inferiores — ele disse.     
—  As  castas  nunca  me  importaram  —  afirmei  calmamente.  Aspen 
abriu o menor dos sorrisos.     
Lucy tomou fôlego como se fosse perguntar algo para Aspen, mas um 
grito  retumbante  ecoou  pelo  esconderijo.  Um  guarda  na  outra  ponta  do 
lugar rugia ordens para que todas nós nos calássemos.     
Aspen  saiu,  o  que  foi  bom.  Temia  que  alguém  pudesse  ver  alguma 
coisa.     
— É o mesmo guarda de antes, não é? — Lucy perguntou.     
— Sim. 
— Eu o vi de vigia na sua porta. Ele é muito simpático — comentou.     
Tinha  certeza  de  que  Aspen  devia  falar  com  minhas  criadas  com  a 
mesma delicadeza que falava comigo. Eram todos Seis, afinal.     
— E é muito bonito — acrescentou Lucy.     
Achei  graça  e  pensei  em  dizer  algo,  mas  aquele  mesmo  guarda  nos 
pediu  para  fazer  silêncio.  Assim  que  alguns  restos  de  conversa  sumiram, 
uma quietude assustadora recaiu sobre o abrigo.     
Então  pudemos  ouvir.  Pessoas  lutavam  sobre  nossas  cabeças.  Fiquei 
atenta  ao  som  de  tiros  ou  qualquer  outra  coisa  que  pudesse  revelar  a 
origem  daquele  grupo  de  rebeldes.  Sem  perceber,  estava  agarrada  às 
garotas próximas de mim, como se juntas pudéssemos nos defender do que 
viesse a acontecer.     
O som continuou por horas a fio. O único movimento no abrigo eram 
as rondas de Maxon, que cumpria seu dever e verificava a situação de cada 
uma  das  meninas.  Quando  ele  chegou  no  canto  onde  estávamos,  apenas 
Lucy e eu permanecíamos acordadas. Às vezes, trocávamos umas palavras 
rápidas aos sussurros, quase lendo os lábios uma da outra. 
Maxon se aproximou e não notei nenhum vestígio de raiva por causa 
de  nossa  última  discussão,  embora  eu  ainda  quisesse  esclarecer  aquilo. 


Em  vez  disso,  vi  um  sorriso  agradecido  em  seu  rosto.  Ele  estava 
simplesmente feliz por eu estar bem. Uma onda  de  culpa percorreu meu 
corpo... No que eu havia me metido?     
— Você está bem? — ele perguntou.    
Fiz que sim com a cabeça. Ele se voltou para Lucy e se inclinou sobre 
mim  para  falar  com  ela.  Senti  o  cheiro  dele.  Maxon  não  cheirava  a  nada 
que viesse em frascos. Não era como canela ou baunilha, nem mesmo  — 
lembrei  na  hora  —  sabonete  caseiro.  Tinha  seu  próprio  cheiro,  uma 
mistura de essências que seu corpo exalava.     
— E você? — ele perguntou a Lucy.     
Ela também fez que sim com a cabeça.     
— Surpresa de estar aqui em baixo?     
Ele  deu  um  sorriso  para  Lucy,  deixando  mais  leve  uma  situação 
inimaginável.     
—  Não,  Majestade.  Não  com  ela  —  respondeu  Lucy,  voltando  a 
cabeça para mim.     
O príncipe virou-se para me encarar, e seu rosto estava incrivelmente 
próximo  do  meu.  Senti-me  desconfortável.  Havia  tanta  gente  deitada  ao 
meu redor que eu não era capaz de me mover. E podíamos ser vistos por 
muitos; até por Aspen. Mas o momento passou rapidamente e ele voltou a 
olhar para Lucy. 
— Sei o que você quer dizer.     
Maxon abriu outro sorriso. Ele parecia prestes a dizer algo mais, mas 
mudou de ideia e começou a se levantar.     
Agarrei seu braço com um só movimento e perguntei em voz baixa:     
— Norte ou sul?     
— Lembra-se do dia da foto? — ele sussurrou.     
Em  choque,  respondi  que  sim.  Aqueles  rebeldes  que  avançavam  por 
noroeste,  queimando  plantações  e  massacrando  pessoas  pelo  caminho. 
“Veja se conseguimos interceptá-los”, Maxon tinha dito. Aqueles rebeldes, 
aqueles assassinos, tinham vindo lentamente até nós, e não pudemos pará-
los. Eram matadores. Eram sulistas.     
— Não conte a ninguém.     


Maxon nos deixou e passou para Fiona, que soluçava encolhida.     
Tentei  respirar  devagar  enquanto  imaginava  meios  de  escapar  caso 
eles chegassem até nós, mas era tudo ilusão. Se os rebeldes conseguissem 
entrar, seria o fim. Não havia nada a fazer senão esperar.     
O  tempo  se  arrastava.  Não  fazia  ideia  de  que  horas  eram,  mas  as 
pessoas que tinham apagado  começavam a acordar e aqueles que tinham 
se mantido ligados começavam a desfalecer. 
Os barulhos sobre nós não pararam de uma vez, mas diminuíram com 
o passar das horas. Por fim, tudo ficou em silêncio e assim permaneceu.     
A porta se abriu e alguns guardas saíram para investigar. Mais tempo 
se passou enquanto faziam uma varredura no palácio. Então eles voltaram.     
—  Senhoras  e  senhores,  os  rebeldes  foram  subjugados  —  um  dos 
guardas  anunciou.  —  Pedimos  a  todos  que  retornem  a  seus  quartos  pela 
escada dos  fundos. Há muita bagunça e vários guardas feridos. É melhor 
evitar  os  salões  e  corredores  até  que  tudo  esteja  limpo.  As  Selecionadas 
devem  ir  para  seus  quartos  e  permanecer  lá  até  segunda  ordem.  Já  falei 
com os cozinheiros e alguém lhes servirá algo dentro de uma hora. Preciso 
que  todos  os  membros  da  equipe  médica  me  acompanhem  até  a  ala 
hospitalar.     
Após essas palavras, as pessoas começaram a se levantar e a agir como 
se nada tivesse acontecido. Alguns aparentavam certo tédio. Com exceção 
de rostos como o de Lucy, todos pareciam ter mantido a calma durante o 
ataque, como se fosse esperado. 
Meu  quarto  havia  sido  revirado.  Colchão  fora  da  cama,  vestidos 
jogados  no  chão,  fotos  da  minha  família  rasgadas.  Procurei  o  jarro  e  o 
encontrei intacto, com sua moedinha, escondido debaixo da cama. Tentei 
não  chorar,  mas  meus  olhos  continuavam  a  marejar.  Não  era  medo, 
embora  eu  tivesse  medo.  Só  não  queria  que  um  inimigo  tocasse  nas 
minhas  coisas,  não  queria  que  as  destruísse.        Levamos  um  tempo  até 
ajeitar  tudo,  por  conta  do  cansaço  extremo.  Mas  conseguimos.  Anne 
conseguiu até a encontrar fita adesiva para eu colar minhas fotos. Mandei 
minhas  criadas  para  a  cama  assim  que  pus  as  mãos  na  fita.  Anne 
reclamou, mas eu não estava disposta a ouvir. Agora que tinha encontrado 


minha capacidade de dar ordens, não tinha medo de usá-la.     
Assim  que  fiquei  sozinha,  deixei  o  choro  correr.  O  medo,  embora 
quase extinto, ainda dominava parte de mim.     
Peguei a calça que Maxon me dera e a única camiseta trazida de casa 
e  vesti.  Senti-me  um  pouco  mais  normal  assim.  Meu  cabelo  estava  uma 
bagunça  por  causa  de  tudo  o  que  havia  acontecido  durante  a  noite  e  a 
maior  parte  da  manhã.  Dei  um  jeito  nele  com  um  coque  simples,  mas 
algumas mechas caíam sobre meu rosto. 
Dispus os pedaços das fotos na cama, tentando descobrir a quais fotos 
pertenciam  cada  um.  Era  como  ter  quatro  quebra-cabeças  diferentes  na 
mesma  caixa.  Tinha  conseguido  montar  uma  das  fotos  quando  alguém 
bateu à porta.     
“Maxon”, pensei. “Por favor, que seja Maxon.”     
Abri a porta cheia de esperança.     
— Olá, queridinha.     
Era  Silvia.  Ela  fez  um  beicinho  que,  achei,  devia  ser  sua  maneira  de 
oferecer  conforto.  Silvia  entrou  rapidamente  e  só  depois  reparou  em 
minhas roupas.     
— Não me diga que também quer ir embora? — ela lamentou. — De 
verdade, não foi nada — Silvia parecia querer apagar todo aquele episódio 
com um gesto de suas mãos.     
Eu não chamaria aquilo de nada. Será que ela não notou que eu tinha 
chorado?     
— Não vou embora — disse, jogando uma mecha de cabelo para trás 
da orelha. — Alguém pediu para sair?     
Ela deu um suspiro, decepcionada. 
—  Sim.  Três  até  agora.  E  Maxon,  ótimo  rapaz,  disse-me  para  liberar 
quem  quisesse  voltar  para  casa.  Providências  estão  sendo  tomadas  neste 
exato  momento.  É  tão  engraçado.  Parece  que  ele  sabia  que  algumas 
garotas  iriam  embora.  Se  estivesse  no  lugar  delas,  pensaria  duas  vezes 
antes de sair por causa de uma bobagem como essa.     
Silvia  começou  a  circular  pelo  quarto,  observando  a  decoração. 
Bobagem? O que tinha de errado com essa mulher?     


— Levaram alguma coisa? — ela perguntou com um tom informal.     
— Não, senhora. Fizeram a maior bagunça, mas não dei por falta de 
nada.     
— Muito bom.     
Ela se aproximou de mim com um minúsculo telefone.     
—  É  a  linha  mais  segura  do  palácio  —  explicou.  —  Você  precisa 
telefonar para sua família e dizer que está bem. Não demore muito. Ainda 
tenho outras garotas para ver.     
Fiquei maravilhada com aquele objeto diminuto. Nunca havia posto as 
mãos  em  um  telefone  portátil.  Já  os  tinha  visto  com  Dois  e  Três,  mas 
nunca imaginei que um dia usaria um. Minhas mãos tremeram de emoção. 
Eu estava prestes a ouvir a voz deles!     
Disquei os números, ansiosa. Depois de tudo o que tinha acontecido, 
aquela  oportunidade  me  fez  sorrir.  Minha  mãe  atendeu  depois  de  dois 
toques. 
— Alô?     
— Mãe?     
—  America!  É  você?  Você  está  bem?  Estávamos  morrendo  de 
preocupação.  Um  guarda  telefonou  para  avisar  que  não  conseguiríamos 
entrar  em  contato  com  você  por  alguns  dias,  e  eu  sabia  que  os  malditos 
rebeldes tinham conseguido entrar aí. Ficamos com tanto medo.     
Minha mãe começou a chorar.     
— Ah, mãe, não chore. Estou segura.     
Olhei para Silvia. Ela parecia aborrecida.     
— Um momento.     
Houve alguma agitação na minha casa.     
— America?     
A  voz  de  May  estava  pesada  por  causa  das  lágrimas.  Ela  devia  ter 
passado um dia péssimo.     
—  May!  Ah,  May!  Sinto  tanto  a  sua  falta!  —  eu  disse,  sentindo 
minhas próprias lágrimas voltarem.     
— Pensei que estivesse morta! America, eu te amo. Promete que não 
vai morrer? — ela choramingou.     


— Prometo — tive que achar graça nesse juramento.     
— Você vai voltar para casa? Você pode? Não quero que fique aí. 
May estava praticamente implorando.     
— Voltar para casa? — perguntei.     
Fui tomada pelas emoções. Sentia saudades da minha família, e estava 
cansada  de  me  esconder  dos  rebeldes.  Estava  cada  vez  mais  confusa 
quanto  a  meus  sentimentos  por  Aspen  e  Maxon,  e  não  sabia  como  lidar 
com aquilo. O jeito mais fácil seria sair. Mas não.     
— Não, May. Não posso ir para casa. Tenho que ficar aqui.     
— Por quê? — grunhiu May.     
— Porque sim — respondi simplesmente.     
— Porque sim o quê?     
— Só... porque sim.     
May ficou em silêncio por um segundo, pensando.     
— Você está apaixonada por Maxon?     
Era a May que só pensava em meninos de volta. Ela ficaria bem.     
— Humm, não sei, mas... 
— America! Você está apaixonada por Maxon! Minha nossa!     
Ouvi meu pai gritar “O quê?” ao fundo, enquanto minha mãe repetia 
“Sim, sim, sim!”.     
— May, eu não disse que...     
— Eu sabia!     
May ria sem parar. E, assim, seu medo de me perder desapareceu.     
—  May,  preciso  desligar.  As  outras  garotas  vão  usar  o  telefone.  Mas 
eu só queria que você soubesse que estou bem. Escrevo logo, prometo.     
— Está bem, está bem. Fale sobre Maxon! E mande mais doces! Eu 
te amo! — ela gritou.     
— Eu também te amo. Tchau.     
Desliguei  antes  de  ela  pedir  mais  coisas.  Assim  que  sua  voz  sumiu, 
porém, senti sua falta mais do que antes.     
Silvia  foi  ligeira.  Tomou  o  telefone  da  minha  mão  em  segundos  e 
caminhou para a porta.     
— Boa menina — ela disse, e desapareceu pelo corredor.     


Eu com certeza não me sentia bem. Mas sabia que logo que ajeitasse 
as coisas com Aspen e Maxon me sentiria. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 embora dali a horas. Eu não sabia dizer se 
por  causa  da  eficiência  de  Silvia  ou  do  estado  de  nervos  das  garotas.  De 
repente  éramos  dezenove,  e  tudo  pareceu  progredir  muito  rapidamente. 
Ainda assim, eu jamais poderia ter previsto a velocidade com que as coisas 
iam se mover dali para a frente.     
Na segunda-feira depois dos ataques, retomamos nossa rotina. O café 
da manhã estava delicioso como sempre e fiquei imaginando se chegaria o 
dia em que deixaria de gostar daquelas refeições espetaculares.     
— Kriss, isso não é divino? — perguntei.     
Eu  mordiscava  uma  fruta  em  formato  de  estrela.  Nunca  tinha  visto 
nada  igual  antes  de  chegar  ao  palácio.  Kriss  estava  de  boca  cheia,  mas 
concordou  com  a  cabeça.  Sentia  um  clima  cálido  de  irmandade  naquele 
dia.  Após  termos  sobrevivido  a  um  grave  ataque  rebelde  juntas,  parecia 
que os pequenos laços que nos uniam se tornaram indestrutíveis. Ao lado 
de  Kriss  estava  Emily,  que  me  passou  o  mel.  Perto  de  nós,  Tiny  me 
perguntava, com olhar admirado, onde eu tinha conseguido meu pingente 
de passarinho. O clima lembrava os jantares da minha família de uns anos 
atrás, antes de Kota se transformar em um babaca e de perdermos Kenna 
para o marido: cheio de gente, radiante e com muita conversa. 
Dei-me conta na hora de que, como Maxon contara sobre sua mãe, eu 
manteria contato com essas meninas ao longo dos anos. Ia querer saber se 


todas  tinham  se  casado  e  mandaria  cartões  de  Natal.  Dali  a  uns  vinte  e 
poucos  anos,  se  Maxon  tivesse  um  filho,  telefonaria  para  elas  para  saber 
quem eram suas favoritas na nova Seleção. Relembraríamos tudo por que 
passamos e riríamos daquilo como se tivesse sido uma aventura, não uma 
competição.     
Por mais incrível que pudesse parecer, a única pessoa com aparência 
perturbada na sala de jantar era Maxon. Ele nem tinha tocado na comida. 
Em vez disso, corria os olhos pelas fileiras de garotas com a expressão de 
quem  estava  concentrado.  De  tempos  em  tempos,  parava  para  pensar  e 
parecia discutir consigo mesmo sobre alguma coisa. Depois continuava.     
Quando chegou a vez da minha mesa, o príncipe me flagrou olhando 
para  ele  e  abriu  um  sorriso  fraco.  Tirando  o  breve  diálogo  da  noite  do 
ataque, não conversávamos desde nossa discussão, e algumas coisas ainda 
precisavam  ser  ditas.  Eu  é  que  tinha  que  tomar  a  iniciativa.  Com  uma 
expressão  que  revelava  tratar-se  de  um  pedido,  e  não  de  uma  exigência, 
mexi  na  minha  orelha.  Seu  rosto  permaneceu  distante,  mas  ele  também 
mexeu na dele. 
Respirei aliviada e por acaso olhei para as portas daquela sala enorme. 
Como  suspeitava,  outro  par  de  olhos  estava  fixo  em  mim.  Tinha  notado 
Aspen  ao  entrar  na  sala  de  jantar,  mas  tentei  não  demonstrar.  Era  difícil 
ignorar alguém que eu amava.     
O  príncipe  se  levantou.  Aquele  movimento  repentino  fez  a  cadeira 
chiar com o atrito contra o chão. E esse barulho foi suficiente para atrair a 
atenção  de  todas.  Ao  ver  todos  aqueles  rostos  voltados  em  sua  direção, 
Maxon  pareceu  querer  sentar  novamente,  sem  que  ninguém  percebesse. 
Sabendo que isso seria impossível, ele começou a falar:     
— Senhoritas — saudou, fazendo uma breve reverência com a cabeça. 
Ele parecia sofrer demais. — Receio que após o ataque de ontem eu tenha 
sido  obrigado  a  repensar  profundamente  o  funcionamento  da  Seleção. 
Como sabem, três garotas pediram para sair ontem, e eu cedi. Não quero 
ninguém  aqui  contra  sua  vontade.  Além  disso,  não  me  sinto  confortável 
mantendo  no  palácio,  sob  a  constante  ameaça  de  risco  de  vida,  pessoas 
com quem estou certo de que não terei futuro.     


Pela sala, a confusão deu lugar à compreensão infeliz e inequívoca dos 
fatos.     
— Ele não vai... — murmurou Tiny.     
— Sim, ele vai — respondi. 
— Embora me doa tomar essa atitude, conversei com minha família e 
com  alguns  conselheiros  íntimos,  e  decidi  proceder  ao  afunilamento  da 
Seleção  para  a  Elite.  Contudo,  em  vez  de  dez,  decidi  dispensar  todas 
vocês, com exceção de seis  — afirmou Maxon, com  um tom de voz  bem 
formal.     
— Seis? — perguntou Kriss, impressionada.     
— Isso não é justo — resmungou Tiny, já prestes a chorar.     
Corri  os  olhos  pela  sala  de  jantar  conforme  o  burburinho  de 
reclamações  crescia  e  diminuía.  Celeste  juntou  coragem,  como  se  fosse 
lutar  por  uma  vaga.  Bariel  fechou  os  olhos  e  cruzou  os  dedos,  talvez  na 
expectativa  de  que  aquela  pose  lhe  angariasse  alguma  simpatia.  Marlee, 
que tinha admitido não querer nada com o príncipe, parecia muito tensa. 
Por que ela queria tanto ficar?     
—  Não  quero  estender  o  assunto  além  do  necessário.  Assim,  apenas 
as  seguintes  moças  permanecerão  aqui:  senhorita  Marlee,  senhorita 
Kriss...     
Marlee  suspirou  aliviada  e  levou  a  mão  ao  peito.  Kriss  ensaiou  uma 
dança  feliz  e  contente  na  cadeira,  olhando  para  as  meninas  ao  redor 
esperando que estivéssemos felizes também. E eu estava até me dar conta 
de que duas das seis vagas já tinham sido preenchidas. Com uma discórdia 
entre Maxon e eu, será que ele me mandaria para casa? 
Ao  longo  de  todo  esse  tempo,  eu  tivera  nas  mãos  o  poder  de  decidir 
sobre minha saída. Naquele instante, percebi o quanto era importante para 
mim continuar.     
—  ...  senhorita  Natalie,  senhorita  Celeste...  —  continuou  Maxon 
olhando  para  cada  uma  delas.        Eu  me  contorci  ao  escutar  o  nome  de 
Celeste.  Ele  não  podia  deixá-la  ali  e  me  mandar  embora.  Eu  mal 
acreditava que ele não ia dispensá-la, aliás. Mas seria esse um sinal de que 
eu ia embora? Brigamos exatamente por causa da presença dela.     


— ... senhorita Elise... — ele anunciou.     
Toda  a  sala  prendeu  a  respiração  à  espera  do  último  nome.  Dei-me 
conta de que Tiny e eu estávamos de mãos dadas.     
— ... e senhorita America.     
Maxon  olhou  para  mim  e  senti  cada  músculo  do  meu  corpo  relaxar. 
Tiny caiu em prantos na hora. E ela não estava sozinha: a lista de Maxon 
provocou muitos soluços.     
—  A  todas  as  demais,  meu  sincero  pedido  de  desculpas.  Espero, 
contudo,  que  acreditem  em  mim  quando  digo  que  fiz  isso  para seu bem. 
Não  quero  alimentar  suas  esperanças  nem  arriscar  suas  vidas  à  toa.  Se 
alguma  das  que  estiverem  de  saída  quiser  falar  comigo,  estarei  na 
biblioteca  ao  final  do  corredor.  Podem  me  encontrar  lá  assim  que 
terminarem de comer. 
Maxon se retirou o mais rapidamente possível, sem correr. Observei-o 
até que passasse na frente de Aspen, quando minha atenção se desviou. O 
rosto de Aspen estava confuso, e eu sabia o motivo. Eu tinha dito que não 
amava Maxon, e por isso Aspen entendeu que eu não significava nada para 
o príncipe. Se era assim, por que tinha ficado tão tensa para saber se ia sair 
ou ficar? E por que Maxon ia querer me deixar ali?     
Nem  bem  passou  um  segundo  e  Emmica  e  Tuesday  já  estavam 
correndo  atrás  do  príncipe,  sem  dúvida  em  busca  de  uma  explicação. 
Algumas  garotas  choravam,  claramente  com  o  coração  partido.  E  recaiu 
sobre as que ficavam a responsabilidade de confortá-las.     
A  situação  era  de  uma  bizarrice  insuportável.  Tiny  acabou  por  soltar 
violentamente  minhas  mãos  e  correr  para  o  quarto.  Eu  esperava  que  ela 
não ficasse com raiva de mim.    
Todas  deixaram  a  sala  em  poucos  minutos,  já  sem  fome.  Eu  mesma 
não  demorei  muito  a  sair;  não  era  capaz  de  lidar  com  aquela  torrente  de 
emoções.     
Passei por Aspen, que sussurrou:     
— Hoje à noite.     
Concordei com a cabeça discretamente e segui meu caminho. 
O  restante  da  manhã  foi  esquisito.  Nunca  na  vida  tivera  amigas  de 


quem  sentira  saudades.  Todos  os  quartos  ocupados  no  segundo  andar 
estavam  abertos,  e  as  garotas  corriam  de  um  lado  para  o  outro,  trocando 
bilhetes e pegando endereços. À tarde, o palácio já era um lugar bem mais 
sério do que quando chegamos.     
Não  restou  ninguém  na  parte  do  corredor  onde  eu  ficava.  Não  se 
ouvia mais o som das criadas passando de um lado para o outro nem o do 
abrir e fechar das portas. Sentei-me à mesa para ler um livro enquanto as 
criadas tiravam o pó dos móveis. Perguntei-me se o palácio sempre tivera 
aquele clima de solidão. O vazio fez com que sentisse saudades da minha 
família.     
De repente, ouvi batidas na porta. Anne correu para atender, com os 
olhos  em  mim  para  garantir  que  eu  estava  preparada.  Assenti  com  a 
cabeça.     
Quando Maxon entrou no quarto, pus-me de pé com um pulo.     
— Senhoritas — ele disse, olhando para as criadas —, reencontramo-
nos afinal.     
Elas  se  curvaram  e  deram  uma  risadinha.  Ele  as  cumprimentou  e  se 
voltou para mim. Até então eu não fazia ideia de como estava ansiosa para 
vê-lo. Estava em êxtase ali, ao lado da mesa.     
— Me perdoem, por favor, mas preciso falar com a senhorita America. 
Vocês nos dariam um momento? 
Mais reverências e risadinhas, e Anne perguntou ao príncipe  — com 
um  tom  de  voz  que  dava  a  entender  a  adoração  que  tinha  por  ele  —  se 
podia  lhe  trazer  algo.  Maxon  recusou,  e  as  três  saíram.  As  mãos  dele 
estavam nos bolsos. Permanecemos em silêncio por uns instantes.    
— Pensei que você não me deixaria ficar — admiti, por fim.     
— Por quê? — ele perguntou, soando realmente confuso.     
— Porque brigamos. Porque nossa relação é esquisita. Porque...     
E porque apesar de você estar saindo com outras cinco garotas, acho 
que estou te traindo,
 pensei.     
Maxon  diminuiu  a  distância  entre  nós  aos  poucos,  escolhendo  as 
palavras conforme caminhava. Quando finalmente chegou até mim, tomou 
minhas mãos e explicou tudo:     


—  Primeiramente,  deixe-me  dizer  que  sinto  muito.  Eu  não  devia  ter 
gritado  com  você  —  seu  tom  de  voz  era  totalmente  sincero.  —  É  que 
alguns  dos  comitês  e  meu  pai  já  me  pressionam,  e  quero  ser  capaz  de 
tomar a decisão por mim mesmo. Foi muito frustrante deparar com outra 
situação em que minha opinião não é levada a sério. 
— Outra situação? — perguntei.     
— Bom, você viu minhas escolhas. Marlee é a favorita do povo, e não 
posso desprezar isso. Celeste é uma jovem muito poderosa e vem de uma 
família  com  que  seria  ótimo  me  alinhar.  Natalie  e  Kriss  são  moças 
charmosas, ambas muito agradáveis, e as preferidas de alguns membros da 
minha família. Elise tem contatos na Nova Ásia. Como estamos tentando 
acabar com essa maldita guerra, devo tê-la em conta. Fui massacrado por 
opiniões e encurralado por todos os lados nesta decisão.     
Ele não explicou nada sobre mim, e eu quase não pedi que explicasse. 
Sabíamos  que  no  meu  caso  a  amizade  vinha  em  primeiro  lugar  e  que  eu 
não  tinha  nenhuma  serventia  política.  Mas  precisava  ouvir  essas  palavras 
para decidir por mim mesma. Não podia olhá-lo nos olhos.     
— E por que eu ainda estou aqui?     
Minha voz saiu um pouco mais alta que um sussurro. Eu sabia que ia 
doer. No fundo, tinha certeza de que só estava ali por que Maxon era bom 
demais para quebrar uma promessa.     
— America, pensei ter sido claro — ele disse calmamente.     
O  príncipe  respirou  fundo  para  demonstrar  sua  paciência  e  levantou 
meu  queixo  com  a  mão.  Quando  finalmente  o  olhei  nos  olhos,  ele 
confessou: 
— Se o assunto fosse simples, já teria eliminado todas as outras. Sei o 
que sinto por você. Talvez seja impulsivo da minha parte ter tanta certeza, 
mas estou certo de que seria feliz com você.     
Corei.  Pude  sentir  as  lágrimas  brotarem,  mas  as  contive.  Seu  rosto 
tinha uma expressão apaixonada que eu não queria perder.     
— Há momentos em que penso que rompemos todas as barreiras. E 
há  outros  em  que  penso  que  você  só  fica  pela  conveniência.  Se  tivesse 
certeza de que eu, e apenas eu, sou sua motivação...     


Ele fez uma pausa e balançou a cabeça, como se não quisesse chegar 
ao final da frase.     
— Eu estaria errado se dissesse que você ainda não tem certeza sobre 
mim?     
Eu não queria magoá-lo, mas tinha que ser honesta:     
— Não.     
— Então não posso arriscar muito em minha aposta. Você pode optar 
por sair, e deixarei se quiser. Enquanto isso, preciso escolher uma esposa. 
Estou tentando tomar a melhor decisão dentro dos limites que me foram 
dados.  Agora,  por  favor,  não  duvide  por  um  segundo  de  sua  importância 
para mim. Porque é imensa.     
Não pude mais conter as lágrimas. Pensei em Aspen e nos meus atos. 
Senti-me tão envergonhada. 
— Maxon... — solucei. — Será que um dia você vai me perdoar...     
Não consegui terminar minha confissão. Ele se aproximou ainda mais 
e começou a limpar as lágrimas do meu rosto com seus dedos fortes.     
—  Perdoar  o  quê?  Nossa  briguinha  besta?  Já  é  passado.  Seus 
sentimentos  demoram  mais  para  passar  que  os  meus?  Sem  problema. 
Estou pronto para esperar — ele disse, dando de ombros. — Acho que não 
há  nada  que  você  possa  fazer  que  eu  não  possa  perdoar.  Lembra-se  da 
joelhada?     
Não  consegui  segurar  a  risada.  Maxon  também  riu,  mas  uma  vez  só. 
Depois, ficou sério de repente.     
— O que foi? — perguntei.     
Ele balançou a cabeça.     
— Eles foram tão rápidos dessa vez.     
A  voz  dele  estava  cheia  de  uma  admiração  raivosa  pelos  talentos  dos 
rebeldes. Só então me dei conta de quão perto de uma tragédia estive por 
tentar salvar minhas criadas. 
—  Tenho  ficado  cada  vez  mais  preocupado,  America.  Nortistas  e 
sulistas,  os  dois  estão  cada  vez  mais  determinados.  Parece  que  não  vão 
parar até conseguirem o que desejam. E eu não faço ideia do que seja  — 
Maxon parecia confuso e triste. — Penso que é só uma questão de tempo 


até destruírem alguém importante para mim.     
Ele me olhou nos olhos e prosseguiu.     
— Sabe, você ainda pode escolher. Se tiver medo de ficar, pode dizer 
— ele fez uma pausa e pensou. — Ou se chegar à conclusão de que nunca 
vai me amar, seria melhor me contar já. Deixarei que siga seu caminho e 
seremos amigos.     
Lancei  meus  braços  ao  seu  redor  e  apoiei  a  cabeça  em  seu  peito. 
Maxon pareceu ao mesmo tempo confortado e surpreso com o gesto. Ele 
demorou apenas um segundo para me envolver nos braços.     
—  Maxon,  não  tenho  certeza  do  que  somos,  mas  sem  dúvida  somos 
mais que amigos.     
Ele  deixou  escapar  um  suspiro.  Com  a  cabeça  em  seu  peito,  pude 
finalmente  ouvir  as  batidas  de  seu  coração  através  do  paletó.  Pareciam 
aceleradas.  Sua  mão,  delicada  como  sempre,  acariciava  minha  bochecha. 
Ao  olhar  nos  seus  olhos,  percebi  que  um  sentimento  inominável  crescia 
entre nós. 
Com o olhar, Maxon me pedia algo que tínhamos concordado esperar. 
Estava feliz por ele não querer mais esperar. Inclinei levemente a cabeça 
em consentimento, e ele fechou o pequeno espaço entre nós me beijando 
com uma ternura inimaginável.    
Senti  um  sorriso  em  seus  lábios,  um  sorriso  que  durou  por  muito 
tempo depois. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  Estava  escuro;  era  muito  tarde  ou  muito 
cedo.  Por  uma  fração  de  segundo,  pensei  que  outro  ataque  tinha 
começado.  Então  descobri  que  estava  errada  por  causa  da  única  palavra 
usada para me despertar:     
— Meri?     
Estava  de  costas  para  Aspen,  e  demorei  um  pouco  para  me  ajeitar  e 
me  virar  para  ele.  Em  minha  cabeça,  sabia  que  existiam  coisas  entre  nós 
que  eu  finalmente  devia  acertar.  Esperava  que  meu  coração  me  deixasse 
dizê-las.    Rolei na cama e deparei com os olhos verdes e brilhantes dele. 
Então,  soube  que  ia  ser  difícil.  Foi  quando  notei  que  deixara  a  porta  do 
meu quarto aberta.     
— Aspen, você está louco? — sussurrei. — Feche a porta.     
—  Não,  está  tudo  certo.  Com  a  porta  aberta,  posso  dizer  a  quem 
chegar que ouvi um barulho e vim ver como você estava, já que isso é parte 
do meu trabalho. Ninguém vai suspeitar de nada.    
Simples e brilhante. Acho que às vezes a melhor maneira de esconder 
um segredo é deixá-lo descoberto.     
— Certo. 
Acendi o pequeno abajur no criado-mudo para deixar claro a qualquer 
pessoa  que  passasse  que  não  estávamos  escondendo  nada.  Olhei  para  o 
relógio: já passava das três da manhã.     


Aspen  estava  claramente  satisfeito  consigo  próprio.  Seu  sorriso,  o 
mesmo que me cumprimentava na casa da árvore, era largo.     
— Você guardou — ele disse.     
— Hein?     
Aspen  apontou  para  o  criado-mudo  onde  ficava  o  jarro,  com  sua 
moeda solitária.     
— Sim — confirmei. — Não tive forças para me livrar dele.     
Sua expressão ficou mais esperançosa. Ele olhou a porta rapidamente, 
como que para verificar se ninguém passaria, e se inclinou para me dar um 
beijo.     
— Não — afastei-me sem agitação. — Você não pode fazer isso.    
Seu olhar era um misto de confusão e tristeza, e temi que tudo o que 
tinha a dizer só fosse piorar as coisas. 
— Fiz algo de errado?     
— Não — respondi no ato. — Você tem sido maravilhoso. Estou tão 
feliz  de  ver  você  novamente  e  saber  que  ainda  me  ama.  Fez  toda  a 
diferença.     
Ele sorriu.     
—  Que  bom,  porque  eu  realmente  te  amo  e  penso  em  nunca  dar 
nenhum motivo para você duvidar disso.     
Estremeci.     
—  Aspen,  não  importa  o  que  fomos  ou  o  que  somos  agora.  Não 
podemos ser nada aqui.     
— O que você quer dizer? — ele perguntou, ajeitando-se na cama.     
—  Faço  parte  da  Seleção.  Estou  aqui  por  Maxon,  e  não  posso  me 
encontrar com você nem com ninguém enquanto a competição continuar.     
Comecei  a  torcer  nervosamente  uma  ponta  da  minha  manta.  Aspen 
pensou calado por uns instantes.     
—  Então  você  mentiu  para  mim  quando  disse  que  nunca  deixou  de 
me amar?     
—  Não  —  garanti.  —  Você  está  no  meu  coração  o  tempo  todo.  É  o 
motivo porque tudo está caminhando devagar. Maxon gosta  de mim, mas 
não consigo gostar dele de verdade por sua causa. 


—  Nossa,  que  ótimo  —  ele  disse  com  sarcasmo.  —  Fico  feliz  em 
saber que você estaria contente em ficar com ele se eu não estivesse perto.     
Por  trás  da  raiva,  pude  ver  seu  coração  partido,  mas  não  era  culpa 
minha as coisas terem chegado a esse ponto.     
—  Aspen  —  chamei  em  voz  baixa,  fazendo-o  olhar  para  mim.  —  Ao 
terminar comigo na casa da árvore, você me deixou em pedaços.     
— Meri, eu já disse que...     
— Me deixe terminar.     
Ele bufou de raiva e depois ficou quieto.     
—  Você  levou  meus  sonhos  com  você,  e  o  único  motivo  de  eu  estar 
aqui é que você insistiu que eu fizesse a inscrição.     
Ele concordou com a cabeça, irritado com a verdade.     
— Desde então, tenho tentado juntar os cacos. E Maxon realmente se 
importa  comigo.  Você  significa  muito  para  mim,  e  sabe  disso.  Mas  estou 
na competição agora e seria uma tonta se não visse onde vai dar.     
— Então você está escolhendo o príncipe? — ele perguntou com dor 
na voz.     
—  Não.  Não  estou  escolhendo  Maxon  ou  você.  Estou  escolhendo  a 
mim mesma. 
Essa era a verdade, no fim das contas. Ainda não sabia o que queria, 
mas não podia me deixar levar pelo mais fácil ou por aquilo que os outros 
achavam  certo.  Só  precisava  de  um  tempo  até  decidir  o  que  era  melhor 
para  mim.        Aspen  ruminou  minhas  palavras  por  um  momento,  ainda 
inconformado com o que eu dizia. Por fim, sorriu.     
— Você sabe que não vou desistir, não sabe?     
Seu tom de voz deixava claro o desafio, e eu forcei um riso, apesar da 
situação. Aspen, de fato, não era daqueles que aceitam a derrota.     
—  Aqui  não  é  o  melhor  lugar  para  você  lutar  por  mim.  Sua 
determinação pode ser uma qualidade perigosa.     
— Não tenho medo da coroa — ele zombou.     
Fiz  cara  de  tédio,  um  pouco  surpresa  por  estar  na  ponta  oposta  do 
relacionamento.  Vivia  preocupada  com  a  possibilidade  de  alguém  roubar 
Aspen  de  mim.  Senti-me  culpada  por  gostar  de  vê-lo  preocupado  com  a 


possibilidade de alguém me roubar, para variar.     
— Certo. Você disse que não o amava... mas pelo menos gosta dele o 
bastante para querer ficar, certo?     
Abaixei a cabeça. 
— Sim — respondi,  inclinando-me.  — Ele está muito acima  do que 
pensei.     
Aspen  considerou  minhas  palavras  por  alguns  segundos,  absorvendo 
cada uma delas.    
 — Isso quer dizer que terei que lutar mais duro do que imaginava — 
ele disse, caminhando em direção à porta.     
Antes de fechá-la, piscou mais uma vez para mim.     
— Boa noite, senhorita America.     
— Boa noite, soldado Leger.     
Ouvi a porta se fechar, e a paz invadiu o quarto. Desde o começo da 
Seleção, vinha pensando que minha vida seria arruinada ali. Mas, naquele 
momento, o castelo parecia exatamente o lugar em que eu deveria estar.     
Mais  cedo  do  que  eu  gostaria,  minhas  criadas  entraram  no  quarto  e 
me  despertaram  para  um  novo  dia.  Anne  puxou  as  cortinas  e  assim, 
iluminada  pelos  raios  do  sol,  sentia  que  aquele  era  realmente  meu 
primeiro  dia  no  palácio.        A  Seleção  não  era  mais  uma  coisa  que  me 
acontecia;  eu  era  parte  ativa  dela.  Era  da  Elite.  Afastei  os  cobertores  e 
saltei naquela manhã.         
 


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