A. S. Franchini & Carmen Seganfredo As 100 melhores histórias da mitologia(pdf)(rev)



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SUMÁRIO 

Apresentação  

Nascimento e glória de Saturno.  

Nascimento e glória de Júpiter  

Júpiter e a guerra dos Titãs  

Juno, a rainha do céu  

O castigo de Quelone  

O nascimento de Vênus  

Apólo e a serpente Píton  

Mercúrio, o deus dos pés ligeiros 

Vulcano, deus das forjas  

O nascimento de Minerva  

Netuno, senhor dos mares  

O nascimento de Baco  

Baco aprisionado  

Hipomene e Atalanta  

As asas de Ícaro  

A queda de Faetonte  

Deucalião e Pirra  

O rapto de Ganimedes  

O castigo de Eresictão  

Filemon e Baucis 

O rapto de Europa  

Argos e Io  

O javali de Calidon  

O toque de Midas  

Alceste e Admeto  

O suplício de Tântalo  

O tonel das Danaides  

Hero e Leandro  

Salmácis e Hermafrodita  

Eco e Narciso  

Frixo e Hele 

As sandálias de Jasão  

Jasão na Ilha de Lemnos  

O duelo de Pólux e Amico  

Jasão e as rochas cianéias  

Jasão e o Velocino de Ouro  

O rapto de Prosérpina  

Vertuno e Pomona  

Édipo e a Esfinge.  

Apólo e Dafne.  

As orelhas de Midas  

Orfeu e Eurídice  

Diana e Acteão  

Castor e Pólux 

A caixa de Pandora  

Minerva e Aracne  

Perseu e a Cabeça de Medusa. 

Belerofonte e Pégaso  

Pigmalião e a Estátua  



Cupido e Psique  

Teseu e o Minotauro  

Os doze trabalhos de Hércules 

Adônis  


Prometeu e o Fogo Sagrado  

Titão e Aurora  

O nascimento de Páris  

O pomo da discórdia  

O rapto de Helena  

O sacrifício de Ifigênia  

O assassinato de Agamenon   

Orestes e as Fúrias  

Menelau e Proteu  

O castigo de Esculápio  

O prêmio de Trofônio  

Íxion, pai dos centauros  

Ctésila e Hermócares  

A cegueira de Dáfnis  

Os gigantes Aloídas  

Fedra e Hipólito  

Aquiles e Escamandro  

Marte, Deus da guerra  

Hércules e Cicno  

Aquiles na corte do rei Licomedes 

A morte de Heitor  

Aquiles e Mêmnon  

A morte de Aquiles.  

Etéocles e Polinice  

Antígona  

Píramo e Tisbe  

Ceix e Alcíone  

Creúsa e Ion  

Arion  

Simônides  

O cavalo de Tróia  

Helena, a demônia  

Dido e Enéias  

Niso e Euríalo  

Enéias nos infernos  

Jasão e o gigante de bronze  

Os furores de Medéia  

Ulisses e Polifemo  

Ulisses e as sereias  

O massacre dos pretendentes  

Orson  

Aristeu, o apicultor  

Glauco e Cila  

Cadmo e Harmonia  

O mito de Sísifo.  

Calisto  

A morte de Hércules  



Glossário dos personagens  

Bibliografia  

 

 

APRESENTAÇÃO 



As histórias que você está prestes a ler são, além de deliciosas aventuras, milenar espinha 

dorsal  da  civilização  ocidental.  Abarcando  as  principais  raízes  da  mitologia  antiga,  o  conjunto 

destes cem contos engloba a história da humanidade tal como ela era vista pelos antigos gregos e 

romanos:  de  onde  surgiu  o  Universo,  como  apareceram  os  homens,  a  descoberta  do  fogo  e 

variados  estágios  de  desenvolvimento  do  ser  humano  —  com  um  sem-fim  de  divindades 

diretamente relacionadas às forças primordiais da natureza orquestrando esta verdadeira sinfonia 

da vida. 

As  origens  destas  lendas  povoadas  por  deuses  e  mortais  perdem-se  nas  memórias  do 

tempo.  Elas  surgiram  de  maneira  espontânea,  da  imaginação  popular,  quando  os  registros  da 

linguagem  verbal  eram  muito  diferentes  da  escrita  de  hoje,  a  caneta  ou  a  computador:  o 

conhecimento de então era passado oralmente através de gerações, daí a matriz necessariamente 

flexível  da  mitologia.  Com  o  passar  do  tempo  tais  lendas  se  cristalizaram  em  formas  mais  ou 

menos  definidas,  porém  nunca  acabadas,  já  que  com  a  passagem  dos  milênios  as  histórias  iam 

sofrendo alterações, eram levadas de um país a outro, adquirindo novo cenário, por vezes novo 

roteiro e até novos personagens. De modo que, hoje, temos à nossa disposição as mais diversas 

versões  para  os  mais  diferentes  mitos  —  sem  falar  nas  versões  que  por  uma  razão  ou  outra 

possivelmente tenham sido soterradas pelos anos. 

Desse modo, a importância do mito está na sua maleabilidade — não em uma forma fixa 

-,  que  traz  consigo  o  legado  ancestral  assim  como  os  sinais  de  seu  próprio  tempo  e  espaço. 

Nossos  personagens  não  são  autômatos  divinos,  a  repetir  eternamente  os  mesmos  atos  e 

discursos. São mitos que têm a vida renovada conforme são reescritos e recontados, sendo tanto 

de hoje quanto da Antigüidade. 

A maioria dos contos deste livro baseia-se em relatos que a tradição consagrou, recolhidos 

em coletâneas e livros específicos sobre o assunto. Embora tenhamos procurado nos servir das 

versões mais conhecidas dessas lendas, não desprezamos outras, menos populares. 

Optamos por apresentar os personagens, na sua maioria, com os seus nomes latinos. Sem 

pretender  desfigurar  demasiadamente  o  conteúdo  dos  relatos,  escolhemos  recontá-los  com  o 

auxílio  da  ficção:  atribuímos  a  cada  história  o  estilo,  a  forma  de  contar,  os  detalhes 

circunstanciais, os diálogos, etc. que mais favorecem o seu colorido, movimentação e fantasia. 

Os autores

 



NASCIMENTO E GLORIA DE SATURNO

 

Numa  era  muito  antiga  —  tão  antiga  que  antes  dela  só  havia  o  caos  —  o  mundo  era 



governado pelo Céu, filho da Terra. Um dia, este, unindo-se à própria mãe, gerou uma raça de 

seres  prodigiosos,  chamados  Titãs.  Ocorre  que  o  Céu  —  deus  poderoso  e  nem  um  pouco 

clemente — irritou-se, certa feita, com as afrontas que imaginava receber de seus filhos. Por isto, 

decidiu  encerrá-los  nas  profundezas  do  ventre  da  própria  esposa,  à  medida  que  eles  iam 

nascendo. 

—  Aí  ficarão  para  sempre,  no  ventre  da  Terra,  para  que  nunca  mais  ousem  desafiar  a 

minha autoridade! — exclamou, colericamente, o deus soberano. 

A  Terra,  subjugada,  teve  de  segurar  em  suas  entranhas,  durante  muitas  eras,  aquelas 

turbulentas criaturas e suportar, ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido. 

Um  dia,  porém,  farta  de  tanta  tirania,  decidiu  a  mãe  do  mundo  que  um  de  seus  filhos  deveria 

libertá-la deste tormento. Para tanto escolheu Saturno, o mais jovem de seus rebentos. 

— Saturno, meu filho — disse a Terra, lavada em pranto -, somente você poderá libertar-

me da tirania de seu pai e conquistar para si o mando supremo do Universo! 

O jovem e ambicioso Titã sentiu um frêmito percorrer suas entranhas. 

—  Diga,  minha  mãe,  o  que  devo  fazer  para  livrá-la  de  tamanha  dor!  —  disse  Saturno, 

disposto a tudo para chegar logo à segunda parte do plano. 

A Terra, erguendo uma enorme foice de diamante, entregou-a ao filho. 

"Tome  e  use-a  da  melhor  maneira  que  puder!",  disseram  seus  olhos,  onde  errava  um 

misto de vergonha e esperança. 

Saturno apanhou a foice e não hesitou um instante: dirigiu-se logo para o local onde seu 

velho  pai  descansava.  Ao  chegar  no  azulado  palácio  erguido  nos  céus,  encontrou-o  ressonando 

sobre um grande leito acolchoado de nuvens. 

— Dorme, o tirano... — sussurrou baixinho. 

Saturno, depois de examinar por algum tempo o rosto do impiedoso deus, empunhou a 

foice e pensou consigo mesmo: "Realmente... demasiado soturno." 

E fez descer o terrível gume, logo abaixo da cintura do pobre Céu. 

Um grito terrível, como jamais se ouvira em todo o Universo, ecoou na abóbada celestial, 

despertando toda a criação. 

— Quem ousou levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? — gritou o Céu, com 

as mãos postas sobre a ensangüentada virilha. 

— Isto é pelos tormentos que infligiu à minha mãe, bem como a mim e a meus irmãos — 

respondeu Saturno, ainda a brandir a foice manchada de sangue. 




Os testículos do Céu, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair 

no  oceano,  com  um  baque  tremendo.  Em  seguida,  o  deus  ferido  caiu,  exangue,  sobre  seu  leito 

acolchoado,  sem  poder  dizer  mais  nada.  As  nuvens  que  lhe  serviam  de  leito tingiram-se  de  um 

vermelho  tal  que  durante  o  dia  inteiro  houve  como  que  um  infinito  e  escarlate  crepúsculo. 

Saturno, eufórico, foi logo contar a proeza à sua mãe. 

— Isto é que é filho — disse a Terra, abraçada ao jovem parricida. Imediatamente foram 

soltos todos os outros Titãs, irmãos de Saturno. Este, por sua vez, recebeu a sua recompensa: era 

agora o senhor inconteste de todo o Universo. 

Quando  a  noite  caiu,  entretanto,  escutou-se  uma  voz  espectral  descer  da  grande  cúpula 

côncava dos céus: 

— Ai de você, rebento infame, que manchou a mão no sangue do  seu próprio pai! Do 

mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo... 

Saturno assustou-se a princípio, mas em seguida ordenou a seus pares que recomeçassem 

os festejos. 

— Ora, ameaçazinhas... Deus morto, deus posto! — exclamou, com um riso talhado no 

rosto. 


Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficara ecoando na sua mente, até que 

Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno: 

— Será que uma vitória, neste mundo, não pode ser nunca completa? 

NASCIMENTO E GLÓRIA DE JÚPITER

 

Saturno,  após  destronar  sangrentamente  o  próprio  pai,  era  agora  senhor  de  todo  o 



Universo. 

—  Aqui  é  assim:  mando  eu  e  ninguém  mais  —  dizia  o  tempo  todo,  a  ponto  de  suas 

palavras reverberarem noite e dia pelos céus. 

Certa feita, sua esposa, Cibele, que também era sua irmã, chegou-se a ele e disse: 

— Abrace-me, querido Saturno, pois serei mãe! 

O velho Saturno, encanecido no mando, esboçou apenas um sorriso. 

— Muito bonito — resmungou o deus. — Mas e daí? 

—  Ora,  e  daí  que  você,  meu  esposo,  será  pai!  —  disse  ela,  tentando  animá-lo.  Esta 

palavra, no entanto, despertou a fúria de Saturno. Pondo-se em pé, 

com os olhos acesos, esbravejou: 

— Não quero ouvir falar mais nesta palavra aqui no céu. Imediatamente ordenou que a 

pobre Cibele saísse da sua frente, para que pudesse reorganizar seus pensamentos. A praga que 




seu  pai  lhe  lançara  no  dia  em  que  o  mutilara  com  a  foice  diamantina  ainda  ecoava  em  seus 

ouvidos:  

"Ai  de  você,  rebento  infame...  Do  mesmo  modo  que  usurpou  o  mando  supremo.  irá 

também um dia perdê-lo..." 

— Nada de filhos — exclamou, por fim, a velha divindade. — Cibele, venha já até mim! 

Sua esposa surgiu, um tanto intimidada. 

—  Quando  nasce  esta  criatura  que  você  está  carregando?  Vamos,  diga!  —  bradou 

Saturno. 

— Nos próximos dias, Saturno querido... 

—  Assim que nascer, traga-a imediatamente até mim. 

— Assim será, meu esposo. 

Cibele, correndo os dedos pelas madeixas, sorria candidamente. Alguns dias depois, com 

efeito, nasceu o primeiro bebê: era Juno, uma menina encantadora, porém de poucos sorrisos. 

— Deixe-me vê-la — sussurrou Saturno, besuntando de mel a sua áspera i 

— Veja, não é linda? — disse Cibele, a imprudente. 

— Encantadora! — respondeu o deus, com um sorriso equívoco. 

— Vamos, dê-lhe um beijo! — disse Cibele, a louca. 

O velho deus tomou, então, a criança, envolta nos panos, e aproximou-a de seu imenso 

rosto. 

— Dá mesmo vontade de engoli-la inteira — exclamou, arreganhando os dentes. 

Cibele chorou de ternura. 

Num segundo Saturno abriu de par em par a bocarra, como duas portas que dão para um 

abismo, e engoliu a pobre criança, que não deu um único pio. 

Cibele chorou de horror. 

Sem descer a explicações, Saturno tomou a cabeça da esposa em suas mãos e exclamou: 

—  E  nada  de  choros,  hein?  Nada  de  vinganças.  Depois,  despediu-a,  não  sem  antes 

adverti-la: 

— E já sabe: nascendo outro, quero-o logo aqui. 

Saturno dava tapinhas na sua barriga cheia, como que parabenizando-se pelo engenhoso 

estratagema. Depois retomou o seu eterno estribilho, agora com renovado prazer: 

— E você aí dentro, já sabe: aqui é assim, mando eu e ninguém mais. 

O tempo passou e foram nascendo os rebentos. Tão logo os filhos da desgraçada Cibele 

iam saindo do cálido ventre da mãe, eram imediatamente metidos na cova tétrica do estômago do 



pai. Passaram, assim, por este odioso portão, além da já citada Juno, os infelizes Plutão, Netuno, 

Vesta e Ceres. 

Quando chegou, porém, a vez do quinto bebê, Cibele, farta de tanta sujeição, revoltou-se 

afinal: 


"Não, este não...", pensava, e o seu laconismo dava bem a medida da sua determinação. 

Passando, então, das palavras à ação, correu até a mais distante caverna do mundo — a 

caverna de Dicte — e lá gemeu e gritou, até dar à luz Júpiter, seu último e mais esperado filho. 

Depois  de  entregar  o  garoto  aos  cuidados  das  ninfas  da  floresta,  Cibele  retornou  às 

pressas para o palácio de Saturno. Uma vez em seus aposentos, envolveu uma pedra nos lençóis e 

começou a gritar, como quem está em trabalho de parto. 

—  Temos nova peste — exclamou Saturno, rumando celeremente para o quarto. 

Tão logo enxergou sua esposa segurando algo envolto nos panos, tomou-lhe o embrulho 

das mãos e engoliu-o, imaginando ser o quinto bebê. 

—    É  o  último,  hein...  ?  —  disse  o  deus,  limpando  a  boca  com  as  costas  da  mão  e 

desaparecendo em seguida pela porta. 

Mas Cibele chorou, como das outras vezes. 

Tudo agora parecia em paz, pensava Saturno, enquanto gozava do silêncio, refestelado em 

seu trono dourado. De vez em quando, porém, repetia bem alto o seu amado estribilho, pois o 

silêncio absoluto enchia-o de vagas apreensões. 

—  Bom mesmo é minha voz retumbando: aqui é assim, mando eu e ninguém mais — 

gritava ele, acalmando-se. 

E  isto  era  bom,  também,  para  o  jovem  Júpiter,  que  permanecia  oculto  nas  grutas 

distantes, podendo chorar à vontade. Quando chorava alto demais, as ninfas que dele cuidavam 

ordenavam  que  alguns  guerreiros,  chamados  curetes,  reverberassem  seus  escudos  com  toda  a 

força, para abafar os sons infantis. 

Para acalmá-lo, havia uma doce cabra, chamada Amaltéia, que o amamentava e lhe servia 

de distração — distração que também lhe era trazida por uma bola estriada de ouro, que o garoto 

recebera de presente de uma das ninfas, a qual ao subir e cair deixava no céu, como um fulgente 

meteoro, um belo rastro dourado. 

Por fim, havia ainda uma águia encantada que todos os dias vinha de todas as partes do 

mundo contar novidades e instruir o jovem deus nas coisas da vida. 

—  Júpiter, grande deus — disse-lhe um dia a águia, quando o garoto já estava crescido -, 

já é hora de saber sobre o terrível perigo que você corre. 

A ave, então, narrou ao deus todo o drama que dera origem à sua existência. 




—    Vai  e  liberta  os  seus  irmãos  da  negra  prisão  em  que  estão  metidos,  para  que  você 

possa assumir o lugar de seu pérfido pai no comando do mundo — disse a águia, estendendo as 

longas asas, para enfatizar suas palavras. 

Júpiter,  que  era  um  rapaz  extraordinariamente  forte  e  corajoso,  acatou  imediatamente  a 

sugestão da sua fiel conselheira; auxiliado pela filha do titã Oceano, a suave Métis, tomou posse, 

então, de uma poderosa erva mágica. 

—  Faça  com  que  seu  perverso  pai  beba  desta  poção  e  num  instante  verá  regurgitados 

todos os seus aprisionados irmãos — disse-lhe a bela oceânide. 

Júpiter  conseguiu  disfarçar-se  de  escanção  de  Saturno,  oficial  que  deveria  servi-lo,  e 

ofereceu-lhe a atraente beberagem numa taça de ouro. 

— Que espécie de néctar é este, que tem o brilho de todas as cores e se perfuma de todos 

os odores? — perguntou Saturno, arregalando o olho para dentro da taça. 

—    Um  néctar  como  nunca  experimentou  igual!  —  asseverou  Júpiter,  desviando  ao 

mesmo tempo o olhar da carranca severa do pai. 

Saturno,  após  infinitos  vacilos,  finalmente  emborcou  o  conteúdo  da  taça.  A  princípio 

estalou os beiços, achando maravilhosa a poção. Durou pouco, entretanto, o prazer, pois logo em 

seguida o velho começou a passar muito mal. 

—  Mas  o  que  é  isto?  —  exclamou  Saturno,  fazendo-se  todo  branco.  —  Sinto  náuseas 

fortíssimas! 

Dali a instantes Saturno começou a regurgitar, um por um, cada um dos filhos que havia 

ingerido. Pobre deus! Como já fazia muito tempo que os engolira, agora se via obrigado a restituí-

los completamente adultos. A incrédula Cibele, que estava junto do esposo, ia recebendo cada um 

dos filhos com a face lavada pranto: 

—  Oh,  Juno  querida...  Vesta  amada...  Adorada  Ceres...  Netuno,  meu  anjo!  Plutão,  meu 

amor... 

Com  o  retorno  de  seus  irmãos,  Júpiter  havia  dado  o  primeiro  e  irredutível  passo  para 

retirar o poder supremo do mundo das mãos de seu pérfido pai. 

— Exijo, Saturno cruel, que me ceda agora o cetro do mundo! — exclamou Júpiter, com 

altivez e confiança. 

—  Como  ousa  levantar  mão  ímpia  contra  mim,  o  soberano  do  mundo?  -exclamou 

Saturno, repetindo ao filho algo que lhe soava estranhamente familiar. 

Pressentindo, no entanto, o perigo, Saturno tratou logo de ir procurar seus antigos irmãos 

e aliados — os velhos, porém ainda fortíssimos, Titãs. 



—  Mas  isto  é  o  fim  dos  tempos!  —  acrescentou,  criando  uma  frase  que  as  gerações 

futuras repetiriam sempre que uma civilização entrasse em decadência. 

A Guerra dos Titãs apenas começava a ser esboçada. 

JÚPITER E A GUERRA DOS TITÃS

 

Não há crônica, antiga ou moderna, que refira de maneira exata todos os feitos e lances 



heróicos desta que foi a verdadeira primeira guerra mundial. Ela é demasiado antiga e perde-se na 

noite  dos  tempos.  Só  podemos  nos  basear  no  que  dela  referiram  alguns  comentadores  tardios, 

como Hesíodo. 

Ainda assim, ela houve: os sinais, por tudo, são demais evidentes. 

A  própria  geologia  comprova  que  as  extintas  divindades  de  outrora  -personificações, 

talvez,  dos  elementos  em  estado  caótico  —  se  engalfinharam  um  dia  numa  luta  impiedosa, 

revolvendo no embate o Céu, a Terra e os mares. 

Esta gigantesca querela teve início com a pretensão de um filho rebelde, chamado Júpiter, 

sobre  o  poder  supremo  que  estava  em  mãos  de  uma  divindade  cruel  e  despótica,  chamada 

Saturno. 

Mas quem foram as partes deste espantoso embate? 

De um lado, liderados por Saturno, estavam ele e seus irmãos, os poderosos Titãs ("filhos 

da  Terra").  Do  outro,  Júpiter,  o  filho  insubmisso,  e  seus  irmãos,  além  de  algumas  defecções 

titânicas que se alistaram à causa rebelde, tais como o Oceano e o filho de Japeto, Prometeu. 

Os  deuses  da  segunda  geração,  liderados  por  Júpiter,  foram  organizar  seu  ataque  no 

monte  Olimpo  (daí  serem  chamados  de  "deuses  olímpicos"),  enquanto  os  Titãs,  abrigados  no 

monte Ótris, tramavam a sua defesa. 

Num dia incerto, que nenhum cálculo humano pode aproximar, deu-se o primeiro lance 

desta  refrega  colossal,  que  os  anais  bélicos  da  humanidade  batizaram  de  Titanomaquia  (ou 

"Guerra  dos  Titãs").  Uma  imensa  massa  negra  de  nuvens  destacou-se  dos  limites  extremos  do 

Olimpo e começou a marchar, num estrondo feroz de carros de guerra que rondam pelos céus. O 

empíreo  escureceu  de  tal  forma  que  o  Caos  parecia  haver  gerado  de  seu  ventre  uma  segunda 

Noite, ainda mais negra e tétrica do que a primeira. 

De dentro desta montanha alada, da cor do ferro, partiam raios tão ofuscantes (novidade 

horripilante inventada pelos Ciclopes, aliados de Júpiter, que este libertara do Tártaro), que por 

alguns  instantes  brevíssimos  não  havia  em  todo  o Universo  a  menor  parcela  de  escuridão.  Mas 

logo o negror da noite tombava outra vez sobre a Terra, e a alma de tudo quanto vivia agachava-

se, oprimida por indizível pavor. 




Ocultos  acima  dessa  nuvem  prodigiosa,  Júpiter  e  seus  aliados  caíram  finalmente  sobre 

seus inimigos. Os Titãs, contudo, bem protegidos em suas trincheiras, começaram a enterrar suas 

unhas duras e compridas como gigantescas pás de bronze até as profundezas do solo, para dali 

arrancarem pela raiz, com pavoroso estrondo, montanhas inteiras, que arremessavam em seguida 

contra os deuses olímpicos. 

Uma voz espantosa ecoou, vinda do alto, sobrepondo-se à massa inteira de ruídos: 

—  Irmãos  da  nobre  causa,  desçamos  até  onde  rastejam  estes  vermes!  -disse  Júpiter  e, 

junto  com  seus  aliados,  saltou  das  nuvens  com  as  vestes  guerreiras,  dando  grandes  brados  de 

fúria.  Seus  escudos  refulgiam  na  queda  como  tremendos  sóis  prateados,  enquanto  suas  lanças, 

brandidas com fúria, pareciam raios retilíneos que cada qual portasse com destemor infinito. 

— Amantes da nobre verdade, recebamos estas aves de rapina que descem dos céus, tal 

como elas merecem! — bradou outra voz, desta vez de Saturno, encorajando os seus Titãs. 

Quando  os  dois  exércitos  se  misturaram,  um  ruído  mais  feroz  do  que  qualquer  outro 

jamais escutado fez-se ouvir, então, por todo o Universo. A terra inteira sacudia-se em tremores, 

levantando-se  de  dentro  dela  imensas  labaredas  de  fogo  e  de  pez.  Netuno,  com  seu  tridente 

aceso,  fazia  ferver  os  mares,  e  por  toda  parte  não havia  um  único  bosque  que  não  tivesse  sido 

varrido pelo assobio endemoniado de uma tórrida ventania. 

Os  combatentes,  misturados  num  pavoroso  atraque  corporal  —  atirando  às  cegas,  uns 

contra  os  outros,  cutiladas,  raios,  rochas  imensas,  vapores  sufocantes  e  dentadas  -,  assim 

estiveram por uma eternidade, até que Júpiter, temendo que a vitória estivesse pendendo para o 

inimigo, anunciou um novo propósito: 

— Companheiros, libertemos do Tártaro profundo os poderosos Hecatônquiros! 

Hecatônquiros.  Esses  terríveis  seres  haviam  sido  aprisionados  por  Saturno  nas

 

profundezas da terra e, uma vez libertos, espalhariam o terror entre as hostes inimigas. 



Júpiter, auxiliado pelos seus, desceu até as tênebras profundas e, após romper os grilhões 

que mantinham estas colossais criaturas presas ao abismo, subiu com elas à superfície. Uma fenda 

enorme  rasgou-se  sob  o  chão;  imediatamente  um  vapor  negro  subiu  da  cratera  num  jato 

hediondo, até envolver o próprio Sol. 

Tudo estava envolto numa treva sufocante, quando todos sentiram um baque formidável 

sacudir  o  solo.  Um  tufão  poderoso  surgiu  em  seguida,  varrendo  toda  a  fuligem  espessa  e 

deixando  à  mostra,  sobre  a  superfície,  os  três  Hecatônquiros,  postados  lado  a  lado.  A  arte  dos 

antigos não nos deixou nenhuma imagem do que seriam tais divindades, porém as descrições nos 

afirmam que se ratavam de seres "enormes como a mais alta das montanhas" e que possuíam n 

olhos e cinqüenta cabeças". 




Um  urro  colossal,  partido  das  cento  e  cinqüenta  bocas,  atroou  todo  o  Universo.  As 

criaturas,  empunhando  rochedos  imensos,  lançaram  sobre  os  apavorados  Titãs  trezentas 

montanhas,  sepultando-os  vivos  sob  os  escombros.  Em  seguida  os  Ciclopes  os  acorrentaram 

com  suas  pesadas  correntes,  encerrando-os  para  sempre  nas  profundezas  do  Tártaro,  de  onde 

jamais tornariam a sair, vigiados pelos invencíveis Hecatônquiros. 

Esta, em resumo, foi a primeira batalha que o Universo conheceu, e da qual saiu vitorioso 

Júpiter, o novo soberano do Universo, para reinar como pai dos deuses sobre todos os homens e 

as demais divindades. 

JUNO, A RAINHA DO CÉU

 

—  Sim,  agora  minha  pequena  Juno  está  a  salvo...  Mas  até  quando?  Assim  dizia  Cibele, 



após ver resgatada, do ventre de seu cruel esposo 

Saturno, a sua filha querida. O velho deus havia engolido um a um os seus filhos, tão logo 

estes  haviam  nascido;  Júpiter,  porém,  lhe  ministrara  uma  bebida  encantada,  obrigando-o  a 

regurgitá-los  de  volta  para  os  braços  da  mãe.  Cibele,  a  precavida,  imaginava  agora  um  meio  de 

manter a salvo a sua filha dileta. 

"Tenho  um  pressentimento  de  que  a  ela  está  destinado  um  lugar  de  honra  na  corte 

celestial!", pensava a deusa, acariciando os cabelos de Juno. 

Imaginava Cibele, como todas as mães, divinas ou não, que sua filha excederia em beleza 

e poder todas as outras filhas da face da Terra ou da imensidão do céu. 

De repente seus olhos avistaram, para o ocidente, um fulgor intenso. 

— É isto! — exclamou Cibele, feliz. — Levarei-a para o país das Hespérides! Hespérides 

eram três encantadoras deusas que governavam um país paradisíaco, onde a primavera era eterna 

e a necessidade não existia. 

— Queridas amigas, preciso entregar a minha bela Juno aos seus cuidados, pois somente 

aqui ela estará em segurança. 

Abriram  um  largo  sorriso,  enquanto  uma  delas  envolvia  a  deusa  em  suas  vestes 

esvoaçantes. 

—  Vá  em  paz,  Cibele  —  disse  esta.  —  Nós  faremos  da  sua  filha  a  mais  poderosa  das 

deusas. 

Juno respondeu apontando o dedo para o céu. 

O tempo passou e Juno tornou-se uma deusa de maravilhosa beleza. As Hespérides eram 

unânimes em reconhecer este seu atributo, que fazia par com o da perfeita sapiência. 

—  Vejam:  os  animais  e  mesmo  as  flores  parecem  ficar  felizes  tão  logo  sua  presença  se 

anuncia — diziam alegremente as irmãs, todos os dias, umas às outras. 




Juno, contudo, apesar de estar satisfeita naquele lugar paradisíaco, ambicionava mais alto. 

Com olhos postos no céu, suspirava todos os dias: 

—  Tudo é belo... mas eu queria mesmo era ser rainha do céu. 

Por uma natural inclinação, a moça procurava sempre os lugares mais altos  da ilha para 

dar largas à sua imaginação. Havia um rochedo, à beira-mar, que era o seu refúgio especial. 

— Mais um passinho e posso quase tocar o céu... — dizia ela, brincando e esticando seu 

alvo dedo. 

Um dia, estando ali sentada, sentiu muito calor. Então avistou no horizonte uma nuvem 

que vagava meio sem jeito, como que perdida das outras. 

—  Adoro  chuva!  —  pensou,  esticando  o  pescoço  na  ânsia  de  ver  as  companheiras 

daquela  comparsa  extraviada.  —  O  único  defeito  deste  país  encantador,  se  há  algum,  é  o  de 

chover tão pouco! 

Então pôs-se em pé, cerziu os olhos e começou a pensar com toda a força: 

— Quero muito que chova! Que chova muito! E o que quero! 

Juno reabriu os olhos e viu que agora aquela nuvem mal-esboçada e solitária, lá adiante, 

havia ganho uma inesperada e rechonchuda companheira. A jovem fechou os olhos outra vez e 

repetiu com toda a força: 

— Quero muito que chova! Que chova muito! É o que quero! 

Quando reabriu outra vez os seus olhos, viu que um exército de outras nuvens havia se 

juntado à primeira, engolfando-a num turbilhão escuro e barulhento. Juno colocou-se na ponta 

dos pés e aspirou profundamente. 

— Hmmm.... Perfume de chuva, não há outro igual. 

Num  instante  as  nuvens  chegaram,  e  a  jovem  deusa  comandou  do  alto  ma  tremenda 

tempestade, como nunca as Hespérides haviam visto. Os raios miam ao redor da jovem os seus 

espadins recurvos, porém sem nunca atingi-la, enquanto a água da chuva a envolvia num frescor 

delicioso. 

Depois que a chuva passou e um vento fresco secou suas roupas, afastando-o para longe 

as nuvens tempestuosas, Juno olhou para o céu, novamente azul. 

— Tudo é belo... Mas eu queria mesmo era ser rainha do céu. 

Neste  instante  uma  águia  de  asas  imensas  surgiu  das  alturas.  A  ave,  após  rodopiar  ao 

redor  da  deusa,  agarrou-a  delicadamente  e  suspendeu-a  no  ar.  Juno,  embora  surpresa,  não  se 

assustou; algo lhe dizia, secretamente, que o seu sonho começava a se concretizar. 

— Para onde me leva, águia sutil? 



Foram ambas subindo, a águia e a deusa, até que, adentrando o próprio céu. Juno viu-se 

diante do jovem Júpiter. 

— Estou no céu! — gritou Juno, de olhos brilhantes. 

O  pai  dos  deuses  explicou  então  a  Juno  tudo  o  que  havia  ocorrido  e  como  ele  a  havia 

salvo do ventre do tirânico pai de ambos, Saturno. 

Juno, agradecida, abraçou os joelhos de Júpiter. Depois disse a ele, radiante de esperança: 

— Tudo o que você diz é belo... Mas eu queria mesmo... 

O pudor, entretanto,impediu-a de repetir pela milésima vez o seu desejo. 

—  Sim,  adorada  Juno,  você  será,  sem  dúvida,  rainha  do  céu  —  completou  Júpiter, 

sorridente, que escutara diversas vezes, ali do alto, a jovem clamar por seu desejo. — Desde que a 

vi manejando a tempestade e orquestrando os raios, decidi que seria a esposa ideal para mim. 

E foi assim que Juno casou-se, tornando-se Rainha do Céu e dando início à história do 

casal mais famoso da mitologia antiga. 

O CASTIGO DE QUELONE

 

O Olimpo estava em festa: Júpiter e Juno iriam finalmente se casar. 



As duas imensas portas do Empíreo, algodoadas de nuvens, haviam sido abertas de par 

em par pelas três Horas — Eunomia, Dice e Irene -, que faziam o papel de anfitriãs. Atrás delas 

podia-se divisar perfeitamente o brilho feérico e resplandecente do palácio dourado onde iria se 

realizar a tremenda festa. 

Os convidados iam chegando em grande número, atravessando a ponte multicolorida do 

imenso arco-íris. 

—  Vejam,  irmãs  —  disse  Eunomia,  radiante  -,  quantos  convidados!  Estejamos  atentas 

para que não nos escape presença alguma. 

— E nenhuma ausência, também! — disse Dice, cuja tarefa era ir riscando os nomes dos 

convidados que chegavam. 

Os  principais  deuses  do  panteão  olímpico  iam  chegando,  sozinhos  ou  aos  pares, 

conversando  alegremente.  Ceres,  vestida  com  uma  túnica  drapejada  e  esvoaçante,  surgiu,  entre 

tantas outras divindades, toda sorridente. 

— Nossa! — disse Irene, a porteira esbelta. — Ela caprichou mesmo! Junto dela estava 

Minerva, a deusa da sabedoria. 

—  Sempre  recatada,  mas  também  sempre  encantadora!  —  comentou  Eunomia, 

afastando-se um pouco para permitir a sua passagem. 

Apólo e sua irmã Diana vinham abraçados, dando uma gostosa gargalhada. Do que riam 

tanto? 



Os grupos foram passando um a um até que chegou o casal mais curioso: a maravilhosa 

Vênus e seu truculento esposo Vulcano. 

— Vejam só, será que finalmente ele resolveu tomar um banho? — cochichou Irene à sua 

irmã Dice, que ocultou no véu um sorriso discreto. 

De fato, o deus das forjas, normalmente coberto de fuligem, naquele dia surgira diante de 

todos  um  pouco  mais  apresentável,  apesar  de  toda  a  sua  feiúra.  Seus  cabelos  emaranhados 

pareciam  ter  sidos  apresentados  finalmente  a  uma  escova,  e  algo  parecido  com  uma  esponja 

parecia ter sido esfregado sobre o pêlo espesso do peito e dos membros. 

Quase todos os convidados já haviam chegado, inclusive Netuno, com sua corte aquática, 

úmida  e  festiva,  e  o  sombrio  cortejo  de  Plutão,  que  trazia  pelo  braço  sua  esposa  Prosérpina, 

pálida como sempre, porém um pouco mais animada. 

De repente, porém, Eunomia, que passava em revista com suas irmãs a enorme lista com 

os nomes riscados, escutou uma voz soar bem ao seu lado. 

— Porteiras do Olimpo, como estão? Era Mercúrio, o deus dos pés ligeiros. 

— Ótimas! — respondeu Irene, pelas três. — Acho que não falta mais ninguém, e você 

deve ser o último. 

Na  verdade  Mercúrio  fora  o  encarregado  de  levar  os  convites  do  casamento  a  todos  os 

recantos do Universo. Finalmente, retornava de sua trabalhosa missão. 

— Não, esperem! — gritou Eunomia, colando o alvo dedo sobre um nome da lista. 

Os rostos das duas irmãs, mais o de Mercúrio, voltaram-se atônitos para ela. 

— Como? Ainda falta alguém? — perguntou o deus mensageiro. 

— Sim, a ninfa Quelone! — exclamou Eunomia. — Alguém a viu passar? -Não, ninguém 

a vira passar. 

—  O  que  terá  acontecido?  —  disseram  as  Horas  numa  só  voz.  Mercúrio  apertou  um 

pouco  mais  as  suas  sandálias  aladas  e  desapareceu como  um  pé  de  vento  pela  estrada  colorida, 

deixando somente a sua voz: 

— Vou refazer o trajeto até sua casa e ver o que houve! 

O filho de Júpiter percorreu grande parte da estrada, e quanto mais avançava, mais temia 

pelo atraso — ou mesmo pela ausência definitiva da ninfa Quelone. 

"Por  Júpiter,  se  Juno  descobre  que  ela  ignorou  sua  festa,  a  matará!",  pensava  o  deus 

mensageiro, enquanto apertava o pétaso para que não voasse de sua cabeça. 

Quelone, entretanto, ainda estava descansada em sua casa, à beira do rio. 

— Que calor! — disse ela, espreguiçando-se. — Essa tal de Juno, também, pensa que eu 

sou o quê, para me largar desta distância toda até a sua casa? Só para ir lhe bajular? 




A vontade de ir para a festa de casamento de Juno era nenhuma. Na verdade não tinha 

vontade  de  fazer  nada.  Sim,  porque  apesar  de  ser  uma  ninfa  adorável,  era  também  a  mais 

preguiçosa  das  criaturas.  "Miseravelmente  preguiçosa",  como  lhe  dissera  um  dia  um  fauno  das 

redondezas. 

Por diversas vezes Quelone ensaiara a sua ida ao casamento. Na verdade, passara a manhã 

toda  indecisa:  que  roupa  usaria,  afinal?  Mais  vaporosa  ou  mais  discreta?  Isto  implicava  uma 

escolha — e escolher era tão cansativo! E o maldito penteado, solto ou preso? Pintaria ou não as 

suas compridas unhas? Ai! Dez unhas nas mãos e mais dez lá nos pés! E a que horas deveria sair? 

Um pouco mais cedo ou bem mais tarde? 

Afinal de contas, deveria mesmo ir? 

Cogitando e refrescando os pés na água, a ninfa deixava o tempo passar. 

—  Acho  que  agora  não  dá  mais  tempo...  —  pensou,  ao  observar  o  sol  lá  no  alto.  De 

repente, Mercúrio tapou o sol. Quelone, já de olhos fechados, murmurou." 

— Ih, agora é que não vai dar para ir mesmo... Lá vem chuva! 

—  Sua  preguiçosa,  eu  já  imaginava!  —  disse  o  deus,  pousando  ao  seu  lado.  Quelone 

levantou-se, de susto. 

— Ah, é você? — disse ela, com a mão em pala sobre os olhos. — Sempre correndo pra 

cima e pra baixo, não é? 

— Voando, querida, voando! — respondeu Mercúrio, passando uma água no rosto. 

— Humpf! — fez Quelone, esgotada, fechando os olhos outra vez. 

— Vamos, levante-se, preguiçosa! Está quase na hora das bodas de Juno. 

— Não posso — disse Quelone. — Acordei com o pé machucado. 

— O lençol o esmagou? — perguntou Mercúrio, com um tom de mofa. 

—  Ai,  é  verdade  —  disse  a  ninfa,  colocando-se  em  pé  com  fingida  dificuldade.  Mas  o 

deus  não  estava  para  lorotas  e,  em  dois  tempos,  colocou-a  no  rumo  da  estrada.  Mas  a  ninfa 

teimava em atrasar o seu passo: ora parava para descansar, ora simulava uma insolação. As horas 

passavam, e Mercúrio, aflito, sentia que daquele jeito jamais chegariam. 

—  Bem,  adeus,  vou  indo  na  frente,  senão  Juno  também  me  matará!  —  disse  o  deus, 

perdendo de vez a paciência. 

—  Isto, vá logo, apressadinho! — disse Quelone, sentando numa pedra azulada, bem no 

começo  da  longa  estrada  do  arco-íris  que  levava  até  o  palácio  de  Júpiter.  —  "Por  que  não  me 

levou  nos  braços,  então,  se  estava  com  tanta  pressa?",  perguntou-se,  mal-humorada.  "Depois  a 

preguiçosa sou eu!" 



Quelone  adormeceu  bem  na  entrada  do  arco-íris.  Quando  acordou  novamente,  a 

magnífica festa já havia acabado. Grupos alegres já voltavam, cruzando por ela. 

— Que festa, hein? — dizia um fauno, todo descabelado. 

— Esta, sim, valeu a pena! — dizia uma nereida, que parecia ter abusado um pouco do 

vinho. 

Deuses,  ninfas,  faunos,  todos  esbarravam  em  Quelone,  que  era  a  única  a  seguir  em 

sentido contrário. 

— Esqueceu algo, querida? — perguntou-lhe Dóris, esposa de Nereu. 

— Não me amole — replicou Quelone. 

Apesar  da  festa  já  haver  acabado,  ela  ainda  tentava  avançar,  nem  que  fosse  para  se 

explicar com a nova rainha do céu. 

—  "Rainha  do  Céu!"  —  tripudiou  a  ninfa.  —  "Ai,  Rainha  do  Céu,  desculpe  o  atraso!" 

"Tudo bem, Rainha do Céu?" "Quem diria, hein: Rainha do Céu!" Quer saber de uma coisa? Vou é 

voltar já para casa! 

E voltou mesmo. Um pouquinho mais rápida, desta vez. 

Quando chegou lá, jogou-se em seu leito, exausta. Mas Mercúrio a aguardava. 

— Você não foi até lá, então? — disse o deus, com o cenho franzido. 

—  Não  incomoda,  pé-de-vento!  —  resmungou  a  ninfa,  cobrindo  o  rosto.  -Diz  lá  pra 

Rainha do Céu que um dia desses apareço para dar os parabéns. 

Mercúrio, perdendo definitivamente a paciência, pegou-a pelos pés e arrojou-a dentro do 

lago. Em seguida lançou também a própria casa da ninfa em cima dela. 

— Aí está! — disse o deus, dando as costas e indo embora. 

A  pobre  Quelone  ressurgiu  instantes  depois  das  profundezas  do  lago.  Seu  rosto  estava 

mudado,  e  era  como  o  de  um  enrugado  lagarto.  Tinha  agora  quatro  pernas  —  quatro  pernas 

imensas  —  e  em  cima  de  suas  costas  pesava  a  sua  antiga  casa,  virada  numa  imensa  e  pesada 

carapaça. E Quelone nunca fora tão lenta como agora! 

Assim a ninfa que faltou à cerimônia de casamento do grande Júpiter e da poderosa Juno 

foi transformada no animal hoje conhecido como tartaruga. 

O NASCIMENTO DE VÊNUS 

A  véspera  do  nascimento  de  Vênus  fora  um  dia  violento.  O  firmamento,  tingindo-se 

subitamente de um vermelho vítreo, enchera de espanto toda a Criação. 

Saturno,  munido  de  sua  foice,  enfrentara  o  próprio  pai,  o  Céu,  num  embate  cruel  pelo 

poder  do  Universo.  Com  um  golpe  certeiro,  o  jovem  deus  arrancara  fora  a  genitália  do  pai, 



tornando-se  o  novo  soberano  do  mundo.  Um  urro  colossal  varrera  os  céus,  como  o  estrondo 

tremendo de um infinito trovão, quando o Céu fora atingido. 

O  fecundo  órgão  do  deus  deposto,  caindo  do  alto,  mergulhara  nas  águas  profundas, 

próximo à ilha de Chipre. Assim, o Céu, depois de haver fecundado incessantemente a Terra — 

dando origem à estirpe dos deuses olímpicos -, fecundava agora, ainda que de maneira excêntrica 

e inesperada, o próprio Mar. 

Durante  toda  a  noite  o  mar  revolveu-se  violentamente.  A  espuma  do  mar,  unida  ao 

sangue do deus caído, subia ao alto em grandes ondas, como se lançasse ao vento os seus leves e 

espumosos véus. Mas quando a Noite recolheu finalmente o seu grande manto estrelado, dando 

lugar à Aurora, que já tingia o firmamento com seus dedos cor-de-rosa, percebeu-se que as águas 

daquele mar pareciam agora outras, completamente diferentes. 

O borbulhar imenso das ondas anunciava que algo estava prestes a surgir. 

Das margens da ilha de Chipre, algumas ninfas, reunidas, apontavam, temerosas, para um 

trecho agitado do mar: 

— O mar está prestes a parir algo! — disse uma delas. 

— Será algum monstro pavoroso? — disse outra, temerosa. 

Mas nem bem o sol lançara sobre a pátina azulada do mar os seus primeiros raios, viu-se a 

espuma, que parecia subir das profundezas, cessar de borbulhar. Um grande silêncio pairou sobre 

tudo. 

— Sintam este perfume delicioso! — disse uma das ninfas. 



As outras, erguendo-se nas pontas dos pés, aspiraram a brisa fresca e olorosa que vinha 

do  alto-mar.  Nunca  as  flores  daquela  ilha  haviam  produzido  um  aroma  tão  penetrante  e,  ao 

mesmo tempo, tão discreto; tão doce e, ao mesmo tempo, tão provocantemente acre; tão natural 

e, ao mesmo tempo, tão sofisticado. 

De repente, do espelho sereno das águas — nunca, até então, o mar tivera aquela lisura 

perfeita de um grande lago adormecido — começou a elevar-se o corpo de alguém. 

— Vejam, é a cabeça de uma mulher! — gritou uma das ninfas. 

Sim,  era  uma  bela  cabeça  —  a  mais  bela  cabeça  feminina  que  a  natureza  pudera  criar 

desde  que  o  mundo  abandonara  a  noite  trevosa  do  Caos.  Um  rosto  perfeito:  os  traços  eram 

arredondados onde a beleza exigia que se arredondassem, aquilinos onde a audácia pedia que se 

afilassem e simétricos onde a harmonia exigia que se emparelhassem. 

O  restante  do  corpo  foi  surgindo  aos  poucos:  os  ombros  lisos  e  simétricos,  os  seios 

perfeitos  e  idênticos  —  tão  iguais  que  nem  o  mais  consumado  artista  saberia  dizer  qual  era  o 

modelo  e  qual  a  sua  réplica  perfeita.  Sua  cintura,  com  duas  curvas  perfeitas  e  fechadas,  parecia 




talhada para realçar o umbigo perfeito, o qual acomodava delicadamente, como um encantador 

pingente,  uma  minúscula  e  faiscante  pérola.  E,  logo  abaixo,  um  véu  triangular  —  loiro  e 

aveludado véu -, tecido com os mais delicados e dourados fios, agitava-se delicadamente, esbatido 

pela brisa da manhã. Nenhum humano podia saber ainda o que ele ocultava — seu segredo mais 

cobiçado, que somente a poucos seria revelado. 

Algumas aves marinhas surgiram, arrastando uma grande concha, a qual depositaram ao 

lado  da  deusa  —  sim,  era  uma  deusa  -,  para  que  ela,  como  em  um  trono,  se  assentasse.  Um 

marulhar de peixes saltitantes a cercava, enquanto golfinhos puxavam seu elegante carro aquático 

até as areias da praia cipriota. 

Nem bem a deusa colocara os pés na ilha, e toda ela verdejou e coloriu-se como nunca 

antes  havia  sido.  Por  onde  ela  passava,  brotavam  do  próprio  solo  maços  aromáticos  de  flores 

multicores, os pássaros todos entoavam um concerto de vozes perfeitamente harmoniosas e os 

animais quedavam-se sobre a relva com as cabeças pendidas, para receber o afago daquela mão 

alva e sedosa. 

—    Quem  é  você,  mulher  mais  que  perfeita?  —  perguntou-lhe,  finalmente,  a  ninfa  que 

primeiro recuperara o dom da fala. 

— Sou aquela nascida da espuma do mar e do sêmen divino — respondeu a deusa, com 

uma voz cristalina e docemente áspera, envolta num hálito que superava em delícia ao de todas as 

flores que seus pés haviam feito brotar. 

No  mesmo  dia,  a  extraordinária  notícia  do  nascimento  de  criatura  tão  bela  chegou  ao 

Olimpo,  e  os  deuses  ordenaram  que  as  Horas  e  as  Graças  a  fossem  recepcionar.  Ainda  mais 

enfeitada  pelas  mãos  destas  caprichosas  divindades,  apresentou-se  a  nova  deusa  diante  de  seus 

pares no grandioso salão do Olimpo, sendo imediatamente acolhida e festejada pelos deuses. 

Mas quando todos ainda se perguntavam quem seria, afinal, aquela criatura encantadora, 

um  descuido  —  seria,  mesmo?  —  pôs  fim  a  todas  as  indagações.  Pois  o  véu  que  a  envolvia, 

descendo-lhe  até  os  pés,  revelara  o  que  nenhum  dos  embelezamentos  artificiais  pudera  antes 

realçar: a sua infinita beleza original. 

— E Vênus, sim, a mais bela das deusas! — disse o coro unânime das vozes. 

APOLO E A SERPENTE PÍTON

 

— É tudo verdade, Juno: Latona está grávida do seu esposo, Júpiter! 



Íris, a mensageira e confidente de Juno, fora quem descobrira a novidade. 

— Pois quero esta mulher bem longe de qualquer terra, compreendeu? -esbravejou Juno, 

enciumada. — Bem longe de qualquer terra. 

"Bem longe de qualquer terra", pensou íris. "É um bocado longe." 




Latona,  com  o  ventre  dolorido,  foi  obrigada,  assim,  a  percorrer  o  mundo  todo  — 

atravessando,  exausta,  lugares  como  o  Quio,  a  Trácia,  a  Ática,  a  Eubéia,  as  ilhas  do  mar  Egeu, 

sem jamais receber abrigo de quem quer que fosse, em lugar algum. E como se isto não bastasse, 

atrás dela ainda ia Píton, uma terrível serpente encarregada de devorar os seus filhos. Sem dar um 

segundo  de  descanso,  a  pavorosa  serpente  empenhou-se  na  sua  tarefa,  sem  nunca,  entretanto, 

conseguir alcançar o seu objetivo maior. 

Assim,  depois  de  muito  vagar,  Latona  acabou  por  chegar  à  ilha  de  Ortígia,  onde 

encontrou, finalmente, um abrigo. Ortígia era uma ilha flutuante, não estando fixa, portanto, em 

lugar algum, não fazendo parte da terra. 

Ali,  durante  nove  dias  e nove  noites,  Latona  gemeu  sob  o  império  da  dor.  Mas  Ilícia, a 

deusa  que  preside  os  partos,  soube  dos  sofrimentos  atrozes  pelos  quais  a  pobre  mãe  passava e 

resolveu socorrê-la. 

—  O  filho  de  Latona  será  o  mais  belo  dos  deuses,  e  para  mim  será  uma  honra  excelsa 

presidir o seu nascimento — disse ela às amigas, antes de partir. 

E  assim  foi.  Depois  de  intenso  sofrimento,  Latona  viu  seus  trabalhos  duplamente 

recompensados:  de  seu  ventre  saíram  não  um,  mas  dois  filhos  —  um  belo  menino,  de  nome 

Apólo, e uma graciosa menina, chamada Diana. 

— Aí tens o dia e a noite, um em cada braço — disse Ilícia, ternamente. Apólo, de pele 

alva e louros cabelos, de fato era a representação perfeita do sol e do dia, enquanto que Diana, de 

cabelos negros caídos sobre um colo faiscante, representava a lua envolta pela noite. 

Júpiter  deu  a  seus  filhos  muitos  presentes,  mas  o  que  mais  lhes  agradou  foi  um 

maravilhoso arco confeccionado por Vulcano. Desde este dia Diana afeiçoou-se de tal modo ao 

seu exercício, que acabou se tornando a deusa da caça. Quanto a Apólo, tinha em mente, antes 

que tudo, vingar sua mãe. 

— Diga-me, meu pai, onde está a terrível serpente que perseguiu tão cruelmente a minha 

mãe — disse ele, com os olhos postos no céu -, e irei matá-la com minhas próprias setas. 

Latona e seus filhos abandonaram a ilha — que passou a se chamar, desde então, Delos, 

ou  seja,  "ilha  luminosa",  em  homenagem  ao  deus  da  luz  e  do  sol  -e,  após  vários  percalços, 

chegaram enfim ao seu destino. 

— Eis o monte Parnaso, meus filhos — disse Latona, abraçada aos dois. Mas aquele local 

magnífico,  repleto  de  montanhas  e  abundante  vegetação,  escondia  também  um  horror.  Era  ali 

que a serpente Píton, filha da Terra, vivia, instalada bem ao pé do monte Parnaso em um imundo 

covil. 



—  Chegou  a  hora,  maldita  serpente  —  disse  Apólo,  enganchando  uma  flecha  em  seu 

poderoso arco -, de acertarmos as nossas contas. 

De dentro da caverna partiu um urro tremendo, que fez desmoronar muitas montanhas 

ao redor. Logo em seguida um bafo pestilencial, um misto de fogo e de sangue, foi expelido de 

dentro, incendiando tudo que estivesse à sua frente. A serpente medonha escorregou para fora da 

cova como se fosse uma língua em chamas expelida pela goela escancarada da montanha. 

Apolo, após subir em cima de um rochedo, estendeu o mais que pôde a corda de seu arco 

e  mirou  no  abismo  de  sua  boca  infernal.  A  fera,  contudo,  desviou-se  da  seta,  dando  um  salto 

inesperado e rolando de lado sobre a relva, que ficou toda crestada. 

—  Apolo,  meu  filho,  cuidado!  —  gritava  sua  mãe,  abraçada  a  Diana,  que  queria  se 

desvencilhar dos braços da mãe para ir ajudar o irmão. 

— Não se meta nisto, minha irmã! — bradou o deus solar. — Você é muito nova e frágil 

para enfrentá-la! 

Apólo nem se dava conta de que tinha a mesma idade da irmã, mas naquele momento foi 

a única coisa que lhe ocorreu para manter a salvo as duas mulheres. 

A  serpente  agora  estava  completamente  em  pé  —  parecia  impossível,  mas  estava 

completamente ereta, como uma gigantesca palmeira -, e seu ventre, originalmente claro, estava 

todo  coberto  do  sangue  seco  e  dos  ossos  esmagados  de  antigos  e  horrendos  festins.  Um  silvo 

ensurdecedor passou sobre o rosto de Apólo, como um vento quente e mórbido que um vulcão 

houvesse expelido em seu rosto. 

Píton entesou o seu corpo e lançou um bote quase certeiro sobre a rocha onde o deus do 

sol  se  mantinha  precariamente  equilibrado.  Um  grande  dente  amarelado  da  serpente  ficou 

cravado  sobre  a  rocha,  como  se  fosse  uma  gigantesca  espada  enterrada  na pedra.  Dela  escorria 

um líquido pestilencial da cor do âmbar e que exalava um odor terrivelmente nefasto. 

Apólo foi cair sobre a saliência de um penedo, ainda entontecido pelo bafo mefítico da 

sua  cruel  inimiga.  A  serpente  Píton,  após  relancear  a  cabeça  em  várias  direções,  arregalou  suas 

grandes  pupilas  horizontais:  uma  centena  de  línguas  fendidas  saíram  ao  mesmo  tempo  de  sua 

boca e chicotearam o ar em todas as direções. A temível Píton farejara novamente a sua presa. 

Mas antes que volvesse sua cabeça na fatídica direção, Apólo já estava em pé outra vez. 

Retesando ao mesmo tempo em seu arco três de suas mais afiadas setas, Apólo esticou a corda 

até que ela quase estalasse. 

— Serpente maldita, aqui está o seu castigo! — disse o deus, despedindo as três setas, que 

partiram sibilando pelo ar. 



Já no caminho as poderosas setas foram duelando com as línguas serpenteantes da víbora, 

e  uma  chuva  delas  caiu  do  alto,  decepadas  pela  velocidade  das  setas.  Em  seguida,  cada  qual 

tomando seu caminho foi buscar um alvo diferente: a primeira foi alojar-se no olho esquerdo da 

víbora;  a  segunda  penetrou  em  seu  peito,  ausente  de  escamas, enterrando-se  em  seu  coração; e 

finalmente  a  terceira  entrou-lhe  pela  boca  adentro,  tirando-lhe  o  hausto  da  vida.  Como  uma 

palmeira  que  tomba,  a  serpente  Píton  caiu,  provocando  um  grande  estrondo,  que  fez  tremer  a 

Terra durante oito dias. 

Apólo  vencera.  Tomando  então  sua  lira  —  que  Mercúrio  lhe  dera  de  presente  -,  ele 

entoou sua canção de vitória, abraçado à mãe e à irmã. Disse a elas, triunfante: 

—  Aqui  enterrarei  a  terrível  serpente,  e  sobre  seu  túmulo  erguerei  um  sagrado  templo, 

além de um oráculo, que será em breve o mais famoso de todos. 

Era o oráculo de Delfos, local onde todo mortal iria sondar os irrevogáveis decretos das 

Parcas, as deusas que presidem ao destino. 

MERCÚRIO, O DEUS DOS PÉS LIGEIROS

 

A cena é lírica: Maia, uma das belas ninfas do monte Cilene, está parada diante do berço. 



Observa  com  toda  a  ternura  o  seu  filho  Mercúrio,  que  está  aparentemente  adormecido,  com  o 

dedinho metido na boca. 

— Um digno filho de Júpiter! — diz baixinho a filha de Atlas. Enquanto observa o filho 

adormecido, relembra o dia em que, nos braços 

do  pai  dos  deuses,  concebeu  o  filho  numa  das  cavernas  do  monte  Cilene.  Júpiter  havia 

feito descer dos céus uma grande tormenta para abafar os amorosos ruídos de sua união com a 

ardorosa  ninfa.  Agora,  ali  estava,  diante  dos  seus  olhos,  o  produto  daquela  inesquecível  e 

tempestuosa  noite  de  amor.  Maia,  na  ponta  dos  pés,  afasta-se  do  quarto,  deixando  o  pequeno 

deus entregue aos cuidados do Sono, que vela ao seu lado. 

Mas tão logo a mãe se afasta, uma minúscula pálpebra lentamente se abre. Mercúrio, com 

o rosto parcialmente oculto pelo cobertor, estuda o ambiente. Sim, o Sono, bem ao seu lado, está 

completamente adormecido. 

Afastando  as  cobertas,  o  pequenino  deus,  ainda  deitado,  faz  deslizar  uma  de  suas 

perninhas para fora do leito. Enquanto o Sono  sonha e ressona, o pequeno pé tateia o chão, à 

procura de sua minúscula sandália: ah!, ali está! 

Deslizando  o  resto  do  corpo  para  fora  do  leito,  o  pequeno  Mercúrio  está  pronto  para 

protagonizar  a  primeira  de  suas  façanhas.  ''Uma  façanha  perfeitamente  memorável!",  pensa  o 

deusinho, lá no seu tatibitati divino. 




Já  com  suas  sandalinhas  aladas  presas  ao  pé,  Mercúrio  aproxima-se  da  janela.  A  noite  é 

cálida e estrelada — perfeita para um delicioso vôo noturno. Dando um impulso às suas pernas, 

o  deus  menino  lança-se  à  vastidão  do  espaço  negro,  isento  de  qualquer  receio  —  porque  o 

pequeno Mercúrio fora brindado com esta inexcedível virtude: nascera sem medo. 

Pela primeira vez o filho de Júpiter corta a imensidão dos ares, levado por suas sandálias 

aladas.  Incumbido  por  seu  pai  das  mais  diversas  missões  —  na  maioria  das  vezes  urgentes  e 

inadiáveis  -,  Mercúrio  se  notabilizará  justamente  por  este  seu  atributo  básico:  o  da  irrequieta 

mobilidade. Nenhum deus mais ágil, mais expedito, mais voluntarioso e, ao mesmo tempo, mais 

disciplinado  do  que  Mercúrio.  Condutor  de  recados,  não  se  limitará,  porém,  à  função  de 

mensageiro,  sendo  também  condutor  de  almas.  A  ele,  o  mais  atarefado  dos  deuses,  caberá 

também  a  tarefa  de  conduzir  as  almas  dos  mortos  até  as  margens  do  sinistro  Aqueronte.  Por 

muitas  vezes,  assim,  o  veremos  levar  heróis  e  mortais  pelos  caminhos  obscuros  do  Hades 

sombrio: será ele, por exemplo, quem conduzirá Orfeu até os braços de sua amada Eurídice para 

o ardoroso e fugaz reencontro. 

Mas o pequeno Mercúrio também, desde cedo, já revela outra de suas inúmeras vocações. 

É o que veremos agora. 

O  deus-menino,  após  viajar  muito,  já  está  em  Piéria,  local  onde  Apólo,  o  deus  solar, 

guarda os seus rebanhos. É noite, ainda, e os animais estão abrigados em seu redil. Mercúrio, sem 

se deixar deter por tão mísero detalhe, abre a porteira e sozinho — daquele tamanhinho — aparta 

cinqüenta novilhas para si. 

"Uma... duas... três... três e uma... três e duas... cinqüenta de uma vez!", contabiliza ele, lá 

na sua matemática infantil. 

Uma coisa é furtar grosseiramente, sem arte nem graça; outra é fazê-lo com a elegância do 

estilista.  Mercúrio  é  isto:  um  esteta  do  furto.  Por  isto  é  padroeiro  dos  ladrões  e  também  — 

desculpem  —  dos  comerciantes.  Mas  sigamos  adiante  com  o  divino  garoto,  porque  ele  já  vai 

longe, obrando a sua primeira façanha. 

Conduzindo, então, as novilhas, ele chega ao Peloponeso. Na cauda de cada animal — e 

aqui está o engenho — prende uma vassoura de ramos, que vai apagando o rastro das reses. Mas 

isto ainda não é o bastante: o pequenino Mercúrio, sempre previdente, inverte também a posição 

dos  cascos  das  novilhas,  calçando  igualmente  as  suas  sandalinhas  de  maneira  invertida,  para 

tornar mais perfeita a ilusão. 

No caminho, entretanto, cruza com um velho enxerido, que pergunta: 

— Aonde vai com tantas novilhas, gracioso menino? 

Mercúrio sabe que não o enganará, porque velhos metidos têm muita lábia. 




— Fique com uma delas de uma vez! — diz Mercúrio, dando seus primeiros passos na 

antiqüíssima arte do suborno. — Mas não me denuncie, hein, velho?! 

— Oh, não, confie em mim, gracioso menino! — diz o velho, abraçando-se à mais gorda 

das novilhas. — Confie em mim! 

Mercúrio dá alguns passos e vira a esquina de um rochedo. O rosto de pica-pau do velho 

enxerido,  contudo,  não  abandona  a  sua  mente:  "Oh,  não,  confie  em  mim,  gracioso  menino! 

Confie em mim!". 

Aquele  segundo  "confie  em  mim!"  é  prova  bastante:  ele  irá  denunciá-lo.  Mercúrio 

disfarça-se de proprietário ganancioso e irado e retorna. 

— Velho enxerido, não viu passar por aqui um ladrão com cinqüenta novilhas? 

— Bem, não... 

— Dou-lhe uma novilha e mais quatro bois se me disser. 

— Foi para lá, meu senhor! — grita o velho enxerido, apontando o dedo. 

—  Ótimo!  —  exclama  Mercúrio,  puxando  seus  bigodões  de  crina  de  proprietário 

ganancioso e irado. — Vou já buscar a sua recompensa. 

Dobra por trás do rochedo e dali mesmo esmurra a montanha até fazer desprender dela 

uma rocha imensa, que vai cair exatamente sobre a cabeça do velho enxerido. 

— Aí está sua recompensa! — diz Mercúrio, retomando a sua fuga. 

E até hoje lá está um grande rochedo, sob a forma de um velho enxerido, postado em pé 

para sempre sob o pó do Peloponeso. 

Depois  disso,  Mercúrio,  novamente  na  sua  forma  original,  conduz  as  novilhas  até  uma 

caverna, perto de Pilos. Ali faz uma oferenda aos deuses e aproveita para descansar. Está nisto, 

quando vê o casco vazio de uma tartaruga morta. 

— Que é isso? — indaga a si mesmo. 

Então, sem ter o que fazer, estica indolentemente alguns nervos de boi sobre o casco e, 

ao dedilhá-los, descobre que deles parte um som mavioso! 

Mas  eis  que  já  amanhece,  e  Mercúrio  retorna  voando  para  casa,  indo  se  meter 

rapidamente debaixo do cobertor. O Sono, é claro, ainda sonha docemente. 

O deus Apólo, por sua vez, dá logo pela falta das suas cinqüenta novilhas. Mas descobrir 

o autor do maravilhoso furto é que são elas! Ludibriado pelas artimanhas do menino deus, não 

tem outro recurso senão valer-se — oh, vergonha! — de seu próprio oráculo, em Delfos. 

Irado,  Apólo  apresenta-se  diante  de  Maia,  a  bela  mãe  de  Mercúrio,  para  reclamar  das 

traquinagens  de  seu  pequenino  garoto.  Ambos  correm  até  o  berço,  mas  pasmem,  lá  está  ele, 



adormecido.  Sua  respiração  está  perfeitamente  tranqüila,  mas  um  ligeiro  rubor  de  suas 

rechonchudas bochechas denuncia, talvez, uma recente atividade. 

—  É  que  ele  está  meio  febril  —  diz  a  mãe,  inventando  qualquer  coisa.  Apólo  coloca  a 

mão na testa do bebê. Não, nada de febre! 

— É que ele chupou o dedinho demais — diz a mãe, inventando outra desculpa. 

E assim ficariam para sempre, porque mãe, em se tratando de filho, tem justificativa para 

tudo. Mas Apólo não está para rodeios, e já se prepara para dar umas palmadas no garoto quando 

este estica os dois bracinhos para fora das cobertas e começa a dedilhar uma bela melodia na lira 

que inventara. 

Apólo congelou como uma estátua. 

— Que instrumento maravilhoso é este? 

Os hábeis e minúsculos dedos de Mercúrio dedilham com virtuosismo a lira, enquanto ele 

mastiga serenamente a sua chupeta. 

Apólo, esquecido das malditas novilhas, só quer saber agora de obter aquela preciosidade. 

—  Vamos,  dê-me  esta  lira  e  está  tudo  esquecido!  —  diz  o  deus,  deliciado.  Mercúrio 

estende o objeto — afinal, poderá fazer quantas liras quiser – e expele a chupeta com uma grande 

risada. 

VULCANO, DEUS DAS FORJAS

 

Juno, esposa de Júpiter, descobriu um dia que estava grávida. 



— Meu primeiro filho! — dizia ela, orgulhosa, a todo instante. 

O Olimpo inteiro aguardava com ansiedade irreprimível o nascimento do primogênito de 

Júpiter.  Que  tal  seria?  Teria  a  audácia  viril  do  pai  ou  puxaria  à  beleza  austera  da  mãe?  E  que 

inclinações traria do ventre? O gosto pelas batalhas? O pendor bucólico dos pastores? Ou, quem 

sabe, o refinado talento do artista? 

Todas as indagações ficaram suspensas nas línguas, pois Juno estava agora prestes a parir 

o bebê tão esperado. 

De repente um grito atroou pelos corredores do palácio de Júpiter. 

— Não, não... Meu filho, isto?! 

Tais foram as primeiras palavras ditas pela mãe, ao receber nos braços a criança recém-

nascida:  um  bebê  peludo,  de  cor  escura,  como  que  encardido  ou  chamuscado,  e  que  produzia 

feições horríveis quando chorava — ou estaria, o pobre, a sorrir? 

Júpiter,  constrangido,  afastara-se  da  deprimente  cena  —  o  primeiro  drama  doméstico  e 

familiar de uma série que teria de enfrentar. Juno, a seu turno, com a cabeça voltada em direção 

oposta ao berço onde estava o bebê, roía as unhas. 



"Eu, Juno, rainha do céu, mãe de um demônio", pensava. 

O  choro  horrendo  do  bebê  não  cessava;  não  era,  nem  de  longe,  aquele  choro  forte  e 

melódico que se esperaria do filho do senhor do Universo. Não, aquilo não era um choro, mas 

um guincho rouco e desprovido de qualquer encanto ou harmonia. 

Juno,  envergonhada  daquele  guincho  humilhante,  tapava  os  ouvidos,  pressionando  com 

toda  a  força  a  polpa  dos dedos  roídos  sobre  a  entrada  de  suas  divinas  orelhas.  Mas  o  ronco,  o 

guincho, o chiar, o estrídulo, o relincho — o que quer que fosse aquilo — não cessava nunca. 

—  Basta,  criatura!  —  disse  Juno,  pondo-se  em  pé  com  decisão.  —  Deve  ter  havido, 

afinal, algum engano. Com este corpo de tritão, deve ser filho de Netuno, rei dos mares, e não de 

Júpiter celestial. Volte, pois, para o seu lar. 

Juno, cega de desgosto, ergue a criança do berço. Num esforço supremo o garoto ainda 

tenta um último estratagema: dar à mãe um sorriso terno e alegre. 

—  Olha  a  boca  esgarçada!  Vai  chorar  de  novo! —  diz  Juno,  cega  de  ódio.  Então,  após 

rodopiar  por  duas  vezes  no  ar  a  infeliz  criança,  arremessa-a  do  alto  do  Olimpo.  Um  grito 

medonho desce das alturas, e durante o dia e a noite aquela voz ecoa por mares e continentes. O 

dia  amanhece  outra  vez,  e  o  menino  peludo,  feio  e  imensamente  infeliz  ainda  voa,  rodopiando 

pelos ares. Seu destino parece ser o revolto mar que se abre lá embaixo, como uma goela azul e 

escancarada, pronto para tragá-lo em suas ignotas profundezas. 

"Escondido  bem  no  fundo  do  oceano,  ninguém  jamais  o  descobrirá!",  pensara  a  deusa, 

um instante antes de arremessá-lo. 

Duas  massas  líquidas  e  azuis,  separadas  como  dois  imensos  lábios  salgados,  recebem, 

então,  o  bebê,  para  se  fechar  logo  em  seguida  com  o  fragor  de  duas  ondas  gigantescas  que  se 

chocam, borrifando as estrelas lá no alto com um turbilhão de espuma. 

— Que espantoso ruído foi esse? — pergunta Eurínome, filha de Tétis e do Oceano, à 

sua mãe. 

— Algo caiu do céu direto em nossos domínios — exclama Tétis, a mais bela das filhas 

de Nereu e futura mãe do irado Aquiles. 

— Vamos ver o que é! — grita Eurínome, seguida de imediato pela mãe. 

No fundo do oceano, engolido pelas águas, está o pequeno e peludo garoto, a se debater 

convulsamente  entre  as  funestas  ondas.  Tétis  agarra-o  imediatamente  e  sobe  com  ele  até  a 

superfície: 

— Levemos o pobrezinho para terra. 




Deste modo chegam os três à ilha de Lemnos. Após cuspir o resto da água que agoniava 

seus  pequenos  pulmões,  o  pequeno  ser  pedala  seus  pezinhos  e  faz  uma  careta  de  choro  para 

aquela estranha que o tem em seus braços. 

— Veja, que lindo sorriso! — diz Tétis, encantada. 

Ao  escutar  essas  palavras  o  serzinho  se  anima  e  remete  agora,  no  melhor  de  seus 

pequenos esforços, aquilo que pretende ser o mais grato dos seus risos. 

— Veja, Eurínome, ele sorri de novo! — exclama Tétis. 

Envolto em um cobertor, o garoto é levado para uma profunda e calorosa caverna. 

— Aqui ele estará aquecido, o pobrezinho! — diz Eurínome, beijando a testa cabeluda do 

pequeno deus, que conhece pela primeira vez o significado de um gesto chamado carícia e de um 

sentimento chamado afeto. 

As  duas  estão  preparando  a  nova  morada  para  o  bebê,  quando  Tétis,  voltando-se  para 

onde o bebê estava, percebe que ele sumiu. 

— Onde se meteu este menino? — perguntam-se as duas nereidas. 

O  garoto,  engatinhando,  metera-se  numa  escura  furna.  Atraído  pelo  fogo  da  lava  que 

agitava-se  nas  profundezas  da  terra,  lá  vai  ele,  destemido,  descobrir  o  que  é  aquilo.  Será  um 

pedacinho desprendido do sol, que escorreu do céu para ir meter-se dentro da terra? 

Um grito rouco atrai a atenção de Tétis e de sua filha. 

— Ouça, ele deve estar nas grotas! 

Elas  o  encontram  sentado,  com  um  pedaço  de  ferro  metido  entre  os  dedinhos 

chamuscados; um trejeito de dor denuncia que ele e o Fogo já foram apresentados. 

— Veja, ele sorri mais uma vez! — diz Tétis, encantada. 

Entretanto,  o  cumprimento  do  Fogo,  seu  novo amigo,  não  foi  dos  mais  delicados.  Mas 

este  garoto  já  descobriu  que  o  melhor  é  ir  logo  descobrindo  o  que  o  mundo  tem  de  mau  e 

perigoso. Afinal, esta lição ele aprendeu do berço. 

— Já que gosta tanto de vulcões, vamos chamá-lo de Vulcano — diz Tétis a Eurínome. 

— Excelente nome! — brada a outra. — Vulcano. Vulcano. Vulcano. 

O garoto volta-se misteriosamente para as duas. Nos seus dedinhos chamuscados brilham 

duas pequenas coisinhas, delicadas e douradas. 

— O que você tem aí, meu moleque? 

Com  um  brilho  radiante  nos  olhos,  o  pequeno  Vulcano  estende  às  suas  duas  mães 

adotivas dois pares de maravilhosos brincos, que ele mesmo confeccionara. 

—  Meu  Zeus!  —  diz  Tétis,  com  um  riso  cristalino  que  ecoa  pelas  paredes da  profunda 

gruta. — O danadinho é um artista! 




Sim, Vulcano, acossado desde o primeiro instante pelo infortúnio, é alma forte e lúcida, 

com discernimento bastante para fazer mudar em beleza a dor que o destino lhe remete. 

Assim cresce o pequeno, metido em sua forja nas profundezas da terra, confeccionando 

as mais belas peças de ferro, bronze e metais preciosos de todo tipo. 

Aos nove anos já é artista bastante para fazer uma peça de beleza estonteante. 

— O que é isto, Vulcano querido? — pergunta-lhe Tétis, sua mãe adotiva. 

—  Um presente para Juno, minha mãe! — exclama o deus, já um esperto adolescente. 

Trata-se de um magnífico trono dourado, todo cinzelado e reluzente. No mesmo dia se 

apresenta no Olimpo, carregando seu maravilhoso presente. 

— Quem e você, feia criatura? — pergunta-lhe uma das Horas, porteiras do céu. 

—    O  filho  da  rainha  do  céu  —  responde  Vulcano.  —  Queira  abrir  os  alvos  portões, 

subalterna. 

Vulcano,  como  se  vê,  já  aprendeu  perfeitamente  a  se  defender.  Quando  o  jovem  feio, 

coxo e peludo apresenta-se nos salões do Olimpo, é recebido por um coro celestial de risos. 

— Isto aí, filho de Júpiter e de Juno? — exclamam, incrédulos, os habitantes da morada 

dos deuses. 

Vulcano retira, então, o veludo que envolve o magnífico trono dourado. 

—  Aqui está, minha mãe, o presente com o qual pretendo ganhar a sua afeição! 

Juno, que a princípio envergonhara-se de tal filho, agora o vê com outros olhos. Afinal, o 

brilho  que  o  trono  dourado  despede  reflete-se  um  pouco  sobre  o  seu  corpo  disforme,  e  um 

monstro pintado a ouro já é, ao menos, pintado a ouro. 

Juno,  lavada  em  orgulho,  senta-se,  então,  sobre  o  trono  maravilhoso.  Um  coro 

estrondoso  de  palmas  ensurdece  o  Universo.  Vulcano,  beijando  a  mão  de  sua  mãe,  retira-se, 

então, com um largo e dócil sorriso, como faria o mais vil de seus lacaios. "Não é mau garoto, 

afinal!", pensa Juno. "Mas por que insiste em fazer cara de choro diante de minha presença?" 

Durante o dia inteiro a rainha do céu despachou de seu novo trono. 

—  Vou comer aqui mesmo, em meu maravilhoso trono, a ambrosia e o néctar divinos — 

diz ela a Hebe, a sua copeira. 

Somente no fim do dia, quando seu traseiro divino começa a tomar um formato indigno 

da  formosura  curvilínea  de  uma  deusa,  é  que  ela  pensa  em  erguer-se,  afinal,  de  seu  trono 

faiscante. 

—  Mas  o  quê?  Como?  O  que  se  passa  com  minhas  nádegas  celestiais?  -pergunta-se,  ao 

tentar erguer-se sem sucesso. — Hebe, Hebe, corra já aqui! 

A afoita Hebe surge correndo. 




—  Hebe,  Júpiter  que  me  perdoe,  mas  não  consigo  levantar-me  de  meu  maravilhoso 

trono! 


— Ah, Juno suprema, isto é compreensível! — diz Hebe, tentando ajudá-la com a maior 

dignidade  possível.  —  Afinal,  você  não  desgrudou  vossas  nádegas  sublimes  um  instante  do 

assento de vosso trono maravilhoso. 

— Cale a boca e me ajude! — diz Juno, com o rosto escarlate do esforço. 

Ajudantes  são  chamados.  Gemidos  de  dor  percorrem  os  corredores  enquanto  tentam 

descolar a rainha do céu de seu trono maravilhoso, dourado e magnificamente cinzelado. 

— Que lindas filigranas há aqui na base, deusa suprema! — diz um ferreiro, convocado às 

pressas para desentalar a rainha do céu da prisão de seu sublime trono. 

— Cale a boca e me tire daqui, maldito idiota, ou vou mandar fazer lindas filigranas você 

sabe onde! — grita Juno, rainha do céu, começando a perder a realeza moral. 

Ao cabo, nenhum dos deuses consegue libertar Juno. 

— Chamem o desgraçado — diz, afinal, Juno, rendida. Vulcano volta ao palácio de sua 

mãe. 

—  Vamos,  filho  ingrato, diga  o  que  quer  para  me libertar  de  tamanho  opróbrio!  —  diz 



ela, fuzilando o filho com o olhar. 

— Quero apenas ser recebido em minha casa com respeito e poder transitar livremente 

pelo Olimpo, como deus e filho da maior das deusas — responde Vulcano, serenamente. 

— Está bem, agora liberte-me — diz Juno, mais aliviada. 

— Ah! — diz Vulcano, como quem lembra de algo muito importante. — Quero também 

tomar por esposa a maravilhosa Vênus, pois amo-a perdidamente. 

— Vênus... com você? — diz Juno, incrédula. 

—  Sim,  bem  sei  que  sou  feio,  mas  conheço  algo  das  mulheres  para  saber  que  não 

desprezam, também, a segurança— responde Vulcano, deus sapientíssimo. — E com minha forja 

possa sustentá-la e lhe dar todo o luxo e riqueza que sua beleza merece. 

Vênus  é  chamada  e,  diante  de  proposta  tão  vantajosa,  aceita  imediatamente.  Vulcano 

toma suas delicadas mãos e deposita nelas o beijo de seus rudes lábios, e remete à mais bela das 

deusas o seu melhor sorriso. "Ele me ama mesmo", pensa Vênus, "pois chora, diante de mim, de 

felicidade!" 

Assim  Vulcano  e  sua  mãe  Juno  fizeram  as  pazes,  tornando-se  o  deus  artífice  amado  e 

respeitado em todo o Olimpo. 

O NASCIMENTO DE MINERVA

 

— Júpiter, preciso muito lhe falar — disse um dia a Terra, sua avó. 




A  velha  deusa,  que  engendrara  Saturno,  o  pai  devorador  de  filhos,  tivera  um  sonho 

profético  no  qual  a  antiga  e  violenta  maldição  familiar  de  filhos  destronarem  os  pais  ameaçava 

recomeçar. 

— Agora será com você, Júpiter, que a história vai se repetir! — disse a Terra, perfurando 

as nuvens com sua bengala de pedra. 

Na mente da deusa passou, como num relâmpago, todo o seu tormentoso passado com o 

brutal  Céu,  que  a  obrigara  a  esconder  em  seu  ventre  todos  os  filhos  gerados  por  ele.  Depois 

enxergou  seu  filho  Saturno  chegando  em  casa  com  a  foice  ensangüentada  e  o  ar  aliviado  do 

jovem que triunfa, afinal, sobre a tirania decrépita dos pais. "Seu odioso marido está mutilado e o 

poder agora é todo meu!", dissera o jovem deus, ao destronar o próprio pai. 

— Não diga tolices, minha vó! — bradou o pai dos deuses, despertando a Terra de seu 

devaneio. — Quem se atreverá a levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? 

A velha deusa sorriu. Fora esta mesma frase que Saturno envelhecido repetira, um pouco 

antes de seu próprio filho Júpiter expulsá-lo do trono, tornando-se o novo e supremo mandatário 

do  Universo.  Júpiter,  entretanto,  era  muito  jovem  e  estava  mais  preocupado  em  conquistar  o 

coração da sua amada Métis, a deusa da Prudência. 

—  Não  se  case  com ela —  advertiu  a  Terra,  com  severidade  -,  pois  de  seu  ventre  sairá 

aquele que trará a sua ruína. 

—  A  deusa  meiga  e  de  olhos  mansos  como  a  corça  será  capaz,  então,  de  gerar  um  tal 

monstro? — disse Júpiter, alisando sua negra e ainda curta barba. 

—  Sim,  seu  tonto,  a  meiga  e  de  olhos  mansos  como  a  corça!  —  bradou  a  Terra,  cujas 

palavras,  com  a  idade,  iam  perdendo  o  mel  da  paciência.  —  Na  verdade  serão  dois  filhos;  o 

primeiro será uma mulher, a mais justa e sensata das deusas, que só lhe trará alegria e motivo de 

orgulho... 

Júpiter sentiu um alívio percorrer suas divinas entranhas. 

-...  mas  cuidado  com  o  segundo!  -prosseguiu  a  deusa.  —  Ele  será  o  flagelo  de  sua 

existência.  Muito  mais  insubmisso  do  que  seu  pai  ou  você  próprio,  ele  o  destronará 

sangrentamente,  tomando  o  seu  lugar  para  todo  o  sempre.  E  com  o  filho  dele  acontecerá  o 

mesmo, e assim por diante, até que alguém decida pôr um fim a esta orgia de parricídios. 

Durante um longo tempo os dois estiveram em silêncio. De vez em quando Júpiter erguia 

os olhos para a avó, que permanecia parada à sua frente, apoiada ao seu cajado; em seus olhos 

inflamados  pela  profecia  brilhava  ainda,  com  a  mesma  intensidade,  a  luz  ofuscante  da 

determinação. 



— Está bem, vovó — disse, afinal, o pai dos olímpicos -, você venceu. Vou falar com a 

adorável Métis. 

No mesmo dia Júpiter dirigiu-se à morada da deusa, que ficava no fundo do oceano. 

— Adorável Métis, meiga e de olhos mans... — disse Júpiter, interrompendo-se. 

—  Oh,  é  você,  meu  querido  Júpiter!  —  exclamou  a  deusa,  caindo  em  seus  braços.  — 

Estava morta de saudades... 

"Tão meiga e tão feminil ao mesmo tempo!", pensava, enquanto deslizava os dedos pelas 

curvas simetricamente perfeitas das costas da encantadora Métis. 

Num  instante  estavam  ambos  sobre  o  leito.  Júpiter,  esquecido  das  advertências  de  sua 

avó,  passou  o  resto  do  dia  nos  braços  da  divina  amada,  descobrindo  a  cada  instante,  em  seu 

corpo, novos e insuspeitados mistérios. 

Ao final do dia, entretanto, ela voltou-se para ele e disse: 

— Júpiter, regozije-se: estou grávida! 

—  Grávida?! — exclamou o deus olímpico. 

—  Sim, seremos ambos pais de uma bela menina! 

Júpiter ficou paralisado por alguns instantes. De repente, porém, como quem toma uma 

súbita decisão, tomou-a nos braços e disse, num tom enigmático: 

— Está enganada: ambos seremos mães. 

Nem bem dissera isto, Júpiter abriu desmesuradamente a boca — onde ele vira isto antes? 

— e engoliu a pobre Métis! 

— Pronto, minha amada — exclamou ele. — Agora estamos unidos para sempre. 

Imediatamente  o  deus  retornou  para  junto  da  avó,  como  obediente  neto  que  era,  e  lhe 

comunicou, cheio de orgulho: 

—  Minha vó, acabei de comer a formosa Métis! 

—  Menino  sujo!  —  gritou  a  velha,  dando  uma  bastonada  em  sua  cabeça.  Custou  um 

pouco, mas afinal Júpiter conseguiu fazer a velha entender o que quisera dizer e acabou mesmo 

elogiado por ela. 

Os dias passaram e as apreensões foram se desvanecendo, até que, certa manhã, Júpiter 

acordou com uma terrível dor de cabeça. 

— Céus, o que é isto em minha cabeça? — gritava. 

Todos os deuses acorreram para ver que gritos eram aqueles. 

O deus dos deuses gemia, enquanto os demais se agitavam em torno. 

— Sua cabeça cresceu assustadoramente! — disse Mercúrio, espantado. 

— É da ambrosia... Eu disse pra não abusar! — gritava, aflita, a sua mãe, Cibele. 




— Calem a boca, todos, e chamem Vulcano — gritou Júpiter, com as duas mãos postas 

na cabeça. 

Dali a instantes surgiu o deus das forjas, coberto de fuligem. 

— O que houve, meu divino pai? 

— Tenho algo dentro da cabeça! Descubra o que é — exclamou Júpiter. 

—  Sim,  de  fato,  parece  haver  algo  muito  grande  dentro  dela...  —  respondeu  Vulcano, 

espantado com o gigantesco tamanho da cabeça de seu genitor. — O que será? 

—  Mas  foi  o  que  lhe  perguntei!  —  respondeu  Júpiter,  colérico.  —  Vamos,  pegue  suas 

ferramentas,  abra  minha  cabeça  e  retire  logo  daí  de  dentro  seja  lá  o  que  for  que  esteja  me 

atormentando! 

Vulcano  abriu  seu  maravilhoso  estojo.  Dentro  dele,  em  pequenos  compartimentos, 

estavam dispostas em perfeita simetria as suas extraordinárias e eficientes ferramentas. 

— Hm... Martelo, broca, chave, pé-de-cabra... Calma, meu pai, que a coisa já vai! 

O deus dos artífices encontrou, afinal, o seu melhor martelo e avançou destemidamente 

para o pai. 

Um  calafrio  de  horror  percorreu  os  nervos  e  tendões  de  Júpiter.  "E  se  a  velha  Terra 

estiver senil, e for ele, afinal, o filho que me tirará o cetro?", pensou Júpiter de olhos arregalados 

ao ver avançar o filho imundo, com aspecto de demônio, balançando o martelo gigantesco, como 

para lhe tomar o peso. 

—  Este  não  falha,  meu  divino  pai!  —  disse  Vulcano,  arreganhando  seus  quatro  negros 

dentes, e vibrou o martelo ao primeiro golpe. 

O pobre Júpiter sentiu o mundo rodar. 

Vibrou o martelo ao segundo golpe. 

Uma rachadura surgiu de alto a baixo em sua cabeça. 

—  Só  mais  uma,  pai!  —  disse  Vulcano,  respirando  fundo  e  erguendo  o  martelo  o  mais 

alto que pôde. 

PA!, vibrou o martelo ao terceiro golpe. 

Um jato de luz ofuscante escapou pela rachadura, fazendo com que os deuses corressem 

para  todos  os  lados.  De  dentro  da  cabeça  de  Júpiter  surgiu,  então,  uma  outra  cabeça,  revestida 

com um magnífico capacete dourado. 

Um grito de espanto varreu o Olimpo inteiro. 

Logo em seguida surgiu o resto do corpo da criatura — uma mulher, vestida inteira, dos 

pés à cabeça, com uma reluzente armadura. Todos os deuses estavam boquiabertos, e até Apólo, 



que conduzia no alto o seu flamejante carro do sol, parou por um instante para observar aquele 

fantástico prodígio. 

A mulher saltou para o chão e deu um grito de guerra, o mais alto que o Olimpo já havia 

escutado. Depois pôs-se a executar, de maneira absolutamente perfeita e graciosa, os passos do 

mais estranho e original peã que os olhos humanos e divinos já haviam contemplado. 

— Honra e Paz para você, divino pai e senhor absoluto do Universo! — disse a criatura, 

após encerrar a sua magnífica dança marcial. — Sou Minerva, sua filha, gerada de seu sêmen para 

cumprir as suas ordens. 

Júpiter ficou encantado com a nova deusa que surgia — parida por ele próprio! — e com 

suas filiais e piedosas palavras. 

Assim  que  veio  ao  mundo  a  mais  útil  e  benemérita  das  divindades:  Minerva,  deusa  da 

sabedoria, do trabalho e das artes. E quanto às negras previsões da velha Terra, que ameaçavam 

Júpiter com a chegada de um segundo e destruidor filho, deram, felizmente, em nada. 

Júpiter ousou então debochar da anciã: 

— Minha vó, suas profecias são furadas! 

— Imbecil, furada é sua cabeça-de-vento! — disse a velhinha, que nada tinha de caduca. 

— Bem se vê que fugiu o resto de sabedoria que havia na cachola. 

E depois de assestar uma bela pancada na cabeça do neto, completou: 

— Pois honre a mim, então, que sou a única divindade competente o bastante para fazer 

reverter uma funesta profecia. 

NETUNO, SENHOR DOS MARES

 

Netuno, após ter sido engolido por seu pai, Saturno, a exemplo de seus irmãos, foi um dia 



regurgitado, depois que Júpiter obrigou o velho deus a ingerir uma beberagem mágica. 

— Pronto, meu irmão — lhe disse Júpiter, satisfeito, depois de ambos haverem derrotado 

Saturno  e  seu  poderoso  exército  na  famosa  Guerra  dos  Titãs.  -Agora  já  pode  tomar  posse  do 

mar,  que  é  a  parte  do  Universo  que  cabe  a  você. A  mim  caberão  os  céus, enquanto  que  nosso 

irmão Plutão reinará nos subterrâneos. 

Netuno,  todo  sorrisos,  abraçou  o  irmão.  Mas  embora  todo  o  imenso  território  que  lhe 

coube, não foi isto o bastante para contentá-lo. De fato, Netuno era um deus ambicioso, invejoso 

e  intratável,  e  desde  aquele  dia  entrou  em  inúmeras  disputas  com  as  mais  diversas  divindades: 

contra  Minerva,  disputou  a  Ática;  contra  Juno,  o  domínio  da  Argólida;  contra  Apólo,  pelo 

controle  do  arquipélago  de  Delfos;  e  contra  o  próprio  Júpiter,  numa  tentativa  abortada  de 

destroná-lo, ousadia que lhe custou o castigo de ter de servir o rei Laomedonte e construir para 

ele, pedra por pedra, as muralhas da cidadela de Tróia. 




—  Só  entro  em  fria,  mesmo!  —  dizia  ele,  enquanto  carregava  as  imensas  pedras.  —  E 

além  de  tudo  ainda  tenho  de  agüentar  este  tagarela  dedilhando  a  lira  o  dia  inteiro.  —  Netuno 

referia-se ao deus Apólo, que também estava ali de castigo por uma falta cometida contra Júpiter. 

—    Sou  um  astro  —  disse  o  acalorado  deus  do  sol,  ajeitando-se  numa  sombrinha  para 

melhor exercer o seu delicado ofício. — Nasci só para brilhar. 

Netuno,  para  piorar,  ainda  teve  o  dissabor  de  ver-se  logrado  por  Laomedonte,  que 

recusou-se a lhe pagar o serviço. 

E assim  seguia sua vida, de deus rabugento e colérico, sempre fincando seu tridente no 

fundo do mar e provocando terremotos a propósito de qualquer contrariedade, a ponto de acabar 

conhecido como "Netuno, abalador da terra". 

—  "Netuno,  o  importuno",  eis  o  que  é!  —  disse  um  dia  Júpiter,  perdendo  de  vez  a 

paciência. — É, não tem jeito mesmo, vamos ter de lhe arrumar uma mulher... 

Depois de muito pesquisar, o pai dos deuses chegou à conclusão de que a solução estava 

nas  mãos  de  Nereu,  "o  velho  do  mar".  Este  deus  decrépito  era  filho  da  velhíssima  Terra  e  do 

antiqüíssimo Mar, e tinha uma penca de filhas, as Nereidas, assim chamadas em sua homenagem. 

— Mercúrio! — disse Júpiter. 

— Sim, meu pai — disse o deus dos pés ligeiros. 

— Vá até o fundo do mar e me traga o velho Nereu. 

No  mesmo  instante,  Mercúrio,  que  era  extremamente  rápido  em  tudo  que  fazia,  calçou 

suas  sandálias  aladas  e  rumou  para  o  oceano.  Dando  um  mergulho  espetacular,  chegou  até  os 

domínios de Nereu. 

Mais tarde, no Olimpo, Júpiter exclamou, ao ver a visita: 

— Nereu, velho amigo, que bom vê-lo aqui no Olimpo outra vez! 

— O que ordena, deus supremo? — disse Nereu de longas e alvas barbas. 

— Quero que ceda uma de suas filhas a meu irascível irmão — disse Júpiter, pondo uma 

mão sobre o ombro do velho amigo. — Não posso mais suportar as suas teimosias e temo que 

haja um confronto mais sério entre nós, caso ele não se acalme. 

— Pois não, Júpiter poderoso — disse Nereu. — Pode escolher qualquer uma de minhas 

cinqüenta filhas. 

— Cinqüenta? — exclamou Júpiter, puxando o lóbulo da divina orelha. -Mas não eram 

cem? 

—  Podem  ser  cem,  como  podem  ser  mil,  deus  supremo  —  disse  o  pobre  Nereu,  cuja 



memória já claudicava há muito tempo. 


Depois de estudar a questão e analisar uma por uma as Nereidas, chegaram, enfim, a um 

consenso: 

— Anfitrite será a esposa de Netuno! — disse Júpiter, jubiloso. 

— Anfi-quem? — disse o pobre Nereu. 

— Esqueça — disse Júpiter, dando uma palmadinha na face enrugada do amigo. 

No mesmo dia Júpiter comunicou a escolha ao mal-humorado irmão, que decidiu, ainda 

assim, conhecer a sua futura noiva. 

—  Vá  com  calma  —  disse  Júpiter.  —  As  filhas  de  Nereu  costumam  ter  o  senso  de 

independência muito pronunciado. 

Mas Netuno, que tinha o senso de prepotência ainda mais pronunciado, não se intimidou. 

— Onde posso ir encontrá-la? — disse, já se ajeitando. 

— Ela está na ilha de Naxos, junto com suas irmãs — disse Júpiter. Netuno, confiante, 

partiu  de  seu  palácio  azulado  no  fundo  do  mar  em  direção  a  Naxos,  conduzindo  seu  carro 

puxado por golfinhos. 

Fazia  um  lindo  dia  de  sol  quando  chegou  às  margens  pedregosas  da  ilha.  De  fato,  por 

cima dos grandes rochedos franjados pelas espumas do mar, lá estavam as encantadoras filhas de 

Nereu, algumas deitadas, descansando, enquanto outras, mais animadas, executavam os passos de 

uma movimentada dança. De vez em quando uma delas, estirando sua longa cauda recoberta de 

escamas  douradas,  dava  um  mergulho  repentino  nas  águas  verdes  do  arquipélago:  um  grande 

borrifo  verde  erguia-se,  então,  como  se  elas  lançassem  lá  do  fundo  um  imenso  punhado  de 

esmeraldas, que subiam, faiscando, em todas as direções. 

Netuno, boquiaberto, pasmava para aquela cena paradisíaca. 

— Verdadeiramente encantadoras... — exclamou o excitado deus, tratando, em seguida, 

de sentar-se ligeiro em seu carro. 

De repente, escutou a voz de uma das Nereidas. 

— Ei, Anfitrite! Venha juntar-se a nós, sua boba! 

Os olhos de Netuno voltaram-se para uma grande pedra isolada, que estava situada mais 

para  dentro  do  mar.  A  pedra  tinha  o  formato  de  um  leito,  magnífico  trabalho  de  polimento 

operado pelas perfeccionistas Ondas, que durante séculos, com toda a calma, a haviam polido até 

dar-lhe aquela conformação ideal. 

Em cima daquele leito solitário e da cor do chumbo estava estendida a divina Anfitrite. 

Era  uma  das  poucas  Nereidas  a  ter  os  cabelos  negríssimos,  da  cor  da  noite,  enquanto  que  as 

escamas  de  sua  longa  cauda  tinham  uma  brilhante  cor  prateada,  matizada  por  maravilhosos 

reflexos azulados e cor-de-rosa que se alternavam ao menor movimento. Com as costas coladas à 




pedra, Anfitrite dos cabelos negros tinha a face voltada para o alto; seu braço direito, caído sobre 

o rosto, protegia seus olhos dos raios fortes do sol, enquanto os peitos firmes apontavam para o 

céu. 

Netuno empinou seu carro na direção da Nereida de esbelto corpo. Emparelhando com a 



rocha, Netuno esteve longo tempo a observar os traços de Anfitrite, para ver se podia confiar em 

suas  virtudes.  Mas  a  ninfa  adorável  permanecia  com  o  rosto  quase  completamente  oculto  pelo 

braço. O deus dos mares, na verdade, só podia observar direito o nariz perfeitamente aquilino de 

Anfitrite e sua boca úmida e carnuda, maravilhosamente desenhada para o beijo. 

"Que mulher!", pensou Netuno, quase apaixonado. "Se tais são seus lábios e seu nariz... 

oh, como não haverão de ser seus divinos olhos!" 

Um arfar mais indiscreto do deus, contudo, despertou a atenção da formosa Anfitrite. Seu 

braço caiu e as pestanas de longos cílios recurvos ergueram-se, piscantes — e foi, então, como se 

duas estrelas houvessem se descortinado. -Divina e encantadora Anfitrite! — disse a voz rouca ao 

seu  lado.  —  A  partir  de  hoje  será  minha  divina  esposa  e  a  você  caberá  a  honra  de  ser,  para 

sempre, o repositório sagrado de meu divino sêmen. 

Anfitrite, assustada, ao enxergar a seu lado aquele homem espadaúdo, de longos cabelos 

recobertos de mariscos e  uma barba hirsuta tostada pelo sol a lhe dizer tais disparates, deu um 

ágil mergulho para dentro da água. Netuno ainda conseguiu agarrar um pedaço de sua cauda, mas 

as  escamas  lisas  escorregaram  por  entre  seus  dedos,  até  surgir  a  grande  e  quase  transparente 

barbatana, leve e fremente como um leque, que lhe deu uma bofetada, antes de desaparecer nas 

ondas. 

— Para onde foi... ? — bradou o deus, desesperado. 

E  desde  aquele  dia  Netuno  perdeu  Anfitrite  de  vista.  Percorreu  todos  os  mares,  foi  mil 

vezes ao palácio de Nereu, nas profundezas do mar, mas ninguém sabia dizer onde ela estava. 

Irado, Netuno começou a sapatear e a bater ferozmente com seu tridente por toda parte, 

demolindo  os  imensos  rochedos  subterrâneos  e  provocando,  com  isso,  terríveis  maremotos  na 

superfície  dos  oceanos.  Ondas  imensas  eram  cuspidas  para  o  alto  e  montanhas  inteiras 

arremessadas para as costas das cidades marítimas, levando o pânico a todos os mortais. 

Finalmente,  Júpiter,  no  último  limite  da  aflição,  ordenou  a  Nereu  que  revelasse  o  local 

onde a apavorada Anfitrite fora se ocultar. O pobre velho não sabia, mas sua esposa Dóris, como 

toda boa mãe, sabia — e muito bem. 

Depois  de  um  sem-número  de  pedidos,  Júpiter  finalmente  conseguiu  obter  da  mãe  das 

nereidas o que os rogos e súplicas do velho marido, é claro, não tinham podido alcançar. 



— Somente as carícias de sua divina filha poderão suavizar o rude temperamento de meu 

irmão — disse Júpiter à ainda reticente Dóris. — Quando isto acontecer, e a crosta primitiva de 

meu irmão houver caído, verá ela que se casou com um homem gentil e atencioso, além, é claro, 

de ter se tornado rainha de todo um império. 

— Rainha de todo um império... — resmungou várias vezes a mãe de Anfitrite, até que 

finalmente  cedeu,  embora  fizesse  questão  de  afirmar  que  não  fazia  o  menor  caso  de  vir  a  se 

tornar mãe da "rainha de todo um império". 

Revelado  o  esconderijo  da  filha  de  Nereu,  o  impaciente  Netuno  rumou  para  lá, 

silenciosamente,  montado  em  seu  discreto  golfinho.  Dentro  de  uma  caverna,  oculta  por  uma 

floresta de líquens, estava a assustada Nereida, quando Netuno, pé ante pé, adentrou o recinto. 

— Anfitrite adorada! — disse ele, cujas barbas estavam lustrosas do aromático âmbar. — 

Venha comigo e garanto que não terá jamais motivos para se queixar de mim. 

Netuno parecia realmente mudado: trajado modestamente, sem aquele ar arrogante que o 

caracterizava,  havia  deixado  em  casa  até  o  seu  horroroso  tridente.  Anfitrite,  cautelosa,  estudou 

ainda,  longamente,  o  aspecto  do  deus.  Depois,  ainda  indecisa  sobre  se  deveria  ou  não  aceitar 

aquela proposta, perguntou, amuada: 

— E quanto àquele negócio de "meu repositório de sêmen"? 

— Oh, não, esqueça esta bobagem! — disse Netuno, baixando os olhos. -Você será, para 

sempre, apenas o repositório de minha divina devoção e meu divino carinho. 

Ainda  mais  corado  por  aquele  sorriso  de  superioridade  da  divina  Nereida,  Netuno 

enterrou as unhas nas palmas das mãos e resolveu voltar ao velho estilo. 

— Venha, vamos de uma vez, minha rainha! — disse, encurralando-a na parede da gruta 

úmida e dando-lhe um beijo intenso e apaixonado. 

Depois levou-a nos braços até o golfinho e retornaram para o palácio de Netuno, onde 

ambos, desde então, governam felizes o imenso império dos mares. 

O NASCIMENTO DE BACO

 

A  princesa  Sêmele,  filha de  Cadmo  e  Harmonia,  estava  deitada em  seu  leito.  Estava  só, 



mas  ao  seu  lado  ainda  havia  a  marca  profunda  de um  corpo  —  o  corpo  de  um  deus.  De  fato, 

Júpiter,  o  mais  poderoso  dos  deuses,  estivera  até  há  pouco  gozando  dos  prazeres  que  lhe 

proporcionara sua mortal amante. 

—    Béroe!  —  disse  Sêmele,  espreguiçando-se.  Um  raio  cálido  de  sol  que  entrava  pela 

janela de cortinas balouçantes acariciou seu ventre. 

Alguns instantes de silêncio. 




—  Béroe,  surda!  —  gritou  Sêmele,  apoiada  aos  cotovelos.  Uma  velha  criada  entrou 

apressada. 

— Desculpe, minha ama... 

—  Béroe,  esta  noite  foi  verdadeiramente  divina...  —  disse  a  jovem,  sorrindo.  "Então  é 

tudo verdade!", pensou Juno, pois era a esposa divina de Júpiter quem estava ali, metamorfoseada 

na velha criada de Sêmele. 

— Vamos, ajude-me a me vestir — disse a jovem, erguendo-se. 

—  Desculpe,  ama,  me  intrometer  em  tais  assuntos  —  disse  Juno  disfarçada  -,  mas  está 

certa,  verdadeiramente,  de  que  este  homem  que  priva  de  seu  leito  todas  as  noites  seja  mesmo 

Júpiter, o deus supremo? 

— Que diz, Béroe? — exclamou Sêmele, enrubescendo. — Um homem, ele? Sua tonta, 

nenhum mortal poderia amar uma mulher como este divino ser! Homem algum teria o seu toque 

misterioso, nem beijo algum teria a volúpia que ele, Júpiter, põe em seus divinos lábios... 

Sim,  Juno  sabia  perfeitamente  de  tudo  isso.  "Mas  as  carícias  que  ele  lhe  dá nunca  serão 

mais  do  que  o  mero  produto  de  um  instante,  estando  sempre  conspurcadas  pelo  susto  e  pelo 

medo  de  um  terrível  castigo",  pensava  Juno,  tentando  vingar-se  mentalmente  da  adversária. 

Entretanto,  desconfiava  em  seu  íntimo,  mesmo  sem  dar-se  conta  claramente  disto,  de  que 

justamente ali poderia estar uma parcela do encanto e das delícias que ela, esposa legítima, jamais 

poderia desfrutar. 

—  Mas existem tantos homens, bem, digamos... — disse a falsa Béroe, fingindo escolher 

o  termo  certo  -...  tão  hábeis,  minha  ama,  que  às  vezes  nós  mulheres,  frágeis  e  tolas  que  somos, 

deixamos nos enganar com humilhante facilidade... 

— Não diga tolices, Béroe — disse Sêmele, entregando as vestes à velha e lhe dando as 

costas nuas. — Vamos, vista-me. 

—  Eu  mesma,  minha  ama  —  prosseguiu  Béroe,  sem  dar  atenção  às  reprimendas  -, 

quantas vezes fui ludibriada por homens que me pareceram deuses. 

—  Você?! — exclamou Sêmele, com um riso escarninho. — Você, Béroe, amada por um 

deus? Rá! 

Sêmele, contorcendo-se de riso, impedia que a ama lhe cobrisse o corpo, e embora Juno 

soubesse que o deboche não fora feito a ela, ainda assim sentiu-se tomada pelo rancor — tal o 

poder que uma afronta, mesmo feita por engano, pode ter sobre a vaidade feminina. Enquanto 

escutava  o  riso,  sem  poder  concluir  sua  tarefa,  Juno  percebeu  nas  costas  da  jovem  as  marcas 

inequívocas que o amor deixara em sua — sim, ela tinha de admitir — nudez perfeita. Juno tinha 

diante de si o mapa exato do país da traição: cada mancha arroxeada que Juno encontrava sobre 




aquela  alva  pele  simbolizava  uma  província  do  prazer  que  Júpiter,  auxiliado  pelos  desvelos  da 

amante,  havia  descoberto  e  marcado  em  seguida  com  a  mesma  ganância  do  explorador  que 

descobre um lugar paradisíaco e instala com fúria o seu marco a fim de deixar bem clara a sua 

posse exclusiva. 

Sêmele  fez  menção  de  virar-se,  mas  a  falsa  Béroe  não  lhe  permitiu;  temia  ver  em  que 

outros lugares infames poderiam estar depositadas aquelas manchas. 

—  Vamos,  minha  ama,  deixe-me  vesti-la  —  disse  a  criada,  introduzindo  a  veste  pela 

cabeça, como quem ensaca algo que deseja ver logo ocultado. 

—  Calma,  Béroe,  não  se  zangue...  —  disse  a  jovem,  ainda  tomada  pelo  acesso

 

de 



hilaridade. 

— Peça-lhe uma prova... — disse Béroe, com voz insinuante. 

— O quê? 

— Peça a ele uma prova, cabal e definitiva, de que ele é mesmo quem afirma ser. 

— Mas que prova melhor poderia Júpiter me dar, além das que já tenho? -disse Sêmele, já 

vestida, abraçando-se com braços fingidamente alheios. 

— Você sabe que os deuses usam uma forma humana apenas para se relacionar com os 

mortais — disse a Juno disfarçada. — Peça, então, que ele se mostre para você em todo o seu 

divino esplendor. Sêmele ficou alguns instantes pensativa, enquanto Béroe penteava, fio a fio,  os 

seus longos cabelos. — Está bem, lhe pedirei a tal prova! — disse a bela filha de Cadmo. 

—  Apenas  não  esqueça  de  uma  coisa  —  disse  a  velha,  com  um  sorriso  pérfido  no 

escondido  rosto  -,  deve  fazer  antes  com  que  ele  jure  pelo  Estige  que  não  lhe  negará  qualquer 

pedido. 

— Por que pelo Estige? — quis saber a jovem. 

—  Porquê  este  é  um  juramento  fatal,  ao  qual  os  próprios  deuses  estão  submetidos  — 

disse Juno, em tom solene. — Todo aquele que jura pelo rio infernal deve cumprir rigorosamente 

com a sua palavra, e nem mesmo Júpiter tem poder para transgredi-la. 

Dito  isto,  a  falsa  Béroe  afastou-se,  e  Sêmele  ficou  entregue  aos  seus  próprios 

pensamentos.  Quando  a  noite  chegou,  Júpiter  reapareceu,  como  de  costume.  -Júpiter,  meu 

amado! -disse a jovem, lançando-se a seus braços.— Desde que você começou a vir até mim, nos 

braços da noite, que eu nunca mais soube dizer, com certeza, quando é dia ou quando é noite. 

— Por que estas palavras? — perguntou o deus supremo. 

—  Porque  me  parece  que  a  noite  quando  chega,  trazendo-te  consigo,  me  traz  um  dia 

ainda mais claro e brilhante do que aquele que está partindo, apenas isto. 




Os dois amantes abraçaram-se, e após um longo beijo, Sêmele, tornando-se séria, tomou 

o rosto de Júpiter em suas mãos. 

— Meu querido, preciso que você me dê uma prova de seu amor. 

— Prova de amor? — exclamou Júpiter, surpreso. — Para quê? 

— Não importa; apenas prometa. Prometa pelo Estige que me dará tal prova. Só assim 

poderei ter sossego em minha alma e confiar plenamente em você. 

Júpiter  relutou  durante  um  longo  tempo.  Jurar  pelo  Estige  —  o  mais  irrevogável  dos 

juramentos -, e tudo apenas por um capricho feminino! 

— Está bem, eu prometo — disse Júpiter, afinal. 

— Vamos, pelo Estige... — disse Sêmele. — Diga, por favor... 

Júpiter acedeu, contrariado, e fez o juramento. Sêmele, aliviada, foi até o fundo do quarto 

e parou, com um ar misterioso estampado no rosto. 

— Quero agora uma prova definitiva de que você é mesmo o Júpiter que tanto amo — 

disse ela, com o ar subitamente decidido. 

— Do que está falando, criatura? 

— Mostre-se agora, diante de mim, tal qual é! Júpiter ficou paralisado. 

Não, aquilo não podia ser verdade. Ela devia estar brincando, ou então louca. Claro, só 

uma louca lhe pediria uma coisa destas. E ele sabia perfeitamente que não poderia fazer isto sem 

destruí-la. 

Júpiter chegou a abrir a boca para lhe explicar o motivo, mas subitamente deu-se conta de 

que o destino da pobre moça já estava selado, pois ele havia feito o juramento fatal. Nada poderia 

fazer  com  que  ele  voltasse  atrás  —  mesmo  que  ela  mudasse  de  opinião  ou  tentasse  anular  sua 

vontade anterior. 

"Finalmente verei o que mortal algum antes viu", pensou a jovem, extasiada. 

Júpiter, pesaroso, afastou-se um pouco, embora soubesse que era um ato inútil. Depois, 

concentrou-se e fez com que suas formas humanas fossem lentamente se apagando. Ao mesmo 

tempo uma luz, a princípio muito tênue, foi brotando do seu corpo, em dourados feixes, como se 

um segundo sol estivesse a nascer dentro dele. 

Sêmele deu-se conta, subitamente, do que estava para acontecer, quando viu a vaporosa 

cortina  atrás  do  deus  desaparecer  como  num  sopro,  e  uma  nuvenzinha  de fagulhas  ser  expulsa 

pela janela, impelida pelo vento. 

—  Não,  Júpiter...  Não! —  gritou  a  pobre  jovem,  mas  já  era  tarde  demais.  Uma  bola de 

chamas irrompeu de dentro da forma humana do pai dos deuses e se expandiu por todo o quarto; 



relâmpagos espalhavam-se em todas as direções e um fragor intenso de chamas devorando tudo 

abatia-se sobre a jovem infeliz. 

—  O,  maldita  Béroe!  —  gritava  Sêmele,  ajoelhada,  com  a  cabeça  oculta  e  os  ouvidos 

tapados. — Béroe e a minha maldita desconfiança foram a minha perdição! 

Caiu no chão o corpo chamuscado e já sem vida de Sêmele. Dentro dela, porém, sem que 

ela tivesse sequer sabido, ainda pulsava outra vida. 

Júpiter,  dando-se  conta  disso,  retirou  do  ventre  da  amante  morta  o  produto  divino  dos 

seus  amores:  um  bebê,  muito  jovem  ainda,  mas  que  respirava.  Sim,  ele  respirava!  Júpiter,  antes 

que o palácio inteiro ardesse, retomou sua forma humana e, fazendo um talho na própria perna, 

introduziu o pequeno e delicado ser dentro de sua própria coxa. 

"Não poderia encontrar um refúgio mais seguro", pensou Júpiter, que já era capaz de se 

alegrar outra vez, com a descoberta daquele agradável consolo. 

— Afinal, para alguém que já gestou um ser em sua própria cabeça, gestar outro em sua 

coxa não será coisa tão penosa... — disse o deus supremo, indo embora. 

E  foi  assim  que  dali  a  algum  tempo  veio  ao  mundo  Baco,  o  único  deus  cujos  pais  não 

eram ambos divinos, sendo filho de uma divindade com uma bela mas infeliz mortal. 

BACO APRISIONADO

 

Assim que Baco, filho de Júpiter e de Sêmele, nasceu da coxa do próprio pai, este chamou 



Mercúrio  e  ordenou-lhe  que  levasse  o  garoto  para  ser  criado  pelas  ninfas  do  Nisa,  um  lugar 

ameno e paradisíaco. 

— Lá ele estará em perfeita segurança — disse Júpiter, com alegria. 

O pequeno Baco foi entregue às ninfas e também a um estranho e divertido ser chamado 

Sileno, filho do deus Pã, que se tornou o pai adotivo do futuro deus das vinhas. 

Durante  seus  primeiros  anos  Baco  participou,  junto  com  Sileno  —  sempre  bêbado  e  a 

cair de cima de seu inseparável burrico -, de toda espécie de brincadeiras. Mas se o velho Sileno 

sabia ser brincalhão — e mesmo irresponsável, muitas vezes -, também sabia demonstrar que era 

dono  de  profundos  conhecimentos,  que  sua  aparência  exótica  e  pouco  respeitável  podia  fazer 

adivinhar. 

—  Deixe  que  falem  —  hic!  —  o  que  quiserem!  —  dizia  Sileno,  erguendo-se  do  são. 

amparado pelo jovem pupilo. — Sileno sabe mais — hic! — que todos os sabichões da Terra... 

Um  dia  o  jovem  Baco,  vestido  com  seu  manto  púrpura,  resolveu  ir  até  a  praia  e  lá 

adormeceu.  Neste  ínterim  havia  se  aproximado  da  costa  um  grande  navio  —  na  verdade,  um 

navio pirata — que andava à caça de nova presa. 



Um  grupo  de  marinheiros  desceu  à  terra  para  buscar  água,  e  quando  estes  pisaram  nas 

areias claras deram de cara com o belo rapaz adormecido. Sua tez delicada, seus lábios rubros e o 

todo mais de sua aparência denunciavam que seria filho, ao menos, de um senhor poderoso do 

lugar. Quem sabe, até, do próprio rei. 

— Vamos levá-lo conosco — disse o mais rude daqueles homens. — Poderemos pedir 

por ele um belo resgate. 

Entretanto,  o  timoneiro, Acetes,  tinha  bom  olho  para  as  coisas  divinas  e  percebeu  logo 

que o garoto tinha algo de estranho. 

— Deixemos o rapaz em seu lugar e vamos embora de uma vez — disse ele -, pois não 

pressagio nada de bom desta aventura. 

— Virou Cassandra, agora? — disse Lícabas, o mais feroz e impiedoso dos piratas, com 

uma  gargalhada  assoprada  que  fez  espirrar  no  rosto  do  pobre  timoneiro  uma  chuva  de  seus 

perdigotos podres. 

Acetes, conhecedor do estratagema do vilão, deixou para limpar depois o produto infecto 

da  boca  do  asqueroso  Lícabas,  pois  sabia  perfeitamente  -já  vira,  na  verdade,  por  duas  vezes 

acontecer o mesmo — que limpar o rosto diante dele era decretar a própria morte. 

O garoto foi, então, embarcado, mas não à força, porque não opôs nenhuma resistência 

contra seus raptores. Estranhamente calmo, Baco só fazia observar docilmente aqueles homens 

sujos e cruéis. 

"Verdadeiramente é um deus!", pensava o bom Acetes, observando o rapaz. 

— Dirija direito este troço! — disse uma voz ao seu lado. Era um dos piratas, que fora 

destacado pelo próprio Lícabas para vigiar o timoneiro. 

Enquanto isto, Lícabas, que fora se tomando cada vez mais de antipatia pelo jovem deus, 

ordenou de repente a um de seus marujos: 

—    Amarrem  esta  mocinha!  —  disse,  acentuando  bem  a  última  palavra.  E  antes  que 

dessem cumprimento a sua nefanda ordem, aproximou bem a horrível carranca do rosto delicado 

de Baco. 

—  Frisou  hoje  cedo  os  lindos  caracóis,  menina  loira?  —  disse  o  sórdido  Lícabas, 

arreganhando  a  horrível  dentadura,  na  qual  se  podiam  perceber  três  dentes  acavalados  a 

disputarem o mesmo espaço. 

Depois, tomando sua faca, enrolou um dos cachos loiros sobre o fio, como se fosse frisá-

lo, mas os fios partiram-se. 

—  Ora,  menina,  que  pena!  —  disse.  — Eu  só  ia  fazer  mais  um cachinho... Um  jato  de 

perdigotos explodiu da boca de Lícabas, como a onda esbatida 




que o vento impele, no inverno, sobre a costa pedregosa — mas, curiosamente, nenhuma 

das gotas apodrecidas foi alojar-se no rosto do jovem Baco. 

— Cadê a corda, sardinhas regurgitadas pelo gato? — perguntou Lícabas, que mudava de 

espírito como o céu muda durante o verão abrasante. 

Um boçal bem mandado surgiu carregando um rolo áspero de cordas. 

— Deixa ver — disse Lícabas, esfregando um pedaço sobre a parte interna do braço. — 

Não serve; traga outra! 

Um  rolo  de  fios  de  cobre  espetado  surgiu,  nos  braços  do  mesmo  homem.  Depois  de 

testá-lo, o vil Lícabas aprovou. 

-Amarrem-no, já! 

Três homens fortes tomaram da corda e enrolaram Baco num abraço odioso. Mas, coisa 

estranha!,  tão  logo  terminavam  de  fazer  os  nós,  eles  se  desmanchavam  como  por  encanto,  e  a 

corda caía aos pés de todos, sem provocar o menor arranhão na vítima. 

— Imbecis! — disse Lícabas. — Tratem de fazer um nó decente ou mandarei dar um nó 

nas tripas de cada um de vocês! 

Trinta  nós  foram  feitos,  e  os  mesmos  trinta  nós  desfeitos,  até  que  o  sol  caísse.  De 

repente, porém, o navio parou em meio ao mar. Parou, simplesmente. Ninguém sabia explicar o 

motivo. 


—  O vento cessou de todo — explicou Acetes ao capitão, temendo uma reação brutal. 

— Então dêem nos remos! — ordenou Lícabas, que sabia dividir o instante das punições 

com o instante da ação. 

Os remos foram lançados com estrídulo à água, mas na mesma hora viram-se enrolados 

por um emaranhado de algas. Ao mesmo tempo começou a subir pelo mastro a folhagem espessa 

das vinhas, que se espalhou por todo o convés. 

— Vejam, está chovendo! — disse um dos marinheiros, estendendo a mão. 

Mas  não  era  uma  chuva  normal,  e  sim  uma  chuva  de  vinho,  que  num  instante  cobriu 

todos  de  vermelho.  Alguns,  é  verdade,  gostaram  da  peça  e  abriam  suas  bocas  para  receber  o 

produto  da  grande  nuvem  vermelha  pairada  acima  do  barco.  Mas  quando Lícabas,  que  não era 

homem para graças, enterrou uma espada dentro da garganta do primeiro, a brincadeira acabou-

se ali. 


Baco,  misteriosamente,  tinha  agora  ramos  da  vinha  pendurados  atrás  das  orelhas  e 

portava  em  sua  mão  um  grande  tirso,  com  a  ponta  encimada  por  uma  enorme  pinha.  Como 

quem rege um concerto de flautas, Baco agitava o seu cetro, com um sorriso alegre estampado no 

rosto — o sorriso da embriaguez divina! 




O  convés  encheu-se,  também,  de  animais  silvícolas,  enormes  e  assustadores.  Enormes 

felinos  espalhavam-se  por  todo  o  barco  —  tigres,  linces  e  um  jaguar  que  parecia  divertir-se 

imensamente com aquilo tudo -, o que tomou os marinheiros de pavor. 

—  Verdadeiramente,  este  rapaz  é  um  deus  ou  um  demônio!  —  exclamou  um  deles, 

lançando-se borda afora. Muitos outros o seguiram, mas tão logo alcançavam a água, viam seus 

corpos mudarem abruptamente para algo inumano. 

Lícabas,  o  último  que  relutava,  ainda,  em  abandonar  o  barco,  de  repente  começou  a 

perder o equilíbrio. 

— Mas o que é isso? Maldição! — disse, enquanto observava seus pés unindo-se por uma 

estranha membrana, quase transparente. Suas pernas também foram perdendo o pêlo espesso que 

as recobria e tornando-se lisas como a pele de um peixe. 

Num  último  instante,  antes  de  enlouquecer,  o  sórdido  Lícabas  chegou  a  achar  graça 

daquela estranha metamorfose que se operava em si próprio. 

— Estarei enlouquecendo, então? — exclamou, dando sua última gargalhada. Mas não foi 

de sua boca que saiu, desta vez, o infame jato, mas de uma 

protuberância  instalada  bem  no  alto  de  sua  cabeça.  Lícabas,  bem  como  todos  os  seus 

homens  —  à  exceção  do  bom  Acetes  -,  haviam  se  transformado  em  golfinhos,  que  tubarões 

ferozes perseguiam em alucinante disparada. 

— Sou Baco, deus do vinho e da alegria! — disse o jovem, com os olhos refulgentes, ao 

timoneiro.  —  Leve-me  de  volta  e  instaure  um  templo,  em  meu  nome,  em  todas  as  terras  por 

onde andar, para que se possam celebrar neles os meus sagrados ritos. 

Assim se fez, e desde então Baco obrou ainda muitos e mil outros prodígios. 

HIPOMENE E ATALANTA

 

— A mulher mais veloz do mundo é minha filha, Atalanta! — dizia sempre Esqueneu, o 



rei de Ciros, orgulhoso. 

Sua filha, por sua vez, não fazia nada para desmentir tais palavras. Desde menina que a 

esbelta Atalanta já corria velozmente pelos campos. Porém, também corria uma lenda a respeito 

desse hábito — que nela parecia mais uma obsessão — e que dizia o seguinte: quando a jovem 

nascera, fora profetizado que ela jamais deveria se casar, pois o casamento seria a sua ruína. 

Levado  por  este  temor,  seu  pai  a  ensinou  desde  cedo  a  se  esquivar  de  qualquer 

pretendente, pois desde a infância que os pedidos de casamento se acumulavam diante do trono: 

— Minha filha, lembre-se de que você jamais deverá se casar — dizia-lhe sempre seu pai, 

quando a via inclinada a aceitar os elogios de algum amante mais afoito. 



Atalanta acabou gostando do hábito de se esquivar, de tal forma que sentia mais prazer 

em  fugir  do  que  conversando  com  seus  pretendentes.  Tendo  se  colocado  sob  a  proteção  de 

Diana, a jovem isolou-se no campo, em caçadas com suas companheiras. 

Mas os pedidos continuavam cada vez mais, e com tanta insistência, que um dia ela disse 

ao pai: 

—  Pai,  não  agüento  mais  essa  perseguição  dia  e  noite!  Preciso  afastar  esse  bando  de 

impertinentes. 

O rei concordou e arranjou um meio de afastá-los: todo homem que quisesse receber a 

mão de sua filha teria de vencê-la em uma corrida de vida ou morte. Aquele que perdesse, porém, 

seria inevitavelmente morto. 

— Isto os fará pensar duas vezes antes de entrar na disputa — disse o rei. Atalanta ficou 

encantada com a idéia, pois tinha certeza de que ninguém 

conseguiria  ser  mais  veloz  do  que  ela.  Ficou  marcada,  assim,  uma  corrida  para  o  mês 

seguinte. 

Apesar  da  ameaça  que  pairava  sobre  a  cabeça  dos  concorrentes,  apresentou-se  uma 

quantidade imensa deles, de tal modo que o rei chegou a pensar em suspender a disputa. 

— Não se preocupe, pai, eu vencerei todos eles! — disse Atalanta, confiante. 

No dia marcado, apresentaram-se homens de todos os tipos. Mais um pouco, e surgiu o 

alvo de todas as atenções: Atalanta, cuja beleza nunca estivera tão evidente. Seus cabelos estavam 

presos  num  gracioso  penteado  ao  alto  da  cabeça.  Vestida  com  um  levíssimo  traje  de  linho,  ela 

achou melhor despi-lo, para ter seus movimentos facilitados. Mas ao despir-se, fez também com 

que  mais  uma  centena  de  concorrentes  se  inscrevessem  às  pressas,  aglomerando-se  entre  os 

demais na linha de partida. 

Aquilo começava a tomar as perigosas proporções de um suicídio coletivo. 

—  Isto será um verdadeiro massacre, alteza! — disse um assessor do rei, temeroso das 

conseqüências. 

— Ótimo — replicou o monarca. — Servirá de lição aos futuros pretendentes. 

Enquanto isto se passava nas tribunas, Atalanta, separada dos concorrentes, passava um 

óleo por todo o corpo. Seus seios e curvas brilhavam ao sol, e a jovem parecia recém-emergida 

das  águas.  Suas  formas  eram  atléticas  o  bastante  para  lembrar  o  corpo  de  um  homem  e 

suficientemente  femininas  para  afastar  tal  idéia.  Os  músculos  de  suas  pernas  luziam,  fremindo 

como as coxas de um puro sangue, enquanto seus pés, flexionados, tinham a perfeição dos pés de 

uma estátua prestes a saltar do pedestal. 



Quando  a  jovem  se  abaixou  para  esfregar  o  óleo  nas  canelas,  um  suspiro  de  admiração 

percorreu  toda  a  assistência:  seus  seios,  apesar  de  volumosos,  permaneciam  firmes  e  sólidos, 

enquanto as nádegas fremiam no retesar vibrante dos músculos. 

Atalanta  lançou,  então,  um  olhar  aprovativo  para  o  rei,  na  tribuna.  Finalmente,  soou  o 

sinal  para  a  partida.  No  mesmo  instante  Atalanta  partiu,  lançando  seu  pé  direito  para  a  frente 

num salto que lembrava o da mais ágil gazela. Os homens, amontoando-se na pressa de serem os 

primeiros, tropeçavam uns sobre os outros, caindo num bolo humano logo na saída. Parecia que 

um monstro masculino formara-se no solo, com dezenas de cabeças, membros, braços e pernas. 

Dentre os juízes, contudo, havia um jovem ambicioso, chamado Hipomene, que mais que 

qualquer  outro  parecia  acompanhar  a  competição  em  um  estado  de  ânimo  próximo  do  êxtase. 

Desde que Atalanta se despira, ele não pôde mais desgrudar os olhos daquela magnífica mulher. 

"Essa  mulher  será  minha!",  pensava  Hipomene,  enquanto  torcia  pela  vitória  de  Atalanta  e, 

conseqüentemente, pela morte de todos os seus adversários. 

Atalanta já ganhara a dianteira; seu corpo movia-se com a perfeição elástica de um felino. 

Os  pés  nus  batendo  sobre  a  areia  levantavam  um  fino  vapor,  como  se  pelo  atrito  fossem 

incendiar  o  solo.  Os  seios  rijos  da  princesa  sacudiam,  mas  sem  comprometer  a  leveza  dos 

movimentos. Seu rosto, incendiado por duas manchas vermelhas, abrasava-se, enquanto da boca 

escapava  um  sopro  forte  e  ritmado.  Mas  a  nada  disso  os  concorrentes  —  sempre  atrás  de 

Atalanta — puderam ver. Enxergaram apenas as suas costas, o que, por certo, não era espetáculo 

menos digno e empolgante: os ossos de suas omoplatas moviam-se alternadamente, ao ritmo dos 

braços, produzindo um movimento perfeito da musculatura dorsal. As nádegas não balançavam, 

mas fremiam, absorvendo o impacto das vigorosas passadas. 

Os adversários já estavam reduzidos a apenas meia dúzia de concorrentes que, de longe, 

não  ameaçavam  a  moça.  Mesmo  o  mais  veloz  nunca  esteve  a  menos  de  cem  metros  dela,  que 

dava-se ao luxo de virar-se para observar os rivais. 

Quando  Atalanta  cruzou  a  linha  de  chegada,  um  sorriso  brilhava  nos  seus  lábios 

entreabertos. Os infelizes, derrotados, foram imediatamente reunidos para o sacrifício. 

—  Pai, proponho que, no lugar de serem sacrificados, sejam estes homens privados da 

sua  virilidade!  —  disse  Atalanta,  mostrando-se  mais  cruel  em  sua  aparente  piedade  do  que  se 

tivesse autorizado a morte de todos. -Assim, ao menos, deixarão de me incomodar. 

O  povo,  no  entanto,  viu-se  presenteado  com  o  espetáculo  das  execuções,  do  qual 

desfrutou  com  imenso  assombro  e  prazer,  enquanto  a  causadora  do  holocausto  retirava-se, 

aborrecida pelo vulgarismo do sangue. Contudo, Hipomene — cuja decisão não fora afetada pelo 



funesto  resultado  da  competição  —  continuava  determinado  a  conquistar  Atalanta.  Pulou  da 

tribuna e caiu aos pés da bela corredora e futura adversária: 

—  Lindíssima Atalanta, permita que eu a desafie para uma disputa, somente eu e você! 

— disse Hipomene, com os olhos erguidos e ofuscados pelo olhar surpreso da moça. 

—  Você... ?! — disse Atalanta, surpresa. — Não teme se unir àqueles desgraçados? 

— A única coisa que temo é não ter você ao meu lado — exclamou o rapaz, arrebatado. 

— Muito bem, belo e audacioso jovem, marque o dia e a hora — disse a moça, retirando-

se para lavar o suor e o óleo de seu corpo. 

Hipomene, à medida que via a data do confronto se aproximar, começava, no entanto, a 

inquietar-se.  Talvez  tivesse  sido  imprudente  ao  se  lançar  a  um  desafio  sem  ter  um  trunfo  nas 

mãos. 

Na véspera da disputa, temeroso de perder a sua amada, ele foi ao templo de Vênus pedir 



proteção.  A  deusa  do  amor,  lisonjeada  com  o  pedido  e  desejosa  de  abater  aquela  moça  que 

parecia fazer pouco dos seus dons, disse ao desesperado pretendente: 

— Aqui, ao lado do templo, há um pomar consagrado a mim; vá até lá e colha três maçãs 

douradas que pendem de seus galhos. 

Instruiu-o  na  maneira  de  usar  os  frutos  durante  a  competição,  e  o  rapaz  saiu,  mais 

confiante. No dia seguinte, postaram-se ambos — Atalanta e Hipomene — para a disputa, o que 

atraiu nova multidão ao campo do confronto. Atalanta, bela e radiante, estava lado a lado com 

seu oponente, que preferiu correr vestido com um pequeno manto — em cujos bolsos levava as 

três  maçãs.  Tão  logo  o  rei  deu  o  sinal  para  a  partida,  Atalanta  arremessou-se  outra  vez  para  a 

frente,  nua  e  ágil  como  uma  leoa.  Hipomene,  não  menos  empolgado,  também  lançou-se  com 

toda a vontade. O jovem parecia ser o primeiro rival à altura da veloz moça. Por alguns instantes 

esteve  emparelhado  com  Atalanta,  roçando  a  sua  pele  nos  membros  ágeis  daquela  mulher  e 

sentindo  em  seu  rosto  o  hálito  intenso  e  perfumado  da  adversária.  Tão  entusiasmante  era  esse 

combustível,  que  Hipomene  não  precisaria  sequer  das  suas  maçãs  para  chegar  no  mínimo 

empatado com ela. Atalanta, percebendo a proximidade, apertou o passo e logo deixou para trás 

o desafiante. 

Hipomene,  vendo  que  suas  forças  não  seriam  o  bastante  para  dobrar  a  rival,  decidiu 

recorrer ao artifício de Vênus. Pegou do bolso uma das maçãs douradas, esfregou-a no manto e 

lançou-a  longe,  de  tal  modo  que  o  fruto  caiu  um  pouco  adiante  dos  pés  de  Atalanta.  A  moça, 

vendo  aquele  objeto  dourado  rolar  aos  seus  pés,  parou  para  ver  o  que  era.  Ajoelhando-se, 

recolheu o fruto, admirada de seu brilho e beleza, enquanto Hipomene aproveitava sua distração 

para  ultrapassá-la.  Entretanto,  percebendo  que  o  rapaz  a  deixava  para  trás,  Atalanta  retomou  a 




corrida e num instante ganhou vantagem sobre o adversário. Hipomene, outra vez, recorreu ao 

mesmo expediente. Atalanta, apesar de já ter sido enganada uma vez, não pôde deixar de recolher 

novamente  o  belo  e  precioso  fruto.  De  posse  dele,  retomou  sua  carreira,  ultrapassando  com 

facilidade  Hipomene.  Agora  ela  já  estava  a  dez  passos  da  linha  de  chegada.  Hipomene  teve  de 

calcular bem o seu último disparo. Com extrema perícia, arremessou o último fruto dourado, que 

foi  cair  a  apenas  alguns  metros  da  linha  de  chegada.  Atalanta,  calculando  que  teria  tempo  de 

juntar a maçã e ainda chegar à frente de seu adversário, abaixou-se para juntá-lo. — É agora ou 

nunca! — esbravejou o rapaz, colocando toda a sua força num último arremesso. 

Enquanto Atalanta erguia-se, sentiu passar-lhe pelo rosto um vento veloz. Em seguida um 

grito de espanto ecoou ao seu redor. 

Hipomene  transpusera  a  linha  de  chegada  e  vencera  a  corrida!  Atalanta,  abatida,  deu-se 

finalmente por vencida. O casamento foi marcado, e embora a jovem se mostrasse decepcionada 

com  o  resultado  do  desafio,  não  estava  de  todo  desgostosa  com  as  núpcias.  Hipomene  era  um 

belo rapaz — e também inteligente, o que ela apreciava mais do que tudo em um homem. 

Os dois casaram-se e tiveram a oportunidade de disputar ainda, reservada-mente, muitas 

outras corridas, das quais ela se saía sempre vencedora. Cada vez mais se acendia o ardor entre os 

dois  amantes,  até  chegar  ao  ponto  de  fazê-los  descuidar-se  de  suas  obrigações  para  com  os 

deuses. Hipomene, num descuido imperdoável, esqueceu de agradecer a Vênus pela vitória. Irada, 

a  deusa  do  amor  decidiu  punir  marido  e  mulher,  fazendo  com  que  profanassem  o  templo  de 

Cibele, deusa da fertilidade e da terra, ao fazer ali os exercícios prescritos por Vênus. A divindade, 

encolerizada com o desrespeito, puniu imediatamente os dois amantes, transformando Hipomene 

num leão e Atalanta numa leoa e colocando-os a puxar o seu belo carro. 

AS ASAS DE ÍCARO

 

— Meter-se com reis dá nisto, Ícaro! -dizia o inventor Dédalo, desconsolado, ao seu filho, 



que o observava. 

Ambos  estavam  presos  no  labirinto  de  Creta,  encomenda  que  o  rei  Minos  fizera  ao 

próprio Dédalo para encerrar o Minotauro, flagelo da cidade. O Minotauro fora derrotado, mas 

Dédalo caiu em desgraça com o rei, pois fornecera à princesa Ariadne o fio que ela entregou a 

Teseu  e  o  qual  este  usou  para  fugir  do  labirinto  após  matar  o  Minotauro.  Minos,  que  não 

esperava que Teseu derrotasse o monstro, passou a ver Dédalo como traidor e o fez provar, junto 

com o filho Ícaro, um pouco do seu próprio remédio. 

Um  dia  os  dois  estavam a  contemplar  o azul  do céu,  sentados  em  uma colina  como  de 

hábito, quando Dédalo deu uma palmada repentina na testa: 

— Já sei, Ícaro, o que faremos! 




Sem dizer mais nada, começou a descer o rochedo, acompanhado pelo filho, que o seguia 

apressadamente. O jovem sabia que o pai era muito inventivo e que estava sempre com a cabeça 

cheia de novos projetos. Preferiu deixar que a idéia amadurecesse na cabeça do velho enquanto 

desciam. Tão logo chegaram à base da ilha, o velho mandou. 

— Vamos, pegue minhas ferramentas — disse o pai ao filho, antes de sair em busca de 

alguma coisa. 

Quando Dédalo retornou, seus braços estavam repletos de penas de aves, que ele abatera 

com a eficiência de um experiente caçador. 

— O que pretende fazer, pai, com todas estas penas? — disse Ícaro. 

Sem responder, Dédalo começou a serrar pedaços de madeira. De suas mãos começaram 

a surgir duas grandes armações, que lembravam o esqueleto de uma asa. 

— O que é isto, uma fantasia? — perguntou Ícaro, ao ver o pai colar as penas nas varas 

de madeira. 

—  Tudo se inicia pela fantasia, meu Ícaro... — disse o velho, com o ar sonhador. 

Logo Dédalo tinha nas mãos um grande e alvo par de asas. 

— Vamos, filho, me ajude a colocá-las nas costas! 

Ícaro, que naturalmente já entendera o plano, ajudou-o, empolgado pela idéia. Nem bem 

Dédalo terminara de colocar o par de asas às costas, seus pés começaram a se erguer do solo. 

— Funciona! — exclamou Ícaro, sentindo no rosto suado o vento refrescante das asas do 

pai. 


— Vamos, Ícaro, vamos construir uma para você também! 

Os  dois  passaram  o  resto  do  dia  aplicados  em  aperfeiçoar  o  mecanismo  das  asas 

artesanais. 

— Aqui está a nossa liberdade! — disse o velho, ao colar as últimas penas nas armações. 

— Mas serão sólidas o bastante para atravessarmos o oceano? — perguntou Ícaro. 

—  Claro!  —  respondeu  Dédalo  —  O  único  cuidado  que  devemos  ter  é  não  nos 

aproximarmos muito do sol, pois o calor poderia derreter a cera que prende as penas. 

No  dia  seguinte,  bem  cedo,  subiram  para  o  alto  da  torre,  cada  qual  carregando  com 

amoroso cuidado o seu par de asas. Exaustos, descansaram um pouco até que Ícaro, impaciente 

para testar o seu equipamento, ajustou as suas asas às costas. 

— Veja, pai, estou voando! — disse o rapaz, sem conter a sua euforia. Deu várias voltas 

ao  redor  da  torre,  perdendo  aos  poucos  o  medo  da  altitude;  seu  pai  também  circundou  a  ilha 

munido das asas para testar-lhes a resistência. 

— Basta de preparativos! — disse Dédalo. — Vamos embora! 




Pai e filho, juntos, colocaram os pés sobre a amurada, no ponto mais alto da torre; abaixo 

deles o mar espumava, chocando-se violentamente contra os recifes negros que pontilhavam toda 

a costa. 

— Agora! — ordenou Dédalo. 

Os dois lançaram-se ao ar, batendo os braços de maneira tão ritmada que pareciam dois 

pássaros a dividir o azul do céu com as gaivotas, que os observavam pasmadas. 

—  Não  se  esqueça  do  sol!  —  dizia  de  vez  em  quando  Dédalo,  ao  ver  que  Ícaro  se 

descuidava, subindo em demasia. No começo os dois lutaram um pouco com as correntes de ar, 

que lhes roubavam momentaneamente o equilíbrio. Às vezes, o pai buscava Apolo nos braços do 

filho, às vezes, o filho recorria ao auxílio do pai. 

Já haviam deixado há muito tempo a ilha e agora não havia outro jeito senão mover os 

músculos  com  vigor,  tentando  poupar  ao  máximo  o  fôlego.  Dédalo  ainda  estava  entregue  ao 

deslumbramento quando percebeu que seu filho havia desaparecido. 

— Ícaro, onde está você? — disse, inquieto. 

O  jovem,  muito  distante  dali,  planava  nas  alturas.  De  olhos  cerrados,  Ícaro  lançara-se 

num vôo cego, para além das nuvens. Após haver ultrapassado a linha dos grandes e acolchoados 

montes brancos, ficara pairando sobre eles, enquanto o sol arrancava um brilho intenso de suas 

asas. Sua pele refletia um tom dourado, e parecia que ele era o próprio filho do Sol. 

— Queria ficar aqui para sempre! — disse, inebriado de liberdade. 

Enquanto agitava as asas, percebeu que uma grande pena roçou-lhe o nariz. Seus olhos a 

acompanharam  rodopiando  pelo  espaço  sem  limites  até  desaparecer  misturada  ao  branco  das 

nuvens. 


Ícaro  passou  as  costas  das  mãos  sobre  a  testa  suada.  Uma  deliciosa  rajada  de  vento 

refrescou sua pele ao mesmo tempo em que percebeu que um grande tufo de penas espalhava-se 

ao  seu  redor,  como  se  um  imenso  travesseiro  tivesse  sido  rasgado  e  esvaziado  de  todo  o  seu 

conteúdo.  Grossos  fios  de  cera  derretida  escorriam  pelas  armações,  alcançando  os  seus  braços. 

Com um grito de medo, Ícaro percebeu que a estrutura das asas se desfazia. Procurou esconder-

se  sob  as  nuvens,  mas  o  sol  tornara-se  tão  intenso  que  desmanchava as  próprias  nuvens,  Ícaro 

percebeu que era o seu fim: 

— Socorro, pai! — gritou. 

Entretanto,  sua  voz  perdeu-se  no  vácuo.  Seu  pai,  longe  dali,  estava  impotente  para  lhe 

prestar  qualquer  auxílio.  Desistindo,  afinal,  de  tentar  recuperar  altura,  Ícaro  abandonou-se  ao 

destino, indo cair nas águas revoltas do oceano. 

Enquanto isto, Dédalo vasculhava os céus. 




— Ícaro, meu filho, responda! — clamava inutilmente. 

Durante  muito  tempo  o  velho  vagou,  fugindo  sempre  ao  calor  do  sol,  até  que  avistou 

sobre as ondas algumas penas. Sobrevoando mais um pouco o local. Dédalo acabou por avistar o 

corpo  do  filho  jogado  às  margens  de  uma  das  praias.  Depois  de  tomá-lo  nos  braços,  ficou  um 

longo  tempo  abraçado  a  ele.  Com  o  coração  despedaçado,  como  as  asas  de  Ícaro,  Dédalo  o 

enterrou no mesmo local, que passou a se chamar Icária, em sua homenagem. 

A QUEDA DE FAETONTE

 

Faetonte era o jovem filho do Sol e tinha, como todo adolescente, o gênio inquieto. Um 



dia, numa acirrada disputa que mantivera com um amigo — Epafo, filho de Júpiter -, garantiu a 

ele que era capaz de dirigir o veículo do pai. 

— Impossível! — disse Epafo, com ar de zombaria. — Todo mundo sabe que o carro do 

Sol só pode ser guiado pelo próprio Sol! Além do mais, dizem que nem filho dele você é... ! 

Faetonte, chocado com a revelação, resolveu ir confirmar com sua mãe, a ninfa Climene. 

— Mãe, Epafo disse que eu não sou filho do Sol — exclamou Faetonte, com as narinas 

dilatadas de indignação. 

— Não dê ouvido às conversas dele, meu filho — disse Climene. — É claro que você é 

filho do Sol. Basta olhar para os seus cabelos dourados e sua pele bronzeada. 

— Então quero uma prova — disse o jovem, intransigente. 

— Que prova, seu bobo? — exclamou a ninfa, perdendo a paciência. 

—  Quero dirigir sozinho o carro do Sol! — disse Faetonte. 

De  nada  adiantou  a  sua  mãe  dizer  que  isso  era  pura  loucura;  o  rapaz  tanto  insistiu  que 

Climene  deixou  que  ele  fosse  procurar  o  pai,  cuja  residência  ficava  no  ponto  mais  extremo  do 

Oriente. Depois de vários dias de viagem, Faetonte chegou, afinal. 

O palácio de Febo — como também é conhecido o Sol — era todo dourado, desde os 

alicerces até a mais alta cúpula. No interior, as escadarias de mármore despediam reflexos de um 

dourado  intenso,  de  tal  modo  que  não  se  sabia  se  eram  as  escadarias  que  refletiam  o  ouro  das 

paredes ou as paredes que refletiam o ouro das escadarias. 

—    Faetonte,  meu  filho,  o  que  está  fazendo  aqui?  —  disse  o  velho  Sol,  surpreso  com 

aquela visita. 

—    Pai, antes  de  mais  nada  quero  saber  se  sou  mesmo  seu  filho  —  foi  logo  dizendo  o 

inquieto rapaz. 

—  É  lógico  que  é!  —  disse  o  Sol,  passando  a  enorme  mão  na  cabeça  do  filho, 

despenteando-o distraidamente. 

— Então prove, atendendo ao pedido que vou lhe fazer! 




Febo reclinou-se em seu trono, dando um suspiro. Era encrenca, na certa. 

—  Que pedido, meu rapaz, que pedido? 

—  Primeiro prometa que irá aceitar, qualquer que ele seja. 

—  Está bem, eu prometo, eu prometo. 

— Pois bem, eu quero dirigir o carro do Sol amanhã, bem cedinho. 

— Dirigir o quê?! — disse Febo, começando a prestar atenção ao que o filho dizia. 

— É isso, quero tomar as rédeas do seu carro. 

Febo  alarmou-se  com  o  pedido;  não  pensara  que  a  audácia  do  filho  chegaria  a  tanto. 

Qualquer  um  sabia  da  dificuldade  tremenda  —  e,  sobretudo,  da  responsabilidade  —  que  era 

dirigir o carro do Sol, conduzido pelos quatro cavalos selvagens e incandescentes que expeliam 

labaredas de fogo pelas ventas, arrastando a luz e o dia por toda a Terra. 

—  Meu  filho,  sinto  muito,  mas  não  posso  permitir  —  disse  Febo,  tentando  encerrar  a 

discussão. 

— Você disse qualquer coisa! — exclamou Faetonte, vermelho de desapontamento. 

— Mas eu não podia imaginar que você iria me pedir um absurdo desses! -disse Febo, na 

defensiva. 

— Não quero saber, promessa é promessa; amanhã vou dirigir o carro do Sol de qualquer 

maneira — disse o jovem, irredutível. 

O  velho  deus  ergueu-se  de  seu  trono  e  foi  dar  uma  volta  pelo  salão.  A  aurora  já  se 

anunciava e ele logo teria de partir em seu longo curso. 

— Está bem, amanhã você irá comigo — disse o deus. 

—  Sozinho,  pai,  eu  quero  ir  sozinho!  —  disse  o  rapaz.  Depois,  voltando  os  olhos  para 

fora da janela do palácio, percebeu que o dia estava prestes a romper: 

—  Pai,  não é  a  Aurora  quem  vai  indo  ali adiante?  —  Sim,  era ela  que, com  suas  vestes 

rosadas, lançava-se aos céus, anunciando o novo dia. 

— Deixe-me ir hoje mesmo, pai! Por que esperar até amanhã? 

— Para refletir um pouco melhor, apenas isto — disse Febo. 

Mas  o  rapaz  não  queria  saber  de  mais  conversas.  De  um  pulo  desceu  as  escadarias 

douradas até chegar diante das portas onde estava guardado o carro. Uma das Horas aproximou-

se, nervosa, do deus solar. 

— Febo poderoso, já é hora de atrelarmos os corcéis de fogo ao carro. Veja, a Aurora já 

está indo, e é preciso que seu carro flamejante siga logo atrás! -disse. 




Imediatamente  os  cocheiros  correram  à  gigantesca  cavalariça,  de  cujo  interior  podia-se 

escutar os relinchos e o escoicear impaciente dos cavalos, que pareciam adivinhar que a hora da 

saída já passara. 

— Ligeiro, tragam os cavalos! — berrou Febo. Faetonte, eufórico, correu até a cavalariça. 

— Para trás, rapaz, cuidado! — disse um dos cocheiros, que escancarara a imensa porta. 

Um  dos  cavalos  arremessou-se  para  fora  da  estrebaria,  preso  apenas  por  um  laço, 

enquanto o cocheiro forcejava para mantê-lo sob seu domínio. Os olhos do cavalo disparavam 

chispas, enquanto sua boca emitia um relincho ensurdecedor. De suas ventas largas saíam jatos de 

fogo que teriam reduzido Faetonte a pó, se um dos serviçais não o tivesse afastado dali com sua 

mão potente. 

—    Suba  ao  carro,  enquanto  atrelamos  os  cavalos  —  disse  o  cocheiro  ao  rapaz,  com 

evidente má vontade, sem parecer ligar a mínima para o fato dele ser o filho do deus Sol. 

Outros  três  cavalos,  do  mesmo  porte  e  fúria,  saíram  das  cavalariças  com  o  mesmo 

destino.  Faetonte,  obedecendo  às  instruções  dos  gigantes,  já  fora  postar-se  adiante  do  carro  do 

Sol. Nada podia ser mais imponente do que aquela fabulosa máquina, que se assemelhava a uma 

enorme carruagem: o eixo, o timão e as rodas eram feitos do mais puro ouro, enquanto os raios 

das rodas eram todos prateados. Num salto ágil, Faetonte subiu para dentro do carro. 

— Meu filho, já que você insiste nesta aventura louca, deixe que eu dê alguns conselhos! 

— disse Febo ao filho, que fingia escutar, enquanto observava os cocheiros atrelarem os quatro 

monstruosos cavalos alados, cujas asas moviam-se inquietas como grandes línguas de fogo. 

— Não podemos esperar mais! — disse uma das Horas, exasperada. 

No mesmo instante, os criados afastaram-se, enquanto o deus insistia com o filho: 

— Não esqueça, Faetonte, jamais largue as rédeas ou as deixe afrouxar! 

Os gigantescos portões do dia foram abertos. Uma intensa luz rósea iluminava o caminho 

que Faetonte deveria seguir. Os cavalos, mastigando os freios, pareciam clamar por liberdade nos 

seus movimentos, estranhando aquela mão vacilante que ora encurtava, ora afrouxava as rédeas. 

Por fim, uma grande chicotada no lombo dos quatro cavalos, e o carro partiu, finalmente, com 

um estrondo que abalou as estruturas do palácio do Sol. 

O primeiro terço da jornada era aquele que exigia mais esforço dos animais, pois era uma 

subida  íngreme;  nesse  trecho  os  cavalos  deveriam  erguer  o  carro  até  o  ponto  mais  alto  e  ali 

procurar  mantê-lo  firme,  sem  se  aproximar  demais  da  Terra  nem  do  Céu  —  a  fim  de  não 

incendiar a morada dos homens ou a morada dos deuses —, para depois fazê-lo despencar-se nos 

abismos, na última quadra do dia. 



Faetonte, percebendo que os cavalos tinham força bastante nas pernas, de início não teve 

muito trabalho para controlar o carro. O ar matinal ainda estava fresco e o orvalho caído durante 

a  noite  passava  por  sua  pele  e  voltava  à  atmosfera  como  uma  brisa  úmida  e  refrescante.  No 

entanto, antes de aderir às suas roupas, o orvalho já secava, devido ao calor tremendo produzido 

pelo carro. 

Por  alguns  instantes,  Faetonte  sentiu-se  senhor  do  mundo.  Terras,  povos  e  nações 

desfilavam abaixo de seus pés, recebendo as benesses dos raios que seu carro emitia. Os cavalos, 

entretanto, pareciam decididamente indóceis com seu novo condutor. Relinchando e sacudindo 

as  longas  crinas  flamejantes,  faziam  com  que  o  celestial  veículo  sacolejasse  perigosamente. 

Faetonte,  que  não  estava  acostumado  com  as  bruscas  inclinações,  chegou  a  perder  o  equilíbrio 

numa  das  primeiras  curvas,  quase  despencando  do  carro,  agarrando-se  à  última  hora  num  dos 

eixos. 


— Eia! — gritava o inexperiente condutor. 

Os  joelhos  de  Faetonte  começavam  a  bater  um  contra  o  outro,  e  um  frio  na  boca  do 

estômago produzia uma secura desagradável em sua boca. A coisa parecia ser mais difícil do que 

ele a princípio imaginara. Chegando ao topo, Faetonte perdia mais e mais o governo das rédeas. 

Os cavalos, sentindo-as progressivamente mais frouxas, desciam cada vez mais. Grandes nuvens, 

que  deveriam  ficar  sempre  abaixo  das  rodas  do  carro,  agora  se  esfarelavam  de  encontro  ao 

veículo, evaporando-se em frações de segundos. 

—  Esperem,  não  desçam  demais!  —  disse  Faetonte,  impotente  para  conter  a  ânsia  dos 

quatro cavalos. 

Faetonte  sentiu  renovar-se  o  frio  na  boca  do  estômago  quando  o  carro,  num  brusco 

movimento,  mergulhou  em  direção  à  Terra,  feito  um  meteoro.  Colocando  toda  a  força  nos 

braços, o jovem conseguiu evitar que o carro se espatifasse no solo. O veículo desgovernado, no 

entanto, prosseguia em sua rota em direção ao final do dia, numa linha horizontal, passando rente 

à Terra. 

Num relance, o jovem viu as cúpulas das torres e  templos mais altos arderem, como se 

fossem tochas que o Sol viesse acendendo uma a uma, durante a sua passagem. 

— Meu Deus, meu pai vai me matar! — esbravejava Faetonte, tentando fazer com que os 

cavalos erguessem o carro para o alto outra vez. 

Ao  passar  pelas  coberturas  de  neve  das  montanhas  geladas,  o  calor  do  carro  fazia  com 

que  elas  se  desprendessem,  sob  a  forma  de  rios.  O  calor  era  tamanho  que,  antes  mesmo  de 

alcançarem  o  solo,  estas  geleiras  derretidas  eram  sugadas  para  o  céu  sob  a  forma  de  um  vapor 

colossal. 




Declinando  ainda  mais  em  sua  altura,  o  carro  passava  quase  rente  ao  chão.  Cidades 

inteiras ardiam diante dos olhos do assustado Faetonte: o simples bafo dos cavalos e o calor que 

o carro emitia eram o bastante para incendiar tudo. Florestas inteiras ardiam também à passagem 

da carruagem escaldante. Pessoas saíam para fora de suas casas ao perceber que havia um brilho e 

um calor extraordinários no ar, para em seguida morrerem queimadas. Suas peles derretiam como 

cera, deixando a nu as suas caveiras brancas, que em seguida se tornavam negras até desfazerem-

se num pó escuro que o vento impetuoso da passagem do carro espalhava pelo ar.  

Abandonando  as  cidades,  o  carro  investia  agora  sobre  os  mares,  levantando  massas 

espantosas  de  vapor,  que  passavam  pelo  corpo  de  Faetonte  como  uma  chuva  invertida  e 

escaldante. O mar secava inteiramente, deixando à mostra, nas profundezas finalmente reveladas 

ao  olho  humano,  uma  quantidade  incalculável  de  peixes  que  se  debatiam,  agonizantes,  até  que 

uma  faísca  mais  intensa  incendiava-os  todos,  até  não  restar  mais  nada  além  das  cinzas  dos 

cardumes mortos. 

A  pele  de  Faetonte,  a  esta  altura,  já  estava  toda  esfolada;  seu  rosto  era  uma  máscara 

vermelha,  e  suas  mãos  cobertas  de  bolhas  não  podiam  mais  segurar  as  rédeas,  que  ardiam 

intoleravelmente em  suas  mãos.  Netuno,  ao  perceber  a  devastação  que  ocorria  nos  oceanos  — 

seu domínio —, resolveu subir até o Olimpo para pedir socorro a Júpiter. 

— Meu irmão, que calamidade é esta que assola a Terra e os mares? — disse o deus dos 

mares, tomado pela aflição. — Faça algo ou a Terra inteira perecerá! 

Febo foi chamado às pressas para saber o que estava acontecendo. 

—  O  que  está  fazendo  aí,  em  vez  de  estar  comandando  o  seu  carro?  —  perguntou-lhe 

Júpiter. 

Em breves palavras vexadas, o deus do Sol explicou que sua fraqueza fora a causadora de 

toda a catástrofe. 

—  Não há mais tempo a perder, derrube-o de lá, de qualquer jeito! -esbravejou Netuno, 

ao  perceber  que  o  carro  incendiário  aproximava-se  perigosamente  de  um  menino  que  brincava 

sozinho no campo. — Impeça, ao menos, mais esta tragédia! 

Júpiter  sacou  de  um  de  seus  terríveis  raios  e  lançou-o  sem  pestanejar  na  direção  do 

condutor  do  carro.  Faetonte,  que  também  percebera  o  menino,  tentava  conter  as  rédeas  num 

último esforço, inclinando para trás o seu torso, rubro das queimaduras. Seu próprio corpo ardia, 

prestes  a  incendiar-se  numa  tocha  humana.  O  jovem  não  teve  tempo  para  ver  que  o  raio 

despedido por Júpiter rumava certeiro em sua direção. Numa fração de segundos o raio explodiu 

no local exato onde ele estava, atirando-o para fora do carro. Os cavalos, assustados, ergueram as 

cabeças,  lançando  seus  corpos  de  fogo  para  o  alto,  impedindo  que  o  garotinho  morresse 




queimado. Diante dos olhos do pequeno garoto, o corpo de Faetonte passou como um cintilante 

meteoro,  indo  mergulhar ao  longe,  no  rio Erídano.  Já  sem  vida,  foi  recolhido  pelas  ninfas,  que 

erigiram no local um túmulo, em homenagem à sua audácia. 

DEUCALIÃO E PIRRA

 

A  humanidade  conheceu  várias  épocas,  desde  a  sua  criação  —  épocas  que  a  história 



batizou  de  Idades.  Na  primeira  delas,  a  Idade  do  Ouro,  todos  eram  felizes.  Apesar  do  nome, 

ninguém,  então,  pensava  em  ouro.  A  velhice  não  existia,  tampouco  as  doenças.  Reinava  uma 

primavera  permanente,  os  alimentos  brotavam  da  terra  por  si  sós,  e  a  inocência  imperava  por 

tudo. 


Depois dessa idade feliz seguiu-se a Idade da Prata, na qual a eterna primavera deu lugar às 

quatro estações e a terra passou a ter de ser cultivada para oferecer os seus frutos. A decadência 

prosseguiu  com  a  Idade  do  Cobre,  na  qual  começaram  as  disputas  entre  os  homens,  até  que  se 

chegou, finalmente, à Idade do Ferro, quando o crime fez a sua entrada triunfal entre os mortais. A 

paz  abandonou  definitivamente  a  Terra,  que  ficou  entregue  à  cobiça  dos  homens.  As  coisas 

estavam  nesse  estado  quando  Júpiter,  deus  dos  deuses,  observando  o  caos  que  se  instalara, 

decidiu pôr um fim nele. Enfurecido, chamou um dia à corte o seu irmão Netuno. 

—  Meu  irmão,  creio  que  é  chegada  a  hora  de  castigarmos  estes  mortais  insanos,  que 

transformaram o paraíso terrestre num horrível lugar de dor. 

— Estou de acordo, meu poderoso irmão — respondeu Netuno. — O que você sugere? 

Júpiter ordenou ao irmão que fendesse a terra com um golpe de seu poderoso tridente. 

Dali se abririam as comportas das águas dos mares, que, uma vez liberadas, inundariam o mundo 

todo. 

Netuno,  retirando-se,  foi  fazer  exatamente  o  que  Júpiter  lhe  dissera.  Chegou  a  um  vale 



seco  e  pedregoso  e  empunhou  o  tridente,  erguendo-o  para  o  alto.  Em  seguida,  o  fez  descer  à 

terra  com  tamanha  força  que  o  enterrou  quase  inteiro  no  solo.  Uma  rachadura  começou  a  se 

espalhar do ponto onde se abatera o golpe, espraiando-se para todos os lados, como se fossem as 

raízes de uma árvore invisível. Daquelas imensas fissuras começou a brotar a água submersa, que 

corria por debaixo da terra em imensos e borbulhantes veios. 

Netuno  foi  por  todas  as  partes  golpeando  o  solo,  até  que  em  menos  de  um  dia  a  terra 

começou a desaparecer, engolida pela água. 

Diante  dos  olhos  deliciados  de  Júpiter  —  que  a  tudo  observava  do  alto  -desfilaram 

envoltos  em  ondas  de  incrível  ferocidade  gafanhotos,  moscas,  ratos,  esquilos,  zebras,  leões, 

elefantes,  casas,  templos  e  palácios.  Em  meio  a  tudo  isso,  passavam  homens,  agarrados  em 

qualquer  coisa  que  sobrenadasse  na  violência  das  águas.  A  maioria  das  pessoas,  no  entanto, 



passavam  já  mortas.  As  aves,  não  encontrando  mais  nenhum  lugar  seco  onde  repousar, 

deixavam-se cair às águas, renunciando à luta pela vida. 

No  entanto,  Júpiter  resolveu  poupar  da  destruição  um  homem  e  sua  esposa,  que 

considerava os únicos justos sobre a face da Terra. Deucalião e Pirra eram seu nomes. Ao verem 

que  tudo  naufragava  sob  as  ondas  impetuosas,  Deucalião  abraçou-se  à  esposa,  e  foram  ambos 

refugiar-se num velho barquinho. As águas rapidamente cobriram tudo, enquanto suspendiam a 

frágil embarcação até o topo do monte Parnaso, o último lugar seco da Terra. 

Netuno,  vendo  sua  tarefa  cumprida,  chamou  logo  os  seus  tritões,  semideuses  marinhos 

metade homens, metade peixes. 

— Vão, agora, e devolvam tudo à normalidade — disse, com autoridade. 

Um  exército  de  tritões  partiu,  espalhando-se  pela  Terra.  Surgindo  de  vários  pontos  das 

águas, fizeram soar as imensas conchas marinhas, o que milagrosamente fez as águas recuarem de 

volta aos leitos dos rios e dos oceanos. Rapidamente as águas foram baixando, deixando à mostra 

outra  vez  as  árvores,  as  casas,  os  templos,  os  palácios  e  uma  multidão  de  homens  e  animais 

mortos. Parecia que era a própria Terra que ressurgia de dentro das águas, toda lavada e pronta 

para ser novamente ocupada. 

O  único  casal  de  sobreviventes  vagou,  assim,  pela  Terra,  revendo  antigos  lugares  que 

antes  fervilhavam  de  pessoas,  mas  que  agora  eram  habitados  somente  pelo  silêncio.  De  mãos 

dadas  penetraram  num  grande  teatro,  onde  dias  antes  uma  multidão  alegre  rira  das  piadas  e 

gracejos de uma velha comédia, pouco antes de morrer afogada. No centro do palco, Deucalião 

enxergou o cadáver de um dos atores, que ainda tinha presa ao rosto uma máscara, toda dobrada 

e  enferrujada.  Curioso,  retirou  o  dourado  e  sorridente  adereço,  mas  por  detrás  da  máscara  só 

havia agora uma caveira pálida, que sorria, a seu modo, o grande e compulsório sorriso da Morte. 

Pirra virou o rosto para o lado, com um ar compungido. 

— Vamos, Deucalião. Aqui só há desolação e morte! 

Viram também templos desertos, onde as estátuas dos deuses que não haviam tombado 

ainda permaneciam em pé, em poses e gestos tão vividos que pareciam prestes a descer de seus 

nichos  para  ocupar  o  lugar  dos  vivos.  Passaram  por  ruas  desertas.  Entraram  e  saíram  de  casas 

vazias. Percorreram cidades inteiramente abandonadas. Tudo estava ocupado pela morte. 

— Ninguém sobreviveu à cólera de Júpiter, a não ser nós! — disse Deucalião à esposa. 

— Oh! — gemia a mulher. — Que faremos vivos, num mundo de mortos? 

—  Procuremos  nos  consolar,  minha  querida  Pirra!  —  exclamou  Deucalião,  que 

intimamente estava grato a Júpiter por haver poupado de sua ira a esposa, o seu único consolo e 

razão de viver. 




Ela, de braços cruzados ao peito, chorava em silêncio. 

—  Deucalião,  devemos  procurar  o  templo  de  Têmis  e  lá  implorarmos  piedade  —  disse 

Pirra, tornando-se outra vez resoluta. 

De  comum  acordo  seguiram  até  chegar  ao  templo  da  deusa  da  Justiça.  Do  teto  pendia 

ainda  um  musgo  lamacento,  que  o  vento  fazia  dançar  sobre  as  colunas,  enquanto  dos  capitéis 

desciam finas cordas de água. Sobre os altares, os vasos estavam vazios, e não havia fogo algum a 

brilhar. Deucalião e Pirra, comovidos, lançaram-se aos pés da estátua da deusa: 

-Poderosa  Têmis,  que  nos  observa,  com  clemência,  do  alto!  —  disse  Pirra.  —  Não 

queremos  habitar  um  mundo  sem  vida!  Como  faremos  para  repovoá-lo,  se  já  não  temos  mais 

forças nem idade para isso? 

Uma voz suave saiu da boca cerrada da estátua: 

— Meus amados, se quiserem ver de novo a terra povoada, façam exatamente como vou 

lhes dizer. Após cumprirem meus ritos, quero que saiam do templo — disse a deusa. — Depois, 

cubram  seus  rostos,  alarguem  seus  cintos  e  atirem  para  trás  de  si  os  ossos  de  sua  avó!  — 

completou, de modo enigmático. 

Pirra, não entendendo o que a deusa desejava, começou a chorar. 

— Ó deusa, como farei tal coisa? — exclamou. — E mesmo que reencontre os ossos de 

minha avó, como poderia cometer tamanha blasfêmia? 

Deucalião, no entanto, tomando o rosto de Pirra nas mãos, a acalmou: 

—  Calma,  querida!  Acho  que  compreendi  o  sentido  das  palavras  da  deusa!  É  muito 

simples — esclareceu Deucalião. — A deusa está se referindo não aos ossos da sua avó, mas à 

Terra, nossa avó comum! Ora, os ossos de nossa avó não são senão as pedras da Terra! 

Eufóricos,  os  dois  velaram  os  rostos  e  saíram  do templo.  Juntaram  todas  as  pedras  que 

puderam encontrar, e Deucalião lançou atrás de si a primeira. Tão logo ela caiu, eles escutaram o 

ruído da pedra se esfarelando e algo surgindo às suas costas. 

Era um homem! 

Sim, um homem que surgira dos restos da pedra. 

Pirra,  extasiada,  velou  também  o  rosto  e  lançou  para  trás  uma  pedra,  e  surgiu  dali  uma 

linda mulher. E assim foram ambos jogando pedras para trás. Daquelas lançadas por Deucalião 

surgiam homens, e das que Pirra lançava surgiam mulheres, os novos habitantes da Terra. 

O RAPTO DE GANIMEDES

 

Júpiter tinha como animal de estimação uma linda águia. Esta ave, branca e imensa, era a 



mesma que levara ao deus dos deuses o néctar, durante sua perigosa infância, na ilha de Creta, 

quando vivia escondido do pai, Saturno, que comia os próprios filhos. Júpiter, agora adulto e na 




condição suprema de deus dos deuses, casara-se com Juno e dela tivera uma filha chamada Hebe. 

Ela estava encarregada de servir o néctar aos deuses, durante os seus ociosos e felizes encontros. 

Hebe,  considerada  a  encarnação  da  juventude,  parecia  não  se  incomodar  com  a 

humilhante tarefa, e era sempre sorrindo que derramava nas taças dos deuses o néctar que trazia 

em sua jarra. Mas um dia, Hebe, um tanto descuidada, resvalou em pleno salão do Olimpo e caiu 

com a jarra. Seu pai, Júpiter, desgostou-se com o lamentável desempenho e demitiu-a no ato. A 

partir  daquele  instante,  a corte  celestial  não  tinha mais  quem  servisse  os  deuses,  problema  que, 

num lugar onde os problemas eram poucos, revestia-se de relevante importância. 

— Júpiter, querido — disse um dia Juno ao seu esposo. — Se você não quer mais que 

nossa desastrada filha reassuma suas antigas funções, trate de arrumar alguém para tomar o seu 

lugar. 

— Você poderia exercê-las perfeitamente, querida Juno — disse Júpiter. 

Juno  nem  se  deu  ao  trabalho  de  responder,  simplesmente  deu-lhe  as  costas,  seguida  de 

seu  pavão  de  estimação,  que  parecia  também  ofendido.  Júpiter,  reclinando-se  em  seu  trono, 

pensou um pouco. Depois, levantando-se, foi até a janela espiar a Terra, sua distração principal. 

Observar  os  mortais  era  também  um  bom  calmante,  pois,  ao  ver  as  loucuras  e  confusões  nas 

quais eles viviam metidos, as apreensões do grande deus diminuíam. 

No exato instante em que Júpiter deitou para baixo o seu olhar, ele caiu sobre um belo 

rapaz  que  passeava  em  meio  a  várias  ovelhas,  por  um  prado  ameno  e  recoberto  de  flores.  Era 

Ganimedes,  filho  do  rei  de  Tróada.  Apesar  de  sua  alta  condição,  era  pastor,  e  neste  instante 

guiava o seu rebanho. O jovem trazia à cabeça um barrete frígio, tendo jogado displicentemente 

às costas um pequeno manto. Sua compleição física destacava-se em meio à brancura das ovelhas, 

o que logo atraiu Júpiter. 

— Ora, vejam... Este belo rapaz daria aqui um ótimo serviçal! — disse o deus dos deuses, 

alisando as barbas. 

Assim, sem pensar em mais nada, o rei dos deuses decidiu simplesmente raptá-lo, levando 

o jovem para morar no Olimpo com os deuses. Num instante, Júpiter fez um sinal para sua águia, 

que estava sempre por perto. 

— Minha querida — disse Júpiter à ave -, desça já à Terra e traga-me aquele belo rapaz! 

A ave estendeu suas imensas asas e arremessou-se ao abismo, como uma flecha recoberta 

de penas. 

Enquanto isto, Ganimedes, alheio a tudo, continuava a pastorear o seu rebanho. Como o 

sol estivesse um tanto forte, o rapaz decidiu sentar-se um pouco sobre uma pedra, à sombra de 

uma grande árvore. Puxou uma flauta rústica para distrair-se e acalmar as ovelhas. Mas por entre 




as  nuvens  já  pairava  a  imensa  águia,  atenta.  Do  alto  observava  o  alvo  rebanho,  como  outra 

nuvem  que  estivesse  pousada  ao  chão.  Quando  percebeu  que  o  inocente  jovem  estava 

inteiramente  entregue  à  sua  distração,  destacou-se  das  nuvens  e  arremeteu  com  suas  grandes 

garras expostas. 

Ganimedes, erguendo um pouco o olhar, percebeu que uma grande sombra ocultava por 

instantes  a  luz  do  sol.  Antes  que  entendesse  direito  o  que  era  aquilo,  sentiu  em  seus  ombros  a 

pressão dolorida das garras da águia. O jovem não teve tempo de ver o que o feria. Sentiu apenas 

que se elevava cada vez mais pelos ares, enquanto observava, atônito, as suas ovelhas diminuírem 

lá embaixo, até se tornarem somente um pontinho branco no imenso tapete verde do campo. 

O  vento  frio  arrebatara  o  seu  manto  ao  mesmo  tempo  em  que  deixava  em  selvagem 

desalinho a sua cabeleira revolta. Mas à medida que subia, o calor do sol esquentava Ganimedes. 

Quando ficava quente demais, a ave agitava com mais força as suas asas, para aliviá-lo do calor. 

— O que quer de mim? — gritava o jovem à sua raptora. 

A  águia,  entretanto,  permanecia  em  majestoso  silêncio,  ascendendo  cada  vez  mais  com 

sua presa para além das nuvens. Assim foram subindo, até que Ganimedes, por entre as brumas 

das  regiões  superiores,  viu  surgir  afinal  o  palácio  majestoso  de  Júpiter.  Em  instantes  o  jovem, 

mudo de espanto, foi depositado diante do trono do pai dos deuses. 

— Meu caro jovem! — disse Júpiter, com um ar de boas-vindas. — Saiba que a partir de 

hoje você passará a fazer parte de minha corte celestial. 

A esposa de Júpiter, que também aguardava o jovem, mostrava-se bastante surpreendida 

com sua beleza, admitindo que seu marido fizera uma bela escolha. 

— O que querem de mim? — exclamou Ganimedes, que não sabia se ficava alegre diante 

dessa notícia ou se a lamentava. 

Vênus, a bela deusa do amor, que também estava por ali, adiantou-se: 

— Permita, Júpiter, que eu converse um pouco com ele — disse, entusiasmada. — Estou 

certa de que nos entenderemos às mil maravilhas. 

Júpiter  assentiu,  enquanto  Vênus,  envolvendo  com  seu  braço  a  cintura  do  jovem, 

conduziu-o  até  um  recanto  afastado  nos  jardins  perfumados  do  Olimpo.  Ganimedes,  apesar  de 

assustado com tudo, ficou fascinado com a beleza daquela deusa, que o tomava, assim, em seus 

braços, com a intimidade de uma velha amiga. 

—  Você  teve  a  honra  de  ser  escolhido  dentre  os  mortais  para  ser  o  novo  servidor  de 

Júpiter e de todos os deuses — disse-lhe Vênus, fazendo uma pausa na caminhada, com os olhos 

fitos em Ganimedes. 

O jovem podia sentir o calor da pele da deusa envolvê-lo como uma veste imaginária. 




— A partir de agora você será um de nós, tendo também o dom divino da imortalidade. 

Agora, meu querido, vamos tratar destas pequenas feridas, caso contrário você não poderá vestir 

tão cedo o seu novo e elegante traje — completou a deusa. 

Vênus  levou,  então,  o  seu  hóspede  para  um  dos  aposentos  do  palácio  de  Júpiter,  onde 

soube consolá-lo, de maneira bastante eficiente, das suas saudades terrenas. 

Enquanto isso, Júpiter, percebendo que o pai do jovem raptado ficara inconsolável com a 

perda  do  filho,  decidiu  recompensá-lo.  Já  era  noite  estrelada  quando  o  mensageiro  de  Júpiter 

apresentou-se diante do infeliz rei e da sua esposa. Ambos mostravam-se inconformados com a 

perda do filho. 

— Rei poderoso! — disse-lhe Mercúrio, num tom solene. — Venho aqui, em nome de 

Júpiter, para lhe comunicar que seu filho é agora um deus. 

— Ganimedes imortal...! — exclamou o pobre rei, sem saber o que dizer. Sua esposa, que 

preferia seu filho humano, mas ao seu lado, perguntou, aflita: 

— Mas nunca mais veremos nosso amado Ganimedes? 

— Não, nunca mais — respondeu Mercúrio -, a não ser no céu, onde poderão enxergá-lo 

em noites claras como esta, sob a forma do zodíaco de Aquário. Em compensação, Júpiter lhes 

manda estes dois magníficos presentes, que acalmarão em seus corações a aflição provocada por 

essa dolorosa perda. 

Mercúrio,  com  ar  triunfal,  descobriu,  então,  diante  dos  olhos  do  velho  casal,  um 

magnífico cepo de ouro, que esplendeu majestosamente na escuridão da noite. Depois fez surgir 

uma maravilhosa parelha de cavalos que, lançando-se pelo prado, pôs-se a correr ao redor deles, 

numa cavalgada mais veloz do que a do próprio vento. 

O rei e a rainha, no entanto, não viram nenhuma dessas maravilhas: abraçados, tinham os 

olhos postos no céu, à procura do filho. 

O CASTIGO DE ERESICTÃO

 

Qualquer  mortal  sensato  sabia  que  o  respeito  era  a  principal  oferenda  que  se  devia  a 



Ceres, a deusa da fertilidade. Sem os favores dessa importantíssima divindade, qualquer criatura 

estava  ao  desamparo.  Tudo  ao  seu  redor  virava  secura  e  desolação,  até  que  o  desgraçado  se 

decidisse a também venerar a exigente deusa. Além do mais, não havia razão alguma para que se 

faltasse com este dever, pois ela era, dentro do panteão das divindades, uma das mais simpáticas e 

dignas. Havia muitos bosques consagrados a Ceres, e é num deles que esta história começa. 

Era geralmente durante as primeiras horas do dia que os devotos de Ceres vinham fazer 

as  suas  oferendas,  para  agradecer  a  boa  colheita  ou  para  pedir  que  a  próxima  fosse  mais 

abundante.  Ao  centro  da  floresta  postavam-se  os  fiéis.  Modestos  camponeses,  homens  e 




mulheres, trazendo pequenos cestos com uma ou duas frutas, apenas, forrados com flores que as 

crianças colheram no próprio bosque, para tornar sua oferta um pouco mais caprichada. Outros, 

ainda,  ofereciam  a  Ceres  apenas  simulacros  de  ofertas:  no  lugar  de  pães,  pequenos  arranjos 

redondos de terra, recobertos com uma leve mão de farinha. Oficiando o culto, costumava ficar a 

sacerdotisa de Ceres, envolta em seu manto e segurando um feixe de espigas. A deusa, em algum 

lugar, a tudo observava. 

De repente, porém, ouviu-se, vindo de fora do bosque, um rumor de vozes masculinas, 

nas  quais  gritos  entremeavam-se  a  cantos.  Não  eram,  contudo,  cantos  sacrificiais.  O  ruído  do 

vozerio  aumentou  a  ponto  de  a  sacerdotisa  ver-se  obrigada  a  interromper  o  culto.  Logo  surgiu 

por entre as árvores um grupo de homens que tem o ar descontraído e folgazão. Eles portavam 

grandes  machados  sobre  os  ombros  e  olham  divertidamente,  cutucando-se  uns  aos  outros,  ao 

perceber o que se passa. 

— Vai demorar muito aí, dona sacerdotisa? — perguntou um deles, com o grande dente 

de ferro do seu machado faiscando no ar e com um olhar de impaciência. 

—  O  tempo  suficiente  para  que  o  silêncio  se  restabeleça  e  possamos  recomeçar  nosso 

culto — respondeu a sacerdotisa, calmamente, dando-lhe as costas. 

Um homem gordo e imenso — que parecia ser, de fato, o líder do grupo — afastou com 

uma das mãos o lenhador, como quem afasta um galho do rosto. Depois, adiantando-se, tomou a 

palavra: 

—  A senhora pode prosseguir com sua ladainha, que nós cumpriremos a nossa tarefa, a 

nosso modo — disse. — Adiante, vamos colocar abaixo estas árvores! 

Esse  homem  rotundo  era  Eresictão,  homem  rico  e  poderoso.  Ele  estava  decidido  a 

construir um novo palácio para si com a madeira de toda a floresta. 

—    O  que  pensa  que  está  fazendo?  —  gritou,  indignada,  a  sacerdotisa.  Mas  sua  voz 

humana já não era o bastante para se sobrepor ao ruído dos machados, que estalam com vigor 

sobre os troncos das árvores. 

Ceres,  que  tudo  vira,  decidiu  ela  própria  tomar  a  palavra,  falando  pela  boca  de  sua 

sacerdotisa. 

— Fora, invasores! — gritou a deusa, cuja voz vibrante silenciava todos os machados. — 

Como ousam destruir este bosque, consagrado exclusivamente a mim? 

—  Preciso destas árvores, dona — disse Eresictão. 

— Ninguém tocará nestas árvores, sob pena de terrível castigo — advertiu Ceres. 

—  Dona,  não  fique  nervosa.  Há  milhares  de  bosques  espalhados  por  toda  esta  região. 

Escolha outro e deixe-nos trabalhar em paz. 




— Você insiste em me desafiar? — disse a deusa, encolerizando-se. 

O homem, ao perceber que Ceres avançava para si, empunhou com vigor o machado. 

— Para trás, mulher, ou a farei em pedaços! 

Ceres, então, resolveu aparecer com a sua própria aparência. 

—  Maldito!  —  gritou  a  deusa.  —  A  partir  de  agora  você  está  sob  o  peso  da  minha 

maldição... 

Eresictão, diante daquela assustadora intervenção, deu um grito de terror, lançou para o 

alto o machado e pôs-se a correr, espavorido, juntamente com os seus homens. Chegando em seu 

castelo,  Eresictão  correu  para  os  seus  aposentos.  Decidiu  andar  um  pouco  pelo  quarto,  para 

dissipar o medo. Ali vagou durante longos cinco minutos, até que uma fome repentina o obrigou 

a sair. Pé ante pé, Eresictão retornou ao salão. Tinha um vago receio de que algo pavoroso tivesse 

acontecido.  Não,  tudo  parecia  em  ordem.  A  sua  querida  mesa  ainda  estava  lá,  embora 

terrivelmente  vazia.  Ainda  era  cedo,  mas  a  correria  e  o  terror  adiantaram  o  relógio  do  seu 

estômago. 

— Cozinheiros! — troveja Eresictão. 

— Pois não, senhor? — responderam os quatro cozinheiros. 

— Estou morto de fome. Adiantem o almoço. 

— Sim, senhor — e voltaram à cozinha. 

Uma fome terrível lhe devorava as entranhas. Nunca sentira fome parecida. 

— Vamos, tragam logo a comida! — rugia Eresictão, sentindo um vácuo crescer-lhe no 

estômago. 

Imediatamente  os  criados  surgiam  com  os  primeiros  pratos,  que  desapareceram  em 

questão de minutos em sua goela voraz. Sua fome gigantesca, porém, em nada foi aplacada. 

— Mais comida! — rugiu outra vez Eresictão. 

Os  quatro  cozinheiros  preparavam  tudo  o  que  enxergaram  na  despensa,  enquanto  os 

criados levavam para o salão imensas travessas repletas de comida. Instantes depois retornavam 

com elas completamente limpas. 

— Mais comida! — ouvia-se, ainda. 

Nada parecia bastar ao apetite bestial de Eresictão, que começava a se tornar colérico. 

—    O  que  está  havendo aí  dentro?  —  gritou,  com  a  boca  cheia.  —  Tragam  comida  de 

verdade! 

Numa medida extremada, o chefe dos cozinheiros ordenou que o maior dos javalis fosse 

abatido e assado imediatamente sobre uma grande fogueira, montada às pressas no pátio. O dia 

fez-se noite quando a fumaça do assado levantou-se das brasas e cobriu o sol como uma imensa 




nuvem  de  incenso.  Eresictão,  sentado  à  mesa,  despejou  sobre  ela  uma  cachoeira  de  saliva, 

enquanto aguardava, impaciente, o prato principal. 

Dez escravos carregaram numa imensa bandeja de prata o monstro dourado e fumegante, 

coberto de ervas aromáticas e guarnecido por fatias de duzentos abacaxis. O maravilhoso prato 

chegou aos olhos de Eresictão como uma sublime oferenda de ouro. Em dez minutos a travessa 

retornou à cozinha contendo somente os ossos do javali, empilhados junto às suas presas. 

—  Mais  comida!  —  era  o  refrão  incessante  que  se  ouvia  no  salão.  Florestas  inteiras  de 

verduras já haviam entrado para dentro do estômago do patrão; uma plantação inteira de batatas 

também sumiu nos abismos daquela caverna sem fundo. Sua fome colossal era acompanhada de 

uma  terrível  sede,  que  o  obrigava  a  beber  sem  parar  imensas  jarras  de  vinho,  que  ele  lançava, 

depois de esvaziadas, à cabeça confusa dos seus escravos. 

— Tragam mais! 

Eresictão não se levantava da mesa. Quanto mais comia, mais insistentes tornavam-se os 

seus  pedidos.  Os  cozinheiros  já  não  sabiam  mais  o  que  colocar  nas  panelas.  Todas  as  aves  de 

criação  já  haviam  passado  pelo  holocausto  das  chamas.  No  terror  das  exigências,  treze  gatos, 

vinte  cachorros  e  até  mesmo  a  parelha  de  cavalos  que  puxava  o  carro  de  Eresictão  foram 

lançados vivos na fornalha. Ele não distinguia mais nada, engolindo até os ossos. 

Quando chegou a noite, Eresictão ainda estava à mesa. Seu rosto, no entanto, estava um 

tanto mais magro, e sua pança parecia ter recuado um pouco para dentro do manto. Por incrível 

que parecesse, Eresictão estava emagrecendo! Preso à mesa, o pobre homem, gordo e famélico, 

implorava: 

— Comida, meus escravos... Pelo amor de Deus, mais comida... 

A  noite  passou-se  em  comilanças.  Não  tendo  mais,  enfim,  o  que  comer  em  casa, 

Eresictão saiu em desespero pelas estalagens, devorando tudo o que encontrava nessa selvagem 

expedição noturna. Quando o sol retornou, encontrou-o devorado por uma fome infinitamente 

maior do que aquela com a qual sentara-se pela primeira vez à mesa. Seu corpo estava debilitado. 

Suas  faces  começaram  a  encovar-se.  Suas  mandíbulas,  de  tanto  comer,  doíam  a  ponto  de  não 

poder  mais  movê-las.  Suas  vestes  pendiam  do  corpo.  Eresictão  estava  a  meio  caminho  de  se 

tornar um espectro de si mesmo. 

Seus pais, alarmados, quiseram saber o que se passava com seu pobre filho. 

— Meu filho, o que houve com você? — exclamou a mulher. Horrorizada, ela arrancou 

os cabelos, tirando sangue do rosto com as unhas. 

Seu  pai,  com  o  passar  dos  dias,  gastou  também  tudo  o  que  tinha  na  vã  tentativa  de 

alimentar o seu insaciável filho. Até o touro que sua esposa engordava para sacrificar a Vesta, a 




deusa  virgem  do  lar  e  do  fogo,  foi  sacrificado  ao  altar  desta  horrenda  fome.  A  miséria  chega, 

afinal, para o desgraçado Eresictão. 

O  seu  pai,  não  podendo  mais  fazer  nada  —  pois  tornara-se  miserável,  também  -, 

abandona-o  à  própria  sorte,  reduzido  à  mais  negra  mendicância.  Passava  os  dias  sentado  nas 

praças,  recolhendo  de  forma  vil  os  restos  que  até  os  cães  cobertos  de  sarna  refugam.  O  único 

consolo é ter ainda ao seu lado Metra, sua dedicada filha. 

— Minha querida filha, faça-se o mais bela que puder — disse, um dia, Eresictão. 

— Por quê, meu pai? — indagou Metra, acariciando-lhe a face encovada. 

— Vou vendê-la. 

— Vender-me? 

— É preciso... Eu preciso -justificou o velho, fraco e faminto. 

No mesmo dia a bela e encantadora Metra foi feita escrava nas mãos de um horripilante 

comerciante.  Depois  de  passar  pelo  suplício  das  carícias  daquele  homem  abominável,  Metra,  à 

noite,  remeteu  a  Netuno  as  suas  mais  ardentes  preces,  enquanto  o  seu  odioso  amo,  ao  lado, 

roncava: 

— Poderoso Netuno, livra-me disto! — rogou, lançando um olhar ao seu algoz. O deus, 

apiedado,  decidiu  atender  às  suas  súplicas.  Para  tanto,  converteu-a  numa  jumenta.  Assim, 

enquanto  seu  amo  ainda  ressonava,  Metra  levantou-se  do  leito,  firmou  bem  as  quatro  patas  e, 

dando um grande salto, escapou pela janela. No mesmo instante correu, feliz, ao encontro de seu 

pai. 


— Meu querido pai, voltei! — disse, lambendo a face escaveirada do seu progenitor. 

— Minha adorada filha! Como estou feliz em tê-la de volta! Depois, voltando-se para um 

carroceiro que passava: 

— Ei, quanto quer por esta magnífica jumenta? 

Um zurro de dor partiu da infeliz Metra, que foi levada embora outra vez. Mas também 

deste novo amo conseguiu escapar, metamorfoseada num cão e retornando novamente para os 

braços do pai, que a revendeu outra vez. Transformada, assim, em fonte inesgotável de recursos, 

a  infeliz  Metra  percorreu  toda  a  escala  zoológica,  até  que  um  dia,  metamorfoseada  numa  linda 

borboleta, desapareceu para sempre no ar. 

Eresictão, perdendo sua última fonte de renda e devorado por uma fome absolutamente 

insuportável, decidiu tomar uma atitude que seu orgulho insensa-: até então impedira. Entrando 

naquele mesmo bosque que maculara com sua blasfêmia, pediu perdão à vingativa Ceres. 




— Ceres poderosa! — começou a dizer Eresictão, com as mãos postas. -Concede-me a 

graça  do  seu  perdão,  ó  deusa,  cujos  olhos  brilham  com  graça  e  majestade  por  todo  o  Olimpo! 

Ouve-me, por piedade, ó magnífica deusa! 

A deusa, no entanto, não lhe deu ouvidos. Tomado pelo desânimo, Eresictão sentou-se, 

derrotado, à sombra das árvores. Era noite e caía uma chuva forte, filtrada para dentro do bosque 

sob  a  forma  de  cordas  d'água  que  se  balançavam  do  alto.  Os  relâmpagos  intensos  varavam  a 

escuridão,  iluminando  inteiramente  o  seu  corpo  —  um  esqueleto  coberto  apenas  por  uma  fina 

camada  de  pele.  Eresictão  estava  sentado,  com  os  olhos  pousados  sobre  o  próprio  pé. 

Vislumbrou  ali  uma  protuberância,  que  sugeria  a presença  de  um  pouco  de  carne.  Sem  hesitar, 

arreganhou  os  dentes  e  cravou-os  com  força  sobre  o  membro,  arrancando-o  e  engolindo-o 

inteiro.  Durante  a  noite  inteira  o  ímpio  Eresictão  saciou-se  de  si  mesmo,  sob  a  luz  dos 

relâmpagos, até que na manhã seguinte nada mais restava dele sobre a face da Terra. 

FILEMON E BAUCIS

 

Júpiter, estando um dia ocioso no Olimpo, chamou seu filho Mercúrio e disse: 



— Venha, vamos dar uma volta pelo mundo e testar a hospitalidade dos mortais. 

Mercúrio, que adorava passear, concordou imediatamente. Já estava saindo junto com seu 

pai, quando este o deteve: 

—  Espere, deixe aqui as suas asas. 

—  Por que, meu pai? — perguntou Mercúrio. 

—  Não  seja  tonto  —  disse  Júpiter.  —  Se  nos  apresentarmos  como  deuses,  obviamente 

que seremos bem recebidos por todos. 

Mercúrio  concordou  e,  após  desfazer-se  de  suas  asas,  seguiu  junto  com  ele.  Tão  logo 

chegaram  à  Terra,  começaram  a  percorrer  as  estradas  da  Frígia,  como  se  fossem  dois  pobres 

andarilhos.  Em  alguns  instantes  estavam  suados  e  cobertos  de  pó.  De  repente,  avistaram  uma 

bela casa de campo. Bateram à porta por um longo tempo, até que surgiu do alto de uma janela 

uma pequenina cabeça. 

— O que querem, vagabundos? — gritou alguém, com irritação. 

— Somos viajantes, bom amigo, e precisamos descansar — respondeu Mercúrio. 

— Dêem o fora! — disse a pessoa à janela, desaparecendo em seguida. 

Os dois viajantes, desgostosos com seu primeiro insucesso, partiram sem nada dizer. Era 

um dia quente e úmido, e o sol estava exatamente acima de suas cabeças. Enquanto retomavam 

seu caminho, Mercúrio tentava acalmar a ira de seu pai, que já se preparava para lançar naquela 

casa um de seus terríveis e vingativos raios. 



—  Calma,  pai!  Não  podemos  tomar  como  exemplo  um  único  caso.  Tentemos  aquela 

outra casa, lá adiante. 

De fato, um pouco mais além havia uma outra casa, um pouco menor do que a anterior, 

mas  muito  bem  cuidada.  Os  dois  andarilhos  chegaram  à  porta  e  outra  vez  prepararam-se  para 

pedir abrigo. 

— Veja, pai, parece que há aqui alguma festa — disse Mercúrio, ao escutar no interior um 

alarido de risos e de pratos. — Certamente que também nos convidarão para ela. 

—  Júpiter, no entanto, tinha um ar cético. 

Mercúrio,  temendo  o  pior,  antes  de  bater  à  porta  passou  a  manga  de  sua  túnica 

esfarrapada pelo rosto, a fim de melhorar o seu aspecto. Enquanto isto Júpiter já tomara a frente 

e esmurrava a porta. Depois de quase pô-la abaixo, viu surgir um rosto gordo e inchado. 

— Pois não, senhores! — disse o homem, com um forte hálito de vinho. 

—  Boa-tarde,  meu  bom  homem  —  disse  Mercúrio.  —  Somos  viajantes,  e  o  sol 

inclemente impede que prossigamos nossa jornada. Poderíamos fazer aqui nosso descanso e uma 

breve refeição, para que possamos renovar nossas forças? 

—  Desculpem-me, mas não posso recebê-los agora — disse o bêbado. -Minha filha casa 

hoje e estou recebendo agora os meus convidados. 

Mas, tomado por um acesso brusco de generosidade, chamou a criada e disse-lhe: 

— Traga um prato com alguma coisa para estes dois aí! 

Depois,  virando  as  costas,  sumiu-se  de  novo  para  o  interior  da  casa.  Trinta  minutos  se 

passaram  até  que  a  criada,  abrindo  uma  fresta  mínima  na  porta,  passou  pelo  vão  um  pequeno 

prato, com as sobras ajuntadas de dois ou três convidados. 

—  Deixem  o  prato  aí  e  desapareçam  —  disse  a  criada,  com  uma  voz  áspera.  Mas,  ao 

introduzir o prato no estreito vão, ela o inclinara de tal modo que virara no chão a metade do seu 

conteúdo. Cinco ossos com alguns nacos de carne era tudo o que restava da estreita generosidade 

daquela  alegre  e  festiva  casa.  Mercúrio  ainda  os  estudava,  na  esperança  de  encontrar  algo  que 

pudesse revelar-se como um sinal de autêntica generosidade, sem ousar erguer os olhos para seu 

colérico  pai.  Júpiter,  por  sua  vez,  depois  de  mirar  com  fúria  a  casa,  partiu,  procurando  de 

qualquer modo controlar o seu gênio. 

Já era adiantado da tarde quando chegaram, sedentos e famintos, à porta de uma terceira 

casa.  Esta,  embora  modesta,  parecia  ainda  a  salvo  da  miséria.  De  dentro  das  suas  paredes 

escapava o ruído contínuo e vigoroso de um sopro, como se um grande fole trabalhasse ali sem 

trégua.  Mercúrio  bateu  à  porta  uma,  duas,  dez  vezes.  Um  murmúrio  fez-se  ouvir  de  uma  das 

janelas, ao alto. Uma sombra por detrás da cortina revelava que alguém espiava, desconfiado. De 




repente,  porém,  liberta  do  medo,  a  pessoa  afastou,  de  par  em  par,  os  dois  panos.  Era  uma 

mulher, que segurava um lençol à frente do seu torso nu. 

—  O  que  querem,  mendigos?  —  perguntou  a  mulher,  impaciente,  enquanto  ajeitava  os 

cabelos. 

Júpiter e Mercúrio entreolharam-se, em dúvida. 

—  Vamos  lá,  que  tenho  mais  o  que  fazer!  —  exclamou  a  mulher,  deixando  cair  a 

proteção, com um ar distraído. 

Às suas costas, uma voz masculina disparou um desaforo. 

— Só queremos um pouco de repouso e algum alimento! — disse Mercúrio. 

— Eles querem repouso! — disse a mulher, virando-se para dentro, num tom de deboche. 

Um homem surgiu, então, por detrás dela e disparou outro desaforo aos dois andarilhos, 

fechando em seguida, com estrondo, a janela. Júpiter e Mercúrio tiveram de seguir novamente o 

seu caminho sob o ruído estridente do fole que começara a trabalhar lá dentro, outra vez, a toda 

fúria. 


Já estavam exaustos, quando chegaram, afinal, à frente de uma humilde choça, coberta de 

palha. Com receio de derrubar a frágil porta, Júpiter bateu palmas, enquanto Mercúrio, um pouco 

mais atrás, apenas o observava, sem acreditar em mais nada. De dentro da choupana, entretanto, 

surgiu o rosto enrugado de um velho. 

— Bom-dia, meu senhor— disse Júpiter. — Somos dois andarilhos e gostaríamos... 

Antes, porém, que Júpiter concluísse, a porta foi escancarada. 

— Entrem, por favor — disse o velho, dando-lhes a passagem. 

Os dois, surpresos, entraram na casa. Embora já estivesse um pouco escuro ali dentro, a 

casa  ainda  não  tinha  iluminação  alguma.  Da  penumbra  avançou  para  eles  uma  velhinha,  toda 

encurvada,  que  os  cumprimentou  de  maneira  discreta.  Ele  chamava-se  Filemon,  e  ela,  Baucis. 

Casados  há  muitos  anos,  viviam  desde  então  naquela  modesta  casa,  enfrentando  juntos  as 

privações naturais da pobreza. Não tinham criados nem filhos. 

— Por favor, sentem-se aqui — disse Filemon, estendendo duas cadeiras aos visitantes, 

tomando antes o cuidado de forrá-las com um pouco de palha limpa. 

Enquanto  isto,  Baucis  tentava  reavivar  um  resto  de  fogo  que  ainda  se  escondia  por 

debaixo  das  cinzas.  Filemon,  por  sua  vez,  arrancou  alguns  gravetos  da  cobertura  da  choça, 

retirando  também  dos  caibros  um  pouco  da  palha  que  protegia  a  casa  das  constantes  chuvas. 

Baucis dirigiu-se à horta e de lá retornou trazendo um maço de verduras e as lançou com gosto 

dentro de uma vasilha. Filemon pegou a faca e cortou um bom pedaço do toucinho que pendia 



do teto. lançando-o na sopa, indo logo em seguida conversar com seus visitantes, para que estes 

não se sentissem abandonados. 

Baucis pegou a melhor toalha que possuíam, toda velha e cheia de furos de traças; ergueu-

a  para  o  alto  duas  ou  três  vezes,  inflando-a,  até  que  a  peça  desabou  exaurida  sobre  a  madeira 

escura  da  mesa,  com  o  ânimo  triste  e  abatido  das  mortalhas.  A  sopa,  a  essa  altura,  já  estava 

pronta.  Baucis  trouxe  logo  para  a  mesa  a  panela  de  barro  fumegante.  Em  seguida,  depositou 

sobre a mesa um cesto contendo um pão, ainda em bom estado, e um pequeno pedaço de queijo. 

Para completar, o velho anfitrião retirou de seu esconderijo uma garrafa de vinho. 

—  Os  senhores  nos  perdoem  se  não  for  o  bastante  —  disse  o  velho,  obsequioso. 

depositando a garrafa diante de Júpiter -, mas é a única que nos restou. 

Começaram todos, assim, a se regalar como podiam com aquela prosaica refeição. 

— O senhor não bebe? — disse-lhe, de modo vago, Júpiter. 

O velho, afetando uma dor de lado, fez que não. No entanto, ao voltar os olhos para sua 

querida  garrafa,  percebeu  que  ela  estava,  diante  de  si,  cheia  até  o  gargalo,  embora  os  visitantes 

estivessem com seus copos também cheios, até as bordas. Compreendendo tudo, o velho ergueu-

se, assombrado: 

— Júpiter todo-poderoso! — exclamou Filemon, virando-se para sua esposa. — Baucis, é 

o pai dos deuses quem temos diante de nós! 

A  pobre  velha,  engasgando-se,  teve  de  ser  socorrida  pelo  filho  de  Júpiter,  antes  de 

entender direito o que se passava. 

— Que vergonha! — exclamava Filemon, cobrindo o rosto com as mãos. -Veja, Baucis, 

querida, o que temos a coragem de servir para Júpiter e seu filho... 

Júpiter,  entretanto,  acalmou  os  dois  velhos,  dizendo-se  muito  satisfeito  com  aquela 

refeição. E ordenou aos amáveis anfitriões: 

— Agora, levantem-se e me acompanhem. 

Júpiter saiu porta afora, levando atrás de si os dois velhos, que, apoiados com dificuldade 

em  seus  cajados,  procuravam  acompanhar  o  passo  firme  dos  dois  deuses.  Subiram  todos  à 

montanha vizinha e, uma vez ali, Júpiter perguntou-lhes o que mais desejavam na vida. 

Depois de conversarem baixinho por um bom tempo, os dois velhinhos chegaram a um 

acordo. 


—  Queríamos  a  graça  de  não  sobrevivermos  um  ao  outro  —  disse  Filemon.  Tão  logo 

terminou de falar, um terrível temporal desabou sobre a campina onde ficava a humilde choça. 

Os dois velhos, aterrados, viram então todo o vale cobrir-se de água, fazendo desaparecer todas 

as outras casas onde os deuses haviam sido mal recebidos. Passaram, assim, mortos, na corrente 




raivosa das águas, o primeiro anfitrião, que sequer lhes ouvira o pedido, depois o velho bêbado, 

junto com dezenas de seus convidados, e, finalmente, o casal de amantes, abraçados em meio à 

correnteza. 

A modesta choupana de Filemon e Baucis também parecia ruir, o que arrancou de Baucis 

um grito de terror: 

— Filemon querido, nossa casa também se vai! 

No  entanto,  no  lugar  da  choupana  que  ruíra,  colunas  de  mármore  levantavam-se. 

Escorado  sobre  elas  repousava  um  magnífico  e  solene  teto  de  ouro.  Paredes,  também  do  mais 

fino mármore, fixavam-se, além de uma magnífica porta prateada, onde figuravam os mais belos 

baixos-relevos. 

—  A  partir  de  hoje  vocês  serão  os  sacerdotes  exclusivos  deste  templo!  —  disse-lhes 

Júpiter, retirando-se com seu filho, sob os olhos agradecidos dos velhos. 

Passaram a viver ali, em meio à fartura, Filemon e Baucis, até a mais extrema velhice — 

pois Júpiter ainda lhes acrescentou muitos anos de vida, repletos de saúde. Mas, como tudo tem 

um fim para os mortais, um dia, quando ambos estavam sentados nos degraus do palácio, Baucis 

deu um grito: 

— Filemon, o que é isto em seus pés? 

Um tufo de ervas começara a surgir do velho, enquanto ele falava. O mesmo fenômeno 

repetia-se com a sua esposa, que já tinha as pernas inteiras recobertas de vegetação. Aos poucos 

seus  corpos  foram  recobrindo-se  de  folhas,  até  que  em  poucos  minutos  viram-se  ambos 

transformados em duas belas e imponentes árvores, de raízes e galhos entrelaçados para sempre. 

O RAPTO DE EUROPA

 

Há muito tempo atrás, havia no reino de Tiro um rei, Agenor, cuja filha era muito bela. O 



nome dela era Europa, e Júpiter apaixonou-se perdidamente por sua beleza. 

— Que linda mulher! — exclamava o deus dos deuses, cuidando, no entanto, para não ser 

ouvido por Juno, sua ciumenta esposa. — Tenho de possuí-la, a qualquer preço. 

Movido por essa determinação, Júpiter decidiu utilizar-se de seu estratagema principal, ou 

seja,  o  de  se  metamorfosear  em  algum  ser  ou  coisa.  Por  alguma  razão,  Júpiter  jamais  aparecia 

diante  das  suas  eleitas  na  sua  forma  pessoal,  preferindo  assumir  sempre  uma  outra  aparência 

qualquer. Assim, depois de muito pensar, decidiu transformar-se num grande touro, branco como 

a neve. Completada a transformação, Júpiter desceu à Terra envolto numa grande nuvem. 

Em uma das praias do rei de Tiro e pai de Europa, um rebanho dócil de touros pastava 

num  relvado  próximo  ao  mar.  Sem  que  ninguém  percebesse,  uma  grande  nuvem  foi  se 

aproximando, até que dela desceu o grande touro, indo colocar-se em meio aos demais. Os seus 



novos colegas de rebanho, a princípio assustados com aquela súbita aparição, abriram um espaço 

assim que ele pousou sobre a grama. No entanto, como o alvo touro se mostrasse manso e dócil, 

teve logo sua presença admitida, sem maiores contestações. 

Ali  esteve  misturado  aos  demais,  contrastando  em  relação  ao  pêlo  escuro  dos  outros 

touros, até que de repente a bela Europa surgiu com suas amigas, rindo e cantando por entre as 

areias da praia. As suas companheiras eram belas, também, mas, assim como Júpiter destacava-se 

em  seu  rebanho,  a  filha  de  Agenor  destacava-se  em  meio  ao  seu  encantador  e  animado  grupo. 

Era  uma  manhã  luminosa,  o  sol  brilhava  sem  ferir  os  olhos,  e  o  céu  tinha  um  tom  manso  e 

azulado como os olhos do touro, que observavam, atentos, a aproximação de sua amada. 

—  Vejam só que belo rebanho! — exclamou Europa, ao ver os boa ajuntados. — Mas o 

que será aquela mancha branca em meio a eles? 

A  jovem,  destacando-se  do  grupo,  avançou  correndo,  levantando  a  barra  da  sua  túnica 

rendada, que lhe descia até um pouco abaixo dos joelhos. Quando chegou perto de Júpiter, seus 

seios arfavam sob a fina gaze de suas vestes.  Os grandes olhos azuis do touro branco pousaram 

sobre  a  face  corada  de  Europa,  de  tal  modo  que  a  moça  não  pôde  deixar  de  observar  o  seu 

intenso brilho. 

— Um touro branco! — disse a moça, encantada. — E que lindos olhos ele tem! Todas 

as  amigas  ajuntaram-se  em  torno  ao  animal,  que,  no  entanto,  tinha  seus  grandes  olhos  azuis 

postos somente sobre a bela filha do rei. A moça, postando-se ao lado dele, começou a alisar o 

pêlo sedoso de seu dorso branco, enquanto admirava os seus pequenos e delicados cornos, que 

tinham o brilho cristalino das melhores pérolas. Embora o aspecto do animal fosse suave, a sua 

musculatura  era  rija,  o  que  Europa  pôde  comprovar  ao  alisar  o  seu  pescoço.  Alguns  espasmos 

musculares percorriam o pêlo do touro a cada vez que Europa o acariciava. De vez em quando o 

animal inclinava a cabeça, fazendo-a deslizar discretamente pelo flanco de Europa, erguendo com 

suavidade a fímbria de suas vestes. A filha de Agenor, contudo, permitia tais liberdades por julgá-

las apenas um brinquedo inocente do magnífico animal. 

Retirando-o do grupo, Europa levou-o para passear nas areias da praia, dando-lhe com as 

mãos  algumas  flores,  que  o  touro  comeu  alegremente.  Depois,  ele  pôs-se  a  correr  ao  redor  da 

moça, enquanto as outras o perseguiam, fazendo-lhe festas e agrados. 

Como o sol começasse a se tornar quente demais — pois era o auge do verão -, as moças, 

cansadas  momentaneamente  da  brincadeira,  despiram-se  para  dar  um  breve  mergulho  no  mar. 

Europa, entretanto, preferiu ficar na areia, a brincar com seu touro branco. Assim, enquanto suas 

amigas  banhavam-se,  Europa  colhia  outras  flores,  compondo  com  elas  uma  bela  grinalda  que 

depositou  em  seguida  sobre  os  chifres  do  animal.  Depois,  montada  sobre  as  suas  costas,  foi 




conduzida por ele num trote manso. Enquanto o animal a levava, emitia um pequeno mugido, em 

sinal de orgulho e satisfação. 

As amigas de Europa, entretanto, ao verem a nova diversão que a filha do rei inventara, 

saíram  todas  correndo  do  mar,  num  passo  rápido  que  fazia  balançar  seus  pequenos  seios 

molhados. Júpiter, porém, ao vê-las avançarem para si, temeu que fossem desalojar Europa das 

suas costas. Realmente, logo uma delas tocou a cabeça do touro, com a mão coberta de sal: — 

Vamos, Europa, deixe-nos andar um pouco! — disse a moça, impaciente. 

Júpiter,  porém,  aproveitando  a  relutância  que  Europa  manifestava  em  descer.  lançou-se 

para a frente, num salto ágil, tomando o rumo do mar. 

—  Ei,  esperem,  aonde  vão?...  —  exclamou  uma  das  amigas  de  Europa,  com  as  mãos 

pousadas na cintura. 

Júpiter,  surdo  aos  gritos,  arremeteu  em  meio  às  mulheres  que  avançavam  pela  água, 

obrigando-as a se afastarem, assustadas, para todos os lados. 

—  Socorro!  —  gritava  Europa,  estendendo-lhes  as  mãos,  apavorada  com  o  ímpeto 

repentino do animal. 

O touro, entretanto, avançava mar adentro, deixando atrás de si as mulheres pela praia, a 

sacudir os braços, impotentes. Imaginando que o touro enlouquecera, temeram que tanto Europa 

quanto  o  animal  terminariam  afogados,  logo  que  ultrapassassem  a  rebentação. 

Surpreendentemente, porém, o touro rompeu as ondas, lançando-se num trote ainda mais ágil do 

que  aquele  que  usara  nas  areias  fofas  da  praia.  E  assim  se  afastou  cada  vez  mais  da  praia, 

enquanto Europa procurava manter-se agarrada aos chifres de seu seqüestrador. 

—    Pare...  !  Para  onde  está  me  levando?  —  perguntava  Europa,  enquanto  o  touro 

permanecia firme no seu galope, saltando sobre as ondas com a mesma destreza de um golfinho. 

Vendo, porém, que o animal parecia determinado a conduzi-la para algum lugar, Europa 

começou a clamar por socorro, invocando a proteção de Netuno: 

— O deus dos mares, veja em que aflição me encontro! — disse a moça, recebendo em 

seu corpo o vento e as ondas geladas. 

De repente, porém, tendo já avançado imensamente pelo oceano, o touro voltou para trás 

a cabeça e começou a conversar com a assustada Europa. 

— Nada tema, bela Europa! — disse o animal. — Eu sou Júpiter e a levo comigo para a 

ilha de Creta, onde casaremos e você será honrada com uma ilustre descendência. 

Europa,  mais  calma,  manteve-se  agarrada  aos  chifres  de  seu  futuro  marido.  Dentro  em 

pouco  chegaram  ambos  à  ilha  que  o  deus  dos  deuses  anunciara.  Tão  logo  teve  os  pés  postos 

sobre  o  chão  outra  vez,  Europa  viu  o  touro  branco  assumir  a  forma  esplendorosa  de  Júpiter. 




Impaciente,  o  deus  supremo  carregou-a  para  dentro  da  ilha,  enquanto  Europa  ainda  tentava 

ensaiar alguma reação. Das núpcias deste casal surgiriam três lindos filhos, dentre os quais Minos, 

futuro rei de Creta. 

ARGOS E IO

 

Amanhecia  no  Olimpo.  Juno,  a  rainha  dos  céus,  acordara  há  pouco  e  percebera  que 



estava só em seu leito. Júpiter, seu esposo, já havia levantado. 

"Por que terá levantado tão cedo?", perguntou-se Juno, algo desconfiada. Há vários dias o 

seu  esposo  vinha  apresentando  um  comportamento  estranho.  "Deve  estar  me  preparando 

alguma...", pensou consigo mesma. 

Abrindo as cortinas de seu maravilhoso quarto, a ciumenta deusa relanceou o olhar por 

sobre a vastidão do mundo, até fazê-lo recair, finalmente, sobre uma imensa nuvem escura que 

cobria a região que cercava o rio Ínaco, na Grécia. Curiosa, Juno resolveu descer até lá para ver o 

que se passava. Em má hora. porém, tomara esta decisão, pois abaixo desta grande nuvem escura 

estava seu marido, Júpiter, fazendo amor com a ninfa Io, filha do rio. Há vários dias que o deus 

adquirira o hábito de dar estas ligeiras escapadas até as margens daquele rio, para desfrutar dos 

prazeres da nova amante. Como temesse, porém, que a sua esposa viesse um dia a descobri-los, 

estendera sobre o céu daquela região um imenso tapete de nuvens negras. De repente, sua bela 

amante, que estava deitada sobre a relva, percebeu que a nuvem se desfazia e que em meio a seus 

farrapos surgia a robusta e vingativa Juno. 

—  Júpiter,  sua  esposa  está  chegando!  —  exclamou,  assustada,  a  bela  ninfa,  procurando 

cobrir-se rapidamente. 

Júpiter,  levantando  a  cabeça  do  peito  nu  de  Io,  voltou  o  olhar  para  o  céu,  enquanto 

passava a mão em seu manto. Imediatamente ergueu-se, com os cabelos ainda revoltos, e disse à 

bela amante: 

— Não se assuste, Io querida, mas serei obrigado a metamorfoseá-la em algo... 

Sem esperar resposta, transformou-a numa novilha. 

No mesmo instante, Juno descia à Terra, pousando às margens do rio. 

— O que faz aqui, parado diante desta vaca? — perguntou a deusa, irritada. 

— Eu? — gaguejou Júpiter. — Bem, eu estava passeando por esta bela região quando vi 

pastando mansamente, às margens deste belo rio, esta encantadora novilha. Achei-a tão linda que 

fiquei observando-a um pouco. 

Juno, fingindo acreditar nesta desculpa indigna de um deus, acercou-se da novilha, como 

se fascinada com a beleza do animal: 




—  É,  de  fato,  uma  bela  novilha  —  disse,  alisando  o  pêlo  sedoso  e  macio.  Estudou  o 

animal durante um tempo, enquanto Júpiter a observava, temeroso. 

— Realmente magnífica — disse a deusa, por fim. — Dê-a para mim, querido Júpiter! 

O  pai  dos  deuses  não  sabia  o  que  dizer,  diante  do  inesperado  pedido.  Como  negar  o 

presente, sem atiçar de modo definitivo as suspeitas da esposa? Viu-se ?brigado a ceder o animal 

a  Juno,  e  assim  foram  embora,  a  novilha  sendo  puxada  pelos  cornos  pela  satisfeita  deusa,  que 

parecia muito feliz com o presente. 

Tão logo chegaram ao Olimpo, Juno chamou o seu fiel criado Argos: 

— Argos, tenho uma tarefa para você — disse, de modo imperioso. 

— Pois não, rainha das deusas — disse a estranha criatura, que possuía cem olhos. 

— Está vendo esta novilha? — perguntou Juno, apontando para Io disfarçada. 

— Sim, poderosa Juno, meus cem olhos não poderiam deixar de admirar tão belo animal. 

—  Silêncio!  —  disse  a  deusa,  com  rispidez.  —  Quero  apenas  que  a  leve  para  um  local 

afastado, mantendo-a sob a mais estrita vigilância. 

Argos obedeceu, retirando-se logo em seguida juntamente com a infeliz >. A pobre ninfa 

derramava  escondida  grossas  lágrimas  de  pesar,  enquanto  era  carregada  pelo  horrendo  criado 

para um vale deserto. Uma vez ali, Argos soltou-a, sentando-se numa alta pedra, de onde podia 

observar toda a região. 

Assim,  fosse  dia  ou  noite,  a  atenta  criatura  jamais  despregava  sua  multidão  de  olhos  da 

infeliz Io. Nem para dormir o gigante deixava de vigiá-la, pois jamais fechava mais de dois olhos 

durante  o  seu  sono  desperto.  Desta  maneira  viveu  Io  durante  muito  tempo,  lamentando  a  sua 

sorte:  "Jamais  me  livrarei  da  vigília  deste  maldito  monstro",  ponderava  a  pobre  Io,  enquanto 

arrancava do solo os horríveis tufos de grama, que engolia sem mastigar. 

Júpiter, saudoso dos prazeres de sua adorável Io, foi disfarçadamente até os estábulos do 

Olimpo e lá ficou sabendo do ardil da esposa. Indignado, mandou chamar imediatamente o seu 

fiel Mercúrio. 

—  Tenho  uma  sigilosa  missão  para  você  —  disse  o  deus  dos  deuses  para  o  filho.  — 

Quero  que  você  descubra  onde  está  a  minha  adorada  Io  e  a  traga  de  volta.  Mas  antes  deverá 

matar Argos, o gigante que a mantém prisioneira. 

— Assim o farei — disse Mercúrio, disposto a dar cumprimento às ordens. Disfarçou-se 

em pastor, escondendo as asas num manto que o envolvia por inteiro. Levava consigo o caduceu, 

bastão de ouro capaz de fazer adormecer qualquer ser vivente. 

Em  um  instante  Mercúrio  percorria  velozmente  todos  os  vales  e  pastos  da  Grécia, 

tentando  descobrir  onde  estava  o  esconderijo  de  Io.  Sobrevoava  uma  certa  região  quando 




finalmente a avistou. Tomando o aspecto de um pastor, juntou algumas ovelhas e desceu à Terra. 

Foi se aproximando, lentamente, com um ar distraído, enquanto tocava sua flauta de Pã. 

—  Que  instrumento  maravilhoso  é  este?  —  perguntou  Argos,  tão  logo  percebeu  a 

chegada do forasteiro. — Aproxime-se, jovem pastor, e toque um pouco mais 

—    Lindo  dia,  não?  —  foi  dizendo  de  modo  jovial  o  pastor,  fingindo  não  perceber  a 

novilha,  já  que  Argos  permanecia  com  seus  outros  noventa  e  nove  olhos  postos  sobre  ela.  — 

Esta  é  minha  flauta,  e  com  ela  procuro  distrair  o  tédio  durante  minhas  caminhadas  —  disse, 

chamando a atenção do segundo olho do monstro. 

"Onde arrumarei mais noventa e oito novas distrações?", pensou Mercúrio. 

— Esta bela flauta que você está vendo foi criada pelo deus Pã — continuou a dizer o 

filho de Júpiter. — Existe, a propósito, uma lenda interessante que descreve a sua invenção. 

— E mesmo? — disse Argos, que adorava lendas. 

—  É  uma  bela  história,  na  verdade!  —  acrescentou  Mercúrio  e  em  seguida  começou  a 

narrá-la, tornando-a aborrecida na tentativa de adormecer o monstro.  Haveis de saber, ó vós que me 

ouvis, que em eras mais recuadas os mais encantadores e majestosos bosques de toda a Grécia foram brindados com 

o surgimento de uma esplendorosa ninfa. Seu nome era Sirinx, cujos lábios carmesins tinham o odor das açucenas e 

o tom escarlate das cerejas...

 

Ele contou, naquele mesmo estilo enfadonho, que a bela ninfa jurara jamais se entregar a 



homem algum, sendo devota fiel de Diana, a deusa da caça e das matas, protetora da virgindade. 

Um belo dia o deus Pã, passando por uma vereda do bosque, avistou-a voltando da sua caçada e 

apaixonou-se perdidamente. Saiu correndo em seu encalço, mas a ninfa fugiu a toda pressa por 

entre as árvores do bosque, até chegar à margem do rio. Ali o impaciente Pã, num salto ágil de 

seus  pés  de  bode,  conseguiu  agarrá-la  pela  cintura.  Apavorada,  Sirinx  pediu  o  auxílio  de  suas 

amigas ninfas, que imediatamente a tiraram das mãos do sátiro, deixando em seu lugar apenas um 

feixe  de  juncos.  O  pobre  Pã,  desconsolado,  deixara-se  cair  ao  chão,  segurando  o  seu  miserável 

prêmio. No entanto, ao dar um suspiro, seu sopro passou por entre as varetas, produzindo um 

som melodioso, que encantou o infeliz amante. Tomou alguns dos juncos, de tamanhos desiguais 

e,  colocando-os  lado  a  lado,  criou  um  novo  instrumento,  conhecido  por  "flauta  de  pã",  que  o 

consolou da perda que sofrerá. 

Mal  Mercúrio  terminou  de  contar  essa  história  e  o  seu  adversário  já  havia  adormecido. 

Assim  que  ele  percebeu  que  todos  os  olhos  de  Argos  estavam  cerrados,  tomou  sua  varinha 

mágica  e  redobrou  de  intensidade  o  sono  do  inimigo.  Depois,  puxando  da  sacola  uma  grande 

espada,  aproximou-se  da  presa  fácil  e  desceu  a  lâmina  sobre  o  pescoço  do  pobre  Argos, 

decepando sua cabeça, que rolou pelo chão com seus cem olhos arregalados de espanto. 




Retirando Io daquele lugar maldito, disse-lhe: 

— Pronto, agora já está livre! 

Juno,  ao  descobrir  o  horrível  fim  que  tivera  Argos,  encheu-se  de  tristeza.  Depois, 

recolhendo  os  cem  olhos  do  monstro,  colocou-os  na  cauda  de  seu  pavão  de  estimação, 

homenageando desta forma o seu desastrado e infeliz servidor. Mas ela, que não era mulher de 

lamentações, decidiu ainda se vingar da causadora daquela tragédia. Para tanto convocou ao seu 

palácio uma das Fúrias, as deusas do ódio, da vingança e da justiça, nascidas do sangue de Urano 

quando este fora mutilado. 

A deusa dos castigos apresentou-se imediatamente. 

— Quero que você atormente esta desgraçada, perseguindo-a até os confins da Terra! — 

ordenou Juno, tomada pela cólera. 

A Fúria, tomando a forma de uma gigantesca mosca, saiu pelos ares em busca de Io, que 

ainda  estava  metamorfoseada  numa  novilha.  Tão  logo  a  avistou,  voou  até  ela  cobrindo-a  de 

picadas. Io, apavorada, disparou numa correria louca pelo mundo, levando sempre atrás de si o 

terrível inseto. Fugiu, atravessando vários países, até chegar às margens do Nilo, onde tombou, 

enfraquecida  pela  fadiga.  Júpiter,  sabedor  de  mais  este  ato  de  crueldade  da  incansável  esposa, 

decidiu pedir perdão a ela, prometendo que jamais tornaria a procurar a bela Io, desde que Juno 

cessasse de atormentá-la e lhe devolvesse a sua antiga forma. 

Juno  aceitou  a  proposta,  e  assim,  Io,  enquanto  se  recuperava  do  cansaço,  ainda  às 

margens do Nilo, percebeu que retomava, aos poucos, seu antigo aspecto. Seu rosto lentamente 

diminuía de tamanho, enquanto seus chifres recuavam para dar lugar outra  vez a seus negros e 

sedosos  cabelos.  As  patas  dianteiras  foram  ganhando  novamente  o  formato  de  seus  antigos 

braços,  enquanto  os  cascos  retornavam  à  condição  de  mãos.  Tão  logo  retomou  a  sua  esbelta 

forma, passou a viver no seu novo país, onde se tornou uma deusa muito venerada. 

O JAVALI DE CALIDON

 

Sete  dias  haviam  passado  desde  o  nascimento  do  pequeno  Meleagro.  Sua  mãe,  Altéia, 



recuperava-se do parto. Altéia era casada com Enéas, o rei de Calidon. que estava muito feliz com 

o  nascimento  do  filho.  A  noite  já  caíra  sobre  o  palácio,  quando  a  jovem  mãe  recebeu  a  visita 

inesperada  das  Parcas,  as  deusas  que  presidem  o  destino.  Eram  três  irmãs  e  andavam  sempre 

juntas. Sua ocupação incessante era fiar e desfiar o destino dos mortais. 

— Rainha, viemos até aqui para lhe dar um trágico aviso — disse Cloto, uma das Parcas, 

sem desviar os olhos do seu trabalho de tecelã. 

Altéia ergueu a cabeça do encosto de seu divã, encarando-as, assustada. 



—  Um  trágico  aviso?  —  disse  ela,  voltando-se  imediatamente  para  o  berço,  onde  seu 

filho dormia sossegadamente. 

— E exatamente sobre este inocente — disse a outra Parca, que se chamava Laquesis e 

cuja atribuição era marcar o número exato dos dias de vida que cabem a cada mortal. 

— Não...! — exclamou a rainha, lançando-se aos pés do berço. 

—  Veja  aquele  tição  que  arde  na  lareira  —  disse  Átropos,  a  terceira  Parca.  responsável 

por cortar o fio da vida humana, quando ela chega ao seu final. — O tempo de vida de seu filho 

não será mais longo do que o tempo que aquele tição levará para arder até o fim! 

Altéia,  apavorada,  lançou-se  até  a  lareira.  De  joelhos,  diante  das  chamas,  introduziu  a 

trêmula  mão  dentro  das  brasas,  tirando  dali  o  tição  fatal.  Em  seguida,  apagou-o  nas  dobras  de 

suas  vestes.  Quando  se  voltou,  porém,  as  três  mensageiras  já  haviam  desaparecido. 

Imediatamente correu para o quarto e guardou o tição apagado, com todo o cuidado, no seu baú 

mais secreto. 

Muitos  anos  se  passaram.  Meleagro  teve  uma  infância  feliz  e  cresceu  até  tornar-se  um 

jovem robusto e saudável. Um dia estava conversando com seu pai. Enéas, quando um escravo 

surgiu correndo, trazendo uma assustadora notícia. 

— Meu rei, um monstruoso javali está devastando todo o reino! — disse, com os olhos 

esgazeados e as mãos postas na cabeça. 

Meleagro  ficou  perplexo.  Seu  pai,  no  entanto,  desconfiava  já  da  razão  daquela  terrível 

praga. 


—  Acho  que  sei  o  que  é,  meu  filho  —  disse  o  rei,  um  tanto  vexado.  —  Deve  ser  um 

castigo de Diana, a cujo sacrifício faltei alguns dias atrás. 

De fato, a deusa dos caçadores estava encolerizada com o rei de Calidon e por esta razão 

mandara  o  terrível  javali  para  devastar,  sem  piedade,  todas  as  plantações  e  rebanhos  que 

encontrasse pela frente. Tão grande era a fúria do animal, que os campos ficavam desertos depois 

da  sua  terrível  aparição.  O  monstro  já  despedaçara  diversos  aldeões,  invadindo  até  mesmo  as 

casas para matar e comer o restante de seus habitantes. Todo dia chegavam às portas da cidade 

imensos contingentes de camponeses feridos em busca de refúgio. 

Meleagro logo se prontificou a enfrentar a fera. 

—  Deixe  comigo,  meu  pai!  —  disse,  feliz  com  a  oportunidade  de  exercitar  a  sua 

juventude e valentia. 

— Cuidado, meu filho — advertiu o pai, que temia, na verdade, mais a fúria ia deusa do 

que a do próprio animal. 



—  Não se preocupe. Reunirei os melhores homens deste reino e juntos daremos caça ao 

monstro, até exterminá-lo. 

Empolgado,  o  jovem  retirou-se  a  toda  pressa,  subindo  em  seu  cavalo  para  reunir  seus 

companheiros de caçada. No mesmo dia estavam já todos à beira do campo, prontos para partir. 

Enéas,  no  entanto,  aconselhou  Meleagro  a  refrear  o  seu  ímpeto  e  a  partir  somente  na  manhã 

seguinte, pois seria suicídio enfrentar a fera durante a noite. 

Impacientes, os caçadores montaram um acampamento na saída da cidade, sem voltar às 

suas casas, tal a ânsia de darem caça ao temível javali. Entre eles havia personalidades famosas, 

como  os  irmãos  Castor  e  Pólux,  Jasão,  Teseu,  entre  muitos  outros.  Também  unidos  ao  grupo 

estavam dois tios de Meleagro, irmãos de sua mãe Altéia. 

Misturada  ao  grupo  havia,  ainda,  uma  mulher.  Seu  nome  era  Atalanta,  uma  bela  jovem, 

filha  do  rei  da  Arcádia.  A  bela  moça  trajava-se  como  uma  amazona,  com  um  dos  peitos  a 

descoberto,  como  é  hábito  naquelas  valentes  guerreiras.  Meleagro,  tão  logo a  viu, apaixonou-se 

perdidamente. Durante toda a noite tentou se aproximar dela, mas era sempre interrompido por 

alguém, de modo que teve de aguardar o outro dia para declarar-se. 

Quando o primeiro raio do sol surgiu no horizonte, já estavam todos em pé, tendo feito o 

desjejum sob a pálida luz da aurora. Atalanta estava a um canto, prendendo os cabelos com uma 

tiara,  a  fim  de  não  ter  a  visão  prejudicada.  Antes  que  Meleagro  pudesse  conversar  com  ela,  a 

jovem montou agilmente sobre o dorso de seu cavalo, deixando à mostra suas coxas bronzeadas 

e  firmes,  cobertas  por  uma  fina  penugem  dourada.  O  cavalo  branco  abriu  os  grandes  dentes, 

mastigando o freio, enquanto Atalanta o conduzia para junto dos homens, que faziam retinir suas 

lanças e seus arcos em meio à semi-escuridão. 

—  Companheiros, é chegada a hora de enfrentarmos a fera! — gritou 

Meleagro, lançando um último olhar sobre Atalanta, que lhe devolveu um olhar intrigado. 

— Adiante, caçadores! — disse, esporeando sua montaria. 

O ruído intenso do galope das montarias feriu a manhã, como se um trovão partido do 

próprio solo se erguesse até as nuvens, levantando dos galhos das árvores uma multidão de aves 

assustadas.  Durante  o  trajeto,  mata  adentro,  os  caçadores  cruzaram  com  diversos  cadáveres  de 

animais  mortos,  todos  esquartejados.  Mais  adiante  encontraram  um  boi  partido  ao  meio,  cuja 

cabeça pendia de um galho, como se a fera já soubesse da vinda dos caçadores e os aguardasse 

com aquele troféu macabro. 

— Atenção, todos! — exclamou Meleagro, fazendo sinal para que suspendessem o galope 

— Creio que encontramos o covil da fera. 



De fato, uma trilha de sangue conduzia para a entrada de uma gruta escura, que parecia 

ter  sido  aberta  há  pouco  pelas  presas  imensas  do  animal.  Um  dos  guerreiros  desmontou  e  foi 

investigar a entrada. 

— Cuidado, vá com calma... — disse Teseu, que estava próximo. 

O bosque inteiro estava coberto de redes para apanhar o animal. Logo na saída da gruta 

estava montada a principal delas — uma grande tela de tecido reforçado, na qual o animal acuado 

acabaria,  fatalmente,  por  se  enredar,  tão  logo  I  enveredasse  para  aquele  lado.  O  caçador 

aproximou-se ainda mais da entrada da gruta com uma tocha. Estavam todos esperando a saída 

do  monstro  quando,  vindo  por  trás  das  costas  de  todos,  o  javali  monstruoso  surgiu,  sem  que 

ninguém o percebesse. Meleagro sentiu roçar-lhe nas pernas as cerdas eriçadas do javali, que num 

salto lançou-se às costas de um infeliz caçador, empurrando-o para dentro da gruta. Um horrível 

grito partiu de dentro da  caverna, enquanto todos  se I acercavam de sua entrada, de lanças em 

punho. Teseu, desmontando, já ia entrando na gruta, quando o corpo do caçador foi arremessado 

para fora da caverna, em pedaços. 

— Maldito assassino! — gritou Meleagro. 

Atalanta,  um  pouco  mais  atrás,  adiantou a  sua  montaria,  colocando-se  também  na  linha 

de  frente,  à  espera  da  saída  da  fera.  Os  cães  pulavam  ao  redor  esganiçando-se,  quando  o 

gigantesco  javali  surgiu  finalmente  da  boca  escura  da  caverna,  num  segundo  arremesso  que 

encheu a todos de assombro. O animal parecia ter asas. Mas foi somente quando ele se enredou 

nas malhas da rede que o aguardava na entrada de uma clareira que todos puderam avaliar o seu 

real tamanho. De fato, a sua estatura excedia a de qualquer outro javali jamais visto. Seus olhos 

despediam  fogo,  e  uma  baba  leitosa  pendia,  espumante,  de  suas  gigantescas  presas,  ainda 

vermelhas  de  sangue.  Durou  pouco,  porém,  a  sua  prisão,  pois,  debatendo-se  com  fúria  sob  as 

cordas, em poucos segundos as fez em pedaços, como se estivesse envolto por uma simples teia 

de  aranha,  arrancando  pelas  raízes  as  duas  árvores  que  sustentavam  a  rede.  Com  outro  rugido 

bestial  —  que  pareceu  a  todos  uma  risada  monstruosa  —  a  fera  arremessou-se  para  dentro  da 

mata, metendo-se por entre os troncos grossos das árvores, enquanto ia limpando o terreno com 

suas presas, diante das quais nada resistia. 

— Atrás dele! — rugiu Meleagro. 

Um  novo  estrondo  de  cascos  ressoou  por  toda  a  floresta.  Os  cavalos,  relinchando, 

lançaram-se  num  galope  cego  em  meio  às  árvores,  enquanto  os  cães  iam  à  frente,  de  dentes 

arreganhados,  parecendo  disputar  o  privilégio  de  cravar  por  primeiro  os  dentes  no  flanco  do 

animal.  Meleagro  passou  com  sua  montaria  na  dianteira,  mas  logo  viu  que  o  cavalo  branco  de 

Atalanta  lhe  ultrapassava.  A  guerreira  mantinha  as  rédeas  presas  com  duas  voltas  em  sua  mão 




direita  e  com  a  esquerda  empunhava  a  lança.  Logo  atrás,  os  demais  caçadores  avançavam  num 

estrépito  de  gritos  e  armas  que  fazia  eco  por  todo  o  bosque.  As  árvores  passavam  numa 

velocidade  vertiginosa.  Já  podiam  divisar  agora  o  javali,  que  tinha  no  seu  encalço  um  dos  cães. 

Mas, desejando livrar-se do cão, que já o mordera duas vezes, o javali deu uma cambalhota e foi 

parar um pouco mais adiante, de frente para seus perseguidores. O cão, surpreendido por aquela 

inesperada ofensiva, travou, a princípio, o passo. Em seguida avançou novamente, pronto para o 

corpo a corpo inevitável. Infelizmente para ele, o combate era demasiado desigual. O javali, pelo 

menos sete ou oito vezes maior do que o valente cão, atracou-se com o seu agressor, deixando as 

presas de lado e cravando os dentes na cabeça do cachorro. Ouviu-se um ganido rápido e terrível, 

e logo o cadáver do cachorro era lançado ao chão, numa poça de sangue. 

Assim  que  terminou  de  matar  o  inimigo,  o  javali  deu  as  costas  outra  vez  aos  seus 

perseguidores. 

— Vamos lá! O maldito demônio está entrando naquela clareira! — berrou Meleagro. — 

Ali teremos espaço bastante para abatê-lo! 

As  rédeas  foram  guiadas  naquela  direção,  e  logo  todos  os  cavalos  entravam  no  campo 

aberto, que mediava entre um bosque e o outro. As flechas partiam silvando dos arcos, passando 

como  raios  prateados  sobre  a  cabeça  dos  cavaleiros  que  iam  à  frente.  A  pele  do  animal, 

entretanto, era muito grossa, e suas cerdas atuavam como um escudo, fazendo com que somente 

algumas  lhe  penetrassem  os  flancos,  o  que  não  parecia  lhe  causar  a  menor  dor,  eletrizado  que 

estava pela volúpia da fuga, que somente os animais verdadeiramente acuados conhecem. 

Aos  poucos,  porém,  o  javali  parecia  perder  o  fôlego,  deixando  que  os  cavaleiros 

emparelhassem com ele. De fato, Meleagro já tinha a cabeça do animal quase ao alcance de sua 

lança. Mas a fera era esperta o bastante para desviar-se dos seus golpes. Em meio à correria, as 

patas de um dos cavalos ficou ao alcance das suas poderosas presas. O animal não desperdiçou a 

ocasião: mesmo na corrida, levantou o cavalo com um movimento extraordinariamente violento 

da cabe-.... fazendo cora que tanto o cavalo quanto o cavaleiro fossem arremessados para o ar, 

indo cair sobre os outros que vinham logo atrás. Atalanta, pressentindo uma sombra que descia 

do alto, ainda conseguiu, abaixando a cabeça, escapar do dorso do cavalo, que lhe passou rente 

aos  cabelos.  Uma  seta  disparada  direto  no  olho  do  javali  pela  valente  caçadora  arrancou, 

finalmente, um urro de dor do animal. 

Pela primeira vez o sangue espesso do monstro vertia em ondas pela campina. 

— Bravo! — gritou Meleagro, lisonjeando a amada. 

Atalanta,  vermelha  do  esforço,  prosseguiu,  deixando  escapar  um  discreto  sorriso  de 

satisfação. 




O  javali,  cego  pelo  próprio  sangue  e  sentindo  o  seu  fim  próximo,  decidiu  parar  e 

enfrentar  os  agressores,  num  combate  suicida.  Um  dos  cães  arrancou-lhe  uma  das  orelhas  com 

uma dentada certeira, enquanto outro cravou os dentes em seu focinho, o que o fez urrar de dor 

e  pisotear  o  agressor  até  a  morte.  Mas  logo  Meleagro  aproximou-se  e,  procurando  com  calma 

enquanto os demais o atacavam às cegas, enxergou um espaço desprotegido no flanco do javali. 

Inclinando-se  até  sentir  o  cheiro  do  suor  e  do  sangue  do  animal,  Meleagro  enterrou  ali  a  sua 

lança, com toda a força de que era capaz. Porém o fez com tal vigor e determinação que sua mão 

raspou nas cerdas do javali, deixando ali raspas da sua pele. 

O  javali  tombou  mortalmente  ferido,  escarvando  o  chão  com  as  patas.  Os  demais 

caçadores  caíram  em  seguida  sobre  a  presa,  terminando  de  abatê-la.  Atalanta  tinha  o  seio 

descoberto rijo e lustroso de suor. Meleagro, aproveitando o entusiasmo, uniu seu corpo ao dela, 

ainda em cima dos cavalos, num abraço audacioso e imprevisto, que a deixou confusa, sem saber 

se o repelia ou se o estreitava ainda mais. Meleagro, num pulo, sacou a espada, arrancou a pele do 

animal, bem como a enorme cabeça, e as ofereceu à sua amada, como prêmio pela vitória. 

Os tios de Meleagro, no entanto, levantaram-se, indignados com aquela audácia: 

— Cale-se, Meleagro! — gritou enfurecido um deles. — Troféus não são para mulheres! 

Descendo  do  cavalo,  o  homem  arrancou  brutalmente  das  mãos  de  Atalanta  o  precioso 

troféu,  num  gesto  que  acendeu  a  ira  do  sobrinho.  Instantaneamente.  Meleagro,  cego  pela  fúria, 

enterrou no peito do tio o aço inteiro da espada, fazendo o mesmo com o outro tio, que tentava 

impedi-lo.  Enquanto  isso,  na  cidade  a  notícia  da  vitória  já  chegara.  Altéia,  mãe  de  Meleagro, 

dirigiu-se  ao  templo  para  agradecer  pela  vitória  do  filho.  No  caminho,  porém,  cruzou  com  os 

corpos de seus dois irmãos. Espantada com a notícia de que Meleagro os havia abatido. Altéia, 

enfurecida, correu de volta para casa. Recolhida no seu quarto, viu a lareira acesa e imediatamente 

lembrou-se da profecia das Parcas. Num gesto de desespero, abriu o baú secreto onde mantinha 

guardado o tição fatal. Tendo nas mãos trêmulas o pedaço de madeira semicarbonizado, levou-o 

até as chamas. 

— Filho perverso, assassino de seu próprio sangue! — gritava, descabelando-se. 

Consumida  pela  dúvida,  porém,  hesitou  ainda  quatro  vezes  antes  de  lançar  o  tição  às 

chamas. Mas finalmente o jogou no fogo. 

— Que pague por seu crime, mesmo sendo meu próprio filho! — exclamou Altéia. 

Enquanto  tentava  convencer  a  si  mesma  da  justiça  de  seu  ato,  as  chamas  devoraram  o 

tição.  Meleagro,  longe  dali,  agonizou  sob  a  dor  terrível  das  chamas,  sem  saber  que  sua  própria 

mãe  era  a  causadora  de  sua  morte.  Atalanta,  segurando-o  em  seus  braços,  recebeu  na  face  o 

último e ardente suspiro do filho de Altéia. 




A  notícia  da  morte  de  Meleagro  correu  como  o  vento  por  todo  o  reino.  Tomada  pelo 

remorso,  com  o  semblante  alterado,  Altéia  correu  para  seus  aposentos  e  enterrou  uma  longa 

adaga no coração. Antes mesmo de expirar, Altéia já estava morta. 

O TOQUE DE MIDAS

 

—    Alguém  viu  por  aí  aquele  bêbado  do  Sileno?  —  perguntou  Baco,  sem  receber 



resposta. 

Sileno, preceptor de Baco, não passava um dia sem aprontar alguma. Sempre embriagado 

e montado no seu burrico, vagava o dia inteiro, sem rumo certo, até ser encontrado dias depois, 

caído pelos caminhos, a dormir o pesado sono dos bêbados. 

Desta  vez  não  foi  diferente.  Tonto  pela  bebida,  Sileno  enveredara  por  uma  estrada 

diferente,  esfalfando  seu  burrico,  até  chegar  ao  reino  do  poderoso  Midas.  Internando-se  num 

bosque,  encontrara  logo  uma  árvore  e  ajeitara-se  sob  a  sua  sombra,  para  pôr  o  sono  em  dia. 

Alguns camponeses que passavam por ali logo o reconheceram. 

— Vejam, aquele não é Sileno, pai adotivo de Baco? — disse um deles. 

Os  outros,  parando  em  frente  ao  dorminhoco,  logo  o  reconheceram  como  tal.  Os 

camponeses  colocaram-no  ainda  adormecido  sob  as  ancas  do  seu  burro  e  levaram-no  até  o 

palácio de Midas. 

— Ora, se não é Sileno, pai de meu grande amigo Baco! — exclamou Midas, ao ver entrar 

em seu salão o velho bêbado, que já andava por suas próprias pernas. Midas gostava do alarido 

divertido que o velho gorducho promovia durante suas bebedeiras; por isto, resolveu fazer dele 

seu hóspede por algum tempo. Durante dez dias o velho bêbado alegrou a corte do rei, até que 

no décimo primeiro dia Midas levou-o de volta ao seu filho adotivo. 

Baco, após dar uma descompostura no velho, agradeceu a Midas pelo grande favor que 

lhe prestara. 

—  Pode escolher, caro amigo, a recompensa que quiser — disse-lhe Baco, num ímpeto 

de generosidade. 

—  Qualquer  coisa?...  —  perguntou  Midas,  surpreso.  —  Qualquer  coisa  mesmo?—  Sim, 

claro, vamos lá, diga o que quer! — exclamou Baco, disposto a tudo. Midas parou um pouco para 

pensar. Milhares de coisas valiosas passavam por sua cabeça — coroas, troféus, estátuas, jóias -, 

sempre douradas e resplandecentes. De repente, teve uma brilhante idéia. Ou antes, uma dourada 

idéia: 


— Quero que tudo o que eu toque vire ouro. 

Baco,  que  havia  prometido  atender  ao  pedido,  qualquer  que  fosse,  tentou,  no  entanto, 

tirar essa idéia da cabeça de Midas: 



—  Meu  amigo,  acho  que  esta  não  é  uma  boa  escolha  —  disse  o  deus,  pousando 

amigavelmente a mão sobre o ombro do visitante. 

Este, no entanto, surdo a qualquer razão, queria a todo custo que seu amigo cumprisse a 

promessa. 

— Você disse qualquer coisa. 

— Quer isto mesmo? 

— Sim, claro, vamos! — disse Midas, impacientando-se. 

Baco cedeu finalmente e, por meio de um passe mágico de mãos, conferiu ao angustiado 

Midas o poder de transformar tudo o que tocasse em puríssimo ouro. 

—  Obrigado mesmo! — exclamou Midas, aproximando-se para dar um abraço em Baco. 

O deus, no entanto, esquivou-se num movimento rápido e afastou-se dando-lhe adeus. 

Para  testar  o  seu  novo  poder,  Midas  estendeu  uma  das  mãos  para  um  galho  seco  que 

pendia de uma velha árvore. 

—  Vamos ver...   — murmurou, numa expectativa ansiosa. 

Nem bem tocou no galho, no entanto, a casca começou a se esfarelar, surgindo por baixo 

uma cor dourada. 

—  Funciona! funciona! — gritava pelas veredas do bosque o rei, sapateando de euforia. 

— Serei o rei mais rico do mundo! 

Seguiu assim, saltitando e tocando em tudo o que via: tocou numa pedra e ela virou uma 

grande pepita de ouro; arrancou uma maçã de uma árvore e ela ganhou a cor dourada e pesou na 

suas mãos; achou uma velha fivela de metal e viu-a logo resplandecer diante de seus olhos. 

Midas chegou em casa com os bolsos abarrotados de insetos, galhinhos. folhas e pedras 

de  ouro  —  pois  não  quis  deixá-las  espalhadas  pelo  caminho,  incerto  ainda  da  duração  do  seu 

novo e maravilhoso poder. 

—    A  rainha  já  chegou?  —  perguntou,  assim  que  entrou  no  palácio.  Os  criados 

responderam que não, ela ainda não havia chegado. 

"Onde andará essa mulher?", pensou, impaciente para lhe contar a novidade. 

Midas sentou-se à mesa, para almoçar. Já passava de meio-dia, e a caminhada havia aberto 

seu  apetite.  Logo  as  baixelas  de  prata  foram  surgindo  nos  braços  dos  escravos.  Um  criado 

destapou  a  primeira,  da  qual  se  levantou  uma  nuvem  branca  e  cheirosa.  Os  olhos  do  faminto 

Midas lutavam por devassar a nuvem e descobrir o que o aguardava. 

— Pernil de carneiro com amêndoas e tâmaras! — exclamou, deliciado. Parecia até que o 

cozinheiro  havia  adivinhado  que  aquela  era  uma  data  especial.  Outros  pratos  foram  sendo 

colocados na mesa, cada qual mais apetitoso que o outro. Midas pegou o garfo — um magnífico 




talher  de  prata  que  se  converteu  imediatamente  em  puríssimo  ouro.  Tão  logo  levou  a  primeira 

porção à boca, percebeu que mastigava as mais duras amêndoas da sua vida. 

Levou a mão à boca, dela retirou alguns pedacinhos e viu que tinha entre os dedos três ou 

quatro pecinhas de ouro, minúsculas como pingentes. 

Midas colocou o ouro de lado e decidiu atacar o assado. Como fosse guloso, arrancou um 

pedaço  do  pernil  com  as  próprias  mãos  e  meteu-lhe  os  dentes  com  todo  o  gosto.  No  mesmo 

instante, sentiu na boca a mesma sensação de haver mordido uma chapa de ferro. O seu canino 

estalou e Midas esfregou-o com o dedo, gemendo de dor. No mesmo instante, não só este dente 

como todos os demais transformaram-se em luzentes dentes dourados. 

Lançando longe o pernil, Midas avistou um pêssego numa bandeja. Agoniado, agarrou-o 

num  ímpeto  voraz,  apenas  para  perceber  que  tinha  agora  um  pêssego  de  ouro  maciço  entre  os 

dedos, lindo de ver, mas impossível de comer. 

Neste  instante  a  bela  rainha  entrou  pela  porta  do  salão.  Estava  linda  como  sempre,  os 

cabelos molhados caídos de modo displicente sobre os ombros. 

—  Querida,  tenho  uma  grande  notícia!  —  disse  Midas,  lançando-se  feliz  em  direção  à 

esposa.  —  Você  está  diante  do  rei  mais  rico  e  poderoso  da  Terra!  -exclamou,  vermelho  de 

satisfação. 

— O que houve com os seus dentes? — perguntou a rainha, ofuscada pelo nono sorriso 

do rei. 

— Vamos, me dê logo um abraço! — pediu o rei, eufórico. 

A rainha, sem desconfiar de nada, deixou que o rei a envolvesse nos braços. 

— Ricos, ricos, eternamente ricos! — gritava ele. 

De repente, porém, sentiu que os membros da esposa enrijeciam-se. D rosto dela, colado 

ao seu, tornara-se repentinamente gelado, enquanto seus ombros haviam ficado dourados. 

—  Não!  —  gritou  Midas,  dando-se  conta  outra  vez  da  sua  horrível  situação.  —  Rainha 

querida, o que houve com você? 

Ali  estava  sua  esposa,  transformada  numa  estátua  imóvel  e  dourada.  Durante  alguns 

minutos Midas esteve também paralisado, só que de espanto. Um ruído sibilino acordou-o de seu 

horrendo  devaneio.  Sobre  a  mesa,  Mimeus,  seu  gato  de  estimação,  o  encarava,  arregalando  os 

grandes  olhos  de  pupilas  horizontais.  Cercado  de  alimentos  dourados,  inúteis  para  ele,  o  gato 

parecia cobrar com seu miado estridente uma solução, o que encheu o coração de ouro do rei de 

um ódio assassino. 

— Gato maldito, desapareça já da minha frente! — disse Midas, pulando na direção do 

gato, decidido a estrangulá-lo. 




Errou,  no  entanto,  o  alvo,  conseguindo  agarrar  apenas  a  cauda  de  Mimeus,  que  se 

transformou  instantaneamente  em  ouro.  O  gato  voltou-se  para  trás  e,  ao  perceber  aquela 

surpreendente transformação no seu traseiro, arreganhou os dentes e sumiu porta afora. 

Mas a porta já se abria outra vez: era o cunhado do rei. 

"Vem pedir dinheiro outra vez, o desgraçado!", pensou Midas com fúria. "Não adiantou 

fazê-lo ministro!" 

— Quanto é desta vez? — rugiu, indo direto ao assunto. 

O cunhado, aliviado por poder dispensar os preâmbulos, respondeu com um sorriso mais 

amarelo que o do dono da casa: 

— Bem, quinhentas moedas está bom... 

— Venha cá — disse Midas. — Antes, me dê um abraço. 

E agarrou o infeliz pelos ombros, enquanto aguardava o resultado. 

— Pronto, agora vai chegar para o resto da vida — rugiu, ao ver o cunhado virado em 

ouro. 


O  cunhado  e  ministro,  encantado  com  a  transformação,  saiu  correndo  porta  afora, 

disposto a vender-se inteiro ao primeiro que passasse. Toda aquela agitação, entretanto, provocou 

uma  sede  terrível  em  Midas,  que  agarrou  uma  jarra  cheia  de  vinho  e  a  emborcou.  No  mesmo 

instante,  sentiu  que  um  líquido  espesso  e  ardente  lhe  descia  pela  traquéia  até  cair  no  estômago 

como  chumbo  derretido. Aterrado,  espiou  para  dentro  da  jarra  e  viu  no  fundo  um  restinho  do 

ouro liquefeito que acabara de ingerir. 

Tomado definitivamente pelo pavor, Midas caiu de joelhos, levantando para o alto as suas 

douradas mãos. 

—  Baco,  salve-me!  —  implorava.  Tanto  gritou  o  desgraçado  que  o  deus  acabou 

penalizado. 

— Eu não o avisei? — perguntou Baco. 

— Me tire desta situação, pelo amor de Zeus! 

— Está bem, se acalme, vou ver o que posso fazer. Baco disse então a Midas que fosse 

até  o  rio  Pactolo  e  procurasse  a  sua  nascente.  Uma  vez  encontrando-a,  deveria  mergulhar  a 

cabeça  nas  águas,  o  que  seria  suficiente  para  fazê-lo  voltar  à  normalidade.  Midas,  sem  esperar 

mais,  lançou-se  porta  afora.  Após  atravessar  os  campos,  encontrou  a  nascente  do  rio  e  nela 

mergulhou a cabeça. No mesmo instante, as areias do rio ficaram douradas e os peixes tomaram a 

cor do sol, deixando-o livre para sempre da maldição. 




Depois dessa cruel experiência, Midas tomou-se de tal nojo pelo ouro e pelas riquezas que 

decidiu morar no mato, abandonando todas as suas riquezas e indo viver na companhia de Pã, o 

deus dos bosques. 

ALCESTE E ADMETO

 

Admeto, rei da Tessália, conseguira o que parecia impossível: a mão da bela Alceste, filha 



de  Pélias.  Após  se  apresentar  diante  dela  num  carro  puxado  por  leões  e  javalis  —  extravagante 

condição  imposta  por  Pélias  para  ceder  a  mão  da  filha  -,  Admeto  tornara-se  o  mais  feliz  dos 

homens. Estava, agora, casado com uma linda mulher, vivia num belo palácio e tinha adoráveis 

filhos. 


Um dia, porém, as coisas mudaram. Admeto adoeceu repentinamente. Uma doença que 

médico  algum  soube  diagnosticar  o  lançou  ao  leito,  de  tal  modo  que  ninguém  esperava  vê-lo 

erguer-se outra vez. Admeto estava entre a vida e a morte quando viu entrar pela porta, num dia 

chuvoso, as três Parcas — as deusas da morte, que comandam o destino dos homens. 

— O que querem aqui? — perguntou, pressentindo algo ruim. 

— Você — respondeu uma delas. 

Admeto, assustado, cobriu a cabeça com o lençol: 

— Por que querem me levar tão cedo? — indagou o doente, com a voz estrangulada pelo 

medo.  —  Vejam,  sou  moço,  meus  filhos  são  pequenos,  e  tenho  ainda  um  reino  inteiro  para 

herdar. 


Súplicas  e  lágrimas,  porém,  jamais  comoveram  as  três  soturnas  mensageiras  da  Morte. 

Átropos,  uma  das  Parcas,  puxou  do  seio  o  novelo  que  marcava  os  dias  de  vida  que  ainda 

restavam para Admeto. Havia nele somente um restinho de fio. 

— Eis o pequeno fio de vida que ainda lhe resta — disse a Parca, empunhando já a sua 

enorme tesoura, pronta para cortá-lo. 

Admeto, aterrado, reuniu suas últimas forças e lançou-se de joelhos diante das três irmãs 

fatais: 

— Por favor, por tudo o que é mais sagrado, deixem-me continuar a viver. Apolo, o deus 

predileto  de  Admeto,  assistia  à  dor  de  seu  devoto  e  decidiu  interceder  a  seu  favor  diante  das 

implacáveis irmãs, conseguindo que elas desistissem de seu objetivo mediante um compromisso. 

— Alegre-se, Admeto, pois você não morrerá mais! — disse-lhe Apolo. 

O pobre moribundo, ao receber a notícia, quase morreu outra vez, só que de alegria. 

— No entanto, Admeto, há uma condição para que você retorne ao convívio

 

dos vivos... 



— disse-lhe Apolo, com ar sério. 


—  Sim,  claro!  —  disse  Admeto,  pulando  da  cama  e  tornando  a  vestir  suas  roupas, 

enquanto assobiava uma alegre melodia. 

— Alguém terá de morrer em seu lugar. 

— Como? 


—  É  exatamente  o  que  você  acabou  de  escutar.  Escolha  alguém  para  morrer  em  seu 

lugar. 


"Sim,  muito  justo."  Alguém  morreria  em  seu  lugar,  pensou  Admeto.  Não  seria,  afinal, 

coisa muito difícil encontrar alguém que se dispusesse a tomar o seu lugar na barca de Caronte. 

Para que serviria, então, a sua imensa legião de escravos e aduladores? 

—  Você  tem  uma  semana  para  arrumar  um  substituto  —  disse  o  deus  e  se  retirou  em 

seguida. 

Admeto,  decidido  a  resolver  logo  aquela  importantíssima  questão,  envolveu-se  no  seu 

manto  impermeável  e  ganhou  a  rua,  disposto  a  arranjar  logo  o  tal  substituto  para  a  indesejável 

viagem. Foi direto à casa de seu melhor amigo, a quem favorecera desde garoto. Graças a isto, ele 

era hoje um dos personagens mais importantes da corte. 

—  Meu  querido!  —  disse  o  amigo,  ao  ver  chegar  Admeto,  todo  molhado  da  chuva. — 

Venha, sente-se ao pé da lareira — completou, estendendo-lhe um copo de vinho. 

— Preciso muito de um favor seu — foi logo dizendo Admeto. 

— Um favor? 

—    Sim,  preciso  que  você  morra  em  meu  lugar  —  disse  Admeto,  em  sua  ingênua 

confiança. 

— Morrer? — exclamou o amigo, assombrado. 

Admeto  explicou-lhe,  então,  em  breves  palavras,  a  sua  situação.  Enquanto  o  fazia,  o 

amigo  engendrava  em  seu  cérebro  um  modo  de  se  esquivar.  Quando  Admeto  concluiu,  ele  já 

tinha a sua desculpa pronta. 

—  Infelizmente,  meu  querido  amigo,  já  tenho  uma  outra  viagem  programada  há  mais 

tempo. 

Depois, pretextando um compromisso, pôs Admeto para fora de sua casa. 

Admeto estava perplexo. Procurou, então, outro amigo e obteve a mesma resposta, sob 

outras  palavras.  Percorreu  a  cidade  inteira,  durante  todo  o  dia,  sempre  debaixo  de  chuva,  sem 

receber  outra  resposta.  Até  que  retornou  à  noite  pari  casa  com  uma  pneumonia  que  quase  o 

desobrigou de encontrar um substituto. 

A solução, pensou Admeto, só poderia estar dentro de sua própria casa. Decidiu enfileirar 

diante de si todos os criados: 




— Preciso que um de vocês morra por mim — disse Admeto, com um ar solene. — Um 

só, porém, será o suficiente — completou, certo de que todos se lançariam a seus pés, felizes em 

poder provar a sua lealdade. 

No  entanto,  não  só  nenhum  deles  deu  um  passo  adiante,  como  recuaram  todos  até  a 

parede, como se Admeto houvesse encostado em seus peitos uma espada afiada. 

Faltavam apenas dois dias para que o prazo se esgotasse quando as Parcas retornaram. 

— Já arrumou alguém para o seu lugar? — perguntou uma delas. 

— Não, ainda não — confessou Admeto, de olhos baixos. 

—  Caronte  atrasou  a  saída  de  sua  barca  apenas  por  sua  causa  e  está  louco  para 

descarregar nas suas costas o seu pesado remo — disse outra Parca, raivosa. 

— Não se preocupem — disse Admeto, assustado. — Arrumarei logo um substituto. 

— Depois de amanhã a Morte virá buscá-lo — disse a última, retirando-se. Admeto, em 

pânico, decidiu recorrer a seus pais. Qual pai não daria a vida 

pelo seu próprio filho? Afinal, estavam velhos e já haviam vivido o bastante, enquanto ele, 

jovem, tinha ainda uma vida inteira pela frente. Mandou chamá-los. 

Os dois velhos  surgiram  no palácio, apoiados em suas bengalas. Nunca freqüentavam o 

palácio, porque o velho tinha pavor das correntes de ar que sopravam pelos corredores. 

—  Hein,  meu  filho?  —  disse  o  velho,  completamente  surdo  às  razões  do  filho.  -Morrer, 

papai... Morrer em meu lugar, que tal? — esganiçava-se Admeto. 

— Adeus, tem muito vento por aqui — disse o velho, retirando-se, aos trambolhões. 

A mãe, completamente senil, não entendeu uma palavra do que ele disse. 

— Meu Deus, e agora? — exclamou Admeto, no último grau de desespero. Seu pranto, 

no entanto, chamou a atenção de Alceste, sua dedicada esposa. 

—  Admeto  querido,  tenho  notado  que  você  anda  perturbado,  desde  a  sua  doença  — 

disse ela. — O que houve, ela voltou? 

Admeto,  que  havia  até  então  ocultado  da  esposa  o  terrível  dilema,  revelou-lhe  toda  a 

verdade. 

— Como, meu amor? — disse a infeliz esposa. — Irei perdê-lo amanhã? 

— Sim, Alceste querida, o prazo fatal já se esgota! Amanhã, sem falta, o gênio da Morte 

virá me buscar. 

Depois de ficar abatida por um longo tempo, Alceste ergueu a cabeça e declarou: 

— Morrerei, então, em seu lugar. 

— Não, querida Alceste, isto não posso aceitar. 

— Sim, tomarei seu lugar, pois não saberia viver sem você. 




Alceste decretara a sua própria morte: no mesmo instante, foi tomada por uma vertigem, 

caindo  desacordada  ao  solo.  Recolhida  ao  leito,  seu  estado  somente  piorou.  No  dia  seguinte, a 

casa preparava-se já para o luto. Admeto, inconsolável, errava pelos corredores do palácio. 

— Desgraçado de mim! Por causa de minha covardia perderei a coisa mais cara de minha 

vida. 

De repente, porém, alguém bateu à porta. Era ninguém menos do que Hércules, o herói e 



semideus, que estava de passagem, preparando-se para realizar os seus famosos doze trabalhos. 

— Desculpe incomodá-lo, meu jovem, mas preciso descansar um pouco -disse Hércules, 

de modo jovial. 

Admeto,  apesar  da  ocasião  não  ser  a  mais  propícia  a  visitas,  recebeu-o  com  toda  a 

hospitalidade. Hércules foi, assim, admitido à mesa, embora seu anfitrião pedisse desculpas por 

não poder lhe fazer companhia. Admeto não quis revelar o verdadeiro motivo para não aborrecer 

o visitante com as suas dores. Deu ordens, também, para que não deixassem que ele percebesse o 

luto que reinava na casa. 

Instalado  à  mesa,  Hércules  comeu  à  vontade,  enquanto  bebia  de  uma  grande  jarra 

depositada  à  sua  frente;  aos  poucos  o  herói  foi  se  alegrando  e  começou  a  entoar  algumas 

animadas  canções  de  taverna.  Admeto,  apesar  da  inconveniência  involuntária  do  visitante,  não 

interferiu em suas expansões. Mas um criado da casa decidiu alertar o hóspede, por conta própria. 

— Perdão, senhor, mas há luto na casa — disse o escravo, num tom baixo e receoso. 

Hércules, corando de vergonha, silenciou. Chamou, então, Admeto, para saber o que se 

passava. Após tomar conhecimento dos fatos, ergueu-se da mesa. com decisão, e disse: 

—  Pois  amanhã,  quando  a  Morte  vier,  a  estarei  esperando.  Admeto,  enchendo-se  de 

esperanças, ainda tentou demover o herói: 

— Não sei, Hércules... é a Morte, e dela ninguém escapa. 

— De qualquer modo, tentarei — disse o herói, que não tinha medo de nada. Depois de 

visitar a enferma Alceste, Hércules foi postar-se à entrada do quarto. Ali passou a noite toda em 

vigília, envolto em uma pele e empunhando um porrete, enquanto lá dentro Alceste agonizava. 

Com a primeira luz do dia surgiu finalmente a Morte, portando a sua tocha invertida, símbolo da 

escuridão do Tártaro. Hércules impediu-lhe, contudo, a passagem: 

— Afaste-se! Alceste está sob a minha guarda. 

— Vim buscá-la, mortal atrevido, conforme me ordenou Plutão, o deus dos infernos — 

disse a Morte, agitando as grandes asas negras. 




Mas  Hércules  não  arredou  pé  do  lugar.  Os  dois,  então,  atracaram-se  num  duelo 

verdadeiramente mortal, enquanto Alceste, abraçada a Admeto, ouvia o tremendo fragor da luta 

que do outro lado da porta decidia o seu destino. 

—  Nada  tema,  Alceste!  —  disse  Admeto,  como  se  ele  próprio  estivesse  lá  fora,  dando 

combate à morte. 

— Se alguém tem medo nesta casa, é você, querido Admeto — disse Alceste. censurando 

discretamente a covardia do esposo. 

O castelo inteiro retumbava com os golpes que Hércules desferia com seu porrete sobre a 

sua  inimiga,  no  corredor.  Um  longo  tempo  durou  a  disputa,  até  que  a  Morte,  temendo  pela 

própria vida, retirou-se, vencida. 

— Para mim chega. Vou procurar outro para levar no seu lugar — disse, fugindo, com 

uma asa quebrada e o nariz sangrando. 

E foi deste modo que Alceste, sadia, voltou para os braços do seu querido Admeto. 

O SUPLÍCIO DE TÂNTALO

 

Desde as primeiras horas da manhã, o palácio onde morava Tântalo, rei da Lídia, estava 



num rebuliço. Não era para menos, pois seu pai, Júpiter, deus dos deuses, estava prestes a chegar 

para  um amigável  almoço.  Além  dele,  viriam  também  seu  inseparável  filho Mercúrio  e  Ceres,  a 

deusa da fertilidade. 

Tântalo estava preocupado. 

"O que irei oferecer a Júpiter, no almoço?", perguntava-se. 

Tântalo, que apesar de rei tinha um temperamento um tanto servil, queria apresentar aos 

convidados  um  prato  digno  de  seus  paladares  divinos.  Levando  ao  extremo  a  sua  intenção  de 

agradar, mandou chamar seu filho Pélope, que descansava em seus aposentos. 

—  Pélope,  meu  filho,  hoje  você  terá  o  prazer  de  estar  à  mesa  junto  com  os  deuses!  — 

disse o risonho Tântalo, assim que botou os olhos no rapaz. 

— Oh! Teremos à mesa conosco o meu avô Júpiter? — exclamou, encantado, o rapaz. 

— Não só ele, mas ainda outras duas divindades! — disse Tântalo, procurando animá-lo 

ainda mais. 

— Divino! Maravilhoso! Vou vestir meu melhor manto! — disse Pélope, retirando-se. 

—  Eu  diria  bárbaro  —  replicou  o  rei  de  modo  enigmático.  Depois  que  o  filho  saiu, 

Tântalo chamou às pressas o cozinheiro. 

—  Vá  atrás  de  Pélope,  mate-o  e  faça  um  assado  magnífico  com  ele  —  disse  o  rei, 

calmamente. 

O cozinheiro, estranhando o pedido, ficou sem ação. 



— Vamos, idiota, faça o que eu disse! — exclamou Tântalo. — Hoje é um dia especial. 

"Júpiter ficará encantado ao descobrir que lhe sacrifico o meu próprio filho!", pensou o 

rei, acostumado à prática, ainda corrente em seu reino, dos sacrifícios humanos. 

Pélope, porém, antes de ser morto, foi trazido até o seu cruel pai. 

— Idiota! — disse o rei, furioso, ao cozinheiro. — Não disse para matá-lo de uma vez? 

—  Pai,  não  faça  isso!  —  implorava  o  pobre  rapaz.  —  Você  não  disse  que  eu  estaria  à 

mesa, daqui a instantes, com os deuses? 

— Sim, e estará! — disse Tântalo. — Vamos, escravo, faça rapidamente o que eu disse. 

Depois, enquanto o filho era arrastado para o cepo, tentou acalmá-lo: 

—  Vamos,  rapaz,  deixe  de  fricotes.  Pedirei  a  Júpiter  que  o  recompense  com  a 

imortalidade! 

Apaziguada  a  sua  consciência  perversa,  Tântalo  chamou  as  escravas  e  ordenou  que 

preparassem a mesa com o maior requinte possível. Na verdade, pretendia pedir para si próprio a 

imortalidade. Afinal, não era filho do imortal deus dos deuses? Por que não podia ser eterno ele 

também? 

Já  ia  alta  a  manhã  quando  os  visitantes  se  aproximaram  do  palácio.  Todos  pareciam 

pouco  animados.  Enquanto  Mercúrio  vinha  à  frente,  distraído,  mais  atrás  vinha  o  seu  pai,  de 

braço dado com Ceres. 

— Veja, pai, estamos chegando — disse Mercúrio, ao avistar as torres do palácio. 

— Vamos de uma vez — exclamou Ceres, como quem diz, "se tem de ser, que seja logo". 

Júpiter concordou, e os três apertaram o passo. Em instantes surgiram os três deuses no 

salão. 


Enquanto  isso,  o  rei  deliciava-se  com  a  idéia  da  imortalidade:  "Deus  Tântalo!",  pensava 

ele. Um escravo entrou na sala, cortando o fio de seu pensamento. 

— Magnânimo rei, as visitas já chegaram! — disse o escravo, curvando-se. 

—  Ótimo!  Mande-os  entrar.  Mexa-se  imbecil  —  disse  o  rei,  aprumando-se.  Ao  ver 

entrarem  as  três  divindades,  Tântalo  adiantou-se,  fazendo  uma  profunda  reverência  ao  seu 

poderoso pai. 

— Seja bem-vindo, poderoso Júpiter, diante do qual todos os poderes celestes e terrenos 

se humilham — disse, beijando-lhe os pés. 

Em  seguida,  querendo  chegar  logo  até  a  bela  deusa,  beijou  rapidamente  os  pés  de 

Mercúrio.  Quando,  porém,  chegou  até  os  pés  da  encantadora  Ceres,  esta  lhe  ofereceu 

distraidamente a sola empoeirada das sandálias. 



— Divina Ceres, seus encantos superam, hoje, os da própria Vênus! — disse o rei, com a 

boca coberta de pó. 

Tântalo conduziu todos até os seus assentos. 

— Como vão as coisas lá em casa, pai? — perguntou a Júpiter, referindo-se ao Olimpo. 

— Vão bem, vão bem — disse o pai dos deuses, lacônico. 

Júpiter, na verdade, detestava aquelas visitas anuais que era obrigado a fazer ao seu filho 

bastardo. 

— Mercúrio, tem viajado muito? — disse, voltando-se ao meio-irmão, na tentativa de ser 

simpático. 

Mercúrio assentiu, sem dar muita conversa. 

—  E  você,  Ceres,  sempre  linda,  hein?  —  disse  Tântalo,  aproximando  seu  rosto  de 

maneira  quase  obscena.  —  Foi  boa  a  colheita  este  ano?  —  ajuntou,  enquanto  lhe  cheirava  os 

cabelos. 

— Bastante — respondeu a deusa, estendendo o guardanapo, sem olhar para o rosto do 

interlocutor. 

De repente, surgiram quatro escravos carregando uma imensa bandeja, que foi depositada 

com pompa sobre a mesa, diante de Júpiter. Tântalo esfregava as mãos sob a mesa, na expectativa 

da reação favorável de seu pai. "Desta vez sai a imortalidade!", pensou, com euforia. 

A tampa foi descoberta. Em meio a tâmaras, amêndoas e nozes descansavam os pedaços 

do pobre Pélope. 

— Faço questão de servi-lo eu mesmo — disse Tântalo a Júpiter, arremessando-se para a 

bandeja  e  expulsando  o  escravo  com  um  safanão.  —  Carne  branca  ou  mais  escurinha,  pai?  — 

perguntou, estudando a tigela. 

— Branca — disse Júpiter, distraidamente. 

Depois de escolher mil vezes, o anfitrião selecionou um grande pedaço de carne branca. 

Em seguida, serviu também a deusa. 

— Miúdos não, obrigada — disse ela, secamente. 

Depois de servi-la com mil trejeitos, colocou, finalmente, um pouco de carne no prato de 

Mercúrio.  Este  último,  antes  de  começar  a  comer,  percebeu  que  lhe  tocara  o  pior  pedaço.  Na 

verdade, era implicância de Tântalo, que tinha ciúmes do filho predileto de Júpiter. 

— Isto aqui parece um pé humano — disse Mercúrio, depondo os talheres sobre a mesa. 

Todos  os  rostos  se  ergueram  dos  pratos.  Ninguém,  a  não  ser  Ceres,  que  era  a  mais 

faminta de todos, havia começado a comer. "É agora!", pensou Tântalo. 



— Sim, pai, é o pé de meu querido Pélope! — disse o rei, orgulhoso, a Júpiter, corno se 

tivesse sido este o autor da observação. 

Júpiter ergueu um olhar ao rei da Lídia, de tal forma feroz, que o tornou branco como a 

parede de mármore. 

— Como se atreve, maldito, a me oferecer a carne do próprio filho? Mercúrio levantou-se 

da mesa, enojado, enquanto Ceres era acometida de náuseas. 

—  Mas  pai,  é  um  sacrifício  humano!  —  disse,  atônito,  o  rei.  —  Quis  provar  a  minha 

dedicação extrema oferecendo-lhe, em holocausto, o meu próprio filho! 

— Idiota! Não sabe que a prática dos sacrifícios humanos já foi há muito tempo abolida? 

— disse Júpiter. 

Enquanto  isto,  Mercúrio,  penalizado  da  sorte  de  Pélope,  espiava-o  dentro  da  imensa 

tigela: 


— Pai, vamos tentar trazê-lo de volta à vida — disse. 

Imediatamente foi trazida da cozinha uma grande caldeira. Mercúrio, num vôo rápido, foi 

até o Olimpo buscar Cloto, uma das Parcas, para que com sua magia restituísse a vida a Pélope. 

Num instante, os restos do rapaz foram retirados da bandeja e passados à caldeira, de onde, por 

suas artes mágicas, Cloto retirou Pélope com vida outra vez. Seu ombro, no entanto, perdera-se, 

pois  Ceres  o  havia  comido,  inadvertidamente.  Júpiter,  porém,  lhe  deu  um  ombro  novo, 

inteiramente de marfim. 

— Obrigado, Júpiter supremo! — disse o rapaz, feliz com seu novo e elegante ombro. 

Quanto a Tântalo, Júpiter foi implacável: 

—  Mercúrio,  leve  este  patife  para  os  infernos!  —  disse,  tomado  de  cólera.  De  nada 

adiantaram as súplicas do cruel rei. Em algumas horas, entrava no inferno, sendo recepcionado 

por Plutão e sua esposa Prosérpina, a rainha do reino sombrio. 

— Imperador das regiões inferiores, trago-lhe este assassino! — disse Mercúrio a Plutão. 

—  Ótimo, conduza-o até aquele lago, lá adiante — disse Plutão, com um gesto de mão. 

Então  Tântalo  foi  jogado  dentro  de  um  grande  lago.  Foi  deixado  ali,  somente  com  a 

cabeça a descoberto. 

—  Até  que  está  fresquinho,  aqui!  —  disse  o  prisioneiro,  que,  apesar  de  imóvel,  estava 

mergulhado num lago de águas frescas, cercado de árvores carregadas dos mais belos frutos. 

De repente, torturado por uma terrível e insuportável sede, Tântalo, sem poder dobrar o 

corpo, abaixou a cabeça para beber um pouco do líquido refrescante, pois a água estava quase na 

linha  de  sua  boca.  A  água,  contudo,  instantaneamente  lhe  desceu  até  os  pés,  ao  menor 

movimento  do  pescoço.  Depois,  tomado  por  uma  fome  devastadora,  estendeu  o  braço  para 




alcançar os deliciosos frutos que pendiam das árvores ao redor. Porém, quando quase tinha um 

deles nas mãos, um forte vento ergueu o galho para o alto, tornando o fruto inatingível aos seus 

curtos  braços.  Deste  modo  Tântalo  alcançou  a  imortalidade  no  inferno,  como  prêmio  por  sua 

selvageria. Pélope, o rapaz do ombro de marfim, por sua * tornou-se rei do Peloponeso. 

O TONEL DAS DANAIDES

 

Belo, rei do Egito, tinha dois filhos: Egito e Danao. Cada qual teve cinqüenta filhos. O 



primeiro, cinqüenta rapazes, e o segundo, cinqüenta moças. Ora, os cinqüenta filhos de Egito não 

se  entendiam  jamais  com  as  cinqüenta  filhas  de  Danao.  Em  conseqüência,  uma  guerra  civil 

estourou, lançando uns contra os outros. Após ferozes combates, os filhos de Egito expulsaram 

do  país  Danao  e  suas  cinqüenta  filhas,  obrigando-os  a  procurar  refúgio  no  reino  vizinho  de 

Argos. Felizmente, o rei de Argos, Celanor, recebeu os exilados com toda a generosidade, dando-

lhes casa, comida e proteção. 

Em reconhecimento, Danao e suas cinqüenta filhas expulsaram-no do trono. 

A conspiração começou com um ataque promovido por um lobo contra o rebanho do rei 

Celanor. A fera, confiante em sua força, abatera o touro que chefiava o rebanho, tomando conta 

do restante dos animais. Vendo nisto um pretexto. Danao decidiu comprar os vaticínios de um 

sacerdote influente para que convencesse a corte inteira de que isto era o sinal evidente de uma 

profecia divina. O sacerdote, diante do povo, explicou então o significado profético do fato: 

— O sentido deste acontecimento é evidente e irrefutável — disse. — Significa que uma 

nova autoridade está prestes a assumir o comando do nosso reino. 

— Ai daqueles que se recusarem a se submeter a esta autoridade! — disse Danao, que por 

conta própria já se proclamara o novo rei. 

O  povo,  assustado,  reconheceu  imediatamente  o  novo  rei,  enforcando  em  seguida  o 

anterior, numa emocionante cerimônia em praça pública. No reino vizinho, entretanto, a notícia 

chegara ligeiro. 

— Poderoso rei Egito! — disse o mensageiro, que trazia a notícia. — Seu irmão, Danao, 

agora é o novo rei de Argos! 

Temendo  que  isso  pudesse  lhe  trazer  complicações  futuras,  Egito  resolveu  prevenir-se, 

chamando os seus cinqüenta filhos: 

— Rapazes, quero que vocês se casem o mais rápido possível com as filhas de Danao! — 

disse o rei, sem admitir recusas. — Danao agora é rei de um país mais rico e poderoso do que o 

nosso e precisamos fazer esta aliança com ele. 

Egito,  na  verdade,  tinha  razão  em  tentar  comprar  a  amizade  de  seu  irmão.  Danao  só 

esperava uma ocasião para pôr em prática a sua vingança. Alguns dias depois, um mensageiro de 




Egito  chegou  à  corte  de  Danao,  trazendo  os  cinqüenta  convites  de  casamento.  O  rei,  após 

dispensá-lo, chamou as suas filhas. 

— Minhas adoráveis filhas! — disse -, quero que vocês aceitem o pedido de casamento 

dos cinqüenta filhos de Egito. 

—    O  quê?  Como  poderíamos  aceitar,  se  nos  traíram  de  modo  tão  vil?  -exclamaram  as 

cinqüenta moças, indignadas. 

— Calma, minhas filhas!  — disse  Danao, tentando explicar-se. — Depois da cerimônia 

nupcial, vocês terão o prazer de vingar-se deles todos, matando-os durante a sua primeira noite 

de amor — completou, com um sorriso. 

— Ah, bom... — disseram, aliviadas. 

O dia das núpcias chegou. Uma grande festa parou o reino inteiro. Durante a manhã, as 

cinqüenta filhas de Danao receberam como maridos os cinqüenta filhos de Egito. Um banquete 

faraônico deu prosseguimento às festividades, até que a noite caiu. 

— Agora é preciso que os casais partam para os deliciosos jogos de Vênus! — decretou o 

rei de Argos, dando a bênção aos recém-casados. 

Os casais instalaram-se às margens do belo lago de Lerne, em alvas e espaçosas barracas. 

De  tal  forma  estava  o  local  protegido  da  curiosidade  do  povo,  que  apenas  as  estrelas  teriam  o 

privilégio  de  escutar  as  conversas  dos  amantes.  Dentro  de  cada  ampla  barraca,  cada  uma  das 

filhas de Danao já se despia, revelando aos olhos do respectivo marido as suas formas perfeitas. 

Sob os travesseiros, porém, repousavam cinqüenta afiados punhais de prata. 

Embriagados  pela  visão  de  suas  cinturas  finas  e  aveludadas,  os  esposos  também 

começaram a se despir. Antes, porém, que pudessem acalmar o fogo de seus desejos, foram todos 

apunhalados pelas mulheres, sem dó nem piedade. O sangue espirrou por tudo, respingando até 

nas estrelas, ornando algumas delas de um halo vermelho. 

Depois  de  consumado  o  crime,  as  filhas  de  Danao  arrancaram  as  cabeças  dos  maridos, 

lançando os corpos nas águas do lago, que se tingiu inteiro de vermelho. 

Uma delas, no entanto, recusara-se a assassinar o homem com quem recém casara. 

— Meu adorado! Amo você e por isto me vejo obrigada a desobedecer a meu próprio pai 

— exclamou, jogando longe a adaga e caindo nos braços do esposo. 

Era Hipermnestra, a única que fez correr naquela noite o seu sangue virginal. 

No dia seguinte, todas as filhas de Danao, menos Hipermnestra, apresentaram-se diante 

do rei empunhando as cabeças de seus cônjuges. Ele exultou ao ver concretizada, finalmente, a 

sua  vingança.  Porém,  revoltado  com  Hipermnestra.  que  faltara  com  sua  palavra,  atirou-a  num 

calabouço. Já o marido dela, Linceu. fugiu às pressas para o país vizinho. 




No entanto, as danaides, como eram chamadas as filhas de Danao, ficaram outra vez sem 

maridos. 

"Precisamos  dar  um  jeito  nisso",  pensou  o  pai  das  quarenta  e  nove  virgens.  Para  tanto, 

decidiu organizar um grande torneio, no qual os vencedores receberiam as mãos de suas filhas em 

casamento. 

— Uma corrida de quadrigas! — sugeriu Danao às moças. 

—  Oba!  —  exultaram  elas,  felizes  na  expectativa  de  terem  uma  nova  distração.  Na 

verdade, desde a divertida noite dos punhais as coisas andavam meio aborrecidas na corte. 

No  dia  das  corridas,  apresentaram-se  à  corte  centenas  de  concorrentes.  As  danaides 

podiam estar certas, ao menos, de arrumar quarenta e nove esposos valentes e destemidos; afinal, 

não era qualquer um que se dispunha a morrer num acidente de quadriga ou a ser apunhalado na 

própria noite de núpcias. 

Os carros já estavam dispostos na linha de partida. Num balcão, acomodavam-se o rei e 

suas  quarenta  e  nove  virgens.  Os  competidores,  em  cima  das  quadrigas,  tentavam  conter  os 

cavalos, que escarvavam o chão, ansiosos para lançarem-se na pista. As danaides percorriam com 

olhos ávidos os corpos nus de seus pretendentes — que estavam livres das vestes, para facilitar a 

escolha  das  exigentes  mulheres.  Foi  dada  a  partida.  Uma  onda  de  pó  levantou-se  à  saída  dos 

competidores.  Os  de  trás,  sem  nada  enxergar,  logo  se  embolaram,  virando  seus  carros  num 

amontoado de cavalos, quadrigas e cabeças partidas. Um urro de prazer partiu das arquibancadas, 

tomadas pela plebe. A pista, no entanto, era grande e circular; assim, enquanto os competidores 

restantes faziam a volta, os mortos eram recolhidos e lançados num monturo. 

— Eia, cavalos! — berravam os dianteiros, que, emparelhados, distribuíam chicotadas no 

dorso dos cavalos e na cara dos adversários. 

Os  braços  rijos  e  suados  dos  homens  seguravam  com  firmeza  as  rédeas.  Do  alto  da 

cabeça descia-lhes um suor, que o vento secava rapidamente, mas que se renovava a cada novo 

esforço que faziam. Os olhos das danaides faiscavam. Seus noventa e oito cotovelos cutucavam-

se o tempo todo, a cada novo ângulo de observação que tinham dos corpos dos competidores. 

—  Aquele lá é meu! — exclamou uma delas, escolhendo o líder da corrida, que tinha os 

membros lustrosos do óleo que passara por todo o corpo, antes da disputa. 

Infelizmente para ela, o carro de seu eleito tombou numa curva, bem em frente à tribuna, 

lançando-o  ao  chão  como  um  marionete  de  madeira.  Um  grito  de  horror  partiu  das  virgens, 

enquanto  o  corpo  do  rapaz  rodopiava  velozmente  pelo  chão,  parecendo  um  deus  hindu  de 

duzentos  braços  e  duzentas  pernas.  Em  seguida,  o  carro  que  vinha  atrás  passou  sobre  o 

concorrente, esmagando-lhe a cabeça. 




A  corrida  chegava ao  seu  final.  Os  quarenta  e  nove  primeiros  competidores  cruzaram a 

linha de chegada, sob a ovação das moças e da ralé ajuntada nas arquibancadas. Cobertos de pó, 

os pretendentes subiram os degraus da tribuna, indo ajoelhar-se diante das suas futuras esposas. 

Depois  de  limpar  com  seus  lenços  o  suor  e  o  pó  dos  corpos  dos  vitoriosos,  as  danaides 

depositaram sobre suas frontes douradas coroas de louro. 

Enquanto isso, no reino vizinho, Linceu, o marido de Hipermnestra, reunira-se às forças 

de Egito e invadira o país de Danao. O caos instalou-se. 

Danao  foi  preso  e  morto.  Hipermnestra,  a  danaide  virtuosa,  foi  libertada  de  sua  prisão 

pelo   esposo. O  sangue correu pelas ruas da capital, até que Linceu, o vencedor daquela noite 

fatídica, transformado em novo rei do país, viu chegada, enfim, a hora de vingar a morte de seus 

quarenta e nove irmãos. Dirigiu-se com seus soldados até o palácio e ainda chegou a tempo de 

capturar as virgens, enlouquecidas de medo. Todas as perversas danaides foram, então, passadas a 

fio  de  espada,  sem  piedade.  No  mesmo  dia,  suas  almas  entraram  no  Hades  sombrio;  lá  as 

aguardava, impaciente, Minos, um dos juízes do inferno, que lhes decretou uma punição coletiva. 

Carregadas  de  ferros,  foram  conduzidas  até  a  beira  de  um  imenso  lago.  Cada  qual, 

portando um pesado jarro de chumbo, foi obrigada a enchê-lo de água até as bordas e levá-lo até 

a beira de um gigantesco tonel, despejando ali o conteúdo. E assim deveriam repetir a tarefa para 

todo sempre, até encher o imenso tonel — que não tem fundo. 

HERO E LEANDRO

 

O  sol  começava  a  desaparecer  lentamente  nas  águas  do  Helesponto,  o  grande  estreito 



marítimo que separa a Ásia da Europa. No lado europeu estava situada a cidade de Sestos, onde 

vivia uma jovem sacerdotisa de Vênus, chamada Hero. A moça subia as escadas que levavam ao 

topo  do  farol  da  ilha,  levemente  ansiosa.  A  ponta  de  um  sorriso,  porém,  iluminava  os  lábios 

fechados.  Seu  sorriso  sempre  fora  assim,  velado,  com  apenas  duas  riscas  graciosas  nas 

extremidades da boca finamente desenhada. 

Acostumada a enfrentar todo dia a longa escadaria com suas pernas de musculatura rija, 

porém  afilada,  Hero  ia  cantando,  baixinho,  um  hino  à  deusa  de  sua  devoção.  Poderia  cantar  a 

plenos  pulmões,  se  quisesse,  pois  não  havia  ninguém  naquele  lugar  desolado.  Mas  Hero  tinha 

predileção pelos gestos discretos. 

Chegando  até  o  topo  do  farol,  Hero  relanceou  a  vista  para  fora.  Suas  narinas  de  asas 

delicadas  fremiram,  aspirando  o  ar  levemente  acre  do  fim  da  tarde  Constatou  que  a  chama  do 

pavio  da  grande  lanterna  estava  quase  apagada.  Na  verdade,  ela  quase  nunca  chegava  a  se 

extinguir,  mesmo  com  os  fortes  ventos  que  costumavam  soprar  do  oriente,  pois  estava  sempre 

protegida por um grande caixilho espelhado. 




— Está na hora de avivá-la outra vez — disse, ciciando as palavras, que escaparam quase 

imperceptivelmente dos lábios entreabertos. Logo, dentro da grande caixa prateada, brilhou outra 

vez a grande e fosforescente jóia de ouro. o sinal benfazejo que guiava as embarcações por toda a 

extensão  do  Helesponto.  Hero  adorava  este  nome,  que  aprendera  a  ouvir  desde  criança;  sua 

sonoridade elegante a fazia repeti-lo constantemente: 

— Helesponto... — dizia, escandindo as sílabas, enquanto fechava outra | a portinhola que 

mantinha a chama brilhante a salvo da chuva e dos ventos. 

Naquela  noite,  entretanto,  o  céu  estava  completamente  limpo.  A  esta  altura,  Hero  não 

tinha  mais  os  olhos  postos  no  horizonte  nem  tampouco  no  céu.  Eles  estavam  voltados  para  a 

outra margem — na distante Abidos, que ficava no outro extremo do estreito — e procuravam 

algo, com ansiedade. 

—  Não,  ainda  é  muito  cedo...  —  disse  Hero,  fechando  a  túnica  e  debruçando-se 

levemente sobre a balaustrada exterior. 

Ela  esperava  alguém.  Todas  as  noites,  essa  pessoa,  guiada  apenas  pela  lua  e  pela  luz  do 

farol,  lançava-se  audaciosamente  ao  mar.  Após  atravessá-lo  a  nado,  ia  em  seguida  atirar-se  aos 

braços da jovem, que o aguardava. 

Leandro era o seu nome — um belo rapaz que morava em Abidos. Há um bom tempo o 

jovem usava desse ousado expediente para ir visitá-la todas as noites — ou ao menos naquelas 

em que o céu permitia que se lançasse ao mar com segurança. 

Hero permaneceu ainda um bom tempo reclinada no parapeito. Um de seus pés apoiava-

se levemente sobre o outro, subindo até a canela e descendo outra vez, numa carícia inconsciente. 

De  repente,  porém,  a  jovem  teve  sua  atenção  despertada  por  um  ligeiro  espanejar  em  meio  às 

águas, que estavam incomumente calmas. Era ele, com toda a certeza! 

Atirando  os  braços  com  vigor  e  regularidade,  Leandro,  de  fato,  avançava,  subindo  e 

descendo por entre as ondas que ondulavam com suavidade. 

A jovem, com um grito de satisfação, lançou-se em direção às escadas, descendo com a 

agilidade de uma pequena corça os grandes degraus da escadaria. Hero já estava agora em pé, nas 

areias da praia deserta, segurando o manto de Leandro: o jovem chegava e partia sempre liberto 

das roupas, para ter seus movimentos facilitados no confronto com as ondas. 

Hero o divisava, já, na rebentação. Mais um pouco e ele já não necessitaria da força dos 

seus musculosos braços para vencer as ondas. Pondo-se em pé, atravessou com decisão o resto 

do percurso, fendendo com os joelhos a água que lhe dava já pela cintura. 

— Leandro! — exclamou Hero. 



O rapaz, renovando o ímpeto, avançava em direção a ela. Hero, deixando que suas vestes 

lhe deslizassem até os pés, imitava-o em sua nudez. Embora demonstrasse uma calma aparente, 

Hero também tinha uma vontade louca de sair correndo na direção de Leandro. 

— Consegui, mais uma vez! — disse ele, tomando o rosto da jovem em suas mãos. 

— Que bom... — retorquiu Hero, com seu sorriso velado. 

Leandro  deu-lhe  um  beijo  na  boca,  que  Hero  retribuiu  sem  o  mesmo  pudor  dos  seus 

habituais sorrisos. 

Os  dois,  de  modo  geral,  eram  impotentes  para  refrear  os  primeiros  instintos.  Depois, 

abraçados,  avançavam  mais  calmos  para  o  interior  da  ilha,  onde  a  jovem  morava  em  solidão 

completa.  Recolhidos  aos  aposentos  da  jovem  Hero  —  que  naqueles  instantes  pertenciam  a 

ambos —, ali completavam, durante toda a noite, os mistérios prescritos por Vênus. 

—  Leandro,  querido  —  disse  Hero,  já  de  madrugada,  passando  a  mão  nos  cabelos 

revoltos de Leandro. 

—  O  que  foi?  —  perguntou  o  rapaz,  que  sentia  seus  olhos  pesarem,  finalmente,  após 

tantos esforços combinados numa mesma noite. 

— Preferia que você não repetisse mais as palavras que você sempre diz quando chega do 

mar — disse Hero, séria. 

— Que palavras, meu amor? — perguntou o rapaz. 

— Consegui, mais uma vez — disse a moça, imitando com graça a voz rouca de Leandro. 

— Por quê? 

— Porque dá a impressão de que um dia você, talvez, não consiga. Leandro colocou o dedo 

indicador sobre os lábios de Hero, silenciando-a: 

— Não diga tal coisa. Sempre conseguirei! — completou, com a confiança característica 

da juventude. 

Quando a manhã surgiu, Leandro partiu novamente para o mar, deixando, como sempre, 

o  manto  nas  mãos  da  amada.  Hero,  de  cima  das  pedras,  acompanhava  com  os  olhos  o  corpo 

másculo  do  amante  afastar-se,  com  pisadas  firmes  em  direção  à  praia,  saltando  sobre  os 

pedregulhos com saltos ágeis e precisos. 

Dali a pouco o dia voltava a ser o mesmo. Um pouco diferente, talvez, pois fizera-se mais 

quente  do  que  os  habituais.  Desde  as  primeiras  horas  o  sol  brilhara  no  azul  do  céu, 

completamente  despido  de  nuvens.  Hero,  entregue  às  suas  atividades,  teve  até  mesmo  de  se 

desvencilhar das roupas para poder suportar o calor. A tarde, a jovem recolheu-se aos aposentos 

para  escapar  do  mormaço,  que  descia  sobre  tudo  como  um  manto  escaldante  e  invisível.  Hero 

contava as horas, esperando que a noite trouxesse alívio para o calor. 




Quando  o  sol,  porém,  começava  a cair  no  horizonte,  foi  logo  coberto  por  uma  espessa 

camada de nuvens, que surgia com uma agilidade espantosa de regiões desconhecidas, muito além 

da  linha  do  mar.  Alguns  clarões  começaram  a  espocar,  avançando  até  quase  a  altura  do  farol. 

Hero, no entanto, já havia acendido a sua chama outra vez. Apesar de toda a sua intensidade, ela 

desaparecia  no  confronto  com  os  clarões  cada  vez  mais  intensos  e  ofuscantes  dos  relâmpagos. 

Júpiter tonante, por alguma razão enfurecido, esgrimia nos céus os seus espadins recurvos, com 

uma cólera incompreensível e cada vez maior. 

Ao  mesmo  tempo  os  ventos  —  que  pareciam  haver  escapado  de  suas  prisões  — 

lançavam-se  em  todas  as  direções,  encapelando  as  águas  do  Helesponto  com  uma  intensidade 

assombrosa.  Erguiam  para  o  alto  grandes  massas  de  água.  que  desabavam  em  seguida  com  um 

fragor  assustador.  A  chuva  começou,  então,  a  cair,  com  uma  intensidade  jamais  vista.  Cordas 

d'água balançavam-se no céu. desmanchando-se de tempos em tempos pelas rajadas furiosas do 

vento. 

Nos  intervalos  dos  relâmpagos,  Hero  relanceava  a  vista  para  o  alto  do  farol.  Não  havia 

agora, porém, luz alguma a brilhar em seu topo. A jovem, assustada, lançou-se para lá. Chegando 

na entrada, viu que uma cascata vinha direto da escadaria e desaguava aos seus pés. Subindo os 

degraus,  de  três  em  três,  chegou  finalmente  ao  topo,  no  mirante.  Tudo  estava  às  escuras,  o 

ambiente iluminado apenas pelos clarões ocasionais dos relâmpagos. À luz de um destes clarões, 

ela descobriu que o vidro do caixilho que protegia a grande chama estava quebrado. A um canto 

viu uma grande ave branca caída. À exceção de uma das asas, quase toda ela estava queimada e 

ferida.  Assustado  com  a  fúria  do  temporal,  o  pássaro  arremessara-se  cegamente  sobre  o  vidro 

protetor, estilhaçando-o e consumindo-se inadvertidamente em sua poderosa chama. Em seguida 

a chuva apagara a fogueira que ardia na lanterna, tornando-a inútil para o resto da noite. 

"Meu Deus, e Leandro?", perguntou-se a jovem, angustiada. "Como fará para chegar até 

aqui, depois do temporal?" Num gesto desesperado, ainda tentou encontrar alguma brasa acesa 

entre  os  carvões,  mas  nada  mais  havia  ali  que  pudesse  arder.  Tudo  estava  tomado  pelas  águas. 

Uma  onda  gigantesca  ergueu-se  outra  vez  do  mar  e  espatifou-se  de  encontro  à  torre  do  farol, 

lançando  para  dentro  do  mirante  uma  quantidade  inacreditável  de  água.  A  jovem  foi  jogada  de 

encontro à parede. Permaneceu caída no chão por alguns instantes, com o corpo encharcado e os 

cabelos gotejantes. Procurando refazer-se do impacto,   Hero tentou reerguer-se. 

—  Leandro...  afogado...  — disse  ela,  de  repente,  erguendo-se,  mesmo  tonta, ao  entrever  a 

possibilidade da tragédia. 

De fato, era inútil que a jovem tentasse acender novamente a lanterna do farol: um erro 

de cálculo fatal fizera com que o destemido Leandro se lançasse às águas do estreito antes mesmo 




de começar a chuva. O jovem pensara que, com um pouco de sorte, estaria às margens da praia 

de  Sestos  um  pouco  antes  do  temporal  desabar.  Quando  as  ondas  começaram  a  erguer-se, 

Leandro ainda tentou guiar-se pela luz do farol. Porém, quando esta se apagou, o rapaz não pôde 

mais encontrar a rota certa. Durante alguns instantes nadou às cegas, bracejando e lutando contra 

as ondas. Subiu ainda à tona, heroicamente, por várias vezes. Na última subida, contudo, Leandro 

entendeu  que  o  seu  fim havia chegado.  Ainda  tentou resistir  outra  vez,  mas  uma  onda colossal 

sepultou-o sob uma massa como que sólida de água, tirando-lhe a consciência para sempre. 

Durante toda a noite a desesperada Hero aguardou a chegada do amante. 

"Talvez ele tenha esperado o temporal passar", pensava, ainda esperançosa. "Como não 

há mais a luz do farol, ele certamente não cometerá a loucura de se lançar ao mar com este céu 

escuro e tempestuoso." 

Quando  Hero  terminou  de  fazer  essas  reflexões,  as  nuvens,  como  que  por  «canto, 

começaram a se dissipar. As estrelas foram aos poucos retomando no céu o seu lugar, enquanto a 

lua ia iluminando com seus raios o restante das trevas. 

Hero  aguardou  durante  muito  tempo,  até  que  finalmente  viu  algo  boiar  sobre  as  águas, 

sendo  trazido  lentamente  até  a  praia.  Parecia  que  as  ondas,  tomadas  pelo  remorso,  depunham 

com  todo  o  cuidado  sobre  a  praia  o  corpo  do  jovem  amante.  A  moça,  mais  pálida  que  a  lua, 

desceu num vento as escadas do farol e correu pela praia até chegar ao corpo de Leandro, preso 

entre duas rochas. Contrariando os seus hábitos de discrição, Hero deu um grito desesperado que 

ecoou  nas  montanhas.  Colando  a  boca  sobre  o  peito  nu  e  gelado  de  Leandro,  transmitiu  ao 

coração dele a dor e o pesar de sua alma. Muito tempo depois, ergueu a cabeça e disse, com os 

lábios salgados da água do mar e das próprias lágrimas: 

— Fui eu a culpada! — exclamou, desarvorada. — Se não tivesse colocado em dúvida a 

sua capacidade, Leandro amado, você ainda estaria vivo... 

Depois de muito chorar, concluiu sombriamente: 

— Desafiei a Fortuna, ao lhe prever o pior — disse Hero, convicta. — E os deuses não 

amam os temerosos. 

Talvez  não  amassem,  também,  os  imprudentes.  Ou  talvez  não  houvesse,  simplesmente, 

razão  alguma  para  aquela  tragédia,  senão  o  fato  de  ambos  estarem  vivos,  à  mercê  da  vida  e  da 

morte. Mas Hero não tinha mais ânimo para especulações. 

Levantando-se,  tomou  nos  braços  o  corpo  de  Leandro  e  devolveu-o  ao  mar.  Depois 

subiu  à  fenda  do  mais  alto  penhasco  que  pôde  encontrar,  escalando-o,  durante  o  resto  do  dia, 

com sombria determinação. Uma vez no topo. com os pés e as mãos machucados, a jovem Hero 



ergueu  o  rosto  para  a  noite  estrelada  que  chegava  outra  vez.  Seus  próprios  olhos  eram  duas 

estrelas, que brilhavam em meio à noite escura dos seus cabelos negros e revoltos. 

Por  um  momento  as  duas  noites  se  encararam  —  embora  a  face  trágica  de  Hero 

demonstrasse não indiferença, mas força e determinação, ao deixar-se cair no abismo do mar. 

SALMÁCIS E HERMAFRODITA 

A ninfa é um ser livre por definição. Vivendo às margens dos rios, seu único trabalho é 

banhar-se nas suas águas claras e procurar fazer-se cada vez mais bela a cada hora que passa, de 

forma que à noite esteja ainda mais graciosa do que estava pela manhã. 

Assim pensava a ninfa Salmácis, reclinada na relva, à beira de um regato. Com a cabeça 

apoiada  numa  das  mãos,  a  jovem  alisava  o  tapete  esverdeado  c:  solo,  arrancando  pequenos 

pedaços  de  grama.  Depois,  lançava-os  indolentemente  à  água,  após  estudá-los  de  todos  os 

modos.  Salmácis  gastava  ainda  um  tempo  infinito  no  restante  desta  importante  ocupação, 

acompanhando a minúscula odisséia do pequeno talo verde que navegava na corrente do rio até 

desaparecer  da  sua  vista,  misturado  aos  outros  pequenos  detritos  que  vagam  na  superfície  das 

águas. 

Às vezes, no entanto, fingia ser ela mesma esse pequeno talo. Deitada sobre o curso da 

água, boiava, deixando que a corrente a levasse aonde quisesse. Enquanto ia assim navegando, de 

costas sobre a água, Salmácis sentia-se flutuar, liberta de tudo. 

Via  ao  alto  as  nuvens  avançarem  com  ela,  enquanto  pequenas  andorinhas  voavam  em 

círculo no grande azulejo invertido do céu. Às vezes o sol, por entre os galhos da vegetação das 

margens,  obrigava-a  a  fechar  momentaneamente  os  olhos.  Então,  a  coisa  mais  fácil  do  mundo 

para  Salmácis  era  acordar,  de  repente,  quase  desaguando  ao  mar,  junto  com  as  águas  do  rio. 

Nesse  momento,  seus  ouvidos  ainda  podiam  escutar  as  vozes  de  suas  companheiras,  que  se 

afastavam na outra margem comentando algo num tom raivoso. 

— Invejosas! — disse Salmácis, colando, aborrecida, a face direita na relva. Tinha certeza 

de que falavam mal dela, pois havia pouco tempo tivera uma irritante discussão com as ativas e 

incansáveis  colegas.  Discussões,  mais  do  que  qualquer  outra  coisa,  aborreciam-na 

profundamente.  Simplesmente  não  conseguia  imaginar  como  duas  pessoas  podiam  se 

desentender num lugar maravilhoso como aquele. 

— Vamos lá, preguiçosa! — disse uma delas, atirando-lhe um punhado de seixos. 

—  Vamos  para  a  caçada.  Diana  já  nos  espera  no  bosque  —  disse  uma  outra.  Diana... 

Diana... 

Essa tal de Diana era muito enfadonha. Criatura enjoada, incansável deusa dos bosques 

só queria saber, afinal, de caçadas. 




—  Vão vocês, eu estou bem aqui... — disse Salmácis, sem dar ouvido às censuras de suas 

aborrecidas  irmãs.  Mais  tarde,  sabia,  elas  voltariam  esbaforidas,  trazendo  às  costas  veados  ou 

corças cobertos de sangue, misturando o seu suor ao sangue dos animais abatidos. Era sempre a 

mesma coisa que a ninfa escutava de olhos fechados. Em meio à algazarra das vozes, podia sentir 

em seu corpo colado ao solo a vibração repugnante dos corpos lançados desrespeitosa-mente ao 

chão, como simples e pesados fardos de carne. 

Suas  irmãs,  no  entanto,  recém  haviam  partido  para  a  sua  obrigação.  Suas  vozes 

esganiçadas aos poucos se misturavam aos ruídos naturais do bosque, até que a paz — a bendita 

paz! — retornava outra vez, pousando por tudo. A ninfa podia estender agora, ao comprido, o 

seu  corpo  delgado,  deixando  que  o  sol  acariciasse  a  sua  epiderme  até  arrancar  dela  minúsculas 

gotas de suor. Pois Salmácis era assim: gostava de suar em silêncio. 

Enquanto  o  sol  esquentava  sua  pele,  pequenas  abelhas  vinham  pousar  sobre  seu  corpo. 

Podia sentir os passinhos dos pequenos insetos dourados percorrendo suas pernas e subindo-lhe 

pelas coxas firmes e bronzeadas. De repente, porém, erguiam vôo outra vez, indo pousar em seus 

seios ou mesmo em seu rosto, passeando livremente em sua testa. 

Ela  ainda  estava  deitada,  preparando-se  para  dar  um  mergulho,  quando  percebeu  que 

alguém se aproximava da outra margem do rio. De bruços, precisou apenas erguer a cabeça para 

divisar  um  belo  rapaz  —  que  não  teria  mais  de  quinze  anos  de  idade  —  sentar-se  à  beira  da 

corrente. O jovem esticou uma das pernas, pondo um dos pés na água, enquanto a outra perna 

permanecia  dobrada,  deixando  o  joelho  à  altura  do  queixo.  Seus  cabelos  loiros  lhe  caíam  em 

desalinho pelos ombros, agitados ocasionalmente por uma suave brisa. 

Tratava-se de Hermafrodita, o belo fruto da união entre Vênus e Mercúrio. Apesar de sua 

pouca  idade,  seu  corpo  tinha  já  a  conformação  quase  idêntica  à  de  um  adulto  robusto  e  sadio. 

Seus  traços  revelavam  nitidamente  a  sua  ilustre  descendência,  de  tal  forma  que  era  impossível 

passar despercebido aos olhos de qualquer mulher. Ou de qualquer ninfa. 

Com  a  mão  em  concha,  Hermafrodita  recolheu  um  pouco  de  água  do  leito  do  rio  e 

banhou sua face corada. Depois, repetindo o gesto, molhou o cabelo, fazendo com que pequenos 

veios d'água lhe escorressem pelos ombros, cobertos apenas por uma fina túnica, despenhando-se 

em  seguida  pelas  suas  robustas  espáduas.  Hermafrodita  ainda  não  havia  percebido,  na  outra 

margem, a presença da curiosa Salmácis, que, encantada com seus gestos ao mesmo tempo viris e 

delicados, apaixonara-se instantaneamente por ele. 

"Quem será?", indagava-se a ninfa, intrigada. 




Erguendo mais um pouco o busto, apoiada em duas mãos, Salmácis continuou a observar 

o rapaz, que prosseguia em sua higiene, bem à sua frente. Hermafrodita, já  em pé, livrou-se de 

seu pequeno manto, descobrindo ao sol o seu corpo viril e atlético. 

— Ele há de ser meu — disse a ninfa, segredando à terra o seu desejo. Quando ergueu a 

cabeça novamente, porém, enxergou apenas centenas de gotas d'água subindo para o alto, num 

borrifo  imenso  que  lembrava  o  de  um  chafariz.  Hermafrodita  demorou  um  bom  tempo  para 

voltar  à  superfície,  de  tal  sorte  que  a  ninfa  chegou  a  temer  por  sua  vida.  Mas  bastaram  mais 

alguns instantes para que sua bela cabeça molhada surgisse da água, quase à sua frente. Sua boca 

lançou-lhe, inadvertidamente, os respingos de seu fôlego quase perdido. A pele da ninfa cobriu-se 

das  minúsculas  gotas,  que  se  uniram  ao  seu  suor.  Salmácis  gostou  disto.  O  rapaz,  contudo,  ao 

perceber  que  estava  diante  daquela  bela  mulher,  tomara  um  susto,  recuando  um  pouco  para 

dentro do leito do rio. 

—  Calma,  não  se  assuste!  —  disse  a  ninfa,  com  um  sorriso  malicioso.  Salmácis,  como 

uma pequena serpente feminil, rastejou em sua direção. 

esfregando  seios  e  coxas  sobre  a  relva,  até  aproximar  o  máximo  possível  a  cabeça  da 

corrente do rio. Com a cabeça pendida sobre a água, estudava implacavelmente o rapaz. 

— Quem é você? — perguntou Hermafrodita, ainda não recuperado totalmente do susto. 

— Aquela que deseja ardentemente saber quem é você! — disse Salmácis, mergulhando em 

seguida a cabeça inteira na corrente. Seus olhos mantiveram-se abertos, abaixo da linha da água, 

estudando os segredos que a superfície relativamente calma do rio ocultava. Depois, retirando a 

cabeça  da  água com  violência, arremessou  sobre  a face  do  jovem, com  a  impetuosidade  de  um 

chicote, um grande jato d'água. Hermafrodita, definitivamente assustado com a audácia da ninfa, 

começou a nadar em direção à outra margem. 

— O que há, garoto, está com medo de mim? — perguntou a ninfa, surpresa. Salmácis, 

na  verdade,  estava  acostumada  com  a  agressividade  dos  seus  rudes  e  habituais  cortejadores, 

faunos e sátiros, que já chegavam agarrando-a, passando em seu corpo as suas mãos grosseiras e 

peludas. A ninfa, contudo, jamais permitia que algum desses seres vulgares lhe chegassem perto, 

preferindo sempre a companhia dos gentis e delicados pastores. Mas que alguém quisesse fugir 

dela era uma novidade surpreendente. 

Vendo que ele saíra já da água e rumava, num passo apressado, para dentro do bosque — 

esquecido  até  da  própria  roupa  -,  Salmácis  pôs-se  em  pé  e  lançou-se  à  água.  Seus  braços  ágeis 

cortaram a correnteza suave da água com tal rapidez que em breve estava na outra margem. Ao 

sair do rio, mal teve tempo de perceber o dorso nu do rapaz ganhando rapidamente a mata. 

— Espere! Por favor, não tenha medo de mim! — disse a ninfa, com um riso nervoso. 




Salmácis  entrou,  também,  correndo  na  mata,  fazendo  com  que  seus  seios  vibrassem  no 

mesmo  ritmo  de  seu  passo  veloz.  Mais  adiante  divisou  Hermafrodita,  encostado  a  uma  grande 

árvore, cujos galhos recobertos de folhas cobriam-no quase que inteiramente. 

— Espere, vamos conversar! — disse a ninfa. — Quero conhecê-lo melhor. 

— Não tenho nada para conversar com você — Hermafrodita replicou. 

— Mas quem é a mulher aqui, afinal?! — Salmácis exclamou, zangando-se. Hermafrodita, 

ofendido, retesou o peito, numa resposta instintiva à ninfa. 

Esta gostou da resposta. Com seus olhos percorreu o corpo do jovem, até exclama com 

um sorriso satisfeito: 

— Você, com toda a certeza...! 

Procurando  ser  mais  contida,  a  ninfa  tentou  ganhar-lhe  a  confiança,  como  caçada. 

Salmácis, afinal, também caçava agora. 

— Você é bem novo, não? — perguntou, dando um pequeno passo adiante. 

— Não tanto quanto você — disse o jovem, fingindo-se mais velho do que realmente era. 

— Hum... é mais experiente, então... 

Hermafrodita  nada  respondeu.  A  ninfa,  no  entanto,  aproximara-se  tanto  que  o  jovem 

podia  sentir  a  respiração  dela  em  seu  peito.  Era  um  sopro  curto  e  irregular  que  lhe  provocava 

deliciosas  cócegas  no  peito  quase  liso.  Salmácis,  na  verdade,  também  começava  a  perder  o 

controle da situação. 

De  repente,  encurralando  o  rapaz  contra  o  grosso  tronco  da  árvore,  ela  tomou  a  sua 

cabeça nas mãos e colou com fúria os seus lábios aos dele. Mas foi surpreendida pelas mãos do 

jovem, que lhe apertavam com vigor a cintura, erguendo-a um pouco do chão. Ao sentir que seus 

pés separavam-se do solo, a ninfa abraçou-se ao pescoço do jovem, enlaçando-o com as pernas. 

Nunca havia, na verdade, sentido tamanha identificação com o corpo e com a alma de alguém. 

Tudo evoluiu rapidamente, como se ambos tivessem sido feitos expressamente um para o 

outro. Seus corpos encaixavam-se de modo perfeito; seus membros enlaçavam-se com tamanha 

familiaridade,  que  nem a ninfa  nem  o  jovem  podiam  mais  distinguir  quais  seriam  os  seus.  Seus 

cabelos misturavam-se, ocultando como num véu o seu longo beijo. 

De repente, porém, a ninfa, descolando momentaneamente os seus lábios dos do jovem e 

sentindo um desejo forte abalar todo o seu corpo, exclamou: 

— O deuses! Quero que nós dois sejamos uma só pessoa! 

Os  deuses,  que  a  escutavam,  atenderam  imediatamente  ao  pedido.  Os  corpos  dos  dois 

amantes começaram a se fundir, sob a sombra generosa da árvore, que parecia descer um pouco 

mais  os  seus  galhos  para  ocultar  a  metamorfose.  Os  peitos  de  ambos,  colados  firmemente, 




impediam-nos agora de separar os seus troncos. Suas bocas fundiam-se uma na outra, tornando 

seu longo beijo um beijo perpétuo. As pernas da ninfa, enlaçadas à cintura do jovem, amarraram 

os dois amantes para sempre num nó indissolúvel: um único e perfeito ser. 

ECO E NARCISO 

— Não agüento mais essa tagarela da Eco — segredou um dia a deusa dos bosques a uma 

das suas ninfas. 

De fato, não era só Diana que não suportava mais o falatório da ninfa nenhuma das suas 

amigas  podia  mais  vê-la  pela  frente  sem  fugir  de  sua  língua  incansável.  Apesar  de  ser  tão  bela 

quanto a mais bela das ninfas, Eco tinha a mania incontrolável de falar pelos cotovelos. 

— Por que não se cala de vez em quando? — diziam-lhe as amigas. — Homem algum 

suportará uma mulher que fale sem parar, mesmo sendo tão bela como você. 

Mas Eco não se corrigia  e prosseguia falando, até a exaustão. Um dia, porém, meteu-se 

com Juno, a esposa de Júpiter, e isto foi a sua ruína. 

O  deus  dos  deuses  havia  dado  mais  uma  de  suas  escapadas,  e  Juno  andava  por  perto, 

farejando  o  seu  rastro.  A  própria  Eco  já  gozara  dos  favores  de  Júpiter  e  prometera  ocultar,  a 

pedido do grande deus, os amores que ele agora mantinha com outra ninfa. A deusa dos bosques 

não  queria  saber  de  fofocas  e  por  isso  fazia  vistas  grossas  ao  namoro.  Afinal,  meter-se  com  o 

deus supremo podia trazer-lhe problemas funestos. 

Certo  dia,  porém,  Juno,  tomada  pela  cólera,  chegou  quase  a  tempo  de  flagrar  o  esposo 

nos braços da tal ninfa. Eco, após alertar o casal, dissera a Júpiter: 

— Deixem comigo, eu a distrairei enquanto vocês escapam. 

E  assim  fez,  realmente.  Tão  logo  Juno  chegou,  Eco  apoderou-se  dela  com  uma  longa 

conversa,  repleta  de  digressões  e  subterfúgios.  Mas  Juno,  acostumada as  desculpas  esfarrapadas 

do marido, compreendeu logo a intenção da ninfa, que se achava mais esperta do que realmente 

era: 

—    Cale  a  boca!  —  disse,  empurrando-a.  —  Pensa  que  me  engana  com  sua  conversa 



mole, sua atrevida? 

Eco, assustada e com as mãos da furiosa deusa impressas nos ombros, calou-se. Mas era 

tarde demais. 

—    Porque  pretendeu  me  fazer  de  boba  a  punirei,  fazendo  com  que  nunca  mais  possa 

dizer nada a não ser as últimas palavras que escutar — amaldiçoou Juno. 

— ... as últimas palavras que escutar... —repetiu Eco, em cuja boca o feitiço já começava a 

atuar. 

— Ai está o que ganhou com seu atrevimento — disse Juno, vingada. — Adeus, idiota! 




—... adeus, idiota... -repetiu Eco e tapou rapidamente a boca com as duas mãos. A notícia 

da maldição de Juno espalhou-se ligeiro por entre as ninfas: 

— Bem-feito, sua ordinária — disse um dia uma rival a Eco. 

— ... sua ordinária... — respondeu Eco, que ao menos podia, às vezes, responder à altura 

os desaforos que escutava. 

Assim  vagou  a  ninfa  por  entre  os  bosques  durante  muitos  anos,  até  que  um  dia, 

caminhando pelas montanhas, encontrou Narciso, um jovem caçador que havia se extraviado de 

seus  colegas.  Eco,  ao  colocar  os  olhos  sobre  a  beleza  do  jovem,  tomou-se  imediatamente  de 

amores por ele. Seguiu-o por um longo tempo imaginando qual o melhor meio de se aproximar 

dele, até que, ao pisar num galho solto, despertou finalmente a atenção do moço. 

— O que foi isto? — perguntou o rapaz. — Há por aqui mais alguém? 

— ... mais alguém... — repetiu Eco. 

— Chegue mais perto — disse Narciso, sem ver ninguém. 

—  ... mais perto... — disse Eco e mostrou-se, finalmente, tendo antes o cuidado de ajeitar 

os cabelos. 

Decepcionado por ver que não era nenhum de seus companheiros, Narciso simplesmente 

perguntou: 

—  Diga-me, ninfa, como faço para sair daqui? 

—    ...  sair daqui  —  replicou  Eco, agoniada,  pois  a última  coisa  que  desejava  era  que ele 

fosse embora. 

Não podendo expressar com suas próprias palavras o seu amor, sem que antes o estranho 

o declarasse para ela, a ninfa desesperou-se e resolveu tomar uma medida drástica. Estendendo os 

braços,  lançou-se  para  ele  num  frenético  abraço.  "Talvez  ele  entenda  os  meus  sentimentos", 

pensou. 


— O que está fazendo? — exclamou Narciso, atirando-a ao solo com um empurrão. — 

Não quero o seu amor! 

—  ...  quero  o  seu  amor...  —  repetiu  a  ninfa,  vendo  Narciso  dar-lhe  as  costas  e  escapar 

rapidamente por uma vereda do bosque. 

Mas em matéria de amor Eco era um desastre. Consciente de seu fracasso, a pobre ninfa 

recolheu-se para o interior de uma caverna no bosque. Ali, após enfadar durante longos anos as 

paredes  da  gruta  com  seus  lamentos  e  lágrimas,  viu  seu  corpo,  aos  poucos,  dissolver-se  na 

escuridão  da  caverna,  até  passar  a  fazer  parte  dela.  Da  pobre  ninfa  só  restou  sua  voz  cava  e 

profunda, a repetir sempre as últimas palavras que os passantes pronunciassem. 



Narciso prosseguiu com suas caçadas e a tratar com rudeza as ninfas que o perseguiam. O 

jovem  caçador  era  pretensioso  e  arrogante,  e  mulher  alguma  parecia  bastar  à  sua  vaidade. 

Inclusive corria uma lenda que dizia que quando Narciso nasceu, um oráculo teria anunciado que 

ele  poderia  viver  muito  tempo,  se  jamais  enxergasse  a  si  próprio.  Seu  pai,  por  via  das  dúvidas, 

quebrou todos os espelhos da casa. Temendo que o filho procurasse o próprio reflexo em alguma 

outra  parte,  adquiriu  um  espelho  mágico,  no  qual  Narciso  via  sua  imagem  sempre  distorcida. 

Mesmo assim, sua beleza era tal que o arrogante rapaz não desgrudava do bendito espelho. 

— Como sou lindo... — dizia, sempre que tinha o espelho nas mãos. 

Um  dia,  porém,  durante  uma  caçada  mais  agitada,  o  espelho  que  trazia  sempre  em  seu 

bolso partiu-se. Juntando os cacos pôde ver apenas, com

 

lágrimas nos olhos, o reflexo estilhaçado 



da própria beleza. 

—  Que lindos pedaços! — ainda se admirou, numa vaidade residual e fragmentária. 

Abalado  e  cansado  da  caça,  Narciso  meteu-se  para  dentro  das  profundezas  do  bosque, 

próximo  da  gruta  onde  Eco  vivia.  Ah  perto  havia  um  pequeno  lago.  absolutamente  deserto  e 

silencioso.  Sobre  suas  plácidas  águas  nem  um  único  cisne  deslizava.  As  árvores,  nas  margens, 

inclinavam-se para longe do espelho cristalino de suas águas, como que tentando escapar de seu 

intenso reflexo. 

Narciso,  chegando  à  margem,  debruçou-se  para  tomar  alguns  goles  I  límpida  água.  Ao 

fazê-lo,  percebeu  que  alguém  o  observava  de  dentro  da  água.  Fascinado  com  a  beleza  daquele 

semblante  inigualavelmente  belo,  Narciso  teve  de admitir  que  era  mais  perfeito  ainda  do  que o 

seu próprio rosto. 

—    Quem  é  você,  rosto  adorável,  que  me  contempla  deste  jeito?  —  perguntou  à  efígie 

encantadoramente bela, que o mirava apaixonadamente nos olhos. 

O rosto lindo, porém, não lhe respondia, nem a esta nem às outras solicitações. Por várias 

vezes Narciso tentou, sem sucesso, seduzir aquele rosto magnífico. Um dia debruçou-se a ponto 

de encostar os lábios à liquefeita boca da imagem. Porém, ao fazê-lo, viu o belo estranho turvar-

se, o que o encheu de pânico. 

— Não, não fuja! — exclamou, assustado, descolando rapidamente os lábios da água, o 

que fez a imagem retomar, aos poucos, a sua anterior nitidez. 

— Por que rejeita meus beijos? 

Pela primeira vez Narciso descobria o que era a dor do amor não-correspondido. 

Apesar do jovem erguer cada vez mais a voz, Eco, que ouvia tudo, excepcionalmente não 

lhe repetia as últimas palavras. Vítima da crueldade de Narciso, gozava agora, secretamente, a sua 



vingança. O único ruído que escapava da caverna era um riso baixinho, que o vento produzia ao 

passar pelas fendas das pedras. 

O  jovem  caçador  foi  perdendo  a  sua  cor.  Suas  faces  murchavam,  seu  cabelo  crescia 

desmesuradamente  —  a  ponto  da  franja  cair-lhe  pelos  olhos  —  e  seu  nariz,  perfeitamente 

aquilino,  apresentava  uma  coriza  continuamente  a escorrer.  Mas  nada  disso  era  o  bastante  para 

fazer  com  que  ele  deixasse  de  amar  aquele  rosto  magnificamente  belo.  Assim  foi  definhando 

lentamente  o  pobre  Narciso,  às  margens  do  lago.  Sem  poder  consumar  o  seu  amor,  acabou  se 

transformando numa bela flor roxa de folhas brancas, sempre debruçada sobre o leito das águas. 

Sua sombra infeliz embarcou no mesmo dia na barca de Caronte, atravessando o Estige rumo ao 

país  das  trevas.  Mas  nem  o  severo  barqueiro  pôde  impedi-lo  de,  enquanto  fazia  a  travessia, 

reclinar-se outra vez para mirar-se nas águas do rio infernal. 

FRIXO E HELE 

Néfele, esposa do rei Atamas, foi repudiada pelo marido em favor de outra mulher. Ela, 

que até há pouco era senhora das vontades do rei, agora tinha de vê-lo sob a influência nefasta de 

Ino, filha de Cadmo, a nova e perversa rainha. 

Antes da separação, o casal de reis havia tido um casal de filhos, Frixo e Hele. Ora, a nova 

esposa  de  Atamas  não  queria  saber  de  herdeiros  que  não  tivessem  o  seu  sangue  —  razão 

suficiente para decidir pela morte de ambos. 

"Quero esses dois jovens mortos o mais breve possível" disse Ino a si mesma, ainda no 

leito de núpcias, enquanto o rei percorria o seu corpo com lábios ardentes. 

Na manhã do dia seguinte, a nova rainha chamou à sua presença os dois jovens e lhes deu 

para comer todas as sementes que havia no reino: 

—  Vamos,  comam  tudo  —  disse  Ino,  que  havia  mergulhado  as  sementes  no  mel  para 

agradar ao paladar dos garotos. 

Ao  cabo  de  algumas  horas,  com  os  dedos  e  as  faces  lambuzadas,  ambos  haviam  dado 

conta da tarefa. 

— Tem mais? — perguntaram os jovens. 

—  Oh, não, queridos, infelizmente se acabou... — respondeu satisfeita a rainha, pois não 

havia mais semente alguma no reino. 

Em  conseqüência,  o  reino  todo  foi  assolado  por  uma  terrível  fome.  Apavorado,  o  rei 

decidiu enviar um mensageiro ao famoso oráculo de Delfos, para saber o que deveria fazer. Mas 

Ino,  quando  o  mensageiro  passou  diante  do  seu  quarto,  rumo  a  Delfos,  puxou-o  para  dentro, 

com uma força surpreendente pari seus delicados braços, e com uma voz sensual prometeu-lhe 



tudo, inclusive um saco de moedas de ouro, se ele fizesse o que ela mandava. Esses poderosos 

argumentos espantaram de vez o medo do servidor. 

— Diga e eu o farei — capitulou o mensageiro. 

— Quero que vá ao oráculo, como determina meu marido. Mas preste atenção: quando 

voltar, diga ao rei que a única solução para a fome é o sacrifício ritual de seus dois filhos. 

—  Entendi  perfeitamente,  adorável  Ino!  —  disse  o  mensageiro,  colando  s  lábios  ao 

ombro alvo e perfeito da rainha, que o repeliu suavemente. 

—  Não  seja  atrevido!  —  disse  a  rainha,  desvencilhando-se  dos  seus  braços.  Quer  a 

recompensa antes de cumprida a tarefa? 

O mensageiro engoliu em seco ao ver as costas nuas da rainha afastando-se resolutas. No 

mesmo  dia  partiu,  decidido.  Um  mês  depois,  o  lacaio  apresentou-se  diante  do  rei  e  repetiu  as 

palavras que Ino lhe mandara dizer. O rei, profundamente abatido com a obrigação que os deuses 

lhe impunham, acabou cedendo e determinou que assim se fizesse. A rainha, ao saber da decisão, 

exultou. Depois, ordenai secretamente a um assassino que pusesse um fim à vida do mensageiro. 

Temendo, porém, que o assassino revelasse algo, ordenou a um segundo assassino que eliminasse 

o primeiro. Mas esse segundo matador tinha um ar pouco confiável, razão pela qual a própria Ino 

acabou por matá-lo com seu próprio punhal. 

Néfele, a ex-rainha, já havia tomado conhecimento do perigo que filhos corriam. Por isso, 

recorreu ao auxílio do deus Apolo, pedindo que a ajudasse a salvar Frixo e Hele. 

— Esteja tranqüila, Néfele — disse-lhe o deus. — Enviarei aos dois um de fuga. 

Poucas horas antes de se cumprir o sacrifício, um grande carneiro dourado entrou voando 

pela janela do quarto onde os dois jovens aguardavam, aflitos o fim dos seus dias. 

— Veja, Frixo! — disse Hele, espantada ao ver o animal. 

— É um carneiro! E veja que pêlo magnífico! — disse o irmão, boquiaberto. 

De fato, a pelagem do animal era toda tecida com fios de ouro. Parecia que o próprio sol 

havia adentrado o quarto de ambos. 

—  Nada temam, meus jovens — disse o carneiro do Velocino de Ouro. -Vim para levá-

los para longe da ira de Ino — completou, oferecendo as suas douradas costas para que Frixo e 

Hele nelas montassem. 

Antes de partir, o carneiro mandou que os dois jovens se segurassem bem e não olhassem 

para baixo. Num segundo, o animal lançou-se ao espaço, com sua preciosa carga. Cavalgando o 

ar,  foi  subindo  rapidamente  em  direção  ao  azul  do  céu.  Os  cabelos  de  Hele,  da  mesma  cor  do 

pêlo  do  animal,  esbatiam-se  ao  vento,  enquanto  Frixo  fazia  tudo  para  manter-se  agarrado  no 

carneiro, cego para tudo o mais. 




—  Veja,  Frixo!  —  dizia  a  jovem,  que  não  tinha  olhos  bastantes  para  admirar  as 

estonteantes paisagens, que passavam num turbilhão aos seus pés. 

De  repente,  o  carneiro  meteu-se  no  meio  de  um  aglomerado  de  nuvens  tempestuosas. 

Raios  prateados  esgrimiam  ao  redor  dos  três,  como  se  eles  estivessem  em  meio  a  um  terrível 

duelo travado no espaço. 

Atingido na cauda por uma faísca, o carneiro empinou suas patas dianteiras para cima, e 

isto  foi  o  fim  da  infeliz  Hele.  Perdendo  de  vez  o  equilíbrio,  as  suas  mãos  agarraram  o  vento, 

enquanto  as  suas  pernas  desprendiam-se  da  sua  condução.  Frixo,  no  entanto,  nada  pôde  fazer, 

pois continuava agarrado com todas as forças ao pêlo do animal, esquecido até da própria irmã. 

— Frixo, estou caindo! — gritou ainda Hele, num último apelo. 

Mas  a  sua  voz  ecoou  no  vazio,  e  o  seu  corpo  caiu  no  estreito  marítimo  que  separa  a 

Europa da Ásia, afundando para sempre em suas águas profundas. O carneiro ainda passou por 

várias vezes rente à superfície agitada das águas, mas não pôde resgatá-la dali. O estreito passou a 

ser chamado de Helesponto, em homenagem à desditosa Hele. 

Frixo,  desesperado,  acrescentou  muitas  lágrimas  às  salgadas  e  agitadas  águas  do  mar. 

Depois  que  viu  que  seu  pranto  era  inútil,  retomou,  sozinho,  a  viagem,  montado  sempre  no 

carneiro de ouro, rumo à distante Cólquida. 

—  Estamos  chegando  —  disse  o  carneiro,  ao  avistar  as  terras  do  novo  país.  Frixo,  no 

entanto, não pôde alegrar-se como esperava, pois não tinha mais com quem compartilhar a sua 

felicidade.  Depois  de  ser  bem-recebido  pelo  rei  do  país,  o  jovem  foi  ao  templo  de  Apolo, 

agradecer  a  ajuda  que  obtivera.  Ali  receber  do  deus  a  ordem  para  sacrificar,  ele  próprio,  o 

carneiro de ouro. 

Desse  modo  singular,  teve  o  carneiro  recompensados  os  seus  serviços.  Ou  talvez 

recebesse  a  punição  por  haver  deixado  perecer  na  fuga  a  infeliz  Hele.  O  fato  é  que  após  o 

sacrifício o pêlo dourado do carneiro foi arrancado cuidadosamente e colocado numa gruta, sob 

os  cuidados  de  um  terrível  dragão.  Ali  esteve  durante  longos  anos  guardado,  até  que  um  dia  o 

aventureiro Jasão se decidiu a ir buscá-lo, na companhia dos seus amigos argonautas, enfrentando 

a ira da terrível sentinela. 

Mas esta é uma outra história. 

AS SANDÁLIAS DE JASÃO 

Jasão é, junto com Hércules, um dos maiores heróis gregos que a história lendária registra. 

Sua  vida  é  repleta  de  fatos  notáveis,  e  suas  aventuras  pedem  um  romance  inteiro  para  ser 

contadas. Seus feitos, contudo, podem ser perfeitamente fragmentados sob a forma de pequenos 

episódios, de tal sorte que o leitor pode lê-los alternadamente, sem perder nunca o fio da meada. 




O primeiro episódio de relevância — ainda que um tanto singelo — ocorrido na vida do 

grande Jasão deu-se ainda na sua juventude. Seu pai, o rei Esão, havia passado o governo de seu 

país para o seu próprio irmão, Pélias. Estabelecera, no entanto, a condição de que a coroa deveria 

ser passada a seu filho Jasão — e sobrinho de Pélias — tão logo este alcançasse a maturidade. 

Enquanto isso, Jasão teve a sua educação posta aos cuidados do centauro  Quíron, num 

lugar distante dali. Junto a esse personagem, Jasão desenvolveu todas as suas aptidões, das quais 

faria uso mais tarde nas suas inumeráveis aventuras. Os anos se passaram até que, completada a 

sua educação, Jasão retornou para a sua pátria, pronto a herdar o trono que por direito lhe cabia. 

Como  gostava  muito  de  caminhar,  Jasão  preferiu  fazer  seu  longo  percurso  a  pé,  conhecendo 

muitas terras e climas. 

Um  dia,  chegando  próximo  de  um  largo  rio,  preparava-se  para  atravessá-lo,  quando 

avistou às margens uma velha, curvada pelo peso dos anos. Jasão -que já despira seu manto, para 

fazer  mais  livremente  a  travessia  —  ficou  sem  graça  ao  perceber  que  a  velha  erguera  a  cabeça 

branca, detendo-se a estudá-lo com seus olhos cansados. 

Jasão, tendo aprendido que o respeito aos velhos era sua primeira obrigação, adiantou-se 

em direção a ela, procurando ocultar as suas partes. 

— Perdoe, minha senhora, por me apresentar desta maneira — disse o jovem Jasão, que 

não era então mais que um garoto. 

—  Não  se  acanhe  —  disse  a  velha.  —  Meus  olhos  já  estão  cansados  para  quase  tudo, 

menos para a beleza. Para ela, ainda tenho luz no olhar. 

De  fato,  a  velha  não  tirava  seus  olhinhos  franzidos  do  corpo  do  jovem.  Sua  malícia 

residual parecia guardar ainda o frescor de sua remota juventude. Jasão julgou, por um momento, 

enxergar por detrás dos traços cansados da velha um resto de sua antiga e extinta beleza. 

—  Posso  ajudá-la  de  alguma  maneira?  —  perguntou,  procurando  desviar  da  cabeça 

aquelas estranhas cogitações. 

— Gostaria que me ajudasse a passar para o outro lado — respondeu a velha, passando a 

língua  seca  sobre  os  lábios  murchos.  —  Veja,  sou  fraca,  e  os  anos  não  permitem  mais  que  me 

aventure a mergulhar sozinha nestas águas. 

Jasão  imediatamente  suspendeu-a  em  seus  braços,  escorando-a  nos  ombros,  pronto  a 

carregá-la até a outra margem. A velha, sem se fazer de rogada, abraçou-se ao torso dele, colando 

seu rosto familiarmente ao ombro do jovem. 

Jasão atravessava as águas do rio, calculando seus passos. Não podia deixar de notar que a 

velha ainda possuía mãos macias, que deslizavam sobre suas costas de modo inquieto. "E pena 

ser uma velha", refletiu, censurando-se pelos maus pensamentos. 




Mas  aquilo  parecia  não  ser  apenas  uma  impressão.  Jasão  agora  sentia  que  as  mãos  dela 

passavam sobre sua nuca, subindo até o topo da sua cabeleira negra e esvoaçante. Sem poder se 

conter mais, virou seu rosto para a face da velha, algo escandalizado. 

— O que foi, meu rapaz? — disse a anciã, com um sorriso que parecia lhe trazer de novo 

toda a juventude ao rosto. 

—  Nada,  nada,  minha  senhora...  —  replicou  Jasão,  vexado  de  sua  má  impressão.  No 

entanto, ao desviar os olhos não pôde deixar de passá-los de relance pelo busto da idosa mulher, 

que se exibia livremente pelo decote da esfarrapada túnica. Pela abertura, entreviu perfeitamente 

um dos seios, absurdamente firme e rijo, como o de uma mulher na mais verdejante juventude. 

"Estou delirando!", pensou Jasão, atarantado. Por um momento teve o instinto de largar a velha 

no rio e deixá-la ali, sozinha, a debater-se nas águas. "E se for uma feiticeira?" 

Sua reflexão foi bruscamente interrompida quando sentiu que a mão da velha — tinha a 

absoluta  certeza  —  pressionava  as  suas  costas  de  um  modo  absolutamente  inconveniente  e 

constrangedor. 

— O que é isto, minha senhora? — exclamou, surpreso. 

Uma  gargalhada  sonora,  jovial  e  cristalina,  ressoou  em  seus  ouvidos.  Assustado,  Jasão 

voltou-se outra vez para a velha. Mas não tinha mais diante de si a face enrugada de uma anciã, 

mas uma face divinamente jovem, que tinha, no esforço do riso, os olhos franzidos sem o menor 

vestígio de rugas. Seus dentes, claros e cristalinos, brilhavam sob a luz do sol, enquanto os lábios 

mostravam-se carnudos e rubros como os de uma jovem no auge da beleza. 

— Não se assuste! — disse a encantadora mulher, ainda em seus braços. -Foi apenas uma 

brincadeira. 

Jasão, ainda encabulado — e um pouco amuado por ter sido feito de bobo -, tinha agora 

em suas mãos duas coxas firmes e palpitantes. 

—  Eu  sou  Juno,  a  rainha  dos  céus  —  disse  a  mulher-,  e  estava  apenas  testando  o  seu 

caráter. 

A ciumenta e virtuosa esposa de Júpiter, como se vê, cansara de sofrer as traições de seu 

volúvel  marido  e  fora  se  divertir  um  pouquinho  também.  O  que  a  deusa  perdeu  em  virtude 

ganhou  em  charme  e  encanto.  Nunca  seu  riso  foi  tão  espontâneo,  e  seus  gestos,  tão  livres  e 

doces. Em vez de queixas e recriminações, da sua boca saíram, agora, somente uma risada franca 

e algumas palavras inocentemente maliciosas. 

— Porque me ajudou a cruzar este rio, decidi tomá-lo sob minha proteção -disse Juno ao 

surpreso Jasão, fazendo-se de séria. — Já sei que você é um homem de caráter e fidalguia. 



A  seguir,  retomando  seu  bom  humor,  pôs-se  de  pé,  deixando  nas  mãos  do  herói  os 

farrapos  de  sua  velha  túnica.  Lado  a  lado  com  o  herói,  permitiu-se  a  liberdade  de  continuar 

abraçada, mas seguindo com as próprias pernas. 

Juno  parecia  ter  melhorado  ainda  mais  o  seu  humor;  enquanto  torcia  os  fios  de  seus 

cabelos molhados, cantava uma canção descontraída, muito diferente dos aborrecidos hinos que 

era  obrigada  a  escutar  todos  os  dias  em  seu  templo.  Jasão,  que  completara  a  sua  educação  nas 

águas  daquele  maravilhoso  rio,  também  estava alegre.  Encontrava-se  muito distraído,  tanto  que 

acabou esquecendo uma de suas sandálias na margem do rio, seguindo o restante do percurso até 

sua casa com um dos pés descalços. 

Um  oráculo  feito  há  muito  tempo  ao  seu  tio,  Pélias,  dissera  que  ele  deveria  temer  um 

homem  que  surgiria  desprovido  de  calçado.  Quando  Jasão  chegou  no  reino  que  lhe  estava 

prometido, o rei, sabendo da sua chegada, correu, inquieto, a recebê-lo. 

—  Há  quanto  tempo,  meu  querido  sobrinho!  —  disse  Pélias,  com  um  sorriso  amarelo, 

que desapareceu inteiramente de seu rosto ao olhar para um dos pés descalços do jovem. 

— O que houve com a outra sandália? — perguntou. 

— Ah, perdi no caminho... — respondeu o herói, distraidamente. 

Isto deu ao pérfido rei a certeza de que Jasão era o homem da profecia. Cumpria, pois, 

desvencilhar-se dele imediatamente. Além do mais, Pélias jamais pensara em devolver o governo 

do reino às mãos do filho do antigo rei. Depois de receber o jovem em seu palácio, teve com ele 

uma longa conversa, querendo saber tudo sobre a sua educação. As palavras do jovem Jasão, no 

entanto — que ainda era um pouco ingênuo -, lhe entravam por uma orelha e saíam pela outra. 

Pélias tinha sua mente ocupada, pensando em como afastar de si o importuno sobrinho. Como 

fazer para matar o rapaz, sem que o acusassem do crime? 

Durante toda a noite pensou sobre isto. No outro dia, logo cedo, chamou o jovem à sua 

presença. 

—  Jasão,  o  trono é  seu! —  disse  o  rei  interino. —  Pode  ocupá-lo  já,  se  quiser  —  disse 

Pélias, estendendo-lhe o cetro e apontando a magnífica cadeira dourada. 

O  jovem,  passando  as  mãos  nos  cabelos,  deu  um  ligeiro  suspiro  de  apreensão.  Já  se 

dispunha, no entanto, a assumir as suas funções, quando o rei o atalhou: 

—  Antes  disso,  porém,  tenho  uma  sugestão  melhor  a  lhe  fazer.  Caso  você  consinta  em 

abraçá-la, fará de você um rei maior do que qualquer outro — disse Pélias, estendendo os braços, 

como se abarcasse com eles o mundo. 

O jovem escutava as palavras do tio com atenção. 

— Que tal, antes de assumir o seu posto, partir em busca do Velocino de Ouro? 




Jasão  conhecia  a  fama  de  tal  aventura  —  tida  por  impossível,  já  que  o  tal  Velocino, 

segundo diziam, estava protegido por um monstruoso dragão. 

—  Mas  isso  é  uma  tarefa  que  está,  com  toda  a  certeza,  além  de  minhas  forças  — 

respondeu, ao mesmo tempo fascinado com o desafio e inseguro de sua pouca experiência para 

tentar tamanha proeza. 

—    Nada  estará  além  de  você,  desde  que  ponha  nisto  sua  fé  e  energia  -disse-lhe  o  tio, 

tentando enganá-lo com sua filosofia barata. — Além do mais, os deuses estarão do seu lado! 

Jasão lembrou-se imediatamente da promessa de proteção que Juno lhe fizera enquanto 

ele  a  carregava  nos  braços.  Empolgado,  resolveu  pôr  à  prova  a  sua  juventude  e  energia.  Num 

ímpeto característico de sua idade, exclamou, diante do trono: 

—  Está  bem,  aceito  seu  conselho,  meu  tio.  Partirei  com  alguns  homens  pelo  mar  até 

alcançar  o  reino  onde  se  esconde  o  Velocino  de  Ouro  e  o  trarei,  para  honra  e  glória  de  meu 

futuro reino. 

Pélias, já dando o sobrinho por morto, abraçou-o efusivamente: 

— Que os deuses o protejam e você seja feliz em sua gloriosa aventura! 

E  foi  assim  que  começou  a  famosa  jornada  de  Jasão  e  os  Argonautas  em  busca  do 

Velocino de Ouro. 

JASÃO NA ILHA DE LEMNOS 

Jasão,  o  célebre  herói  grego,  havia  sido  criado  longe  de  casa  pelo  centauro  Quíron. 

Enquanto  completava  sua  educação,  seu  tio  Pélias  assumira  o  seu  lugar  no  trono  da  Tessália. 

Tendo retornado, já adulto, para assumir a sua condição de rei, foi induzido pelo perverso tio a 

empreender uma temerária expedição em busca do Velocino de Ouro — uma célebre relíquia que 

estava guardada no distante reino da Cólquida. 

Tão logo tomou essa decisão, Jasão cercou-se de alguns dos mais valorosos heróis de seu 

tempo,  tais  como  Hércules,  Teseu,  os  irmãos  Castor  e  Pólux,  Meleagro  e  muitos  outros.  O 

construtor do navio foi Argos, razão pela qual o navio foi batizado de Argo, e os seus tripulantes 

passaram a ser conhecidos por argonautas. O Argo era uma grande embarcação dotada de velas, 

tendo ao centro um mastro feito com um carvalho profético da floresta sagrada de Dodona, que 

predizia os bons ou os maus ventos aos navegantes. Embora tivesse um sistema de mastreação, o 

navio também previa lugares para remadores, para as ocasiões em que faltassem os ventos. 

A construção do Argo, acompanhada de perto por Minerva, concluiu-se, afinal, e os seus 

tripulantes  embarcaram,  prontos  para  seguir  viagem.  Mas,  no  momento  da  partida,  o  navio 

recusava-se  a  sair  do  lugar.  Foi  necessário  que  Orfeu,  um  dos  tripulantes,  tocasse  sua  lira. 

Durante  alguns  minutos  ouviram-se  somente  os  sons  maravilhosos  da  música  misturados  ao 




marulhar  das  ondas,  até  que  finalmente  o  Argo,  por  si  só,  fez-se  ao  mar,  sob  os  gritos  de 

contentamento de toda a tripulação e da população que se despedia dos heróis. 

Durante vários dias navegaram eles pelos mares da Grécia, até chegar à ilha de Lemnos, 

onde pararam para descansar e reabastecer-se de víveres. 

— Veja! — disse Tífis, o experiente piloto do Argo, a Jasão, que chefiava a expedição. — 

Há algumas mulheres ali para nos recepcionar. 

De  fato,  a  ilha  estava  repleta  de  mulheres,  que  se  aproximaram  alegremente  do  Argo, 

cobrindo os visitantes com flores e coroas de louros. Seus trajes eram curtos, e elas eram também 

bastante atraentes. Porém, estranhamente, não se via nenhum homem entre elas. 

—  Onde  estão  os  homens  deste  lugar?  —  inquiriu  Jasão  àquela  que  parecia  a  líder  do 

grupo. 

— Estão todos descansando — respondeu a estranha mulher. 

Os tripulantes do Argo já haviam quase todos desembarcado. Cada uma das mulheres se 

apoderara  de  um  deles,  de  tal  modo  que  só  havia  casais  passeando  por  toda  a  ilha,  o  que 

desagradou um pouco a Jasão: 

—  Viemos  aqui  para  um  piquenique?  —  disse  ele  a  Tífis,  que,  entretanto,  também  já 

estava de olho numa das belas mulheres. 

Jasão, desvencilhando-se delas, foi conhecer melhor a ilha. Andou sozinho por tudo, até 

que descobriu o cemitério. Ali estavam os túmulos de centenas de homens, todos mortos mais ou 

menos à mesma época. 

—  Gosta de túmulos, senhor navegante? — indagou uma voz feminina às suas costas. 

Jasão voltou-se para trás, surpreso com a presença inesperada. 

— Parece que é este o lugar onde estão descansando todos os homens da ilha — disse 

Jasão, num tom irônico. 

A mulher — a mesma que o recebera no desembarque — sorriu discretamente. Diferente 

de antes, tinha agora apenas um fino véu a cobrir a parte inferior da sua cintura. 

— Aqui eles não nos causam mais problemas — disse, erguendo os braços e fingindo que 

se espreguiçava. 

—  Diga,  afinal,  o  que  está  acontecendo  por  aqui  —  ordenou  Jasão,  agarrando-a  pelos 

ombros. 


—  Ui...  Não  se  zangue,  estrangeiro...  —  disse  a  mulher,  passando  de  leve  o  belo  nariz 

aquilino sobre o peito robusto de Jasão. 

—  Deixe  de  asneiras  e  diga  o  que  foi  feito  dos  homens  —  ordenou  novamente  Jasão, 

sacudindo-a com força. 




Apesar do vigor do chefe dos argonautas, a mulher conseguiu se desvencilhar. 

— Quer saber? Pois bem, nós os matamos! 

— Mataram... todos? 

—  Naturalmente!  Eles  nos  traíam  o  tempo  todo,  e  este  foi  o  castigo  —  disse  a  mulher 

apontando para os túmulos, alegre e desafiadora. 

Em breves palavras ela descreveu, então, as humilhações que tiveram de suportar de seus 

maridos.  Não  havia  um  único  dia  em  que  não  tivessem  notícia  da  traição  de  algum  deles. 

Finalmente,  revoltadas,  decidiram  pôr  um  fim  em  tudo,  matando-os.  E  assim  fizeram.  No  dia 

seguinte, não havia mais um único homem vivo em toda a ilha. 

—  Vênus,  no  entanto,  irou-se  conosco  —  continuou  a  mulher  —  e  nos  inspirou  um 

ardente desejo por novas núpcias. Desde então, vivemos na ânsia de contrair novo casamento, o 

que, no entanto, jamais se realiza. 

— Por que não? 

—  Bem, não possuímos um navio enorme como o seu, nem saberíamos fabricar outro 

parecido,  para  partir  em  busca  de  novos  maridos  —  disse  ela,  aproximando-se  com  seu  passo 

felino e sensual. 

Jasão, por alguns instantes, aceitou as carícias; porém, lembrando da sua missão, repeliu 

outra vez a estranha para longe. Com uma gargalhada divertida, ela rodopiou, fazendo uma volta 

inteira  sobre  si  mesma,  enquanto  erguia  com  as  mãos  os  belos  cabelos  negros,  recolhendo-os 

acima da cabeça. Seu rosto oval ficava, assim, inteiramente livre, mostrando o traçado perfeito de 

suas  feições,  sem  nada  em  torno  para  ofuscar  o  brilho  intenso  do  seu  olhar.  Era  uma  visão 

positivamente  tentadora  para  um  homem  da  juventude  e  da  virilidade  de  Jasão,  que  há  várias 

semanas não via senão água e homens ao seu redor. 

Mas ele soube resistir aos seus impulsos, pedindo mentalmente o auxílio de sua adorada 

Juno.  Dando  as  costas  à  nativa  da  ilha,  retornava  já  para  o  Argo  quando  sentiu  que  a  sedenta 

mulher agarrava-se às suas costas, como uma onça, e cravava os dentes em seu ombro. Com um 

safanão, Jasão lançou-a ao solo. A mulher rolou pelo chão, com várias folhas secas coladas à pele. 

Jasão retornou ao navio. Ao chegar lá, porém, não encontrou ninguém. Furioso com o desleixo, 

saiu em busca do piloto e dos demais tripulantes. 

Aos  poucos  foi  encontrando  um  a  um  —  ou  antes,  dois  a  dois,  pois  cada  qual  estava 

entregue  aos  braços  de  uma  mulher,  fazendo  o  que  ele,  Jasão,  deixara  de  fazer.  Por  alguns 

momentos  teve  o  desejo  de  retornar  e  completar  o  que  deixara  pela  metade,  mas  outra  vez  o 

senso  do  dever  o  obrigou  a  refrear  seus  instintos.  De  maneira  rude  pôs  fim  à  folgança  de  seus 

tripulantes, separando um a um os amantes, o que pôs à prova pela primeira vez a força do seu 




braço. De fato, separar os casais revelou-se a tarefa mais difícil de quantas tivera posteriormente 

de enfrentar; mas, pouco a pouco, conseguiu reunir novamente todos os seus homens e levá-los 

de volta ao Argo. 

Sob o pretexto de uma grave comunicação que tinha para lhes fazer, Jasão reuniu todos 

no  convés  do  Argo.  As  mulheres,  em  terra,  acenavam  freneticamente,  chamando  de  volta  os 

homens, de forma que os argonautas passaram por uma prova semelhante à de Ulisses, diante do 

canto tentador das sereias. 

Enquanto  os  tripulantes  aguardavam  o  começo  da  preleção,  Jasão  se  afastou  e  cortou 

discretamente  as  amarras  que  prendiam  o  navio  à  terra,  fazendo  com  que  ele  navegasse 

velozmente  para  longe  da  perigosa  ilha.  Um  desconhecido  marinheiro,  porém,  pulou  pela 

amurada  afora  e  foi  reunir-se  às  mulheres,  em  terra.  Depois  de  um  tempo,  elas  acabaram  por 

descobrir que ele as traía, desrespeitando o rodízio estabelecido por aquelas ardentes e insaciáveis 

mulheres, e terminaram por matá-lo e acrescentar uma lápide a mais no cemitério. 

Enquanto isso, Jasão conduzia o Argo em direção ao Velocino de Ouro. 

O DUELO DE PÓLUX E AMICO 

Ao passar pela costa do Quersoneso, a nau dos argonautas fora atirada pelas ondas. Ali 

teve  ela  de  permanecer  por  alguns  dias,  a  fim  de  reparar  os  danos  sofridos.  Esta  ilha  tinha  ao 

centro uma imensa montanha, habitada pelos Dólios, temíveis gigantes de seis braços. Assim que 

os forasteiros desembarcaram na ilha, os gigantes puseram-se alertas, saindo um a um da boca da 

caverna. O líder do grupo ia à frente, pisando firme. Com uma das suas seis mãos penteava os 

imundos cabelos; com a segunda cobria um bocejo; com a terceira coçava as costas; com a quarta 

limpava o nariz; com a quinta fazia sombra para os olhos; e com a sexta, finalmente, espantava as 

moscas. 

Os  gigantes  não  estavam  para  conversa;  a  primeira  coisa  que  fizeram  ao  perceber  a 

presença dos intrusos foi erguer grandes rochas e lançá-las na direção do navio. Jasão, reunindo 

seus homens, deu-lhes combate, lançando em retribuição as setas de seu arco. Hércules, desejoso 

de  provar  a  força  de  seus  músculos,  atracou-se  com  vários  ao  mesmo  tempo,  exterminando-os 

em poucos minutos, enquanto os demais argonautas davam conta dos demais gigantes com seus 

arcos. 

Infelizmente,  esta  foi  a  única  ocasião  que  os argonautas  tiveram  para  presenciar  o  valor 

do maior dos heróis, pois às costas da Mísia, Hércules teve de abandoná-los: seu amigo Hilas fora 

raptado  pelas  ninfas  quando  recolhia  água  num  rio,  e  Hércules  preferiu  ficar  ali  para  tentar 

resgatá-lo. 



Partindo novamente, os argonautas chegaram à terra dos Bebrícios. Lá, no entanto, não 

foram  mais  bem  recepcionados  do  que  na  ilha  dos  temíveis  Dólios.  O  rei  do  lugar  chamava-se 

Amico, mas era, na verdade, homem de poucos amigos. Era filho de Netuno e achava que isto 

era  desculpa  bastante  para  exercer  o  seu  orgulho  da  forma  mais  sanguinária.  Desde  há  muito 

tempo  havia  instituído  em  seu  reino  o  costume  bárbaro  de  desafiar  para  um  duelo  a  socos 

qualquer  forasteiro  que  pisasse  em  seus  domínios.  Disto  resultava  que  ninguém  ficava  vivo em 

sua  ilha  mais  do  que  alguns  minutos.  Quando  avistou  o  navio  Argo  ancorando  em  suas  águas, 

correu logo para a praia, pronto a desafiar os visitantes. 

— Que ninguém ouse colocar os pés sujos em meu reino, sem antes declarar que aceita 

bater-se comigo num duelo de vida ou morte! — gritou o rei em direção à nau dos gregos. 

Os  tripulantes  entreolharam-se,  surpresos.  Surpresos,  porém  não  assustados.  Todos 

imediatamente disputaram entre si o direito de enfrentar o poderoso oponente. 

— Aqui está o seu inimigo! — disse Pólux, adiantando-se em direção ao rei, cercado por 

seus amigos. 

—  Vêm todos juntos, gregos covardes? — disse Amico, com um riso de escárnio. 

— Guarde os gracejos para os seus lacaios, rei da arrogância — disse Pólux, encarando 

seu inimigo com rudeza no olhar. 

—  Atrevido! — rugiu Amico. — Pagará com a vida por sua petulância! -Depois, virando-

se para os lacaios, que ainda riam de seu mau gracejo, ordenou: 

— Vamos, tragam logo as manoplas! 

Manoplas eram luvas cobertas com pontas de ferro. O rei recebeu a sua e lançou a outra 

às faces do adversário, junto com uma cusparada de sua bílis negra. 

—  Vamos,  imbecil,  vista  isto  e  prepare-se  para  morrer!  —  disse,  sacudindo  o  punho 

enluvado. 

Pólux deu um sorriso de mofa, enquanto pegava no chão a luva cheia de pregos. 

Desfazendo-se  das  roupas,  para  ter  os  movimentos  facilitados,  os  dois  trajavam  apenas 

aquela  terrível  luva.  Uma  das  mãos  permanecia  descoberta,  para  poder  agarrar  os  braços  do 

outro,  num  confronto  direto.  Em  instantes  estavam  os  dois  frente  a  frente;  seus  corpos 

movimentavam-se com cautela, medindo os passos, enquanto estudavam os gestos do adversário. 

Amico, julgando ser seu dever começar a bater, avançou para Pólux, enviando um poderoso soco 

que  passou  raspando  pelos  cabelos  deste.  Dois  pregos,  contudo,  arranharam  ligeiramente  a  sua 

testa, e duas finas listras horizontais de sangue foram brotando ao mesmo tempo em sua fronte, 

como se uma mão firme e invisível as traçasse com absoluta precisão. 



— Seu sangue já começa a correr, maldito! — gritou o rei, possuído. — Vamos, covarde, 

ainda há tempo para desistir! 

A resposta foi um poderoso golpe da mão enluvada de Pólux que, apesar de errar o alvo, 

leva consigo um pedaço do ombro do adversário. O rei, ferido, engoliu um terrível grito de dor. 

Seus dentes rangeram de tal forma que todos ouviram perfeitamente o ruído deles esfregando-se 

dentro da boca. Uma espuma branca começou a brotar dos cantos dos lábios. 

— Pagará caro por isto, demônio! — grita Amico, alucinado. 

— Fale menos e brigue melhor! 

Com  a  mão  desenluvada,  Amico  acertou  um  golpe  no  rosto  de  Pólux,  que  recuou  dois 

passos  para  trás,  tentando  recuperar  o  equilíbrio.  Amico,  dando  um  grito  de  triunfo,  avançou 

com  sua  mão  enluvada,  pronto  a  acabar  com  o  inimigo  momentaneamente  desorientado.  Os 

companheiros de Pólux suspenderam a respiração. 

Porém, desviando-se com impressionante agilidade, Pólux remeteu com a mão livre um 

soco, de cima para baixo, ao queixo de Amico, que o fez cuspir oito dentes ao mesmo tempo, em 

um espirro vermelho de sangue. Com a língua empapada, o rei fez a vistoria na boca, cuspindo os 

cacos que se enterraram dolorosamente nas gengivas. Seu queixo cobria-se com um cavanhaque 

de sangue, do qual pendia um fio vermelho e balouçante. O juiz da contenda, prevendo o pior, 

suspendeu momentaneamente a luta. 

— Que tal está? — perguntou Jasão a Pólux. 

—  Nunca  estive  melhor  —  respondeu  o  confiante  herói,  enquanto  secava  o  suor  do 

corpo. 

Amico, apesar de ter o peito manchado do sangue que escorria da sua boca, não se deixou 

abalar: 

— Dentro de instantes o miserável estará morto — diz Amico a um bajulador, que secava 

com dedicação o corpo do rei. Enquanto o lacaio fazia a sua higiene, Amico estudava o melhor 

meio de liquidar seu adversário. De repente, porém, deu um grito de dor: 

— Aí não, idiota! — diz Amico, dando um pontapé no criado. 

—  Perdão,  alteza...  —  desculpa-se  o  lacaio,  aterrorizado  com  o  resultado  da  sua 

imprudência. 

Ao tentar consertar sua gafe, porém, o lacaio sela seu desastrado destino: 

— Não seria melhor desistir, alteza? — sugere ele, esfregando bem as coxas do rei. 

Um  golpe  brutal  da  mão  enluvada  de  Amico  desceu  do  alto,  pondo  um  fim  à  vida  do 

bajulador. 



— Vamos à luta, outra vez! — rugiu o rei, que ficava sempre excitado diante da morte de 

alguém, principalmente quando era ele o causador. 

Pólux, outra vez em campo, estava decidido a liquidar de vez o adversário: 

— Vejo que é valente para liquidar lacaios indefesos... — diz o argonauta. 

— Guarde seus sentimentos, mocinha. Daqui a pouco os dois estarão cruzando juntos o 

Aqueronte, rumo aos infernos! 

Os golpes recomeçaram, com fúria ainda maior. O sangue correu dos dois lados. Porém, 

Pólux  tem  ferimentos  de  pouca  gravidade,  já  Amico  tem  o  rosto  todo  ensangüentado:  um  dos 

últimos  golpes  de  Pólux  enterrara  um  dos  ferros  de  sua  luva  no  olho  esquerdo  do  rei, 

arrancando-o.  Sem  poder  conter-se  outra  vez  —  mesmo  porque  já  não  tinha  mais  dentes  para 

ranger -, o rei deu um urro de dor tão pavoroso que calou toda a platéia — menos, é claro, a dos 

argonautas, que explodiu em vivas. 

— Desista, verme imundo! — gritou Pólux, tentando poupar ainda a vida do miserável. 

— Nunca! — rugiu Amico, que preferia a morte à desmoralização diante de seus súditos. 

Cego  de  dor  e  de  ódio,  ele  descobriu  o  rosto.  Onde  antes  estivera  brilhando  seu  olho 

perverso,  havia  agora  apenas  um  buraco  negro,  do  qual  escorriam  fios  de  um  sangue  negro  e 

espesso.  Sua  face  irreconhecível  era  uma  máscara  congesta  de  dor  e  de  ódio.  Num  último  e 

desesperado arremesso, Amico — que já unha o corpo inteiro manchado do próprio sangue — 

investiu como um touro sobre o adversário. Pólux desviou-se e, então, aceitou no alto da cabeça 

de  Amico  —  tal  como  este  fizera  com  seu  infeliz  lacaio  —  um  golpe  vertical  de  sua  luva 

recoberta de ferros. 

Seis pontas agudas enterraram-se no crânio do rei. 

Um estupor desceu sobre os aliados do monarca. 

— Bravo, Pólux! — gritam os argonautas, em triunfo. 

Os  aliados  do  rei,  porém,  inconformados  com  a  derrota  desonrosa,  decidiram  tirar 

vingança com as próprias mãos, avançando em direção ao vencedor. Os argonautas, prevendo a 

perfídia, lançaram-se à arena como um só homem. 

De um lado, um punhado de heróis gregos. Do outro, a chusma dos soldados do rei. 

Sem esperar sinal algum, os argonautas investiram contra estes últimos, começando uma 

luta que se estendeu por várias horas. Ao cabo do combate, uma montanha de corpos dos súditos 

de Amico estava ao chão, misturando o seu sangue num mesmo veio rubro e inestancável. 

Os sobreviventes fugiram, e os argonautas puderam, enfim, retomar sua viagem. 

JASÃO E AS ROCHAS CIANÉIAS 



No  caminho  para  chegar  até  a  Cólquida,  em  busca  do  Velocino  de  Ouro,  Jasão  passou 

com seus demais companheiros pela costa da Bitínia. Mal prendeu as amarras e seus tripulantes já 

desembarcavam, felizes por pisarem em terra novamente. 

—  Devagar, rapazes — disse Jasão. — Já tivemos surpresas demais nesta viagem. 

A frente do grupo, Jasão avançou com os outros para dentro do continente. Mais para o 

interior vivia um ancião de horrível aspecto. Seu nome era Fineu, e desde as primeiras horas do 

dia se mostrava extraordinariamente inquieto. Na juventude recebera de Apolo o dom de prever 

o futuro e já sabia, por esta razão, que chegariam naquele dia os homens que o libertariam, afinal, 

de seus padecimentos. 

Na verdade, fora esse mesmo dom o causador de todos os seus males, pois Fineu fizera 

dele  um  péssimo  uso.  Sabedor  de  todos  os  desígnios  que  os  deuses  reservavam  aos  mortais, 

começara  a  revelá-los  a  qualquer  um,  de  modo  indiscriminado,  atraindo  finalmente  a  ira  de 

Júpiter.  Apolo  advertira-o  de  sua  imprudência  mais  de  uma  vez.  O  que  mais  irritara  Júpiter, 

entretanto,  era  a  mania  que  Fineu  tinha  de  revelar  os  oráculos  de  maneira  absolutamente  clara, 

ignorando a misteriosa retórica dos templos. 

— É preciso mistério, Fineu! — lhe dissera Apolo, certa feita. 

O que Fineu pretendia, na verdade, era criar um método simples de consultar os oráculos. 

Abandonando  o  incômodo  tripé  onde  os  adivinhos  costumavam  trabalhar,  Fineu  instalara-se 

numa cadeira mais confortável e começara a fazer suas revelações de maneira simples e direta. 

Tal  método  não  agradou  aos  deuses.  Júpiter,  afinal,  farto  das  indiscrições  de  Fineu, 

decidiu puni-lo, fazendo com que de um dia para o outro ele se transformasse num velho cego e 

decrépito.  Mas  isso  não  foi  o  suficiente  para  aplacar  a  ira  do  deus  supremo.  Além  de  torná-lo 

velho  e  cego,  ele  fez  com  que  o  miserável  Fineu  jamais  pudesse  comer  outra  vez  qualquer 

alimento saudável. Para tanto, ordenou que as pavorosas harpias — seres alados que corrompem 

todo o alimento que tocam — estivessem ao seu lado, toda vez que ele fizesse uma refeição. 

Assim, era em vão que Fineu se sentava à mesa para fazer suas refeições; quando erguia 

seu  talher,  logo  surgiam  acima  dos  ombros  as  imundas  aves  agitando  as  asas  que  cheiravam  a 

carniça.  Com  as  mãos  envenenadas  tomavam-lhe  o  alimento,  cuspindo-lhe  em  cima  uma  baba 

fétida e negra. 

Nesse regime forçado, o velho acabou definhando. Seu corpo reduzira-se apenas a uma 

fina cobertura de pele. Os ossos de suas extremidades furavam este frágil envoltório, de tal modo 

que se podiam ver perfeitamente os ossos de seus cotovelos saindo pela pele rasgada. Por toda a 

parte do corpo irrompiam pedaços de ossos, de tal sorte que parecia que se descascava, prestes a 

revelar o esqueleto inteiro. 




Era  um  espetáculo  verdadeiramente  triste  assistir  à  decadência  física  daquele  pobre 

homem.  No  entanto,  o  desgraçado  Fineu  ainda  não  havia  perdido  completamente  o  dom  de 

prever o futuro, e agora fazia uso dele para si próprio. 

— São eles! — disse o velho, levantando-se de seu leito imundo ao sentir a chegada dos 

argonautas. 

Apoiado  ao  seu  cajado,  Fineu  arrastou  seus  frágeis  ossos  até  a  porta.  Os  visitantes 

espantaram-se  diante  daquele  esqueleto  humano,  que  mais  parecia  a  Morte  a  aguardá-los.  De 

repente,  porém,  surgiram  dos  céus  novamente  as  harpias  esvoaçantes.  Com  golpes  de  suas 

malcheirosas mãos, tentaram impedir que Jasão e seus homens conversassem com Fineu. Estes, 

contudo,  sacaram  suas  espadas  e  desferiram  vários  golpes,  expulsando-as  com  violência. 

Agradecido, o velho convidou-os a entrar. 

—    Minhas  predições  estavam  certas,  afinal!  —  exclamou.  As  harpias  haviam  sido 

expulsas para sempre, conforme previra. 

Depois de sentar-se à mesa, Fineu chamou Jasão, pois tinha uma importante revelação a 

fazer. Como se vê, o velho não perdia o hábito de profetizar. 

— Logo que vocês saírem daqui, encontrarão em alto-mar dois imensos rochedos. São as 

Rochas Cianéias — falava Fineu, enquanto se banqueteava com fúria, livre, enfim, para comer à 

vontade. 

—  O que têm essas rochas? — perguntou Jasão. 

— São dois rochedos que flutuam no mar, à espera de que algum barco lente cruzar o seu 

vão — disse o velho. — Quando isso acontece, eles juntam-se inesperadamente, esmagando os 

imprudentes. 

— Você quer dizer que isto acontecerá conosco, também? 

— Bem, se isto ocorrerá ou não, não posso revelar... — disse Fineu, mais comedido em 

seus prognósticos, pois temia uma nova punição de Júpiter. -Mas há um meio de saber quando 

será a melhor hora para tentarem a travessia. 

—  Vamos, diga logo! — disse o herói grego, impaciente. 

—  Quando estiverem próximos, larguem uma pomba; se ela conseguir realizar a travessia 

com  facilidade,  ponham  toda  a  força  nos  remos  e  sigam  adiante  —  disse  o  velho,  cujos  olhos 

cegos pareciam enxergar perfeitamente a cena. — No entanto, se a pomba perecer, desistam. 

Satisfeito  com  as  advertências,  Jasão  agradeceu  e  então  partiu  da  ilha,  juntamente  com 

seus homens. 

No  mesmo  dia,  o  Argo  avançou  intrepidamente  pelas  perigosas  águas  poucos  foram 

surgindo  no  caminho  várias  rochas  de  pequeno  e  médio  tamanho  espalhadas  ao  longo  do 




estreito. Com muita dificuldade, os remadores evitaram a colisão com esses escolhos, orientados 

sempre por Tífis, o experiente piloto que guiava o Argo desde o começo da expedição. 

Aos poucos o horizonte foi tornando-se escuro, prenunciando a chegada da noite. 

Jasão ordenou que os grandes archotes presos aos mastros fossem acesos. Os marinheiros 

também portavam alguns, de tal modo que parecia que o Argo tinha a voejar ao redor de si um 

exército  de  imensos  vaga-lumes  dourados.  Assim,  iluminado,  o  navio  ia  avançando  e  se 

desviando, até que, afinal, Tífis exclamou, apontando adiante: 

—  Vejam, são elas, as Rochas Cianéias! 

Embora ainda estivessem um pouco distantes, todos puderam divisar, iluminados pela lua 

cheia, dois imensos rochedos a flutuar firmemente sobre as águas revoltas. 

—  E se tentássemos contorná-los? — perguntou Tífis. 

—  É impossível — disse Jasão. — O desvio seria imenso. O único vão suficientemente 

largo para que possamos passar com nossa embarcação é aquele que há entre eles. 

Jasão tinha seus olhos fitos nas duas rochas gigantescas. Ao perceber que haviam chegado 

ao ponto máximo de seu afastamento, virou-se com decisão para um dos marinheiros: 

— Vamos, solte a pomba! 

Uma  pomba  branca  ergueu  vôo  das  mãos  do  marinheiro  e  partiu  como  uma  flecha  em 

direção  ao  vão.  As  rochas,  no  entanto,  parecendo adivinhar  que  algo  pretendia  franquear  a  sua 

passagem,  começaram  a  unir-se  rapidamente.  A  pomba  acelerou  ainda  mais  o  vôo  e  conseguiu 

meter-se  afinal  no  vão,  no  último  instante,  quase  ao  mesmo  momento  em  que  os  penedos 

flutuantes trombavam violentamente um contra o outro. Um estrondo de formidável intensidade 

ecoou, espalhando-se por todo o mar; grandes vagas marinhas subiram ao céu numa explosão de 

água,  descendo  sob  a  forma  de  uma  improvisada  chuva.  O  mar  inteiro  se  convulsionava, 

enquanto as rochas, lentamente, iam se separando outra vez. A pomba conseguira passar quase 

incólume, perdendo apenas uma ou duas penas da cauda. 

—  Adiante!  Toda  a  força  nos  remos!  —  disse  Jasão,  com  um  grande  grito  Os  homens 

estiraram  os  músculos,  pondo  toda  a  energia  nos  movimentos.  As  rochas  rapidamente  se 

separavam,  enquanto  o  Argo  avançava  velozmente,  quando  subitamente  o  navio  foi  impelido 

para trás por uma grande onda. 

Rodopiando, o Argo voltou quase ao ponto de partida. 

— Vamos outra vez, ainda há tempo! — rugiu Jasão. 

Empinando  a  proa,  o  Argo  arremeteu  novamente,  com  maior  vigor  ainda.  As  rochas 

começavam  a  fechar-se  outra  vez,  enquanto  o  mar  se  agitava  em  torno  delas,  levantando  um 



novo maremoto. Ganhando um novo c decidido impulso, o navio enfiou-se na já estreita fenda, 

comprimindo-se entre as duas paredes escarpadas. 

Quando todos pensavam que já estavam livres, um baque tremendo sacudiu inteiramente 

a embarcação, lançando ao solo vários homens. As rochas haviam esmagado a popa. 

Porém,  afora  isso,  os  rochedos  haviam  sido  transpostos,  e  os  argonautas  podiam 

considerar-se felizes. 

—  Vamos agora em busca do Velocino, companheiros! — disse Jasão. com um sorriso. 

JASAO E O VELOCINO DE OURO 

Após passarem por muitas peripécias, os argonautas — ousados navegantes, comandados 

pelo  herói  grego  Jasão  —  estavam  prestes  a  chegar  a  Cólquida,  reino  onde  estava  escondido  o 

famoso tosão de ouro. Sua missão era resgatar esta relíquia, levando-a intacta até o seu país. 

A  última  parada  antes  do  destino  final  se  deu  na  ilha  de  Marte.  Porém,  antes  de 

desembarcarem, avistaram ao longe um bando de imensas aves que pairavam sobre a ilha como 

uma gigantesca e movente nuvem escura. 

— O que é aquilo? — disse um dos tripulantes do Argo, o navio que conduzia os heróis. 

—  Vamos  nos  aproximar  para  ver  melhor  —  disse  Jasão  a  Tífis,  o  piloto.  Virando  as 

velas, Tífis fez com que o Argo passasse rente à ilha, o que bastou para despertar a atenção das 

aves.  Num  instante,  uma  gigantesca  nuvem  alada  ergueu-se  até  os  céus,  saindo  no  encalço  da 

embarcação. 

— As malditas aves estão nos seguindo! — disse Tífis ao comandante da expedição. 

As  aves  tinham  o  tamanho  e  a  aparência  assemelhados  aos  do  maior  dos  grifos  — 

pássaros monstruosos com corpo de leão, cabeça e asas de águia — e suas penas eram disparadas 

de seus corpos como setas. 

—  Cuidado,  Tífis!  —  disse  Teseu,  um  dos  tripulantes,  ao  perceber  que  uma  delas  se 

aproximara perigosamente do companheiro. 

Infelizmente o aviso chegara tarde demais; atingido por uma flechada certeira partida de 

uma das aves, o infeliz piloto caíra morto instantaneamente. 

— Aves infernais! — bradou Jasão, recolhendo o corpo de Tífis, já sem vida. Erguendo 

seus escudos e lanças, os argonautas tentavam proteger-se do ataque das aves, que continuavam a 

lançar de seus corpos uma chuva de setas. 

— Batam nos escudos, com toda a força! — disse o comandante. Imediatamente todos 

começaram a fazer uma tremenda azoada, ao mesmo tempo em que acertavam algumas aves com 

a  ponta  de  suas  lanças. Mas  o  que  verdadeiramente  os  salvou  foi a  perícia  do  piloto,  que  havia 

desde o primeiro instante dado o rumo certo à embarcação, fazendo com que o navio se afastasse 




o  suficiente  da  ilha.  As  terríveis  aves,  apesar  de  belicosas,  jamais  iam  para  muito  longe  de  seu 

habitat, por isso logo retornaram à ilha, dando gritos estridentes de triunfo. Pareciam satisfeitas 

por terem assassinado ao menos um dos intrusos, embora tenham sido abatidas em muito maior 

número. 


Os argonautas, aliviados por escapar do perigo, tinham motivos, no entanto, para estarem 

mais  abatidos  do  que  felizes,  devido  à  morte  de  Tífis.  Depois  de  deplorar  a  má  sorte  de  seu 

companheiro, os expedicionários rumaram para a Cólquida, onde chegaram sem mais incidentes. 

Tão logo desembarcou em terra, Jasão procurou o rei, Etes, para lhe informar do motivo 

da viagem. O rei escutou-o atentamente e depois disse: 

—  Estrangeiro,  já  que  você  e  seus  companheiros  se  deram  a  tantos  trabalhos  e  perigos 

para chegar até aqui, estou disposto a lhes ceder o Velocino de Ouro. 

Um sorriso de satisfação banhou o rosto de Jasão. 

— Antes, no entanto, você deverá provar que é realmente um escolhido dos deuses. 

—  Estou  disposto  a  qualquer  coisa  para  cumprir  a  minha  missão  —  disse  Jasão, 

confiante. 

— Muito bem. Amanhã cedo você deverá estar diante do campo de Colcos. Ao chegar lá, 

lhe entregarei dois touros. Tome-os e are o campo inteiro para mim. 

Os argonautas entreolharam-se, incrédulos com a simplicidade da tarefa. 

— Só isto... ? — perguntou Jasão. 

— Sim, os detalhes você saberá amanhã. Então, está disposto? 

— Está bem, lá estarei à hora combinada — respondeu o forasteiro. 

Entre  os  circunstantes,  entretanto,  estava  Medéia,  a  filha  do  rei,  que  imediatamente 

tomou-se de amores pelo herói grego. Chamando-o à parte, a filha de rei decidiu preveni-lo: 

—  Belo  estrangeiro,  preciso  falar  com  você  —  disse,  pegando  no  pulso  de  Jasão.  Jasão 

acedeu, acompanhando-a até um local afastado do burburinho. 

— Esta é uma prova muito mais difícil do que você imagina — começou ela a dizer. — 

Os bois com os quais você deverá arar o campo são, na verdade, dois imensos e furiosos touros 

com patas de bronze. Além disso, eles cospem fogo pela boca, de tal sorte que jamais alguém, à 

exceção de meu pai, conseguiu arar o tal campo. 

— Bem, se ele conseguiu, eu também conseguirei — exclamou Jasão. 

— Não seja tão ingenuamente confiante — censurou Medéia. — Na verdade ele apenas o 

consegue porque está sempre de posse de um feitiço que eu elaboro especialmente para ele. 

— Você é uma feiticeira? 

— Sim, desde nova fui iniciada nas artes mágicas. 




— Bem, e você está disposta a me ceder esse feitiço? 

— Certamente, mas antes é preciso que você saiba de uma outra coisa. As sementes que o 

rei lhe dará para semear no campo são, na verdade, os dentes que Cadmo extraiu de um horrível 

dragão.  Tão  logo  os  deposite  sobre  os  sulcos  abertos  pelo  arado,  eles  irão  se  transformar  num 

exército de soldados, que se lançarão sobre você, dispostos a tudo para lhe tirar a vida. 

— Bem, e o seu feitiço agirá como? 

— Quando meu pai lhe der os dentes do dragão, você deverá pedir o adiamento da tarefa 

para  o  dia  seguinte. Com  a  chegada  da  noite,  vá  até  o  rio  que  há  um  pouco  além  do campo e, 

depois  de  se  purificar  em  suas  águas,  sacrifique  dentro  de  um  fosso,  que  você  cavará  com  as 

próprias  mãos,  um  grande  carneiro.  Queime-o  inteiro  e  faça  ali  mesmo  suas  libações  com  mel, 

invocando Hécate, a deusa das trevas. Você saberá que ela estará presente quando escutar o uivo 

de milhares de cães invisíveis. Dê então as costas e saia imediatamente do local. 

—  E depois? 

— Quando a aurora surgir, junte um pouco do seu orvalho e dilua o feitiço que estou lhe 

dando  neste  momento  —  disse  Medéia,  estendendo  às  mãos  de  Jasão  um  pequeno  vidro  —  e 

passe-o por todo o corpo. Deverá esfregá-lo também em suas armas. Você sentirá então que seus 

membros adquirirão uma força sobre-humana, estando apto, assim, a enfrentar a fúria dos touros. 

— E quanto ao exército que brotará do solo? 

—  Quando  os  soldados  surgirem  do  chão,  pegue  uma  grande  pedra  e  jogue  entre  eles. 

Isto os tornará raivosos a ponto de fazê-los brigar entre si. Aproveite, então, a confusão e liquide-

os. 

Depois de receber essas instruções, Jasão partiu, disposto a cumprir com exatidão tudo o 



que a filha do rei lhe dissera. 

No dia seguinte, logo cedo, Jasão chegou, juntamente com os seus amigos, no campo de 

Colcos.  O  rei  já  estava  instalado  numa  grande  tribuna,  juntamente  com  sua  filha  e  um  imenso 

contingente do povo que acorrera pressuroso para presenciar o temível feito. A maioria, porém, 

foi  disposta  apenas  para  ver  a  morte  do  estrangeiro,  pois  vários  outros  já  haviam  tentado 

inutilmente a façanha. Ninguém, no entanto, jamais havia conseguido passar além da doma dos 

touros selvagens. 

Dentro de uma armação de ferro reforçada, montada no próprio campo, partiam rugidos 

ferozes, acompanhados de golpes semelhantes aos de poderosos  malhos que fossem desferidos 

contra  o  solo  que  faziam  tremer  as  próprias  tribunas  e  arquibancadas.  Eram  os  touros  que  se 

debatiam, fazendo saírem fios de labaredas por todas as frestas da armação. 



Entre o povo ferviam as apostas; apostava-se não para saber se o desafiante venceria ou 

não, mas quanto tempo ele levaria para ser abatido pelas feras. 

De  repente,  quatro  homens  aproximaram-se  do  grande  portão  de  ferro  e  puxaram  a 

imensa tranca de chumbo que impedia a saída dos animais. Os touros, pressentindo a iminência 

de sua libertação, lançavam-se contra as paredes de sua prisão. Tão logo a tranca foi retirada, os 

dois lançaram-se a toda força, não dando sequer tempo para os homens fugirem. Um deles foi 

imediatamente pisoteado pelas patas de bronze do primeiro boi, que sapateou sobre o corpo até 

reduzi-lo a uma massa sangrenta de ossos e carne. Ninguém moveu um dedo para salvá-lo. E. se 

alguém  o  tivesse  feito,  teria  sido  executado  a  mando  do  próprio  rei,  pois  aquelas  mortes 

introdutórias faziam parte do espetáculo. O segundo e último morto — pois os demais haviam 

conseguido  escapar  a  tempo  —  foi  um  rapaz  de  seus  dezoito  anos,  que  teve  o  rosto  inteiro 

queimado pelas labaredas que um dos touros lhe lançou às faces. Junto ao solo ficou seu corpo 

intacto, com a caveira queimada exposta. 

O espetáculo destas duas mortes preliminares acendeu o ânimo do povo, em definitivo. 

Gritos  de  prazer  elevaram-se  da  platéia;  urros  selvagens  percorriam  todo  o  campo,  abafados 

somente pelo mugido selvagem dos touros, que continuavam a escarvar o solo, lançando para o 

alto torrões de terra do tamanho de uma cabeça humana. 

Jasão estava poucos metros à frente das bestas; seu olhar era ao mesmo tempo cauteloso 

e confiante. O primeiro touro, assim que o enxergou, lançou-se sobre ele, a toda fúria. Jasão, com 

seu  escudo  enfeitiçado,  aparou  o  golpe  —  que  sob  condições  normais  teria  furado  o  metal  do 

instrumento como se fosse de papelão. Mesmo assim o herói foi lançado junto com sua proteção 

dez metros adiante, o que fez a platéia erguer-se, num êxtase incontido. 

Enquanto Jasão ainda estava caído, o segundo touro investiu, disposto a pisotear o grego 

até  a  morte.  Mas  este,  levantando-se,  conseguiu  desviar-se,  dando  ainda  um  grande  soco  na 

cabeça do animal, o que o desorientou por alguns instantes. Cego de raiva, o touro cuspia fogo 

em todas as direções, de modo que uma de suas poderosas línguas de fogo alcançou as primeiras 

filas da arquibancada, espalhando o pânico sobre o povo. Do outro lado da arquibancada, os que 

estavam mais para trás acavalavam-se sobre os ombros dos que estavam à frente para enxergar 

melhor  o  massacre  inesperado.  Pessoas  pulavam  para  a  arena  com  os  corpos  em  chama.  Os 

touros,  deliciados,  continuavam  a  investir  sobre  os  dois  cadáveres.  Jasão  teve  de  prosseguir  em 

seu desafio, mesmo em meio aos corpos calcinados e pisoteados de homens e mulheres. 

A  platéia  agora  estava  tomada  pela  histeria,  empolgada  até  a  loucura  pelo  macabro 

espetáculo. Pessoas começavam a ser lançadas de modo indiscriminado para dentro do campo, o 

que obrigou o rei a lançar seus soldados sobre a plebe, a fim de conter o entusiasmo. 




Apesar  do  fogo  espalhado  por  todo  o  campo,  Jasão  não  tinha  uma  única  queimadura, 

graças  ao  feitiço  de  Medéia.  A  um  canto  estava  o  jugo  de  bronze  e  o  arado  de  ferro;  Jasão 

apoderou-se do jugo com uma das mãos e aproximou-se do primeiro touro. Um espirro de fogo 

da besta cobriu o herói de uma veste de chamas, dos pés à cabeça. A platéia urrou. Mas assim que 

as  chamas  se  extinguiram,  Jasão  ressurgiu  de  dentro  delas,  intacto,  arrancando  um  oh! 

decepcionado  de  espanto  da  mesma  platéia.  O  touro  também  parecia  desconcertado;  confuso, 

olhou  para  o  irmão,  como  que  buscando  dele  uma  explicação  para  o  feito  assombroso.  Jasão, 

aproveitando a distração, agarrou um dos cornos do animal, arrastou-o até sentir seu pêlo ardente 

encostado  no  peito,  e  com  um  pontapé  fez  o  animal  cair  de  joelhos  diante  de  si.  Em  seguida, 

colocou  sobre  o  cachaço  do  touro  o  pesado  jugo,  deixando-o  imobilizado.  O  segundo  touro, 

vendo seu irmã em apuros, correu a toda velocidade em direção ao inimigo. Medéia, percebendo 

a cena, gritou para Jasão: 

—  Cuidado! 

A imensa cabeça do touro sacudiu-se como se uma nuvem invisível de moscas a cercasse. 

Jasão,  com  um  pulo  ligeiro,  montou  sobre  as  costas  do  animal  e  saiu  trotando,  agarrado  aos 

chifres da criatura, que escoiceava, enlouquecida por se ver alvo daquela inesperada humilhação. 

Medéia, na tribuna, vibrava. O próprio rei não pôde deixar de aplaudir o prodígio. E até a 

própria ralé das arquibancadas passou para o lado do audaz domador, curvando-se ao talento do 

vencedor. 

Aproveitando-se de um descuido do animal, Jasão apoderou-se de seus dois chifres e com 

uma pancada vigorosa do punho, assestada contra a testa do animal, praticamente o nocauteou, 

obrigando-o a dobrar os joelhos até o chão. Jasão tinha agora os dois touros postos sobre o jugo; 

com  um  movimento  rápido,  atrelou  o  arado  de  ferro  à  extensão  da  canga e,  apoderando-se  do 

timão, começou a arar o campo, como se estivesse puxando a mais suave parelha de bois de toda 

a Grécia. 

Um estrépito de aplausos varreu toda a assistência. Ainda falta, porém, a última parte da 

tarefa, que é a de semear nos sulcos abertos pelo arado os dentes do dragão que Cadmo abatera 

anteriormente.  Jasão  assim  o  fez,  voltando  sempre  a  cabeça  para  trás  para  ver  se  surgiam  os 

temíveis soldados que, segundo Medéia, se levantariam do chão para atacá-lo. 

Após lançar o último dente amarelo do dragão sobre o solo, Jasão, de fato, viu erguer-se 

do  chão  um  exército  inteiro  de  gigantes.  Cada  um  deles  tinha  a  mesma  aparência  do  temível 

réptil:  uma  face  oblonga e  esverdeada,  tendo  de  cada  lado  do  rosto  um  grande  olho  de  pupilas 

horizontais.  Estavam  todos  armados  de  escudos,  lanças  e  espadas.  Imediatamente  os  soldados 

avançaram em direção a Jasão, que os rechaçava com golpes firmes de sua espada encantada. Mas 




para cada um que era abatido ressurgiam outros dez, e se tornava impossível ao herói dar conta 

de todos eles. 

Obrigado  a  recuar,  Jasão  lembrou-se,  contudo,  do  expediente  que  Medéia  lhe  ensinara. 

Erguendo  do  chão  uma  pedra  de  bom  tamanho,  o  herói  lançou-a  em  meio  aos  temíveis 

guerreiros.  No  mesmo  instante  eles  atiraram-se  uns  contra  os  outros,  de  modo  surpreendente, 

fazendo-se  em  pedaços.  Jasão,  aproveitando-se  da  confusão,  caiu  em  cima  dos  restantes, 

acabando com eles. 

Cumpridas as duas tarefas, Jasão apresentou-se diante do rei Etes. 

—  Muito  bem,  audaz  guerreiro  —  disse  o  monarca,  pondo  sobre  a  fronte  de  Jasão  o 

louro da vitória. — Você já tem a minha autorização para entrar no bosque onde está guardado o 

tosão  dourado.  No  entanto,  deverá  fazê-lo  sozinho  —  completou  o  rei,  pois  sabia  bem  que 

Medéia o havia auxiliado ainda há pouco e queria evitar nova intromissão por parte de sua filha. 

Um  pouco  além  do  campo  onde  Jasão  domara  os  touros  e  exterminara  o  exército  de  gigantes 

ficava  o  tal  bosque.  Ali,  nem  mesmo  o  mais  destemido  dos  guerreiros  da  Cólquida  ousava 

penetrar. A noite já caíra, e o herói tinha uma tocha acesa numa das mãos. 

De repente, porém, Jasão sentiu que tinha alguém a seu lado. Virando-se, confirmou sua 

impressão. Era Medéia, que, escapando à vigilância de seu pai, viera juntar-se a ele. 

— O que está fazendo aqui? 

— Vim para ajudá-lo outra vez — disse a filha do rei, decidida. 

O argonauta, reconhecendo a competência da jovem, curvou-se à vontade dela e ambos 

seguiram floresta adentro. 

— Mantenha-se sempre perto de mim — disse o guerreiro. 

Assim unidos, os dois avançaram, desviando-se dos compridos galhos; a jovem feiticeira 

também  trazia  consigo  uma  tocha,  para  ajudar  a  clarear  a  treva  espessa  da  mata.  Depois  de 

atravessarem  grande  parte  do  bosque,  Jasão  entreviu  por  detrás  da  folhas  das  árvores  uma 

claridade que quase tornou desnecessário o uso das tochas. 

— É ela, a árvore onde está pendurado o Velocino dourado! — disse Medéia. puxando o 

braço de Jasão. 

De  fato,  dentro  de  uma  larga  clareira  dentro  da  mata  estava  uma  enorme  e  solitária 

árvore. De seus galhos pendia o tosão de ouro — a pele de ouro da ovelha que o jovem Frixo 

esfolara  logo  após  a  sua  chegada  a  Cólquida.  Banhado  pela  luz  da  lua,  o  tosão  esplendia 

maravilhosamente,  deixando  os  dois  intrusos  momentaneamente  paralisados  de  admiração.  Ao 

lado da majestosa árvore estava. no entanto, uma grande caverna, de cuja entrada escura escapava 

um ronco. 




— Cuidado, Jasão! — disse Medéia, apreensiva, ao ver que ele se precipitava para apanhar 

do galho da árvore a preciosa relíquia. — Ali dentro está o terrível dragão que protege o Velocino 

noite e dia! Deixe-me ir junto! 

—  Fique  aqui!  —  recomendou  ele,  empunhando  com  firmeza  a  espada,  enquanto 

resguardava o peito com o escudo. 

O  herói  avançava,  cautelosamente.  Subitamente,  porém,  o  ronco  no  interior  da  caverna 

silenciou. Jasão, prevendo que o tempo se esgotava, estendeu a mão, chegando a tocar o macio e 

dourado pêlo do tosão pendurado ao galho. Como se o seu toque despertasse um alarme, surgiu 

no mesmo instante da entrada escura da caverna a grande e horrenda cabeça do dragão. 

— Cuidado, Jasão! É ele, o guardião do Velocino! — gritou Medéia. 

Um urro selvagem fez os galhos das árvores vibrarem, expulsando de suas extremidades 

uma chuva de folhas, que rodopiaram soltas no ar. Ao enxergar o intruso, a besta fenomenal saiu 

de corpo inteiro de dentro da caverna. As escamas denteadas de seu dorso lembravam os degraus 

cartilaginosos  de  uma  imensa  escadaria  verde  escura.  Uma  baba  amarela  descia  pelo  queixo  do 

monstro,  deixando  várias  poças  espalhadas  pelo  chão.  Com  sua  cauda  gigantesca  sempre  em 

movimento, ele espalhava a gosma venenosa para todos os lados. 

Jasão,  protegido  por  seu  escudo,  recuou  um  pouco,  sem  poder  capturar  a  sua  preciosa 

relíquia. Medéia, por sua vez, desobedecendo às ordens de Jasão, lançou-se ao teatro da disputa, 

disposta  a  tudo.  Os  dois  estavam  agora  inteiramente  à  mercê  da  fera,  que  os  encurralou  a  um 

canto de um grande paredão rochoso. Felizmente o monstro estava preso a uma sólida corrente 

dourada, cujos elos eram tão grandes que por eles podia passar uma cabeça humana inteira. 

Jasão já se preparava para atacar a fera, quando Medéia puxou de seu seio um pequeno 

vidro. 

—  Tome,  leve  consigo!  —  disse.  —  É  uma  poção  destinada  a  fazer  adormecer  o 

monstro. 

O herói, de posse do líquido, avançou, mas foi golpeado inadvertidamente pela ponta da 

cauda  da  fera,  indo  cair  próximo  à  árvore.  Jasão  agradeceu  o  erro  de  cálculo  do  monstro  e 

apoderou-se com segurança do tosão. A fera, enlouquecida de ódio, investiu com fúria contra o 

argonauta; o recipiente com a poção mágica, contudo, rolara ao chão. Felizmente, o vidro não se 

quebrou. Enquanto Jasão enfrentava o monstro, Medéia, de posse outra vez da poção, a aspergia 

sobre o inimigo. A fera, arreganhando os dentes, engolira quase todo o conteúdo, e aos poucos 

foi-se fazendo sonolenta. 

Os  olhos  do  dragão  começavam  a  se  fechar.  Jasão,  aproveitando  a  oportunidade  única, 

tomou a lança e a atravessou no coração do monstro. Foi um ato que se revelou mais imprudente 




que  judicioso,  pois  a  fera,  com  a  dor  insuportável  do  golpe,  ergueu-se  nas  duas  patas  lançando 

um  grande  urro.  Antes  de  cair  morta  ao  solo,  num  último  golpe  tentou  abocanhar  Jasão,  que 

deixou nos dentes do dragão, no entanto, apenas seu escudo, todo torto e desmanchado. 

O  dragão  estava  finalmente  morto,  e  o  Velocino  de  Ouro  estava  agora,  finalmente,  nas 

mãos  de  Jasão.  Medéia,  com  um  grito  de  alegria,  lançou-se  aos  braços  do  herói  e,  no  mesmo 

instante, ambos retornaram para o Argo. Medéia decidira unir-se a Jasão, partindo com os demais 

argonautas de volta para a terra de seu amado. 

O RAPTO DE PROSÉRPINA 

Plutão,  o  deus  dos  infernos,  andava  inquieto  com  a  agitação  que  vinha  abalando  os 

fundamentos do monte Etna, na Sicília. De fato, o vulcão que ali existia parecia mais irado do que 

nunca,  cuspindo  fumaça  e  faíscas  para  todos  os  lados.  Sabedor  de  que  o  interior  daquelas 

montanhas  abrigava  o  gigante  Tifão  —  que  fora  anteriormente  derrotado  por  Júpiter  e  ali 

acorrentado -, Plutão decidira :r ver pessoalmente o que estava ocorrendo. 

Tomando  a  carruagem  da  noite,  o  deus  subterrâneo  percorria  a  terra,  no  caminho  do 

monte Etna, quando avistou um grupo de mulheres que colhiam flores no campo. Enquanto isto 

Vênus, a deusa do amor, observava tudo, tendo ao lado o filho Cupido. 

— Veja, meu filho — disse Vênus, pegando o braço do jovem -, parece que o deus dos 

infernos decidiu dar uma voltinha à luz do dia. 

—  O  coitado  deve  estar  cansado  de  toda  aquela  escuridão  —  disse  Cupido.  -Deve  ser 

horrível, afinal, ser o rei de um mundo de mortos. 

De repente, Vênus, dando-se conta de algo, encostou sua boca à orelha de Cupido: 

— E se lhe arrumássemos algo que o distraísse de sua solidão? 

Os  olhos  do  jovem  pareceram  se  iluminar.  Cupido  pegou  rapidamente  o  seu  arco, 

escolhendo a flecha mais aguda de sua aljava repleta de setas. 

— Já entendi, mãe... — disse, caprichando na pontaria. 

Uma  flecha  dourada  cortou  o  ar,  indo  atingir  em  cheio  o  coração  do  deus infernal.  No 

mesmo instante, Plutão ficou apaixonado pela mais bela das mulheres que tinha diante dos seus 

olhos.  Era  Prosérpina,  filha  de  Ceres,  a  deusa  da  fertilidade  e  da agricultura;  a  jovem  podia  ser 

considerada uma digna filha de sua mãe, com seus longos cabelos da cor do trigo. 

Tomado  por  um  ímpeto  verdadeiramente  infernal,  Plutão  colheu  as  rédeas  cor  de  ferro 

que seguravam seus negros cavalos e se lançou em direção ao grupo de moças que circundavam a 

encantadora  presa.  Assustadas  com  a  aproximação do  carro  negro,  todas  correram  em  diversas 

direções, deixando Prosérpina desprotegida. Plutão, aproveitando o descuido, suspendeu a moça 

com o braço, arrebatando-a aos céus em seu carro veloz. 




Foi  em  vão  que  a  filha  de  Ceres  clamou  por  socorro:  Plutão,  mantendo-a  solidamente 

presa em seus braços, a conduzia para cada vez mais longe. Descendo, afinal, o seu carro, o deus 

das trevas preparava-se para golpear o solo com seu tridente e abrir caminho para retornar ao seu 

mundo subterrâneo, quando a ninfa Ciana, que estava ali por perto, ainda tentou detê-los: 

— Espere, cruel divindade! Deixe-a em paz! 

Plutão, sem lhe dar ouvidos, fendeu a terra com um golpe poderoso de seu tridente. Um 

abismo abriu-se aos pés de ambos. Antes, porém, que o raptor e sua presa entrassem pela negra 

passagem, Plutão, temendo que a ninfa Ciana viesse a dar com a língua nos dentes, transformou-a 

em  uma  fonte.  Os  cavalos  relincharam,  felizes  de  regressarem  à  sua  escura  morada,  enquanto 

Prosérpina perdia os sentidos ao ver-se prestes a adentrar aquela escuridão sem fim. — Vamos, 

você  será  agora  a  rainha  dos  infernos!  —  disse  Plutão,  dando  um  beijo  na  face  desmaiada  de 

Prosérpina, antes de chicotear com furor os seus cavalos da cor da noite. 

Ceres,  no  mesmo  dia,  foi  alertada  pelas  amigas  de  Prosérpina,  que  lhe  contaram  em 

detalhes o rapto e o seu autor. 

— Plutão?! — exclamou Ceres, incrédula. — O que fará aquele maldito à minha filha? 

Desesperada, a deusa saiu a pé, do jeito que estava, em busca de Prosérpina. Percorreu a 

terra  durante  o  dia  inteiro,  sem  encontrar  nem  sinal  da  filha.  Quando  a  noite  chegou,  acendeu 

uma tocha e prosseguiu em sua solitária e desesperada busca. Assim que Ceres avistou Selene, a 

deusa da Lua, deteve o seu passo. 

— Por acaso você não viu, poderosa deusa, a minha filha sendo levada num grande carro 

conduzido por Plutão? — perguntou, esperançosa. 

Infelizmente, Selene nada vira. Durante a noite inteira Ceres percorreu a terra, iluminada 

apenas  pelas  estrelas  e  pela  Lua,  que  intensificou  seus  raios  para  ajudá-la  a  encontrar  a  filha. 

Quando o dia amanhecia, Ceres encontrou-se com a Aurora, que já vinha adiante, precedendo o 

radiante carro de Febo, o deus do Sol. 

—  Aurora  querida,  perdi  minha  filha!  —  disse  Ceres,  em  prantos.  —  Você,  por  acaso, 

não a viu passar num carro puxado por negros cavalos? 

Também Aurora nada vira. Estava disposta a ajudar na procura, mas o Sol a impelia para 

a frente, não dando tempo para que continuasse sua conversa. 

Durante  vários  dias e  várias  noites,  Ceres  continuou  em  seu  périplo  inútil,  esquecida  de 

seus deveres para com a natureza. Logo a terra começou a se tornar estéril. As águas não desciam 

mais  do  céu  para  regar  as  plantações,  e  a  fome  começou  a  se  espalhar  por  tudo.  Um  dia, 

completamente  desanimada,  Ceres  sentou-se  numa  pedra,  curvando  a  exausta  cabeça  sobre  o 

peito. Assim esteve um bom tempo, abatida, quando percebeu que a seu lado uma fonte cantante 




respingava suas águas sobre si. Passando os olhos sobre o espelho das águas, Ceres percebeu nele 

o  desenho  do  rosto  de  Ciana,  uma  das  ninfas  mais  íntimas  de  sua  filha.  Ainda  que  um  pouco 

turvada pela fonte, a imagem a encarava com indizível pena. 

—  Ciana, o que houve com você? — disse a deusa, sem obter nenhuma resposta, pois, 

com a metamorfose, a ninfa havia perdido o dom da fala. 

Entretanto, por alguns sinais que a deusa logo compreendeu, a ninfa fez entender que sua 

amiga  havia  sido  engolida  pela  terra,  ali,  naquele  local.  Ceres  viu  confirmada  essa  suspeita  ao 

divisar flutuando sobre as águas da fonte o cinto de sua adorada filha. Apanhando-o, secou-o em 

seu seio, mas logo o encharcou novamente, com suas lágrimas. 

Sem meios de poder descer até as profundezas do reino de Plutão, Ceres decidiu subir aos 

elevados domínios de Júpiter, pai de Prosérpina. 

— Deus dos deuses, preciso de sua ajuda! — exclamou Ceres, ao mesmo tempo aflita e 

determinada. — Quero que obrigue Plutão a me devolver a minha filha. 

— Plutão é senhor em seus domínios... — tergiversou Júpiter, dando a entender que não 

queria problemas com seu irmão das trevas. 

— Ele que vá para o inferno! — bradou Ceres, completamente impotente. 

— Ele já está lá, querida... — disse Júpiter, sem saber o que dizer. Ceres, no entanto, não 

estava para graças: 

— Não tenho tempo nem ânimo para seus gracejos! — rugiu. 

— Então vá lá para baixo, que é seu lugar, e coloque em ordem outra vez a terra, da qual 

você tem se descuidado há vários meses — disse Júpiter, tentando impor sua autoridade. 

—  Ela  vai  continuar  assim,  sem  brotar  mais  um  pé  de  couve  sequer,  enquanto  eu  não 

tiver minha filha de volta — respondeu, categórica, a deusa da fertilidade e da agricultura. 

O grande Júpiter, ao perceber que sua esposa Juno já se aproximava para ver o que estava 

acontecendo, resolveu contemporizar, pois sabia que duas mulheres iradas eram demais para ele 

ou qualquer outro deus: 

-Está  bem,  façamos  então  assim:  sua  filha  poderá  retornar  para  a  Terra,  desde  que  não 

tenha comido nada nos infernos, pois assim determinaram as Parcas. 

A condição parecia meio absurda, mas Ceres não tinha alternativa e, por isto, resolveu ir 

pessoalmente ao reino de Plutão. Esteve longo tempo nas margens do Aqueronte, aguardando a 

chegada  da  barca  de  Caronte,  que  a  transportaria  até  o  reino  das  sombras.  Quando  o  velho 

barqueiro se aproximou, Ceres imediatamente embarcou. 

— Vamos com calma! — disse o velho, ameaçando-a com o remo. 

— Cale-se e me leve logo até a outra margem! — ordenou Ceres. 




Uma  vez  desembarcada,  foi  barrada  por  Cérbero,  o  terrível  cão  de  três  cabeças  que 

guarda  os  portões  do  inferno.  Mas  uma  mãe  que  procura  a  filha  não  se  deixa  intimidar  por 

qualquer  coisa.  Com  o  facho  que  levava  numa  das  mãos  desceu  uma  bordoada  sobre  as  três 

cabeças do cão ao mesmo tempo, que saiu ganindo inferno adentro. Sem dar ouvido a nada nem 

a ninguém, foi avançando pelas regiões escuras. 

A deusa avançou tanto que em breve tinha diante de si o deus infernai instalado em seu 

trono, tendo ao lado sua filha. Esta, enxergando a mãe, lanço-se se em seus braços, num abraço 

longo e emocionado. 

Ceres,  sem  poder  emitir  qualquer  palavra,  apenas  a  enxergava  com  os  olhai  nublados. 

Depois de recomposta, quis saber como ela se sentia ali. 

— Bem, não é tão mal assim... — disse a filha, relanceando disfarçadamente o olhar para 

seu marido, que observava de longe a cena, evitando, porém, se intrometer. — Mas como pode 

ser feliz aqui, nesta escuridão? 

— É que aqui eu sou rainha, mãe, senhora absoluta de todos estes domínios 

— Mas e este seu marido terrível? — disse Ceres, lançando um olhar feroz para o deus 

subterrâneo, que olhou para os lados, temeroso da vingança da sogra 

—  Bem,  ele  foi  um  tanto  intempestivo  na  sua  maneira  de  se  declarar  para  mim, 

reconheço  —  disse  Prosérpina,  com  ar  condescendente.  —  Mas  sempre  I  tratou  com  muita 

atenção e delicadeza, como uma legítima rainha — completou a

 

moça, que parecia realmente feliz 



com seu novo estado. 

Mas  sua  mãe  não  podia  suportar  a  idéia  de  tê-la  para  sempre  longe  de  s  por  isto  lhe 

perguntou: 

— Minha filha, você já comeu algo desde que chegou aqui? 

— Por quê? Pareço muito magra? — perguntou Prosérpina. 

—  Apenas  responda  —  disse  Ceres,  ansiosa.  Prosérpina  pensou  por  algum  tempo  e 

depois declarou: 

— Bem, comi apenas uma romã que colhi nos jardins de Plutão. 

Ceres quase tombou desfalecida ao chão, de tanta tristeza diante dessa terrível revelação. 

Abandonando momentaneamente a filha, foi falar com o deus dos infernos, para tentar reverter a 

situação, mas Plutão mostrou-se resoluto, recusando-se a perder a esposa. Uma terrível discussão 

ameaçava  se  instalar  entre  a  sogra  e  o  genro,  quando  Prosérpina  propôs  uma  solução  que 

agradaria a todos: 

—  Façamos  assim,  mãe:  a  metade  do  ano  passarei  aqui  em  meus  domínios  e  a  outra 

metade em sua companhia, na Terra. Que tal acha disso? 



Ceres e Plutão chegaram, assim, a um acordo que parecia ser a única solução consensual. 

Como  já  estivesse  na  época  da  floração,  Prosérpina  seguiu  com  sua  mãe  de  volta  à  terra,  para 

passar sua primeira temporada, disposta a regressar dentro de seis meses, conforme o combinado. 

Ceres retomou seus cuidados com a Terra, e é assim que Prosérpina alterna a sua vida: durante os 

meses de calor passeia pela Terra, dando vida e fecundidade a tudo, e durante os meses de frio e 

escuridão  recolhe-se  para  as  profundezas  da  terra,  deixando  a  natureza  despida  de  seus 

benefícios. 

VERTUNO E POMONA 

Pomona  era  a  deusa  que  presidia  a  floração  dos  frutos,  e  seu  maior  prazer  era  fazer  a 

guarda e proteger as árvores frutíferas. Seu bosque, no entanto, vivia fechado à entrada de seus 

incansáveis  cortejadores  —  na  sua  maioria  faunos  e  sátiros  que,  tomados  pela  mais  ardente 

paixão, queriam por todo modo possuí-la. De fato, alimentada somente pelos mais tenros frutos, 

a  deusa  dos  pomares  tinha  um  corpo  invejável  e  uma  pele  perfeita.  Julgando-se  em  segurança, 

andava só por entre os troncos das suas adoradas árvores, o que fazia excitar ainda mais o desejo 

dos seus pretendentes. 

Dentre  todos,  o  mais  apaixonado,  sem  dúvida  alguma,  era  Vertuno,  o  deus  cujas 

atribuições mais se assemelhavam às da bela deusa: Vertuno era o deus protetor dos frutos e dos 

legumes. 

— Nós temos tudo em comum — dizia ele a si mesmo, sem conseguir compreender por 

que a deusa fugia dele. 

Mas Pomona não queria, definitivamente, saber de amores. E como Vertuno parecia ter 

mais possibilidade de vencer a sua resistência, era justamente dele que ela fugia com mais ardor. 

Vertuno,  porém,  era  mestre  em  disfarces  e,  por  diversas  vezes,  apresentou-se  diante  da  deusa, 

mas  esta  estava  sempre  ocupada  em  podar  ou  fazer  algum  enxerto  nas  árvores.  Certa  vez 

apareceu  como  um  ceifador,  pôs  no  chão  a  foice  e  sentou-se  aos  pés  de  Pomona,  que 

permaneceu,  absorta,  totalmente  envolvida  com  sua  tesoura  a  cortar  os  galhos  e  a  retirar  os 

fungos acumulados, sem lhe dar a mínima atenção. 

— Suas árvores estão cada vez mais belas — disse-lhe o deus, sem arrancar dela nenhuma 

expressão. Com os braços erguidos, ela prosseguia em sua tarefa. 

Noutra ocasião, Vertuno apareceu como um pescador, num disfarce infeliz. A deusa não 

queria  nada  com  pescadores  e  detestava  esta  atividade,  chegando  mesmo  a  expulsá-lo  de  sua 

presença, com um ar enfastiado. Outra vez surgiu munido de uma escada, com um longo bigode 

de colhedor de maçãs. Aproximando-se da deusa, que tentava inutilmente alcançar um dos frutos 

para colocar na cesta, ele lhe disse: 




— Deixe que eu as alcanço para você! 

Colocando a escada encostada ao tronco, Vertuno começou a escalar os degraus, quando 

sentiu a mão cálida da deusa tomar-lhe o pulso. 

— Deixe que eu mesma o faço — disse ela, subindo degrau por degrau até alcançar os 

frutos mais distantes. 

Depois  de  arrancar  dos  galhos  as  maçãs,  ia  jogando-as  uma  a  uma  a  Vertuno,  que,  no 

chão, as ia recebendo. A maioria das frutas, porém, o acertava em cheio na cabeça, arrancando-

lhe breves gritos de dor. 

—  O  que  há  com  você,  afinal?  Não  está  enxergando  direito?  —  reclamava  a  deusa, 

impaciente. — Veja, está estragando todos os meus frutos! 

Se  Vertuno,  no  entanto,  tinha  alguma  coisa  em  bom  estado  naquele  momento,  era 

justamente a visão: cobiçava ardentemente as perfeitas formas de Pomona. 

— Tome, leve de volta a sua escada — disse a deusa, ao perceber finalmente as intenções 

de Vertuno. 

Quanto mais Vertuno persistia em seus estratagemas, mais a deusa permanecia irredutível, 

terminando sempre por expulsá-lo de seu bosque sagrado, com maior ou menor delicadeza. 

As coisas estavam nesse pé quando, um dia, uma velha encarquilhada apareceu diante de 

Pomona. Estava extremamente quente, e Pomona estava mais i vontade. Um suor delicado como 

o  orvalho  brotava  de  sua  pele  clara;  na  poma  dos  pés,  a  deusa  tentava  alcançar  um  galho  mais 

alto,  deixando  à  mostra  as  axilas  que  uma  minúscula  penugem  dourada  protegia.  O  que  nas 

mulheres comuns poderia parecer um desleixo, na encantadora deusa era, porém, um atributo a 

mais para a sua beleza. 

A  velha  —  que  outro  não  era  senão  o  próprio  Vertuno  —  aproximou-se  lentamente, 

mancando em seu passo senil. Quando chegou aos pés da deusa. sentou-se, enquanto a observava 

entregar-se  à  sua  tarefa.  Após  algum  tempo,  Pomona  finalmente,  acordou  para  a  presença  da 

intrusa. 

— Bom-dia, senhora — disse a deusa, estendendo a mão, de modo afável. 

— Bom-dia, bela jovem! — respondeu a velha, dando um beijo na deusa, que recuou um 

pouco, de modo instintivo, diante daquele gesto inesperado e surpreendente. 

Pomona  estava  podando  uma  vinha,  e  Vertuno  aproveitou  a  ocasião  para  fazer  uma 

comparação que em tudo servia aos seus objetivos: 

— Está vendo como os galhos da vinha se enroscam no tronco? 

— Certamente — respondeu a deusa. 

— Por que não lhe segue o exemplo? 




— Como assim? 

—  Bem,  a  vinha  não  cresce  jamais  se  não  puder  enroscar-se  a  um  tronco  forte  e  viril. 

Estive  observando  você  desde  muito  tempo  e  percebi  que  foge  de  todos  os  seres  que  buscam 

unir-se a você. 

—  Ora,  são  todos  uns  boçais!  —  exclamou  Pomona,  lançando  para  trás  os  cabelos  e 

retomando sua tarefa. 

— Talvez nem todos o sejam — disse Vertuno, acariciando as costas da deusa com sua 

mão enrugada, o que renovou o espanto da moça. 

— Senhora, que modos são esses? — disse Pomona, com um sorriso, tentando mostrar 

de  modo  gentil  e  descontraído  a  sua  insatisfação  com  aquelas  pequenas  e  desconfortáveis 

intimidades. 

—  Existe  alguém  que  está  muito  acima  de  todos  os  seus  outros  pretendentes  —  disse 

Vertuno,  sob  o  disfarce  da  velha,  ignorando  a  advertência  da  deusa.  -Você  sabe  quem  é,  e 

somente ele merece o seu amor. 

— Já sei, já sei, a senhora refere-se ao importuno Vertuno — disse Pomona, com ar de 

enfado. 


— Sim, é ele mesmo. Ninguém mais poderá lhe fazer feliz, pois ninguém a ama mais do 

que ele! — insistiu a velha, abraçando o corpo que tinha à sua frente, num transporte de desejo 

que encheu de assombro a deusa dos pomares. 

—  Agora  chega!  —  esbravejou  Pomona,  afastando  a  velha  descontrolada.  De  repente, 

porém, ela deu-se conta do que se passava: 

— Então é você, novamente! 

A velha lançou fora o véu que cobria a sua cabeça e disse: 

— Sim, sou eu, Pomona querida, e venho mais uma vez tentar obter o seu amor! 

— Por que não experimenta aparecer sob a sua própria forma, ao menos uma vez? 

Às vezes as coisas óbvias não ocorrem, mesmo aos deuses. 

Vertuno, sabendo que a deusa não tinha olhos para ninguém, procurara nas mais diversas 

formas  convencer  a  sua  amada,  sem  dar-se  conta  de  que  talvez  conseguisse  seu  objetivo  se 

aparecesse diante dela como realmente era. Desfazendo-se de seu disfarce, Vertuno surgiu diante 

da moça, em sua forma esplendorosa. Pomona, acostumada ao assédio dos faunos e do horrível 

deus Pã, ficou deslumbrada com sua beleza. Ele aproximou-se, então, da dócil Pamona e a cobriu 

de beijos, que foram generosamente retribuídos. 

ÉDIPO E A ESFINGE 



Laio,  rei  de  Tebas,  tinha  o  ar  preocupado  quando  se  apresentou  no  templo  de  Apolo. 

Apesar  de  ter  sido  coroado  há  tempos,  ainda  não  tinha  filhos  —  e  um  rei  sem  filhos  que  o 

sucedam, segundo ele, não tinha valia. 

— Apolo, conceda-me a graça de um filho! — pediu Laio. 

O deus solar, no entanto, deu uma resposta bem diversa da que esperava o rei: 

—  Laio,  pense  duas  vezes  antes  de  desejar  este  filho,  pois  ele  o  levará  à  morte  e  será 

também a ruína de sua família. 

Quando Laio chegou em casa, porém, sua esposa, Jocasta, o esperava, de braços abertos. 

— Laio querido, teremos, enfim, nosso filho! — disse ela, com o rosto radiante. O rei não 

se mostrou nem um pouco feliz com a notícia. 

—  O  que  foi,  não  era  isto  que  você  tanto  queria?  —  perguntou  Jocasta,  surpresa.  Laio 

resolveu, então, revelar à rainha a sombria profecia que escutara no templo de Apolo. 

— Não podemos ficar com esta criança, Jocasta, ela será a nossa desgraça! — disse ele, 

após enfrentar a resistência inicial da esposa. 

O  rei  argumentou  com  tanta  insistência,  mostrando  todas  as  desgraças  que  poderiam 

sobrevir ao futuro deles e de seu reino, que Jocasta acabou concordando com a idéia de não criar 

a criança, desde que não matassem o bebê. 

— Faremos, então, o seguinte — disse Laio -, entregarei o menino a um casal de pastores 

para que o criem bem afastado de nós. 

A rainha, apesar de triste por ter de se separar de seu filho, concordou. Pelo menos ele 

teria o direito de viver e de ser feliz. 

Laio, entretanto, havia decidido secretamente dar um fim no seu filho, pois temia que as 

profecias, de um jeito ou de outro, se concretizassem. No dia do nascimento de seu filho único e 

primogênito, levou-o, então, a um pastor, dizendo: 

—  Leve-o  até  um  bosque  abandonado  e  o  deixe  lá,  ao  cuidado  das  feras.  O  pastor, 

contudo, penalizado, preferiu dar uma chance à criança, pendurando-a pelos pés no galho de uma 

árvore;  assim,  teria  ao  menos  uma  oportunidade  de  que  uma  alma  bondosa  a  visse  e  decidisse 

levá-la consigo. 

Um camponês chamado Forbas passava por ali, quando foi atraído pelo choro da infeliz 

criança. Tomando-a em seus braços, levou-a para casa, onde sua mulher o aguardava para a janta. 

— Fiquemos com ela! — propôs a mulher, que não conseguira ter filhos e vira nisto uma 

bênção dos deuses. 

O  casal  adotou,  então,  o  garoto,  que  passou  a  se  chamar  Édipo  —  que  significa  "pés 

distendidos". O menino cresceu, robusto e saudável, mas sem saber de sua verdadeira situação de 




filho  adotivo.  Um  dia,  durante  uma  desavença  com  um  colega,  este  lhe  disse,  com  a  voz 

carregada de maldade: 

— Cale a boca, seu enjeitado... 

Pulando ao pescoço do outro, Édipo quis saber por que razão ele dizia àquilo. 

O rapaz confessou, então, que sua mãe contara-lhe que Édipo, na verdade, fora recolhido 

na floresta e que não era filho natural de Forbas e de sua esposa. Édipo, revoltado, largou tudo 

no  mesmo  dia  e  partiu  para  Delfos:  estava  decidido  a  descobrir  de  quem  era  filho.  Para  tanto, 

decidiu consultar o famoso oráculo daquela cidade, a fim de que este lhe revelasse algo sobre o 

seu obscuro passado. 

— Não insista em querer saber mais nada! — disse o deus Apolo através do oráculo. — 

Se você se aproximar de seus verdadeiros pais, levará a eles somente desgraça. 

Édipo, sem conseguir descobrir mais nada, retomou seu caminho, já conformado com o 

seu  destino.  Porém,  quando  ia  em  meio  à  estrada,  foi  quase  atropelado  por  uma  carruagem, 

dentro da qual seguia um homem. Esse homem, que se dirigia ao mesmo templo de onde Édipo 

retornava, era Laio, rei de Tebas e verdadeiro pai do filho adotivo de Forbas. O rei, alertado por 

alguns sonhos ruins que tivera recentemente, estava indo incógnito até o templo para saber se seu 

filho estava realmente morto. 

— Saia da frente, idiota! — disse, ao ver que o rapaz lhe atrapalhava o caminho. A rude 

interpelação levou a uma disputa acirrada. Laio desceu do carro para expulsar o rapaz da estrada. 

Após  uma  violenta  discussão,  deu  uma  bofetada  na  cara  do  rapaz,  que  puxou  de  um  punhal  e 

enterrou-o  no  peito  de  Laio.  Percebendo  a  gravidade  de  seu  ato,  Édipo  fugiu  desesperado  e 

vagou,  tentando  penitenciar-se.  Enquanto  isso,  um  terrível  flagelo  instalara-se  num  dos  pontos 

principais  da  estrada  que  conduzia  a  Tebas.  Uma  esfinge  —  monstro  metade  leão  e  metade 

mulher — ficava à espreita de qualquer pessoa que passasse. Assim que o infeliz viajante cruzasse 

o seu caminho, a cabeça do monstro — uma cabeça de mulher -erguia-se sobre as patas e, após 

desferir um grande rugido, dizia: 

— Ninguém passa sem antes decifrar meu enigma. 

Todos  os  que  não  conseguiam  decifrar  o  enigma  eram  inapelavelmente  mortos  e 

devorados pela sanguinária fera. De tal forma o terror se instalara em Tebas, que já ninguém mais 

ousava cruzar a estrada, no receio de ser morto pelo monstro. A rainha Jocasta, ao ver que não 

havia  meios  de  expulsar  a  criatura,  decidiu  oferecer  a  própria  mão  em  casamento  àquele  que 

derrotasse a esfinge. 




Édipo leu o edital afixado em todas as partes da cidade e decidiu ele mesmo enfrentar a 

fera.  "Não  tenho  nada  a  perder,  mesmo",  pensou,  movido  mais  pelo  desespero  do  que  pela 

coragem: já havia matado um homem e este seria. quem sabe, um meio de expiar sua culpa. 

Apresentou-se,  então,  para  decifrar  o  enigma.  Diante  do  imenso  corpo  leonino  da  fera 

estavam  espalhados  os  restos  mutilados  dos  corpos  de  dezenas  de  aventureiros  que  haviam 

tentando  o  mesmo  que  ele.  Por  um  instante  Édipo  vacilou.  Não  estaria  cometendo  a  mesma 

insensatez que custara a vida de todos aqueles infelizes? 

A esfinge, percebendo as vacilações do jovem, esticou os lábios vermelhos, ainda sujos de 

sangue. 

"É um belo rosto", pensou Édipo. "Talvez o verdadeiro mistério esteja em se decifrar o 

sentido deste sorriso enigmático, ao mesmo tempo belo e apavorante." 

Nem bem Édipo concluíra suas cogitações, quando a cabeça feminina olhou-o nos olhos 

e disse: 

— Qual o animal que pela manhã anda com quatro pés, à tarde com dois e à noite com 

três? 

Édipo, após pensar um pouco, respondeu: 



— É o homem; na infância engatinha, na idade adulta anda ereto e na velhice apóia-se a 

um bastão. 

O  semblante  da  fera  ensombreceu-se  de  tal  maneira  que  Édipo  julgou  ter  errado  a 

resposta. Entretanto, a esfinge, com um grande grito de vergonha, lançou-se do alto do rochedo 

ao abismo, morrendo com o impacto da queda. 

Tebas  estava  finalmente  livre  do  monstro  temível;  a  notícia  correu  por  todo  o  reino,  e 

Édipo foi levado em triunfo até o palácio onde morava a viúva de Laio. 

— Muito bem, meu rapaz — disse Jocasta, ao receber o vencedor. — Você cumpriu a sua 

parte,  livrando  o  país  desse  flagelo.  Agora  é  a  minha  vez  de  cumprir  a  minha  —  completou, 

estendendo sua mão para o rapaz. 

Édipo ainda não podia acreditar no que estava acontecendo. Ele era agora o novo rei de 

Tebas. 


— Estou muito orgulhosa de ter ao lado um rei tão jovem e belo quanto você! — disse 

Jocasta, agradavelmente surpresa. 

No mesmo dia casaram-se. 

Mas  com  a  ascensão  de  Édipo  ao  trono,  começou  para  o  reino  uma  época  de  terríveis 

desgraças.  Calamidades  de  toda  espécie  alternavam-se:  pestes,  secas,  inundações,  fome,  tudo 



juntava-se  num  torvelinho  trágico,  de  tal  forma  que  Édipo  se  viu  obrigado  a  tomar  sérias 

providências. 

Após receber uma delegação do povo, o jovem rei decidiu enviar um emissário a Delfos 

para saber do deus Apolo por que Tebas era vítima de tantas desgraças. 

"O  fim  da  desgraça  só  chegará  no  dia  em  que  o  responsável  pela  morte  de  Laio  for 

expulso de Tebas", disse o oráculo. 

Édipo  imediatamente  ordenou  a  toda  a  gente  que  não  poupasse  esforços  para  que  o 

culpado  fosse  punido.  Vários  suspeitos  foram  presos,  alguns  mortos,  mas  nem  assim  as 

calamidades  diminuíram.  Pessoas  continuavam  a  morrer  como  moscas  pelos  campos  e  até  na 

própria cidade, levando a confusão e o desespero a todo o reino. 

—  Édipo  querido  —  disse  um  dia  Jocasta  a  seu  esposo  —,  mande  trazer  até  nós  o 

famoso adivinho Tirésias. Ele saberá dizer como deveremos fazer para encontrar o assassino de 

Laio, pondo um fim a esse sofrimento atroz. 

Emissários partiram em busca do mago, até que um dia ele surgiu diante de Édipo. 

— Somente o senhor poderá nos dizer a causa de tantas desgraças — disse o rei ao sábio. 

O mago, no entanto, parecia pouco à vontade. Com desculpas e evasivas, procurava por 

todos  os  meios  esquivar-se  a  dar  a  resposta  definitiva  que  tanto  Édipo  quanto  Jocasta 

aguardavam ansiosamente. 

Desconfiado de que essa revelação pudesse ter algo a ver consigo próprio, Édipo instou 

com maior vigor ao adivinho: 

— Vamos, fale de uma vez, seja o que for. 

Tirésias,  vendo  que  não  havia  mais  meios  de  fugir  à  verdade,  ergueu  então  os  olhos 

constrangidos e disse, lançando toda a verdade ao rosto do rei e da rainha: 

— Você, rei Édipo, é o assassino de Laio, seu próprio pai... 

Édipo e Jocasta, marido e mulher, mãe e filho, entreolharam-se, incrédulos. 

— Não pode ser, não é verdade! — exclamou Jocasta, recuando com um grito de horror. 

Imediatamente Édipo mandou chamar à sua presença Forbas, o pastor que o criara como 

filho. Este, de cabeça baixa, concordou, confirmando todas as palavras do adivinho. 

—  Você,  o  meu  filho,  o  meu  filho!  —  repetia  Jocasta,  como  para  entender  o  sentido 

dessas terríveis palavras. 

E então, sem atinar com o que fazia, correu até o seu quarto, onde se trancou, totalmente 

surda às súplicas de Édipo: 




—  Jocasta,  nós  não  tivemos  culpa  alguma,  foi  uma  fatalidade  do  destino!  -E  repetia, 

transtornado:  —  Uma  fatalidade  do  destino,  nós  não  tivemos  culpa  alguma.  —  Mas  Édipo, 

parricida e incestuoso, não acreditava no que dizia. 

Vendo que ela não respondia, ele arrombou a sólida porta com o auxílio dos serviçais do 

palácio.  Ao  entrar  no  quarto,  Édipo  foi  o  primeiro  a  ver  o  corpo  ia  mãe  a  balançar-se,  preso 

numa viga do teto. Num ato instintivo, pegou um dos colchetes de ouro que prendiam as vestes 

de Jocasta e furou ambos os olhos. 

— Assim como não tive olhos para ver os crimes abomináveis que cometi, também não 

os  terei  para  ver  mais  nada  neste  mundo!  —  disse  o  rei,  de  cujas  órbitas  dilaceradas  escorriam 

listras vermelhas de sangue. 

Os  filhos  homens  de  Édipo,  Etéocles  e  Polinice,  ao  saberem  da  terrível  revelação, 

decidiram  dar  cumprimento  ao  oráculo  de  Apolo,  que  dizia  que  as  calamidades  somente 

cessariam  no  dia  em  que  o  culpado  pela  morte  de  Laio  fosse  expulso  do  reino.  Jogando  um 

manto  sobre  os  ombros  do  pai  cego,  levaram  o  ex-rei  até  os  limites  da  cidade  e  ali  o 

abandonaram  à  própria  sorte.  Entretanto,  Antígona,  uma  das  filhas  de  Édipo,  foi  atrás  do  pai, 

tentando demover seus pérfidos irmãos daquele ato de crueldade filial: 

— Vocês não podem fazer isto com o nosso pai! — disse Antígona. — Isto seria repetir 

de maneira pior os crimes que ele cometeu, pois ele os cometeu de maneira involuntária. 

—  Cale-se!  —  disse  um  dos  irmãos  de  Antígona.  —  O  oráculo  foi  bem  claro:  ou  este 

assassino incestuoso deixa nosso país ou nosso país será arrasado definitivamente ! 

O  outro  irmão  também  juntou  a  sua  voz  à  do  primeiro,  ocultando  a  sua  ganância  por 

detrás da desculpa do bem comum. 

—  Muito bem, então irei com ele! — disse Antígona, enrolando um véu sobre a cabeça. 

E  assim  seguiram  —  a  filha  amparando  o  pai,  cego  e  consumido  pelo  remorso  —  por 

incontáveis estradas, até que um dia Édipo faleceu de desgosto, tendo como único consolo para 

sua  dor  a  dedicação  de  Antígona,  que  surgira  em  meio  a  tantas  desgraças  como  se  fosse  um 

presente dos deuses, envergonhados talvez de tê-lo perseguido com tanta crueldade desde o seu 

primeiro dia de vida. 

APOLO E DAFNE 

Apolo era considerado um ás da pontaria, desde que abatera a serpente Tifão, a fera que 

perseguira  sua  mãe,  Latona,  quando  o  deus  era  ainda  criança.  Um  dia  Apolo  caminhava  pela 

estrada que margeava um grande bosque, quando se encontrou com Cupido. O jovem deus, filho 

de Vênus, estava treinando a sua pontaria, solitariamente, em cima de uma pedra. 



Sem  ser  notado,  Apolo  parou  para  observar  a  postura  do  jovem.  Com  um  dos  pés 

escorado sobre uma saliência da rocha, o deus do amor procurava ganhar o máximo de equilíbrio 

para assestar com perfeição a pontaria. Seu braço esticado, que segurava o arco, era firme sem ser 

demasiado  musculoso;  o  outro,  encolhido,  segurando  a  flecha,  tinha  o  cotovelo  apontado  para 

suas  costelas,  enrijecendo  o  seu  bíceps;  todo  o  conjunto,  desde  o  porte  até  a  dignidade  dos 

gestos,  demonstrava  grande  elegância,  e  mesmo  os  músculos  das  pernas  pareciam  distendidos, 

como a corda presa às duas extremidades do arco. 

Apolo não conseguiu deixar de sentir uma certa inveja diante da graça do seu involuntário 

rival. Não podendo mais se conter, saiu das sombras e revelou ao deus do amor a sua presença. 

— Olá, jovem arqueiro. Treinando novamente a sua pontaria? — disse Apolo, pondo um 

indisfarçado tom de ironia na voz. 

—  Sim  —  disse  Cupido,  sem  virar  o  rosto  para  o  outro.  —  Quer  treinar  um  pouco, 

também? 

Apolo, imaginando que o outro debochava dele, reagiu com inesperada rudeza: 

— Ora, moleque, e quem vai me ensinar alguma coisa? Você? 

Cupido, guardando suas setas, já se preparava para se retirar, quando Apolo o provocou 

novamente: 

— Vamos, treine, treine sempre, garotinho, e um dia chegará a meus pés! — disse o deus 

solar, com um riso aberto de triunfo. 

Cupido, no entanto, revoltado com a presunção do deus, sacou de sua aljava duas flechas: 

uma  de  ouro  e  outra  de  chumbo.  Seu  plano  era  acertar  em  cheio  o  peito  de  Apolo,  com  a 

primeira flecha. 

—  Vamos  provar  agora,  um  pouco,  da  minha  má  pontaria!  —  disse  o  deus  do  amor, 

mirando o coração de Apolo. 

Num  segundo  a  seta  partiu,  assobiando  ao  vento  e  indo  cravar-se  no  alvo  com  perfeita 

exatidão.  Apolo,  sem  perceber  o  que  atingira  seu  peito  —  pois  as  flechas  do  deus  do  amor 

tornam-se invisíveis assim que atingem as vítimas —, sentou-se ao solo, abatido por um langor 

nunca antes sentido. 

Mas Cupido ainda não estava satisfeito. Por isso, enxergando Dafne, a filha do rio que se 

banhava  no  rio  Peneu,  mirou  em  seu  coração  a  segunda  flecha,  a  da  ponta  de  chumbo,  e  a 

disparou.  Enquanto  a  primeira  seta  provocava  o  amor,  esta,  endereçada  a  Dafne,  provocava  a 

repulsa. Assim, Cupido dava início à sua vingança. 

—  Divirta-se,  agora!  —  disse  Cupido,  sumindo-se  no  céu  com  seu  arco.  Apolo,  após 

recuperar  suas  forças,  ergueu-se  e  entrou  no  bosque,  como  que  impelido  por  alguma  atração 




irresistível.  Tão  logo  atravessou  as  primeiras  árvores,  seus  olhos  caíram  sobre  a  bela  ninfa,  que 

secava os cabelos, torcendo-os delicadamente com as mãos. 

— Se são belos assim em desalinho, como não serão quando arrumados? -perguntou ele, 

já bobo de amor. 

A ninfa, escutando a voz, voltou-se para o lugar de onde ela partira. Assustada ao ver que 

aquele  homem  de  louros  cabelos  a  observava  atentamente,  juntou  suas  vestes  e  saiu  correndo, 

mata adentro. Apolo, num salto, ergueu-se também. 

— Espere, maravilhosa ninfa, quero falar com você. 

Nunca  em  sua  vida  Dafne  havia  sentido  tamanha  repulsa  por  alguém  como  sentia  pelo 

majestoso deus solar. O pior e mais feio dos faunos não lhe parecia no momento mais odioso do 

que aquele homem que a perseguia com fúria. 

— Afaste-se de mim! — gritava Dafne, enojada. Apolo, acostumado a ser perseguido por 

todas as mulheres, via-se agora repelido de forma tão definitiva. 

— Por que foge assim de mim, ninfa encantadora? — dizia, sem compreender. Sem saber 

como agir diante de uma situação tão inusitada, o desnorteado deus pôs-se  a falar de si, da sua 

beleza  tão  elogiada  por  todos,  de  seus  dotes,  suas  glórias,  seus  tributos  e  as  infinitas  vantagens 

que  Dafne  teria  em  juntar-se  a  ele,  o  mais  cobiçado  dos  deuses.  Mas  o  mais  belo  dos  deuses 

desconhecia um pouco a mentalidade feminina, senão teria falado mais da bela deusa em vez de 

falar tanto de si próprio. 

Ao perceber, porém, que a corrida desenfreada da jovem acabaria por deixá-la extenuada, 

o deus gritou: 

— Espere, diminua o seu passo que diminuirei também o meu! A ninfa, reconhecendo a 

gentileza de seu perseguidor, diminuiu um pouco o ritmo. 

Apolo,  no  entanto,  que  diante  da  diminuição  da  distância  vira  aumentar  os  encantos  da 

sua amada, acelerou involuntariamente o seu passo, renovando o terror na amedrontada Dafne. 

— Mas que canalha! — indignou-se a ninfa, tomando novo impulso para a corrida, mas já 

estava  exausta e  não  era páreo  para  Apolo,  o  deus  do  astro  que  jamais  se  cansa  de  percorrer  o 

Universo, todos os dias. 

Sentindo um peso nas pernas, Dafne voltou o rosto aterrado para trás e percebeu que as 

mãos do deus quase tocavam os seus fios de cabelo. Contornando a mata, retornou outra vez à 

margem do rio Peneu, clamando pela ajuda do velho rio: 

— Socorro, Peneu! Faça com que eu perca de vez esta beleza funesta, já que ela é a causa 

de  todos  os  meus  sofrimentos!  —  disse,  disposta  a  entregar  à  natureza  todos  os  seus  dons  em 

troca da liberdade. 




Dafne,  a  alguns  passos  do  rio,  deu  um  salto,  pretendendo  atingir  a  água.  mas  seu 

tornozelo  foi  agarrado  pela  mão  firme  de  Apolo,  fazendo  com  que  seu  corpo  caísse  sobre  a 

grama  verde  e  fofa  das  margens.  Um  suspiro  forte  escapou  de  seus  lábios  entreabertos,  com  o 

impacto da queda. Ainda tentou rastejar em direção à água, porém sem sucesso. Apolo, cobrindo-

a de beijos, recusava-se a largá-la. Finalmente, com um suspiro de alívio, a ninfa sentiu que seu 

corpo  começava  a  se  recobrir  com  uma  casca  áspera  e  grossa,  enquanto  seus  cabelos  viravam 

folhas esverdeadas. Descolando finalmente seus pés da boca do agressor, Dafne sentiu que eles 

se enterravam na terra, transformando-se em sólidas e profundas raízes. 

Apolo, ao ver que sua amada estava para sempre convertida numa árvore 

—  um  loureiro  -,  ainda  tentou  extrair  do  resto  de  seu  antigo  corpo  um  pouco  do  seu 

calor, abraçando-se ao tronco e procurando-lhe os lábios. Não encontrou a suavidade do antigo 

hálito da ninfa, mas apenas o odor discreto da resina. 

Apolo,  desconsolado,  despediu-se  levando  consigo,  como  lembrança,  algumas  folhas, 

com  as  quais  enfeitou  sua  lira.  Enfeitou  também  a  fronte  com  estas  mesmas  folhas,  em 

homenagem a Dafne — a mulher que nunca foi nem jamais será sua. 

AS ORELHAS DE MIDAS 

Quando  Midas  deixou  de  ser  rei,  ele  foi  habitar  os  campos,  juntamente  com  Pã,  a 

divindade  dos  bosques.  Ali  vivia  em  agradáveis  conversas  com  a  mais  feia  e  desagradável  das 

divindades, que tinha pés de bode e corpo peludo, parecendo em tudo um fauno. 

Este  deus,  apesar  de  ser  pouco  favorecido  pela  beleza,  tinha  um  dom  inegável  para  a 

música.  Tendo  inventado  uma  flauta,  passava  seus  dias  se  exercitando,  de  tal  sorte  que  havia 

adquirido uma destreza ímpar com o seu instrumento. Empolgado com seu talento, resolveu um 

dia desafiar o próprio Apolo para um concurso de música. 

Midas ainda tentou, precavidamente, demovê-lo da idéia: 

—  Não  sei,  Pã,  mas  não  acho  recomendável  pretender  bater-se  com  o  próprio  Apolo. 

Com sua lira, ele não tem rival. 

—  Afinal,  você  é  meu  amigo  ou  amigo  de  Apolo?  —  disse  Pã,  fazendo  uma  careta  de 

desagrado que o tornou mais repulsivo ainda. 

Como o deus dos bosques não se mostrasse disposto a evitar o confronto, mandou-se um 

mensageiro atrás de Apolo, encarregado de lhe levar ao conhecimento o desafio. 

Apolo  concordou  em  realizar  a  disputa  e,  chegando  ao  local  do  embate  musical, 

perguntou, em tom debochado." 

— Quem é o atrevido que ousa se achar melhor do que eu? Será meu filho Orfeu, talvez? 



— Não, sou eu, Pã, que com minha flauta provarei ser melhor do que você!— exclamou 

o deus, confiante. 

Os deuses todos do Olimpo reuniram-se para assistir ao desafio, que se deu no próprio 

bosque  onde  residiam  Midas  e  Pã.  O  próprio  Tmolo,  deus  da  montanha, afastou  as  árvores  de 

seus ouvidos para escutar melhor os acordes dos dois competidores. 

Sentando-se  numa  grande  pedra,  Pã  sacou  de  sua  flauta  e  começou  a  soprar  sobre  os 

tubos  enfileirados  de  seu  instrumento.  Um  som  melodioso  e  triste  partiu  daqueles  minúsculos 

orifícios,  espalhando-se  pelo  ar  com  tal  encanto  e  sonoridade  que  os  próprios  pássaros 

silenciaram para escutar. As folhas das árvores despejavam o orvalho acumulado em suas folhas 

com tal intensidade que parecia que choravam, comovidas com os acordes da triste música. Os 

deuses  escutavam  com  atenção,  agradavelmente  impressionados.  Alguns  julgavam  mesmo  que 

dificilmente Apolo faria melhor com sua lira. Quando Pã terminou seu recital, todos aplaudiram-

no com entusiasmo. 

Agora era a vez de Apolo demonstrar seu talento. Lançando para as costas a sua túnica 

púrpura,  o  deus  do  Sol  ajeitou  a  folha  de  louro  sobre  a  orelha.  Depois,  empunhando  a  lira  de 

ouro,  começou  a  deslizar  pelas  cordas  finas  como  teias  de  aranha  os  seus  dedos  delicados, 

arrancando delas um som que era nada menos do que celestial. 

Outra  vez  os  olhos  dos  circunstantes  encheram-se  de  brilho.  A  natureza  silenciara  uma 

vez mais, para escutar os ritmos e tons do instrumento, acompanhados ainda pela voz maviosa de 

Apolo, que unira assim dois instrumentos num  só  — o que o seu adversário não pudera fazer, 

por  ter  uma  voz  estridente  e  desafinada.  Por  isto  dizia-se  que  a  flauta  de  Pã  era  mágica,  pois 

conseguia transformar sua voz anasalada num som limpo e perfeitamente modulado. 

Enquanto Apolo executava sua canção, foi crescendo no entendimento de todos a certeza 

de  que  seria  ele  o  vencedor,  afinal.  Com  o  último  acorde  de  sua  lira,  os  aplausos  choveram  de 

todos os lados. 

—  Bem,  vamos  ao  julgamento  —  disse  o  deus  da  montanha,  que  já  tinha  seu  voto 

firmado. 

Um  a  um  foram  os  deuses  dando  seus  vereditos  —  sendo  desnecessário  requisitar-se  o 

voto  de  Minerva,  aquele  que  decide  as  questões  controversas,  pois  ali  parecia  não  haver  lugar 

algum para a controvérsia. 

— Pã foi maravilhoso, mas Apolo foi insuperável! — disse Vênus, dando seu voto. 

— Não pode haver dúvidas de que Apolo, unindo sua voz à de sua lira, é o vencedor! — 

disse Mercúrio, de maneira enfática. 

— Apolo é o melhor — afirmou Juno, com sua habitual reserva. 




Todos votaram, até que chegou a vez de Midas revelar o seu voto. Vendo que seu amigo 

estava  fragorosamente  derrotado,  resolveu  dar-lhe  um  voto  de  consolo  —  pois  sabia  ele  que 

Apolo se saíra muito melhor. 

— Apolo é imbatível com sua voz melodiosa e sua lira afinada, todos sabem. Infelizmente 

para ele, hoje sua lira esteve minimamente desafinada, o que qualquer ouvido mais apurado deve 

ter  percebido  —  começou  simplesmente  a  dizer  Midas.  —  Entretanto,  a  flauta  de  Pã  esteve 

simplesmente  perfeita,  e  os  sons  que  saíram  dela  não  perderam  um  tom  do  seu  brilho  e 

musicalidade. Foi uma execução absolutamente impecável e, por isto, não hesito em afirmar que 

Pã foi, inequivocamente, o vencedor. 

Alguns aplausos soaram, mas Apolo estava francamente revoltado com o julgamento de 

Midas.  Seu  semblante  alterado  denunciava  a  sua  vaidade  ofendida,  pois  esperava  vencer  com  a 

unanimidade dos votos, tornando sua vitória absoluta e irrefutável. "Quem este idiota pensa que 

é?",  pensou  o  deus,  enquanto  fuzilava  um  olhar  mortal  sobre  Midas.  Este,  percebendo  a  fúria 

acesa nos olhos do ofendido, tentou consertar: 

— Quero deixar bem claro que a derrota de Apolo, no meu modesto entender, se deveu 

não à sua imperícia, mas a um defeito de afinação do próprio instrumento... 

Mas  já  era  tarde  demais;  o  estrago  já  estava  feito,  e  seu  adendo  perdeu-se  em  meio  ao 

burburinho dos circunstantes, que se dispersavam para retornar aos seus lares. 

Apolo,  entretanto,  decidiu  aguardar  o  atrevido  que  ousara  desfeiteá-lo  em  público, 

daquela maneira. Tão logo se viu a sós com o juiz adverso, assumiu um ar vingativo: 

—  Já  que  suas  orelhas  parecem  ser  mais  apuradas  do  que  as  dos  demais,  lhes  darei  um 

formato mais de acordo com elas — disse, lançando sobre o pobre Midas uma praga. 

Assim que Apolo lhe deu as costas, Midas sentiu que suas orelhas começavam a crescer. 

Tufos de cabelos nasciam nas covas do imenso pavilhão que apontava nos dois lados da cabeça. 

Em menos de um minuto Midas tinha colado nos dois lados da cabeça um imenso par de orelhas 

de burro. 

—  Está  aí  o  que  se  ganha  em  querer  ajudar  os  amigos!  —  disse,  ao  ver  que  ficara  algo 

parecido com Pã, que também tinha suas orelhas pontudas de silvano, só que em tamanho muito 

maior. 

Desconsolado,  Midas  tentou  esconder  seus  horríveis  apêndices  com  um  barrete,  que 

enterrou na cabeça, até ocultá-los totalmente. Assim viveu durante um certo tempo, até que um 

dia  seu  cabeleireiro  veio,  a  seu  pedido,  até  o  bosque  para  lhe  cortar  o  cabelo.  Ao  retirar  a 

proteção de sobre a cabeça do cliente, o barbeiro encheu-se de assombro, e ia falar, mas Midas 

interrompeu-o, tomando-Ihe a tesoura com grosseria: 




— Cale-se, não diga uma palavra, idiota! Se ousar abrir o bico e contar para alguém, corto 

fora... as suas orelhas! 

O  barbeiro,  assustado,  silenciou  rapidamente, executando  a  sua  tarefa  com discrição.  E, 

ao final do trabalho, juntou seus instrumentos e afastou-se, desaparecendo bosque adentro. No 

entanto,  sua  língua  ardia,  a  vontade  de  falar  era  intolerável,  pois  todos  sabem  como  os 

profissionais dessa classe adoram uma novidade. 

Não podendo mais se conter, decidiu parar no caminho e cavar com a tesoura um buraco 

no  chão.  Depois,  abaixando-se,  protegendo  a  boca  com  as  mãos,  ciciou  no  interior  do  buraco 

estas palavras: 

— Midas tem orelhas de burro... 

E cobriu a fenda com terra, logo em seguida. 

O  tempo  passou,  até  que  no  local  brotou  um  feixe  extenso  de  bambuzal.  Tão  logo  o 

primeiro  vento  mais  forte  soprou  entre  os  caniços,  arrancou  deles  as  palavras  que,  ainda  que 

entoadas num sussurro, eram perfeitamente audíveis: 

— Midas tem orelhas de burro... 

ORFEU E EURÍDICE 

Orfeu adorava a esposa Eurídice, uma ninfa da floresta. Recém-casado, a maior felicidade 

do  filho  de  Apolo  era  tocar  sua  lira  para  a  mulher.  Sendo  filho  do  deus  da  música,  não  era  de 

estranhar,  realmente,  que  tivesse  a  mesma  perícia  do  pai.  Por  onde  quer  que  Orfeu  andasse, 

tocando o seu instrumento, tudo como que se paralisava, todos atentos, exclusivamente, ao som 

que saía de seus talentosos dedos. 

— Toque outra canção para mim — pedia Eurídice todas as noites, antes de adormecer. 

Era  tanta  a  paixão  que  a  jovem  nutria  pela  música  do  marido  que  às  vezes  o  próprio 

Orfeu deixava de lado a Ura, enciumado da própria música. 

Um  dia,  Eurídice  estava passeando  com  suas  amigas  ninfas  quando,  separando-se  delas, 

entrou por uma vereda do bosque, onde gostava de caminhar. Sentado, com as costas apoiadas a 

um tronco, estava o pastor Aristeu, entregue aos seus pensamentos. Percebendo que alguém se 

aproximava, ergueu a cabeça. 

— É ela, Eurídice! — disse Aristeu, que era apaixonado pela ninfa. Levantando-se com 

rapidez, foi na direção da moça, tentando parecer que 

era  um  encontro  casual. Eurídice,  no  entanto,  recuou  alguns  passos  ao  vê-lo,  pois  sabia 

dos sentimentos que o pastor nutria por ela. 

— Espere, volte aqui! — gritou Aristeu. — Não precisa se assustar. 



Mas  Eurídice  não  queria  conversa.  Por  isso  mesmo  apertou  mais  o  passo.  Aristeu, 

revoltado, lançou-se em seu encalço. 

— Não adianta fugir de mim, Eurídice, pois a amo e ninguém me impedirá de tê-la um 

dia só para mim! 

— Ninguém, a não ser a minha vontade! — respondeu Eurídice. 

Aristeu  não  escutou  estas  palavras,  pois  o  amor  só  escuta  o  que  lhe  convém. 

Aproveitando que a mulher parará para lhe dizer estas palavras, agarrou os ombros dela e tentou 

beijá-la à força. 

—  Adoro  você,  Eurídice,  e  você ainda  há  de  ser  minha,  de  qualquer  jeito! -exclamou  o 

pastor com a voz alterada e o rosto congesto. 

A ninfa, percebendo que corria perigo, arremessou-se numa corrida para dentro da mata. 

Enquanto  fugia,  sentia  atrás  de  si  os  passos  ligeiros  de  seu  perseguidor.  De  repente,  porém, 

Eurídice  aproximou-se  perigosamente  de  uma  serpente,  que,  assustada,  acabou  picando  o  seu 

tornozelo. A ninfa caiu ao solo, com um grito de dor. Aristeu logo a alcançou, mas descobriu que 

nada  mais  podia  fazer  para  salvar  a  sua  amada.  A  jovem,  aos  poucos,  perdia  a  consciência, 

ingressando no mundo das sombras. 

Quando  Orfeu  recebeu  a  terrível  notícia,  sua  alma  cobriu-se  de  luto;  sua  lira,  que  até 

então somente tocara acordes alegres, agora silenciara; a partir daí, nas raras vezes em que tocava, 

tudo o que se ouvia eram sons tristes como um lamento. Não conseguindo mais viver sem sua 

adorada  Eurídice,  Orfeu  tomou  uma  decisão  extrema:  foi  até  Júpiter,  pedir  que  a  trouxesse  de 

volta da mansão dos mortos. 

—  Não  posso  fazer  nada  sem  a  concordância  de  Plutão  —  disse  o  pai  dos  deuses, 

convencido  da  dor  do  infeliz  amante.  —  Tudo  o  que  posso  fazer  é  lhe  ceder  Mercúrio,  que  o 

conduzirá até o reino de meu irmão. 

— Ótimo! — disse Orfeu. — Irei amanhã mesmo até o inferno para trazê-la de volta. 

Abandonando  tudo,  Orfeu  partiu  na  outra  manhã,  tendo  apenas  a  companhia  de 

Mercúrio. Pela primeira vez desde a morte da esposa, o poeta mostrava-se um pouco animado, 

chegando  até  a  tirar  alguns  alegres  acordes  do  seu  instrumento.  Porém,  logo  retornou  à  sua 

música plangente, ao chegar à gruta que, segundo a tradição, dava acesso à morada dos mortos. 

—  Aqui  é  a  entrada  dos  infernos  —  disse  Mercúrio,  apontando  a  cratera  com  seu 

caduceu. 

Sem  medo  algum,  Orfeu  começou  a  descer  as  profundezas  do  terrível  abismo.  Quanto 

mais descia, maior era a escuridão, tanto que foi obrigado a acender um facho. Depois de muito 

andar, avistou ao longe o brilho de algo tremeluzindo ao chão. Era o Estige, um dos rios infernais 




que  levam  ao  reino  de  Plutão.  Ali  estava  ancorada  uma  barca,  tendo  ao  lado  e  em  pé  Caronte, 

com sua longa barba branca e seu olhar de poucos amigos. 

— O que quer aqui? — disse o velho, apalpando o visitante. — Você não tem a aparência 

de um morto. 

— Quero rever minha esposa, que desceu recentemente a este lugar — disse Orfeu, com 

decisão. — Aqui está Mercúrio, que traz a autorização do próprio Júpiter. 

— E como pensa que vai passar para a outra margem? Com seu corpo pesado irá levar a 

pique a minha barca — disse Caronte, ameaçando o intruso com seu pesado remo. 

—  Vamos,  toque  logo  esta  droga!  —  ordenou  Orfeu,  sem  se  impressionar  com  as 

ameaças do velho senil. — Eu a manterei flutuando com os acordes de minha lira. 

Intimidado com a vontade de Orfeu, Caronte desatou as amarras que prendiam a barca à 

terra e, maravilha para seus cansados olhos, ela flutuou com mais leveza do que nunca sobre as 

águas escuras do temível rio. Ao desembarcar. Orfeu acalmou com seus acordes a ira de Cérbero 

— o monstruoso cão de três cabeças que guarda a entrada do inferno -, de modo que ele veio 

rastejando  docilmente  e  lambeu  com  suas  três  línguas  os  pés  do  inesperado  visitante.  Depois 

Orfeu cruzou com vários condenados, que ao escutarem a melodia que saía das mãos do músico 

cessaram por alguns momentos a sua faina. As danaides deixaram cair ao chão os seus baldes de 

chumbo;  Íxion  deixou  de  girar  a  sua  roda; e  Sísifo  abandonou  o  seu  rochedo,  que  rolou colina 

abaixo. 

Avançando  sempre,  Orfeu  chegou,  enfim,  diante  do  trono  de  Plutão  e  de  sua  esposa, 

Prosérpina.  Ambos  pareciam  interessadíssimos  naquele  vivo  que  chegava  ao  seu  reino  daquela 

maneira surpreendente. 

—  O  que  deseja  aqui,  visitante?  —  disse  Plutão,  brandindo  seu  tridente,  como  a 

demonstrar que, ainda que apreciasse a música, não aprovava aquela invasão de seus domínios. 

—  Vim  implorar  a  vocês,  soberanos  do  mundo  subterrâneo,  que  peçam  às  Parcas  para 

que reatem o fio partido da vida de minha esposa Eurídice, devolvendo-a à vida. Se não puderem 

ou não quiserem fazê-lo, no entanto, que cortem também o fio de minha vida, permitindo que eu 

aqui permaneça junto a ela. 

Impressionado  com  a  retórica  e  com  a  melodia  de  Orfeu,  Plutão  pediu  a  Mercúrio  que 

trouxesse a esposa do visitante. Impossível descrever a reação que se apoderou de Orfeu quando 

viu novamente sua amada. Suas pernas tremiam: sua face convulsa era uma máscara de todos os 

rostos que a emoção pode pintar: e sua voz, um grito como jamais se ouviu igual. 

— Eurídice, você está viva! — disse o esposo à mulher morta. 



Ela lançou-se aos braços de Orfeu e durante alguns minutos o inferno inteiro silenciou, 

em respeito à dor dos dois amantes. 

—  Está  bem,  permito  que  você  a  leve  de  volta  para  a  Terra  —  disse  Plutão.  com  a 

concordância de Prosérpina. — Porém, há uma condição. 

— Sim, diga qual é — disse o impaciente Orfeu. 

—  Você  deverá  fazer  o  restante  do  trajeto  sempre  à  frente  de  sua  esposa,  jamais 

voltando-se  para  trás  para  olhar  para  ela.  Se  o  fizer,  imediatamente  a  perderá  para  sempre  — 

disse o deus infernal, de maneira categórica. 

— Está bem, assim o farei — disse Orfeu, seguindo adiante, levando atrás de si Eurídice 

e Mercúrio. 

Refizeram, assim, todo o trajeto da descida, só que em sentido contrário. Por várias vezes 

Orfeu teve ímpetos de voltar-se para trás para ver se sua esposa ainda o acompanhava, recebendo 

sempre sua admoestação: 

— Não, Orfeu, não se vire! 

O  poeta  já  divisava  nas  alturas  a  cratera  por  onde  ele  e  o  deus  mensageiro  haviam 

entrado. 

— Veja, Eurídice, estamos quase chegando! — disse Orfeu, voltando-se inadvertidamente 

para ela, a um passo da liberdade. 

Nem  bem  seus  olhos  fixaram  o  rosto  de  sua  amada,  viu-a  ser  carregada  de  volta  à 

escuridão pelos braços de Mercúrio. 

—  Espere,  não,  volte!  —  clamou  Orfeu,  devorando  com  os  olhos  a  última  imagem  de 

Eurídice, que, com os olhos esgazeados, lhe estendia inutilmente as mãos. 

Um  grande  terremoto  sacudiu  a  caverna,  fazendo  com  que  um  imenso  rochedo 

bloqueasse  para  sempre  o  seu  regresso  ao  reino  das  sombras.  Orfeu,  no  último  limite  do 

desespero, arrancava os cabelos e dilacerava o rosto. 

— Ai de mim! Por que fui olhar para trás no último minuto, faltando tão rouco! — dizia, 

inconsolado. 

Mas nada mais havia a fazer. Eurídice estava longe dele, para sempre. 

Orfeu, tal como o desgraçado Édipo, parecia destinado a ser perseguido incessantemente 

pelos  deuses,  até  a  sua  morte.  Deixando  o  lugar,  percorreu  várias  feiras,  arrancando  de  sua  lira 

acordes lúgubres e ao mesmo tempo de uma beleza triste. Instalando-se numa floresta, na Trácia, 

Orfeu dedicou-se a tocar sua música, alheio a tudo o mais. As mulheres de lá, no entanto, não 

cessavam de persegui-lo, em especial um grupo de bacantes — sacerdotisas de Baco -, que tudo 

faziam para conquistar seu amor. Era em vão que prometiam ao poeta raros prazeres e lhe diziam 




palavras das mais doces. Ele mostrava-se sempre irredutível, até que um ia. tomadas por um furor 

maligno, as mulheres avançaram para ele, lançando-lhe pedras e dardos, sem, no entanto, atingi-

lo, pois sua música o protegia. 

— Abafem o som da música! — disse uma das bacantes, enlouquecida de ódio. Batendo 

seus tambores e estalando seus címbalos, elas finalmente conseguiram abafar a música de Orfeu, 

tornando-o  vulnerável  aos  seus  ataques.  Uma  chuva  de  pedras  e  dardos  desceu,  então,  sobre  o 

poeta, que tombou morto sob te implacável ataque. Não satisfeitas, as bacantes ainda pegaram o 

corpo  do  músico  e  o  fizeram  em  pedaços,  lançando  sua  cabeça  e  sua  lira  no  rio  que  leva  o  —

esmo nome do poeta. Enquanto elas avançavam juntas em direção ao mar, iam passando pelas 

margens,  encantando  os  pastores  e  as  ninfas  que  as  habitavam.  A  alma  de  Orfeu,  no  entanto, 

estava liberta, e tão logo se viu livre de suas perversas algozes, o poeta correu para os braços de 

sua Eurídice, que o aguardava no mesmo

 

lugar onde ele a deixara. 



DIANA E ACTEÃO 

Acteão era um dos melhores caçadores que havia em seu tempo. Filho do rei Cadmo, o 

jovem estava acompanhado por seus amigos, quando, um dia, tornava de mais uma caçada bem-

sucedida. Acteão, como sempre, ia à frente do grupo. Suas costas estavam manchadas do sangue 

do cervo que ele trouxera sobre os ombros fortes. 

— Belo resultado! — disse Acteão, lançando o corpo do animal morto sobre a relva. 

Seus amigos concordaram. Todos traziam também suas presas, mas nenhuma se igualava 

à do líder dos caçadores. 

— Sinto muito, mas este seu bichinho não chega nem aos pés do meu -disse Acteão a um 

dos amigos, que trazia um alce grande, mas que de fato não podia nem de longe se comparar ao 

que ele caçara. O amigo, vencido, baixara a cabeça, admitindo a derrota. Acteão adorava mostrar 

a todos que ele ainda era o melhor caçador. 

—  Acho  melhor  pararmos  um  pouco  para  descansar.  É  meio-dia  e  o  sol  está  quente 

demais para prosseguirmos — disse o filho de Cadmo. 

Depois de ordenar que acendessem uma fogueira para assar o seu cervo, Acteão separou-

se dos demais para procurar uma fonte ou regato onde pudesse lavar o sangue e o suor. Alguns 

quiseram ir junto, mas Acteão preferiu ir sozinho, como sempre fazia. Gostava de se embrenhar 

solitariamente pelas matas para ver se descobria alguma caça. 

Ocorre que neste exato momento Diana, a deusa da caça, estava nas redondezas e tivera a 

mesma idéia. Cercada também por suas amigas, resolvera fazer uma pausa para se refrescar nas 

águas de uma deliciosa fonte. 



—  Meninas,  vigiem  bem  enquanto  vou  me  banhar  —  disse  a  deusa  virgem,  que  não 

suportava a idéia de que homem algum viesse espioná-la. 

Nunca, na verdade, olhos masculinos a haviam visto nua, e isto constituía para ela mais 

do  que  um  simples  motivo  de  orgulho.  Era  uma  vitória  de  sua  virtude  e  seu  maior  ponto  de 

honra. 

Depois de depositar o arco sobre uma pedra, Diana começou a se despir lentamente, com 

o  auxílio  das  ninfas.  Enquanto  uma  retirava  sua  túnica,  outra  descalçava  suas  sandálias.  Uma 

terceira  aproximou-se  para  arrumar  seus  cabelos.  Tão  logo  as  amigas  completaram  sua  tarefa, 

Diana estava pronta para mergulhar na água fresca. 

— Ninguém tem um corpo tão belo — sussurravam as ninfas entre si. 

—  Não  é  à  toa  que  ela  não  permite  que  homem  algum  a  veja  neste  estado.  Seria 

impossível conter o assédio de todos eles, caso se espalhasse a perfeição de seu corpo. 

Diana  recolhia  a  água  com  a  mão  em  concha  e  despejava  delicadamente  às  costas.  As 

demais  ninfas,  distraindo-se  momentaneamente,  afastaram-se  um  pouco  para  também  se 

refrescarem.  Neste  instante,  o  jovem  Acteão,  que  estava  a  poucos  passos  do  paradisíaco  local, 

escutou aquele rumor de vozes e resolveu seguir em sua direção. 

— Parece que estou com sorte — disse o caçador, ao se deparar com aquelas cenas. 

Assim  que  seu  olhar  se  desvencilhou  de  alguns  galhos,  foi  pousar  sobre  o  grupo  das 

ninfas,  sem  perceber  ainda  que  a  própria  Diana  estava  ali,  de  um  modo  como  nunca  mortal 

algum a vira antes. Ficou um bom tempo a observar as ninfas, que também haviam se livrado das 

roupas, quando escutou, em meio a seu enleio, este grito de alerta: 

—  Cuidado,  Diana,  há  um  homem  ali  a  nos  espionar!  Imediatamente  todas  as  ninfas 

correram para onde estava Diana, o que acabou por atrair involuntariamente o olhar de Acteão. 

Cercando Diana com seus corpos, as ninfas procuravam manter oculta a nudez da deusa. Porém 

Diana  era  mais  alta  que  todas,  de  tal  sorte  que  Acteão  ainda  assim  conseguiu  vislumbrar  um 

pedaço  do  seu  corpo.  Diana,  ao  cruzar  o  olhar  com  o  invasor,  percebeu  que  os  olhos  dele 

brilhavam  de  um  modo  diferente.  Com  a  mão  Diana  ainda  tentou  cobrir  a  parte  superior  do 

peito, mas não havia mais nada a fazer. 

—  Aquele  miserável  viu  minha  nudez!  —  exclamou,  encolerizada.  Vendo  que  o  mal  já 

estava  feito,  e  que  a  punição  para  o  invasor  já  estava  decretada  no  seu  íntimo,  Diana  decidiu 

conceder ao condenado uma última dádiva. 

— Meninas, saiam da minha volta — disse com um ar placidamente decidido. As ninfas, 

espantadas, foram se afastando, a princípio de maneira relutante. 

— O que há com ela? — disse uma das ninfas, baixinho. 




Apesar  de  fugir  de  qualquer  olhar  masculino,  Diana  sempre  tivera  curiosidade  em 

imaginar como seria este dia, afinal — o dia em que seu corpo seria revelado a um homem mais 

indiscreto e audacioso. 

—  É  uma  honra  para  mim,  deusa  misteriosa,  ser  o  primeiro  a  contemplar  seu  adorável 

corpo — disse Acteão, tentando lisonjear a vaidade feminina e escapar ao seu rigor punitivo. 

— Olhe bem, senhor caçador, porque será a última coisa que verá nesta ia — disse Diana, 

com um olhar implacável de quem sabe que o ultraje será punido sem piedade, e reassumindo seu 

ar  naturalmente  virtuoso  e  implacável.  Juntou,  então,  água  nas  mãos  e  lançou-a  às  faces  de 

Acteão, dizendo: 

— Pode ir agora! Vá e conte a seus amigos que viu Diana sem as suas estes! 

Tão  logo  a  deusa  terminou  de  proferir  essas  palavras  e  Acteão  sentiu  que  de  sua  testa 

começou a brotar algo parecido com um caroço. Dos dois lados brotavam dois enormes chifres 

galhados, enquanto seus olhos aumentavam de tamanho, bem como seu nariz, que de estreito e 

bem formado passara ao formato inestético do focinho de um alce. Quando passou as mãos no 

rosto para ver o que acontecia, sentiu que não mais dedos, mas cascos ásperos deslizavam sobre 

sua face, que se recobrira de um pêlo espesso. Em seguida caiu ao chão, de quatro. 

"Meu  Deus,  o  que  está  acontecendo  comigo?",  pensou,  mas  ao  tentar  expressar  esse 

pensamento  em  palavras,  viu  que  de  sua  boca  somente  saía  um  rouco  desafinado  e 

incompreensível. 

Assustado,  Acteão  deus  as  costas  às  mulheres  e  se  meteu  pelo  bosque,  decidido  a 

procurar a ajuda dos amigos. Nem bem enxergou o mais fiel deles, sentado sob a sombra de uma 

árvore, gritou para ele: 

— Filon, aqui! Ajude-me! 

No  entanto,  tudo  o  que  seu  amigo  escutou  foi  o  mugido  de  um  magnífico  alce,  que, 

parado à sua frente, parecia pedir para ser caçado. 

— Rapazes, vamos lá! Aqui neste bosque abençoado a caça vem ao nosso encontro em 

vez de precisarmos correr atrás dela! 

No mesmo instante, os cães prediletos de Acteão foram açulados pela companhia inteira. 

Uma gritaria misturada aos latidos levantou-se por todo o bosque. Acteão, sentindo que a presa 

agora  era  ele,  tentou  ainda  estabelecer  contato  com  seus  cães.  Eles  o  iriam  reconhecer,  assim 

pensava. Uma dentada de seu cão predileto logo o tirou, contudo, desta ilusão. Conseguindo se 

desvencilhar das presas, que haviam entrado fundo em sua perna direita, Acteão lançou-se para 

dentro da mata numa corrida desesperada. Pela primeira vez o melhor dos caçadores estava do 

outro lado da caçada. 




Enquanto  fugia,  escutava  ironicamente  as  vozes  de  seus  amigos,  que  o  chamavam  para 

juntar-se à caçada! 

— Vamos, Acteão, onde você se meteu? — bradava um, mais animado. 

—  Será  o  seu  maior  troféu!  —  exclamava  outro,  inconformado  por  não  tê-lo  junto  na 

caçada que prometia o maior dos prêmios. 

Acteão, a cada chamado, tentava responder, mas seu grito desconexo somente servia para 

delatar a sua presença aos demais caçadores. 

— Vamos, ele foi por ali, posso ouvir o seu grito! 

Depois  de  escalar  pequenos  morros  e  meter-se  por  gargantas  e  vales,  Acteão,  exaurido, 

foi finalmente alcançado por um dos seus cães, que pulou direto em seu pescoço; outro ferrou as 

presas em seu focinho, impedindo-lhe a respiração e provocando uma dor lancinante. Logo seu 

corpo estava entregue à fúria dos cães, que o retalhavam com suas presas dilacerantes. Antes de 

morrer, viu chegarem seus companheiros de caçada, que exultavam com o resultado, ao mesmo 

tempo em que lamentavam a ausência do seu líder: 

— Sinto muito, Acteão, mas desta vez você não terá do que se vangloriar -disse um dos 

companheiros, com um sorriso, enquanto Acteão não surgia para aplaudir a sua vitória. 

CASTOR E PÓLUX 

Castor e Pólux eram irmãos gêmeos, filhos de Leda. Embora tivessem esta peculiaridade, 

eram filhos de pais diferentes. O último era filho de Júpiter e o primeiro, filho de Tíndaro, rei de 

Esparta  e  pai  putativo  de  ambos.  Pólux,  sendo  filho  de  um  deus,  fora  agraciado  com  o  dom 

divino da imortalidade, enquanto Castor permaneceu um simples mortal. Castor adorava cavalos, 

enquanto Pólux era mais afeito às artes do atletismo. Os dois eram inseparáveis, E desde meninos 

estavam sempre metidos em aventuras, exercitando sem cessar a sua força e agilidade. 

Um dia, quando iam em visita a Messena, pátria vizinha de Esparta, viram passear pelos 

campos duas belas jovens. Castor, mais afoito, cutucou o ombro do irmão. 

— Veja, Pólux, que lindas jovens! 

Pólux, que também as estivera observando, franziu bem os olhos: 

— De fato, caro irmão, são as mais belas moças que meus olhos já viram. 

— Vamos conversar com elas. 

Como  iam  montados  em  seus  cavalos,  logo  estavam  na  presença  das  duas  moças. 

Aproximaram-se tanto que a respiração dos cavalos fazia agitar as vestes curtas e vaporosas das 

duas  moças,  que  com  as  mãos  tentavam  a  todo  instante  evitar  que  elas  subissem  em  demasia. 

Uma delas, parecendo a mais decidida, encarou os dois e perguntou: 

— Quem são vocês e o que querem aqui? 




— Somos Castor e Pólux, da vizinha Esparta... — disse Castor. 

— ... e estamos encantados com a beleza de vocês — completou Pólux. 

— Como você se chama? — perguntou Castor à primeira. 

— Febe é meu nome — disse ela, afastando o cabelo dos olhos. 

— E você, linda jovem? — disse Pólux à segunda. 

— Hilária — disse ela, erguendo a alça da túnica, que se desprendera do ombro. 

Com palavras amenas e sorrisos simpáticos os dois irmãos tentaram espichar a conversa, 

cada vez mais encantados com as duas. Hilária, porém, percebendo que as coisas marchavam no 

rumo de um possível namoro, atalhou a conversa. 

—  Os  dois  irão  nos  desculpar,  mas  devemos  ir  embora,  pois  nossos  noivos  nos 

aguardam. 

Sem  ouvir  mais  nada,  Hilária  pegou  a  mão  da  irmã  e  afastaram-se,  deixando  os  dois  ali 

boquiabertos. 

— Ora essa, são noivas... — disse Castor, contrariado. 

— ... de dois idiotas, por certo! — completou Pólux. 

Deviam  ser  idiotas,  raciocinaram  ambos,  pois  como  podiam  deixar  que  suas  duas  belas 

noivas andassem sozinhas pelos campos, naqueles trajes curtos e provocantes? 

Pólux, esporeando com força seu cavalo, saiu-lhes no encalço, até emparelhar novamente 

com as duas. Hilária e Febe, contudo, desta vez não pararam. 

—  Que  noivos  são  esses,  que  as  deixam  assim  soltas  pelos  campos?...  —  perguntou 

Castor a elas, juntando-se logo com seu cavalo ao grupo reconstituído. 

— ... e por que cometem tal temeridade? — ajuntou Pólux. 

— Eles estão muito atarefados e não podem estar sempre ao nosso lado -disse Febe. 

— Ah, já sei, são daqueles que dão mais importância ao trabalho e aos afazeres do que às 

suas mulheres... — disse Castor, com ironia. 

— ... e que depois se queixam por terem sido traídos! — disse Pólux, com um riso franco. 

Hilária, sentindo o sangue subir à face, parou de andar e virou o rosto para os dois. 

— Nós somos virtuosas o bastante para saber respeitar-lhes a ausência. 

— E o resto do mundo, minha graciosa dama, estará também disposto a respeitar-lhes a 

ausência?... — disse Castor. 

—  ... ou julgam eles, em sua inocência, que o mundo seja tão inocente quanto eles? 

— Seus noivos deveriam escolher o que é mais importante para eles, afinal... 

— Eu, no lugar deles, jamais desgrudaria os olhos de vocês... 



—  Venha,  Febe,  vamos  embora  —  disse  Hilária,  apertando  o  passo  com  sua  irmã, 

confusa com a conversa picotada dos dois irmãos ladinos. 

— Ei, esperem!... — disse Pólux. 

— ... sim, só queremos conversar! — completou Castor. 

Assustadas, as duas resolveram correr pela campina, o que atiçou ainda mais o desejo dos 

dois irmãos, pois enquanto as moças fugiam, o vento lhes erguia as vestes quase até a cintura. 

— Vamos lá, Pólux!... — disse Castor, disparando numa cavalgada. 

— ... é pra já! — gritou Pólux, eufórico. 

Montados  em  seus  ágeis  cavalos,  os  dois  irmãos  sentiam  o  vento  agitar  os  cabelos 

enquanto perseguiam as duas lindas mulheres. 

"Deus  poderoso,  o  que  pode  haver  de  melhor  neste  mundo?",  pensavam  ambos, 

enquanto  cavalgavam  velozmente.  O  amor  não  prima  muito  pela  razão  por  isso  mesmo,  em 

momento algum os dois se perguntaram se a ação que praticavam era justa ou injusta. 

—  Estas garotas estão precisando de um pouco de emoção! — gritava Castor. 

— Sim, veja como fogem, embora com passo lento! — respondia Pólux. Talvez, apenas, 

os cavalos fossem mais velozes. De qualquer modo,  

Castor logo emparelhou com Hilária, que ofegava no esforço da corrida. O braço forte do 

cavaleiro desceu até a cintura da jovem e ergueu-a sem esforço até aconchegá-la ao seu peito. No 

esforço de desvencilhar-se dos braços de seu delicado raptor, Hilária perdeu o manto. Mas Castor 

foi  gentil  o  suficiente  para  voltar  até  onde  a  túnica  de  Hilária  caíra  e  juntá-la,  sem  descer  do 

cavalo ou abandonar a preciosa presa. 

Seu irmão também já tinha na garupa de seu cavalo a assustada Febe, que, temerosa de 

cair ao solo, agarrara-se à cintura de seu seqüestrador. 

— Calma, não vamos lhes fazer mal!... — disse Castor, procurando acalmar Hilária e sua 

irmã. 

— Que querem? Cupido nos alvejou, nada podemos fazer! — exclamou o irmão, cujos 



olhos brilhavam de prazer ao sentir o corpo de Febe assim colado ao seu. 

De  repente,  porém,  atraídos  pelos  gritos,  surgiram  os  dois  noivos  das  moças  raptadas. 

Eram  Idas  e  Linceu,  dois  heróis  messênios,  que,  percebendo  a  situação,  acorreram 

imediatamente. 

— Larguem as duas, desgraçados! — gritou Idas, possesso. 

Os dois também estavam montados e logo encostaram seus cavalos aos dos raptores, que 

por levarem peso dobrado cada um não conseguiram escapar por muito tempo à perseguição. 



— Nós estamos apaixonados por elas! — disse Castor a Idas. — Como vocês não dão à 

beleza delas a mesma importância que nós, resolvemos tomá-las para nós! 

— Cale a boca, desgraçado! -disse Linceu.-Devolvam já as nossas noivas ou serão mortos! 

Os dois gêmeos, assim afrontados, decidiram apear e enfrentar os seus rivais. 

Logo  estavam  os  quatro  contendores  descidos  dos  cavalos,  enquanto  as  duas  moças 

fugiam numa corrida desenfreada pelos campos. 

Os dois irmãos atracaram-se numa luta corpo a corpo com Idas e Linceu, e durante um 

bom tempo a luta transcorreu sem vantagem visível de parte a parte. Idas, no entanto, vendo que 

não poderia vencer a disputa, sacou de um punhal que trazia escondido à cintura e atravessou o 

peito de Castor, que caiu ao solo mortalmente ferido. 

— Meu irmão! — exclamou Pólux, ao ver seu irmão tombar ensangüentado. 

— Este é o preço por sua ousadia! — disse Idas, limpando o ferro em sua túnica. 

Pólux,  cego  de  ódio,  foi  até  o  seu  cavalo  e,  pegando  um  dardo  afiado,  avançou  para  o 

agressor.  Antes,  porém,  que  alcançasse  o  assassino  de  seu  irmão,  enterrou  o  dardo  no  peito  de 

Linceu, que pulara à sua frente. 

— Maldito, pagará caro por isto! — disse Idas, brandindo o seu punhal, Júpiter, porém, 

que a tudo assistia do alto, enfureceu-se com a audácia 

daquele mortal que pretendia ferir seu filho Pólux e disparou no mesmo instante um raio 

vingador, que reduziu a cinzas o furioso Idas, bem como o cadáver prostrado de Linceu. 

Pólux, vendo seu irmão Castor caído ao solo, correu em direção ao seu corpo. 

— Castor morto! — exclamou, com o rosto banhado em lágrimas. — Meu irmão, como 

poderei viver a partir de agora? Que prazer terei em minhas caçadas sem a sua companhia, irmão 

querido? 

Durante muito tempo ainda esteve curvado sobre o corpo do irmão, até que, tomando-o 

em  seus  braços,  Pólux  carregou-o  até  o  Olimpo.  Todos  os  deuses  pararam  para  assistir  àquela 

cena trágica. Pólux, entrando no salão onde estava o trono celestial de seu  pai, postou-se à sua 

frente, tendo sempre nos braços o corpo do irmão morto. 

— Meu pai, não poderei continuar a viver sem a companhia de meu querido irmão! — 

disse  Pólux  a  Júpiter.  —  Venho  aqui  para  pedir  que  lhe  restitua  a  vida  ou  então  que  cancele  a 

minha imortalidade, permitindo que eu desça com ele até a morada das sombras. Lá, ao menos, 

continuaremos juntos. 

— Pólux, seu irmão era mortal, e seu destino não pode ser alterado — disse Júpiter. 




—  Mas  como  poderei  ser  feliz  aqui  no  Olimpo,  estando  ele  apartado  de  mim,  para 

sempre nas profundezas do reino de Plutão? Uma imortalidade dessas seria como a morte para 

mim. 

Júpiter  parecia  inflexível,  mas  ao  ver  a  dor  do  filho,  que  em  momento  algum  largara  o 



corpo do irmão, resolveu reconsiderar. 

—  Está  bem,  já  que  deseja  compartilhar  do  destino  dele,  tenho  uma  solução  —  disse 

finalmente o pai dos deuses. — Já que você insiste em não se apartar de seu irmão, farei com que 

ambos  passem  metade  do  ano em  meu  reino,  gozando  da  imortalidade,  e  na  outra  metade  irão 

habitar o reino das sombras, junto aos mortos, já que meu irmão Plutão não admitiria perder um 

súdito que já é seu de direito. 

Pólux,  que  não  queria  outra  coisa  senão  estar  sempre  junto  de  seu  irmão,  vibrou  de 

alegria. No mesmo instante, Castor abriu os olhos e os dois se abraçaram, felizes. 

—  Mas  lembrem-se,  daqui  a  seis  meses  os  dois  deverão  ir  habitar  o  Hades  sombrio  — 

advertiu-os Júpiter. 

— Ótimo! — exclamou Pólux. — Dividiremos assim a morte como dividimos a vida. 

Castor, agradecido, abraçou-se novamente ao irmão. 

A CAIXA DE PANDORA 

Epimeteu era irmão de Prometeu, o titã que modelou o primeiro homem do barro. No 

entanto, este, por desavenças com Júpiter, acabara por incorrer na sua ira. 

Temendo  que  Júpiter  viesse  a  querer  se  vingar  dele  ou  do  gênero  humano,  Prometeu 

decidiu um dia alertar o seu desavisado irmão: 

— Epimeteu, tome cuidado com os presentes que receber de Júpiter — disse Prometeu, 

chamando-o  para  um  canto.  —  Já  há  algum  tempo  que  ele  anda  furioso  comigo,  porque  ousei 

roubar o fogo dos céus para levá-lo aos homens. 

Epimeteu escutou com atenção as palavras judiciosas do irmão e logo as esqueceu com o 

mesmo empenho. 

Enquanto isso, no Olimpo, Júpiter já havia ordenado a Vulcano — que tinha também as 

suas veleidades de artífice — que criasse uma nova criatura, uma parelha para o homem. 

— Deixa comigo — disse o deus das forjas. 

Fechando-se em sua fuliginosa oficina com a deusa Minerva, os dois entregaram-se com 

extraordinário denodo à interessante tarefa. Decorrido algum tempo, a obra estava pronta. 

— Nunca nada de mais perfeito saiu de suas talentosas mãos, excelente Vulcano! — disse 

Minerva, entusiasmada. 



— Graças a você, cara amiga, que me auxiliou com seus proveitosos conselhos! — disse 

Vulcano, devolvendo o elogio. 

Diante  dos  dois  estava  um  linda  mulher,  quase  tão  bela  quanto  a  mais  bela  das  deusas. 

Seus olhos era azuis como o mais límpido céu e de sua boca vermelha e úmida partia um hálito 

fresco  e  perfumado.  Sua  pele  era  macia  como  o  mais  macio  dos  veludos  e  recobrindo-a  por 

inteiro havia ainda uma delicada penugem, que lembrava em tudo a maciez da casca do pêssego. 

Seus  membros,  por  sua  vez,  eram  delicadamente  proporcionados,  tendo  sido  exilada  deles  à 

força,  em  proveito  da  graça.  A  frente  do  peito  da  encantadora  criatura,  Minerva  coloca-n  dois 

pomos que tinham o prodígio de serem, ao toque, ao mesmo tempo macios e firmes, coroando-

os  ainda,  num  requinte  de  perfeição,  com  duas  delicadas  protuberâncias,  que  lembravam  duas 

pequenas cerejas. 

Suas curvas eram perfeitas. De cada flanco do corpo desciam duas linhas curvas voltadas 

para  dentro,  expandindo-se  somente  à  altura  da  cintura  para  dar  lugar  a  um  estonteante 

panorama, tendo ao centro um triângulo hermético, que guardava dentro de si todos os segredos 

da vida e de sua procriação. 

— Vamos, levemos já nossa invenção a Júpiter, para que ele nos dê logo a sua aprovação! 

— disse Minerva, tão confiante que já dava por certa a aprovação de seu exigente pai. 

E não foi de outra maneira. Tão logo o deus dos deuses pôs os seus olhos sobre a nova 

criatura, eles encheram-se de um brilho intenso. 

—  Vulcano  e  Minerva,  vocês  excederam-se  em  tudo  o  que  se  refere  à  beleza!  —  disse 

Júpiter, aplaudindo com entusiasmo a obra que tinha diante de si. 

— Batizamos ela de Pandora, meu pai — disse Minerva. — O que acha deste nome? 

—  Pandora,  Pandora  —  repetiu  Júpiter,  deliciado.  —  Tem  um  som  volátil,  alado... 

Magnífico! 

Antes, porém, de dispensar a criatura, chamou-a a um canto. 

—  Venha  cá,  Pandora,  tenho  um  presente  para  você.  Quero  que  você  leve  isto  aos 

mortais como sinal de meu apreço por eles — disse Júpiter, entregando-lhe uma caixa dourada, 

ricamente trabalhada com arabescos e filigranas de prata. 

Pandora arregalou os olhos ao ver diante de si aquele presente tão magnífico. Sem poder 

conter-se, quis logo abrir a maravilhosa caixa, mas foi impedida pelo autor do presente. 

—  Não,  minha  filha,  não  faça  isto!  É  para  ser  mantida  sempre  assim,  hermeticamente 

fechada. 

— Herpétia 

o que, poderoso deus? — disse Pandora, com um arzinho encantadoramente 

confuso. 



— Esqueça, querida, esqueça. Não é para ser aberta em ocasião alguma, compreendeu? 

— Sim, sim, compreendi! — disse Pandora, semicerrando os seus soberbos olhos anis. 

"Por  Júpiter,  acho  que  esqueci  de  um  pequeno  detalhe...  !",  pensou  Minerva,  consigo 

mesma, ao analisar melhor a criatura. 

Vulcano,  no  entanto,  permanecia  satisfeitíssimo  com  a  sua  invenção,  demonstrando  ser 

em tudo um pai digno da filha, menos na beleza, é claro. 

— Pode ir, minha menina, vá em paz — disse Júpiter, despedindo-se dela com um aceno. 

No  mesmo  dia,  os  dois  presentes  chegaram  às  mãos  de  Epimeteu,  que  não  sabia  qual 

deles admirar mais. Mas em breve fez logo a sua escolha: nada podia ser mais admirável do que 

aquela encantadora criatura que se chamava Pandora. 

Entusiasmado,  Epimeteu  decidiu  instalá-la  em  seu  quarto.  Depois  que  ele  havia  se 

retirado, Pandora pegou sua caixa dourada e prateada e pôs-se a examiná-la detidamente, virando-

a de todos os lados. Seus olhos azuis refletiam todo o brilho do magnífico receptáculo. 

—  O que haverá aí dentro? — disse baixinho, refrescando o ar com seu hálito balsâmico. 

Por  várias  vezes  a  encantadora  Pandora  hesitou  se  abria  ou  não a  fantástica  caixa.  Mas, 

depois, depositando o precioso objeto ao lado do travesseiro, adormeceu profundamente. 

Sonhou então que de dentro da caixa saíam, como por mágica, cavalos alados da cor do 

mar  e  aves  luminosas  de  diversos  tons  esmeraldinos.  Dos  bicos  prateados  das  gigantescas  aves 

originava-se  uma  canção  de  magnífica  beleza,  que  a  enterneceu  até  o  âmago  mais  profundo  da 

alma.  Homens  e  mulheres  abraçavam-se  nus,  em  pleno  ar,  ao  som  desta  canção  embriagadora, 

misturando-se àquelas criaturas de tal modo, que pareciam ter asas como elas. 

Despertando  com  aquele  sonho  maravilhoso,  Pandora  estendeu  a  mão  imediatamente 

para o seu presente. Não podendo mais conter o seu desejo, ergueu a tampa numa volúpia insana 

de curiosidade que lhe pôs na espinha um arrepio gelado. 

Nem  bem  ergueu  um  pouquinho  a  tampa  dourada,  Pandora  sentiu-a  ser  arrebatada  das 

mãos,  caindo  ao  chão,  longe  da  cama.  Assustada,  ainda  assim  manteve  o  objeto  preso  entre  as 

mãos. Pandora viu escapar de dentro da caixa algo a princípio sem forma. Parecia que todos os 

ventos  do  mundo  se  escapavam  desordenadamente  dali,  na  pressa  da  fuga.  Imediatamente  um 

deles tomou a forma de uma caveira volátil, parecendo toda feita de cristal e de vento. Tomando 

uma dimensão assustadora, a caveira aproximou seu rosto brilhante do rosto da pobre moça, que 

tremia de medo. Podia sentir na face o bafo mortalmente gelado que passava por entre os dentes 

de gelo, completamente arreganhados, da horrenda caveira. 

Por  alguns  instantes  aquela  face  terrível  a  mirou  com  suas  órbitas  vazias,  estudando-a 

sempre com seu sorriso de vidro. Depois seus maxilares bateram repetidas vezes, um de encontro 




ao outro, aumentando cada vez mais o ritmo a um ponto tal que ela somente podia ver aquela 

fileira  transparente  de  dentes  martelando-se  uns  aos  outros,  parecendo  inevitável  que  se  fariam 

em pedaços diante de seus olhos atônitos. 

Algo parecido a uma gargalhada escapava por entre os rápidos intervalos das batidas dos 

maxilares,  que  ela  não  sabia  precisar  se  era  um  gargalhada  de  escárnio  ou  um  lamento  de  dor. 

Pandora  estava  prestes  a  desmaiar,  quando  a  caveira  foi  se  tornando  gasosa  outra  vez, 

transformando-se  num  grande  e  gelado  vapor  que  fugiu  pela  janela  do  quarto,  perdendo-se  no 

mundo. 


Depois surgiram vários rostos deformados, cobertos de pústulas, que se erguiam da caixa 

como  se  fossem  o  retrato  horrendo  da  Doença.  Depois  de  assoprarem  sobre  seu  rosto  o  bafo 

doentio  das  febres  renitentes,  arremessaram-se  também  pela  janela  atrás  da  primeira  criatura, 

finalmente libertas. Dentre as tantas criaturas que escaparam da caixa, Pandora teve o desgosto de 

ver personificados todos os vícios que viriam a acometer no futuro a alma humana. 

A  Inveja  lhe  apareceu,  assim,  sob  a  forma  de  uma  mulher  velha,  cujos  cabelos  finos  e 

prateados  como  teias  de  aranha  esvoaçavam  ao  ar.  De  dentro  dessa  moita  prateada,  aranhas 

negras teciam freneticamente com as patas negras mais e mais fios, de tal forma que uma nuvem 

esfiapada  cobria  a  cabeça  inteira  da  velha  hedionda.  Seus  olhos  amarelos,  raiados  de  sangue, 

fuzilavam aquele belo rosto que, sabia, jamais teria igual. Da boca escapou uma baba verde, que 

lhe  escorria  pelo  queixo  em  cordas  pendentes.  Com  elas  a  velha  teceu  uma  corda  musgosa  e 

nojenta,  com  a  qual  envolveu  o  pescoço  de  Pandora,  decidida  a  estrangulá-la.  Algo,  porém,  a 

impediu  de  completar  seu  ato.  Dando  um  grande  uivo  de  raiva,  ela  recuou  para  trás.  Depois 

ergueu a mão ossuda no ar e, franzindo os dedos como quem agarra algo, sacudiu-a em direção 

ao  seu  alvo,  Pandora.  Depois,  arremessou-se  subitamente  pela  janela,  dando  um  silvo  agudo  e 

penetrante. 

A  Gula,  sob  a  forma  rotunda  de  uma  mulher  imensamente  nua,  escapou-se  também  da 

caixa. Suas banhas e graxas sacudiam, caindo umas por cima das outras, em grossas camadas. De 

toda  ela escorria  um  suor  pegajoso,  como  se  suasse  azeite  por  todos  os  poros.  Suas  bochechas 

pareciam  prestes  a  explodir,  e  de  seus  olhos  escorria  uma  graxa  amarela  e  malcheirosa,  que  ela 

lambia com furor assim que lhe chegava aos lábios inchados. 

Pandora,  embora  aterrorizada,  não  conseguia  fechar  a  maldita  caixa,  involuntariamente 

fascinada com o que assistia, sem saber como pudera desencadear tantas desgraças. Lançando-se 

de  joelhos  ao  chão,  encontrou  finalmente  a  tampa  caída  a  um  canto.  Enquanto  rastejava  para 

alcançá-la  sentia  rodopiar  acima  de  si  uma  legião  de  demônios  —  a  Avareza,  a  Arrogância,  a 



Crueldade, o Egoísmo, todos os vícios e defeitos humanos dançavam uma ciranda infernal sobre 

a sua cabeça, até que, arremessando-se à caixa, conseguiu finalmente fechá-la. 

Mas o mal já estava feito. Percebendo que nada ficara lá dentro, olhou ainda uma vez para 

o fundo da caixa fatídica. Um rosto maravilhosamente belo e eternamente jovem, no entanto, a 

observava dali. 

— Quem é você? — disse Pandora, ainda temerosa. 

— Eu sou a Esperança — disse simplesmente o belo rosto. 

Foi carregando esse valioso presente que Pandora se apresentou diante dos homens. 

MINERVA E ARACNE 

Aracne era uma bela moça, filha de um tintureiro de lã, na cidade de Colonon. Sendo filha 

de  quem  era,  desde  cedo  acostumara-se  a  bordar  e  tecer,  revelando  um  talento  inato  para  essa 

arte. À medida que Aracne foi tornando-se adulta, sua arte também mais e mais se aperfeiçoava, 

de tal sorte que logo seus trabalhos eram disputados por todas as mulheres da cidade. Senhoras 

de  outras  localidades  também  acorriam,  sem  se  importar  com  a  distância,  desde  que  pudessem 

levar para casa algum trabalho saído das mãos da extraordinária artesã. 

— Bordado é o da Aracne, o resto é bobagem — diziam as moças, que saíam da casa da 

talentosa jovem com suas peças estendidas, admirando à luz do sol o tom diversamente colorido 

dos bordados e das tramas. 

De tal forma a fama de Aracne cresceu, que mesmo as ninfas dos rios e lagos próximos 

deixavam as águas para admirar os trabalhos de Aracne. 

Um dia, Diana, que ficara sabendo do assunto pelas ninfas, levou-o ao conhecimento de 

Minerva. 

— Minerva, acho que finalmente você encontrou uma rival à altura — disse Diana, com 

um tom de ironia. 

Ora, deuses e deusas não suportam que lhes falem nesse tom, ainda mais quando um de 

seus atributos é posto em dúvida. A deusa, considerada a protetora das obreiras e dos artesãos, 

não admitia que uma reles mortal pudesse sequer emparelhar com as suas obras, respeitadas em 

todo o Olimpo. 

— Quem é mesmo essa fulana? — disse Minerva, com a voz repassada de inveja. 

— Aracne é o seu nome — disse Diana, que sob o pretexto de fazer um favor saboreava, 

na verdade, o despeito da outra. 

No  mesmo  dia  Minerva  decidiu  apresentar-se  diante  da  rival  e  ver  se  realmente  ela  era 

tudo  aquilo  que  afirmavam.  Metamorfoseando-se  numa  velha,  a  deusa  rumou  para  o  país  onde 



vivia Aracne. Quando lá chegou, encontrou a artesã sentada à beira de um regato, cercada por um 

exército de ninfas, que deitadas sobre a relva admiravam o seu magnífico trabalho. 

— Bom-dia, minha jovem! — disse, aproximando-se. 

—  Bom-dia,  minha  senhora  —  disse  Aracne,  sem  desviar  os  olhos  de  seu  imenso 

bordado. 

"Ela é boa artesã, mesmo, a desgraçada!", pensou a velhota e disse: 

—    Que  belo  trabalho  está  fazendo!  —  exclamou  Minerva,  apoiada  a  seu  bordão,  cujo 

elogio fingido escondia uma secreta admiração. 

— É o que todos dizem — falou Aracne, com um ar de presunção que irritou Minerva. 

— Mas convém agradecer sempre a Minerva este dom recebido — disse a velha. 

— Ora, e que méritos eu teria se devo exclusivamente a ela meu talento? -disse Aracne. 

— Ela que cuide de seus bordados que eu cuido dos meus. 

Um sussurro de espanto correu por entre as ninfas. 

—  Oh,  não  diga  isto!  —  disse  a  velha,  escandalizada.  —  Não  percebe  que  é  uma 

ingratidão sem tamanho? 

—  Vovó,  por  favor,  me  deixe  trabalhar  em  paz  —  disse  a  jovem,  pondo  um  fim  na 

conversa. 

— É esta, então, a idéia que tem de mim, atrevida? — disse Minerva, desfazendo-se do 

disfarce  e  surgindo  em  todo  o  seu  esplendor  diante  da  tecelã  e  das  ninfas,  que  recuaram, entre 

assustadas e reverentes. 

Aracne, contudo, não demonstrou grande impressão e prosseguiu a bordar como se nada 

houvesse acontecido. 

— Olhe para mim, sua mal-agradecida! — bradou Minerva. 

— Estou trabalhando, não está vendo? — disse Aracne, com maus modos. 

— Proponho, então, um desafio! — disse Minerva, certa de que a vitória seria sua. 

—  Diga  lá!  —  respondeu  a  moça,  que  não  queria  outra  coisa  senão  medir-se  com  a 

própria deusa dos trabalhos manuais. 

— Vamos, ninfas ociosas, tragam toda lã que puderem encontrar e a depositem aqui, em 

partes iguais, a nossos pés — ordenou Minerva. 

As  duas  mostravam-se  extremamente  arrogantes.  Não  se  podia  saber  qual  seria  a 

vencedora daquele empolgante confronto. Ao sinal da deusa, as duas começaram a trabalhar. Os 

dedos ágeis desfiavam a lã e a colocavam rapidamente sob os pentes do tear que tinham à frente. 

Os fios deslizavam, esticados ao máximo, parecendo as cordas afinadas de um piano. Nem bem 

saíam da máquina e dedos os capturavam, comprimindo-os sob as agulhas douradas. 




Cada qual tinha aos joelhos uma grande tela, na qual deveriam bordar um grande tapete 

figurativo.  Minerva  escolhera  fazer  o  retrato  de  uma  disputa  que  tivera  com  Netuno,  enquanto 

Aracne bordava magistralmente a cena do rapto de Europa por Júpiter. 

Aos  poucos  as  figuras  ganhavam  forma  nas  armações  quadradas  que  cada  qual  tinha 

diante  de  si.  Os  fios  de  diversas  cores  passavam  pelos  dedos  das  mulheres  como  os  fios  que 

tecem  o  arco-íris,  misturando-se  numa  mesma  maçaroca.  mas  saindo  separados  e  uniformes 

sobre a tela. 

— Veja, a tela de Minerva está mais bela — dizia uma ninfa, observando o trabalho da 

deusa, que começava a ganhar forma diante dos olhos de todas. 

De  fato,  o  mar,  os  peixes,  o  deus  Netuno  com  seu  tridente,  tudo  parecia  adquirir  vida 

própria, enquanto os dedos finos da deusa tramavam agilmente as linhas de diversas cores. 

— Não, o de Aracne é mais belo — disse outra ninfa, abaixando o tom de voz para não 

ofender a deusa. 

O tapete de Aracne, com efeito, não ficava a dever nada ao da sua rival em matéria de cor, 

beleza e vivacidade. Todas podiam ver aos poucos o alvo touro que raptara Europa ganhar forma 

sob  as  costuras.  O  alvo  fio  ia  desenhando  o  contorno  da  bela  jovem  com  tal  perfeição  que ela 

parecia estar viva e prestes a sair do tapete: seus pés erguiam-se a poucos centímetros da água de 

um anil perfeito, por sobre a qual era levada pelo animal. 

A  medida  que  as  duas  finalizavam  o  trabalho,  a  ansiedade  e  a  expectativa  das  ninfas 

tornavam-se quase insuportáveis. 

De repente, Minerva pôs-se em pé, com um grito de triunfo: 

— Pronto, amadora, apresente também o seu trabalho! 

Aracne, dando o último nó em seu bordado, ergueu-o desafiadoramente. 

—  Que  as  ninfas  julguem  com  imparcialidade!  —  disse,  encarando  a  rival.  Minerva, 

arrebatando o tapete das mãos de Aracne, comeu-o com os olhos. 

Enquanto o estudava, procurava com ele ocultar o próprio rosto, a fim de que as demais 

não  vissem  a  admiração  estampada  na  sua  face.  "Maldita!  Seu  trabalho  tenho  de  reconhecer,  é 

levemente superior ao meu!", pensou a deusa. 

Temendo,  porém,  que  as  julgadoras  chegassem  à  mesma  conclusão,  Minerva  perdeu  a 

cabeça e fez em pedaços o belo tapete, mostrando que não admitiria sofrer uma humilhação. 

— Oh, como você é cruel e injusta! — disse Aracne, tomada pela ira. Em seguida, rasgou 

também o trabalho da rival, sapateando em cima. 

—  Veja  o  que  restou  de  seu  horrível  bordado  —  disse,  arreganhando  os  dentes  para  a 

deusa. 



Isto  foi  demais  para  a  paciência  de  Minerva,  que não  podia  admitir  tamanha  afronta  de 

uma reles mortal. Erguendo sua mão sobre a cabeça de Aracne, rogou-lhe uma praga terrível. A 

moça, que ainda estava sob o efeito da cólera, não sentiu a princípio que seu corpo encolhia até 

transformar-se  numa  bola  negra.  Depois,  de  seus  flancos  saíram  várias  pernas  cabeludas,  o  que 

encheu de horror as ninfas, que se lançaram à água, temerosas de que a deusa resolvesse puni-las 

também. 


Tomando em suas mãos a asquerosa criatura, Minerva pendurou-a em um galho. 

— Veja, aí está o prêmio da sua arrogância! — disse a deusa, com uma risada de escárnio. 

Já ia dando as costas para se retirar, quando percebeu um ruído vindo da árvore. Voltou-

se e viu que a criatura negra movimentava suas pernas com extraordinária agilidade, costurando 

um  manto  com  uma  seda  extremamente  fina  que  retirava  de  seu  dorso  abaulado.  Aos  poucos 

Minerva viu surgir diante de seus olhos um magnífico bordado circular, que excedia a tudo que 

ela  antes  já  fizera,  como  se  Aracne,  mesmo  sob  aquela  odiosa  forma,  tivesse  se  tornado  ainda 

mais talentosa com seus diversos braços. 

Minerva, reconhecendo-se finalmente derrotada, partiu correndo do maldito bosque. 

PERSEU E A CABEÇA DE MEDUSA 

Poucos homens poderão se vangloriar de terem nascido de uma chuva de ouro. O herói 

deste conto, no entanto, pode, e é sobre ele que vamos agora falar. 

Acrísio, rei de Argos, tinha uma bela filha chamada Danai. Um dia este poderoso rei foi 

consultar-se com um oráculo e recebeu dele o aviso de que sua filha jamais deveria ser mãe, pois 

o filho nascido de suas entranhas provocaria um dia a morte do próprio soberano. Temendo que 

essa profecia viesse a se realizar, o rei mandou encerrar então a sua filha numa inacessível torre de 

bronze, certo de que ali nenhum pretendente poderia alcançá-la. 

Acrísio, no entanto, esqueceu-se do volúvel Júpiter, que um dia, ao enxergar do Olimpo a 

pobre moça debruçada à janela, apaixonou-se perdidamente por ela. 

Ora, para o pai dos deuses não existem torres inexpugnáveis. Metamorfoseando-se numa 

nuvem dourada, Júpiter penetrou nos aposentos de Danai e a fecundou de uma maneira original, 

fazendo descer sobre ela uma abundante e frisada chuva de ouro. 

Quando o rei descobriu o fato, tomou-se de ira. Antes de tomar uma providência, porém, 

decidiu aguardar que o neto nascesse. Tão logo o menino — que se chamou Perseu — veio ao 

mundo, o rei deu esta ordem cruel aos guardas: 

— Tranquem Danai e seu filho dentro de uma arca e lancem ambos ao mar. A ordem foi 

cumprida integralmente. No mesmo dia mãe e filho estavam 



navegando  sem  rumo  pelas  águas  revoltas  do  oceano,  enquanto  Acrísio,  em  seu  trono, 

suspirava  aliviado.  O  sol  e  a  lua  brilharam  alternadamente  sobre  a  arca  fatídica  enquanto  esta 

flutuava  ao  sabor  das  ondas,  até  que  um  dia  ela  acabou  indo  dar  à  praia  de  Serifo,  onde  um 

pescador  a  encontrou.  Qual  não  foi  a  sua  surpresa  ao  abrir  a  tampa  e  descobrir  no  interior  a 

figura da mãe abraçada ao filho! 

— Por Júpiter! — exclamou o bom homem. — O que está fazendo aí dentro esta pobre 

moça? 

Danai,  com  o  filho  aninhado  nos  braços,  encontrava-se  sentada,  quase  sem  sentidos,  e 



seus joelhos estavam cobertos pela água que entrara por uma fresta. 

— Ajude-nos... — disse a moça, antes de desmaiar. 

O velho recolheu-a com o filho e lhes deu abrigo e alimentação. Tão logo se mostraram 

recuperados da terrível viagem, ele os levou até o rei do país, que se chamava Polidecto. 

O rei tratou Danai e seu filho com muita atenção, dando-lhes um lugar para morar. 

Com o passar dos anos, o pequeno Perseu foi crescendo até se tornar um rapaz forte e 

musculoso.  Como  Polidecto  mostrava-se  cada  vez  mais  interessado  em  possuir  Danai,  decidiu 

afastar  do  reino  o  jovem.  Para  tanto  ordenou  que  ele  fosse  combater  a  terrível  Medusa,  uma 

criatura monstruosa que espalhava o terror por todo o reino. 

— Quem é ela? — quis saber Perseu, que já tinha um pendor natural para a aventura. 

— Medusa é uma das três Górgonas — disse Polidecto. — Filhas de Fórcis. chamam-se 

Euríala, Esteno e Medusa. Das três, indubitavelmente, a última é a mais bela. Até algum tempo 

atrás, todas as mulheres tinham inveja da sua beleza — continuou a dizer Polidecto -, em especial 

da sua bela cabeleira negra. Seus cabelos eram tão escuros e sedosos que pareciam fios da noite a 

escorrer sobre seus ombros. 

O  rei  prosseguiu  na  sua  história,  acrescentando  que  um  dia  a  mais  bela  das  Górgonas 

apaixonara-se por Netuno, o deus dos mares. Certa feita, tendo marcado um encontro amoroso 

com ele num dos templos de Minerva, acabara provocando a ira da deusa. Sedenta por vingança, 

Minerva decidiu punir a jovem, transformando sua linda cabeleira num ninho das mais horrendas 

serpentes. 

Transformada,  assim,  numa  detestável  criatura,  Medusa  foi  se  refugiar  numa  gruta 

fortificada. Dizia-se que possuía agora o dom de converter em pedra todo aquele que a encarasse 

e que este era seu maior deleite desde que fora alvo da nefasta transformação. 

Perseu, tendo ouvido o relato do rei, decidiu aceitar a missão, embora ciente de todos os 

perigos. Partiu alguns dias depois, sob os protestos da mãe. 



Após uma longa jornada, o jovem chegou, finalmente, diante da fortaleza de pedra onde a 

Medusa  se  escondia.  Logo  à  entrada,  porém,  deparou-se  com  algumas  formas  humanas  que,  à 

primeira  vista,  fizeram-no  crer  que  se  tratavam,  de  guardiões.  Erguendo  sua  tocha,  Perseu 

observou-as  melhor  e  descobriu  que  eram  homens  mortos  que  tinham  seus  corpos 

transformados em pedras. 

—  Infelizes!  —  exclamou  Perseu,  enquanto  estudava  suas  feições  assombradas.  Todos 

pareciam estar ainda vivos, contemplando a coisa mais pavorosa que um olho humano pudesse 

enxergar.  Seus  gestos  derradeiros  refletiam  o  último  espasmo  do  terror,  enquanto  alguns 

procuravam  proteger  os  olhos  com  as  mãos;  outros  tinham  uma  perna  posta  em  recuo,  como 

quem  começa  a  fugir,  sem  poder,  no  entanto,  completar  a  escapada;  outros,  ainda,  tinham  a 

espada erguida acima das cabeças, como quem prepara um golpe fatal, que, no entanto, jamais se 

completa. 

Seguindo  um  pouco  mais  para  dentro  da  caverna,  Perseu  escutou  uma  conversa; 

aproximou-se,  então,  de  maneira  cautelosa,  até  vislumbrar  duas  altas  mulheres  que  pareciam 

guardar a entrada principal da fortaleza. 

Eram as irmãs de Medusa, que ali se mantinham em perpétua vigília. 

A  primeira  delas,  que  estava  colocada  ao  lado  de onde  Perseu  avançava,  pressentindo  a 

presença de alguém, disse, estendendo inquietamente a mão à outra: 

— Dê-me logo isto... Há alguém por aqui, além de nós, posso sentir o cheiro. Tomando 

alguma coisa das mãos da outra, a primeira entalou aquilo no rosto e pôs-se a olhar para ao lados 

onde  Perseu  se  escondia.  Mesmo  na  quase  obscuridade  total  de  onde  se  encontrava,  o  jovem 

pôde  perceber  que  o  objeto  que a  monstruosa  criatura  colocara  no  rosto  era  um  único e  alerta 

olho  esverdeado,  que  percorria  de  modo  inquieto  todos  os  recantos  da  caverna.  As  duas 

possuíam  apenas  um  globo  ocular,  que  compartilhavam  na  medida  que  dele  necessitassem.  O 

herói,  agachando-se,  pegou  uma  pedra  e  lançou-a  para  os  lados  daquela  que  ficara 

momentaneamente cega. 

— Vamos, devolva-me o olho! — gritou esta para a outra. 

Enquanto  aquela  vasculhava  a  extremidade  oposta  da  caverna,  Perseu  aproximou-se 

discretamente  da  que  lhe  estava  mais  próxima  e  indefesa.  Sacando  da  espada,  foi  fácil  cortar  a 

cabeça da sinistra criatura, que deu ainda um grito de alerta à irmã: 

— Mana, me dê o olho! — disse ela, antes de cair morta ao chão. 

A outra, espavorida, desatarraxou-o da cara e estendeu-o no vazio. 

—  Obrigado...  —  disse  Perseu,  pegando  o  olho  com  uma  das  mãos,  enquanto  com  a 

outra desferia sobre o pescoço da vítima um golpe certeiro de sua espada afiada. 




A  segunda  das  temíveis  Górgonas  caiu  ao  chão,  sem  cabeça  e  sem  olho.  Uma  poça  de 

sangue formou-se aos pés de Perseu, que prosseguiu adiante, deixando no chão as suas pegadas 

vermelhas e disposto a enfrentar agora a mais perigosa das três irmãs. 

Um  vento  frio  percorria  os  corredores  recobertos  de  estalactites,  que  pendiam  das 

paredes  como  afiadas  estacas  de  gelo.  Mas  havia  algo  além  do  sopro  gelado  do  vento.  Uma 

respiração curta e forte misturava-se ao fluxo contínuo do vento. "A maldita está me seguindo!", 

pensou o herói, pondo todos os seus sentidos em alerta. Como em resposta às suas cogitações, 

Perseu escutou uma voz dizer as seguintes palavras, que por causa do vento pareciam estar sendo 

assopradas diretamente em seu ouvido: 

— Maldito! Pagará caro pela morte de minhas irmãs! 

Sua tocha apagou-se e tudo mergulhou na semi-escuridão da caverna. 

Parecendo  um  guerreiro  cego  e  tateando  o  caminho  com  a  ponta  da  espada,  Perseu 

continuou a avançar, de maneira cautelosa. Preso ao outro braço levava o escudo que recebera de 

Minerva,  antes  de  partir.  A  sua  última  recomendação  ainda  estava  bem  clara  em  sua  mente: 

"Jamais enfrente o olhar da Medusa, pois isto seria o seu fim! Quando tiver de enfrentá-la, mire-a 

apenas no reflexo produzido por este escudo". 

Perseu começou a erguer o seu escudo quando de repente sentiu que uma mão poderosa 

agarrara seu braço, apoderando-se de seu precioso utensílio. O barulho metálico do instrumento 

batendo-se  contra  as  rochas  das  paredes  ressoou  pelos  corredores  escuros.  Quase  ao  mesmo 

tempo um golpe forte se abateu sobre suas costas, surpreendendo-o e fazendo com que caísse de 

bruços e quase sem sentidos ao solo. 

Ainda  atordoado,  Perseu  sentiu  que  duas  mãos  vigorosas  viravam  seu  corpo  de  frente. 

Depois, estas mesmas mãos ásperas agarraram sua cabeça e a sacudiram vivamente. 

—  Vamos,  querido,  acorde!  —  disse  uma  voz  inesperadamente  suave.  Seus  olhos 

começavam a se abrir quando se lembrou da advertência da 

deusa: "Jamais enfrente o olhar da Medusa... Isto seria o seu fim...". 

Apertando  suas  pálpebras,  Perseu  manteve  sua  vista  fechada,  enquanto  tentava  se 

desvencilhar  dos  braços  rijos  da  monstruosa  mulher.  Uma  voz  rouca  gritava,  agora  de  maneira 

quase histérica, em seus ouvidos: 

— Abra os olhos, guerreiro, e contemple meus belos olhos! 

Perseu,  ainda  com  os  olhos  fechados,  sentiu  na  boca  a  pressão  dos  lábios  úmidos  da 

Medusa.  O  hálito  frio  e  fétido  que  aspirou  lhe  deu  a  idéia  de  que  a  própria  Morte  o  estivesse 

beijando.  Percebendo  que  tinha  o  joelho  livre,  encolheu-o  até  a  altura  do  seu  peito  e  com  ele 



arremessou para longe a figura monstruosa, com tamanha força que ela cruzou toda a extensão 

da caverna, indo chocar-se violentamente contra uma parede. 

Uma  golfada  de  sangue  foi  expelida  pela  boca  da  Medusa,  juntamente  com  um  grito 

selvagem. Atordoada pelo impacto, agora era a vez de ela tentar recobrar seus sentidos. 

Perseu, pondo-se agilmente em pé, divisou o brilho de seu escudo, a alguns metros dali. 

Tão  logo  o  teve  outra  vez  nas  mãos,  ergueu-o,  tentando  ver  pelo  reflexo  prateado  o  que  se 

passava atrás de si. Uma forma vagamente feminina vinha vindo em sua direção. Perseu não teve 

tempo de ver o rosto da Medusa, pois com um salto ligeiro o jovem desviou-se, lançando-se ao 

chão,  mantendo  sempre  preso  ao  braço  o  seu  precioso  escudo.  Com  a  outra  mão  Perseu 

empunhava a espada. 

—  Você  morrerá  como  todos  os  outros  —  disse  a  Górgona,  confiante  -,  e  colocarei 

depois a sua estátua bem no centro de minha caverna. 

Perseu manteve silêncio, concentrado apenas em seus movimentos e nos movimentos da 

ágil  criatura,  que  continuava  a  mover-se  aos  saltos.  Para  o  herói  era  extremamente  difícil 

enfrentar  uma  adversária  tendo  de  estar  sempre  de  costas  voltadas  para  ela,  observando  seus 

movimentos nervosos apenas pela refração do escudo. 

Por  um  instante  a  criatura  desapareceu,  até  que  o  rosto  inteiro  da  Medusa  surgiu 

repentinamente novamente no espelho que Perseu tinha diante dos olhos. 

Seu rosto pálido era uma máscara de onde sobressaíam dois olhos de pupilas horizontais, 

como os dos répteis, e que brilhavam iluminados pela ira. Acima deles as serpentes se agitavam, 

espichando  para  fora  das  bocas  suas  línguas  fendidas  e  arremessando  seus  corpos  em  botes 

rápidos que somente a distância impedia que se tornassem fatais. 

Antes, porém, que ela pudesse lhe fazer algum dano, Perseu fechou os olhos e girou seu 

corpo  com  extrema  velocidade,  arrancando,  com  um  golpe  certeiro  da  espada,  a  cabeça  da 

Medusa. 

Voltando-se para o corpo que tombara no chão, já sem o auxílio do escudo, Perseu viu, 

surpreso,  surgir  do  sangue  que  jorrava  em  abundância  do  pescoço  da  criatura  um  belo  e  alvo 

cavalo alado, que se chamaria Pégaso e se tornaria famoso por auxiliar outro herói, Belerofonte, a 

derrotar a monstruosa Quimera. 

Montado sobre esse belo cavalo, Perseu ensacou a horrenda cabeça decepada de Medusa 

e retornou para casa, satisfeito com sua vitória. 

BELEROFONTE E PÉGASO 

Ninguém cavalgou Pégaso com mais virilidade e destreza do que Belerofonte, um jovem e 

valente guerreiro que ousou enfrentar com ele uma temível criatura chamada Quimera. 




Tendo vivido durante algum tempo sob a proteção do rei Proeto, Belerofonte acabou por 

se envolver involuntariamente com a esposa deste, a bela e sedutora Antéia. 

— Belo jovem, deixe-me amá-lo — dizia a toda hora a insistente rainha. Belerofonte, no 

entanto, temendo um atrito com o rei, fugia o tempo todo. 

Antéia,  vendo  que  suas  investidas  não  davam  em  nada,  decidiu  punir  o  seu  objeto  de 

desejo. 


— Pagará caro por me rejeitar — disse a rainha, um dia, farta de se oferecer em vão. 

E tratou de intrigar o jovem com seu desavisado esposo: 

— Proeto, querido, esse rapaz é muito abusado... 

— Abusado? O que está dizendo, querida? — disse o rei, intrigado. 

— Esse insolente não tem feito outra coisa desde que chegou ao nosso reino senão me 

cercar com propostas indecentes — disse a rainha, fingindo indignação. 

O rei, sentindo-se ultrajado com tamanha afronta, decidiu enviar o ex-protegido à corte 

de seu sogro, na Lídia. Junto, remeteu uma carta, na qual pedia que ele se encarregasse de dar um 

fim a Belerofonte. 

Lobates  —  tal  era  o  nome  do  rei  da  Lídia  -,  a  princípio,  ficou  aborrecido  ao  receber  a 

incumbência.  "Por  Júpiter!  Genros  só  trazem  problemas!",  resmungou,  e  foi  receber  o  jovem 

visitante com mostras de simpatia. 

Durante  muito  tempo  Lobates  imaginou  um  meio  de  acabar  com  Belerofonte  sem  que 

isso  acarretasse  problemas  para  si,  até  que  um  dia  chegou  a  notícia  de  que  a  Quimera  —  um 

monstro terrível que assolava seu reino — havia feito mais uma vítima. 

—  É  isto!  —  exclamou  o  monarca,  dando  uma  palmada  na  testa  e  mandando  chamar 

imediatamente o rapaz. 

—  Belerofonte,  somente  você,  montado  em  seu  cavalo  alado,  poderá  fazer  frente  à 

horrível criatura que vem há tanto tempo aterrorizando o meu reino! -disse ao herói. 

— Mas que monstro é este que vocês chamam de Quimera? 

—  É  uma  besta  que  expele  chamas  pela  boca  e  pelo  nariz.  Seu  corpo  é  uma  mistura 

grotesca  de  vários  seres:  tem  cabeça  de  leão,  corpo  de  cabra  e  sua  parte  posterior  é  em  tudo 

idêntica à de um dragão. 

Belerofonte  —  que  ficara  mais  intrigado  do  que  assustado  com  a  descrição  da  estranha 

criatura — dispôs-se imediatamente a partir com seu cavalo alado, a fim de retribuir a acolhida 

que tivera do rei. 

Na ampla estrebaria do palácio estava acomodado Pégaso, o cavalo que Belerofonte havia 

domado graças ao freio dourado que Minerva lhe havia dado durante um sonho. Ao enxergar o 




dono  por  entre  as  frestas  da  madeira,  o  animal  começou  a  relinchar  suave  e  melodicamente, 

muito diferente dos outros cavalos. 

Tão  logo  Pégaso  viu-se  livre  de  sua  prisão  temporária,  começou  a  voar  em  círculos  em 

torno de Belerofonte, que tentava inutilmente lhe alcançar as rédeas douradas. 

— Por favor, Pégaso, deixe de brincadeiras! 

O  cavalo,  descendo  das  nuvens,  foi  pousar  aos  pés  do  herói,  curvando  docilmente  a 

cabeça, enquanto Belerofonte, num salto ágil, montou sobre o seu dorso. 

— Vamos embora, pois temos uma missão a cumprir! — disse o cavaleiro, afrouxando as 

rédeas do maravilhoso cavalo, que se lançou ao espaço num galope veloz. 

Belerofonte  cruzou  os  céus,  sentindo  um  pouco  do  prazer  que  um  dia  também  sentira, 

ainda que de maneira diferente e fugaz, o infeliz Ícaro das asas de cera. 

O herói estava entregue aos seus pensamentos quando divisou, afinal, a temível fera, que 

o observava expelindo fogo pela boca. Cercada por montanhas, a Quimera escalou rapidamente a 

encosta de uma delas; Pégaso, abrindo bem as asas, voejava em torno da presa, na tentativa de 

torná-la  um  alvo  fácil  para  os  dardos  afiados  de  Belerofonte.  Mas  a  fera  sumiu,  abruptamente, 

ocultando-se numa das inúmeras grutas. 

—  Se  tiver  de  procurá-la  de  caverna  em  caverna,  estarei  bem  arranjado  -exclamou  o 

guerreiro, aborrecido. 

O cavalo alado pousou sobre o solo acidentado. Grandes pedras espalhadas por todo o 

lado dificultavam os passos do animal. 

—  Pégaso,  fique  aqui,  enquanto  vou  verificar  —  disse  Belerofonte  ao  animal. 

Desmontando,  Belerofonte  entrou  numa  das  grutas.  De  dentro  escapava-se  um  calor  suspeito, 

que fazia crer que a fera houvesse buscado ali um refúgio. Enquanto o herói avançava cada vez 

mais para dentro da caverna, escutou um relincho agudo de seu cavalo. 

— Silêncio, Pégaso, não me tire a concentração! — disse Belerofonte, fazendo um gesto 

com a mão, sem voltar os olhos para o cavalo. 

Pégaso, no entanto, prosseguia no seu relincho de alerta, pois de outra entrada lateral o 

monstro seguia os passos do destemido guerreiro. 

Erguendo  vôo,  o  cavalo alado  veio  pelas  costas  da  Quimera  e  a  acertou  com  um  golpe 

dos cascos, lançando-a ao chão e despertando a atenção do seu dono. 

— Obrigado, Pégaso — disse Belerofonte, mirando a seta bem em direção ao coração do 

monstro abatido, que se rojava no pó, lançando jatos de fogo em todas as direções. 

Alguns  instantes  após  haver  disparado  o  mortífero  dardo,  Belerofonte  teve  o  prazer  de 

ver a temida Quimera estirar as pernas no último espasmo que precedeu sua morte. 




— Vencemos! 

Após  derrotar  o  flagelo  do  reino,  Belerofonte  e  Pégaso  retornaram  para  a  corte.  O  rei 

Lobates,  vendo  que  nada  conseguira  ao  expor  o  visitante  à  mais  terrível  das  feras,  resolveu 

envolvê-lo numa guerra com as amazonas, na vã esperança de ver sua ruína. 

Apesar de toda a fúria e combatividade das cavaleiras, não foram elas páreo, tampouco, 

para a força e a coragem do herói grego, que as derrotou sem maiores dificuldades. O rei, então, 

vendo  que  seus  artifícios  jamais  poriam  fim  à  vida  do  herói  —  e  agradado  já,  a  esta  altura,  do 

valor do guerreiro —, decidiu fazer dele o marido de sua filha. 

—  Meu  genro  que  se  dane...  —  disse  ele  à  sua  esposa,  que  estava,  também,  encantada 

com as qualidades de Belerofonte. 

— Ele é realmente fantástico! — concordou ela, num enlevo. 

A  princesa  Filonoé,  perfeitamente  de  acordo  com  a  idéia,  pediu  logo  a  seu  pai  que 

marcasse  para  o  mais  breve  possível  a  data  do  seu  casamento.  Belerofonte  e  sua  nova  esposa 

viveram  felizes  durante  algum  tempo,  até  que  o  herói,  sentindo-se  envaidecido  com  tamanhos 

triunfos, acabou por cair no erro fatal da soberba. 

Tomando um dia as rédeas de seu cavalo alado, disse baixinho ao ouvido do seu cavalo de 

estimação: 

— Venha, vamos conhecer a morada dos deuses! 

Pégaso,  diante  da  ordem,  pela  primeira  vez  na  vida  refugou;  suas  asas  permaneciam 

comprimidas enquanto seus dentes mastigavam relutantemente o freio. 

— Vamos, garoto, o que foi? 

O cavalo, a contragosto, distendeu as asas e lançou-se ao espaço. Belerofonte, montado 

em seu dorso, não via a hora de ver-se entre os deuses — pois ele próprio já se considerava um 

deles.  "Por  que  razão  não  terei  direito  também  à  imortalidade,  como  tantos  outros  heróis?", 

pensava, enquanto as nuvens rasgavam-se diante de seus olhos. 

Passando  muito  além  do  sol,  Belerofonte  começou  a  divisar  uma  luz  muito  mais 

ofuscante que a do poderoso astro. 

— Estamos chegando, Pégaso! 

Júpiter, porém, sabedor da audácia do herói de invadir os seus domínios, já havia tomado 

providências.  Metamorfoseando-se  numa  mosca,  começou  a  atormentar  Pégaso,  picando  seus 

flancos sem descanso, até que ele começou a corcovear, derrubando, por fim, Belerofonte. 

O  herói  escapou  milagrosamente  da  morte,  mas  acabou  tornando-se  coxo  e  miserável, 

vivendo como um mendigo o resto da sua vida. 

PIGMALIÃO E A ESTÁTUA 




PRIMEIRO DIA

 

Cheguei hoje, finalmente, à ilha de Chipre, onde pretendo me instalar para exercer minha 



atividade de escultor. Dizem que os ares daqui são revigorantes, e a luminosidade, ideal para os 

artistas.  Dei  uma  caminhada  pelas  ruas  da  cidade, assim  que  me  livrei  da arrumação  de  minhas 

coisas. As ruas são cheias de caminhos labirínticos, suas casas são baixas e sólidas, e a população 

é  bastante  agitada.  "Bastante"  talvez  seja  exagero;  estando  acostumado  às  minhas  criaturas 

imóveis  e  silenciosas,  não  posso  deixar  de  me  surpreender  quando  entro  em  contato  outra  vez 

com seres humanos reais, vivos e inquietos — exatamente como eu, afinal. 

SECUNDO DIA

 

Estou  aguardando  ainda  a  chegada  do  grande  bloco  de  mármore  que  encomendei  em 



Páros. Apesar de ter tomado esta providência há mais de um mês, calculando que já estaria aqui 

quando eu chegasse, acho que caí outra vez na conversa dos transportadores. 

Ao  final  deste  dia  insuportavelmente  quente,  dei  uma  passada  no  porto  para  saber  da 

entrada  de  alguma  embarcação  proveniente  da  ilha.  Nada  havia,  o  que  me  fez  retornar  a  passo 

lento sob uma brisa fresca que soprava — felizmente! — vinda do mar. 

TERCEIRO DIA

 

Como  são  atrevidas  as  mulheres  desta  ilha...  Não  posso  deixar  de  me  surpreender  com 



seu comportamento vulgar; a maioria delas não hesita em se insinuar diante de qualquer homem, 

com propostas francas e ousadas. Não estou acostumado a isto e não posso deixar de achar que 

as mulheres perdem muito de sua graça quando são muito desinibidas. 

Tive a oportunidade de dizer isto, de maneira franca, a uma delas, que riu simplesmente 

na  minha  cara,  dizendo:  "Querido,  estamos  fartas  de  ouvir  falar  tanto  em  virtude.  Falemos  um 

pouco de prazer". 

Se  não  houvesse  impedido  seu  furor,  creio  que  ela  teria  ido  muito  mais  longe  nas  suas 

intenções; acho, porém, que fiz mal, pois em seguida ela me deu as costas, num desdém alegre 

que provocou o riso de todos — até dos homens, que parecem gostar deste tipo de mulher. Me 

abstive, no entanto, de revidar as suas chacotas. 

QUARTO DIA

 

Finalmente minha encomenda chegou! 



Pela manhã fui bem cedinho até o porto, com um forte pressentimento de que meu bloco 

de  mármore  estava  a  caminho.  Quando  cheguei,  indaguei  de  um  velho  se  estava  prevista  a 

chegada de alguma embarcação vinda de Páros. 

O velho, sem me olhar no rosto, apenas indicou com seu dedo recurvo o alto-mar. 




Lá ao longe pude identificar uma grande embarcação que avançava lentamente em nossa 

direção. Sem outro recurso, sentei-me sobre os degraus amplos do cais enquanto esperava. Uma 

chuvinha miúda começou a cair quando o navio encostou, bem à minha frente. 

A nau, de fato, era proveniente da ilha onde eu fizera minha aquisição; em instantes tive a 

satisfação  de  ver  descarregar,  envolto  por  uma  armação  de  tábuas,  o  meu  sólido  bloco  de 

mármore — tão puro que lembrava o mais fino marfim. 

Acompanhei  com  os  carregadores  o  traslado  da  pedra  até  minha  casa,  feliz  em  poder 

retomar minha atividade, pois já andava cansado de tanta ociosidade. 

Enfim, hoje mesmo comecei a trabalhar. 

QUINTO DIA

 

Passei o dia inteiro pensando no que faria de meu magnífico bloco de mármore. 



Vários temas me passaram pela mente, mas afinal terminei optando por fazer uma estátua 

de mulher — uma mulher de verdade, pensei, diferente de todas as que vejo na rua. 

Sem me dar conta de meu paradoxo, continuei decidido a moldar uma mulher tal como 

eu a prefiro: bela e discreta. Talvez, admito, também com uma pitada muito sutil de malícia, mas 

muito diferente da malícia óbvia e exaustiva que vejo por aqui. 

DÉCIMO DIA

 

A  obra  está  avançando  admiravelmente,  ainda  que  a  custo  de  muita  concentração. 



Durante cinco dias estive entregue à tarefa de dotar a minha estátua de um rosto superior a todos 

os outros. Não tenho tido tempo nem ânimo para desviar os olhos da minha obra. 

Mas, afinal, concluí hoje aquela que para mim é e será sempre a parte mais importante de 

uma mulher: o seu rosto. Consegui de tal modo colocar nele as particularidades das feições mais 

belas que conheci, que acabei esculpindo um que não se parece com nenhum outro jamais visto. 

Não sei exatamente como explicar; há nele um encanto que combina o ar sonhador oriental com 

o ar de ponderada reflexão das mulheres mais sábias da minha terra. 

Seu semblante, a princípio, parece meio severo, da testa até o nariz. Dali para baixo, no 

entanto,  resplandece  uma  alegria  —  comedida  e  mais  interior  —  que  está,  julgo,  perfeitamente 

representada  no  traçado  meticuloso  dos  seus  lindos  lábios,  que  não  são  cheios  nem  finos,  mas 

bem proporcionados. 

Seu  rosto  tem  uma  forma  ovalada,  e  seus  cabelos  compridos,  descidos  de  cada  lado  de 

suas feições, são uma moldura perfeita para ele. 

Não fosse o rosto de uma estátua, diria que estou apaixonado por ele. 

DÉCIMO PRIMEIRO DIA

 



Depois  de  dar  alguns  retoques  na  cabeça,  comecei  a  esculpir  hoje  o  pescoço  e  o  torso. 

Será  uma  tarefa  que  exigirá  muito  tempo,  pois esculpir  as  curvas  de  seus  ombros  e  modelar  os 

seus  seios  —  que  não  sei  ainda  que  formato  e  volume  exatos  terão  —  exigirá  de  mim  todo  o 

esforço e o talento de que eu for capaz. 

Enquanto esculpia, porém, tive como que uma súbita inspiração. Abandonando o martelo 

e o formão, exclamei de improviso: "Galatéia!". 

Depois repeti várias vezes este nome, e nenhum outro me pareceu mais adequado ao seu 

porte e sua fisionomia. 

DÉCIMO TERCEIRO DIA

 

Terminei de esculpir o busto. Preferi dar-lhe um volume intermediário entre o grande e o 



pequeno — talvez puxando um pouco para o grande. As duas estruturas estão inacreditavelmente 

sólidas e ao mesmo tempo parecem leves e soltas, de tal forma que parecem balançar toda vez 

que sacudo levemente o pedestal. 

Será  imaginação  minha  ou  seus  seios  balançam-se  mesmo  a  um  leve  toque  de  meus 

dedos?  Bem  ao  centro  de  cada  um  dos  montes  coloquei  duas  pequenas  saliências,  que 

acrescentaram ao conjunto um efeito magnífico. 

Como poderei, desse jeito, resistir por mais tempo aos seus encantos? 

VIGÉSIMO QUINTO DIA

 

Finalmente concluí minha adorada estátua! Seus pés ficaram perfeitos. Nunca vi joelhos 



mais  simétricos.  Sua  cintura  não  tem  uma  falha.  Suas  costas  têm  as  linhas  mais  harmônicas  do 

mundo.  Eu  a  fiz  inteiramente  nua,  mas  pretendo  logo  cobri-la  de  sedas.  Sim,  cobrirei  sua 

maravilhosa nudez de sedas e de jóias — as mais caras e belas que puder encontrar! 

E vou fazer isto agora mesmo. 

VIGÉSIMO SEXTO DIA

 

Comprei  dúzias  de  vestidos  para  minha  amada  Galatéia.  Comecei  por  cobri-la  com  um 



longo  vestido  azul,  da  cor  da  noite.  Deixei  apenas  a  descoberto  a  parte  frontal  do  peito,  num 

generoso decote. 

Passei o dia, assim, a observá-la e a imaginar, deliciado, o que este longo pano ocultará de 

meus olhos. Sim, bem sei que minhas mãos a esculpiram inteira, desde os dedos das mãos até o 

maior  dos  seus  segredos.  Mas  agora,  estranhamente,  é  como  se  jamais  a  tivesse  visto  de  outro 

jeito. Minha mão, porém, hesita em descobrir um milímetro sequer de seu corpo: tenho medo de 

que meus dedos queimem em contato com o ardente mármore de sua pele. 

Descartei de uma vez a hipótese de loucura. Minha Galatéia é perfeitamente real na sua 

esplêndida e vivida imobilidade. 



VIGÉSIMO SÉTIMO DIA

 

Hoje cometi algo que poderá parecer uma extravagância: removi minha querida Galatéia 



de  seu  pedestal  e  coloquei-a  deitada  no  meu  leito.  Tive  de  me  retirar  do  quarto  por  alguns 

instantes. Porém, quando retornei, levei um susto. 

"Quem é você e o que faz em meu leito?", lhe perguntei, tão viva ela me pareceu. 

Aproximando-me,  toquei  então  em  sua  mão.  De  seus  dedos  senti  emanar  um  calor 

vivido, como se fosse proveniente dos dedos de uma mulher de verdade. 

Não tive coragem de tirá-la do seu descanso e fui dormir no chão a alguns passos dela. 

(Fiquei imaginando o que diriam de mim as pessoas daqui, se vissem esta estranha cena. ) 

Azar. Eu amo a minha Galatéia — e para mim ela está cada vez mais viva. 

VIGÉSIMO OITAVO DIA

 

Beijei hoje, pela primeira vez, os lábios de Galatéia. Não, eles não são de carne. Quem me 



dera, entretanto, poder torná-los reais, úmidos e quentes, como os de qualquer outra mulher. 

Ou, antes, como os de nenhuma outra mulher. 

VIGÉSIMO NONO DIA

 

Começaram hoje as festividades em honra de Vênus. Estive em sua procissão e não pude 



deixar de me maravilhar com a devoção do povo, que acorreu em massa para reverenciar a mais 

bela  das  deusas.  Durante  o  culto,  enquanto  se  faziam  os  sacrifícios,  uma  idéia  me  passou  pela 

cabeça, mas a descartei por me parecer absurda demais. 

Galatéia,  eu  a  quero  viva  —  viva  de  verdade!  Depois  deste  dia  não  posse  querer  outra 

coisa. Minha cabeça está em febre. Meus sentidos estão excitados. 

Acho melhor explicar. Cheguei em casa hoje, quando o sol já surgia no oriente com seu 

primeiro  brilho.  Durante  a  noite  inteira  estive aproveitando  as  festividades  de  Vênus.  Tão  logo 

havia  me  passado  pela  cabeça  a  idéia  —  que  tachei  anteriormente  de  absurda  —  de  fazer  um 

pedido à deusa, vi-me envolvido por um cortejo das mais belas mulheres de Chipre. Sentindo ao 

meu lado tantos corpos vivos e femininos roçarem suas peles sobre a minha, fui tomado por um 

desejo natural de me unir a qualquer uma delas. 

"Uma mulher de verdade, é disso que eu preciso para me libertar dessa obsessão!", pensei. 

Tão  logo  cheguei  em  casa,  no  entanto,  fui  punido  por  Galatéia,  que  hoje,  mais  do  que 

nunca, me pareceu irremediavelmente de pedra! Seu rosto estava perfeitamente impassível e seus 

lábios não responderam ao contato dos meus. 

A estátua — tenho a certeza — estava enciumada, terrivelmente enciumada. 

"Mas o que posso fazer, minha querida Galatéia...?", eu disse, tentando me desculpar. 

Seu olhar recusava-se a fixar o meu, mesmo quando a olhava firmemente nos olhos. 




Tomado  pelo  remorso,  abracei-me,  de  joelhos,  à  sua  cintura.  "Nenhuma  outra  mulher 

poderá jamais chegar a seus pés!", gritei-lhe, cobrindo-a de beijos. 

Depois, mais calmo, resolvi pôr em prática o meu plano. 

Esta noite irei ao templo de Vênus novamente. 

TRIGÉSIMO DIA

 

Fiz  meu  pedido  à  deusa.  Enquanto  as  pessoas  faziam  suas  preces  e  queimavam  seus 



incensos,  empreguei  todo  o  meu  fervor  em  pedir  que  desse  alma  a  Galatéia.  Quem  melhor  do 

que Vênus, a deusa do amor, para entender o meu desejo secreto? 

Estou  escrevendo  isto  num  quarto  de  estalagem,  onde  passo  a  noite.  Tenho  medo  — 

muito medo! — de chegar em casa e ver que meu pedido não foi atendido. 

TRIGÉSIMO PRIMEIRO DIA

 

O  dia  inteiro  vaguei  pelas  ruas  até  que,  quando a  noite  já caíra,  tomei  coragem  e  decidi 



enfrentar  meu  destino.  Atravessei  o  caminho  margeado  de  árvores  que  levava  até  minha  casa. 

Fiquei em pé, parado diante da porta, um longo tempo, até que, tomando coragem, entrei, afinal. 

A casa estava às escuras. Meu primeiro olhar foi direto para o pedestal. 

Nada havia em cima dele! 

Todas  as  hipóteses  passaram  como  num  turbilhão  em  minha  mente,  e  a  pior  delas  foi 

esta, que expressei audivelmente: 

"Galatéia foi arrebatada de mim!" 

Como  um  louco  percorri  todos  os  aposentos  da  casa,  sem  me  lembrar,  no  entanto, 

daquele que era o único, além da sala, onde ela havia estado: o quarto! 

Implorando a Vênus que a encontrasse — ainda que sob a forma de estátua —, rumei em 

passos vacilantes para lá. Ao entreabrir a porta, tive a maior sensação de alívio que um homem 

poderia sentir. 

Deitada em meu leito, lá estava ela! 

Coberta  por  um  fino  lençol,  pude  ver,  na  obscuridade  do  quarto,  seus  cabelos  caídos 

sobre os olhos. Certamente eu a havia deixado assim, como fizera outras tantas vezes. Esquecido 

já até do pedido, ajoelhei-me aos pés da cama. Galatéia estava imóvel, como sempre estivera. 

Feliz por ter ao menos sua imagem para sempre ao meu lado, colei meus lábios aos dela 

com fervor e paixão. Senti um calor emanar de sua boca, mas deixei por conta de meu desvario. 

No  entanto,  ao  descolar  minha  boca  da  dela,  percebi  que  a  parte  inferior  do  lábio  ficara 

momentaneamente grudada ao meu, como ocorre com os beijos entre seres de carne e osso. 

"Não  pode  ser...!",  pensei.  Em  seguida,  com  o  coração  galopando  em  terrível 

descompasso puxei a coberta que estava erguida até o seu peito. 




Enquanto  retirava  a  coberta,  toquei  involuntariamente  no  seu  braço,  que  se  afundou 

suavemente ao contato de meu dedo, retomando em seguida à aparência normal. Sua pele nem de 

longe lembrava a frieza do mármore. 

Galatéia estava viva! Sim, não podia mais haver dúvida alguma. 

Tomando  sua  cabeça  em  minhas  mãos,  despertei-a,  talvez  abruptamente  demais.  Seus 

olhos  —  como  não  pude  perceber  que  estavam  até  então  cerrados,  se  nunca  antes  assim 

estiveram? — abriram-se lentamente, mostrando um brilho meio assustado. 

Pela primeira vez, seus olhos olharam verdadeiramente para os meus, sussurrando o meu 

nome. 

CUPIDO E PSIQUE



 

—  Aonde  vai  esta  gente  toda?  —  perguntou  alguém,  ao  ver  uma  verdadeira  massa 

humana dirigir-se, apressada, ao palácio do rei. 

— O senhor é de fora? — disse o outro. 

— Sim. 

— Logo vi. Vão todos fazer o que fazem todos os dias: admirar a beleza da filha do rei. 

Juntando-se ao cortejo, o curioso forasteiro foi conferir essa beleza tão disputada. 

Na verdade eram três belezas, pois eram três as filhas do soberano. 

As duas primeiras eram inegavelmente belas. Mas quando a terceira apareceu, a beleza das 

outras duas ficou completamente esmaecida. 

Psique  era  seu  nome.  Criara-se  tamanho  fascínio  diante  de  sua  beleza  que  já  estava  se 

formando  um  culto  em  sua  homenagem.  Alguns  exageravam,  dizendo  que  ela  seria  a  própria 

Vênus, que decidira viver entre os homens. 

Mas ao mesmo tempo em que se homenageava a deusa, comparando a beleza de Psique à 

sua, deixavam-se abandonados os seus templos. 

Essa afronta, naturalmente, chegou ao conhecimento de Vênus, que decidiu vingar-se de 

alguma maneira daquela mortal. 

— Cupido, preciso de sua ajuda! — disse ela um dia ao filho. 

— Pois não, minha mãe — disse o arqueiro divino. 

—  Quero  que  você  fira  esta  mortal  com  uma  de  suas  setas.  Quero  que  Psique  seja 

destinada ao ser mais monstruoso que possa existir, de tal sorte que sua infelicidade exceda à da 

mulher mais desgraçada do mundo. 

Cupido, sempre obediente, partiu para cumprir sua missão. 

Ao cair da noite o jovem entrou no quarto onde a jovem Psique dormia e apontou para 

ela um de seus dardos mais afiados, depois de embebê-lo no filtro do amor. 



Quando Cupido já tinha a seta apontada para o peito da jovem, foi surpreendido por um 

gesto  abrupto  dela.  Ao  afastar  os  cabelos  do  rosto,  a  jovem  involuntariamente  esbarrou  com  a 

mão no braço de Cupido, que acabou ferindo-se levemente com sua própria seta. 

Psique abriu os olhos, mas nada enxergou, pois o deus do amor estava invisível. Sentindo-

se  confuso,  Cupido  retirou-se,  impossibilitado  de  desejar  o  mal  para  uma  jovem  tão 

encantadoramente bela. 

Vênus,  porém,  conseguira  fazer  com  que  parte  de  seus  objetivos  fossem  alcançados. 

Nenhum pretendente se apresentou para desposar a mais bela das filhas do rei. As outras duas, 

embora menos disputadas, já haviam arrumados esposos. 

—  Cadê  o  príncipe  encantado  de  nossa  querida  Psique?  —  diziam  as  duas,  em  tom  de 

ironia, e loucas de inveja da bela irmã. 

O rei, finalmente preocupado diante do inexplicável desprezo que se abatera sobre a sua 

filha predileta, decidiu consultar o oráculo do deus Apolo para saber das razões. 

—  Sua  filha  não  casará  com  um  mortal  —  disse  o  deus  -,  mas  com  um  ser  alado  e 

perverso, que se compraz em ferir os homens e os próprios deuses. 

Depois acrescentou que Psique deveria ser abandonada num rochedo, para que esse ser 

monstruoso viesse levá-la para o seu palácio. 

O rei ficou inconsolável com esse prognóstico sombrio. Durante vários dias lutou contra 

a idéia de abandonar a amada filha a este ser monstruoso, mas por fim teve de ceder à vontade 

dos deuses. O casamento fúnebre teve sua data marcada. Após muito pranto, a jovem foi levada 

em seus trajes nupciais até o alto do rochedo, onde foi abandonada à própria sorte, pois assim 

determinara o oráculo. 

Aos poucos os archotes que haviam sido acesos foram se apagando um a um, enquanto a 

noite descia, escurecendo tudo ao redor da pobre vítima. Psique, apreensiva, aguardava apenas o 

momento de ser sacrificada — pois tinha a certeza de que era este o seu destino. 

O tempo foi passando sem que nada acontecesse, até que Psique acabou adormecendo. 

Nesse  instante,  os  zéfiros  —  os  ventos  suaves  que  sopram,  vindos  do  oeste  —  surgiram  em 

bando  e  raptaram  a  jovem,  que  ainda  estava  adormecida  no  alto  do  rochedo.  Ela,  semi-

adormecida, sentia o vento agitar suas vestes e as nuvens umedecerem o seu rosto enquanto era 

carregada. Aos poucos os zéfiros foram descendo com sua delicada carga, até que a depositaram 

sobre um vale coberto de flores, próximo a uma fonte de águas claras e abundantes. 

Quando  Psique  despertou,  a  primeira  coisa  que  seus  olhos  viram  foi  um  castelo  que 

parecia saído de um sonho. A porta estava aberta, parecendo que lá dentro ela já era aguardada. 



Uma brisa mansa às suas costas a impeliu para diante. Dentro de um salão majestoso, recoberto 

de mármores e de pedrarias, Psique descobriu-se em absoluta solidão. 

— Há alguém aqui? — disse a moça, cuja voz ecoou pelas colunas de ouro. perdendo-se 

nos corredores amplos e vazios. 

Psique  subiu  lentamente  pelos  degraus  de  uma  imensa  escadaria  de  pórfiro.  cujos 

corrimões eram do mais puro e esverdeado jade. Depois percorreu várias salas, repletas das mais 

belas  estátuas  que  seus  olhos  já  haviam  contemplado.  Todas,  sem  exceção,  representavam 

amantes nus, cujos braços enlaçavam c corpos dos seus seres amados. Cada sala revelou-se mais 

bela do que a outra, até que a jovem, finalmente, chegou a um quarto espaçoso, iluminado pela 

luz  alegre  de  uma  imponente  lareira.  Um  leito  perfeitamente  arrumado  estava  no  centro  do 

quarto, enquanto uma refrescante brisa agitava as finíssimas cortinas rendadas das janelas. 

Neste instante uma voz delicada soou em seus ouvidos, provocando-lhe um ligeiro susto: 

— Jovem soberana, de hoje em diante este palácio é seu. Aqui estou para servir ao menor 

dos seus desejos. 

Na parte interior do aposento havia um quarto de banho. Psique adentrou-o e percebeu, 

maravilhada, que uma banheira de mármore cheia de espuma parecia aguardá-la. 

— Permita que a ajude a se despir — disse a mesma voz invisível. Psique sentiu que sua 

pequena túnica deslizava por sua pele, retirada por 

uma  delicada  mão  invisível.  Logo  a  jovem  estava  mergulhada  na  água  refrescante, 

sentindo que mãos invisíveis ensaboavam seu corpo. 

A  seguir  Psique  desceu  ao  salão  principal,  onde  a  esperava  um  banquete  digno  de  uma 

rainha. Mais tarde ela recolheu-se definitivamente ao seu quarto, embora sempre sozinha. 

— Quem é você e por que nunca aparece? — disse a jovem.  

A voz, no entanto, não respondia a nenhuma de suas perguntas. 

Ainda  exausta  dos  acontecimentos,  a  jovem  deitou-se  em  seu  magnífico  leito  e 

adormeceu.  Cupido,  tão  logo  teve  a  certeza  de  que  sua  amada  dormia,  aproximou-se 

discretamente  e  deitou-se  a  seu  lado.  Ficou  longo tempo  observando  suas  feições.  Depois,  deu 

um beijo na boca da jovem, que despertou, assustada. 

— Quem está aqui? — disse ela ao sentir os braços dele estreitando seu peito. 

— Não se assuste, meu amor! — disse o jovem, cobrindo-a de ardentes carícias. Durante 

a  noite  inteira,  os  dois  entregaram-se  ao  amor.  Psique,  sem  nunca  poder  ver  as  formas  de  seu 

amado, procurava enxergar com as mãos, deslizando seus dedos pelo rosto e pelo corpo inteiro 

daquele homem, que fazia o mesmo, só com a diferença de que podia vê-la perfeitamente. Mas 

Cupido o fazia com tal ardor que o cego parecia ele. 




Até que ao amanhecer ambos adormeceram unidos num mesmo abraço. 

Os dias se passaram sem que o futuro esposo de Psique se manifestasse de forma visível, 

embora  continuasse  a  visitá-la  todas  as  noites,  não deixando  nunca  de  satisfazê-la.  A jovem  foi 

aos poucos se familiarizando com todo o esplendor do castelo e, passada a novidade, começou a 

sentir falta da presença física de alguém. 

—  Meu  marido,  por  que  não  vem  me  fazer  companhia?  —  clamava  ela,  desesperada, 

pelos corredores vazios do imenso palácio. — Como posso amar um ser invisível? 

— Minha visão lhe seria funesta, adorada Psique. Eu poderia feri-la e provocar em você 

sofrimentos como nunca antes talvez tenha experimentado. 

—  Tenho  saudades  também  de  meus  pais  e  de  minhas  irmãs  —  disse  a  jovem.  — 

Gostaria imensamente de poder revê-los... 

Cupido, sempre invisível, prometeu pensar no pedido, enquanto deixava Psique entregue 

outra vez à sua cruel solidão. 

Na mesma noite, o amante invisível retornou com uma boa notícia: 

— Psique, estou disposto a permitir que suas irmãs venham visitá-la. Radiante de alegria, 

ela abraçou o vazio. 

— Obrigada, meu querido esposo! 

Cupido, porém, temeroso de perder sua adorada Psique, acrescentou: 

—  Tome,  entretanto,  muito  cuidado  com  suas  irmãs.  Elas  certamente  ficarão  tomadas 

pela inveja quando virem que você é senhora deste magnífico palácio e de todas as riquezas que 

ele contém. 

Os  zéfiros,  instruídos  por  Cupido,  trouxeram,  assim,  as  irmãs  de  Psique,  ia  mesma 

maneira que haviam trazido a jovem. 

Ainda sob o impacto daquela viagem surpreendente, as duas irmãs adentraram o palácio, 

conduzidas pelas mãos de Psique. 

—  Isto  tudo  é  seu?  —  disse  uma  delas,  sem  conseguir  conter  a  inveja. Embora  vivesse 

também num palácio, o seu não era, no entanto, nem a sombra deste que tinha agora diante dos 

olhos. 


Um rancor surdo agitava também a alma da outra irmã. 

— E seu maravilhoso esposo, onde está? — quis saber a outra, na esperança de que fosse 

mesmo um ser horroroso, tal como predissera o oráculo de Apolo. 

Psique foi obrigada a confessar que jamais pusera os olhos nele, nem em qualquer pessoa 

viva desde que pusera os pés naquele lugar encantado. 



— Logo vi! — disse a primeira das irmãs, em triunfo. — Deve ser tão monstruoso que 

não tem coragem de aparecer abertamente. 

— Psique, se o seu marido é um monstro — concluiu a outra, radiante -. cedo ou tarde 

irá matá-la. 

A  jovem,  atordoada  por  aqueles  sombrios  prognósticos,  encheu-se  de  medo  de  seu 

enigmático esposo. Uma das irmãs correu até a cozinha e ao voltar lhe estendeu uma faca afiada, 

ordenando: 

— Você deve matá-lo. 

— Matá-lo? — indagou Psique, atônita. 

— Mate-o, antes que ele a mate — disse a invejosa. — Hoje à noite, preste atenção, você 

fará o seguinte: assim que deitar, esteja atenta para quando ele vier unir-se a você. Tão logo sinta 

que ele adormece, levante-se e, tomando de uma lâmpada, ilumine a sua figura, a fim de ver quem 

é verdadeiramente o seu marido. 

— Esteja, porém, nesse instante, com a faca na mão — disse a segunda irmã. cujos olhos 

faiscavam. — Assim que perceber que tem um monstro odioso a seu lado, trespasse seu coração 

com a lâmina, sem pensar duas vezes. 

Psique, julgando que o conselho era ditado pela amizade, resolveu finalmente decifrar o 

mistério. 

— Está bem, farei exatamente como dizem — disse a jovem. 

Naquela mesma noite, Psique pôs em execução o seu plano. Tão logo percebeu que seu 

marido entregara-se ao sono, levantou-se e, tomando da lâmpada, dirigiu sua luz em direção ao 

rosto do esposo. Uma exclamação malcontida de espanto escapou dos lábios da jovem quando 

divisou o rosto de Cupido. Tinha diante de si o mais belo rosto que seus olhos já tinham visto. 

— Por Júpiter, como é belo! — exclamou extasiada. 

Porém,  ao  inclinar-se  para  ver  melhor  as  feições  de  seu  amado  esposo.  Psique  inclinou 

demais  a  lâmpada,  o  que  fez  com  que  uma  gota  do  azeite  caísse  sobre  o  ombro  dele.  Cupido, 

abrindo os olhos, enxergou a jovem, que empunhava numa das mãos a candeia e na outra a adaga 

afiada. 


Pondo-se em pé, Cupido exclamou: 

— Então é isto! Você preferiu seguir os conselhos maldosos de suas pérfidas irmãs, em 

vez de confiar em minhas palavras! 

— Não, não, jamais pretendi fazer-lhe mal algum — disse Psique, lançando fora a adaga. 

Mas Cupido já havia deixado o quarto, voando pela janela. 



Psique  caiu  desconsolada  na  cama.  Quando  ergueu  a  cabeça,  percebes.  estarrecida  que 

estava deitada sobre a grama verde dos campos. Ao seu redor não havia nem sinal mais do seu 

maravilhoso castelo. 

— O que foi feito de meu palácio? — exclamou Psique, sem nada entender. Relanceando 

o olhar ao redor, percebeu que estava a poucos metros da casa de suas irmãs. 

Psique correu para lá, para buscar alguma explicação. Depois de ser recebida com espanto 

por elas, contou toda a sua terrível história. 

— Oh, que pena... — disse uma das irmãs, fingindo pesar. 

— Aí está o preço da ingratidão — disse a segunda, fingindo revolta. — Deveria ter sido 

mais generosa, depois de tudo o que ele fez por você. 

No mesmo dia as duas decidiram voltar ao local onde haviam sido raptadas pelos zéfiros, 

na esperança de que estes as conduzissem de volta para o palácio de Cupido. 

—  Quem  sabe  uma  de  nós  não  será  a  escolhida  para  substituir  nossa  ingrata  irmã?  — 

disse uma delas, cheia de esperanças. 

Deitaram-se  ambas  sobre  a  relva  e  aguardaram  que  os  zéfiros  surgissem  novamente. 

Durante  muito  tempo  estiveram  ali  deitadas  sem  que  soprasse  a  menor  brisa.  Um  calor 

insuportável descia do céu, fazendo-as quase perder os sentidos de tanto calor. 

—    Então,  idiotas,  vêm  ou  não  nos  carregar  outra  vez?  —  bradou  a  mais  colérica  das 

duas, no alto da montanha. 

Em resposta, sentiram as duas uma forte brisa soprar em seus rostos. 

— Vamos, mana, os zéfiros já estão aqui pra nos levar até o palácio encantado! Dando as 

mãos,  as  duas  lançaram-se  no  espaço,  certas  de  que  seriam  imediatamente  seguras  pelas 

vaporosas  mãos  dos  suaves  ventos.  Seus  pés,  no  entanto,  pedalaram  no  vazio,  sem  que  braço 

algum impedisse a queda violenta de seus corpos. Com um grito de pavor, as duas mergulharam, 

despedaçando-se no abismo. 

Enquanto  isso,  Psique,  desesperada,  decidiu  ir  falar  pessoalmente  com  Vênus,  uma  vez 

que já sabia que era mãe de Cupido. 

— Veio ver se terminou de matar o meu filho? — disse a deusa, com raiva. 

— Perdão, jamais tive a intenção de machucar o seu filho — disse Psique. Vênus, sem se 

deixar  comover  pelas  palavras  da  jovem,  decidiu  mantê-la  sob  seus  serviços,  maltratando-a  e 

impondo-lhe serviços e obrigações acima de suas forças. Mas a jovem suportava tudo com ânimo 

forte, disposta a ir até o fim apenas para reaver o esposo. Vênus, vendo que Psique era resistente, 

decidiu impor-lhe uma tarefa além de suas forças: 



— Quero que você vá aos infernos pedir a Prosérpina que me envie uma caixa de beleza, 

pois perdi um pouco da minha ao cuidar de meu filho doente. 

Psique,  sem  saber  como  fazer  para  chegar  até  o  reino  de  Plutão,  entregou-se  ao 

desespero. Chegou a pensar em desistir até da própria vida, quando uma voz invisível lhe disse: 

— Faça como vou lhe dizer e conseguirá chegar até onde mora Prosérpina. 

A  mesma  voz  prosseguiu  a  lhe  falar,  indicando  o  melhor  meio  para  alcançar  o  Hades 

sombrio.  Psique  escutou  tudo  com  grande  atenção  e  partiu  logo  em  seguida  para  cumprir  sua 

missão. 


Andou por vários dias até alcançar uma gruta, no interior da qual descortinou uma fenda 

que conduzia ao reino de Plutão. Munida somente de sua coragem, Psique penetrou nos escuros 

labirintos da morada dos mortos. Depois de convencer o barqueiro Caronte a levá-la para a outra 

margem do rio, passou incólume por Cérbero, temível cão de três cabeças que guarda a entrada 

do inferno. 

Adiantando-se, chegou finalmente diante de Prosérpina e fez o que Vênus lhe ordenara. 

Após  ter  recebido  das  mãos  da  rainha  infernal  a  caixa  mágica,  Psique  preparou-se  para 

retornar para o seu mundo. 

Após  retornar  para  a  luz  do  dia  —  que  contemplou  com  infinito  alívio  -.  Psique 

preparava-se para levar o precioso objeto para a deusa do Amor. 

—    O  que  haverá,  afinal,  aqui  dentro?  —  disse  Psique,  embora  lembrasse  bem  da 

recomendação que a voz lhe fizera para que não abrisse a caixa. 

Porém,  ao  abri-la,  Psique  foi  envolvida  por  uma  nuvem  mortal  —  a  nuvem  do  sono 

eterno, que a prostrou sobre o solo, como morta. 

Cupido, que não agüentava mais de saudades de sua adorada esposa, resolveu sair à sua 

procura, aproveitando-se de um descuido da vigilante mãe. O jovem voou de um lado para outro 

até que encontrou Psique, caída no chão. desacordada. 

— Eu sabia, sua curiosidade estragou tudo outra vez! — exclamou Cupido que fora a voz 

que a advertira para não abrir a caixa misteriosa. 

Cupido, no entanto, conseguiu retirar do corpo de Psique o sono mortal e devolvê-lo para 

dentro da caixa. Psique, aos poucos, foi reabrindo os olhos. : que percebeu estar nos braços de 

seu amor. 

— Psique, leve a caixa para Vênus, mas, pelo amor que me tem, não a abri outra vez! — 

disse Cupido. — Enquanto isto vou falar com Júpiter para que convença minha mãe a aceitá-la 

como minha esposa. 



Cupido, alçando um vôo rápido, foi cumprir o que dissera. Tanto implorou ao deus dos 

deuses, que este decidiu interceder a favor de ambos diante de Vênus 

Psique foi chamada, então, à presença dos deuses e recebeu das mãos do próprio Júpiter 

uma taça contendo o néctar da imortalidade. 

— A partir de agora você será uma deusa, também — disse ele, estendendo a taça. 

Enquanto  Psique  bebia  o  néctar,  uma  linda  borboleta  pousou  sobre  sua  cabeça.  Ela  e 

Cupido uniram-se, assim, num amor feliz e eterno. 

TESEU E O MINOTAURO

 

Nada  demonstra  melhor  o  caráter  guerreiro  e  valente  de  Teseu  —  um  dos  heróis  mais 



famosos da Grécia — do que um curioso episódio da sua infância. 

Estava um dia o pequeno Teseu em casa de seu avô quando o velho recebeu a visita de 

ninguém menos do que Hércules — o maior de todos os heróis. 

Junto com seus amigos, Teseu correu a espiar, sem conseguir acreditar que estava sob o 

mesmo teto que aquela lenda viva. Hércules, antes de sentar-se, tirou sua pele de leão de sobre os 

ombros, para estar mais à vontade, e lançou-a para o mesmo canto onde estavam aglomeradas as 

crianças. 

Nem  bem  a  pesada  pele caíra  ao chão,  todos  os  meninos  puseram-se  a  correr,  gritando 

por suas mães, pois na sua inocência julgavam estar na presença de um leão verdadeiro. Apenas o 

pequeno Teseu permaneceu firme, encarando a fera. Depois também deu as costas, mas em vez 

de fugir, correu para a cozinha e voltou de lá com um machado que arrebatara das mãos de um 

escravo e caiu sobre a pele, como se estivesse enfrentando um leão de verdade. 

A  partir  de  então  Teseu  cresceu,  tornando-se  cada  vez  mais  famoso  devido  às  suas 

façanhas. Duas delas merecem destaque, pelo curioso das aventuras. 

Na primeira delas, Teseu enfrentou um temível bandido das estradas, chamado Sínis. 

Este  vilão  aterrorizava  todo  o  istmo  de  Corinto,  impondo  às  suas  vítimas  uma  cruel 

tortura. Após curvar duas árvores paralelas, amarrava a elas os braços e pernas dos prisioneiros. 

Em seguida soltava os troncos, fazendo com que as árvores retornassem à sua postura normal, 

despedaçando, assim, os infelizes. 

Teseu enfrentou-o e depois de derrotá-lo fez o bandido provar do próprio veneno, e ele 

morreu despedaçado. 

Na outra aventura, Teseu defrontou-se com um maníaco, chamado Procusto. 

Este bandido passava a maior parte do dia escondido numa caverna, como uma aranha na 

sua toca. Tão logo escutava os passos de alguém que se aproximava. Procusto apoderava-se da 

vítima e a levava de rastos para dentro da cova. Amarrando, então, o desgraçado sobre o leito, 



ficava  ao  seu  lado,  a  estudar  se  as  rnedidas  do  corpo  eram  exatamente  as  mesmas  do  leito.  Se 

sobravam pedaços do corpo para fora da cama, Procusto, munido de uma longa faca, cortava-os 

com meticulosa precisão, até tornar compatíveis os dois. Se, no entanto, o corpo era demasiado 

pequeno, o bandido o amarrava e espichava até ficar do tamanho ideal. 

Teseu também liquidou com Procusto, embora a lenda não especifique como o fez. 

Mas o grande feito, aquele que imortalizou definitivamente o herói, foi a terrível batalha 

que travou contra o Minotauro — um monstro terrível, que tinha ronco e cabeça de touro e o 

restante do corpo sob a forma humana. 

Os atenienses estavam naquela época sob o jugo de Minos, o cruel rei de Tebas. 

Este  rei  decidira  cobrar  um  tributo  anual  aos  habitantes  de  Atenas:  numa  determinada 

época do ano deveriam ser entregues a ele sete rapazes e sete donzelas, para serem lançados vivos 

no temível labirinto que Minos fizera construir em seu reino pelo inventor Dédalo, pai do infeliz 

Ícaro das asas de cera. Dentro deste labirinto vivia o Minotauro, monstro insaciável que se nutria 

de carne humana. 

Quando Teseu soube que as novas vítimas já haviam sido escolhidas e estavam para ser 

embarcadas para Creta, procurou seu pai, rei dos atenienses, e disse: 

— Permita, meu pai, que eu tome o lugar destes infelizes! 

O rei, espantado com a coragem do filho, a princípio relutou. 

—  Não.  Como  poderia  mandar  meu  próprio  filho  e  sucessor  para  a  morte?  Teseu,  no 

entanto, firmou pé em sua decisão: 

—  Por  que  recusa  minha  oferta,  se  em  vez  de  quatorze  vítimas  terá  de  oferecer  ao 

monstro apenas uma? 

Os  dois  discutiram  longamente  sobre  o  assunto,  mas  a  teimosia  de  Teseu  acabou 

prevalecendo sobre a vontade do pai. Assim, no mesmo dia, Teseu embarcou num navio de velas 

negras. 

—  Prometo,  papai,  caso  derrote  a  fera,  retornar  com  as  velas  brancas  -disse  o  jovem, 

enquanto o navio ganhava o alto-mar. 

Depois de navegar por vários dias, a embarcação finalmente atracou nas terras de Minos. 

O  rei  de  Tebas,  furioso  ao  perceber  que  somente  lhe  haviam  mandado  uma  vítima, 

exclamou: 

— Como ousam desobedecer às minhas ordens? Eu exigi sete moças e sete rapazes, e me 

mandam apenas um. 

Ariadne, a bela filha do rei, assistia a tudo, sem poder esconder, no entanto, o seu fascínio 

pelo jovem e ousado aventureiro. 




— Poderoso Minos, talvez não esteja lembrado de mim, mas eu sou Teseu, filho do rei de 

Atenas,  e  venho  oferecer  minha  vida  em  lugar  da  deles  —  disse  o  herói.  —  O  senhor  dispõe 

agora da vida do filho de um rei. Isto não lhe basta? 

Minos acabou aceitando a troca, enquanto Ariadne tornava-se cada vez mais apreensiva. 

—  Amanhã  você  será  lançado  dentro  do  labirinto  —  disse  o  rei,  com  um  sorriso  de 

escárnio. — Veremos se terá a mesma disposição. 

Durante  a  noite,  Teseu  esteve  prisioneiro  na  torre  do  palácio  de  Minos.  Estava 

fortemente vigiado, mas isto não impediu que Ariadne o procurasse. 

— Teseu, estou admirada de sua coragem! — disse a bela jovem. O herói a encarou com 

surpresa: 

— O que quer aqui? 

Olhando  para  os  lados  a  fim  de  ver  se  não  era  observada  por  algum  dos  carcereiros, 

Ariadne abriu uma brecha na parte superior do vestido e dela retirou algo que estendeu às mãos 

de Teseu. 

— O que é isto? — perguntou ele, tomando o objeto. 

— É um novelo de lã, não está vendo? — disse ela, em voz baixa. 

— Mas para que me servirá? 

—  Amanhã,  quando  você  for  lançado  ao  labirinto,  leve-o  junto.  À  medida  que  for 

penetrando no labirinto, vá soltando o fio pelo chão, a fim de marcar o caminho para a volta. De 

outro jeito, você jamais poderá retornar. 

Ariadne já ia se retirando quando Teseu tomou uma de suas mãos e a beijou. 

Mal  o  dia  amanheceu  e  Teseu  foi  conduzido  pelos  guardas  até  a  entrada  do  famoso 

labirinto. 

— Eis o Labirinto de Creta, do qual humano algum jamais retornou! — disse o rei Minos, 

com orgulho, procurando assustar a vítima. 

Uma sólida porta de bronze girou em seus gonzos e Teseu foi lançado para dentro. 

—  O  rei  dos  atenienses  não  poderá  dizer  que  fui  injusto  com  seu  filho  -disse  Minos, 

jogando  para  dentro  do  labirinto  uma  pequena  adaga  e  um  escudo.  —  Fechem  a  porta!  — 

ordenou em seguida, enquanto Ariadne lançava um último olhar para seu amado. 

Um estrondo anunciou que agora o herói estava inteiramente à mercê do seu adversário, 

dentro  do  labirinto.  Teseu,  procurando  familiarizar-se  com  o  local  relanceou  a  vista  ao  redor. 

Imensas paredes de mármore erguiam-se até onde a vista podia alcançar. Passando os dedos pela 

parede,  descobriu  que  seria  impossível  tentar  escalá-las:  completamente  lisas,  não  possuíam  a 

menor fenda onde pudesse apoiar os pés. 




Pé  ante  pé  o  jovem  começou  a  avançar,  após  haver  recolhido  sua  adaga  e seu  pequeno 

escudo. O chão recoberto de saibro fazia um ruído pouco agradável, que poderia denunciá-lo a 

todo  momento  à  fera  que  o  devia  estar  aguardando  em  algum  canto.  Ou,  mesmo,  espionando. 

"Estou  em  seu  território,  preciso  tomar  muito  cuidado!",  pensou  Teseu,  enquanto  dava  os 

primeiros passos. 

Nesse instante, lembrou-se do presente que a bela Ariadne lhe dera na noite anterior. 

— O novelo! — exclamou, sem poder conter a satisfação. 

Puxando  do  bolso  da  túnica  o  precioso  objeto,  começou  a  desfiar  o  resistente  fio, 

enquanto avançava cautelosamente. Nem bem havia transposto a primeira esquina do labirinto, 

percebeu que tinha à frente de si pelo menos dez outras entradas — que podiam ser também dez 

saídas. 

Todas eram exatamente iguais, embora cada qual apontasse para um único. 

Tomando  a  entrada  da  direita,  o  jovem  avançou,  cada  vez  mais  decidido.  "De  que  me 

adianta  ficar  escolhendo?",  pensou,  enquanto  ia  deixando  atrás  de  si  o  fio  precioso.  Ao  virar 

numa  das  tantas  esquinas  que  já  havia  ultrapassado,  Teseu  teve  uma  desagradável  surpresa: 

algumas  manchas  vermelhas  tingiam  as  paredes  brancas.  Uma  delas  desenhava  nitidamente  a 

forma  de  uma  mão  humana,  que  escorria  para  baixo  num  borrão  indistinto,  como  se  tivesse 

deslizado  os  dedos em  toda  a  sua  extensão.  "Ele matou  aqui alguma  de  suas  vítimas!",  pensou, 

tornando-se mais precavido. 

Logo ao virar noutra curva viu os pedaços apodrecidos do corpo daquele que deveria ter 

morrido  às  mãos  do  cruel  Minotauro.  Bem  ao  canto  estava  o  pedaço  de  um  crânio,  ainda 

recoberto  por  uma  pequena  cobertura  de  carne.  O  sorriso  branco  da  caveira  luzia,  ainda,  por 

entre os seus restos mortais. 

Assim, Teseu foi encontrando sinais da fúria da criatura, metade humana e metade fera, 

que estava à solta por ali, apenas no aguardo de sua próxima refeição. De repente, porém, Teseu 

sentiu, apesar da espessura das paredes, que alguém se chocara involuntariamente contra o outro 

lado  da  parede.  "O  desgraçado  está  seguindo  meus  passos!",  pensou  Teseu,  empunhando  com 

mais vigor a adaga. 

Teseu  fez  a  volta  e  passou  por  uma  entrada  lateral.  Quando  seus  olhos  enquadraram  o 

novo corredor, viu ao fundo dele uma mancha escura desaparecer. 

— Ei, covarde, volte aqui e me enfrente! — bradou o herói, perdendo a paciência. 

Um ruído hediondo, misto de mugido e de grito, ressoou por todo o labirinto. Teseu, não 

importando com o perigo, saiu no encalço da fera, sem nunca esquecer de ir largando o seu fio. 

Andou  em  círculos,  até  que  sentiu  uma  pressão  no  novelo,  já  diminuto.  Voltando-se  para  trás, 




Teseu  puxou  um  pouco  o  fio  e  sentiu-o  leve  demais.  Puxou  de  novo  somente  para  ter  uma 

desagradável surpresa:"0 desgraçado rompeu o meu fio!", deu-se conta. Voltando sobre os seus 

passos,  enxergou  o  animal  e  desta  vez  o  observou  tempo  bastante  para  distinguir  o  seu  corpo 

meio  humano  e  meio  bovino  afastando-se  em  largas  passadas.  Subitamente  uma  idéia  lhe 

ocorreu.  Desfiando  rapidamente  o  fio  restante  do  seu  novelo,  fez  com  ele  um  laço  e  o  lançou 

com tal precisão que ele enganchou-se perfeitamente aos cornos da fera. Segurando com força o 

laço  improvisado,  Teseu  susteve  a  corrida  do  Minotauro,  que  sacudia  a  cabeça  com  fúria, 

tentando se desvencilhar da armadilha. 

Num repelão da cabeça, contudo, o Minotauro puxou com tal força o sólido barbante que 

Teseu foi puxado para si num vôo violento, que o derrubou quase aos pés da fera. Bufando de 

ódio, o Minotauro aproveitou-se da desvantagem momentânea do seu adversário e lançou-se com 

os chifres em riste na sua direção. 

Teseu,  no  entanto,  foi  mais  rápido  e  desviou-se.  Em  seguida,  pulando  às  costas  do 

Minotauro, enterrou a sua adaga, com toda a força, entre os seus olhos bovinos. Um mugido de 

dor atroou as paredes do labirinto, enquanto os dois caiam ao solo, embolados como se fossem 

um mesmo corpo. Teseu, sem ter a menor piedade, retirou a adaga de entre os olhos da fera e a 

enterrou outra vez, agora no coração do Minotauro, afastando-se, em seguida, num pulo. 

Teseu assistiu com prazer à fera estertorar por alguns minutos, até que erguendo a cabeça 

do  solo  o  Minotauro  pareceu  dar  um  grande  espirro  avermelhado  e  cair  novamente  ao  solo, 

morto  para  sempre.  Teseu,  tendo  derrotado  o  Minotauro,  retornou  para  sua  terra,  levando 

consigo Ariadne. 

No  entanto,  ao  fazer  uma  parada  na  ilha  de  Naxos,  ele  a  deixou  lá,  seguindo  viagem 

sozinho. Teseu jamais explicou as razões desse ato de aparente ingratidão. 

Quando  adentrou  com  seu  barco  o  portão  de  Atenas,  esqueceu  de  desfraldar  a  vela 

branca, conforme o combinado com o seu pai, em caso de vitória. O pobre rei, vendo nisto um 

sinal certo da derrota — e conseqüente morte — do seu filho, suicidou-se no mesmo instante, o 

que roubou ao herói o prazer da vitória. Com a morte do rei, Teseu acabou herdando a coroa, 

tornando-se assim o novo rei de Atenas. 

OS DOZE TRABALHOS PE HÉRCULES

 

O maior dos heróis teria de ter o maior dos contos, também. 



O  famoso  e  intrépido  Hércules  era  filho  de  Alcmena,  casada  com  Anfitrião.  Júpiter, 

tomando um dia a forma de Anfitrião, fecundou-a, dando origem ao herói grego. Junto com ele 

nasceu outro menino, chamado Ificles, este filho de Anfitrião, que se tornaria tão obscuro quanto 

Hércules se tornaria famoso. 




Juno,  a  ciumenta  esposa  de  Júpiter,  naturalmente  não  gostou  nem  um  pouco  da 

infidelidade do marido e tomou-se imediatamente de antipatia pelo filho bastardo de Júpiter. 

Certa vez, Alcmena, a mãe dos dois garotos, após tê-los banhado e amamentado, deitou-

os  sobre  um  escudo  de  bronze.  Enquanto  os  meninos  brincavam  e  pedalavam  o  ar  no  berço 

improvisado, duas serpentes surgiram se arrastando insidiosamente em direção a eles. Vinham as 

duas a mando de Juno, a vingativa esposa de Júpiter, para acabar com a vida de Hércules. 

O pequeno Ificles deu um grito de susto ao ver os répteis avançando. Mas Hércules, que 

desde  o  berço  jamais  soubera  o  significado  da  palavra  medo,  pulou  do  escudo  e  caiu  sobre  os 

dois répteis. Com uma serpente em cada uma das mãos, apertou-lhes o pescoço com tanta força 

que em segundos as estrangulou, salvando a si e ao irmão da morte certa. 

Hércules cresceu e casou-se com Megara, filha de Creonte, com quem teve vários filhos. 

Porém, mesmo depois de Hércules ter se tornado um adulto, Juno, a esposa de Júpiter, 

continuava ressentida com ele. Concebeu, então, um plano macabro que pouco condizia com a 

dignidade de uma deusa. 

Hércules estava certo dia com a esposa Megara e seus filhos, quando foi tomado de uma 

súbita loucura. De repente seus olhos começaram a se arregalar e uma espuma abundante brotou 

de seus lábios. 

Erguendo-se, o herói deu uma sonora gargalhada: 

— Dêem-me o arco e minha maça! Tenho de ir a Micenas destruir as muralhas erguidas 

pelos ciclopes inimigos. 

Sua barba negra estava coberta pelos flocos brancos da espuma, e seus olhos raiados de 

sangue  reviravam-se  nas  órbitas,  compondo  uma  máscara  terrível  e  assustadora.  Montado  num 

carro imaginário, Hércules empunhava suas rédeas irreais: 

— Eia, cavalos! Adiante, vamos combater os ciclopes! 

Hércules  saiu  nesse  constrangedor  estado  por  todo  o  palácio,  enchendo  de  assombro 

Megara  e  os  próprios  filhos.  No  seu  delírio,  enxergando  nas  crianças  apenas  monstruosos 

inimigos,  Hércules  abateu-as  uma  a  uma,  até  que  em  todo  o  palácio  só  restaram  vivos  ele,  a 

esposa e o último dos filhos. 

— Ainda vejo inimigos no campo de batalha! — esbravejava o herói demente, disposto a 

exterminar até o último ser vivo nos arredores. 

Sua esposa, enlouquecida de medo e tristeza, tomou nos braços a criança e foi refugiar-se 

no aposento mais afastado. Hércules, porém, sem recuar diante de nada, arrombou a porta com 

um golpe de sua maça e estraçalhou com as próprias mãos a mulher e o seu último filho. 

No Olimpo, Juno deliciava-se com o espetáculo da ruína de seu desafeto. 




Mas Hércules, ainda insaciado e possuído por seu furor, decidira investir contra o próprio 

pai,  Júpiter.  Minerva,  porém,  adiantando-se,  derrubou  o  herói  com  um  raio,  antes  que  ele 

provocasse  novas  desgraças.  Abatido,  Hércules  esteve  estendido  sobre  os  destroços  do  palácio 

durante um longo tempo; quando recobrou a consciência, deu-se conta da monstruosidade que 

praticara. 

— Júpiter, meu pai, o que fiz? — urrou o infeliz, ao ver os corpos despedaçados de sua 

família. 

A deusa Minerva, compadecida, explicou-lhe o que acontecera, isentando-o da culpa, mas 

Hércules não conseguia se perdoar. 

— Matei minha mulher e meus próprios filhos! — exclamava ele, arrancando os cabelos 

num desespero inigualável. 

Tomado  pelo  remorso,  o  herói  condenou-se  ao  exílio,  decidido  a  penitenciar-se  pelo 

terrível episódio. Durante muitos anos Hércules vagou sem destino pelas estradas da Grécia, até 

que, consultando-se com um oráculo, este lhe ordena que fosse ao encontro de Euristeu, rei de 

Micenas e de Tirinto, primo de Hércules e rival deste pela disputa do trono. 

Assim que esteve diante deste personagem, Hércules escutou suas palavras: 

— Só há um meio de purificar-se. Você deverá realizar para mim os doze trabalhos que 

vou lhe explicar. 

Após escutar com atenção as instruções de Euristeu, Hércules partiu decidido a cumpri-

las, nesta que seria a maior de suas aventuras. 

O primeiro trabalho de Hércules consistia em matar o terrível leão de Neméia. 

Esse  leão  era  o  maior  que  já  surgira  em  toda  a  Grécia.  Dotado  de  extraordinária 

ferocidade, matava qualquer um que cruzasse o seu caminho. 

Hércules, assim que esteve frente a frente com o monstruoso leão, puxou de seu arco e 

descarregou nele todas as suas flechas. O couro do leão era tão grosso, no entanto, que nenhuma 

delas conseguiu penetrar-lhe. 

O  herói,  abandonando  o  arco,  empunhou  sua  pesada  maça  e  avançou  para  a  fera.  Em 

seguida descarregou sobre a cabeça dela um poderoso golpe. O porrete, no entanto, esfarelou-se 

em contato com os ossos duros do leão. 

Fugindo para o interior de uma gruta, o poderoso felino ficou no aguardo de uma nova 

investida  do  herói.  Hércules,  desvencilhando-se  de  todas  as  armas,  decidiu  enfrentá-lo  com  as 

mãos limpas. 

—  Veremos,  agora,  quem  pode  mais!  —  exclamou,  arremessando-se  para  o  interior  da 

caverna. 




Impedindo a saída do animal, Hércules agarrou o pescoço do leão e rolou pelo chão com 

a fera, até arrancar da boca do animal o seu último suspiro. Feliz com sua vitória, tirou a pele do 

animal e passou a vesti-la, tornando-se este o seu traje mais característico. 

O  segundo  trabalho  de  Hércules  era  derrotar  a  temida  hidra  de  Lema  -uma  espécie  de 

serpente  gigantesca  dotada  de  várias  cabeças,  que  tinham  a  particularidade  de  renascer 

instantaneamente tão logo eram cortadas, sendo que a do meio era imortal. 

Hércules  seguiu  nessa  aventura  acompanhado  por  seu  servo  Iolaus.  Enquanto  o  criado 

aguardava,  Hércules  avançou  sobre  o  pântano  de  Lema,  moradia  do  terrível  animal.  Não 

demorou muito e logo sentiu que algo muito forte enroscava-se em suas pernas, paralisando seus 

movimentos. 

Sacando do porrete, Hércules começou a esmagar uma por uma as cabeças da feroz hidra. 

No entanto, a cada uma que destroçava, via logo surgir outra em seu lugar. 

— Iolaus, acenda um tição e jogue para mim! — gritou ao criado. 

Tão  logo  agarrou  o  bastão  em  chamas,  Hércules  foi  cauterizando  os  buracos  de  onde 

surgiam as cabeças, de tal sorte que logo só restou a cabeça do meio — a mais perigosa. Após 

esmurrá-la  com  toda  a  força,  sem  conseguir,  no  entanto,  fazê-la  morrer,  o  herói  suspendeu  a 

hidra  e  lançou-a  no  fundo  de  um  profundo  abismo.  Erguendo  em  seguida  uma  imensa 

montanha, arremessou-a sobre o abismo, enterrando para sempre a hidra. 

O terceiro trabalho do herói foi mais modesto. 

Diana, a deusa das caçadoras, possuía cinco corças. Quatro delas estavam atreladas ao seu 

carro,  enquanto  a  quinta,  que  possuía  lindos  chifres  de  ouro,  andava  à  solta  pelos  bosques.  A 

missão de Hércules era capturá-la e levá-la até Euristeu. 

Apesar da aparente facilidade da tarefa, o herói consumiu um ano inteiro nesta busca: a 

corça  era  tão  ou  mais  arredia  do  que  a  própria  dona.  Mas  ao  cabo  desse  período,  Hércules 

conseguiu, finalmente, apoderar-se do belo animal. 

O  quarto  trabalho  era  capturar  o  javali  de  Erimanto  —  um  javali  monstruoso  que 

assolava  toda  a  região.  Após  enfrentar  a  fera,  arrancando-lhe  as  presas,  Hércules  levou-o  até 

Euristeu,  que,  tomado  de  pavor  diante  da  visão  do  animal,  correu  para  dentro  de  um  enorme 

tonel de bronze. 

Vendo Euristeu que nos exercícios de força Hércules era imbatível, decidiu expô-lo a uma 

missão de natureza humilhante, no seu quinto trabalho: 

— Quero que você vá limpar as estrebarias de Áugias. 

Áugias  era  dono  de  um  imenso  rebanho  e  suas  estrebarias  jamais  haviam  sido  limpas. 

Montanhas de estrume quase impediam a entrada dos animais. 




— Façamos uma aposta — disse Hércules, ao ver-se diante do preguiçoso proprietário. 

—  Caso  eu  consiga  limpar  suas  estrebarias  em  menos  de  um  dia,  quero  que  você  me  dê  uma 

décima parte de seu imenso rebanho. 

Áugias, achando graça da pretensão do reles limpador, aceitou o desafio: 

— Está bem, senhor limpador de estrume, vamos ver a sua eficiência. 

Hércules, sem pestanejar, começou imediatamente o seu trabalho. Durante o dia inteiro, 

meteu-se  até a  cintura  na  montanha  fedorenta,  sem  se  importar  com  a aparente  indignidade  de 

sua tarefa. 

—  Ouro  ou  estéreo,  esta  aposta  não  perco!  —  dizia,  cantarolando.  Porém,  quando  viu 

que por mais que carregasse montanhas de dejetos para 

fora,  mais  estrume  parecia  surgir  no  interior  da  estrebaria,  Hércules  resolveu  mudar  de 

estratégia. Avistando um rio de águas cantantes que passava ali perto, correu para lá, munido de 

sua  pá.  Com  ela  cavou  um  imenso  desvio,  de  tal  sorte  que  as  águas  passaram  a  correr  por  ele, 

indo desaguar em cheio na estrebaria de Áugias. 

Quando o proprietário retornou ao fim do dia, encontrou sua cavalariça completamente 

limpa  e  seca,  pois  Hércules  teve  tempo  ainda  de  fazer  com  que  o  rio  voltasse  ao  seu  curso 

normal. 

Áugias, no entanto, era um homem sem palavra. 

—  Adeus, lacaio, e obrigado pelo brilhante serviço — disse, despedindo Hércules. 

O herói, diante de tamanha afronta, ergueu nos braços o atrevido Áugias e estrangulou-o. 

Os trabalhos de Hércules, porém, não terminaram aí: o sexto consistia em exterminar as 

aves mortíferas que assolavam o lago Estínfale. 

Essas aves eram negras como a noite e tinham asas, cabeças e bicos de ferro, habitando 

um pântano eriçado de espinhos. 

Hércules, sem perder mais tempo, foi em direção ao tal lago. 

— Vamos ver as avezinhas — disse, determinado. 

Era  dia  claro  ainda  quando  Hércules  chegou  à  beira  do  pântano.  Um  sol  imenso  ainda 

estava erguido no céu e não havia nem sinal de nenhuma das aves. Mas Hércules, além de forte, 

era também esperto. Tirando do bolso de sua pele leonina um par de címbalos, começou a tocá-

los  com  toda  a  força.  Imediatamente  uma  nuvem  escura  de  aves  ergueu-se  dos  caniços  à  beira 

d'água e tapou o sol, transformando o dia em noite. Acendendo um archote, Hércules iluminou a 

cena, enxergando nitidamente as aves que desciam sobre ele com seus bicos de ferro. 

A seguir, com seu poderoso porrete começou a abatê-las aos montes. Cada golpe de sua 

arma derrubava oito ou dez juntas. Desta forma, conseguiu exterminá-las depois de desferir mais 




de dez mil golpes. Quando terminou a tarefa, o pântano estava repleto de aves. O ruído metálico 

e persistente do bico das aves agonizantes ainda ficou retinindo em seus ouvidos por um longo 

tempo,  enquanto  se  retirava,  mais  uma  vez  vitorioso.  O  sétimo  trabalho  de  Hércules  surgiu  de 

um simples capricho feminino. 

A filha de Euristeu havia metido na cabeça que queria por todo o modo possuir o cinto e 

o véu de Hipólita, a rainha das amazonas. Estes preciosos presentes haviam sido dados a ela por 

Marte, o deus da guerra, em reconhecimento por seu valor e bravura nos campos de combate. 

Hércules,  sabendo  que  a  inimiga  desta  vez  seria  uma  mulher,  decidiu  ser  cortês:  após 

conseguir  chegar  incólume  ao  país  das  amazonas,  foi  bem  recebido  por  Hipólita  e  retribuiu  na 

mesma  medida  o  tratamento  recebido,  de  tal  forma  que  ela  concordou  em  lhe  ceder  os 

acessórios. 

Juno,  a  eterna  inimiga  de  Hércules,  no  entanto,  estava  atenta,  e  conseguiu  fazer  crer  às 

súditas de Hipólita que Hércules pretendia raptar sua rainha. 

Montadas  em  seus  cavalos,  as  guerreiras  atacaram  Hércules  e  seus  soldados  —  pois  ele 

havia ido até lá com um pequeno grupo de homens -, o que provocou uma luta entre as partes, 

que se estendeu por todo o dia. Hércules, vendo naquilo um sinal de traição, matou Hipólita após 

terrível duelo. 

A rainha, golpeada mortalmente, expirou nos braços do guerreiro, e Hércules pôde levar 

para a filha de Euristeu as relíquias tão desejadas. 

Chegamos ao oitavo trabalho. 

Diomedes, filho de Marte e rei da Trácia, tinha quatro maravilhosos cavalos, que expeliam 

fogo  pelas  ventas  e  se  alimentavam  somente  de  carne  humana.  Ora,  a  diversão  principal  desse 

homem cruel consistia em capturar qualquer forasteiro que entrasse em seus domínios e jogá-lo 

vivo para os cavalos. 

Hércules foi incumbido por Euristeu de fazer uma visitinha cordial ao rei Diomedes. 

Para  quem  esmagou  duas  serpentes  vivas,  ainda  no  berço,  não  eram  quatro  ou  cinco 

cavalos que iriam lhe meter medo. Por isso o herói foi tranqüilamente cumprir mais essa missão. 

— Bom-dia, caro Diomedes! — disse Hércules, assim que se encontrou com o rei. 

— Sem dúvida, será um bom dia para mim e para eles — disse o rei, apontando para os 

cavalos, que arreganhavam os dentes sujos de sangue. — Receio, contudo, que não possa dizer o 

mesmo do restante do seu dia, pobre forasteiro! 

Erguendo  um  braço,  Diomedes  fez  um  sinal  para  que  os  seus  cavalos  avançassem  para 

estraçalhar o visitante. Hércules, entretanto, montando num salto ágil sobre o dorso de um dos 

cavalos,  domou-o  com  tal  arte,  que  logo  o  deixou  amansado;  depois,  passando  imediatamente 




para as costas do outro, fez o mesmo, e assim continuamente, até que tinha todos amansados aos 

seus pés. 

Pegando  as  rédeas  de  todos,  Hércules  reconduziu-os  de  volta  ao  estábulo.  Depois  de 

irritá-los bastante, outra vez, retornou para se entender com seu péssimo anfitrião: 

— O que pretende você? — disse o rei, balbuciando nervosamente. Hércules, sem dizer 

nada, suspendeu o dono dos cavalos numa única mão e o lançou para dentro da estrebaria. 

Relinchos e gritos humanos de pavor têm algo em comum, razão pela qual o herói não 

pôde  afirmar  com  certeza  quem  havia  gritado  mais  alto  enquanto  ele  se  afastava  num  passo 

tranqüilo. 

— O nono trabalho, preste bem atenção — disse Euristeu -, é o seguinte: quero que você 

roube os bois do gigante Gerião e traga-os para mim. Aqui está o mapa para chegar ao país onde 

ele vive. 

Sem  dizer  mais  nada  Euristeu  despediu-se  de  Hércules.  Seguindo  as  indicações  que  o 

outro lhe dera, Hércules chegou sem dificuldade ao país de Gerião. 

Informando-se  com  a  gente  do  povo,  Hércules  chegou  logo  ao  rebanho  onde  estavam 

misturados os animais. Eram bois enormes, da cor do sangue. Guardando-os estavam o gigante 

Euritião e o cão Ortro, irmão de Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada do inferno. 

Ortro era o irmão mais novo do famoso cão e, por isso, tinha somente duas cabeças. No 

mesmo instante, ao avistar a chegada de Hércules, ele atirou-se em direção ao pescoço do herói. 

Hércules fez um rápido cálculo mental: 

— Se você fosse como o seu irmão ainda teria alguma chance! — ironizou : herói, antes 

de quebrar com as duas mãos os dois pescoços do cachorro. 

Em  seguida  atracou-se  com  o  gigante  Euritião,  derrotando-o,  também,  com  facilidade. 

Quando já se retirava, levando consigo os bois, Hércules escutou vozes que diziam uma só coisa, 

em uníssono: 

— Aqui está alguém, atrevido, que tem mais de duas cabeças e dois braços! Era Gerião, o 

proprietário  dos  bois,  que,  temeroso  de  que  lhe  roubassem  seu  rebanho,  fora  pessoalmente 

guardá-lo.  Era,  de  fato,  um  adversário  para  se  temer:  dos  pés  à  cintura  era  um  gigante  normal; 

porém, da cintura para cima, possuía três troncos. Eram três homens em um. 

O gigante avançou com seus seis braços, armados de três espadas e três escudos. Hércules 

tinha apenas sua maça e o escudo que Minerva lhe dera antes de começar as suas aventuras. Mas 

para quem já havia derrotado uma hidra de várias cabeças, essa tarefa não era também de meter 

medo. 



Durante uma tarde inteira os dois trocaram golpes, até que Hércules percebeu que se da 

cintura  para  cima  estava  em  desvantagem,  da  cintura  para  baixo  as  coisas  estavam  em  pé  de 

igualdade. 

Aproveitando um descuido do gigante tripartido, Hércules desferiu um golpe terrível de 

seu porrete nas pernas do monstro, que caiu de joelhos ao solo, sem poder erguer-se novamente. 

Tendo-o  inteiramente  à  sua  mercê,  o  herói  grego  acabou  com  o  gigante,  esmigalhando  os  seus 

três corpos, um a um. 

Quando  Hércules  voltava  desta  missão,  teve  de  enfrentar  ainda  outro  inimigo,  num 

episódio que, apesar de não fazer parte dos seus dozes trabalhos, tornou-se muito famoso. 

Este inimigo era Caco, famoso ladrão que habitava as cavernas do monte Aventino. Todo 

mundo  que  cruzava  com  Hércules  parecia  gozar  de  desmedida  estatura,  e  Caco  também  era 

portador de um tamanho descomunal. 

Enquanto Hércules dormia sob uma árvore para refazer-se do cansaço, o ladrão insinuou-

se  em  meio  ao  rebanho  e  furtou  silenciosamente  alguns  dos  bois  que  o  herói  conduzia.  Este 

ladrão — como todo bom profissional — tinha lá suas manhas. 

Seu método particular de furto consistia em roubar bois e reses puxando-os pela cauda, 

até  a  sua  caverna.  Deste  modo,  invertendo  a  posição  dos  pés  dos  animais,  dava  sempre  a 

impressão  ao  dono  ludibriado  de  que  eles  não  haviam  entrado  na  caverna  de  Caco,  mas,  no 

máximo, saído de lá. 

—  Ei,  gigante,  não  viu  algumas  reses  perdidas  passarem  por  aqui?  —  disse  Hércules  a 

Caco, quando passava em frente à sua caverna. 

— Não senhor, sinto muito! — disse o pilantra, amavelmente. Hércules, apesar de toda a 

sua  astúcia,  já  ia  caindo  também  no  golpe,  quando  de  dentro  da  caverna  ouviu  uma  das  reses 

raptadas mugir, fazendo com que ele voltasse a cabeça. 

— O senhor parece mugir muito bem! — disse Hércules, tomando já seu porrete. 

Caco tinha suas partes de monstro, também. Vomitando fogo, o ladrão entrou correndo 

para dentro da caverna, tapando em seguida a entrada com uma imensa rocha. 

Hércules, entretanto, com um soco poderoso, a desfez em mil pedaços. 

— Devolva os meus bois, ladrão miserável! — dizia Hércules, furioso. 

Dentro  da  caverna  havia uma  luz  fraca  produzida  por  um  archote.  O  ladrão,  temeroso, 

havia se refugiado mais para o interior. Das paredes pendiam as cabeças ensangüentadas de duas 

reses, ossos de animais e até de homens — pois o monstro, além de ladrão, era canibal. Mais ao 

canto  havia  também  galinhas  recém-penduradas,  mostrando  que  ultimamente  as  coisas  não 

andavam nada boas para o ladrão. 




— Vamos, ladrão de galinhas, apareça! — ordenou Hércules, esmurrando as paredes. 

Chegando  a  uma  galeria profunda,  o  herói  encontrou  finalmente  o gigante,  que  sem  ter 

mais  para  onde  se  refugiar  avançou  enlouquecido  sobre  o  herói,  vomitando  fogo  pela  boca. 

Hércules agarrou-o pelo pescoço e torceu-o até que da antiga chama restasse apenas um fiozinho 

de fogo. Com esta fagulha Hércules acendeu um archote e saiu da caverna, levando consigo os 

seus bois. 

E assim o herói grego retornou para Euristeu, que lhe revelou o conteúdo de sua próxima 

missão. 


— Quero que você prove que é o mais forte dos homens, domando o temível touro de 

Creta. 


Este animal era uma fera sanguinária que devastava toda aquela região. 

Hércules  chegou  a  Creta  e  pegou  o  touro  à  unha,  obrigando-o  a  curvar  seus  chifres 

afiados em direção à terra, nesta que é uma das menos empolgantes de suas façanhas, pelo seu 

pouco ineditismo, pois além de Teseu também já ter dominado um que era em tudo idêntico a 

este, havia também Jasão, que domara não um, mas dois touros parecidos. 

Chegara a hora, então, do penúltimo trabalho. 

—  Você certamente já ouviu falar no Jardim das Hespérides — disse a Hércules o seu 

desafiador. 

— Já, mas não lembro mais do que trata. 

—    Quando  Juno  casou-se  com  Júpiter  —  começou  a  explicar  Euristeu  -.  recebeu  de 

presente  das  divindades  amigas  várias  maçãs  de  ouro,  que  nasceram  numa  árvore  situada  no 

jardim das Hespérides. 

Euristeu  explicou  ainda  que  as  Hespérides  eram  as  filhas  de  Atlas,  um  dos  titãs  que 

moveram guerra contra Júpiter. Derrotado, o gigante ficara obrigado, a partir daí, a sustentar o 

mundo nos ombros. 

Junto  à  árvore  estava  postado  um  imenso  dragão,  encarregado  da  guarda  dos  valiosos 

frutos. 

—  Quero  que  você  traga  para  mim estas  maçãs  de  ouro  —  concluiu Euristeu  Hércules 

partiu outra vez (e no caminho de mais esta aventura libertou 

Prometeu de seu rochedo, onde este fora agrilhoado por ordens de Júpiter, em razão de 

ter furtado, sem o seu consentimento, o fogo dos céus). 

Hércules,  pela  primeira  vez,  não  conseguira  chegar  a  seu  objetivo,  e  parecia  prestes  a 

desistir quando encontrou em seu caminho o exausto Atlas, pai das Hespérides. 



"Ninguém melhor do que ele saberá me indicar onde estão as benditas maçãs!", pensou o 

herói. 


— Bom-dia, velho Atlas — disse Hércules, jovialmente. 

— Quem está aí? — resmungou o titã, sem poder erguer a cabeça, curvada sob o peso do 

mundo. 

— Eu sou Hércules e preciso de uma informação sua. 

— Diga. 

— Quero saber onde fica o jardim de suas filhas. Preciso levar as maçãs de ouro que lá 

estão. 

—  E  por  que  pensa  que  eu  as  daria  gratuitamente?  Hércules,  contudo,  já  tinha  uma 

proposta a fazer. 

— Se você me trouxer esses preciosos frutos, eu carregarei, enquanto isso, o mundo nas 

costas para você. 

Atlas, diante dessa vantajosa proposta, concordou imediatamente. Hércules tomou, assim, 

o mundo em seus braços, enquanto Atlas partiu em busca das frutas douradas. 

Durante vários dias Hércules esteve curvado ao peso do mundo. 

— Não é à toa que ele tem esse mau humor todo — resmungou o herói, já com dor nas 

costas. 


Um dia, viu finalmente Atlas regressar com as preciosas maçãs. 

O titã a princípio pretendia cumprir com a sua parte, mas depois de ver como era bom 

estar livre de todo aquele peso, começou a achar que era melhor deixar Hércules para sempre em 

seu lugar. Atlas teve a franqueza de revelar a Hércules o seu nefando propósito. 

—  Está  bem  —  disse  Hércules,  resignando-se  aparentemente  ao  seu  destino.  —  Antes, 

porém, permita que eu cumpra minha tarefa e leve os pomos preciosos a Euristeu. 

Atlas concordou. Nem bem retomou o mundo nas costas, escutou os passos do outro se 

afastando rapidamente, para nunca mais voltar. 

Após  alguns  dias  o  herói  apresentava  diante  do  rosto  satisfeito  de  Euristeu  os  pomos 

preciosos. Agora faltava completar o último dos doze trabalhos. 

Euristeu, durante a ausência de Hércules, pensara numa tarefa quase impossível, até que 

chegou a elaborar seu último plano. "Desta vez mandarei Hércules literalmente para o inferno", 

pensou. 

— Você é realmente valente e intrépido — disse Euristeu ao herói. — Desta vez, porém, 

vou pôr à prova toda a sua valentia. 



— Permita que eu diga que suas introduções começam a se tornar aborrecidas — disse 

Hércules, que já começava, na verdade, a se cansar daquela longa brincadeira. 

— Eis, então, a sua última missão: quero que você desça até o reino das sombras e traga 

de lá Cérbero, o cão infernal. 

— Mas esse cão pertence a Plutão, irmão de meu pai — retrucou Hércules. 

—  Não  me  importa  a  quem  ele  pertence.  Quero  que  o  traga  o  quanto  antes.  Hércules, 

temendo  contrariar  a  vontade  de  seu  pai,  Júpiter,  decidiu  antes  ir  falar  com  ele.  Depois  de  lhe 

explicar os seus propósitos, recebeu do deus dos deuses esta recomendação: 

—  Está  bem,  mas  não  machuque  Cérbero  nem  o  retire  de  lá  sem  o  consentimento  de 

meu irmão. 

Tendo a companhia de Minerva e Mercúrio, Hércules chegou a Tenaro, na Lacônia, onde 

está situada a abertura do inferno. 

— Vamos, desçamos por aqui — disse Mercúrio, que tinha a incumbência de conduzir as 

almas dos mortos até a sua última morada. 

Hércules,  longe  de  parecer  aterrorizado,  tinha,  ao  contrário,  o  ar  divertido  de  quem  vai 

ver coisas pouco comuns. Não era por outra razão que tomava sempre a dianteira aos seus dois 

companheiros, obrigando Minerva a pedir-lhe que moderasse o passo a todo instante. 

—  Que  calma,  que  nada!  —  exclamava  Hércules,  sedento  por  ver  as  aberrações  que 

diziam enxamear no reino dos mortos. 

Depois  de  descerem  por  várias  encostas  ardentes  e  fuliginosas,  chegaram  os  três, 

finalmente, até o Aqueronte, o rio que corta o inferno. 

— Ei, barqueiro, ande logo! — disse Hércules, batendo palmas e chamando Caronte, que 

vinha retornando lentamente de sua viagem anterior. 

—  Onde  pensa  que  está,  atrevido?  —  gritou  o  velho,  encolerizado,  descendo  seu  remo 

sobre  a  cabeça  do  herói.  O  pedaço  de  madeira,  entretanto,  quebrou-se  sobre  a  cabeça  de 

Hércules como se fosse a frágil lasca de um palito gigante. 

Hércules,  empunhando  sua  maça  gigantesca,  já  se  preparava  para  devolver  o  golpe 

quando teve sua mão segura por Minerva e Mercúrio. 

—  Calma,  rapaz!  —  disse  Mercúrio.  —  Deste  jeito  não  chegaremos  nunca  à  outra 

margem. 


Os  três  embarcaram  e  seguiram  viagem,  enquanto  o  velho  remador  prosseguia  a 

resmungar: 

— Parece que está virando hábito os vivos andarem por aqui... Um dia é Ceres, noutro é 

Orfeu, agora é este gigante... 




— O que está resmungando aí? — disse Mercúrio. 

—  Minha  barca  não  foi  feita  para  conduzir  vivos,  isto  é  que  é!  —  disse  o  velho, 

apontando para a madeira. 

De  fato  a  proa  da  barca  estava  quase  na  linha  da  água,  ameaçando  virar  a  qualquer 

momento. 

— Calma, já estamos quase chegando — disse Minerva, apaziguadoramente. 

Nem  bem  desembarcaram,  Hércules  deliciou-se  com  o  espetáculo  que  tinha  diante  dos 

olhos. A primeira coisa que fez foi abraçar-se à sua esposa e aos seus queridos filhos, que a sua 

funesta loucura havia arrebatado de si. 

—  Perdoem-me,  perdoem-me,  eu  não  sabia  o  que  estava  fazendo,  não  estava  em  meu 

juízo — exclamava o herói, em prantos. 

Sua  esposa  e  seus  filhos,  que  já  sabiam  a  causa  do  ato  insano,  foram  compreensivos  o 

bastante  para  perdoá-lo.  Logo  depois  Hércules  seguiu  para  o  interior  do  inferno,  sempre 

acompanhado de seus guias, Minerva e Mercúrio. 

— Cérbero não guarda a entrada do inferno? — perguntou Hércules. 

—  Certamente  já  sabem  de  nosso  propósito  —  disse  Mercúrio.  —  Plutão  deve  ter 

mandado que o recolhessem. 

No mesmo instante um latido tétrico ecoou nos desvãos dos precipícios. 

Enquanto  andavam,  Hércules  ia  enxergando  muitos  personagens  que  somente  conhecia 

pelos  relatos  dos  mais  antigos:  Orfeu,  que  Caronte  já  citara,  passeava  amorosamente  com  sua 

Eurídice;  Adônis  preparava-se  para  retornar  à  :erra  em  sua  estadia  anual  entre  os  vivos;  bem 

como  os  inseparáveis  irmãos  Castor  e  Pólux;  Acteão  ainda  lamentava  o  azar  de  ter  visto  nua  a 

vingativa Diana, porém já restabelecido de seus cruéis ferimentos; além destes e muitos outros, 

Hércules teve sua atenção despertada por um grupo numeroso de mulheres. 

— Vejam, não são elas as belas Danaides? 

Sim, eram elas que num constante vaivém iam enchendo um imenso tonel com suas jarras 

de  chumbo.  Todas  pareciam  dispostas  a  largar  sua  penosa  tarefa  para  ir  conversar  com  o 

musculoso herói, mas Minerva apressou o passo dos três, dizendo: 

— Não viemos aqui para provocar transtornos na rotina do inferno. 

—  Eis  Plutão  em  seu  trono  —  disse  Mercúrio,  após  andarem  mais  um  pouco.  Diante 

deles estava assentado o deus dos infernos, tendo ao lado a bela esposa Prosérpina. 

—  Meu  irmão  Júpiter  já  me  informou  de  sua  pretensão  —  foi  logo  dizendo  o  deus 

infernal. 

— Sim, preciso levar Cérbero para o mundo dos vivos — disse o herói. 




— Tem minha permissão — disse Plutão -, desde que não se utilize de arma alguma que 

possa ferir meu precioso cão de estimação. 

Cérbero, que estava aos  pés do deus, estendeu suas três línguas e lambeu a mão de seu 

dono, em agradecimento. 

—  Além  do  mais  deve  trazê-lo  de  volta  no  espaço  de  tempo  mais  curto  possível  — 

ajuntou, de maneira categórica. 

Hércules  aceitou  os  termos  do  deus  e  aproximou-se  do  cão  para  levá-lo.  Cérbero, 

contudo,  desvencilhando-se  daquele  estranho,  correu  para  dentro  duma  .  ova  negra  e 

malcheirosa. 

—  Vá  buscá-lo  —  disse  Plutão.  —  Ou  achou  que  bastaria  passar  a  mão  em  suas  três 

lindas cabeças? 

Hércules, que já havia enfrentado e derrotado o irmão de Cérbero, entrou na cova escura 

e após receber várias dentadas do insociável cão conseguiu domá-lo, amarrando suas três bocas 

num laço seguro. 

O cão passou ganindo diante de Plutão, que procurou acalmá-lo: 

— Calma, Cérbero fiel, logo você estará de volta. 

E foi assim que Hércules completou seu último trabalho. Depois de levar o cão infernal 

até Euristeu — que teve a má sorte de levar em sua canela, ao mesmo tempo, três dentadas do 

vingativo animal -, Hércules levou-o de volta para Plutão, encerrando assim a série de trabalhos e 

obrigando-nos a encerrar aqui, também, a crônica de suas vitórias. 

ADÔNIS

 

Adônis  foi  o  homem  mais  belo  que a  Grécia  já  conheceu.  Por ele  se  apaixonaram  duas 



deusas,  e  um  rio  de  lágrimas  correu  por  sua  causa.  Vivos  e  mortos  pasmaram  diante  de  sua 

estonteante beleza. 

Vamos conhecer melhor a sua história. 

Adônis  era  um  jovem  caçador.  Seu  rosto  era  tão  belo  que  parecia  ter  sido  esculpido, 

possuindo testa, olhos, nariz e queixo absolutamente perfeitos. Seus cabelos loiros lhe escorriam 

pelos ombros firmes e não havia ninfa dos bosques que não cobiçasse alisá-los. 

Um dia Vênus, a deusa do amor, estava conversando com seu filho Cupido. quando teve 

a atenção desviada pelo surgimento inesperado do jovem mortal. 

— Quem será este rapaz? Nunca vi nenhum mais belo — disse a deusa ao filho. Cupido 

deu uma olhadela rápida. Sem responder, voltou-se novamente 

para suas flechas, as quais estava afiando amorosamente. 

Vênus, percebendo que o seu garoto estava com ciúmes, abraçou-o. enternecida. 




— Vamos, deixe de ciúmes! É apenas um belo rapaz, mas nenhum é tão belo quanto o 

meu filho! 

Ao tomá-lo nos braços, porém, a deusa acabou ferindo-se com uma das flechas. 

— O que foi, mamãe? — perguntou Cupido, alarmado, ao escutar o seu grite de dor. 

— Não foi nada, meu filho, continue o seu trabalho... — disse a deusa, afastando-se. 

Descendo  à  Terra,  Vênus  decidiu  seguir  discretamente  o  jovem  caçador  "Preciso 

conhecê-lo melhor!", pensava a deusa, enquanto o seguia. 

Adônis havia parado um pouco, no bosque; estava inclinado sobre uma pedra, enquanto 

amarrava as tiras soltas de uma das sandálias. Uma das pernas apoiava-se na rocha, descobrindo 

um pouco de sua rija musculatura, enquanto a outra apoiava-se no chão. 

Venus, oculta por detrás de um teixo, alisava distraidamente a casca rugosa da árvore, de 

um  intenso  marrom  avermelhado.  Seus  olhos  estudavam  o  corpo  do  jovem,  cujas  formas 

ressaltavam por entre a fina túnica que o cobria. Após amarrar a sandália, Adônis, num gesto viril, 

estirou  os  dois  braços  para  o  alto.  Os  cabelos  dourados  das  axilas  do  jovem  agitaram-se 

levemente sob a brisa que soprava na mata. A deusa, sem poder conter-se mais, saiu lentamente 

do esconderijo. Seus passos leves ressoavam sobre o tapete difuso de folhas caídas. 

O jovem caçador, cujos ouvidos estavam treinados para captar o menor ruído no bosque, 

sentiu logo a aproximação de alguém. Voltando-se, encarou Vênus com um ar surpreso — pois 

não é todo dia que um caçador tem o privilégio de ser surpreendido pela própria deusa do amor. 

— Olá rapaz! — disse Vênus, procurando imprimir um tom natural às suas palavras. 

—  Você... é Vênus, não é? — disse Adônis, certo de que mortal alguma poderia ser dona 

de tamanha beleza e encanto. 

— Sim, sou — disse a deusa, procurando sempre manter a naturalidade. — E você, quem 

é? 


— Sou Adônis. 

—  Caça  sempre  por  aqui?  —  Bem,  sempre  não  diria,  mas  é  meu  bosque  preferido.  — 

Você não é um deus, é? — Não, bela deusa, na verdade eu... 

— Como pode ter a beleza de um deus e não ser um deles? — disse Vênus, erguendo os 

belos  olhos  e  dardejando  um  olhar  intenso  sobre  a  face  do  jovem,  como  se  desferisse  uma 

estocada certeira e imprevista. 

Vênus parecia um pouco enraivecida — sim, ela havia sido golpeada primeiramente pela 

beleza do rapaz e parecia disposta a se vingar amorosamente daquela involuntária audácia. 

— Veja, o outro pé de sua sandália também está desatado — disse ela, abaixando o olhar. 

Adônis fez menção de abaixar-se. 




—  Vamos,  coloque  o  pé  sobre  a  pedra,  outra  vez  —  disse  a  deusa,  impositiva.  —  Por 

favor,  deusa,  deixe  que  eu...  —  Vamos,  Adônis  —  insistiu  Vênus.  O  jovem  apoiou  o  seu  pé 

esquerdo  sobre  a  pedra.  Colocando-se  à  sua  frente,  a  deusa  inclinou-se,  tomando  as  duas  tiras 

soltas em seus dedos macios. De cabeça baixa, seus cabelos roçavam involuntariamente a cintura 

de  Adônis.  Foi  a  sua  vez  de  ser  docemente  surpreendida.  O  jovem,  no  seu  orgulho  viril  de 

caçador, achava que já cedera demais às pequenas audácias da deusa — que era 

sempre,  apesar  de  deusa,  uma  mulher  —  e  tomou  docemente  as  tiras  de  sua  mão.  — 

Mortais  inclinam-se  diante  dos  deuses,  e  não  o  contrário  —  disse  ele.  —  Por  que  tem  de  ser 

sempre assim? — disse Vênus. — Deixe-me reverenciar também a sua beleza. 

Adônis,  sem  poder  conter  mais  seu  desejo,  fez  com  que  ela  se  erguesse  novamente. 

Antes,  porém,  que  Vênus  estivesse  completamente  equilibrada,  recebeu  da  boca  do  rapaz  um 

beijo longo e ardente. 

Naquela tarde as corças puderam passear descansadas por todo o bosque. 

A  partir  daí  a  deusa  passou  a  descer  todos  os  dias  de  sua  morada  celestial  para  trocar 

carícias e beijos com o belo amante. 

— Vou fazer de você um deus... — prometia ela, aninhada em seus braços. Entre carícias 

e  abraços  passavam  os  dois  os  seus  dias.  Adônis,  entregue  à  sua  nova  paixão,  havia  esquecido 

momentaneamente do seu arco. Mas com o tempo o jovem foi readquirindo o seu gosto pelas 

caçadas. 

— Cuidado, Adônis! Não se exponha demais aos animais ferozes — disse Vênus a ele. — 

Sua beleza pode agradar aos seres humanos e aos deuses, porém às feras ela é indiferente. Elas 

haverão de querer sempre o seu sangue. 

—  E  eu  o  deles!  —  disse  Adônis,  empunhando  alegremente  o  seu  arco.  Vênus  ainda 

tentou  reter  o  seu  amado,  mas  Adônis  estava  surdo  aos  seus  apelos.  A  deusa,  respeitando  a 

vontade dele, partiu em seu carro através dos ares. 

— Cuide-se, meu amor! — disse ela, lançando um último olhar a Adônis, que tão logo a 

viu desaparecer, meteu-se na mata com os seus cães. 

Fazia tempo que Adônis não exercitava os seus dons de caçador; seus cães, a seu turno, já 

haviam farejado a presença de um javali nos arredores e andavam agora em ziguezague, à frente 

do  jovem,  varrendo  o  chão  com  seus  focinhos  alertas.  Adônis  estava  radiante,  pois  possuía, 

agora, as duas coisas que fazem a alegria da vida: o amor e a diversão. 

Os latidos dos cães o despertaram de seu devaneio. 

—  Vamos,  tirem-no  da  toca!  —  ordenou  o  caçador,  ao  ver  que  os  cães  haviam  se 

concentrado ao redor de um esconderijo. 




Um  ruído  surdo  escapou  do  interior  da  toca:  o  maior  dos  cães  havia  descoberto  uma 

entrada lateral e entrado por ela, o que obrigaria o javali a sair pela entrada principal, guarnecida 

pelos demais cães. De repente o animal surgiu da boca da toca, espumando e arremessando suas 

presas em todas as direções. 

— Para trás, todos! — gritou Adônis, empunhando o seu arco e fazendo a mira. 

Os  cães  recuaram  um  pouco,  abrindo  um  claro  e  deixando  à  mostra  a  fera.  O  caçador, 

retesando  bem  a  corda,  disparou  a  flecha,  que  foi  cravar-se  no  flano:  esquerdo  do  animal.  Um 

grito agudo, misto de dor e de raiva, partiu da goela da presa. Girando o corpo, o javali enxergou 

o seu agressor; em seguida, arremessou-se em sua direção, espumando uma baba vermelha, cujos 

flocos aderiam às suas cerdas completamente eriçadas. 

Adônis  ainda  tentou  abater  o  animal,  mas  não  teve  sucesso;  o  javali,  num  salto  ágil  e 

preciso,  já  enfiara  antes  suas  duas  enormes  presas  no  peito  do  jovem.  Com  um  grito  de  dor, 

Adônis caiu sobre a relva, enquanto o animal escapava para o interior da mata, levando atrás de si 

os cães enfurecidos. 

O jovem arrastou-se até uma árvore próxima e ali, reclinando o corpo ferido, começou a 

gemer, pressentindo a morte. 

Vênus não ia tão longe que pudesse deixar de escutar os gemidos de seu amado. Por isto, 

retornou imediatamente, pressentindo o pior. 

— Adônis, meu amor, o que houve? — exclamou a deusa, tomada pelo pavor, ao ver o 

jovem encostado ao tronco, com o corpo coberto de sangue. 

— É o meu fim... — balbuciou o jovem, enquanto recostava a cabeça sobre o ombro da 

deusa, que o amparava amorosamente em seus últimos momentos. 

Vênus, após chorar todas as lágrimas, enterrou ali mesmo o corpo de seu amado. 

No lugar onde Adônis foi enterrado começaram a brotar algumas flores cor do sangue — 

flores de vida tão curta que, assim que floresciam, o vento arrancava-lhes as pétalas, provocando-

lhes a morte. 

No mesmo dia a sombra de Adônis adentrou o Hades — a morada dos mortos. Todos 

pararam para ver e admirar aquele belo rapaz, que chegava trazendo ainda no peito as marcas das 

feridas.  Prosérpina  —  rainha  dos  infernos  e  esposa  de  Plutão  —  encantou-se  também  com  a 

beleza do novo súdito, tomando-o imediatamente sob a sua proteção. 

Vênus, enquanto isto, continuava inconformada com a perda de seu amado: 

— Preciso trazê-lo de volta! — repetia, com o rosto em prantos. 

No auge de sua dor, resolveu descer até os infernos para tentar revivê-lo. Prosérpina, no 

entanto, não se mostrou muito satisfeita com a idéia: 




—  Ele  é  agora  meu  súdito  —  disse,  invocando  os  seus  direitos  de  soberana.  As  duas 

deusas pareciam dispostas a iniciar uma briga, quando Plutão 

interveio,  sugerindo  que  Adônis  estivesse  um  tempo  entre  os  mortos  e  outro  entre  os 

vivos. 


Se Plutão, no entanto, fosse mais atento — ou, ao menos, mais previdente -, teria se dado 

conta, também, de que o mesmo acontecia com sua esposa, que durante seis meses do ano era 

obrigada a subir para a morada dos vivos, conforme antigo trato — exatamente à mesma época 

que o magnífico rapaz. 

De  qualquer  modo,  Vênus,  que  era  a  principal  interessada,  conseguiu  o  que  queria  e 

durante seis meses do ano tinha a felicidade de rever o seu adorado Adônis. 

PROMETEU E O FOGO SAGRADO

 

Prometeu sempre teve um pendor para as artes plásticas. Seu pai era o velho Japeto, um 



dos  titãs,  cuja  origem  se  perde  na  noite  dos  tempos.  Era  tão  velho  que  emparelhava  em  idade 

com Saturno, o pai de Júpiter, e ninguém sabia precisar direito como e de onde surgira. 

O fato é que o velho sempre nutrira uma admiração secreta por seu habilidoso filho. 

—  Este  Prometeu  promete!  —  dizia,  repetindo  pela  milésima  vez  esse  cansativo 

trocadilho. 

Ásia,  esposa  de  Japeto,  escutava  pacientemente  os  prognósticos  do  marido,  mas  não 

podia  deixar  de  concordar  com  o  seu  otimismo.  Não  raras  vezes  flagrara  o  menino  metido  no 

barro,  modelando  com  habilidade  seres  das  mais  diversas  formas.  Com  o  tempo  Prometeu 

cresceu, até atingir a fase adulta. Agora, já com seu ateliê montado, era respeitado em toda a corte 

celestial  como  notável  artífice.  Um  dia  chegou  um  mensageiro  todo-poderoso  à  sua  porta, 

dizendo: 

—  Prometeu,  Júpiter  decidiu  criar  um  novo  ser  sobre  a  Terra,  de  tal  modo  importante 

que há de se assemelhar em tudo aos próprios deuses. 

"Um deus de segunda categoria? Para quê?", perguntou o artista a si mesmo. 

Prometeu,  entretanto,  não  opinava  sobre  as  tarefas  que  recebia,  mas  procurava  tão 

somente  cumpri-las  da  melhor  maneira  possível.  Assim  sendo,  aceitou  imediatamente  a 

incumbência. No mesmo dia encerrou-se em sua oficina, depois de colocar um aviso bem grande 

na porta destinado a afastar os importunos. Esta criação, bem o sabia, estava destinada a ser a sua 

obra-prima, e por esta razão decidiu caprichar ao máximo na sua elaboração. 

Depois  de  trabalhar  por  vários  dias,  deu  enfim  por  concluída  a  tarefa.  Embrulhou  a 

imagem do novo ser, que batizou de "Homem", e já a ia levando para que Minerva, a sabedoria 

divina, lhe insuflasse a alma, quando esbarrou acidentalmente na porta, deixando cair a peça ao 




chão. Abalado com o desastre, Prometeu retirou o lençol que envolvia o trabalho e viu que sua 

criatura perdera uma de suas três maravilhosas pernas. 

— Que desastre lamentável! — exclamou, desconsolado. 

Mas, como estivesse muito apressado — pois a data da entrega da obra já havia expirado 

há  vários  dias  —,  resolveu  levá-la  assim  mesmo,  com  duas  pernas  apenas.  A  perna  do  meio, 

contudo, perdera-se para sempre, ficando em seu lugar apenas uma pequena saliência, que o deus, 

por descuido, havia esquecido. 

Mesmo assim, lá foi ele, orgulhoso, com sua obra-prima. 

Todos os deuses foram unânimes em aplaudir a sua criação. Os elogios eram como uma 

chuva benfazeja, de tal modo que Prometeu tomou-se mais ainda de amores por sua obra. 

Decidido, porém, a fazer daquela criatura um ser privilegiado, Prometeu decidiu subir até 

os céus e roubar ao carro do sol uma pequena chama. 

— Veja! — disse ele a Minerva. — Com o domínio deste fogo o homem será superior a 

todas as demais criaturas! 

Os descendentes deste primeiro homem, no entanto, logo entraram em desavença com o 

pai supremo, Júpiter — como acontece com todo bom filho Júpiter, encolerizado, decidiu puni-

los retirando dos homens o fogo, que lhes dava o calor necessário aos seus corpos desprovidos 

de  penas  ou  de  um  pêlo  espesso.  Deste  modo  o  homem  também  ficava  privado  do  elemento 

fundamental para que pudesse continuar a fabricar suas armas e ferramentas. 

As forjas silenciaram em todo o mundo, e durante algum tempo as bigornas e os martelos 

estiveram  momentaneamente  pacificados.  Quando  a  noite  descia  sobre  a  Terra,  as  pessoas 

corriam a se envolver em suas peles, buscando o abrigo das suas cavernas geladas e escuras. Sem 

o fogo para cozinhar os alimentos, tiveram também os homens de retroceder ao hábito de comer 

alimentos crus. 

Prometeu, vendo que o ser que saíra de suas mãos padecia de incríveis sofrimentos sem 

indagar  da  causa  que  o  levara  a  este  lamentável  estado,  decidiu  roubar  outra  vez  aos  céus  uma 

fagulha do divino elemento. 

—  Cuidado,  pense  duas  vezes  antes  de  afrontar  novamente  a  ira  divina!  -disse-lhe 

Minerva, em tom de advertência. 

Prometeu, no entanto, surdo aos avisos da deusa, preferiu correr o risco. Aproveitando o 

escuro da noite, enrolou-se num manto e subiu aos céus, até onde o Sol repousava de sua longa 

viagem. Aproximando-se pé ante pé, puxou das vestes um tição apagado e o acendeu nas costas 

do astro, que dormia a sono solto. 



Tapando  com  a  mão  a  minúscula  chama,  veio  de  volta  à  Terra.  Antes  que  o  dia 

amanhecesse  outra  vez,  uma  imensa  fogueira  ardia  bem  no  centro  da  Terra,  onde  os  homens, 

felizes, foram recolher o fogo bendito para esquentar seus corpos e fabricar outra vez suas armas 

e utensílios. 

Mas Júpiter, ao saber do fato, irou-se de vez. 

—  Aquele  maldito  intrometido  saiu  outra  vez em  defesa  de  seus  protegidos!  —  disse  o 

deus, puxando os cabelos. — Mas desta vez seu ultraje não ficará sem resposta! 

No mesmo dia ordenou que aprisionassem Prometeu a um rochedo no Cáucaso. 

— Quero que ele esteja para sempre preso àquela pedra! — exclamou Júpiter, furioso. 

Ordenou  ainda  que  soltassem  sobre  a  região  um  terrível  abutre,  cuja  degradante  função 

seria a de devorar incansavelmente o fígado de Prometeu. 

Assim  se  fez.  Em  menos  de  um  dia  Prometeu  viu-se  acorrentado  ao  imenso  rochedo, 

enquanto  um abutre  de  hora  em  hora  descia  para  lhe  comer  o  fígado.  Nem bem  a ave  nojenta 

terminava  sua  tarefa,  o  fígado  de  Prometeu  reconstituía-se  milagrosamente, fazendo  com  que a 

ave insaciável retomasse a sua função, tornando deste modo infinito o suplício do pobre amigo 

dos homens. 

Durante muitos anos Prometeu esteve submetido a essa horrenda tortura, quando um dia 

uma voz cavernosa ecoou sobre sua cabeça: 

— Aprendeu agora a lição, Prometeu? 

O filho de Japeto, no entanto, virou o rosto, em sinal de desprezo. Júpiter tentou ainda 

comprar-lhe o silêncio, prometendo que o libertaria de seu suplício caso ele se comprometesse a 

esconder  dos  homens  o  segredo  da  obtenção  do  fogo.  Prometeu,  mais  uma  vez,  recusou-se  a 

responder, pois ele não cedia nem a ameaças nem a ofertas. 

Mas seu castigo, afinal, teve fim um dia. Hércules, filho de Júpiter, numa de suas inúmeras 

aventuras acabou matando o abutre que torturava de modo tão cruel o pobre Prometeu. Depois, 

já ia o herói arrancando-o de suas correntes quando a voz de Júpiter soou: 

—  Isto  é  impossível  que  se  faça!  —  disse  Júpiter,  embora  já  se  mostrasse  disposto  a 

perdoar o infeliz Prometeu. — Uma vez que eu afirmei que ele jamais se separaria deste rochedo, 

assim terá de ser até o final dos tempos. 

Hércules,  sem  poder  ir  contra  a  vontade  do  próprio  pai,  já  se  dispunha  a  abandonar 

Prometeu no rochedo, quando este, sentindo voltar toda a sua anterior esperteza, disse assim ao 

seu algoz: 

— Tenho uma solução que talvez resolverá meu problema — disse ele a seu libertador, 

sem  voltar  os  olhos  para  Júpiter,  mantendo  com  relação  a  ele  o  seu  silêncio  digno  e  ofendido. 




Afinal, depois de ter o fígado roído por milhares de anos por uma ave pestilenta, não é da noite 

para o dia que se pode simplesmente fazer as pazes com o mandante de uma tal atrocidade. — 

Rompa  os  elos  de  minhas  correntes  e  faça  com  um  pequeno  pedaço  dele  um  anel  —  disse 

Prometeu a Hércules. 

Hércules assim o fez. Em instantes fabricou um pequeno e elegante anel. 

— Ótimo! — disse Prometeu. 

Depois, arrancando do grande rochedo uma minúscula partícula, soldou-a ao anel. 

— Pronto! — disse Prometeu. — Agora permanecerei de qualquer modo sempre preso a 

este maldito rochedo. 

Júpiter,  admirando  secretamente  a  inteligência  da vítima,  preferiu  silenciar  e  encerrar  de 

uma vez a longa disputa. Prometeu, por sua vez, concluía assim a segunda e mais importante lição 

aos homens: a de que nunca deveriam curvar-se à prepotência de ninguém. 

A lição quanto ao uso do fogo, entretanto, teve, inegavelmente, muito maior aceitação. 

TITÃO E AURORA

 

— Lua, minha amiga, como vai você? 



— Olá, Aurora! Já chegando? 

— É, sei que é um pouco cedo ainda, mas permita que eu permaneça I pouco ao seu lado, 

meio escondida, enquanto não chega a minha hora de tomar o seu lugar no céu. 

— Claro, querida, você sabe o quanto eu gosto de sua companhia. Apenas lamento não 

podermos ficar mais tempo juntas, pois quando você chega eu sempre devo me retirar. 

— É verdade. Mas hoje eu decidi vir um pouco antes para colocarmos finalmente nossa 

conversa em dia. 

— Que ótima idéia! Diga-me, então: como tem sido a sua vida? 

— Bem, agora tem sido bem mais feliz do que nos últimos tempos. 

— E seu belo marido, Titão, como está? 

— Bem, não exatamente como antes... 

— Como assim, Aurora? 

—  Ora,  você  não  soube  da  desgraça  que  se  abateu  sobre  nós?  -Desgraçai  Não  sei  de 

desgraça alguma. Faz tempo que não nos falamos. 

—  A verdade é que fui eu a causadora involuntária da infelicidade que desceu sobre nós. 

Mais sobre meu marido, é verdade, do que sobre mim. Mas também sofri durante muito tempo 

as conseqüências de meu terrível descuido. 

— Não estou entendendo nada, Aurora. Comece do começo. 

— Está bem, vou tentar explicar o que houve, partindo do meu casamento. 



—  Sim, o seu casamento com Titão eu lembro perfeitamente. Nossa, que belo rapaz ele 

era. Até eu fiquei tentada a roubá-lo de você! 

— Sim, de fato Titão era um belo rapaz, amiga Lua. Era, porém. 

— Era? Conte de um vez. O que foi que houve? 

—  Você  deve  saber  que  ele  era  um  mortal  como  outro  qualquer,  quando  nos 

conhecemos. 

—  Sim, lembro perfeitamente. Ele era, se não me engano, filho do rei de Tróia. 

— Exatamente. Nossa felicidade era quase completa. Nos amávamos intensamente, mas 

eu tinha esse pesar secreto que me inquietava o tempo todo, a ponto de me tirar o sono. O fato 

de Titão não ser imortal, como eu. Assim, apesar de toda a nossa felicidade, eu sabia que um dia 

teria de perdê-lo. Certa vez, após uma noite de intenso prazer, decidi ir falar pessoalmente com 

Júpiter.  Pedi  a  ele  que  concedesse  a  imortalidade  para  meu  esposo:  "O  Júpiter,  peço  que  torne 

minha felicidade eterna, como é a sua ao lado de sua esposa Juno, que é imortal como você, e..." 

"O  que  você  quer  exatamente?  Deixe  de  rodeios",  Júpiter  me  interrompeu,  grosseiro  como 

sempre. "Gostaria, deus supremo, que você concedesse a Titão o dom da imortalidade!" — pedi. 

Mas antes não o tivesse feito, pois sem saber o condenava a uma vida de horrendos sofrimentos. 

— Por quê, Aurora? 

— Bem, após muito insistir, consegui obter de Júpiter o que queria. 

— E a partir daí você e Titão foram felizes para sempre. 

— Melhor dizer infelizes para sempre. No começo fomos, de fato, imensamente felizes. Tão 

logo transmiti a novidade para ele, fomos tomados por uma alegria sem limites. "Imortal, Aurora! 

Imortal  como  você!",  ele  dizia,  pondo  as  mãos  à  cabeça.  Durante  o  dia  inteiro  comemoramos. 

No começo, de fato, éramos ambos jovens e dispostos, com todos os meios para gozarmos de 

uma vida intensa e proveitosa. Assim fomos vivendo, sem nunca enjoarmos um do outro, pois 

nossos corpos e almas gozavam da mais perfeita juventude e vitalidade. Um dia, porém, percebi, 

enquanto  jantávamos,  um  fio  de  cabelo  branco  luzir  sobre  sua  têmpora  direita.  Como  fosse 

apenas um fio isolado, levei isto à conta de uma banalidade. De repente, porém, longos fios de 

prata começaram a se espalhar no meio daquela selva de negros cabelos, tirando um pouco da sua 

antiga  beleza.  Assustada,  pensei  comigo  mesma:  "Meu  Deus,  será  que  Titão  tornou-se  mortal 

novamente?".  Decidi,  por  isso,  visitar  Júpiter  novamente  para  saber  o  que  estava  acontecendo. 

"Não há nada de errado", disse ele, secamente. "Mas como, se vejo meu querido Titão envelhecer 

a cada dia que passa, diante de meus olhos?!", exclamei, sem compreender. "Sim, e daí?", disse, 

completando com esta frase que me desarmou: "Ora, você pediu para ele o dom da imortalidade 

e não o da eterna juventude!". Ai, amiga! A partir daí acabou o meu sossego. Como podia ser de 




modo diferente vendo dia a dia meu adorado Titão envelhecer e perder aos poucos a sua antiga 

virilidade? Cada vez mais sua cabeça foi se tornando grisalha; os músculos de seus outrora rijos 

braços pareciam agora murchar, deixando em seu lugar apenas pelancas flácidas que balançavam 

a cada movimento seu: seus dentes, antes brancos e sadios, começaram a se estragar, tornando-se 

amarelados  e  frouxos.  Ah,  Lua,  foi  horrível...  E  pior  de  tudo,  talvez,  era  ver  que  eu  não  podia 

acompanhá-lo em sua decadência. 

— Oh, não diga isto, Aurora! A saúde é sempre preferível, em qualquer circunstância! 

— Mas se eu pudesse compartilhar com ele da sua decadência física, fazendo-me velha, 

também, quem sabe não teria sido mais justo? Ao menos ele estaria mais consolado, ao ver que 

ambos rumávamos para o mesmo destino! 

— Não pode o sofrimento de alguém acarretar a melhora de outro sofredor O martírio 

inútil é o mais insensato dos remédios, cara amiga, e aquele que exige tal sacrifício de alguém não 

passa de um fraco e de um egoísta. 

—  Sim,  eu  logo  compreendi  isso.  Mas  tentava,  de  alguma  forma,  incentivá-lo,  lhe 

dizendo:  "Vamos,  Titão,  faça  ao  menos  um  esforço  para  prolongar  a  sua  saúde  e  a  sua 

juventude". Mas Titão perdera o ânimo. Já não era mais o mesmo de antes. Incapaz de suportar o 

seu  fado,  começou a  exigir  que  eu  me acabasse  também,  que  me  fizesse  velha  e  feia  como ele. 

Minha  natureza,  a  princípio  disposta  a  acompanhá-lo  no  seu  negro  fado,  logo  se  rebelou.  Na 

verdade  ele  ainda  teria  muitos  anos  de  vigor  e  força,  se  fizesse  um  esforço  para  recuperar  sua 

antiga  forma  —  ou  algo  que  se  aproximasse  daquilo.  Mas  em  vez  de  fazer  isso  em  favor  de  si, 

preferiu  partir  para  o  caminho  inverso,  ou  seja,  o  de  anular  a  mim  tornando-me  tão  gasta  e 

decrépita quanto ele. Quando compreendi isso, mudei meu ponto de vista, pois eu, com toda a 

certeza, não agiria desse modo em relação a ele. 

— E fez muito bem, Aurora. Cada qual tem de ser capaz de carregar o seu fardo, seja ele 

qual for. Se você fica cega, certamente não é cegando aos demais que resolverá o problema. 

— Bem, seja como for, com o passar dos anos todos os seus dentes começaram a ruir, e a 

sua  mente  principiou  a  dar  evidentes  sinais  de  senilidade.  Titão  tornava-se  cada  vez  mais  um 

velho  ranzinza e  resmungão  —  e,  o  que  é  pior,  destinado  a  nunca  morrer! Embora  isto  pareça 

cruel, devo admitir que já não via mais naquele velho nem a sombra do que fora o meu amado 

Titão. Era uma outra pessoa, completamente outra. Isto já era uma crueldade, comigo e com ele, 

eu  pensava.  Os  mortais  ao  menos  têm  a  bênção  da  morte  quando  a  velhice  se  torna  um  fardo 

intolerável, enquanto ele estava destinado a suportar todo aquele horror para sempre. Tudo isto 

eu pensei mil vezes. Você sabe, fiz o que pude, mas aí chegou um tempo em que não consegui 

mais. Chega um ponto em que a gente também quer viver. 




— E aí, o que você fez com ele? 

—  Bem,  um  dia  ele  perdeu  os  movimentos  dos  braços  e  das  pernas  —  todos  os 

movimentos,  enfim...  Não  podendo  mais  suportar  sua  rabujice,  tentei  ainda  insuflar-lhe  um 

pouco  de  coragem.  Mas como  dar  coragem  a alguém  que  sofre  de  maneira  contínua,  se  nem  a 

esperança do descanso essa pessoa tem? 

— Aurora, para ser franca, eu nunca vi um velho suspirar pela morte. 

—  Nem  eu,  na  verdade.  Bem,  o  fato  é  que  não  havia  mais  como  suportar  a  presença 

daquele pobre homem, convertido num espantalho de si mesmo. Como era duro ver seus dedos 

finos como os de uma galinha deslizarem por sobre o branco colar remanescente de sua antiga 

cabeleira, arrancando tufos inteiros que lhe ficavam grudados às unhas... 

— Sim, e o que resultou disso tudo, então? Ainda está com ele em casa? 

— Não, esta é a última parte da história. Um dia, tomei a decisão de falar novamente com 

Júpiter e pedir que ele ao menos pusesse um fim ao sofrimento de meu marido, retirando-lhe a 

imortalidade, que para ele se tornara horror e maldição. Júpiter disse que não podia fazê-lo, pois a 

imortalidade era um dom divino. "Quem se tornou uma vez imortal não pode jamais deixar de 

sê-lo. Isto seria um contra-senso e eu acabaria sendo causa de escárnio", disse Júpiter, que nesse 

dia  estava  com  uma  boa  vontade  surpreendente.  "No  entanto,  permitirei  que  ele  se  transforme 

num  outro  ser,  libertando-o  desta  forma  decaída.  Faça  a  escolha,  e  ela  se  realizará 

automaticamente",  disse  ele  finalmente.  Mais  consolada,  retornei  para  casa.  Qualquer  coisa  era 

preferível  a  ser  uma  múmia  privada  de  movimentos  para  todo  o  sempre,  pensava,  enquanto 

refazia  o  trajeto.  Tão  logo  cheguei, entrei  no  quarto  e  flagrei-o  escutando, com  um  sorriso  que 

exprimia um resto de prazer, uma cigarra que, pousada no galho de um árvore, cantava com um 

alarido impressionante. "Antes fosse eu esta cigarra", disse Titão, deixando escorrer do canto de 

sua  boca  um  fio  de  saliva.  "Que  assim  seja,  meu  querido!",  disse  ao  seu  ouvido.  No  mesmo 

instante suas formas ressequidas desapareceram e vi erguer-se de debaixo das cobertas uma bela 

cigarra  prateada,  que  levantou-se,  rodopiando  pelo  quarto,  e  após  pousar  sobre  minha  cabeça, 

como que a me agradecer, sumiu-se janela afora. 

—  Que  lindo!  Quero  dizer,  ao  menos  foi  uma  boa  solução  para  aquela  triste  situação, 

não? 

—  Sim, agora ele está bem mais feliz, com toda a certeza. Aliás, todas as manhãs acordo 



com o seu canto, diante da minha janela. Às vezes recebo à noite, também, a sua visita. 

— Ué, e cigarras cantam também à noite? 

— E quem disse que as visitas são para cantar? Mas veja, já está na minha hora! Adeus, 

amiga! 



— Adeus, querida! 

O NASCIMENTO DE PÁRIS

 

Príamo, o mais poderoso dos reis de Tróia, tendo já sido abençoado pelos deuses com o 



nascimento de seu filho Heitor, estava às vésperas de ser pai outra vez. 

— Hécuba querida — disse o rei à sua esposa -, alegre sua alma, pois parece que já não 

tarda o nascimento de nosso segundo filho, que os deuses haverão de fazer tão formoso quanto 

nosso amado primogênito! 

A  rainha,  no  entanto,  acordara  naquela  manhã  terrivelmente  angustiada.  -Príamo,  meu 

esposo e senhor! — disse ela, agarrada aos ombros do soberano. — Tive um sonho funesto que 

nada pressagia de bom quanto ao novo nascimento! O rei, apreensivo, tomou as faces da rainha 

em suas mãos. 

—    Hécuba,  querida,  acalme-se  e  conte-me  tudo!  —  disse  ele  com  decisão,  pois  temia 

muito os presságios funestos. 

A rainha, então, após enxugar as lágrimas que banhavam seu rosto, falou: 

—  Sonhei,  meu  esposo,  que,  no  lugar  de  um  belo  menino,  me  saía  das  entranhas  uma 

tocha, uma imensa tocha de labaredas ardentes! 

— Como pode ser?! — exclamou Príamo, aterrado. 

— E isto não é tudo! — acrescentou Hécuba, cujos lábios tremiam convulsa-mente. — 

Sonhei ainda que esta tocha ganhava vida e que alastrava suas terríveis flamas por todo o nosso 

reino, a ponto de só restarem ruínas após a sua passagem. 

Príamo desvencilhou-se involuntariamente dos braços hirtos de sua esposa e dirigiu-se até 

a janela dos aposentos reais. 

—    É  um  aviso  dos  deuses!  —  disse  ele,  baixando  a  cabeça,  como  quem  recebe  dos 

deuses imortais um terrível e inapelável decreto. — Só pode ser... 

Hécuba, no entanto, arrependida já de sua confissão e temendo as conseqüências de seu 

ato, tentou minimizar a situação: 

— Príamo, querido, acalme-se... — disse ela, pondo-se em pé. — Talvez não passem de 

tolas premonições! 

Mas era tarde, o rei já estava convencido de que aquele sonho era um aviso claro de que 

as Parcas sinistras tramavam algo terrível para si e seu reino. No mesmo instante foi consultar seu 

oráculo e ouviu dele a confirmação daquele terrível presságio. O novo bebê seria, de fato, a causa 

da ruína de sua Tróia amada e de todos os seus cidadãos, caso vivesse. 

— Só o sacrifício dessa criança evitará essa horrenda tragédia! — exclamara o adivinho, 

que pela primeira vez Príamo via proferir seu vaticínio de olhos esgazeados. 



No  dia  seguinte  a  criança  nasceu,  forte  e  saudável.  Contudo,  nem  bem  saíra  do  ventre 

materno e foi arrancada dos braços de Hécuba por seu esposo, que surdo ao seu pranto a deixou 

desfalecida sobre o leito. Enquanto carregava a criança para um destino que somente ele, Príamo, 

conhecia,  seus  olhos  estudavam  as  feições  do  garoto.  Era  um  belo  menino,  não  havia  como 

negar, e o rei sentiu seu coração apertar-se dentro do peito. "É meu sangue, também, que corre 

neste pequenino corpo!", pensava, enquanto percorria os corredores gelados do seu palácio com 

seu pequeno fardo ainda manchado do sangue da batalha que travara pela vida. 

"Não, não, desgraçado Príamo... Deves dar a este inocente o destino cruel que nos livrará 

a  todos  de  um  mal  ainda  maior...",  pensou  novamente,  e  com  tanta  força  que  temeu  que  suas 

últimas palavras reverberassem nas paredes imensas e nuas que levavam para fora do palácio real: 

"Um mal ainda maior... AINDA MAIOR... 

!" 


Lá fora o aguardava o pastor Agelau, encoberto por um manto negro e vergado por uma 

chuva torrencial que o vento lhe atirava em cima com toda a fúria. 

— Aqui está! — disse o rei, mirando o queixo do miserável pastor. 

—  Perdão,  Alteza  —  disse  o  pobre  homem,  tomando  o  pequeno  embrulho  nas  mãos 

vacilantes -, mas não quer refletir melhor sobre o destino que quer dar a este inocente? 

— Cale a boca, maldito! — rugiu Príamo, temeroso de que sua consciência o obrigasse a 

retroceder. — Sabe bem o dever que lhe imponho, e o que lhe espera caso não o cumpra com 

todo o rigor. 

Agelau introduziu, então, o pequenino embaixo de seu manto coberto de furos e lançou-

se à estrada, que a chuva e a neblina misturavam com a floresta. Assim, o pastor escalou até o alto 

do  monte  Ida,  conforme  as  instruções  que  recebera  do  rei,  e  tão  logo  alcançou  seu  destino 

sentou-se sob uma grande árvore, descobrindo novamente o rosto do garoto. 

— Ainda... vive... Ainda... vive... — disse o bom homem, num tom baixinho e quase sem 

fôlego, como se temesse que de tão perto das nuvens Láquesis, a Parca que corta o fio da vida 

humana, o pudesse escutar. "Agora, entretanto, devo abandoná-lo!", pensou agoniado. 

E assim fez. No fim do dia, entretanto, consumido pelo remorso, Agelau decidiu retornar 

ao local e, ao fazê-lo, deparou-se com uma cena espantosa. 

— Por Júpiter, será isto possível? — exclamou. 

Uma ursa enorme e marrom, deitada placidamente, amamentava o garoto! 

— Só pode ser um sinal dos deuses de que não desejam mais a sua morte! -ponderou ele, 

contente. 

Após  perceber  o  afastamento  da  ursa,  correu  então  até  o  bebê,  colocou-o  num  cesto  e 

levou-o para casa. Sua esposa ficou tão feliz com o novo filho que resolveu batizá-lo ali mesmo: 



— Se chamará Páris, posto que veio num cesto! — exclamou ela, pois "Páris" significava 

"cesto" na língua dos antigos gregos. 

O menino Páris virou em breve um belo rapaz e tornou-se pastor, tal como aquele que 

julgava ser o seu pai. Durante toda a sua juventude vagou pelos campos e encostas tangendo seus 

bois e levando uma vida amena, até o dia em que conheceu Enone, uma ninfa dos rios. Com ela 

manteve  um  relacionamento  intenso,  embora  não  pudesse  dizer  que  a  amava,  pelo  menos  não 

tanto a ponto de poder retribuir o sentimento intenso que esta lhe devotava. Assim, prosseguiu 

em  sua  vida  despreocupada,  promovendo  lutas  entre  os  seus  touros,  a  ponto  de  tornar  este 

passatempo a principal ocupação de sua vida. 

Estava nisto quando um dia viu chegar um soldado do rei Príamo, rei este que o jovem 

Páris nem desconfiava ser seu verdadeiro pai. 

—  Jovem  pastor,  o  rei  de  Tróia  nos  mandou  aqui  para  que  levemos  até  ele  o  melhor 

touro do rebanho. 

— Por quê? — disse Páris, temendo que levassem justo o seu animal preferido. 

— O rei pretende fazer um sacrifício funerário em honra de seu filho morto — disse o 

emissário. 

Páris levou o soldado até o rebanho e, com efeito, viu-o escolher justamente o touro de 

sua predileção. Em desespero, o jovem pediu então ao soldado que lhe permitisse ir junto, para 

ver  se  conseguia  recuperá-lo  nos  jogos  que  se  realizariam  concomitantemente  com  a  cerimônia 

expiatória. 

—  Como quiser — disse o emissário, que já ia conduzindo o touro pela estrada. 

Assim que chegaram em Tróia, Páris foi correndo se inscrever em todas as modalidades 

de  competição,  na  esperança  de  sair  vitorioso  ao  menos  em  uma  delas.  Foi  recebido  com 

escárnio, porém, pelos outros competidores, pois eram todos filhos das melhores famílias. Entre 

eles, inclusive, estavam vários irmãos de Páris. 

— Quem é este pastorzinho atrevido que ousa nos desafiar deste modo? -disse Deífobo, 

o mais encolerizado de seus irmãos. 

Ninguém sabe dizer direito, senão que é um pobre pastor. 

— Não se preocupe, Deífobo — disse um dos competidores. — Já na primeira disputa 

será esmagado como um piolho. 

Páris,  no  entanto,  acostumado  às  duras  lides  do  campo,  derrotou  com  facilidade  o  seu 

adversário  da  disputa  de  pugilato.  E  assim,  sucessivamente,  foi  derrotando  a  todos  nas  demais 

modalidades, a ponto de encolerizar definitivamente o seu invejoso irmão: 



— Basta, tocador de bois! — disse Deífobo a Páris, ao final da última disputa, sacando 

das dobras de sua túnica um afiadíssimo punhal. — Vai pagar agora por seu infame atrevimento! 

Páris,  desarmado,  viu-se  obrigado  a  buscar  refúgio  no  templo  de  Júpiter,  como  última 

alternativa  para  salvar  sua  vida.  Ao  entrar  lá,  porém,  encontrou  Cassandra,  também  sua  irmã, 

fazendo suas ofertas ao pai dos deuses. Esta mulher recebera de Apolo o dom da profecia, mas 

como desprezara o amor daquele deus, viu retirado de si o dom da persuasão, de modo que toda 

profecia que saía de seus lábios, apesar de verídica, não era jamais crida por ninguém. 

—    Você...  !  —  disse  Cassandra,  reconhecendo  logo  no  rapaz  que  entrara  esbaforido  o 

seu irmão funesto. 

Páris, no entanto, como não a conhecia, pediu-lhe apenas que o socorresse, pois jovens 

perversos  queriam  privá-lo  de  sua  vida.  Mas  nesse  instante  Deífobo  e  seus  sequazes  já  haviam 

também adentrado o templo. 

—    Cassandra,  afaste-se  deste  patife!  —  bradou  o  homicida,  num  terrível  transporte  de 

cólera. — Ele é um farsante, que por meio das fraudes mais vis pretende ter vencido o torneio 

instituído por nosso pai! 

Justo no instante, porém, em que Deífobo estava prestes a enterrar o punhal no peito de 

Páris, ouviu-se um grito vindo da multidão que a tudo assistia, estupefata. 

— Pare, Deífobo, filho de Príamo! Este que aí está não é outro senão Páris, sangue do 

seu sangue, em honra do qual se realizam estes jogos! 

Era  Agelau,  o  pai  adotivo  de  Páris,  que  havia  acompanhado  todos  os  passos  do  jovem 

desde a sua saída dos amenos pastos até a sua vitória na última competição. 

— O que diz este velho louco? — exclamou Deífobo, cuja mão continuava a apertar o 

ferro fatal com todas as suas forças, a ponto dos ossos dos dedos estarem prestes a romper a pele 

que os envolvia. 

— Sim, Deífobo, acalme a sua cólera, pois este que aqui está é Páris, filho de nosso pai 

Príamo  e  nossa  mãe  Hécuba  —  disse  Cassandra,  interpondo-se  entre  o  punhal  e  o  irmão 

ameaçado. 

Suas palavras, entretanto, por força da maldição que pesava sobre ela, não foram ouvidas. 

—  Cale-se,  tola  Cassandra!  —  gritou  Deífobo.  —  Haverá  aqui  alguém  ainda  disposto  a 

dar ouvido a seus disparatados delírios? 

Num  último  recurso,  então,  o  pastor  Agelau  sacou  de  sua  túnica  um  chocalho  que 

Hécuba, a mãe de Páris, pusera em suas mãos tão logo ele nascera. 

— Levem-no até a rainha e lhes digo se sua mãe não será capaz de reconhecer o próprio 

filho numa única olhada. 




Deste modo Páris foi levado à presença do rei e da rainha. E, de fato, tão logo Hécuba 

pôs os olhos em Páris sentiu seu sangue correr célere por todo o corpo. 

—  O  que  vejo,  Príamo,  meu  esposo,  diante  de  meus  olhos?  —  disse  a  rainha,  quase 

desfalecendo. 

— Eis seu filho, que julgavas erroneamente morto! — disse Agelau, estendendo a Hécuba 

o chocalho. 

Príamo, a seu turno, apesar de encolerizado com a desobediência do pastor, cedo viu este 

sentimento  desaparecer  por  completo  de  seu  peito,  por  força  do  orgulho  que  agora  de  si 

transbordava. Aquele bravo e destemido jovem, que vencera todas as competições, era seu filho. 

E que belo rapaz, digno da descendência sua e de Hécuba! E apesar de toda a oposição que os 

sacerdotes  moveram  para  que  Príamo  se  desvencilhasse  daquele  filho  amaldiçoado,  nada  pôde 

mover o rei outra vez a levantar a mão contra seu próprio sangue. 

— Que Tróia venha abaixo! — rugiu ele, sobrepondo o pai ao soberano. -Que não reste 

amanhã uma única coluna em pé no meu reino,  mas nem hoje nem nunca mais alguém ousará 

levantar  um  dedo  contra  este  meu  filho  que  vi  de  repente  retornar  do  Hades  sombrio  para  os 

meus braços. 

E assim Páris tornou-se outra vez filho de Príamo, apesar de todas as funestas previsões 

que  mais  tarde  o  confirmariam  como  o  causador  da  destruição  do  poderoso  reino  de  Tróia, 

também dito reino de Ílion. 

O POMO DA DISCÓRDIA

 

— Isso é que é festa de casamento! — disse o cavalo Bálios a seu amigo Xantos, também 



um eqüino. — Que alegria nos rostos, que harmonia vibrando no ar! 

—    E,  não  resta  dúvida.  Isto  é,  pelo  menos  por  enquanto...  —  respondeu  Xantos,  que 

guardava um ar de dúvida em meio ao alarido dos festejos. 

—  Como assim? — quis saber Bálios, arreganhando seus grandes dentes amarelos. 

— Bem, se ela chegar, como imagino que deve estar para acontecer, você logo entenderá 

o que quero dizer... — respondeu o segundo cavalo, balançando a cauda e a grande cabeça. 

Xantos referia-se a Discórdia, a única deusa que não fora convidada para as maravilhosas 

núpcias  de  Tétis  com  Peleu,  rei  de  Ftia  e  futuro  pai  do  grande  herói  Aquiles,  que  se  realizava 

naquele momento em frente à caverna do centauro Quíron. 

"Quem,  aquela  víbora  da  Discórdia?",  dissera  Tétis,  ao  ser  sugerido  o  nome  da 

desagradável divindade para integrar a lista dos convidados. "Nem morta esta praga colocará os 

pés na minha festa!", esbravejara a mais bela das nereidas a Júpiter. 




Graças  a  isto  a  festa  transcorrera  até  ali  em  maravilhosa  harmonia.  Por  tudo  só  havia 

sorrisos, brindes e congratulações. 

—  Querida  Tétis!  —  dissera  Vênus,  abraçando-a,  banhada  em  riso.  —  Sua  festa  não 

poderia estar mais encantadora! 

Peleu,  por  sua  vez,  recebia  os  efusivos  cumprimentos  de  Apolo,  o  qual  dedilhara 

momentos antes a sua afinada lira em homenagem aos noivos. 

Quanto aos dois cavalos falantes que abrem esta narrativa, eram o presente que Netuno, o 

deus dos mares, havia ofertado ao novo casal. Ambos se mantinham juntos, a observar deliciados 

toda aquela alegria. 

—  Verdadeiramente  uma  festa  divina!  —  disse  Bálios  a  Xantos,  num  transporte  de 

entusiasmo. 

Este, no entanto, continuava a fremir desconfiadamente as suas narinas, com a intuição 

peculiar que têm os animais para farejar as grandes catástrofes. 

—  Vênus  amada,  venha  até  aqui!  —  disse  Juno,  esposa  de  Júpiter,  que  estava  numa 

conversa animada com Minerva, a deusa que nascera da cabeça do pai dos deuses. 

—  Queridas, há quanto tempo! — exclamou a deusa do amor, parecendo felicíssima ao 

rever suas amigas. — Nossa, nunca as vi tão belas! — acrescentou enfaticamente. 

— Ora, você é que está simplesmente deslumbrante! — disse Minerva, arregalando seus 

belos  olhos,  ao  mesmo  tempo  em  que  ajeitava  melhor  a  alça  direita  do  seu peplo  recamado  de 

motivos guerreiros. 

Enquanto essa encantadora troca de elogios prosseguia, algo de estranho, ocorria sobre as 

cabeças das deusas. Uma grande sombra ocultara o sol, tornando a atmosfera gélida e opressiva. 

O cavalo Bálios, contudo, fora o único a perceber a estranha mudança. Em vão, porém, procurou 

divisar no céu a misteriosa nuvem. 

—  Não é nuvem — disse seu colega Xantos, com a placidez dos profetas quando vêem 

confirmar-se as suas mais negras profecias. — É ela. 

Sim, pairando acima das três amigas, lá estava a terrível deusa Discórdia, tornada invisível 

por  suas  artes  mágicas.  Os  dois  cavalos,  no  entanto,  podiam  vê-la  perfeitamente,  com  os 

emaranhados  cabelos  de  serpente  presos  por  uma  tiara  ensangüentada  encobrindo  seu  olhar 

desvairado.  Ao  mesmo  tempo,  de  sua  boca  escorria  uma  espuma  abundante  que  ela  limpava  a 

intervalos com as mãos de unhas tintas de sangue. 

—  Ora  vejam,  que  detestáveis  hipócritas...  —  grunhiu  a  repulsiva  criatura,  fazendo 

esgares de ódio que excediam em horror aos da temível Górgona. — Quem ouve pensa que são 

as menos vaidosas das criaturas! 




— Não, não, queridas! — teimava Vênus — Vocês estão absolutamente imbatíveis! 

—  Argh,  puáá!  —  fez  a  abominável  deusa,  cuspindo  para  baixo  uma  baba  vermelha  e 

espessa. — Vamos acabar já com este fingimento todo. 

Imediatamente  a  Discórdia,  sedenta  por  uma  disputa,  sacou  de  suas  vestes  uma  maçã 

dourada que reluziu em suas mãos. Com a mais afiada de suas unhas inscreveu, então, no fruto, a 

seguinte frase: À mais bela. 

—  Muito  bem,  agora  veremos  até  onde  irão  as  tais  cortesias  —  disse,  perfidamente, 

largando o fruto descuidadamente no meio das deusas. 

Vênus, Juno e Minerva ainda estavam trocando animados elogios, sentadas cada qual em 

um balanço de flores, quando a primeira escutou um ruído aos seus pés. Tum-tum-tum-tum. 

— O que é isto...? — disse a deusa do amor, atraída pelo ruído fofo do pomo rolando na 

relva. 


Juno ergueu seus olhos e viu o fruto faiscar nas mãos de Vênus. 

—  Que  maravilha  é  esta  que  aí  tens?  —  disse  a  esposa  de  Júpiter.  Mas  Vênus  estava 

inteiramente absorta na contemplação do esplêndido 

fruto. 


Minerva, por sua vez, deu um pulo de seu balanço e também foi ver mais de perto o que 

era aquilo que tanto brilhava. 

— Uma maçã de ouro! — exclamou, aproximando o rosto. 

—  Esperem,  há  algo  escrito  nela  —  disse  Vênus,  girando  o  fruto  na  mão.  Um  brilho 

intenso banhou o rosto das duas. 

—  A  mais  bela!  —  gritaram  as  três,  enlevadas.  Durante  alguns  minutos  estiveram 

mergulhadas num estupor, até que Minerva finalmente quebrou o silêncio: 

— Mas... de onde veio isto, afinal? As três perscrutaram tudo ao redor, mas sem poder 

divisar ninguém, a não ser os dois cavalos, que de longe as observavam com as orelhas em pé. 

Quando  Vênus  baixou  os  olhos  de  volta,  entretanto,  só  encontrou  um  vazio  entre  os 

dedos, pois Juno já havia se apoderado avidamente do fruto. 

— A mais bela...! — repetia ela, como que enfeitiçada. 

— Sim, mas não traz o nome da eleita? — disse Minerva. 

— Ora, querida, e precisa? — disse Vênus. 

— Claro que não — disse Juno apoderando-se vivamente da jóia. — Está claro que foi 

endereçada a mim. 

Vênus e Minerva num primeiro momento, perderam a voz, enquanto Juno. esfregava em 

suas vestes o fruto, parecendo prestes a dar-lhe uma dentada. 




— Só um momento, meu amor — disse Vênus, raptando o pomo das mãos de Juno. — 

Quem tiver o bom senso de procurar direito o nome da homenageada irá logo descobrir que só 

pode ter sido enviado a mim. 

As  três  então  se  reuniram  avidamente em  torno  do  pomo,  tentando  divisar  cada  qual  o 

seu nome:. 

— Ali está! — gritou Juno. — Vejam se não é a minha inicial gravada nitidamente. 

Não, não era, contestaram decididamente as outras. 

— Pfff... E apenas uma falha do fruto — disse Minerva com um muxoxo de desdém. 

Enquanto  a  disputa  prosseguia,  a  perversa  Discórdia  esfregava  ao  alto  as  suas  grandes 

mãos, cheia de satisfação. 

— Basta, suas idiotas! — bradou Vênus, mandando às favas o resto de sua boa educação. 

— Como ousam atribuir a si uma homenagem que está claramente dirigida a mim? 

— Atrevida! — rugiu Minerva. — Cale a boca e devolva já o meu fruto! 

A  disputa  se  acendera  definitivamente.  Os  olhos  das  três  agora  despediam  chispas  de 

puro  ódio  enquanto  o  pomo  passava  de  mão  em  mão  a  cada  descuido,  o  que  só  servia  para 

inflamar  ainda  mais  os  ânimos.  Ao  mesmo  tempo  os  dois  cavalos  continuavam  a  observar  a 

disputa, que estava prestes a degenerar numa troca de tapas. 

— Vamos avisá-las do que realmente se passa — disse Bálios ao seu colega eqüino. 

—  Está  louco?  —  disse  Xantos,  valorizando  sempre  a  prudência.  —  Se  em  briga  de 

mortais não convém meter a colher, o que dirá de uma briga de deusas? Além do mais, sabe-se lá 

que castigo poderá nos impingir aquela megera, causadora de toda a discórdia. 

E assim transcorreu o restante da festa, num clima de rancor indisfarçado. O fel já havia 

sido deitado na taça do hidromel e agora só restava todos regressarem desconsolados para suas 

casas. Quanto às deusas, teve início naquele dia uma desavença que se estendeu por vários anos, 

até que um dia Júpiter resolveu pôr um fim à amarga querela. 

— Mercúrio, venha cá! — disse o deus supremo a seu filho dileto. 

— Pois não, meu pai — respondeu o jovem dos pés ligeiros. 

— É chegada a hora de pormos um fim nesta briga insensata que até hoje só nos trouxe 

desgostos. 

— O senhor refere-se à disputa pelo pomo dourado? — disse Mercúrio. 

— Exatamente — disse Júpiter. — Quero que você conduza as três pretendentes até o 

alto  do  monte  Ida  para  que  Páris,  filho  de  Príamo,  decida  de  uma  vez  a  quem  pertence  este 

berloque maldito. 



Páris  era  um  jovem  pastor,  filho  do  poderoso  rei  de  Tróia,  o  qual  fora  abandonado  às 

feras por seu pai logo ao nascer devido a uma funesta profecia que o apontava como causador da 

futura  ruína  da  sua  pátria.  O  menino,  no  entanto,  sobrevivera,  tendo  sido  primeiro  alimentado 

por uma ursa e logo depois criado por um casal de pastores. 

—  Está  bem,  meu  pai  —  disse  Mercúrio,  ajeitando  já  as  suas  sandálias  aladas.  —  Mais 

alguma coisa? 

— Está dito tudo — disse o deus supremo, pondo fim à conversa. 

No  mesmo  dia,  Mercúrio  reuniu-se  às  três  querelantes,  que,  mesmo  emburradas  umas 

com as outras, resolveram acatar judiciosamente a ordem de Júpiter. 

Em breve chegaram ao alto do monte Ida, onde encontraram o jovem Páris apascentando 

seu  rebanho.  O  jovem  levara  até  ali  uma  vida  sem  grandes  emoções,  e  neste  dia  mostrava-se 

especialmente aborrecido. 

—  A  verdade  é  que  esta  calma  toda  começa  já  a  me  irritar...  —  disse  ele,  erguendo  os 

olhos  para  o  alto,  depois  de  observar  pela  milésima  vez  as  expressões  sempre  inalteravelmente 

aborrecidas  do  seu  gado.  De  repente,  porém,  quando  desceu  os  olhos  de  volta  à  Terra,  viu 

postadas diante de si as figuras majestosas das três divindades mais belas do Olimpo e do divino 

mensageiro de Júpiter. 

— Pelos deuses! — exclamou Páris, assombrado. — Estarei sonhando? Mercúrio então 

adiantou-se, dizendo: 

— Ó jovem Páris, você foi agraciado com uma honra que raras vezes terá cabido a um 

simples mortal. 

— Que honra, ó mensageiro divino? — exclamou o pastor, assombrado. 

—  Meu  pai  decidiu,  em  sua  soberana  onipotência,  que  você  será  árbitro  de  uma  árdua 

disputa, que tanta inquietude tem trazido ao antes ameno Olimpo. 

Mercúrio  então  contou  toda  a  história,  que  Páris  acompanhou  boquiaberto.  As  três 

deusas, a cada passo do relato, sentiam renovar-se em seus peitos as chagas da velha contenda, 

olhando umas para as outras com renovado ódio. 

— Mas que justiça poderei dispensar eu, pobre pastor, a três deusas que por definição são 

sábias e justas? 

Mercúrio deu um leve pigarro, algo desconcertado, interrogando o pastor: 

— Júpiter confia no seu discernimento, e se lhe entregou esta tarefa é porque tem razões 

de  sobra  para  pensar  assim.  Não  cabe  a  você,  pobre  mortal,  vasculhar  os  argumentos  da 

divindade suprema! — acrescentou Mercúrio, pondo um fim nas recusas de Páris. 



Páris, então, não tendo outro jeito, pensou um pouco e disse consigo: "Já sei como farei 

para contentar a todas e não incorrer na cólera de nenhuma!" 

—  Vou  dividir  o  pomo  em  três  —  anunciou,  aliviado.  —  Desta  forma  farei  justiça  à 

beleza de todas. 

Mas nenhuma delas aceitou essa solução conciliatória. "Como?! E admitir que não sou a 

mais  bela?",  pensaram  ao  mesmo  tempo  as  três  deusas,  iradas.  Além  do  mais,  revelou-se 

impossível  repartir  o  pomo  dourado.  Não  vendo  outra  solução,  Páris  decidiu  escutar  os 

argumentos  de  cada  uma  das  deusas,  em  separado.  Primeiro  chamou  Juno,  que  se  apresentou 

repleta de argumentos. 

— Um dos atributos da beleza é ser justa, meu jovem — disse a esposa de Júpiter, que 

achava-se  um  exemplo  de  Justiça,  sentando-se  ao  lado  de  Páris.  -Por  isto  confio  no  seu 

julgamento. 

O  pastor,  agora  investido  da  autoridade  de  juiz,  decidiu  agir  como  tal,  fazendo  ouvidos 

moucos à lisonja da deusa. Juno, então, decidiu recorrer logo às suas razões: 

—  Sou  esposa  do  soberano  do  Olimpo,  lembre-se  sempre  disto,  meu  jovem.  Por  isto, 

posso  oferecer-lhe  o  que  nenhuma  das  outras  jamais  poderá.  Saiba,  pois,  que  farei  de  você 

soberano de toda a Ásia e o homem mais rico do mundo. Todas as cabeças se curvarão assim que 

for anunciada, por arautos magnificamente trajados, a sua augusta presença, e a sua vontade será 

tão importante que antes mesmo de manifesta será adivinhada por seus fidelíssimos súditos. 

Páris escutou os argumentos de Juno com toda atenção e reverência; mas em seu íntimo 

já havia decidido que não cederia nem a honras nem a riquezas. "Tão somente Têmis, a deusa da 

justiça, irá inspirar os termos de meu julgamento", pensou o rapaz. Por isto, mandou chamar logo 

Minerva,  não  sem  antes  garantir  àquela  que  partia  que  a  mais  cristalina  justiça  seria  o  farol 

cintilante de seu julgamento. 

A deusa da guerra aproximou-se em seguida, e num passo firme foi logo dizendo: 

— Belo pastor, bem sei que seu julgamento haverá de me ser favorável. Por isto afirmo 

que  muito  em  breve  você  será  pastor  não  mais  de vacas  ou  de  carneiros,  mas  dos  mais  bravos 

soldados que jamais um comandante guiou neste mundo. Ao menor comando que sair dos seus 

lábios, legiões inteiras de guerreiros levantar-se-ão como um único homem. 

Mas  Páris  não  desejava  comandar  exércitos,  contentando-se  em  guiar  com  clareza  e 

retidão  os  seus  próprios  instintos.  Assim,  depois  de  dispensar  gentilmente  a  deusa  da  guerra, 

pediu que Vênus viesse até si para fazer a sua defesa. 

A deusa do amor, mais ousada que todas, tomou então nas mãos o rosto do jovem Páris e 

o aproximou tanto do seu que os lábios quase se tocaram. 




— Veja como sou bela — disse a deusa, com uma entonação absolutamente irresistível. 

— E no entanto tive de admitir, desde a primeira vez em que o vi, que minha beleza finalmente 

encontrara um símile digno dela, meu belo rapaz. Certamente, se eu fosse um homem, aspiraria a 

ter o encanto dos seus belos traços — completou a sedutora deusa, percorrendo com o dedo o 

desenho do rosto de Páris. 

—  Suas  palavras  não  poderiam  deixar,  generosa  deusa,  de  confirmar  a  beleza  inteira  da 

sua  formosa  natureza  —  disse  Páris,  procurando  ser  gentil  diante  de  tamanho  elogio.  —  Mas 

receio que excedam um pouco à verdade. 

— Não, jovem encantador, digo apenas o que meus olhos podem confirmar — ajuntou 

Vênus,  pronta  para  expor  seu  argumento  principal.  —  Venho,  no  entanto,  oferecer  a  você  um 

amor que excederá a qualquer outro que homem algum jamais aspirou. 

Páris bebia insensivelmente as palavras da deusa. 

— Existe uma rainha mais bela que todas e que, a exemplo de mim, é também filha de 

Júpiter.  Esta  mulher  foi  gerada  pela  belíssima  Leda,  filha  do  rei  da  Etólia,  e  é  hoje  esposa  de 

Menelau, rei de Esparta. 

— Mas quem é ela, ó deusa? — disse o pastor, incrédulo. 

— Ora, meu tolo efebo, estou falando da bela Helena, a mulher mais cobiçada de toda a 

Hélade! — disse a deusa, triunfante. — Se me der o pomo, farei com que ela se renda totalmente 

aos seus encantos. Você será, assim, o homem mais feliz a pisar sobre a Terra e invejado mesmo 

pelos deuses! 

— Confesso que não sei de quem se trata... Mas não posso negar que já sinto meu peito 

incendiado por algo que não sei ainda definir — disse Páris, confuso. 

Mal sabia, contudo, o jovem pastor, que Cupido, o filho de Vênus, estivera o tempo todo 

oculto  atrás  de  uma  árvore  e  que,  a  um  sinal  de  sua  mãe,  havia  acertado  uma  de  suas  flechas 

certeiras bem no seu coração. 

—  Mas  ela  é  casada...  —  disse  Páris,  agoniado.  —  Como  poderei  esperar  que  ela  deixe 

esposo, reino e súditos para ficar comigo, um pobre e ignaro pastor? 

— Nada temas, meu tolo — disse Vênus com o mais sedutor de seus sorrisos. — Não é a 

própria deusa do amor quem se propõe a ser a fiadora e garantia do seu amor? 

Páris,  então,  completamente  rendido  às  razões  da  deusa,  outorgou-lhe  finalmente  o 

prêmio  do  pomo  dourado.  Mal  sabia,  porém,  que  com  isto  iria  acender  a  ira  das  outras  duas 

deusas, Juno e Minerva, e que sua funesta paixão pela bela Helena seria o estopim da mais terrível 

guerra que a Antigüidade conheceria. 

O RAPTO DE HELENA

 



— Helena... Helena... Helena...! 

Dia  após  dia,  o  jovem  Páris,  filho  de  Príamo,  rei  de  Tróia,  sussurra  este  nome,  com  a 

mesma persistência de um antigo coro trágico. 

Este nome, na verdade, não lhe sai da cabeça desde o dia em que concedera a Vênus o 

pomo da Discórdia, recebendo desta, em troca, a promessa de que seria amado pela mulher mais 

bela da face da Terra. 

— Ela será sua, eu lhe garanto! — lhe dissera a deusa com toda a força de sua sedutora 

argumentação.  —  Por  você  ela  deixará  marido,  posição  e  riqueza.  Que  outra  prova  maior  de 

amor poderia exigir um mortal? 

Páris  está  imerso  nestes  pensamentos  quando  ouve  um  arauto  declarar  a  seu  pai  que 

Menelau, rei de Esparta, está prestes a chegar a Tróia. 

— Menelau chegará? — exclama ele, involuntariamente. 

—  Sim,  meu  filho  —  diz  Príamo,  voltando-se  para  ele.  —  O  oráculo  de  Delfos 

determinou  que  ele  venha  até  nós  para  reaver  os  ossos  de  dois  de  seus  soldados  que  aqui 

pereceram durante a expedição que Hércules fez à nossa pátria. 

A notícia é importante demais para que Páris possa conter sua curiosidade. 

— Ele virá sozinho, meu pai? — diz o jovem, fixando o grande tapete sob os seus pés. 

Ali  está  representada  Europa,  nua  e  aflita,  que  Júpiter,  sob  a  forma  de  um  magnífico  touro 

branco, rapta virilmente para dentro do mar. 

— Trará apenas uma pequena comitiva — diz simplesmente o rei. 

Páris compreende então que não será ainda desta vez que saciará a sede dos seus olhos. 

Mas já será alguma coisa poder conhecer o homem que o destino investiu na condição de rival. 

No dia seguinte chega o visitante com sua comitiva. O rei troiano o recebe com toda a 

pompa. Junto ao anfitrião estão seus filhos, Heitor, Deífobo e Páris. Este último não pode deixar 

de arregalar os olhos quando é finalmente apresentado a Menelau. O jovem sente que a palma de 

sua mão está suada quando o cumprimenta. 

—  Um  filho  que,  sem  dúvida,  faz  jus  ao  próprio  pai,  ó  Príamo  audaz!  —  diz  Menelau, 

cujas palavras são sempre sinceras. 

Páris abaixa a cabeça, um tanto encabulado, pois sabe que tem diante de si o homem que 

em breve deverá atraiçoar. Enquanto Menelau conversa com seu pai, Páris estuda-lhe melhor as 

feições, detendo-se em seus olhos de pupilas cristalinamente azuis. "Talvez haja nelas um pálido 

reflexo da efígie da mulher que um dia será minha!", pensa o rapaz, com a ingenuidade própria da 

juventude. 



Durante  os  próximos  dias  Páris  faz-se,  então,  anfitrião  perfeito  do  rei  espartano, 

ajudando-o a encontrar rapidamente os ossos dos seus soldados. 

—  Se  não  fosse  a  sua  ajuda,  hospitaleiro  filho  de  Príamo  —  diz-lhe,  ao  fim  da  visita, 

Menelau —, não sei se teria obtido sucesso em minha missão. Por isso quero que você vá até o 

meu  reino  o  mais  breve  possível,  para  que  eu  possa  retribuir  à  altura  o  tratamento  que  me 

dispensou. 

Essa  oportunidade  não  tarda  muito,  pois  algum  tempo  depois  Príamo  organiza  uma 

expedição com destino à terra de Menelau, liderada por seu primo Enéias. 

— Páris — diz o rei troiano —, quero que vá com meu primo a Esparta retribuir a visita 

que Menelau nos fez. Aproveite também a ocasião para trazer consigo minha irmã Hesíone, que 

lá se encontra há muitos anos. 

Finalmente a ocasião se apresenta! Páris  sente suas pernas vacilarem, e é a custo que as 

palavras de assentimento saem de sua boca: 

— A sua vontade, meu pai, será sempre o leme dos meus atos. 

Alguns  meses  depois,  Páris,  juntamente  com  Enéias,  está  prestes  a  partir.  Do  alto  das 

naves,  ambos  comandam  os  últimos  preparativos.  Mas  embora  toda  a  balbúrdia  do  embarque, 

não é ela o bastante para impedir que se faça ouvir uma voz feminina que brada em terra, com 

todas as suas forças: 

—  Páris,  meu  irmão!  Desista  desta  funesta  expedição,  pois  ela  será  primeiro  passo  de 

nossa ruína! 

— Vejam só! — diz um dos membros da expedição. — É Cassandra, a profetisa que os 

deuses privaram do dom da persuasão. 

Um  grasnar  insolente  de  risos  espalha-se  no  ar  como  um  bando  de  aves  barulhentas. 

Porém é logo reduzido ao silêncio pela voz poderosa de Páris. 

— Silêncio, rufiões! Partamos logo de uma vez! — diz o filho de Príamo, do alto da proa 

de sua embarcação. — Quanto a você, minha irmã, serene sua alma, pois são bons ventos que 

nos levam até a pátria do generoso Menelau. 

E, sem mais dizer, partem todos rumo a Esparta. 

Alguns dias depois, na terra de Menelau, todos já estão na expectativa da chegada do filho 

de Príamo. O rei já concluiu todos os preparativos para receber à perfeição os seus hóspedes. 

—  Helena  querida  —  diz  ele  à  sua  amada  esposa  -,  é  preciso  que  os  recebamos  como 

nunca  antes  visitante  algum  foi  recebido.  Façamos  com  que  sua  estada  em  nossa  pátria  seja 

lembrada ainda por muitos séculos como exemplo de cortesia e amizade. 

Helena recolhe-se celeremente aos seus aposentos. 




— Preciso, então, fazer-me ainda mais bela, se tal será a importância de nosso hóspede. 

Pois o que dirão da esposa de Menelau, se não sabe estar à altura da cortesia de seu marido? 

Assim  pensa  Helena,  desnudando-se  inteira  diante  do  grande  espelho  que  enfeita  seu 

quarto.  Depois  de  admirar  um  quadro  que  somente  o  seu  marido  Menelau  tem  o  privilégio  de 

contemplar,  faz  com  que  uma  delicada  esponja  percorra  suas  formas  perfeitas,  embebendo  sua 

pele  de  um  aromático  perfume.  Isto  feito,  veste  seus  melhores  trajes  e  enfeita-se  com  as  jóias 

mais faiscantes que olho humano algum ousou contemplar. 

Agora  Helena  está  sentada,  enquanto  compõe  sua  maravilhosa  cabeleira,  cujos  fios 

parecem ter sido descosidos da própria Noite e tecidos outra vez sobre a sua encantadora cabeça. 

Abaixo deles fulguram duas esmeraldas, que despedem o brilho intenso de duas estrelas, e logo 

em seguida, abrigada sob a arcada perfeita de um nariz aquilino, está harmoniosamente posta uma 

boca úmida, de lábios naturalmente escarlates. 

Algumas  horas  mais  tarde  Menelau  manda  que  a  chamem,  pois  os  visitantes  já  se 

aproximam do porto com seus imponentes barcos. 

— Importa muito, minha amada, que os recebamos tão logo pisem o solo de nossa pátria 

— diz-lhe o esposo, que enverga seu traje mais esplêndido. 

O  cais  está  todo  embandeirado.  Músicos  e  povo  estão  misturados  aos  membros  das 

melhores famílias. E adiante de todos está o casal real, Menelau e Helena. 

— Eis que chegam, cara Helena! — diz o rei, cujos olhos luzem de expectativa. A rainha, 

contudo,  apesar  de  compartilhar  da  curiosidade  de  seu  marido,  está  um  tanto  confusa  com  o 

alarido que a plebe promove ao redor, tirando-lhe a vista dos navios. Volta-se, então, para ver no 

rosto de seu esposo a satisfação que toda aquela alegre balbúrdia lhe traz. "Menelau é de fato um 

homem nobre!", pensa ela, enquanto admira as feições radiantes do rei. Envolvida, porém, com 

todos aqueles acontecimentos, não percebe que oculto atrás de uma das colunas do ancoradouro 

está Cupido, o filho de Vênus. Ele esquadrinha atentamente as menores reações da esplendorosa 

rainha. 


—  Se  não  fossem  as  ordens  expressas  de  minha  mãe,  eu  a  faria  apaixonar-se  por  mim, 

divina Helena! — diz o irrequieto arqueiro, também fascinado pela beleza daquela mortal. 

Nesse instante os visitantes desembarcam e se aproximam do local onde Menelau e sua 

esposa estão. Contudo, antes mesmo que lá cheguem, os olhos ansiosos de Páris já encontraram 

os olhos serenos de Helena. A claridade insolente do dia que a cerca desaparece, então, diante do 

fulgor quase sobrenaturalmente divino que emana de si. 

Páris a reconhece imediatamente como a mulher de sua vida. 



"Eis Helena!", exclama interiormente o recém-chegado. "A mulher que povoou todos os 

meus sonhos é, então, infinitamente mais bela do que eu esperava!" 

De repente, porém, ele descobre que tem diante de si o seu anfitrião. 

—  É  com  prazer  infinito  que  meus  olhos  contemplam  outra  vez  você,  jovem  filho  de 

Príamo! — diz Menelau, estendendo-lhe generosamente os dois sólidos braços. 

Páris,  desconcertado,  retribui  as  palavras  do  rei  com  um  agradecimento  improvisado. 

Enquanto  isto,  Helena  aguarda  a  sua  vez  de  cumprimentar  o  jovem,  que  até  então  não  lhe 

provocara mais que uma natural admiração. Entretanto, o deus do amor já assesta a sua pontaria 

para o coração da rainha. 

— Conhece já o amor, encantadora rainha — diz Cupido, esticando ao máximo a corda 

de seu certeiro arco. — Chegou, porém, a hora de conhecer a quintessência do amor! 

Tão  logo  os  olhos  de  Helena  pousam  nos  olhos  de  Páris,  uma  flecha  certeira  que  leva 

inscrita a palavra "paixão" vara implacavelmente o seu coração. 

"Vênus soberana, o que sinto... ?", pensa Helena, aturdida. Uma chama ardente sobe do 

seu  peito  e  tinge  de  vermelho  suas  faces  quando  seus  olhos  fitam  pela  primeira  vez  os  olhos 

chispantes de Páris. 

—    Uma  honra  nunca  imaginada  me  chega  agora  como  uma  dádiva  dos  deuses:  a  de 

poder contemplar neste instante a mais sublime rainha de quantas a Hélade inteira pôde gerar...! 

— diz Páris, curvando sua cabeça, num estratagema sutil que lhe permite recobrar um pouco o 

autocontrole. 

"Oh, Júpiter supremo! Como ocultar doravante o amor divino que brilha em meus olhos, 

sem  que  mil  outros  olhos  profanos  o  devassem?",  pergunta-se  Páris,  aflitamente  feliz  com  este 

novo e doce dilema. 

Helena, a seu turno, está como que imersa num sonho e, sentindo agora que suas cores 

lhe fogem do rosto, abaixa também a cabeça. Quando a ergue novamente está misteriosamente 

sentada numa grande mesa, em algum lugar que lhe parece vagamente familiar. Reconhece a voz 

de seu esposo, que parece mencionar o seu nome. Quando se volta assustada para o lado, porém, 

quem seus olhos encontram é aquele mesmo jovem que a atordoara. Sim, ele está sentado entre 

ela e Menelau, que entretém uma conversa animada com Enéias, o companheiro de viagem que 

Páris trouxe consigo de Tróia. 

—  Uma  viagem  é  sempre  um  enigma,  meu  caro  rei  —  diz  uma  voz  indistinta.  Como 

quem  desperta  de  um  sonho,  Helena  vê  rostos  vagos  começarem  a  se  desenhar  à  sua  frente. 

Comensais e glutões de toda espécie, que interesses políticos obrigam o  soberano a manter em 

sua  mesa,  ali  estão  alegremente  refestelados,  erguendo  brindes  diversos,  mas  que  no  fundo  são 




sempre  os  mesmos,  pensando:  "Felizes  de  nós,  que  privamos  da  mesa  do  rei!".  O  resto  do 

banquete passa-se como num sonho acordado, e é a custo que Helena consegue voltar seu rosto 

para  o  lado,  pois  sabe  que  encontrará  aqueles  mesmos  olhos  que  a  enfeitiçaram.  No  entanto, 

pode sentir o tempo todo aquela presença viril, e cada vez que a voz de Páris soa é como se fosse 

dirigida a ela própria. 

Ao final da recepção, Helena está exausta e vai direto para os seus aposentos. 

—  Então,  o  que  achou  de  nossos  convidados?  —  pergunta-lhe  Menelau,  enquanto 

observa as escravas despirem-na. 

— Enéias parece ser um homem muito determinado — diz a rainha, com um ar distraído. 

— E o que achou do filho de Príamo? — retorna Menelau. 

— Não reparei... Talvez um tanto inexpressivo — gagueja Helena, deitando-se logo em 

seguida. 

Os dias passam, e a rainha faz de tudo para não cruzar com o forasteiro, até que um dia as 

Parcas decidem armar-lhe uma cilada, que porá por terra todas as suas defesas. 

— Helena querida, tenho de partir imediatamente — diz o seu esposo numa manhã. 

—    O  que  diz?  —  exclama  a  bela  Helena,  ao  mesmo  tempo  apreensiva  e 

involuntariamente feliz. 

— Catreu, meu avô, faleceu. Devo partir ainda hoje para assistir aos seus funerais. 

Em seguida ele a abraça fortemente. 

—  Confio que saberá entreter os nossos hóspedes de tal modo que não sintam a minha 

ausência! 

—  Volte  logo,  meu  marido  —  responde  Helena,  sabedora  de  que,  se  assim  não  for, 

dificilmente poderá resistir à terrível tentação que se avizinha. 

Antes do final do dia o rei já singra os mares em direção a Creta, enquanto a noite desce 

seu manto sobre Esparta. Helena está sozinha no palácio. Os dedos de suas mãos entrelaçam-se 

convulsamente, enquanto ela observa da janela um céu carregado de nuvens. De repente, sente 

que às suas costas alguém se aproxima. Ela não precisa voltar-se para saber quem é. 

— Você! — exclama ela, fingindo-se surpresa ao fitar o rosto de Páris. 

— Peço licença, amável rainha, mas preciso muito lhe falar — diz o jovem, alterado. 

— A hora talvez não seja a mais propícia, jovem imprudente... — diz ela, com um meio 

sorriso, sem saber se leva a mal a pequena audácia do estrangeiro. 

Ele, no entanto, não retribui o sorriso. 

—  Imprudência...  Talvez  seja  isto  mesmo,  encantadora  rainha.  Os  fados  me  obrigam 

agora a fazer uso desta perigosa palavra. 




— Que diz? — fala ela, retomando sua apreensão. 

— Não, imprudência não... Ousadia, talvez seja o termo apropriado, pois sem ela o amor 

será sempre uma palavra vã! 

Helena põe-se em pé, retrocedendo alguns passos. 

— Estrangeiro, você abusou dos dons de Baco? — diz ela. 

—  Não,  divina  rainha...  Bebi  foi  a  beleza  de  seus  encantos...  E  esta  embriaguez  está 

prestes a me levar ao último extremo da ousadia e, quem sabe, mesmo, da perversidade. 

Helena reconhece, então, que chegou a hora tão temida. 

— Vamos, procure se acalmar— diz ela, mais para si mesma do que para ele. 

— Deixe-me falar-lhe — diz ele, surdo a tudo e avançando na direção da rainha. Helena 

baixa  seus  olhos,  corando  terrivelmente.  Páris,  a  seu  turno,  percorre  com  os  olhos  todo  o 

aposento. 

— O que procura? — diz Helena, ao erguer novamente a cabeça. 

— Não procuro, bela Helena... Eu temo... — diz ele, enigmaticamente. 

— Não entendo... — sussurra a rainha, negaceando levemente a cabeça. 

— Oh, como temo... — diz o jovem com o rosto aceso. — Temo os olhos de todos! Eu 

os vejo por toda a parte, me observando, me inquirindo, me espionando... 

A rainha está agora aturdida, e sua mão cobre seu rosto. De repente, porém, ela sente que 

algo  a  afasta  num  brusco  repelão.  Por  um  breve  instante  enfurece-se  com  o  visitante,  até 

descobrir  que  não  fora  ninguém,  senão  ela  mesma,  quem  afastara  a  própria  mão.  Ao  mesmo 

tempo algo dentro dela a obriga a fixar as feições daquele homem. 

—  São  meus  olhos,  jovem  Páris...  São  meus  próprios  olhos,  feitos  em  mil,  que 

incessantemente  lhe  buscam!  —  diz,  enquanto  seus  braços  descaem  lentamente,  ao  longo  do 

corpo. 


—  Então...  sente  o  mesmo  que  eu?  —  sussurra  ele,  tentando  abafar  a  custo  o  seu 

entusiasmo. 

Um silêncio afirmativo ilumina os olhos de Helena. Então ele acrescenta, num jato: 

—  Helena,  Helena...  Só  haverá  esta  oportunidade,  Helena  amada...  Durante  alguns  instantes 

ambos  se  estudam  avidamente.  Então,  bruscamente,  as  bocas  de  ambos  colam-se  num  sôfrego 

beijo. 


—    Sim...  eu  te  amo...  Páris  adorado...  —  diz  ela,  rendida  de  vez  àquele  irreprimível 

desejo. Depois de trocarem mil beijos, Páris toma a cabeça da rainha em suas mãos. 

— Helena, adorada! Venha comigo para Tróia! — diz, inflamado. 



—  Não  posso!  —  exclama  ela,  tentando  desvencilhar-se  daquelas  mãos  firmes.  Mas  ela 

sabe que seu destino já está selado. 

—  Serás, doravante, Helena de Tróia! — diz Páris, feliz, pois já leu nos olhos da amada que 

nada a impedirá de unir-se a dele. 

Durante toda a noite fazem-se, então, os preparativos para a fuga. Helena, quase histérica, 

tem a cabeça em fogo. 

— Vênus suprema, proteja-me da fúria de Menelau! — diz ela, enquanto encaixota seus 

pertences com a ajuda de suas escravas, que também irão consigo. 

— Levemos também os tesouros do reino! — exclama Páris, num gesto de tresloucado 

entusiasmo  que  Helena  a  princípio  refuta.  Porém,  cedendo  logo  às  instâncias  de  seu  amante, 

reconsidera. 

— Um crime... dois crimes... Ora, avante! — exclama a bela Helena, num delírio febril. 

Assim,  antes  que  Apolo  rompa  os  portões  do  dia com  seus  cavalos  de  fogo,  partem  de 

Esparta os navios, levando consigo as riquezas do reino e a maior delas, Helena. A rainha sabe 

que deixa tudo para trás, em nome de uma paixão. Mas agora que deu o primeiro e fatal passo 

está disposta a tudo. 

—  Seja  o  que  Júpiter,  meu  pai,  e  Vênus  protetora  determinarem...  —  diz  ela,  aninhada 

nos braços de Páris, um Páris mais forte, que tomou agora consciência do seu destino. 

Enquanto  isto,  Cassandra,  a  profetisa  cuja  voz  ninguém  ouve,  está  caída  diante  dos 

degraus do templo de Júpiter, em Tróia. Chove, e suas vestes estão em tiras. A cinza que recobre 

a sua cabeça lhe escorre pelo rosto, dando-lhe o aspecto de uma louca. 

—  Ai  de  ti,  Tróia  infeliz!  —  exclama  ela,  com  os  lábios  colados  nos  degraus  frios  da 

escada. — Eis que se aproxima a hora de sua perdição! 

Um  riso  sarcástico  ainda  fica  pairando  longo  tempo  no  ar,  depois  que  o  último  ébrio 

passa por ela, aos tropeços. 

O SACRIFÍCIO DE IFIGÊNIA

 

O ADIVINHO



 

O  cais  de  um  porto  grego.  Ao  fundo  estão  as  efígies  gigantescas  de  diversos  navios,  compondo  uma 

esquadra. Há um grande ir e vir de soldados e ruídos de armas que se entrechocam involuntariamente. Calcas, o 

adivinho do exército, está inquieto, observando as velas das naus, que estão caídas e perfeitamente imóveis. Ele as 

observa, preocupado, por um bom tempo, indo e vindo lentamente, enquanto esbarra nos soldados. Neste instante 

entram Agamenon e Ulisses, fardados para a guerra.

 



Calcas, 

avançando para ambos: 

— Nobre comandante! Os deuses dos ventos não parecem 

dispostos  a  nos  auxiliar  em  nossa  campanha.  Veja  como  as  velas  de  nossas  naus  colam-se  aos 

mastros, como pendões inúteis. 

Agamenon, 

encarando o adivinho com firmeza, lhe diz rudemente 

— Arúspice do óbvio, o que 

mais tem a nos dizer que já não o saibamos à exaustão? 

Calcas 


baixa  a  cabeça,  ocultando  o  despeito  — 

Senhor,  já  consultei  nosso  oráculo,  e  ele 

sempre me repete o mesmo... 

Um silêncio sobrevém por alguns instantes, até que o comandante o quebra.

 

Agamenon 



— 

Fica mudo... é isto, adivinho do silêncio? 

Espocam alguns risos de pessoas que estão em torno.

 

Ulisses— 



Vamos, Calcas, não pode encadear uma frase na outra sem enfadar a alma de 

seus ouvintes com suas pausas aborrecidas? 

Calcas, 

erguendo a cabeça — 

O que os fados têm a lhe dizer, valoroso capitão, talvez não 

sejam palavras que tragam muita alegria à sua alma. 

Agamenon 

— Qualquer coisa me alegrará mais que este seu ar de mistério enfadonho. 

Vamos, diga logo o que suas artes mágicas disseram! 

Calcas, 


cobrindo o rosto com o manto — 

Oh, mas são negras palavras... 

Agamenon, 

aproximando seu rosto do adivinho — 

Negro ficará seu olho direito, postergador 

maldito! Vamos, diga o que tem a dizer ou retire já da minha presença a sua figura exasperante! 

Calcas, 

tomando  coragem 

—  Comandante...  O  oráculo  é  categórico  em  afirmar  que  tal 

retardo dos ventos não tem outra causa senão a sua própria pessoal 

Calcas, 

ainda, à parte — 

Pronto! Está dito tudo! 

Ulisses, 

lançando o manto para trás 

— Agamenon culpado pela ausência de ventos, que há 

dois anos nos retém neste porto de Áulis? E por que razão os deuses poriam empecilho à partida 

dele e de nossos exércitos, se causa mais nobre e mais justa nunca houve no mundo? 

Agamenon, 

bradando  — 

Um  cão  traiçoeiro,  de  nome  Páris,  vem  até  a  pátria  de  meu 

irmão Menelau, rapta-lhe a mulher, a mais bela de quantas houve em toda a Hélade, levando-lhe 

ainda os seus tesouros. Eu, seu irmão, decido, então, empreender junto com ele uma expedição 

até Tróia maldita para resgatar a sua esposa e a sua honra. Que há nisto tudo, adivinho insolente, 

que me indisponha contra qualquer divindade? 

Algumas  vozes  levantam-se  entre  os  ouvintes,  que  agora  se  apinham  em  volta  dos  três,  ouvindo-se 

claramente  esta  frase  — 

Basta!  Voltemos  para  casa,  pois  não  há  mais  dúvidas  de  que  os  deuses 

abominam tal expedição! 



Agamenon, 

voltando-se  para  a  soldadesca  — 

Silêncio,  escória!  Se  temos  de  levar  tais 

soldados, que a qualquer pretexto renunciam à sua obrigação, vamos bem arranjados! 

Ulisses, dispersando a multidão 

— Eia, canalha! Esta conversa não é para orelhas de asno! 

Agamenon, 

pegando Calcas pelos ombros — 

Vamos, adivinho de maus agouros, diga tudo o 

que ouviu do oráculo. 

Calcas, 

de  espinha  ereta,  sentindo-se  agora  importante  — 

Nobre  comandante!  A  Aurora  de 

róseos dedos ainda não havia surgido de todo no negro empíreo, quando me aproximei naquele 

dia, repleto de maus pressentimentos, diante do oráculo... 

Agamenon, 

interrompendo-o  — 

Esqueça  a  Aurora  maldita  e  ponha  o  sol  bem  no  alto  de 

seu relato, falador incansável, se não quiser adiar para sempre o seu palavreado! 

Calcas, 


algo frustrado 

— Está bem, comandante, está bem. O oráculo me disse exatamente 

isto.  —  Mudando  o  tom  da  voz  para  um  tom  gutural,  mas  à  sério  —  "Eis  que  os  ventos  cessarão  de 

soprar, até que o presunçoso guerreiro se prosterne diante de Diana sublime!" 

Agamenon 

— O 


"presunçoso guerreiro" sou eu, suponho? 

Calcas, 


encabulalado — 

Temo que sim, audaz comandante... 

Agamenon 

— 

Adiante, debulhador de enigmas! 



Calcas, 

retomando  o  fio  — 

A  deusa  Diana  está  enfurecida  porque  o  senhor  lhe  fez  há 

muitos anos uma promessa e está decidida a não aceitar mais postergações no seu cumprimento. 

Ulisses, 

intervindo — 

Promessa? Que promessa? 

Agamenon empalidece enquanto ambos aguardam a resposta.

 

Calcas 


— Outrora você prometeu à Diana valorosa que lhe sacrificaria o mais belo ser 

que nascesse em seu reino... 

Agamenon 

larga Calcas e afasta-se dele e de Ulisses, a passos lentos. Após alguns instantes de silêncio, 

volta-se  para  os  companheiros  e  diz,  com  a  voz  alquebrada 

—  Sim,  é  verdade,  Ulisses  fiel...  Há  muitos 

anos fiz tal promessa insensata. 

Calcas 


— 

A  deusa  determinou  que  esta  expedição  só  deixará  este  porto  quando 

promessa for cumprida integralmente! 

Ulisses 


— 

Mas quem é esse ser infeliz que deverá passar por tão terrível ordálio? 

Calcas, 

erguendo a voz, como quem finalmente pode revelar um terrível segredo — 

A vítima não há 

de ser outra senão Ifigênia, a filha de Agamenon! 

Agamenon 

faz  menção  de  voltar  a  discutir  com  Calcas,  mas  desiste.  Depois  diz  a  Ulisses  — 

Clitemnestra, minha esposa, jamais aceitará tal solução! 

Um rebuliço desperta a atenção dos três: é Menelau quem chega, rodeado de seus generais.

 

Agamenon, 



adiantando-se para ele — 

Menelau, meu irmão! 




Os dois imãos abraçam-se efusivamente.

 

Menelau— 



Agamenon,  a  situação  está  se  tornando  insuportável!  A  peste  já  começa  a 

grassar entre os soldados! 

Ulisses— 

Temos, também, a peste entre nós? 

Menelau— 

Sim,  já  perdemos  dezenas  de  homens.  —  Vira-se,  então,  para  o  adivinho  — 

Calcas, já falou com meu irmão sobre o que precisa ser feito? 

Calcas— 


Sim, comandante, mas receio que essa decisão custe mais do que possamos lhe 

exigir... 

Agamenon, 

procurando justificar-se perante o irmão — 

Menelau, Diana está tomada pela ira e 

exige que lhe dê minha filha, sangue do meu sangue, para que deixe de nos perseguir! 

Menelau 

— É desnecessário repetir a história, Calcas já me contou tudo. Vim atrás de 

você para saber que decisão tomará quanto a isto. 

Agamenon 

— 

Bem  sei  dos  deveres  que  me  prendem  à  deusa,  embora  a  dor  que  me 



dilacera o peito. No entanto, há Clitemnestra, minha esposa. Ela jamais aceitará ver-lhe tirada dos 

braços a própria filha, que é a luz dos seus olhos! 

Menelau 

— Permitirá, então, que as choradeiras de uma mulher provoquem a ruína de 

seu irmão e de sua pátria? É isto, caro irmão? 

Agamenon silencia. Depois de alguns instantes, acabrunhado, resmunga:

 

Agamenon, 



humilde 

— Se Clitemnestra concordar, acatarei a ordem da deusa. 

Menelau, 

enfurecendo-se — 

Você se recusa a obedecer à deusa, isto é que é! 

Um dos generais exclama: 

— Elejamos um novo comandante, ó Menelau! 

Outras vozes aduzem:

 

Primeira voz— 



Isto! Isto! Um novo comandante! 

Segunda voz— 

Morreremos todos da peste neste porto maldito! 

Terceira voz— 

Cumpramos o que a deusa exige de nós! 

Quarta 


voz— 

Que Palamedes seja, então, nosso novo comandante! 

Ulisses, 

fazendo menção de se retirar

— Se Palamedes assumir o comando, não tomarei parte 

nesta expedição. 

Menelau, 

tomando  Ulisses  pelo  braço: 

—  Espera,  filho  de  Ítaca!  Depois,  voltando-se  para 

Agamenon: 

— Veja, Agamenon, a obra de sua fraqueza... Seus pruridos sentimentais começam a 

provocar a rebelião entre nossos próprios generais! Chegou a hora de tomar uma decisão. 

Ulisses, 

para  Agamenon,  tentando  acalmá-lo: 

—  Compreendo  seu  dilema,  Agamenon. 

Façamos isto, então: sua filha, bem como sua esposa, não saberá do que irá acontecer, senão no 

último instante, quando se fará o que a deusa exige de você. 



Calcas, à 

parte: 


— Ó astuto Ulisses! 

Agamenon 

— Um estratagema? 

Ulisses— 

Exatamente. Vamos  dizer  a  ambas  que  contratamos  o  casamento  de  Ifigênia 

com o valoroso Aquiles. Escreve à sua esposa e diga a ela que sua filha deve vir imediatamente 

até nós. 

Agamenon 

— 

Está bem... 



Ulisses— 

Mas, atenção: ela deve vir sozinha. 

Calcas, 

à parte 


— Filho de Laerte, você será grande! 

Ulisses— 

Diga a Clitemnestra que seria indigno da esposa de um rei aparecer diante dos 

seus exércitos. 

Calcas, à 

parte: 


— Bem imaginado! 

Menelau 


— 

Peça para ela que faça isto o mais rápido possível, pois aguardamos apenas a 

celebração deste casamento para partirmos para Tróia. 

Agamenon 

—  Mas  e  o  que  dirá  Aquiles  disto?  Não  ficará  aborrecido  ao  saber  que 

usamos seu nome em vão? 

Ulisses 

— 

Pode  ser  em  vão  uma  artimanha  que  livrará  seu  irmão  da  ignomínia  e 



restabelecerá a honra de sua família? 

Calcas, à 

parte: 

— Ó engenho sutil! 

Agamenon, 

depois de algum tempo: — 

Está bem, tudo será feito como quiserem. 

Menelau  estende  a  seu  irmão  uma  tabuleta,  onde  este  deverá  escrever  a  carta.  Agamenon  a  toma, 

arrasado, e começa a escrever, debaixo de um silêncio opressivo.

 

Cai o pano.



 

UMA TENTATIVA DESESPERADA

 

O  interior  de  uma  grande  tenda  de  campanha.  É  noite.  Agamenon  está  deitado  de  bruços  e  chora 



convulsamente. Depois volta para cima o rosto coberto pelas mãos e exclama:

 

Agamenon 



— 

Júpiter  supremo, o que foi que  fiz? Minha Ifigênia adorada ofertada em 

holocausto!  Oh,  crueldade  atroz!  Ter  o  peito  rasgado  pela  lâmina  do  sacrifício!  Como  pude 

permitir tal monstruosidade? 

Depois de chorar mais um pouco, no entanto, Agamenon cessa abruptamente as lágrimas. Uma idéia lhe 

ocorreu.


 

Agamenon, 

pondo-se  em  pé,  de  um  salto:  — 

Não,  não  permitirei  tal  coisa!  Desfarei  o  que 

maus conselhos me induziram a fazer! 

Imediatamente pega uma tabuleta e põe-se a escrever freneticamente.

 



Agamenon 

— 

Eis  o  que  escreverei  a  Clitemnestra:  "Minha  esposa,  atente  bem  para  o 



que lhe digo: não mande para cá a nossa querida Ifigênia. Guardou a tabuleta num invólucro e voltou-se 

para a entrada da tenda. — 

Soldado! Venha já até aqui! 

Um soldado entra rapidamente.

 

Agamenon 



— 

Está vendo esta mensagem? 

Soldado 

— 

Sim, senhor. 



Agamenon 

— 

Quero que a leve, sem mais perda de tempo, até a minha esposa. Não dê 



descanso a seu cavalo, nem faça pouso ou parada alguma sob pena de sua própria vida, entendeu? 

Soldado— 

Sim, senhor. 

Agamenon 

— 

Vamos, retirá-se e vá dar cumprimento à sua missão. Agamenon fica só outra 



vez.

 

Agamenon, 



caindo  outra  vez  no  leito:  — 

Que  os  deuses  protejam  minha  Ifigênia  e  façam 

com que esse mensageiro chegue ainda a tempo! 

As luzes apagam-se. Alguns instantes depois acendem-se novamente. Agamenon está adormecido. O dia 

amanhece. Menelau irrompe tenda adentro segurando algo.

 

Menelau, 



em altos brados: 

— Vamos, levante! 

Agamenon 

acorda, assustado: 

— O que foi, meu irmão? 

Menelau— 

"Irmão"!  Falta  pouco  para  que  o  proíba  de  me  chamar  por  este  nome, 

asseguro! 

Agamenon 

-Por  que  as  flamas  da  ira  abrasam  tanto  seu  coração? 

Menelau, 

lançando  às 

faces do irmão a carta que este enviara às ocultas: 

— Aqui está, tratante, o motivo de minha ira! 

Agamenon reconhece o objeto e fica revoltado.

 

Agamenon 



— 

Então  você  ousou  me  espionar  e  interceptar  uma  carta  que  mandei  à 

minha esposa? Com que direito o fez? 

Menelau 


-Com  mais  direito  que  você,  que  torna  atrás  de  um  compromisso  solene  que 

assumiu  diante  de  mim  e  de  meus  generais.  Acaso  está  brincando  com  a  minha  honra?  Quer 

espalhar o escárnio e o deboche na boca de meus soldados? 

Agamenon, 

tornando à humildade: 

— Um pai não tem, então, o direito de tentar salvar sua 

filha da morte cruel? 

Menelau 


— 

Você não tem o direito de sobrepor à honra do Estado os seus mesquinhos 

interesses pessoais! Ifigênia terá a honra de ofertar sua vida em prol de milhares de seus cidadãos 

e de restaurar a honra de sua pátria. É pouco? Não basta? 

Agamenon— 

A  mim  bastaria  tê-la  ao  meu  lado,  mesmo  no  infortúnio,  pois  o  que  é  a 

alegria e a honra sob uma ausência terrível? 



Menelau— 

Basta  de  choradeiras!  Ifigênia  deve  chegar  em  breve.  Devemos  avisar  o 

sacerdote para que prepare logo o local do sacrifício, diante de nossas tropas. 

Menelau sai da tenda e Agamenon, prostrado pelo insucesso de sua tentativa, cai derreado ao leito.

 

Cai o pano.



 

IFIGÊNIA EM ÁULIS

 

Acampamento. A tenda de Agamenon está à direita. O céu está carregado e alguns relâmpagos clareiam 



esporadicamente o cenário, quase mergulhado nas trevas, iluminado apenas por alguns archotes. Um grupo chega, 

num grande alarido. De uma liteira desce uma moça de grande beleza.

 

Vigia 


— Comandante! Ifigênia, filha de Agamenon, já está entre nós! 

Ifigênia, 

ansiosa: 

— Onde está meu pai? Morro de saudades! 

Agamenon, 

saindo  de  sua  tenda,  às  pressas:  — 

Minha  filha!  Oh,  minha  adorada  Ifigênia! 

Abraça-se dramaticamente à sua bela filha, em prantos.

 

Ifigênia, 



tomando o rosto do pai em suas mãos: 

— Meu pai, por que choras? 

Agamenon

— Não sei, minha filha, não sei... Só sei que as lágrimas caem-me aos pares 

dos olhos. 

Ifigênia 

— Alegre-se, meu pai, pois venho para meu casamento. Teremos uma festa, pois 

não? 


Agamenon 

— Festa... Sim... Um sagrado himeneu... 

Aos poucos vão chegando os demais, Menelau, Ulisses e Calças.

 

Ifigênia— 



E, então, onde está meu futuro marido? 

Agamenon, 

quase divagando: 

-M-marido...? 

Ifigênia, 

alegremente: 

— Sim, papai, o homem junto do qual sacrificarei a Vênus. 

Agamenon 

— Sacrificará...! 

Ifigênia 

— Que tem, afinal, meu pai? Voltando-se para Menelau: — Papai está doente, meu 

tio? 


Menelau 

— Seu pai esteve um pouco doente, Ifigênia... A cólera tem dizimado muitos 

homens por aqui. 

Ifigênia, 

abraçando-se ao pai: 

— Oh, meu pai, doente! Volte para a cama, papai! 

Agamenon 

— Estou bem, minha filha... À parte: — Minha doença chama-se remorso... 

Nesse instante, Clitemnestra surge repentinamente.

 

Clitemnestra 



— Ora, que tantos abraços e lágrimas são estes, afinal, que ouço desde lá 

de fora do acampamento? 

Todos ficam estupefatos diante da presença inesperada da esposa de

 

Agamenon.



 


Agamenon, 

desvencilhando-se dos braços da filha: 

— Clitemnestra! Que faz aqui? 

Clitemnestra, 

fazendo pouco caso do marido: 

— Perguntar a uma mãe o que faz junto da filha 

no  dia  do  seu  casamento  é  uma  pergunta  que  só um  toleirão  como  você, meu  marido,  poderia 

fazer. 


Agamenon— 

Casamento... Casamento de quem? 

Ifigênia— 

Da sua distração com sua desatenção, por certo! 

Menelau, 

adiantando-se  com  um  ar  severo: 

—  Clitemnestra,  não  recebeu  uma  carta 

ordenando expressamente que não viesse juntamente com sua filha Ifigênia? 

Clitemnestra, 

olhando-o  duramente: 

—  Naturalmente  que  resolvi  desobedecer 

"expressamente" uma carta néscia e atrevida como esta. Esse disparate, 

aliás,  é  bem  seu,  caro  Menelau!  Se  sua  própria  esposa  Helena  não  lhe  deu  ouvidos!  — 

Depois, voltando-se para todos os lados: 

— E o noivo, o belo Aquiles, onde está? Quero ver com meus 

próprios olhos se é mesmo tudo aquilo que dele dizem por aí. 

Um relâmpago ofusca tudo, fazendo com que Ifigênia se encolha.

 

Clitemnestra 



— 

Ifigênia, querida, ao que vejo seu casamento se fará sob os auspícios de 

Júpiter tonante! Já sinto o cheiro da chuva errando no ar. Aspira profundamente. 

Um trovão estoura, sacudindo tudo.

 

Clitemnestra 



—  Viva!  Adoro  chuva!  Vejam  só  que  trovão.  —  Depois,  voltando-se  para  os 

demais: — 

Onde estão as lonas de proteção? Não estão vendo que um temporal vai desabar em 

instantes? 

De repente Clitemnestra identifica Calças, o adivinho.

 

Clitemnestra 



— Ah, aí está o decifrador de oráculos! Então, faça uso dos seus poderes e 

traga logo Aquiles até nós. Vamos, velho charadista, dê logo um jeito nisto! 

Calças 

—  A  esposa  de  Agamenon  há  de  entender  que  meus  dons  não  são  exatamente 

estes, senão os de receber e interpretar os oráculos sagrados que a mim são revelados... 

Clitemnestra, 

dando-lhe as costas: — 

Adeus, charlatão. Não estou para dar ouvidos a um 

homem que fala mais do que a ninfa Eco! 

Ifigênia, depois de deixar o pai no interior de sua tenda, reaparece em prantos.

 

Ifigênia, 



abraçando-se  à  mãe: 

—  Mamãe,  papai  está  mal!  Às  vezes  diz  que  este  é  um 

momento de grande alegria, para logo em seguida cair num pranto convulso. Há algo errado com 

ele, deve estar muito doente! 

Clitemnestra 

-Esqueça o seu pai. Deve estar bêbado. Eles sempre ficam nesse estado às 

vésperas de perder suas filhas. 

Nesse instante, Aquiles, o noivo, aparece. Os demais já se retiraram.

 



Clitemnestra 

— E este, agora, quem é? 

Aquiles— 

Perdão, não quis interrompê-las... 

Clitemnestra 

— 

Esteja  à  vontade.  —  À    parte:  (Bonito  deste  jeito,  bem  poderia  ser  o 



eleito de minha filha!) — Sou a esposa de Agamenon e esta é minha filha, Ifigênia. 

Aquiles— 

Encantado em conhecê-las. 

Clitemnestra 

— 

E você, jovem guerreiro, quem és? 



Aquiles— 

Sou Aquiles, filho de Peleu e Tétis. 

Clitemnestra, 

eufórica: — 

Ora, então, o que achou de sua noiva? 

Aquiles— 

Perdão, senhora, mas não entendo suas palavras. 

Ifigênia 

-Mamãe, o que está havendo, afinal? 

Clitemnestra— 

que  está  havendo  é  que  ou  todos  os  homens  deste  acampamento 



enlouqueceram ou estão bêbados como a burra de Sileno! 

Ifigênia, 

para Aquiles: — 

Eu sou a mulher que meu pai resolveu lhe dar por esposa. 

Aquiles, 

se irritando: — 

Perdão, mais uma vez, bela jovem, mas nada sei de tal casamento. 

Devem ter-lhes feito uma burla. 

Ifigênia oculta o rosto no ombro de sua mãe.

 

Clitemnestra, 



tornando-se repentinamente séria: — 

Escute aqui, rapaz, que espécie de tramóia 

estão todos armando para cima de minha filha? Vamos, conte logo o que sabe! 

Aquiles— 

Estou nisto tão inocente quanto meus netos que estão por vir, minha senhora. 

Clitemnestra 

-Está  bem,  meu  jovem.  Terei  de  lançar  mão,  então,  de  meus  meios!  Por 

Vênus sagrada que vou descobrir o que esses malditos tramam contra minha filha. 

Clitemnestra olha para os lados e vê um de seus serviçais. Faz-lhe um sinal para que venha até ela.

 

Clitemnestra— 



Conheço você. É o serviçal direto de meu esposo, Agamenon, e sei que 

são íntimos o bastante para que ele de você nada oculte. Conte-me, então, tudo o que se planeja 

com  relação  à  minha  filha,  ou  vou  armar  uma  intriga  tão  medonha  para  o  seu  lado  que 

Agamenon em menos de vinte e quatro horas mandará fazê-lo em pedaços e lançar seus restos 

aos cães. Fui clara, lacaio? 

Serviçal— 

Mas não posso trair a confiança de meu senhor. 

Clitemnestra 

— 

Você  já  disse  o  principal.  Realmente  aquele  cão  trama  algo  contra 



minha Ifigênia. Diga o resto, vamos! 

Serviçal, intimidado: — 

O oráculo da deusa Diana exige o sacrifício de sua filha para que os 

exércitos possam ter sucesso em sua campanha. Agamenon foi obrigado a ceder. Eis tudo. 

Clitemnestra, 

horrorizada, abraça-se à sua filha: — 

Ifigênia posta sob a pedra dos sacrifícios! 

Estarei escutando isto? 




Aquiles 

— 

Isto é terrível! Por que usaram meu nome para acobertar tal monstruosidade? 



Ifigênia 

— 

Acalme-se,  mamãe!  Papai  é  contra  esse  sacrifício  e  impedirá  que  tal  coisa 



aconteça! 

Clitemnestra— 

Seu  pai  é  um  fraco,  um  joguete  nas  mãos  daquele  imbecil  de  seu  tio! 

Além  do  mais  sua  vaidade  falará  mais  alto  quando  tiver  a  oportunidade  de  ostentar  seu  poder 

perante essa canalha inteira. Ouça o que estou lhe dizendo! 

Ifigênia— 

Não, mamãe, não diga tal coisa! 

Agamenon sai de sua tenda e vem em direção ao pequeno grupo.

 

Serviçal— 



Meu senhor aproxima-se. Devo retirar-me. 

Aquiles— 

Também vou junto com você. 

Clitemnestra— 

Vejamos o que este pulha tem a nos dizer! 

Agamenon 

-Vamos para dentro, minhas queridas. O temporal pode desabar a qualquer 

momento. 

Ifigênia, 

para seu pai: — 

Meu pai, que mal fiz eu para Diana para que queira meu sangue 

em holocausto? 

Agamenon, 

arregalando os olhos: — 

O que dizes, minha filha? 

Clitemnestra, 

enfurecida: — 

Vamos, fingido, já sabemos de tudo! Como ousa oferecer sua 

própria filha em sacrifício para saciar a ambição e o despeito de seu irmão? Prefere, então, este 

pulha à sua própria filha? 

Ifigênia, 

tomando as mãos de Agamenon: — 

Papai, você não permitirá isto, não é? 

Agamenon, 

completamente  abatido:  — 

Pensa,  minha  filha,  que  não  sofro  diante  desse 

terrível fado que pesa sobre você? 

Clitemnestra 

-Monstro  insensível!  Quer  levar  avante,  ainda,  esse  plano  hediondo?  Vai 

permitir  que  mãos  assassinas  enterrem  o  punhal  do  sacrifício  no  peito  da  filha  que  viu  sair  de 

minhas entranhas? Espera, então, que eu retorne para nossa casa sem ela? Que direi a todos? Que 

direi a Orestes, irmão dela, quando o pobre indagar de sua irmã? Diz em falsete: — "Orestes, meu 

filho, sua irmã casou, é verdade, mas em vez do belo Aquiles, tomou Caronte por esposo!" 

Agamenon 

—  Minha  esposa...  Desgraçadamente  coube  a  mim  a  má  sorte  de  fazer  o 

primeiro  grande  sacrifício  desta  guerra!  Muitos  outros  ainda  virão,  no  entanto,  e  não  cairão 

somente sobre nós. Os tempos são negros, e a cada qual caberá uma cota de sacrifício e de dor... 

Ouvem-se vozes e brados distantes.

 

Primeira voz— 



Chegou a hora de aplacarmos a ira da deusa! 

Segunda voz— 

Basta! Nossos homens morrem como moscas! 

Terceira voz 

— 

Procedamos logo ao sacrifício! 




Ifigênia corre aos prantos para os braços do pai, enquanto Clitemnestra permanece hirta, com o ar feroz e 

determinado. Cai o pano.

 

O SACRIFÍCIO



 

Ainda  no  acampamento.  Aquiles  entra  correndo  e  dirige-se  a  Clitemnestra  e  Ifigênia.  Os  relâmpagos 

estão mais intensos e trovões ribombam a todo instante.

 

Aquiles— 



Os soldados exigem que Ifigênia seja levada imediatamente ao altar! 

Agamenon 

— 

Espere, tentarei ainda demovê-los. 



Agamenon retira-se.

 

Ifigênia, 



para Clitemnestra: 

— É o fim, minha mãe! As Parcas cruéis já têm em suas mãos 

a tesoura que cortará o fio de minha vida. 

Clitemnestra— 

Não, minha filha! Aquiles está aqui e há de proteger-te. 

Aquiles— 

Infelizmente  meus  próprios  homens  se  rebelam,  Ifigênia!  Mas  nem  por  isso 

arredarei pé de seu lado. Saca então sua espada e põe-se em posição de defesa. 

Ifigênia 

— 

É loucura, Aquiles amado! À parte: (Amado, que digo? Sim, amado, porque 



você me defendeu, ainda mais que meu próprio pai!) 

O ruído dos gritos aumenta.

 

Ifigênia 



desvencilha-se da mãe e de Aquiles e aponta na direção de onde vêm os gritos: 

— Eles todos 

têm razão! É preciso que se proceda ao sacrifício sem mais demora! 

Clitemnestra— 

Não, minha filha! Você não sabe o que diz! 

Aquiles— 

Somente sobre o meu cadáver a levarão para a terrível pedra dos sacrifícios! 

Ifigênia, 

tornando-se  serena: 

—  Guarde  sua  espada,  nobre  Aquiles.  Depois,  voltando-se  para 

Clitemnestra: 

—  Quanto a  você,  minha  mãe,  serene sua  alma,  pois  a  minha  não  pertence  mais a 

ninguém, senão à deusa que a reclama. Nossos navios devem partir sem mais tardança para Tróia, 

pois  há  uma  infâmia  que atinge a  todos  nós  e  deve  ser  a  todo  custo  reparada.  Esse  ato  infame 

perpetrado por Páris deve ser castigado, ou a ira divina voltar-se-á inteira contra nós mesmos. 

Ifigênia compõe suas vestes e seu cabelo.

 

Ifigênia, 



afastando com um gesto de mão Clitemnestra, que faz menção de se aproximar da filha: 

— 

Não,  minha  mãe,  fique  aqui.  Irei  sozinha  até  o  altar  e,  lá,  na  presença  do  sacerdote  e  dos 



exércitos,  oferecerei  meu  sangue  em  holocausto  a  fim  de  que  seja  finalmente  aplacada  a  ira  de 

Diana. 


Ifigênia faz menção de seguir, mas a meio caminho retorna, lançando-se aos braços da mãe.

 

Ifigênia 



— 

Adeus,  minha  mãe...  Um  dia  a  deusa  permitirá  que  nos  vejamos  outra  vez, 

estou certa. Sua cólera há de ser tão curta quão longa há de ser a sua clemência. 

Ifigênia retira-se, enquanto Aquiles retém, a custo, Clitemnestra.

 



Aquiles— 

É inútil, sua filha já tomou a decisão, e receio que tenha sido a mais acertada... 

Clitemnestra, 

arrancando os cabelos: — 

Jamais concordarei com o sacrifício de minha filha! 

Nenhuma disputa suja de ambições ou despeites valerá jamais o sangue virgem e puro de Ifigênia! 

Tenta desvencilhar-se, mas Aquiles novamente a retém.

 

Clitemnestra, 



de joelhos  e  nos braços de Aquiles, finalmente rendendo-se à fatalidade: 

— Vamos, 

deixe-me! Vou me recolher à tenda e só sairei dali quando tudo estiver terminado... 

Aquiles aguarda que Clitemnestra entre na tenda. Depois afasta-se, lenta e pesarosamente. Relâmpagos e 

trovões sacodem o céu. Então, tudo fica escuro.

 

Ainda sob a escuridão começa-se a escutar o sopro do vento, a princípio fraco, que vai avolumando-se até 



tornar-se quase um vendaval. Ouve-se o ruído da lona da barraca onde está alojada Clitemnestra sacudir e esbater-

se. A cena clareia-se.

 

O serviçal visto anteriormente surge correndo.



 

Serviçal— 

Minha senhora! Um milagre espantoso aconteceu! 

Clitemnestra  sai  de  sua  tenda,  sacudida  pelo  vento.  Seu  rosto  traz  as  marcas  ensangüentadas  de  suas 

unhas. Ela nada diz.

 

Serviçal— 



Um milagre, minha senhora... Um milagre aconteceu! 

Clitemnestra 

move apenas os olhos na direção do lacaio. Sua voz é cava e quase sem emoção, embora 

se perceba nitidamente que o ódio ferve em sua alma: — 

Julga, então, que sou surda, lacaio? Bem sei que 

minha filha já está morta. Depois, olha ao redor: — Os ventos são mais rápidos que os homens. 

Serviçal— 

Mas senhora, sua filha não está morta! Eis o milagre! 

Não vendo reação alguma de Clitemnestra, ele prossegue:

 

Serviçal— 



Ifigênia foi levada viva pela deusa! Após subir os degraus do altar e oferecer, 

com admirável coragem, o seu pescoço ao oficiante, vimos quando este finalmente ergueu o seu 

punhal. Todos viraram os rostos, pois ninguém, por mais rude ou valente que fosse, pôde sequer 

admitir  a  idéia  de  ver  com  seus  próprios  olhos  tão  terrível  cena.  Todavia,  escutamos 

perfeitamente quando o punhal foi enterrado na vítima. Porém, quando erguemos nossos olhos, 

não  era  mais  a  doce  Ifigênia  quem  estava  no  altar,  mas  um  cervo,  a  se  debater  nos  últimos 

estertores! "Milagre! Milagre!", gritamos todos. O sacerdote, então, ordenou que silenciássemos, 

dizendo  em  seguida:  "Eis  que  a  deusa  compadeceu-se  de  Ifigênia  e  decidiu  poupar  sua  vida! 

Prosternem-se  todos  à  sua  divina  clemência!"  Todos  dobramos  contritamente  nossos  joelhos, 

enquanto o sacerdote retomava a palavra, dizendo: "A deusa levou Ifigênia consigo para Táuris, 

para que lá seja, a partir de hoje, a sua sacerdotisa. Sua cólera está, enfim, aplacada. Regozijemo-

nos!" Neste mesmo instante um forte vento começou a soprar e os soldados ergueram um grito 

de triunfo e alegria: "Viva! Podemos já partir para Tróia!". 



Nesse instante Agamenon surge em cena. Traz um ar de alegria no rosto e abraça-se à sua esposa.

 

Agamenon— 



Alegre-se,  Clitemnestra,  minha  adorada  esposa!  Nossa  filha  está  salva!  A 

deusa bondosa levou-a, para que seja sua sacerdotisa! Tamanha honra jamais esperamos que um 

dia viria a nos caber! Depois, voltando-se para o serviçal: — Vamos, temos muita coisa a fazer. Veja, o 

vento  sopra  com  força  cada  vez  maior!  Aproveitemos  para  lançar  ao  mar  nossa  frota  e 

vingarmos, finalmente, a meu irmão Menelau! 

Ele deixa sua esposa, após dar-lhe um beijo. O serviçal o segue.

 

Clitemnestra está agora só diante da tenda. Os relâmpagos cessam, bem como os trovões. Apenas 



vento 


continua a esbater suas vestes e seus cabelos desgrenhados. Então, aos poucos, uma chuva, a princípio fina, começa 

a cair 


sobre a solitária figura. Sem perceber, ela permanece imóvel. A chuva aumenta, e Clitemnestra, dando-se 

conta do fato, ergue sua face ferida e a oferece à água que desce copiosamente do céu. Depois, ergue ambas as mãos e 

as esfrega na face, para ajudar a limpar o sangue acumulado.

 

Clitemnestra, 



olhando  para  as  mãos,  que  misteriosamente  permanecem  tintas  do  sangue,  apesar  da 

água  que  delas  escorre,  diz,  então,  com 

o  ar 

malignamente  determinado: 



-Vingança,  Agamenon...  Amas, 

então, a vingança?... Pois seja assim... 

Cai 

o pano.


 

O ASSASSINATO DE AGAMENON

 

-... Senhora... acuda... 



Clitemnestra,  rainha  de  Argos,  estava  ainda  semi-adormecida,  sob  a  claridade  baça  das 

cortinas de seu quarto, quando escutou os gritos quase incompreensíveis de sua escrava. 

— Como...? O que dizes aí, louca...? — disse a rainha, emergindo do sono. 

— Minha senhora — repetiu a escrava -, acuda logo ao que dizem lá embaixo! 

Uma  forma  indistinta  remexeu-se  abaixo  das  cobertas,  ao  lado  da  rainha, enquanto  esta 

rumava  inteiramente  despida  para  a  janela  de  seu  quarto.  Depois  de  encobrir  a  nudez  com  a 

cortina, espiou para fora. 

— A guerra terminou, minha rainha! — disse o arauto do reino, montado num cavalo que 

reluzia de suor. — Tróia está em ruínas, e Agamenon, nosso rei, está prestes a retornar! 

—  Escrava!  —  bradou  Clitemnestra,  voltando-se  para  dentro.  —  Mande  o  arauto  subir 

até  meu  quarto.  —  Depois,  lançando-se  sobre  a  cama,  sacudiu  a  forma  que  ainda  permanecia 

adormecida e indiferente, sob as cobertas. 

—  Egisto,  vamos,  acorde!  —  disse  a  rainha,  nervosa.  Um  rosto  sonolento  emergiu  dos 

lençóis. 

— O que houve... ? — murmurou. 



— Vamos, levante-se de uma vez! — disse ela, vestindo-se. — Não é bom que o arauto 

veja você aqui dentro. 

O  homem  ergueu-se,  inteiramente  nu,  e  depois  de  vestir  às  pressas  seu  manto 

desapareceu por uma porta secreta. 

— Avise-me quando o arauto chegar — disse ela à escrava. Dali a instantes ele adentrava 

a peça. 


— Conte-me direito tudo quanto você soube — ordenou-lhe a rainha. 

Ele contou, então, que os primeiros combatentes já haviam chegado às cidades próximas, 

com  a  boa  nova  da  vitória  dos  exércitos  de  Agamenon  e  Menelau  sobre  as  forças  troianas  de 

Príamo e seus filhos Páris e Heitor. 

— Nossos exércitos não tardam, rainha, a estar novamente entre nós! -completou ele. 

—  Então  Menelau,  meu  cunhado,  finalmente  conseguiu  trazer  de  volta  sua  querida 

Helena... E Páris, o raptor e causador de tudo, recebeu seu justo castigo? 

—  Páris  está  morto,  bem  como  Heitor,  seu  irmão  —  disse  o  mensageiro,  satisfeito.  — 

Não resta uma pedra inteira em Tróia, ao que dizem. Nossa vitória foi completa. 

Clitemnestra, afetando uma alegria exagerada, rodopiou pelo quarto. 

— Que maravilha...! 

Depois, procurando dar um tom de alegre ansiedade à sua voz, perguntou finalmente por 

Agamenon, seu marido. 

— Ele... vive ainda? 

—  Sim,  rainha,  Agamenon,  embora  ferido,  está  vivo  e  goza  de  boa  saúde!  Clitemnestra 

deu largas, então, à sua decepção, chorando copiosamente. 

Em seguida fez um gesto brusco com a mão, despedindo o arauto. 

—  Foi  sublime!  —  cochichou  ele,  ao  cruzar  na  saída  com  a  escrava.  —  A  rainha  não 

conseguiu conter as lágrimas...! 

— Então adeus, arauto, pois já não consigo conter o meu riso! — disse ela, abafando as 

palavras ao cobrir a boca com a mão. 

Clitemnestra  ficou  ainda  um  longo  tempo  andando  de  um  lado  para  o  outro  no  seu 

quarto. Uma leve dor começara a latejar no lado direito de sua cabeça. "O desgraçado retorna...!", 

pensava  ela,  nervosamente,  no  seu  ir  e  vir.  "Ele,  o  pulha,  que  entregou  a  própria  filha,  minha 

Ifigênia, ao carrasco, espera, então, que eu o receba em meu leito novamente?" 

Enquanto Clitemnestra remoia seu ódio, o reino inteiro, no entanto, regozijava-se. 

— Clitemnestra, o que faremos? — perguntou-lhe Egisto, seu amante, ainda no mesmo 

dia. — Seu esposo deve chegar muito em breve. 




— Pois bem, que chegue, então! — disse-lhe Clitemnestra, afetando uma despreocupação 

que não sentia. — Preparemos-lhe uma bela recepção. 

— Querida, não se faça de boba! — disse Egisto, tomando-a pelo braço. -Cedo ou tarde a 

notícia de nosso envolvimento chegará aos ouvidos dele. 

Ambos  ficaram  um  longo  tempo  em  silêncio  remoendo  suas  preocupações.  Egisto 

esquadrinhava as paredes em busca de uma solução, quando Clitemnestra tornou a falar; seu tom 

de voz agora era sério e tinha um fundo de perversidade. 

—  Uma bela recepção... 

— De novo essa bobagem? — disse Egisto, perdendo de vez a paciência. -Vamos, não 

temos tempo para graças! 

—  Não compreendeu ainda, seu tolo? — disse a rainha, abraçando-se ao usurpador. 

—  Não está pensando em... — disse Egisto, feliz ao ver que sua amante compreendera 

logo o que era preciso ser feito. Afinal, ele tinha na história de sua família uma longa série de atos 

infames, que remontavam até Tântalo, seu remoto e cruel ancestral. 

—  Calemos  a  palavra...  As  paredes  costumam  criar  orelhas  quando  ela  soa  de  maneira 

inadvertida! — disse ela, acariciando o peito nu do amante. 

Egisto sorriu, satisfeito. Depois, arrancando o manto de Clitemnestra, levou-a até o leito. 

♦♦♦ 


Finalmente  havia  chegado  o  dia  em  que  Agamenon  pisaria  novamente  o  solo  de  sua 

pátria. O povo, exaltado, enfeitara ruas e praças para recebê-lo. Por toda parte reinava a alegria 

mais  franca.  No  palácio  da  rainha,  no  entanto,  as  coisas  não  se  passavam  exatamente  assim: 

Clitemnestra,  tendo  passado  a  semana  inteira  que  antecedera  a  chegada  de  seu  esposo  muito 

nervosa, havia brigado com seu amante e ofendido-o seriamente. Ela ainda podia sentir no rosto 

a força da mão direita de Egisto. 

"Idiota que fui, também!", pensava ela, tentando dar alguma razão ao gesto tresloucado de 

Egisto. "Chamá-lo justamente de 'filho do incesto', lembrá-lo que era filho de Tiestes e da própria 

filha, Pelópia, a única injúria que verdadeiramente o põe louco...!" 

— Ora, basta! — disse ela, abanando a cabeça, como quem afasta uma mosca importuna. 

— Esqueçamos isto, por enquanto, e retomemos nossa lição... 

Rumou então para diante do grande espelho que ornamentava seu quarto. Ali, perfilada, 

recomeçou seus exercícios de cinismo, que dias antes uma alcoviteira escolada lhe havia ensinado. 

—  Pratique  sempre,  minha  querida  —  dissera  a  megera,  com  seu  peculiar  esfregar  de 

mãos aduncas. — Pratique dia e noite! 



—  "Aga...  menon!  O...  !  Benditos  sejam  os  deuses...  !"  —  disse  ela,  enquanto  fazia  um 

esforço tremendo para estender ao máximo a comissura dos lábios. 

"Não  esqueça  da  pausa",  insistira  a  conselheira:  "Aga...  menon!"  Nesse  instante,  já  quase 

noite, Agamenon finalmente chegou ao palácio. Estava todo suado da viagem e dos festejos em 

praça pública. 

Clitemnestra,  à  porta,  o  aguardava  de  braços  abertos.  No  seu  rosto  luzia  aquele  mesmo 

sorriso que uma semana de árduo treinamento lhe ensinara a improvisar. 

—  Aga...  menon!  O...  Benditos  sejam  os  deuses!  —  disse  ela,  à  perfeição.  Agamenon 

abraçou, perdido de felicidade, a esposa, sob o olhar comovido de todos. Depois ambos foram 

para dentro do palácio. Junto dele vinha uma mulher de estranho aspecto, que arregalou os olhos 

de maneira medonha assim que os pôs sobre Clitemnestra. 

— Quem é esta mulher, com ar de louca, que trazes contigo? — perguntou a rainha ao 

esposo, tão logo ficaram a sós em seu quarto. 

—  É  Cassandra,  filha  do  falecido  rei  de  Tróia  —  disse  Agamenon,  meio  sem  jeito.  — 

Será, doravante, nossa escrava. 

Nesse instante, porém, o rei avistara por uma fenda do manto um pedaço do seio branco 

da esposa, e isto foi o bastante para que começasse a arfar descontroladamente. 

— Clitemnestra... — resfolegou o rei, despejando nas faces da rainha o seu bafo quente. 

Em  seguida  agarrou-a  com  os  modos  rudes  da  época,  despiu-a  brutalmente  e  consumou  ali 

mesmo, de maneira cega e egoísta, o ato de amor há tanto tempo protelado. 

-Agamenon!  Acalme-se! —  dissera  Clitemnestra,  tentando  em  vão  aplacar os  furores  de 

Vênus que o dominavam por inteiro. 

Após saciar seu desejo por várias vezes, Agamenon abandonou aquele corpo e estendeu-

se ao largo do leito para recuperar o fôlego. Clitemnestra, por sua vez, sentindo o suor daquele 

homem grudado ao seu corpo, virou-se para ele e lhe disse, com a mais descuidada das vozes: 

—  Querido,  não  quer  agora  tomar  um  banho  revigorante  para  recuperar  as  forças? 

Lembre que ainda temos um longo banquete pela frente! 

— Banquete? — perguntou Agamenon, de olhos fechados e quase adormecido. 

— Sim, meu esposo — disse Clitemnestra, voltando à carga. — Vamos comer e beber até 

que o flamante carro de Apoio surja outra vez no horizonte. 

Aquelas duas palavras, comer e beber, haviam despertado outra vez os vigorosos instintos 

de  Agamenon.  Lançando  para  fora  do  leito  suas  pernas  de  músculos  tesos  como  cordas, 

Agamenon estava logo em pé, outra vez. 



—  Tem  razão,  não  podemos  frustrar  nossos  convidados  —  disse  ele,  novamente 

disposto. 

Clitemnestra  ordenou, então,  que Cassandra, a  nova  escrava,  preparasse  um  banho  para 

Agamenon.  Este,  reanimado,  encaminhou-se  para  a  sala  de  banhos  que  ficava  no  fim  do 

corredor. 

Neste  mesmo  instante  Clitemnestra,  ainda  nua,  correu  ligeiro  até  aquela  mesma  porta 

secreta  que  dava  acesso  ao  seu  quarto  e  bateu  repetidas  vezes.  Logo  surgiu  por  uma  fresta  a 

cabeça sinistramente alerta de Egisto. Após vasculhar com os olhos a peça inteira, abriu a porta 

mais um pouco e por ela passou, espremendo o seu corpo robusto. 

— Vamos, entre logo! — ciciou sua amante. 

—  Por  que  permitiu  tantas  vezes...  ?  —  foi  logo  dizendo  Egisto,  todo  alterado,  com  as 

unhas ainda enterradas nas palmas das mãos. 

— Pssssiu! Que estás dizendo, louco? — disse Clitemnestra, baixinho. Egisto ignorou-a e, 

após colar seus lábios úmidos aos ombros da amante, 

por alguns instantes, arremessou-a em seguida ao leito, com fúria. 

— Puá! — fez ele, cuspindo para o lado. — Sua pele fede à saliva podre do cão! 

—  Cale  a  boca,  idiota!  —  falou  Clitemnestra.  —  Quer  botar  tudo  a  perder  com  seus 

ciúmes ridículos? 

— Chamas de "ciúme ridículo" ter de assistir à mulher amada ser lambida por um bode 

asqueroso, feito um osso ordinário? 

Algo  disse  à  Clitemnestra  que  era  hora  de  devolver  aquela  bofetada  anterior,  e  ela  não 

hesitou em aproveitar a ocasião. 

—  Veja  como  usa  as  suas  comparações  imundas  para  comigo!  —  disse,  aplicando  às 

barbas de Egisto uma sonora bofetada. 

—  Chamou, minha senhora? — disse Cassandra, a nova escrava, entrando abruptamente, 

alguns segundos depois do tempestuoso idílio. 

—  Sim,  venha  até  aqui —  disse  Clitemnestra,  cujos  olhos  despediam  faíscas.  Cassandra 

aproximou-se e, tão logo esteve ao pé da rainha, recebeu desta, 

também, outra sonora bofetada. 

—  Isto  é  para  você  aprender,  desde  já,  a  não  entrar  em  meus  aposentos  sem  antes  se 

anunciar! — disse Clitemnestra, escarlate de fúria. — Já para fora! 

Para  sorte  do  casal  de  amantes,  Egisto,  prudentemente,  ocultara-se  antes  da  entrada  da 

infeliz Cassandra. Entretanto, também fora tudo em vão, pois a nova escrava já sabia do romance 

que ambos mantinham,  mesmo antes de chegar à terra de Agamenon, agraciada que fora pelos 




deuses  com  o  dom  da  profecia.  Por  várias  vezes  havia  alertado  inutilmente  o  rei,  durante  a 

viagem de retorno a Argos, que sua mulher o traía e que um dia haveria de tramar a sua morte, 

além da dela própria, Cassandra. 

Infelizmente não pudera prever que isto se daria tão em breve. 

—  Vamos  de  uma  vez!  —  disse  Clitemnestra  ao  amante,  que  reaparecera  como  num 

passe de mágica, esquecido já da agressão. 

Os  dois  puseram-se,  então,  porta  afora.  Egisto  tomara  uma  rede  de  grossa  e  intrincada 

trama e a levava enrolada no braço, enquanto Clitemnestra segurava atrás das costas um pequeno 

machado de dois gumes. 

Assim, pé ante pé e encostados à parede, atravessaram o corredor parcamente iluminado 

por um archote quase exaurido, que ainda bruxuleava, envolto na penumbra. 

Escutaram a voz de Agamenon, que parecia devanear sob a água tépida do banho: 

— A sombra do Hades... Silêncio, Cassandra... Um crime hediondo... Silêncio... 

Sua  barba  brilhava,  orvalhada  pelos  respingos  da  água,  enquanto  mais  acima  seus  olhos 

cerrados moviam-se celeremente por baixo das pálpebras. 

— Ele sonha...! — disse Egisto, com os lábios colados à orelha de Clitemnestra. 

—  Vamos  acordá-lo,  então!  —  replicou  em  surdina  a  mulher,  a  quem  a  piedade  não 

consegue afrouxar um único músculo. Depois, erguendo a voz, exclamou, ainda no corredor: 

— Agamenon, meu marido! Apresse seu banho que seus convidados lhe esperam! 

O marido de Clitemnestra, subitamente desperto, mergulha então a cabeça mais uma vez 

no  fundo  da  tina.  Alguns  segundos  depois  a  retira,  dando  um  longo  hausto  que  espalha  uma 

chuva  de  gotas  d'água  por  toda  a  peça.  Em  seguida,  põe-se  em  pé,  procurando  manter  o 

equilíbrio. O ruído intenso da água que escorre através dos espessos pêlos de todo o seu corpo, 

indo  desaguar  na  tina  quase  repleta,  dá  a  impressão  de  uma  chuva  abundante  que  cai  naquela 

peça. 

— Chegou a hora, Egisto... VAI! — ordena Clitemnestra a seu amante. 



Egisto  pula  para  dentro  da  peça  e  lança  sobre  Agamenon  a  rede  de  fios  solidamente 

tecidos. 

— O que é isto... ? — exclama Agamenon, debatendo-se feito um inseto na teia. Nesse 

mesmo  instante  Clitemnestra,  num  salto  de  felina,  põe-se  às  costas  do  marido  e  exclama, 

erguendo ao alto o machado recoberto de crostas de ferrugem: 

— Para trás, Egisto! — diz ela, afastando seu cúmplice. 

O machado desce velozmente, arrancando do ar um zunido. 



Clitemnestra,  entretanto,  erra  o  alvo,  acertando,  em  vez  da  cabeça  de  Agamenon,  a  sua 

clavícula direita. O rei lança um grito terrível e dobra um joelho, envolto sempre nas malhas da 

rede. 

— Isto, celerado, é por ter me arrebatado Ifigênia! — diz Clitemnestra, num tom de voz 



claro o bastante para ser compreendido. 

Com  um  puxão,  Clitemnestra  arranca  das  carnes  de  Agamenon  o  ferro  imundo  e, 

erguendo-o ao alto outra vez, desce-o em novo golpe feroz. Desta vez obtém sucesso, acertando 

a cabeça do esposo, que se fende como uma romã. 

— Veja, Egisto! — diz ela, tomada por um furor quase báquico. — Com que profusão 

seu sangue negro verte pelo chão até esquentar os meus pés. 

Agamenon  já  estertora,  quando  Clitemnestra  aplica-lhe  um  terceiro  e  definitivo  golpe 

sobre o peito. 

Tudo  consumado,  Clitemnestra  e  o amante  já  se  preparam  para  deixar  o  local  do crime 

quando  Cassandra,  a  filha  de  Príamo,  surge  à  sua  frente.  Sua  boca  espuma  e  seus  olhos 

esgazeados  rebrilham  sob  a  luz  tremida  do  archote,  que  quase  se  apagara  pela  violência  dos 

arremessos do machado. 

— Assassina... Assassina... Oh, lugar de maldição! — diz Cassandra, horrorizada. 

— Eis, então, a cadela que o porco trouxe de Tróia maldita, para refocilarem juntos! — 

exclama  Clitemnestra,  segurando  ainda  o  cabo  do  machado,  agora  completamente  molhado  do 

sangue que cai da lâmina. 

Ato contínuo, desce a arma sobre a indefesa mulher, que cai morta ao chão. 

—  Vamos  embora,  Clitemnestra!  —  diz  Egisto,  o  assassino  de  Atreu,  que  desta  vez 

apenas assistira à consumação de mais uma infâmia. 

Quando ambos chegam, enfim, ao quarto de Clitemnestra, a rainha abraça-se finalmente a 

Egisto. 

— Está feito, querido! — diz ela, cujos olhos luzem de satisfação. 

— Sim, minha amada! — responde Egisto, enterrando os dedos nos cabelos da rainha. 

—  "Sim,  minha  cúmplice"!  —  diz  ela,  pedindo  com  os  olhos.  —  Vamos,  repita!  Egisto 

reluta, a princípio, mas finalmente, rendido ao olhar de Clitemnestra, obedece: 

— Sim, minha cúmplice. Sim, minha cúmplice adorada! 

—  Logo,  meu  amado  Egisto,  você  será  feito  senhor  de  todo  este  reino    diz  ela, 

acariciando o largo peito do amante com as mãos que empunharam a arma fatal. 

Acostumado,  porém,  ao  odor  do  sangue  das  suas  vítimas,  o  ardente  Egisto  sequer 

percebe que é seu peito, agora, que está todo manchado de um vermelho escuro e sinistro. 




ORESTES E AS FÚRIAS

 

—  Orestes, filho de Agamenon e Clitemnestra! — disse a deusa Minerva, pondo-se em 



pé,  ao  alto  da  tribuna.  —  Você  está  agora  diante  dos  doze  juízes  deste  Areópago  para  que 

responda à acusação de ter dado morte cruel à sua própria mãe. 

O acusado ergueu-se, vacilante, e deu um passo adiante. Atrás dele, contidas a custo por 

Apoio,  o  defensor  de  Orestes,  estavam  três  horrendas  figuras  que,  com  os  braços  estendidos, 

procuravam agarrar e dilacerar o réu. 

Eram as Fúrias, divindades infernais do ódio, da vingança e da justiça. Virgens caçadoras, 

eram  filhas  da  Noite  e  viviam  no  Tártaro.  Possuíam  asas  rápidas  e  horrenda  fisionomia.  Eram 

três:  Megera,  que  personificava  a  inveja  e  o  ódio,  Tisífone,  que  açoitava  os  mortais  com  seu 

chicote, e Alecto, a mais terrível, que personificava a vingança. 

—  Para  trás!  —  exclamou  Minerva,  algo  impaciente,  às  selvagens  criaturas.  —  Cessem 

por um momento a sua ira, para que ouçamos o que o réu tem a dizer em sua defesa. 

—  O que pode dizer o assassino da própria mãe? — exclamou Tisífone, fazendo estalar 

o seu chicote de cobras trançadas sobre as costas do acusado. 

— Sim...! — acrescentou Alecto, outra das terríveis Fúrias, aproximando o facho do rosto 

do  acusado.  —  Vamos  inaugurar  entre  nós,  então,  o  insano  costume  de  conceder  perdão  aos 

parricidas? 

—  Irrisão!  —  gritou  Megera,  a  terceira  das  irmãs  infernais,  com  os  olhos  raiados  de 

sangue. — Malditos todos aqueles que tomarem o partido deste cão odioso! 

— Basta, filhas do Tártaro! — disse Minerva, silenciando as três. — Quero ouvir, a partir 

de agora, tão somente a voz do acusado. 

Um  silêncio  pleno  de  expectativa  desceu  sobre  o  recinto,  fazendo-se  ouvir  somente  o 

estalar das flamas que ardiam nos archotes portados pelas sinistras irmãs. 

— O que venho aqui pedir — disse Orestes, encarando os seus julgadores -é que ponham 

um fim aos meus tormentos, libertando minha consciência, afinal, da cruel perseguição que lhe 

movem estas terríveis criaturas desde o dia em que, funestamente, minha mão ergueu-se contra 

minha própria mãe! Eis, pois, a minha negra história — completou o acusado. 

♦♦♦

 

"Meus  tormentos  começaram  na  terrível  noite  em  que,  ainda  criança,  fui  acordado  por 



minha irmã Electra, a me dizer com os olhos esgazeados: 

— Meu irmão Orestes, tome suas coisas e parta o quanto antes desta casa! Senti que algo 

me arrancava brutalmente da mais amena província de 



Morfeu para me lançar no mais horrendo dos abismos de Plutão. 

— O que diz, Electra? — perguntei-lhe, com o sono ainda a cerrar minhas pálpebras. 

— Nossa mãe, Clitemnestra, e o odioso homem que ela tomou por esposo tramam a sua 

morte! — disse ela, sacudindo-me, para espantar de mim os últimos vestígios de sono. 

Em rápidas palavras, explicou-me, então, que, tendo ambos tramado e levado a efeito a 

morte de nosso pai Agamenon, planejavam agora desvencilhar-se também de mim. -justamente 

aquele  que,  futuramente,  poderia  querer  tirar  deles  uma  sangrenta  desforra!  Bastaram  algumas 

poucas palavras do infernal Egisto para que minha mãe, baixando a cabeça, concordasse. 'Faça o 

que tiver de ser feito, amado Egisto, para que nosso amor não corra perigo algum...!', dissera ela, 

simplesmente. — 'Eu amo você, um crime selou nosso destino, e nada neste mundo poderá nos 

separar! Nem mesmo nas sombras mais escuras dos mais profundos antros infernais — prometa-

me! — você vai permitir que nos separem...'. 

Sua consciência já a remetia, insensivelmente, aos lugares de tormento e maldição; porém, 

ainda assim, ela persistia no seu projeto insano de continuar a viver ao lado daquele crápula! 'Oh, 

Vênus suprema, pode o amor, então, estar associado à tanta baixeza?!', perguntava-me, enquanto 

arrumava minhas coisas para partir imediatamente. 

Antes do dia clarear, já estava a caminho da casa de meu tio Estrófio, rei da Fócida. Ele 

era casado com a irmã de meu falecido pai, e ali eu podia estar certo de minha segurança. Quanto 

à minha irmã Electra, preferiu permanecer em Argos, pois, segundo o que ouvira, imaginava não 

correr tanto perigo quanto eu. 

Ao  chegar  na  Fócida,  fui  bem  recebido  pelo  rei  e  a  rainha  e  apresentado  ao  seu  filho 

Pílades, este mesmo que aqui vem beber, com ansioso olhar, as minhas palavras. 

Oh,  fiel  e  dileto  amigo  Pílades!  Desde  então,  como  um  irmão  gêmeo,  você  jamais  me 

abandonou... E mesmo neste momento de cruel provação, ainda uma vez me lança o olhar firme 

e leal da amizade! Que Júpiter supremo, ó meu irmão — pois sempre assim o chamarei -, possa 

velar incessantemente pelos seus passos, em todos os dias da sua vida!" 

♦♦♦

 

Neste  momento,  Orestes,  tomado  pela  emoção,  viu-se  obrigado  a  interromper  sua 



narrativa, pois os próprios juízes haviam curvado as cabeças para ocultar as lágrimas. As Fúrias 

vingadoras, no entanto, ergueram ainda mais suas cabeças aduncas. 

Megera,  dando  um  salto,  arrepanhou  suas  tranças  emaranhadas  de  víboras,  após 

arremessar  na  direção  de  Orestes  uma  cuspida  de  negra  bile,  e  em  seguida  passou  os  olhos, 

enojada, pelos doze julgadores: 



—  Puá...  Se  tais  são  estes  juízes,  que  ocultam  as  lágrimas  por  qualquer  bagatela,  que 

podemos esperar, irmãs, desta pantomima? 

Apolo, então, que protegia a causa de Orestes, interveio: 

—    E  o  que  entendem  vocês  de  amizade,  abutres  sinistros,  para  que  emporcalhem  de 

maneira  tão  vil  as  belas  palavras  de  Orestes?  Querem  descer,  então,  ao  nível  das  harpias 

hediondas, que empestam com sua baba imunda tudo quanto tocam? 

— Até quando permitirá, Minerva, que este protetor de assassinos desafie a justiça, que 

clama  unânime  pela  punição  deste  que  aí  está?  —  exclamou  Tisífone,  interrompendo  o  deus  e 

apontando seu dedo adunco para Orestes. 

— Acabemos com esta discussão e faça-se a justiça que todo o Olimpo espera! — bradou 

Aleto, a terceira das Fúrias, lançando aos pés de Orestes a sua tocha ardente. 

—    Basta,  terei  de  lembrar  a  todos  que  não  estamos  num  teatro?  —  disse  Minerva, 

erguendo  o  braço  e  restaurando  a  ordem  outra  vez.  —  A  palavra  é  devolvida  ao  acusado. 

Procure, apenas, ser mais direto em sua narração — disse ela, cochichando para Orestes. 

Este, recobrado, pôde enfim retomar a sua narração. 

♦♦♦


 

"Como estava dizendo, tão logo cheguei à corte de meu tio Estrófio fiquei conhecendo 

Pílades. Tal como eu, era ainda um garoto, e assim juntos crescemos, desfrutando das alegrias que 

ainda nos restavam da infância. 

Os anos se passaram, e um dia, já adulto, fui impelido por Pílades a consultar um oráculo, 

para  que  esse  pusesse  fim,  segundo  ele  mesmo  disse,  'aos  meus  rancores  ou  às  minhas 

protelações'. Fomos, então, para Delfos e ali escutamos o oráculo proferido por Pítia, sacerdotisa 

de  Apolo.  Este  foi  categórico  no  sentido  de  que  eu  devia,  a  qualquer  custo,  vingar  a  morte  de 

meu pai, Agamenon, expulsando para as regiões infernais o infame usurpador, bem como minha 

desgraçada mãe. Partimos, então, imediatamente, eu e Pílades, para Argos, a minha terra natal. 

Depois de vários dias de viagem, chegamos finalmente, sujos e cansados -pois íamos a pé, 

como qualquer um, para não levantar suspeitas -, à minha terra. 

A primeira coisa que fizemos foi ir logo ao túmulo de meu pai, para reverenciarmos a sua 

alma. 


Lá chegando encontramos apenas uma jovem, que trazia a cabeça coberta por um véu, a 

qual não deu pela nossa presença. Sem me importar com ela, depositei um cacho de meus cabelos 

sobre a tumba, tomado pela emoção. Alguns instantes depois, no entanto, ela voltou-se para nós, 

ainda com o rosto velado, e disse: 




—  Não  sabem,  intrusos,  que  o  acesso  a  este  local  é  vedado  a  estranhos?  Pílades,  que 

sempre teve melhor presença de espírito que eu, improvisou logo esta resposta engenhosa: 

— Perdão, jovem, mas somos estrangeiros. Sem sabermos de tal proibição, julgamos que 

seria um ato de piedosa devoção virmos, antes que tudo, reverenciar a memória do falecido rei. 

A moça, contudo, em vez de continuar a nos recriminar, descobrira a cabeça e, fora de si, 

me disse: 

— Benditos sejam os deuses! Será mesmo meu irmão Orestes quem tenho agora diante 

dos olhos? 

Imediatamente reconheci naqueles jovens e belos traços a figura de minha querida irmã 

Electra! E antes que pudesse responder vi-me em seus braços, num pranto incontido. Disse-lhe, 

então,  após  fazer  o  relato  daqueles  anos  todos  de  nossa  ausência  recíproca,  da  razão  de  minha 

vinda. Ela concordou prontamente com meu plano de matar os assassinos de meu pai, pois não 

deixara um instante de nutrir um ódio profundo, tanto por Egisto quanto por nossa mãe. Assim, 

ocultou-nos em sua casa — pois não morava mais no palácio -, e ali planejamos todos os passos 

para a concretização de nossa vingança." 

♦♦♦


 

"Alguns dias depois", recomeçou Orestes, em seu depoimento, "fomos eu e Pílades até o 

palácio real e nos fizemos anunciar como dois arautos do reino de meu tio. 

—    Temos  uma  triste  notícia  a  dar  sobre  o  filho  de  Clitemnestra  —  disse  Pílades,  que 

segurava, de maneira enigmática, uma grande caixa dourada. 

Os dois não tardaram a aparecer. O primeiro a surgir foi o assassino de meu pai. Trazia o 

ar  francamente  esperançoso,  pois  havíamos  plantado  em  seu  coração,  com  nossas  calculadas 

palavras, a certeza de que trazíamos a notícia de minha morte. 

Em seguida surgiu minha mãe, Clitemnestra. 

Que dizer do aspecto que trazia, então, em seu rosto? Como negar que, suspeitando de 

minha morte, não tivesse o direito de ostentar em seu rosto a piedade materna? 

Oh, desde aquele dia não tenho pensado em outra coisa. Mil vezes, em pensamentos ou 

em  sonhos  (que  digo?,  em  meus  pesadelos!),  revi  e  continuo  a  rever  suas  feições  estranhamente 

familiares. Posso reconstituir um a um o desenho de seus traços, desde o conjunto amplo do seu 

rosto até os seus  menores gestos: o franzir de  sua boca, o brilho dúbio de seus olhos — tudo, 

tudo!  Dêem-me  um  carvão  ou  um  bloco  de  mármore,  e  os  reproduzirei  todos,  tais  quais  os  vi, 

então!  —  e,  no  entanto,  não  saberia  dizer,  ainda  neste  instante,  o  que  expressavam  ou  escondiam!. 

Diferentemente de Electra, ela não me reconhecera. 




Mais um sintoma de sua indiferença por mim? Ou talvez meu rosto não fosse mais o de 

um filho? Pode, então, um filho que germina durante longos anos no espírito a idéia de matar a 

sua mãe trazer ainda algo nas feições que o indique como tal? Pode uma mãe que um dia desejou 

a  morte  do  filho  pôr  os  olhos  nele  sem  que  seu  coração  se  parta  em  dois?  Seríamos,  mesmo, 

ainda mãe e filho — ou já dois estranhos, que se defrontavam para um acerto final? 

Só sei que quando dei por mim escutava a voz familiar de meu amigo Pílades, a qual me 

soava, entretanto, como que vinda de um sonho: 

— Os maus fados abatem-se novamente sobre esta casa, pois eis que trazemos nesta urna 

as cinzas de Orestes, filho de Agamenon. 

Nesse  instante,  meus  olhos,  temendo  ver  a  alegria  estampada  nos  olhos  de  minha  mãe, 

desviaram-se involuntariamente e foram parar no rosto do impostor, o qual, eu tinha certeza, não 

conseguiria ocultar a satisfação. 

Com  efeito,  vi  imediatamente  seus  olhos  brilharem.  Em  seguida,  recuperando  mal  e 

porcamente o seu cinismo habitual, dirigiu-se a nós outra vez, velando, porém, a voz: 

—  São  verdadeiramente  funestas  as  novas  que  nos  trazem...  Depois,  voltando-se  para 

Clitemnestra, gemeu sordidamente: 

— Oh, Clitemnestra, que dia aziago é este, que Júpiter nos anuncia? Não podendo, então, 

suportar por mais tempo essa farsa abjeta, Pílades 

abriu  a  caixa  que  mantinha  em  suas  mãos,  sem,  no  entanto,  permitir  que  os  olhos  dele 

vissem-lhe o conteúdo. Maldito cão infernal! Se tivesse continuado a nos olhar, teria visto luzir, 

então, em nossos rostos, o reflexo do aço dos punhais. 

Enquanto os dois assassinos entreolhavam-se, simulando um luto atroz, Pílades sacou da 

caixa  o  seu  punhal,  me  estendendo  rapidamente  o  outro.  E  quando  o  rei  e  a  rainha  dirigiram 

outra vez para nós os seus olhares, nos encontraram já de armas em punho. 

— Mas... o que é isto? — exclamou o usurpador. 

Pílades, então, sem dar uma única chance para o adversário, enterrou com toda a força o 

ferro no seu coração. Em seguida retirou-o do peito de Egisto, que cambaleou para trás, já com a 

fronte gelada pela mão da Morte. Quando caiu ao chão vomitava um sangue negro, que cobriu 

inteiramente o seu peito infame, agora descoberto. 

Ouvi  um  grito  sufocado  —  um  terrível  e  mudo  grito!  —  que  as  duas  mãos  de 

Clitemnestra foram insuficientes para abafar. 

— Orestes, faça agora o que lhe cabe! — gritou-me Pílades. 

Levantei meus olhos do corpo retorcido do vilão e finalmente defrontei meus olhos com 

os de minha mãe. 




Oh, sim, éramos mãe e filho, embora ao nosso jeito! 

— Você... meu filho... Orestes... — gemeu ela, branca como o mármore que pisava. 

Nada respondi, nem tentei justificar o ato que estava prestes a cometer. Um tal ato traz a 

sua  própria  justificação.  Ergui  o  punhal  e,  desde  então,  nunca  mais  vi  o  seu  rosto.  Sua  voz, 

porém, tive de escutar uma vez mais: 

— Orestes, filho meu... Perdoe o sangue do seu sangue... 

Minha mão, suspensa no ar, hesitou por alguns instantes. Mas Pílades, enérgico, repetiu: 

— Orestes, lembre-se do oráculo! Faça o que deve ser feito! 

O  reflexo  de  algo  brilhou  rapidamente  diante  dos  meus  olhos.  A  lâmina,  porém,  ainda 

estava  no  alto,  na  mesma  posição.  Era  a  mesma.  O  aço  brilhava,  igualmente.  Mas  luzia  nele, 

agora,  uma  mancha  vermelha,  que  descia  em  vários  filetes  pelo  metal,  até  alcançar  o  cabo  de 

prata.  Olhando  para  a  frente,  vi,  então,  estupefato,  o  corpo  de  Clitemnestra,  rainha  de  Argos, 

estendido no chão...! 

— Está feito o que tinha de ser — disse meu companheiro e me puxou pelo braço, para 

me afastar daquele lugar, para sempre maldito. 

Nesse instante, porém, meu entendimento se turbou, e meus olhos se nublaram. E dessa 

névoa  funesta  vi  surgirem  aos  poucos,  à  minha  frente,  essas  odiosas  criaturas  —  essas  mesmas 

que ainda agora ali se assanham, ávidas por dilacerarem meu corpo inteiro!" 

♦♦♦

 

A deusa Minerva, entendendo que acabara a defesa de Orestes, deu, então, por iniciada a 



votação que condenaria ou absolveria o réu. Cada qual dos doze juízes ergueu-se de seu assento e 

dirigiu-se solenemente à urna de votação, acompanhados sempre pelos olhares ávidos dos demais 

presentes.  Ocultamente,  introduziam  em  uma  urna  uma  bola  branca  ou  preta,  conforme  a 

natureza do seu voto. 

As  Fúrias,  sempre  inquietas,  sibilavam  ameaçadoramente  a  cada  julgador  que  por  elas 

passava, agitando suas tochas. Apolo, que recebera Orestes em  seu templo para proceder à sua 

purificação, consolava-o, incutindo-lhe ânimo. 

Encerrada  a  votação,  finalmente  Minerva  começou  a  retirar  as  bolas  da  urna.  Por  seis 

vezes sua mão colheu de dentro bolas brancas. E, por outras seis, as bolas pretas. 

— Os juízes não chegaram a um acordo — anunciou a deusa, laconicamente. 

Orestes,  angustiado,  não  sabia  o  que  dizer  nem  o  que  esperar.  As  Fúrias  abriram  suas 

negras asas e entoaram seu espantoso hino, no qual clamavam pelo castigo mais cruel. 

Minerva, a justa, decidiu, então, proferir ela mesma o voto decisivo: 



—  Meu  voto  será  irrecorrível  —  disse,  olhando  severamente  para  todos  -,  e  ai  daquele 

que ousar empregar palavras rudes para contestá-lo! 

A deusa subiu os degraus até a urna e diante dela depositou secretamente o solitário voto. 

Em seguida, um dos juízes foi chamado para retirar dali o voto e proclamar a sentença. 

—  Minerva,  deusa  da  sabedoria  e  magistrada  suprema  deste  tribunal,  decide  agora  pela 

absolvição do acusado! — disse, afinal, o juiz, retirando da urna a bola fatal. 

— Parece que se encerra, finalmente, a época cruel das selvagens punições e das terríveis 

expiações — disse Apolo às Fúrias, com o semblante luminoso. 

As três irmãs, contudo, esbravejavam, clamando contra o veredito: 

—  Que  ninguém  invoque,  nunca  mais,  o  nosso  nome!  Do  antigo  templo  da  justiça 

restam,  agora,  apenas  destroços!  Guardem  bem  estas  palavras,  pois  exatamente  isto  repetirão 

futuramente os poetas. 

—  Que lhes disse, filhas do Érebo? — perguntou Minerva, encerrando a sessão. 

Quanto  a  Orestes,  abraçou-se  ternamente  a  seu  amigo  e  primo  Pílades,  sabendo  que 

consigo encerrava-se, finalmente, o horroroso ciclo de crimes em sua família. 

MENELAU E PROTEU

 

Menelau, regressando vitorioso de Tróia, tem agora, diante de si, a ninfa Idotéia. 



— Bela ninfa, que aqui me vês perdido com meus barcos e homens nesta costa do Egito, 

para nós tão inóspita e longínqua quanto a extremidade do mundo! — diz o audaz navegante. — 

Durante  os  últimos  anos  não  temos  feito  outra  coisa  senão  tentar  regressar  a  nossos  lares  e 

retomar o doce remanso que eram nossas vidas antes dessa guerra cruel, que tantas vidas custou a 

vencidos e vencedores... 

—  O,  bravo  Menelau!  —  responde  a  suave  ninfa. —  A  sua  presença  e  a  da  sua  esposa 

Helena  só  podem  enobrecer  estas  águas  que  ora  vos  sustentam.  Porém  compreendo 

perfeitamente  a  razão  das  suas  queixas.  Por  isso,  vou  dizer  agora  o  que  você  deve  fazer  para 

alcançar o rumo de sua casa. 

—    Diga,  ninfa  gentil,  e  lhe  seremos  gratos  por  toda  a  vida!  —  exclama  Menelau, 

redobrando a atenção. 

— Filha sou de Proteu, o pastor dos rebanhos aquáticos de Netuno, de quem é filho, e 

somente da boca dele vocês poderão escutar o que as suas alma desejam ouvir. Ele tornou-se um 

grande adivinho, recompensado que foi por seu pai pelos serviços que continuamente lhe presta, 

e saberá perfeitamente indicar o caminho que vocês devem seguir. 

Os rostos de Menelau e de seus homens refulgem. 




— Porém, cuidado! — diz a ninfa, suspendendo um alvo dedo. — Meu pai, por ter sido 

tão  importunado  em  razão  desse  seu  dom,  tornou-se  o  mais  esquivo  dos  seres.  Eis  por  que  de 

nada valerão as artes da eloqüência se você desejar dele se aproximar. 

Depois de orientado, então, acerca dos artifícios de que deveria valer-se para arrancar do 

fugidio Proteu a informação que precisava, Menelau e seus barcos partiram com a velocidade do 

vento. 


♦♦♦

 

O  dia  amanheceu  e  segue  já  o  seu  curso.  Escondidos  ao  pé  de  uma  gruta  não  menos 



oculta estão Menelau e três de seus companheiros. 

— Atenção, todos! — declara o comandante. — Devemos agora munir-nos de paciência 

e aguardar até que Proteu faça sua aparição. 

O  sol  está  a  pino,  e  é  nesse  exato  instante  que  a  figura  imponente  do  filho  de  Netuno 

surge das profundezas do mar. A água salgada escorre em cachoeiras de seus longos cabelos e lhe 

desce  em  ondas  sinuosas  pelo  corpo  escamado.  Um  rebanho  imenso  de  peixes  e  animais 

marinhos turbilhona ao seu redor, parecendo disposto a segui-lo em terra. 

— Estejam silentes, agora, inquietas criaturas! — esbraveja Proteu. — Chegou a hora de 

meu descanso, na qual terei por companheiro apenas o discreto Silêncio. 

Com  efeito,  Harpócrates,  a  divindade  do  silêncio,  ali  está  postada  à  entrada  da  gruta. 

Proteu, sabedor da natureza discreta da divindade em questão, sabia também que o melhor jeito 

de homenageá-la é passar por ela sem nada dizer. 

— Vamos atrás — diz Menelau aos três companheiros. 

Os quatro carregam a oito mãos uma corda extraordinariamente grossa, arrancada de suas 

embarcações. Mais tarde, tão logo escutam um forte ressonar dentro da gruta, adentram-na, sem 

serem importunados pelo Silêncio, que já partiu adejando, aborrecido com aquele som pavoroso. 

Uma  vez  lá  dentro  todos  são  obrigados  a  tapar  os  ouvidos  com as  mãos,  tão  forte  o  ronco  do 

deus. 


—  Pelos  deuses!  —  exclama  um  dos  homens.  —  Parece  que  escuto  seu  ronco  nas 

profundezas de uma enorme concha marinha! 

—  Silêncio,  ou  daqui  a  pouco  o  escutará  nas  profundezas  escuras  do  seu  estômago!  — 

adverte o prudente Menelau. 

Mas Proteu está mergulhado num sono pesado, e nada além do estrépito de seu ressonar 

poderá tirá-lo do estado que os poetas chamam de irmão da morte. 

Menelau ordena a seus homens que amarrem fortemente os membros do deus. Depois de 

o imobilizarem, agarram-se ainda, com todas as suas forças, aos seus braços e pernas. 




—  Ó Proteu, digno pastor dos rebanhos de Netuno! — lisonjeia Menelau, agarrado ao 

pescoço  do  deus.  —  Perdoa  nossa  rudeza,  mas  foi-nos  dito  que  doutro  modo  as  suas  sábias 

palavras não se fazem ouvir. 

O deus, acordando, dá-se conta de sua desafortunada situação. 

— Como, então, se atrevem, reles mortais? — ruge Proteu, tentando desvencilhar-se. 

Mas  é  tudo  em  vão.  Sentindo  seus  membros  completamente  imóveis,  o  deus  recorre, 

então, a um espantoso recurso: numa fração de segundos, ei-lo transformado em um pavoroso 

leão. 


—  Agarrem-no,  ainda  uma  vez!  —  exclama  Menelau,  de  músculos  retesados.  A  fera 

debate-se com fúria, porém inutilmente. Vendo seu insucesso, o deus muda-se agora em dragão. 

— Segurem-no, mais uma vez! — exclama novamente o audaz Menelau. 

O dragão debate-se horrivelmente, cuspindo labaredas para todos os lados. Mas é ainda 

em vão: continua solidamente preso às amarras e aos braços dos cinco homens robustos. 

— Por quanto tempo resistiremos ainda a este dragão? — exclama um deles a Menelau. 

Mas já é um leopardo que agora todos abraçam. 

— Força, ainda uma vez! 

Dentro em pouco um enorme javali escoiceia sob as cordas, arremetendo com suas presas 

afiadas contra os seus captores. 

— Comandante! — diz agora outro homem, numa dúvida assustada. — Se é verdade que 

ele pode também tomar a forma da água, como faremos para mantê-lo preso em nossas mãos? 

—  O  primeiro  passo  é  afrouxar  o  músculo  solto  de  sua  língua  e  retesar  os  demais!  — 

exclama Menelau, rubro do esforço de manter imóvel o deus. 

Felizmente, porém, Proteu dá-se por vencido. 

—  Vamos,  satisfaçam  logo  sua  curiosidade  e  deixem-me  em  paz!  —  exclama  o  deus, 

furibundo. A entonação de sua voz é a de quem dá uma ordem e jamais a daquele que admite, 

humilhado, a derrota. 

E  foi  assim  que  Menelau  obteve  a  sua  resposta  acerca  da  direção  que  devia  seguir  para 

chegar em casa e partiu de volta para o seu reino. Junto dele seguia Helena, sua adorável mulher, 

que em artes de mutabilidade excedeu o talento de qualquer outro deus. 

O CASTIGO DE ESCULÁPIO

 

—  Júpiter,  meu  pai  —  disse  Mercúrio,  filho  e  ágil  mensageiro  do  pai  dos  deuses.  — 



Caronte, o barqueiro dos infernos, vem subindo das profundezas do Tártaro para lhe falar. 

— Caronte?! — exclamou Júpiter. — O que vem fazer aqui o condutor de almas? 




—  Boa  coisa  não  há  de  ser,  pois  seu  semblante  está  carregado  e  sua  voz,  desde  longe, 

ecoa asperamente. 

Dentro  de  instantes  o  velho  barqueiro  adentrava  o  palácio  de  Júpiter,  brandindo  com 

fúria o seu imenso remo. 

—  Onde está aquele infernal Apolo? — disse Caronte, espumando negro pela boca. 

—  O  que  houve,  meu  delicadíssimo  ancião?  —  inquiriu  Júpiter,  cofiando  a  sua  imensa 

barba branca. 

—  O que há é que Esculápio, filho deste folgazão, anda arrebatando despudoradamente 

os meus passageiros, que são também os súditos de seu irmão Plutão, isto é que é! — exclamou o 

barqueiro infernal, sacudindo o punho. -Já há alguns dias vinha notando que minha barca andava 

inativa, por falta de passageiros, o que já muito me intrigava. Mas agora, definitivamente, a coisa 

extrapolou  de  vez,  pois  desde  ontem  tenho  sido  obrigado  não  só  a  atravessar  o  Estige  com  a 

barca  completamente  vazia,  como  também  a  trazer  de  volta  da  outra  margem  as  almas  dos 

mortos que há muito eu já havia levado para a Morada das Sombras! 

—  Chame  Apolo  —  disse  Júpiter  a  Mercúrio,  ao  ver  que  o  caso  era  grave.  Dentro  em 

pouco o luminoso deus adentrava os soberbos paços de Júpiter. 

— Eis o tal...! — disse Caronte, com um muxoxo de desdém. 

—  Apolo,  explique  já  o  que  seu  filho  Esculápio  anda  aprontando  lá  embaixo  —  disse 

Júpiter, pondo uma nota mais forte de autoridade em sua voz. 

—  É  simples,  meu  pai  —  disse  Apolo,  que  já  estava  ao  par  de  tudo,  graças  à  língua 

eficiente  de  Mercúrio,  que  parecia  ter  asas  como  suas  famosas  sandálias.  —  Esculápio  vem 

adquirindo tamanha eficiência em sua arte curadora, pois deves saber que é o melhor médico de 

quantos o mundo possa haver um dia gerado, que, além de curar seus pacientes, conseguiu agora 

descobrir um modo de ressuscitar aqueles que a Morte lhe raptou em embates anteriores. 

— Isto é formidável... — exclamou Mercúrio. 

—  E  como  faz  para  realizar  tamanho  prodígio?  —  inquiriu  Júpiter,  francamente 

alarmado. 

— A receita somente ele possui — disse Apolo, com uma ponta de orgulho do filho -, 

mas sabe-se que se utiliza, dentre outras substâncias, de um filtro poderoso extraído do sangue de 

Medusa, uma das Górgonas malditas. 

—  Ah,  o  sabichão!  —  exclamou  Caronte,  tomado  pela  cólera.  —  Pretende  então 

subverter  a  ordem  do  Universo,  misturando  mortos  com  vivos,  até  esvaziar  as  regiões 

subterrâneas de seus habitantes? 



—  E  por  que  não?  —  disse  Apolo,  imaginando,  por  alguns  instantes,  um  mundo  sem 

velórios nem funerais. 

Caronte, escutando isto, falou: 

—    Ouçam  todos!  Antes  de  subir  para  cá  encontrei  no  caminho  a  Morte,  debruçada 

miseravelmente  sob  a  carcaça  apodrecida  de  um  antigo  cipreste.  Que  figura  lastimável 

apresentava, então! Escutando seu pranto, lhe disse: "Velha amiga, que choradeira toda é esta?". 

Ao erguer sua cabeça vi que um pranto copioso descia de suas duas órbitas vazias. Seu sorriso, 

que  dizem  eterno,  me  pareceu  apenas  o  esgar  grotesco  das  faces  golpeadas  pela  desgraça! 

"Caronte, amigo!", disse-me ela, soluçando sua voz fina e esquálida. "Sinto que finalmente chega 

para mim, também, o último suspiro!" A Morte frente a frente consigo mesma! Eis ao que meus 

olhos incrédulos estavam assistindo! Ao lado dela, sob um monte de folhas mortas, vi negrejar o 

pedaço adunco de sua outrora tão operosa foice. Que lástima! Agora ali estava convertida num 

pedaço inútil de ferro, que um juntador de trastes atirou para a carroça com um sacrílego bocejo 

de tédio. Quando me voltei para minha pobre amiga, acreditei-a, então, finalmente acabada. Sua 

face, sempre sadiamente pálida, agora trazia a lividez espectral dos mortos. "Morte, amiga, vamos, 

reaja!"  Massageei  vigorosamente  suas  costelas  proeminentes  e  consegui,  graças  aos  deuses, 

chamá-la de volta à vida!'... 

— Isto é a sério... ? — cochichou Mercúrio a Júpiter. 

— Silêncio, leva-e-traz! — exclamou Caronte, que tinha os olhos cheios de água. — Tão 

logo a Morte readquiriu um pouco da sua saudável palidez, ergueu um pouco a cabeça e, depois 

de  puxar  para  trás  as  suas  trancinhas  de  víboras  disse-me:  "Caronte,  só  você  pode  me  ajudar! 

Acabe com aquele curador de doenças insolente ou perecerei! E você ficará para sempre sem o 

seu  emprego  e  seus  queridos  óbulos!"  Eis,  Júpiter,  o  que  o  filho  deste  aqui  prepara  para  nós 

todos! 


Júpiter,  o  deus  dos  deuses,  o  juiz  supremo,  dispensou  todos,  menos  Mercúrio,  a  quem 

disse: 


—  Vá  até  as  forjas  e  peça  aos  ciclopes  que  fabriquem  o  melhor  raio  que  conseguirem. 

Mas atenção, que seja um raio o menos indolor possível... 

Mercúrio,  entrevendo  tudo,  lamentou  a  sorte  que  se  preparava  para  o  pobre  Esculápio. 

Ainda  assim,  foi  cumprir  sua  missão.  Ao  fim  do  dia  retornou  com  a  peça  maravilhosamente 

confeccionada. 

— Ótimo! — exclamou Júpiter, admirando o desenho do raio. 




Em  seguida  procurou  um  bom  local  para  sua  pontaria  e,  mirando  no  pobre  filho  de 

Apolo, aqui na Terra, desferiu sua mortífera seta. Esculápio caiu morto no mesmo instante e logo 

estava no Olimpo, diante de Júpiter: 

— Desculpe, meu neto, mas não havia outro jeito — disse Júpiter, pondo a mão sobre o 

ombro  de  Esculápio.  —  Você  estava  prestes  a  provocar  uma  revolução  na  terra,  no  céu  e  nos 

infernos. Mas não se preocupe, a partir de agora será imortal como nós, e farei de você uma bela 

constelação no firmamento! 

—  Grande  coisa...  !  —  disse  Esculápio,  já  longe  dos  ouvidos  do  deus  supremo.  —  O 

velho ainda acha que tem graça essa brincadeira de transformar alguém em constelação! 

Enquanto isto, entre os mortais, o culto de Esculápio apenas começava a germinar. 

O PRÊMIO DE TROFÔNIO

 

Trofônio, filho de Apolo e Epicasta, era um dos mais célebres arquitetos da Antigüidade. 



Junto com seu padrasto Agamedes, ergueu belíssimas construções, tais como o quarto nupcial de 

Alcmena, mãe de Hércules, e o templo de Netuno, na Arcádia. 

Sabedor disso, Apolo mandou chamar Trofônio e Agamedes imediatamente. 

—  Quero  que  construam  um  magnífico  templo  para  mim  —  disse  o  deus.  Padrasto  e 

enteado aceitaram o desafio. Desde aquele dia debruçaram-se sobre a planta com seus utensílios 

de desenho, erguendo arcadas, projetando abóbadas e imaginando mil e uma volutas e arabescos 

para os pilares. 

— Vai ser uma obra-prima — dizia Trofônio ao padrasto, que concordava, ajustando o 

compasso. 

Depois de um mês de intenso labor, finalmente apresentaram a Apolo o projeto. 

— Nada menos que magnífico — disse o deus, dando uma palmada de alegria no joelho. 

— Mãos à obra, imediatamente! 

Trofônio e Agamedes gastaram os próximos seis meses numa labuta infernal para erguer 

do  chão  a  esplendorosa  construção.  A  cada  dia  uma  nova  maravilha  surgia  ante  os  olhos 

deliciados dos pedreiros. 

— Que beleza !— exclamava um, de colher parada na mão. 

— Um estupor! — exclamava outro, com o queixo caído. 

—  Vamos  lá,  vamos  lá!  —  gritava  Trofônio,  num  azáfama  incessante,  o  que  não  o 

impedia de exclamar a Agamedes, quando ambos eventualmente cruzavam um pelo outro: 

— Vai ficar daqui, ó! 

E o outro concordava, suado e sobraçando as suas plantas. 



Ao  fim  do  prazo  a  obra  estava  pronta.  Apolo  foi  chamado,  e  uma  venda  foi  colocada 

sobre os seus olhos — sugestão do próprio Trofônio, que apreciava mais que tudo ver o brilho 

de espanto e alegria nos olhos dos clientes. 

Assim  que  a  venda  foi  retirada  e  Apolo  pôde  contemplar  a  maravilha  que  os  dois 

arquitetos haviam erguido em sua homenagem, chegou quase a perder os sentidos. 

— Rápido, tragam-lhe um pouco de hidromel! — exclamou Agamedes, que tinha sempre 

à mão esse recurso para trazer de volta a cor ao rosto dos clientes estupefatos. 

—  Vocês são estupendos, mesmo! — disse Apolo, enquanto bebericava o reconstituinte. 

— Excederam tudo quanto o projeto prometia... 

O  resto  do  dia  o  deus  passou  adorando  seu  novo  templo,  e  há  quem  diga  que  tenha 

mesmo passado a noite ali, em atônita e muda contemplação. 

No dia seguinte Trofônio e Agamedes compareceram diante de Apolo para receber o seu 

pagamento. 

— Quanto acham que vale o serviço perfeito que ambos fizeram? — perguntou o deus. 

Os dois entreolharam-se, confusos. 

— Bem, divindade, não saberíamos estipular... — respondeu Trofônio, encabulado. 

— Vamos, deixem de modéstia! — disse Apolo. — Qual pode ser o melhor prêmio para 

um mortal? 

Os dois atrapalharam-se ainda mais. 

—  Vamos, tomem isto — disse Apolo, estendendo a ambos uma enorme sacola, repleta 

de moedas de ouro. — Nos próximos sete dias gastem-na inteira, fazendo tudo quanto gostariam 

de ter feito e ainda não puderam. No oitavo dia receberão, então, o pagamento. 

— Mas, divindade... já não é o pagamento? — exclamou Agamedes, cujo rosto refletia a cor 

dourada das moedas. 

— O prêmio maior que um mortal pode ambicionar ambos terão apenas no oitavo dia — 

disse o deus enigmaticamente. — Vão e, até lá, aproveitem! 

Nos sete dias seguintes deram largas, então, à sua vontade: 

No primeiro dia comeram tudo quanto enxergaram, até ficarem verdes de eólica. 

No segundo dia encharcaram-se de vinho até caírem desmaiados sobre as mesas. 

No terceiro dia viajaram por inúmeros lugares numa liteira de ouro, até ficarem vesgos de 

tanto ver paisagens. 

No quarto dia dançaram loucamente em todas as tavernas, como bufões enlouquecidos, 

até incharem os pés de bolhas. 



No quinto dia escutaram as mais belas músicas que o gênero humano pôde compor, até 

não suportarem mais um único acorde. 

No sexto dia, tendo contratado os maiores sábios do mundo para que lhes explicassem os 

segredos do Universo, adormeceram antes que todas as sumidades pudessem chegar a qualquer 

conclusão. 

No sétimo dia juntaram em casa quantas mulheres belas o dinheiro pode pagar. 

E aí foi demais: a sacola finalmente se esvaziou, até a última moeda. 

No oitavo dia toda a cidade aguardava Trofônio e Agamedes no templo de Apolo, para 

ver  o  que  seria,  afinal,  aquele  prêmio  maravilhoso  que  a  divindade  lhes  prometera.  "O  prêmio 

maior que um mortal pode aspirar", segundo a promessa. 

Porém, como não aparecessem nunca, correram todos até a casa dos dois. Não obtendo 

resposta  aos  seus  chamados,  invadiram-na  e  encontraram  os  dois  deitados,  de  orelhas  tapadas, 

cada qual em sua respectiva cama. 

Dormiam  o  imperturbável  sono  eterno  e  tinham  nos  lábios  um  sorriso  que  vivo  algum 

pode igualar. 

ÍXION, PAI DOS CENTAUROS

 

Dois homens andam pelas ruas de uma cidade grega. De repente, um deles: 



—  Não  acredito,  veja  só  quem  vai  ali!  Me  alcança  aquela  pedra,  vai.  Uma  pedra  do 

tamanho de um punho assobia no ar e vai acertar em cheio 

as costas de um homem imundo e esfarrapado. 

— Por que fez isto? — exclama, atônito, o amigo. 

— Ora, não sabe, então, quem é aquele cão? 

— Nem imagino, desfigurado daquele jeito. 

— É Íxion, ex-tirano dos lápitas, agora caído em desgraça. 

— Nunca ouvi falar dele. 

—  Como  não?  Você  deve  ser,  então,  o  único  que  não  conhece  a  sua  perfídia.  Não  há 

lugar onde ele ponha os pés do qual não seja cuspido e escorraçado. 

— Mas qual foi o seu crime? — diz o que alcançara a pedra. 

—    Tudo  começou  quando  o  canalha  resolveu  casar-se  com  a  pobre  Clia,  filha  de 

Deioneu — respondeu o outro. — E  só conseguiu isto porque prometeu ao pai da noiva uma 

verdadeira fortuna em presentes. 

— Comprou a filha? 

— Exato. Mas no final das contas não pagou uma moeda por ela. 

— E o pai deixou a coisa assim? 



— Não, foi cobrar a conta, naturalmente. Mas Íxion recusou-se a recebê-lo tantas vezes 

que  o  sogro  retomou  alguns  cavalos  que  dera  ao  novo  genro,  em  represália.  Isto  deixou  Íxion 

possesso. Um dia mandou chamar o sogro, sob o pretexto de que iria lhe pagar o preço da pobre 

Clia, afinal. 

— Não pagou, imagino. 

— Muito pior! Após receber o sogro com toda a hipocrisia, levou-o até um local onde se 

abria a boca de um grande fosso repleto de carvões acesos e lançou o pobre velho lá para dentro, 

dizendo: "Aí está, velho, o seu preço". 

— Que horror! 

— O pior é que a própria esposa, a doce Clia, já havia sido lançada ali, momentos antes. 

Quando  o  velho  caiu  sobre  as  brasas,  ainda  pôde  vislumbrar,  em  meio  às  dores  atrozes,  um 

esqueleto  carbonizado.  Queira  Júpiter  que  antes  de  morrer  não  tenha  reconhecido  naqueles 

negros ossos os restos mortais da própria filha. 

— Toma, desgraçado! — disse o que alcançara antes o pedregulho ao amigo, lançando ele 

próprio sobre o maltrapilho Íxion uma pedra duas vezes maior. 

Íxion,  com  mais  duas  manchas  roxas  nas  costas,  ergueu-se  do  pó  e  recomeçou  a  fugir. 

Andou  aos  tropeços  por  toda  a  cidade  até  cair  diante  das  portas  do  templo  de  Júpiter.  Ali, 

arrojado de bruços ao chão, clamou: 

— Júpiter hospitaleiro! Perdoe meus crimes! Limpe minha alma de toda a infâmia, pois só 

as suas mãos poderosas podem fazê-lo! 

O pai dos deuses, penalizado com a situação miserável daquele pobre homem que descera 

da altíssima condição de rei da Tessália a de um reles mendigo, apiedou-se, afinal, e elevou-o até 

os céus. Íxion, o vil mendigo, estava agora diante de Júpiter, soberano do mundo. 

— Tome, coma deste alimento e beba desta bebida! — disse o deus, alcançando-lhe uma 

taça de prata e um recipiente dourado. 

Íxion saboreou aquelas delícias e sentiu algo maravilhoso agitar-se em suas entranhas. 

— Eis que agora também é imortal, pois todo aquele que come da ambrosia e bebe do 

néctar adquire o nosso divino dom — disse Júpiter, solenemente. 

Nesse momento, Juno, a esposa de Júpiter, entrou no grande salão dos olímpicos. 

"Nossa, é ela, a poderosa Juno!", pensou Íxion, atordoado. "Nunca imaginei que fosse tão 

bela!" 

Tem gente que sai de uma encrenca para entrar em outra. Íxion era desses. 

Júpiter,  entretanto,  hábil  nas  artimanhas  da  conquista  e  da  traição  amorosa,  sabia 

perfeitamente reconhecer quando o jogo virava contra si mesmo. 




"Este sujeito... Não sei, não!", pensou. 

Resolveu, no entanto, dar uma chance a Íxion, para não parecer ingrato. 

Mas o tempo passava, e Íxion sentia aumentar a cada instante a atração pela deusa. Um 

dia, não suportando mais, resolveu declarar a ela o seu amor — ou seu desejo insano, mas que 

fazia  seu  peito  cruel  agitar-se  da  mesma  maneira  que  o  peito  dos  apaixonados.  Juno,  ofendida, 

deu-lhe as costas e no mesmo dia foi queixar-se ao divino esposo. 

— Vou pôr à prova este sujeito! — disse Júpiter à mulher. 

No mesmo instante tomou uma nuvem e formou nela a imagem da esposa: rosto, seios, 

braços, pernas, pés, em tudo a nuvem era uma cópia exata de Juno. 

Ao final do dia, quando a Noite lançara seu manto perolado sobre os últimos restos do 

crepúsculo,  o  simulacro  de  Juno  rumou  para  os  aposentos  de  Íxion.  Ele  estava  repousando  e 

pensando,  é  claro,  na  esposa  de  Júpiter.  "Oh,  Juno  querida!  Quando  serás  minha,  afinal?", 

pensava ele, febril. 

Nesse instante a cópia da deusa surgiu pela porta. Vestia apenas um manto diáfano, que 

ela fez deslizar para o chão com um imperceptível movimento de seus ombros delicados. Pronto. 

Ali estava Juno como verdadeiramente era — assim pensava o incrédulo Íxion -, inteiramente nua 

e à sua disposição! 

— Mas, então... você também me quer? — balbuciou o ex-tirano. 

O espectro, porém, nada disse, colando apenas seu corpo ao do apaixonado. 

— Amemo-nos! — disse a visão, com seus lábios de algodão. 

Para um crápula e um tirano, pode-se dizer que ele amou-a ardentemente. E ela, para um 

simples espectro, também não se saiu nada mal. 

Júpiter, sabedor de  tudo,  deixou que aquele simulacro de traição prosseguisse ainda por 

diversas  vezes,  dando  sempre  uma  nova  chance  ao  ingrato  para  que  se  arrependesse,  uma  vez 

extinta a chama ardente do primeiro desejo. Não fora sempre assim com o próprio deus? 

Mas por muitas vezes, ainda, repetiram-se os encontros. Íxion prometia a si mesmo que 

aquela seria sempre a última vez, mas quando ela ressurgia novamente, a cada noite, com a doce 

palavra  "Amemo-nos!"  nos  lábios  rubros  e  úmidos,  e  esfregava  em  seu  corpo  aquela  pele 

extraordinariamente alva e macia, via ruir aos seus pés a resistência premeditada. 

Destas uniões sucessivas formou-se uma série de seres horrendos, monstruosos e brutais 

como o pai, que a tradição batizou de "centauros". 

Ao ver o resultado funesto desses encontros, Júpiter finalmente resolveu dar um basta a 

tudo aquilo. Expulsou Íxion do seu palácio, dando-lhe ordens expressas para que nunca mais lhe 

aparecesse pela frente. 




A coisa teria saído barata deste jeito, mas um canalha nunca se redime. Tão logo se viu de 

volta  à  Terra,  começou  a  se  vangloriar  de  sua  conquista  -mesmo  que  ilusória  —  aos  amigos, 

dizendo a todo instante: "A esposa de Júpiter foi minha. É, sim senhores, a tive em meus braços, 

noite após noite". 

Júpiter,  então,  sabendo  de  mais  essa  torpeza,  tomou  de  um  de  seus  terríveis  raios  e 

lançou-o  sobre  Íxion,  fulminando-o  no  mesmo  instante.  Depois  chamou  seu  filho  Mercúrio  e 

disse: 

— Vá até o Tártaro tenebroso e cumpra à risca estas instruções. Lá nas profundezas do 

inferno estava o pérfido Íxion. 

— Mercúrio! — gemeu o tirano. — Vieste me levar de volta para o  Olimpo? O jovem 

deus, sem dizer nada, agarrou-o e o amarrou numa roda cercada 

por serpentes de fogo. Depois, dando um impulso com a mão, dele se despediu: 

—  Assim  são  premiados  os  ingratos,  que  semeiam  a  desonra  no  céu.  E  desde  aquele 

instante  o  pérfido  Íxion,  atado  de  pés  e  de  mãos,  gira  sem  nunca  cessar  naquela  girândola 

infernal. 

CTESILA E HERMOCARES

 

Hermócares,  rapaz  pobre,  mas  justo,  estava  apaixonado  por  Ctésila,  filha  do  poderoso 



Alcidamo.  Naquele  dia  celebrava-se  uma  festa  em  honra  de  Vênus,  e  o  jovem,  vendo  a  amada 

mais  bela  que  nunca,  tomara  uma  maçã  e  nela  inscrevera  esta  singela  inscrição:  "Prometo,  por 

Vênus suprema, que serás minha esposa". 

—  Oh, que atrevimento! — disse Ctésila, lançando fora a maçã e abandonando a festa. 

—  Ctésila,  Ctésila...  Confesse  que  seus  dentes  nunca  provaram  maçã  mais  saborosa  do 

que essa que sua alma agora provou! — gritou o audacioso Hermócares, enquanto a via perder-se 

entre os demais devotos de Vênus. 

A audácia de Hermócares não parou aí. No dia seguinte tratou de procurar o pai da jovem 

e, com o destemor que somente o amor pode infundir, pediu a mão dela em casamento. 

Alcidamo, no mesmo instante, lhe deu a resposta: 

—    Comigo  as  coisas  se  resolvem  num  tapa!  Concedo-lhe,  pois,  a  mão  de  minha  bela 

Ctésila. 

De  fato,  o  velho  Alcidamo  tinha  um  bom  olho  para  tudo,  e  enxergou  logo  no  rapaz  o 

genro ideal. 

— Bom, honesto e trabalhador! — disse, animado, logo que ele saiu. Ctésila ficou logo 

sabendo do pedido e, depois dos primeiros encontros deu a mão à palmatória: Hermócares era, 

de fato, um bom homem. O casamento foi marcado para logo em seguida. 



— Comigo é assim: querem casar? Casem-se logo, num tapa! — disse o pai, dando uma 

grande palmada no joelho, vaidoso de sua determinação. 

A  data  aproximava-se  rapidamente.  Os  preparativos  evoluíam  celeremente.  Um  dia,  no 

entanto, às vésperas da famosa data, Alcidamo chegou diante da filha e lhe disse assim: 

— Ctésila, querida. 

— Sim, meu venerável pai — respondeu ela, com os olhos radiantes. 

— Você se casa, então, daqui a alguns dias? 

— Se Vênus suprema assim permitir e desejar... 

— Eu também, mais que ninguém, o desejo — respondeu o pai. — Mas prepare-se para 

uma pequena mudança: o seu noivo não será mais o desgraçado Hermócares. 

— Não, papai? — exclamou a filha, estarrecida. 

—  Estive  conversando  com  um  amigo  e  ele  me  propôs  seu  filho  para  genro  -disse 

Alcidamo, com o ar perfeitamente natural. — Não pude negar-lhe; é um belo rapaz e muito mais 

rico do que o miserável Hermócares. Bom, honesto e rico! 

— Não, papai, quero casar-me com Hermócares. 

— Silêncio! Já está decidido, minha filha. E você sabe: quando quero, decido a coisa num 

tapa.  Não  me  obrigue  a  convencê-la  pelo  mesmo  método  —  disse  o  cruel  Alcidamo, 

suspendendo no ar a sua mão gigantesca. 

E a partir dali, aqueles poucos dias, antes tão ansiosamente aguardados, agora eram vistos 

com  tremendo  pavor.  Ctésila,  desesperada,  correu  até  o  templo  de  Vênus  e  clamou,  lavada  em 

pranto: 

— Vênus, proteja o meu amor! 

Naquele mesmo instante Hermócares entrou pela porta do templo. 

— Ctésila! — exclamou o jovem. — Seu pai me proibiu de ver você e não me quer mais 

para genro. O que faremos? 

As bocas de ambos silenciaram. Mas eles sabiam que só havia uma alternativa. 

— Vamos fugir! — exclamaram ao mesmo tempo. 

"É  isto?"  "Claro!"  "Vamos,  mesmo?"  "Será?"  "Não  será?"  —  toda  a  lista  infinita  das 

vacilações, nas quais o desejo se tortura continuamente desde o começo dos tempos, surgiu num 

tropel nas mentes dos amantes. Muito diferente da firmeza e decisão do velho Alcidamo, eles iam 

e vinham em seus receios. 

Mas, ao cabo, chegaram à conclusão que estava lá no começo: fugiriam, afinal. 




E fugiram mesmo. Na véspera do malfadada casamento, Ctésila e Hermócares partiram, 

na calada da noite, para serem felizes. Alcidamo, colérico dos pés às palmas vermelhas das mãos, 

arrancava os cabelos: 

— Vasculhem tudo debaixo do céu! Quero Ctésila de volta, num tapa, compreenderam? 

Mas Alcidamo jamais tornaria a pôr os olhos em sua filha. Um dia chegou um mensageiro 

esbaforido, que disse: 

— Alcidamo, eis que a sua filha já é mãe! 

— Mãe? — indagou Alcidamo, colérico. — Mãe? — repetiu Alcidamo, abatido. — Mãe... 

— repetiu, quase conformado. — Mãe! — afirmou, já sorridente. 

Não foi tão rápido quanto das outras vezes, mas Alcidamo acostumou-se logo, também, a 

essa idéia — quase num tapa. 

—  Alcidamo,  eis  que  a  sua  filha  é  morta!  —  disse  outro  dia  o  mesmo  mensageiro, 

novamente esbaforido. 

Essa notícia o pobre Alcidamo não pôde suportar, e num tapa caiu desmaiado, enquanto 

o mensageiro tentava reanimá-lo — bem, vocês sabem como. 

O enterro da bela Ctésila deu-se alguns dias depois. Mas Vênus, que protegera sempre o 

amor do jovem casal, fez com que no último instante Ctésila se transformasse na mais alva das 

pombas e viesse pousar sobre os ombros do enternecido Hermócares e de seu filhinho. 

A CEGUEIRA DE DÁFNIS

 

Dáfnis  era  filho  de  Mercúrio  e  de  uma  obscura  ninfa  da  Sicília.  Desde  cedo  foi  para  os 



bosques,  onde  se  tornou  amigo  de  Pã,  o  deus  amante  da  música.  Com  ele  aprendeu  a  compor 

versos e executar em sua flauta as mais belas melodias que ecoavam pelos vales, trazendo alegria a 

todas as criaturas dos bosques. 

— Dáfnis, quando é que você vai se apaixonar de verdade? — perguntava-lhe sempre o 

deus dos pés de bode. 

— Por que me diz isto todos os dias? — quis saber o pastor. 

—  Suas  canções  são  belas,  e  sua  música,  insuperável  —  respondeu  Pã,  reclinado  sob  a 

sombra de uma árvore. — Mas falta o amor nos seus versos, e a sua poesia só será perfeita no dia 

em que você viver um grande e inesquecível amor. 

— Inesquecível, divino Pã?  — perguntou o pastor, com um sorriso. — E há tal coisa? O 

deus lembrou-se, então, da ninfa Siringe, que havia amado e perdido há muito tempo. 

— Essa flauta que você tem aí é a melhor prova do que afirmo — disse Pã, silenciando a 

sua dor, que ameaçava retornar mais uma vez. 



Dáfnis  observou  a  flauta:  vários  caniços,  de  vários  tamanhos,  unidos  com  cera.  Sim,  o 

velho  Pã  já  havia  lhe  contado  várias  vezes  que  eram  feitos  do  corpo  de  sua  amada,  que 

convertera-se  em  um  grande  junco  ao  tentar  escapar  de  seus  rudes  afagos.  Para  tê-la  sempre 

consigo, ele arrancara o junco do solo e o transformara naquela flauta. Uma bela história, pensou 

Dáfnis, mas ele não tinha tanta pressa de amar, como tinha de cantar. Por isso, recomeçou a tocar 

a sua flauta, alegre e despreocupado como sempre. 

Mas um dia sua bela música atraiu uma ninfa chamada Lice até o bosque. 

— Quem é esse pastor que canta e toca de maneira tão bela? — perguntou Lice às amigas 

ninfas. 

— É Dáfnis, filho de Mercúrio — respondeu uma delas. 

O pastor havia se deitado na grama, às margens de um pequeno córrego; uma brisa suave 

e  refrescante  aliviava  o  calor  da  tarde.  Tendo  despido  o  manto,  mantinha  agora  uma  de  suas 

pernas mergulhada dentro da água corrente, enquanto escutava, de olhos fechados, o dia passar. 

De repente, porém, sentiu atrás de si uma presença. 

— Não, não abra os olhos... — disse a ninfa Lice, pousando suas mãos sobre as vistas do 

jovem pastor. 

Dáfnis  sorriu;  a  ninfa  que  tivesse  uma  voz  cristalina  e  mãos  de  seda  como  aquelas  não 

poderia  deixar  de  ser  bela;  por  isso  decidiu  obedecer  cegamente  àquela  suave  imposição.  Em 

seguida escutou um ruído quase imperceptível, de algo muito volátil e delicado que escorresse do 

alto por uma superfície macia até ir embolar-se na relva. Sentiu ainda que aquilo — um provável 

véu — fora depositado sobre o seu manto, que estava ao seu lado. Finalmente, sentiu nas costas, 

que estavam em contato com o solo, um ligeiro tremor, como se alguém houvesse estendido um 

corpo, quase diáfano, ao lado do seu. 

— O que temos aqui? — disse a mesma voz, pousando a mão sobre o ventre de Dáfnis. 

Este, num reflexo, movimentou suas pálpebras, mas aquela doce mão, num gesto veloz, as cerrou 

outra vez. — Não... lembre-se de nosso trato! — disse a voz feminina, docemente impositiva. 

Pousada sobre o ventre do pastor estava sua flauta de vários tubos, presente do deus Pã, 

que  se  movimentava  ao  sabor  de  sua  respiração  —  talvez  um  pouco  mais  apressada,  agora,  do 

que antes da chegada daquela excitante intrusa. 

Tomando  a  flauta  em  suas  mãos,  a  ninfa  Lice  tentou  tirar  dela  algumas  notas,  que  não 

soaram nada mal aos ouvidos de Dáfnis. 

—  Nada  mal,  para  quem  se  exercita  pela  primeira  vez...  —  disse  Dáfnis,  estendendo  a 

mão para retomar o instrumento. 



Mas  em  vez  da  flauta,  suas  mãos  tocaram  as  de  sua  misteriosa  companheira.  O  pastor 

tentou  novamente  abrir  suas  pálpebras,  mas  a  ninfa  persistia  em  sua  atitude  proibitiva.  Sem 

meios, então, de resistir às ordens da ninfa, Dáfnis decidiu permanecer deitado lado a lado com 

ela na relva, conversando e cantando, enquanto ia desenhando mentalmente o seu retrato. 

De  repente  um  trovão  rolou  pelo  céu  e  uma  chuva  intensa  desabou  sobre  seus  corpos 

nus.  Dáfnis  e  Lice  deixaram  que  as  gotas  se  espalhassem  pelos  seus  corpos,  numa  divertida 

brincadeira  de  cócegas,  até  que  a  chuva,  tornando-se  muito  forte,  obrigou  finalmente  a  ninfa  a 

erguer-se. Dáfnis aproveitou, então, para abrir os olhos. 

Pela  primeira  vez  enxergava  a  imagem  da  ninfa,  ainda  que  pouco  nítida  por  causa  da 

chuva. Era como se a visse por detrás de um espelho lavado por um jato constante de água. Mas 

mesmo assim não havia a menor dúvida: era exatamente a mulher que imaginara, traço por traço. 

No mesmo instante Dáfnis e Lice uniram seus corpos e suas almas, e a partir daí as suas 

vozes unidas alegraram duplamente os bosques, com canções que falavam de um amor profundo 

e real. 


Mas havia uma nota de melancolia na voz de Lice que somente um ouvido bem treinado 

podia  perceber:  ela  denunciava  o  medo  da  separação  —  temor  constante  que  ronda  todas  as 

uniões,  porque  nada  há  neste  mundo  que  não  esteja  sujeito  a  ela.  Lice,  contudo,  pressentia  a 

separação para muito em breve, sem saber dizer o porquê. 

— Dáfnis, meu amor — disse ela, um dia, ao pastor -, prometa que jamais me esquecerá. 

—  Claro,  Lice  querida  —  disse-lhe  o  pastor,  com  ar  despreocupado.  —  Como  poderia 

esquecê-la? 

— Espere — disse ela, pondo a mão em sua boca. — Preciso escutar isto dos seus olhos. 

—  Mas  Lice,  querida,  desde  quando  os  olhos  convers...  —  tentou  completar  o  pastor, 

porém  sem  sucesso;  Lice  havia  selado  os  lábios  de  Dáfnis  com  um  beijo,  e  agora,  encarando 

firmemente seus olhos, buscava neles a confirmação de suas palavras. 

— Lice, querida — disse, afinal, o pastor, tentando acalmar seus temores. -Se algum dia 

eu  ousar  esquecê-la,  quero  que  os  seus  olhos  sequem  a  luz  dos  meus!  Assim,  impedido  de 

enxergar outro rosto, só terei o seu para relembrar eternamente. 

E com essa promessa renovaram seus votos de um novo e ardente amor. 

O tempo passou, e Lice foi acalmando suas apreensões. 

Um dia Dáfnis, cansado de tanto conduzir seus rebanhos, sentou-se, como da outra vez, 

debaixo da sombra de uma árvore frondosa. Tomando de sua flauta, começou, então, a tocá-la. 

Era  uma  melodia  que  compusera  especialmente  para  sua  amada.  Toda  vez  que  a  tocava  podia 

enxergá-la perfeitamente nítida — seu corpo nu, seus cabelos naturalmente esvoaçantes, sua boca 




úmida  e  seus  olhos  cálidos,  embora  sempre  com  aquela  pequena  nota  angustiada,  bem  lá  no 

fundo das pupilas da imagem amada. 

Mas o pastor havia se afastado mais do que o habitual e, por isto, não percebeu que logo 

além  de  onde  estava  havia  um  palácio,  e  que  em  uma  de  suas  janelas  havia  uma  princesa  que 

ninguém queria. E ela estava atônita com a beleza de Dáfnis e da sua melodia. 

—  Em  quem  pensará?  —  perguntava-se  a  princesa  indesejada,  desejosa  de  ser  a 

inspiradora daqueles belos acordes. 

Mas logo em seguida teve sua visão atraída por um brilho estranho. Um pouco acima da 

copa das árvores que davam sombra ao pastor, formava-se, cada vez mais nítida, a efígie vaporosa 

de uma mulher. 

— E ela, a dona da sua inspiração — exclamou a mal-amada princesa. 

A medida que a música se tornava mais apaixonante, mais a bruma adquiria o contorno 

definitivo  do  corpo  de  uma  mulher,  formado  pela  lenta  evaporação  das  notas  ardentes  que 

subiam da mata, feito a fumaça de um desejo incandescido. 

— Por Vênus, como é bela — sussurrou a princesa. 

Suspensa acima das ramas verdejantes e revirando-se inquieta sobre seu leito esverdeado 

flutuava  a  imagem  de  Lice.  Estava  inteiramente  nua,  e  pelo  modo  inquieto  como  se  mexia, 

fazendo deslizar pelo corpo as pontas dos seus dedos aquilinos, logo deu a entender à princesa 

que dormia, presa de um sonho intenso de amor. E os dedos, apesar de serem os delas, tinham o 

toque evidente de um homem apaixonado. 

Então  a  ilusória  imagem  da  ninfa  virou  o  rosto  em  sua  direção:  de  fato,  nem  de  longe 

tinha os pobres traços da rica princesa. 

"Não, não sou eu...", pensou ela, desconsolada. 

Abatida,  a  princesa  abandonou  a  janela  e  foi  encostar-se  à  parede,  do  outro  lado  do 

quarto. Suas costas deslizaram insensivelmente para baixo até deixá-la sentada no chão, abraçada 

aos joelhos. "Não, não sou eu", repetiu, sentindo sua respiração arfante umedecer seus ossudos 

joelhos. De repente, num impulso, fechou também os olhos e beijou ardentemente os próprios 

joelhos!  Mas  seja  por  eles  não  terem  respondido  ao  seu  desejo  ou  por  ela  não  ter  lá  muita 

imaginação, o fato é que os mordeu com fúria, logo em seguida. 

—  Pois  se  é  uma  visão,  farei  com  que  desapareça!  —  exclamou,  pondo-se  em  pé,  num 

salto, tomada pela raiva. 

Sem  perceber  que  seus  joelhos  sangravam,  correu  outra  vez  até  a  janela.  Seus  olhos, 

contudo,  foram  brindados  agora  com  uma  alegre  visão:  o  pastor  vinha  vindo  justamente  em 

direção ao palácio! 




Dáfnis chegou até o pé da janela e gritou: 

— Por favor, gentil princesa, poderia me alcançar um gole de água? 

— Claro, pastor, já desço com ela! 

Infelizmente esta gentil princesa tinha o hábito de distrair a sua solidão da pior maneira, 

pois também era uma terrível feiticeira. Assim, antes de levar o copo com a água, introduziu nele 

um pouco do sumo da erva mágica do esquecimento. 

—  Aqui  está!  —  disse  ela,  estendendo  a  beberagem  maldita  ao  sedento  pastor.  Dáfnis 

bebeu  a  água  de  um  só  trago  e  no  mesmo  instante  sentiu  que  a  imagem  de  sua  amada  Lice 

desaparecia  de  sua  mente.  Apavorado,  estendeu  as  mãos,  como  que  para  agarrá-la,  mas  ela 

retrocedia cada vez mais, até esfumar-se definitivamente no ar. 

A princesa, percebendo o efeito de sua poção, perguntou-lhe: 

— O que houve, belo pastor? 

—  Não  sei  —  respondeu  Dáfnis,  passando  a  mão  pela  testa.  —  Tenho  a  impressão  de 

que esqueci algo muito importante... 

— Venha, entre comigo — disse a princesa, pondo na voz o pegajoso mel da luxúria. — 

Tratemos, então, de fazer algo de que não esqueçamos jamais. 

No dia seguinte Lice foi informada de que seu amado Dáfnis ainda estava nos braços da 

terrível  princesa.  Desesperada,  correu  até  os  portões  e  tentou  forçá-los,  mas  foi  expulsa 

rudemente pelos sentinelas. 

Da janela surgiu, então, Dáfnis, com ar de sono. 

— Quem é esta louca, soldados, e o que deseja de nós? 

— Nós?! — exclamou a ninfa. 

Com a mão ressequida, que ainda assim bastava para cobrir seu peito mirrado, a radiante 

princesa veio logo postar-se atrás do pastor. 

Era esta a resposta! 

Lice,  dali  mesmo  de  onde  estava,  encarou  os  olhos  de  Dáfnis,  profundamente.  E  nesse 

exato  instante  o  pastor  lembrou-se  de  tudo:  da  ninfa  que  amara,  dos  momentos  felizes  que 

haviam gozado e também da terrível promessa que lhe fizera. 

Desta vez, porém, não foi somente o rosto da ninfa que desapareceu diante de seus olhos, 

mas  a  própria  luz  de  tudo  que  o  envolvia.  Dáfnis  estava  cego  -irremediavelmente  cego  para  o 

resto da vida! 

E assim passou o resto de seus dias, vítima de uma cilada e de um deslize, vagando cego 

pelos  bosques  e  montanhas.  Nunca,  porém,  suas  canções  e  melodias  haviam  sido  tão  belas  — 

horrenda contradição do amor, que mais pungente se torna quanto mais tenazmente o destino o 




persegue! -, a ponto do deus Pã reconhecer que agora — e somente agora — sua arte se tornara 

absolutamente perfeita. 

Por  toda  parte  onde  Dáfnis  errava,  com  efeito,  podia-se  ver  pairada  no  ar,  por  alguns 

breves instantes, a imagem sempre evanescente de sua amada Lice, que morrera de infelicidade. 

Até que um dia o pastor, cansado de tanto sofrer, subiu até o mais alto penhasco e ali estendeu os 

braços para o alto, na tentativa enlouquecida de agarrar as formas vaporosas daquela que ainda 

amava  —  pois  a  única  coisa  que  ainda  enxergava  neste  mundo  era  a  efígie  ilusória  da  ninfa 

perdida.  Falseando  o  pé,  entretanto,  mergulhou  no  abismo,  feliz  de  pôr  um  fim  involuntário  a 

tanta desdita. 

Diz  a  lenda,  contudo,  que  seu  pai,  Mercúrio,  que  a  tudo  assistia,  calçou  rapidamente  as 

suas velozes sandálias e raptou sua alma antes que o corpo se esmagasse nas rochas. Indo além, 

diz-se  ainda  que  no  mesmo  dia  o  pastor  deu  entrada  no  Olimpo,  para  fazer  companhia  aos 

deuses, tendo ao lado sua amada Lice, que ao cabo de tudo o perdoou, afinal. 

OS GIGANTES ALOÍDAS

 

Quando  Aloeu  e  Ifimedia  viram  no  berço  os  seus  dois  filhos  recém-nascidos,  ficaram 



encantados, como todos os pais. 

— Este se chamará Oto — disse Aloeu. 

— Este se chamará Efialtes — disse Ifimedia. 

Eram dois belos garotos, embora um pouco crescidinhos demais. 

— Isto é saúde — dizia Ifimedia ao impressionado marido. 

Mas  Ifimedia  sabia  que  havia  uma  explicação  para  aquilo  —  uma  explicação  que  não 

convinha  ao  marido  saber.  Pois  tanto  Oto  quanto  Efialtes  não  eram  filhos  do  mortal  Aloeu 

(embora  o  nome  pelo  qual  ficariam  conhecidos,  "Aloídas",  fosse  uma  homenagem  ao  pai 

postiço), mas sim filhos de Netuno, deus dos mares. 

Ifimedia ainda se lembrava da época em que se apaixonara pelo poderoso deus. A tática 

que usara não fora das mais originais, mas tivera lá seu encanto: um belo dia, chegando à beira da 

praia, tomou a água na concha das mãos e derramou-a sobre o seio. No dia seguinte, repetiu a 

operação, e assim foi até quebrar a resistência do deus, que acabou por unir-se a ela. O resultado 

foram aqueles dois belos garotos, embora, é verdade, fossem um tanto exageradamente grandes. 

No  primeiro  ano,  por  exemplo,  já  haviam  atingido,  cada  qual,  meio  metro  de  largura  e 

dois metros de altura. E assim, a cada ano, iam crescendo nessa mesma proporção, até o ponto 

em  que,  antes  dos  dez  anos  de  idade,  já  tinham  cada  qual  dezoito  metros  de  altura  e  quatro 

metros e meio de largura. Ambos eram agora perfeitos gigantes, descabelados e sujos, pérfidos e 

sinistros. 



"Definitivamente, isto não é normal", pensava Aloeu, a cada novo dia. 

Mas  o  que  mais  constrangia  aos  pais  era  o  ódio  que  tanto  Oto  quanto  Efialtes  nutriam 

contra os mortais. Não havia dia em que não esmagassem alguém por pura diversão. Mas quando 

sua mãe os recriminava, sorriam perversamente e respondiam apenas: 

— São só mosquinhas, mamãe. 

— É, mamãe, mosquinhas sem asas. 

E  assim  continuavam  alegremente  a  matar  as  suas  mosquinhas,  até  que  um  dia 

conceberam uma nova diversão, infinitamente mais ousada. 

— Mano, que tal declararmos guerra aos deuses? — disse um dia Oto a seu irmão, num 

momento de tédio. 

— Que ótima idéia! — exclamou Efialtes, cujo cérebro, a exemplo do irmão, não havia se 

desenvolvido tanto como o restante do corpo. 

Ambos  já  haviam,  na  verdade,  brigado  com  um  deus,  alcançando  um  bom  resultado. 

Após  uma  discussão  com  Marte,  o  deus  da  guerra,  haviam-no  aprisionado  dentro  de  um  tonel 

durante  treze  meses,  debaixo  de  algemas  e  correntes.  Como  fora  divertido  ver  todos  os  dias  o 

presunçoso deus das armas todo dobrado dentro do pote, como um inseto em um jarro! Se não 

fosse  o  sagaz  Mercúrio  libertá-lo  de  sua  vergonhosa  prisão,  ainda  hoje  estaria  lá,  com  toda  a 

certeza. 

Mas  agora  o  projeto  dos  aloídas  era  maior,  infinitamente  maior:  nada  menos  que  a 

conquista do céu, morada dos deuses. 

No  mesmo  dia  Oto  arrancou  do  chão  o  monte  Ossa  e  empilhou-o  sobre  o  monte 

Olimpo.  Efialtes,  entusiasmado,  arrancou  o  monte  Pélion  pela  raiz  e  lançou-o  sobre  a  pilha. 

Escalando, então, essa massa pedregosa, ambos chegaram ao topo. Nunca haviam se sentido tão 

gigantes  quanto  agora,  olhando  tudo  daquela  alta  imensidão.  O  céu  estava  ao  alcance  dos  seus 

olhos; é verdade que ainda tinham de ficar na pontinha dos pés, mas já era o bastante para verem 

o que se passava lá em cima, na vastidão celestialmente azul da morada dos deuses. 

— Veja, mano, que beleza! — disse Oto. — Ali está o palácio de Júpiter! 

—  Sim,  e  ali  estão  duas  deusas!  —  exclamou  Efialtes.  —  Quem  serão?  Eram  Juno,  a 

esposa  de  Júpiter,  e  Diana,  a  deusa  da  caça.  As  duas  conversavam  animadamente,  gozando 

daquele fim de tarde verdadeiramente paradisíaco. 

Efialtes concebeu logo uma paixão ardente por Juno, enquanto Oto perdeu-se de amores 

pela bela Diana. 

—  Vamos  casar  com  elas,  assim  que  destronarmos  Júpiter  e  sua  cortezinha!  —  disse 

Efialtes, esfregando as mãos. 




— Mas será que não nos vencerão? — perguntou Oto, em um de seus raros momentos 

de vacilação. 

—  Ora,  mano!  —  disse  Efialtes,  dando  um  tapa na  cabeça  do  irmão.  —  Esqueceu  que 

somos imortais e que a única maneira de sermos mortos é nos matando um ao outro? 

— Sim, bem sei — disse Oto. — Você nunca irá me matar, não é? 

— Claro que não! — respondeu Efialtes. — E você? 

— Também não, é claro. 

Mas o ruído todo que haviam feito para escalar a pilha das montanhas já havia despertado 

a atenção de Júpiter, que há muito os trazia sob vigia. Diana, então, se ofereceu para pôr um fim 

às loucas pretensões dos dois perversos irmãos. 

— Deixe comigo, papai — dissera ela a seu pai, Júpiter. — Darei um jeito nos dois. 

Assim,  convidou  um  dia  Oto  e  Efialtes  para  uma  caçada.  Os  dois  aceitaram 

imediatamente, especialmente o primeiro, que pretendia desvirginar a sua amada naquele mesmo 

dia. 


Embrenhados na mata, Diana soltou, então, uma ágil corça — a mais rápida de quantas 

havia em todo o mundo. 

—  Eis  a  caça,  poderosos  irmãos!  —  exclamou  Diana,  aos  dois,  que  portavam  com 

arrogância seus arcos. — Se você matá-la primeiro Oto, terá a minha mão! E se for você, Efialtes, 

receberá por prêmio a bela Juno, que o aguarda, ansiosa, em seu leito formoso. 

Oto  e  Efialtes  saírem  aos  trancos  e  barrancos,  derrubando  árvores  e  chutando  montes 

atrás  da  pequena  e  ladina  corça.  Mas  por  mais  que  corressem  só  podiam  ver  seu  frágil  e 

pequenino vulto embrenhar-se pelas moitas e vegetação. 

—  Não  consigo  fixar  meus  olhos  nela  além  do  instante  de  um  relâmpago!  -queixava-se 

Efialtes, lançando as flechas para todos os lados. 

— E uma corça mágica! — esbravejava Oto, com a língua gigantesca pendendo para fora 

da boca. 

— Ei, vocês dois! — gritou-lhes a bela Diana, com sua aljava às costas. Os dois gigantes 

aproximaram-se,  desanimados.  Haviam  despido  as  suas  peles  de  tigres  (trezentos  tigres  mortos 

para  cada  traje!)  e  estavam  inteiramente  nus,  cobertos  apenas  por  uma  grossa  camada  de  pêlos 

molhada de suor. 

"Hum, gigantes, é?... ", pensou Diana, com um sorrisinho de desdém. 

— Como faremos, bela Diana, para acertarmos essa diabólica corça? — disse Oto. 

— Estão vendo aquele desfiladeiro logo adiante? Sim, ambos estavam vendo. 



—  Vi  a  corça  dirigindo  seu  ágeis  passos  em  direção  àquela  estreita  garganta  —  disse 

Diana das belas pernas. — Se eu a encurralar, ela não terá outro jeito senão atravessar a estreita 

passagem.  Postados,  então,  cada  qual  de  um  lado  do  desfiladeiro,  será  muito  fácil  que  um  dos 

dois a alveje. 

Oto e Efialtes apertaram as mãos, satisfeitos: estavam no papo (a corça e as deusas)! 

Assim,  cada  qual  foi  para  um  lado  do  desfiladeiro.  Misturados  às  árvores,  ficaram  de 

atalaia durante o restante do dia, até que ao cair da noite surgiu a corça na curva que dava entrada 

à garganta. Os dois gigantes empunharam seus sólidos arcos e engancharam neles quatro flechas 

cada um. 

"Cinco  é  melhor,  mano!",  fez  Oto,  espalmando  sua  gigantesca  mão  e  mostrando  seus 

gigantescos quatro dedos. 

Efialtes, sorrindo, fez um sinal de ok, com o dedão erguido. 

A corça, parecendo exausta, adentrou o estreito corredor e foi neste passo lento até estar 

exatamente  entre  os  dois.  Quando  escutou,  porém,  o  primeiro  sibilar  dos  dardos,  que  partiam 

velozes  dos  retesos  arcos,  a  corça  disparou  em  tal  velocidade  que  antes  pareceu  haver  sumido 

diante dos olhos dos dois gigantes. As dez flechas — cinco vindas de cada lado — cruzaram-se 

velozmente entre si, sem se tocarem, e foram alcançar os dois hábeis caçadores. 

Oto e Efialtes caíram mortos, cada qual com cinco flechas cravadas no rosto, e os deuses 

olímpicos viram-se livres dos gigantes aloídas. 

FEDRA E HIPÓLITO

 

A MORTE, SECUNDO HIPÓLITO



 

O  destemido  Hipólito  sabe  que  a  morte  se  aproxima;  seu  carro  desgovernado,  puxado 

por  quatro  cavalos  enlouquecidos  pelo  medo,  ameaça  tombar  a  qualquer  momento.  O  touro 

monstruoso e incansável que o persegue desde as primeiras horas do dia queima agora suas costas 

com o hálito incendiado. 

De onde terá surgido aquela horrenda criatura? A mando de quem o perseguia? 

Um  pedaço  rompido  das  rédeas  está  solto  e  chicoteia  o  ar,  dificultando  ainda  mais  o 

controle  do  carro.  Quem  dera  Hipólito  pudesse  abandonar  as  frágeis  rédeas  e,  num  pulo  ágil e 

certeiro, ir cair diretamente sobre o cachaço negro do touro, para então domá-lo e alcançar mais 

esta  vitória  retumbante.  Já  não  fizera  o  mesmo,  certa  feita,  durante  as  Festas  Panatenéias,  ao 

domar com sucesso um corcel soberbo e furibundo — e também negro, como a fera que agora o 

ameaça? 



Não,  desta  vez  não  há  mais  platéia  alguma;  não  haverá  palmas  nem  risos  de  satisfação. 

Tampouco  o  cercarão  olhares  cobiçosos.  Parece  que  os  deuses,  para  não  humilhá-lo  em  sua 

derradeira  aventura,  quiseram  que  o  teatro  de  sua  inevitável  derrota  fosse  a  amplidão  desértica 

dos imensos Rochedos Cirônicos que o rodeiam, em silêncio. 

E Diana? Onde estará a deusa e amiga, neste instante derradeiro? 

Uma árvore ressequida está logo adiante; seus galhos nus, esticados em todas as direções, 

parecem braços esquálidos que imploram por uma ajuda humana ou divina. O carro de Hipólito 

ruma celeremente em sua direção, enquanto a rédea solta agita-se cada vez mais, sob o impacto 

da vertiginosa velocidade. 

Hipólito vai, sem volta, de encontro ao seu destino. 

A PAIXÃO SECUNDO FEDRA

 

Fedra,  esposa  de  Teseu  e  madrasta  de  Hipólito,  está  em  Atenas  para  participar  da 



Procissão das Panatenéias. Essa é a "Grande Festa", que se realiza de cinco em cinco anos, em 

oposição às "pequenas" Panatenéias, realizadas anualmente. 

Minerva, deusa homenageada, é reverenciada por meio de procissões náuticas e pedestres, 

às  quais  afluem  milhares  de  atenienses  e  peregrinos  de  todo  o  mundo  helênico,  em  busca  de 

proteção às suas vidas e de alívio às suas tribulações. 

Mas  Fedra,  mulher  de  Teseu,  não  consegue  dar  alívio  à  sua  aflição:  postada  ao  lado  do 

enteado, está tomada pela inquietude. Seu esposo e rei, o grande Teseu, está em terra cuidando de 

outros afazeres. 

— Nunca houve uma festa com tanto brilho, não lhe parece, minha madrasta? 

Fedra  ouve  a  pergunta  que  sai  dos  lábios  de  Hipólito,  mas  sua  língua  não  consegue 

movimentar-se  dentro  de  sua  boca.  Os  dois  estão  ombro  a  ombro,  e  o  contato  daquele  braço 

musculoso com o seu ombro nu impede qualquer outro pensamento. 

"Seu  ombro  é  cálido  e  viril",  ela  reflete,  enquanto  os  hinos  a  Minerva  levantam-se  de 

todas as partes; pode mesmo sentir, perfeitamente, a contração e relaxamento dos músculos rijos 

do  braço  do  jovem  a  cada  vez  que  ele  ergue  ou  abaixa  a  mão  para  acenar  ao  povo.  Somente 

quando suas peles se descolam é que a brisa vem alisar e secar em seu ombro o suor misturado de 

suas epidermes. 

"Não posso mais agüentar esta tortura!", pensa a mulher de Teseu. Quando a procissão 

termina, Fedra, desvencilhando-se de todos, dirige a palavra ao enteado: 

— Hipólito, filho de Teseu... O rapaz volta-se para ela. 

—  Engraçado,  minha  madrasta  —  diz  ele,  dando-se  repentinamente  conta  de  algo  que 

antes não percebera. — Por que me chama, desde há algum tempo, de "filho de Teseu"? 




—  Como? Não o entendo... — balbucia Fedra, sentindo um rubor vivido tingir as suas 

faces. 


—  Antes  chamava-me  de  "meu  filho",  como  se  fosse  minha  mãe,  ou  simplesmente  de 

Hipólito — diz o jovem, com um sorriso alegre em seu rosto. — Por que esta mudança? 

Fedra, atrapalhada, diz apenas, como se nada tivesse escutado: 

— Vou subir para meus aposentos, no palácio. Faça as honras a Minerva como manda e 

pede a piedade. 

A esposa de Teseu sobe, então, até o terraço de seu palácio. Mas nem mesmo o vento que 

sopra no alto pode apagar a flama do desejo que arde em seu peito. 

— Hipólito, filho de Teseu... — balbucia ela, esfregando os dois ombros, como se, longe 

do contato daquele ombro jovem e viril, se sentisse desamparada. 

—  Filho  de  Teseu...  Sim,  ele  é  filho  de  Teseu...  —  prossegue  ela  em  seu  devaneio.  — 

Não, não é meu filho! — exclama, de repente, num misto de alegria e revolta. — Posso, então... 

Se é assim, posso então amá-lo, Hipólito adorado... 

Fedra, descontrolada e excitada, erra de um lado para o outro, como quem foge de algo 

que deseja loucamente perseguir. 

— Sim, posso amar-lhe, Hipólito! Por que não, filho de Teseu? — exclama, de repente, 

de maneira impensada. 

Dando-se conta, então, da audácia dessa proclamação, cerra com as duas mãos a barreira 

dos seus lábios. Lá embaixo, entretanto, soam os gritos frenéticos da plebe ajuntada. 

Numa arena armada, está um grande corcel negro, que cinco cavalariços trazem a custo 

para  o  centro.  Escoiceando  e  espinoteando,  o  animal  derruba  três  deles,  que  são  levados  em 

braços para fora da arena. Uma grande mancha redonda de sangue brilha sobre o solo, iluminada 

pelo sol — metálica e escarlate como um pequeno escudo tingido de vermelho que jaz perdido 

em meio ao fragor de uma batalha. 

De repente Hipólito — sim, é ele! — adentra a arena. Fedra sente o coração dar um pulo 

dentro do seu peito, como se o seu próprio órgão tivesse adquirido quatro rijas patas e ameaçasse 

escapar pela sua boca. 

—  Hipólito,  meu  querido  e  amado...  oh,  amado,  amado  Hipólito!  —  sussurra  Fedra, 

agoniada. 

Desde que tomou a coragem de dizer a si mesma, com seus próprios lábios, as palavras 

tão temidas, Fedra as repete sem parar em sua gelada solidão. As mãos que ainda comprimem sua 

boca são agora um selo inútil e despegado, incapazes de reter as palavras que sua boca teima em 

repetir com a mesma determinação exaustiva de um coro que os fiéis endereçam a Minerva. 




Fedra  assiste  a  toda  a  luta,  a  todos  os  lances  de  vigor  e  valentia  que  seu  enteado 

protagoniza  para  dobrar  a  vontade  do  corcel  imenso  e  insubmisso  como  a  noite,  até  que 

finalmente a vontade e a inteligência humanas acabam por triunfar sobre o rude primitivismo do 

animal. 


A madrasta de Hipólito, lá do alto, está radiante. Nunca admirara tanto a exuberância e 

vigor  da  juventude  daquele  jovem  como  naquele  instante  —  naquele  preciso  instante  em  que 

admitira, finalmente, que o amava, para a dor ou a alegria, para a morte ou para a vida. 

E quando Hipólito retorna ao palácio, com o corpo suado e exausto do prodígio, Fedra 

lança-se — a louca! — em seus braços, sem considerar mais nada. 

— Hipólito, Hipólito amado! — diz ela, a sós com o enteado, beijando sua boca como 

quem bebe o alimento que lhe falta desde sempre. 

—  O  que  diz,  Fedra,  minha  madrasta?  —  diz  Hipólito,  tentando  desviar  seus  lábios 

daqueles outros, rubros e inchados, que os caçam com sofreguidão. 

— Hipólito, amo você, meu adorado jovem! — exclama Fedra, descontrolada. — Ouça: 

seu pai nada mais representa para mim! Não amo mais Teseu, não o quero mais! 

— O que diz, louca? — repete o jovem, sem ter outras palavras. 

— Não, não quero mais o afeto insosso e cansado de seu pai, entende? Por que deveria, se 

não o quero mais? 

Quero os seus beijos, somente, meu jovem! Os seus, unicamente! 

— Mulher maldita! — exclama Hipólito, irado com aquela injúria feita a seu pai. Depois, 

enxergando  um  pedaço  da  nudez  do  corpo  de  sua  madrasta,  que  o  acidente  do  encontro 

desnudara, diz a ela, num excesso de rigor: — Vamos, cubra de pudor a sua alma, já que o seu 

corpo o despiu de vez! 

Fedra,  recuando  dois  passos,  permanece  com  a  parte  superior  do  tronco  desnudo,  em 

mudo  desafio.  Depois,  recobrando  lentamente  o  bom  senso,  ergue  outra  vez  a  parte  de  seu 

manto que havia descido até os laços que o prendiam na cintura. Correndo, a esposa de Teseu 

mete-se em outro aposento. Aos poucos vai-se dando conta da gravidade daquilo que perpetrara. 

"Cubra sua alma de pudor!", é o que soa ainda em seus ouvidos. 

Ela cobrira a alma de desejo, mas o mundo queria o pudor. Jamais a perdoariam. O filho 

dileto  iria  levar  logo  a  notícia  a  Teseu,  rei  e  esposo,  prestes  a  se  tornar  vítima  de  terrível  e 

injuriosa afronta. 

Cega agora pela ira, ela diz de si para si: 

— Fique, pois, o mundo maldito com o seu pudor! Levarei comigo apenas meu desejo! 

Sua mão rabisca uma carta, na qual acusa o enteado da infâmia horrenda que ela mesma 

perpetrara  e,  depois,  arrancando  fora  o  laço  de  seu  manto,  prende-o  num  laço  sobre  uma  das 



vigas  do  teto.  Sabe  que  não  poderia  enfrentar  de  outro  modo  a  censura  do  marido,  do  rei  e 

daquela  horrenda  sociedade,  que  pune  o  desejo  raivosamente  e  às  claras,  mas  o  reverencia 

loucamente em segredo. 

E enquanto seu corpo balançava-se, ainda com um resto de vida, seu manto desceu outra 

vez  até  a  cintura,  como  em  um  protesto  final  contra  a  impossibilidade  de  amar  que  as  Parcas 

sinistras lhe haviam decretado. 

O CIÚME, SEGUNDO VÉNUS

 

Hipólito  e  Diana  haviam  sido  criados  juntos.  Habituado  a  conduzir  seu  carro  com 



invejável  maestria,  ele  e  a  deusa  haviam  simpatizado  tão  sinceramente  um  com  o  outro,  que 

passearem juntos era a coisa mais normal deste mundo para ambos. 

Mas este era um privilégio que a casta deusa — todos sabemos — concedia a bem poucos 

imortais  e  a  nenhum  mortal.  Seu  cortejo  compunha-se  invariavelmente  de  algum  punhado  de 

belas ninfas, e toda vez que algum mortal ousava tentar algum contato, era severamente punido, 

como aconteceu com o pobre Acteão, ao flagrá-la nua durante o banho. 

Mas  com  aquele  jovem  era  diferente:  Hipólito  era  tão  casto  quanto  sua  divina  amiga,  e 

por isso o mundo acostumou-se com a notícia de sua fraterna amizade. 

Mas havia alguém que não pensava assim. 

—  Veja,  meu  filho,  como  ela  o  abraça  tão  ternamente!  —  disse  Vênus,  um  dia, 

encolerizada pelo ciúme, a seu filho Cupido. — Haverá somente pureza ali? 

— Quem sabe, mamãe... — disse o jovem arqueiro, afetando despreocupação. 

— Mas seu descaso para comigo passou de qualquer limite! — esbravejou a mais bela das 

deusas. — Nunca mais o vi render ofertas aos pés de minhas estátuas, nem freqüentar os paços 

de meus templos. Não, ele precisa ser punido! 

Determinada a este fim, ordenou, então, que seu filho procurasse a madrasta de Hipólito, 

a bela Fedra, e alvejasse seu coração com a mais venenosa de suas setas. 

— Quero que ela o ame como mulher nenhuma amou um homem antes. Cupido saiu em 

sua procura. Chegando em Tebas, dirigiu-se, às ocultas, ao palácio de Teseu, esposo de Fedra, e 

encontrou-os no leito. 

O rei parecia sedento dos abraços e carícias da esposa, pois recém retornara de uma longa 

expedição  militar.  Quanto  a  ela,  Cupido  não  pudera  observar  direito,  pois  o  corpo  forte  e 

espadaúdo do marido cobria o da mulher em toda a extensão. 

Terminado o amor, Cupido sorriu baixinho. 

Fedra, contudo, voltara-se de braços, cobrindo a nudez com o lençol. 



"Acho  que  minha  tarefa  não  é  tão  necessária  aqui!",  pensa  Cupido  outra  vez,  pondo, 

ainda, nova malícia em seus pensamentos. "Por que não deixar que as coisas sigam simplesmente 

o seu rumo?" 

Mas a recomendação de sua mãe ainda soa bem forte em seus ouvidos. 

No  dia  seguinte,  Cupido  aguarda  que  o  rei  abandone  os  aposentos,  ficando  só  com  a 

rainha. Ela parece pensativa, mas sem dar importância demais ao produto de suas elucubrações 

matinais. Cupido, que tem o dom da clarividência, observa o desfile monótono dos pensamentos 

da  rainha.  Na  maioria  futilidades  do  dia-a-dia,  que ela  relembra,  intercalando  esse  pobre  desfile 

com um bocejo ou dois. 

"Opa!", exclama mentalmente o deus arqueiro ao flagrar um pensamento mais indiscreto. 

Sim,  a  imagem  de  Hipólito  surge  agora  em  sua  mente.  Inadvertidamente,  ela  parece  fazer  uma 

comparação  entre  os  dois,  pai  e  filho  —  que  ela  também  considera  seu  -,  mas  sem  nenhuma 

malícia. 

"A hora é agora", pensa Cupido, sacando a sua mais afiada seta. Após embebê-la no filtro 

do Amor, assesta a pontaria para o coração de Fedra, que está inteiramente a descoberto debaixo 

da pele clara do seio quase desnudo. E quando a imagem de Hipólito retorna, finalmente, às suas 

cogitações, o deus dispara a seta, certeira como todas as que arremessa. 

Fedra, sem saber como, vê-se de repente entontecida. 

—  O  que  é  isto  que  sinto,  Júpiter  poderoso?  —  exclama,  cobrindo  instintivamente  o 

peito com o lençol. 

E durante o resto do dia ficará com esta angústia na alma, sem saber o porquê de tanta 

inquietação,  até  que  seu  enteado  aparece,  ao  cair  da  noite,  com  o  rosto  radiante  de  quem  se 

exercitou bravamente em seu carro puxado pela pare-lha dos velozes corcéis. 

"Como é encantadoramente belo o filho de Teseu!", exclama mentalmente Fedra, como 

se o visse pela primeira vez. Depois repete baixinho, algo assustada: "O filho de Teseu!" 

Cupido parte pela janela, satisfeito, mais uma vez, de sua eficiência. 

A IRA, SEGUNDO TESEU

 

— Teseu, a rainha matou-se! 



É com esta terrível notícia que o rei é recebido. 

—  Estão  todos  loucos?  —  grita  Teseu,  correndo  até  o  local  onde  está  o  cadáver  ainda 

quente de Fedra. 

Abraçado ao corpo pendente da mulher, Teseu dá largas a sua dor. 

— Por quê, quem foi o responsável por este gesto? — pergunta. 

A escrava aponta para a carta que Fedra deixara. Teseu a toma com suas mãos trêmulas. 




— Onde está Hipólito? — diz ele, erguendo os olhos. 

Um brilho frio torna ainda mais gelado o azul de suas pupilas. Hipólito surge diante do 

pai. 

— Ousou, então, na minha ausência, levantar a mão para esta que tomou o lugar de sua 



mãe?  —  diz  Teseu;  sua  voz  é  bem  articulada,  mas  seus  membros  agitam-se  como  os  músculos 

dos cavalos quando estão postados para a corrida. 

Hipólito  silencia.  Sabe  que  nada  que  disser  poderá  fazer  seu  pai  acreditar  em  sua 

inocência.  Abandona  o  recinto  e,  mandando  atrelar  os  cavalos  à  sua  biga,  parte  no  mesmo  dia 

para o Peloponeso. 

Teseu,  a  sós,  ferve  de  ódio.  Não  há  mais  Fedra  nenhuma  a  seu  lado  para  acalmá-lo; 

nenhuma palavra, nenhuma carícia, nada poderá agora refrear o seu ódio. Os problemas políticos 

também  se  avolumam:  Menesteu,  seu  rival,  disputa  com  ele  o  poder,  apoiado  por  nobres 

insatisfeitos — ou seja, por traidores. 

Traidores por todos os lados! 

Pondo-se em pé, Teseu chama por seu pai, Netuno. 

— Meu pai, deus poderoso, é a ti que clamo neste momento! — diz, cerrando os punhos. 

—  Na  condição  de  seu  filho,  peço  agora  que  punas  Hipólito  ingrato,  e  que  jamais  possa  ele 

chegar ao seu destino! 

O  jovem,  nesse  momento,  atravessava  os  caminhos  ásperos  e  íngremes  de  sua  jornada, 

conduzindo  sua  biga,  puxada  por  fogosos  corcéis.  Em  sua  cabeça  agitavam-se  pensamentos  de 

dor e remorso: dor por haver levado o próprio pai a fazer um tão mau julgamento de si mesmo, e 

remorso por haver provocado uma morte, ainda que a morte de uma mulher perversa e lúbrica, 

que tramara a sua perdição e de sua casa. 

Ao mesmo tempo em que torce as rédeas na mão, com o coração tomado pela raiva, não 

pode deixar de relembrar as carícias da madrasta, os beijos ardentes, as mãos que percorriam seu 

corpo  em  todas  as  direções,  como  que  vasculhando  uma  escuridão  em  busca  do  acesso  à 

liberdade, que para ela era somente um: a realização do seu nefando desejo. 

Nesse  exato  instante  Hipólito  é  surpreendido  com  o  surgimento  inesperado,  vindo  das 

profundezas do mar — situado um pouco abaixo da ravina que ele percorre velozmente -, de um 

monstro  marinho  assemelhado  a  um  grande  touro  negro,  que  lança  flamas  ardentes  pelas  duas 

narinas frementes. 

"Por  Júpiter,  o  que  é  isto?",  pensa  Hipólito,  atônito  com  aquela  monstruosidade.  Algo, 

porém,  lhe  diz  que  ele  vem  como  o  mensageiro  da  destruição  e  do  castigo.  Sim,  do  castigo, 

também, pois fora ele, Hipólito, o causador, ainda que involuntário, de toda aquela tragédia. 




Enquanto  luta  para  se  desvencilhar,  desviando  com  mão  firme  o  seu  carro  Gdas 

investidas  da  terrível  fera,  Hipólito  é  assaltado  por  uma  estranha  visão,  pois  quando  o  temível 

touro aproxima-se, colocando-se quase ao seu lado, pode ver nas  feições da fera o desenho do 

rosto de sua madrasta. 

"O que é isso, estarei delirando?", pensa, em meio ao tumulto da fuga e da poeira que os 

cavalos levantam. 

Às  vezes  da  própria  poeira  surge  Fedra,  dissociada  do  monstro,  inteiramente  nua  e  de 

braços estendidos, para dali a instantes dissolver-se outra vez no turbilhão do pó. Hipólito não 

está sendo perseguido apenas por seu fado. 

Quem  sabe  descobre  em  si  mesmo,  também,  tardiamente,  um  sentimento  até  então 

estranho, que justifica agora, plenamente, o destino que se desenhava para si? No último instante, 

porém, lembra-se novamente de Diana, a sua amiga e companheira. 

Onde estava ela? 

A AMIZADE, SEGUNDO DIANA

 

Diana, a casta deusa. Diana, filha de Latona e irmã de Apolo. Diana, que se afeiçoara pela 



primeira vez a um mortal — através de um sentimento absolutamente casto, como requeria a sua 

natureza  -,  estivera  afastada  durante  todo  este  tempo.  Não  eram  estes  assuntos,  com  os  quais 

inadvertidamente acabara por se envolver o seu amigo Hipólito, dignos de lhe despertar a atenção 

e o interesse. 

Durante todo o episódio dos amores proibidos de Fedra e Hipólito, Diana procurara se 

manter ausente. Seu amigo estava prestes a ser engolfado no turbilhão de uma paixão, e ela, deusa 

castíssima  entre  as  deusas,  temia  ser  envolvida  naquela  atmosfera  que  tanto  temia.  Alvo,  certa 

feita, dos desejos indiscretos de Acteão, ele bem soubera dos desgostos que podiam acarretar a 

um mortal — e mesmo a uma divindade poderosa como ela — os furores inspirados por Vênus. 

Mas  ao  saber,  finalmente,  dos  trágicos  rumos  que  tomara  aquela  funesta  paixão,  Diana 

resolvera intervir e tentar ainda, desesperadamente, salvar a vida de Hipólito, uma vez que contra 

ele se levantava a ira de dois pais: a de Teseu, seu irado pai, e a de Netuno, pai implacável de seu 

pai. 

—  Teseu,  modere  a  sua  ira  —  disse-lhe  a  deusa,  surgindo  diante  do  rei,  após  o  terrível 



pedido que este endereçara ao deus dos mares. 

— É você, deusa severa, que me vem aqui falar em moderação? — disse-lhe Teseu. 

Mas Diana, intransigente na defesa do amigo, não arredou pé. 

— Vamos, Teseu, bem sabe que o seu filho é inocente. 




Conduzindo, então, o rei até o espelho d'água do palácio, fez com que se desenrolassem 

ali as cenas da tragédia. Diante dos olhos estupefatos de Teseu surgiu uma nova Fedra, como ele 

nunca  havia  visto:  a  Fedra  inquieta  da  procissão,  a  mulher  desesperada  no  alto  da  sua  torre 

desolada,  os  votos  secretos  de  amor  e  o  grande  momento  da  sua  declaração,  quando  seu  seio 

desnudo agitava-se ao sabor de suas palavras ardentes. 

— Hipólito, filho meu! — exclamou Teseu, cobrindo o rosto com as mãos. 

—  Acalme  o  seu  coração  e  prepare-o  para  coisas  ainda  piores,  pois  o  seu  filho  está  à 

morte!  —  disse  Diana,  mostrando  a  cena  do  confronto,  que  se  desenrolava  naquele  instante, 

entre Hipólito e a terrível fera marinha. 

O rei, descolando as mãos da face, mirou o espelho onde se desenrolava a cena mais cruel 

que  seus  olhos  poderiam  esperar  um  dia  contemplar.  Assistia,  então,  à  cena  da  morte  de  seu 

próprio filho. 

A MORTE, SEGUNDO HIPÓLITO

 

O carro de Hipólito avança rumo a arvore de galhos nus. Em seu delírio



 

Hipólito enxerga 

nela o corpo de Fedra — uma Fedra deformada, de corpo nu e enrugado como a casca da velha 

árvore, agitando seus vários braços descarnados. 

Fedra-árvore o chama, engelhada, com as mãos de galhos estendidas. 

A rédea partida chicoteia o ar; Hipólito só tem nas mãos a outra, insuficiente para deter a 

marcha enlouquecida dos cavalos. O monstro o está quase alcançando. Suas vestes chamuscadas 

roçam por suas feridas abertas. 

Então o carro conduzido por Hipólito ultrapassa a árvore fatal. Um dos galhos roça por 

seu rosto, porém sem feri-lo. Dir-se-ia que uma mão macia e quente deslizara por suas feições. 

Mas  logo  em  seguida  aquela  rédea  solta  que  se  agitava  loucamente  no  ar  prende-se  —  ou  é 

segura? — por um dos galhos secos da árvore. 

Um baque impressionantemente brusco faz com que Hipólito seja arrancado do comando 

da  biga.  Os  cavalos,  perdendo  o  passo  bruscamente,  enovelam  suas  patas  umas  nas  outras, 

parecendo que uma força maléfica os tentava unir num único e monstruoso eqüino de mil patas 

desencontradas. A biga volta-se no ar e tomba sobre os animais, matando-os instantaneamente, 

enquanto  que  Hipólito  tem  seu  corpo  arrastado  por  vários  metros  sobre  o  solo  pedregoso, 

repleto de pedras rudes e afiadas como navalhas. Hipólito ainda se volta, uma última vez, sobre a 

poeira  e  os  detritos,  deixando  erguidos  para  o  céu  as  suas  feições  marcadas  e  o  seu  corpo 

dilacerado. 

Hipólito, filho de Teseu, que um dia seria rei, agora está morto. 



Diana, impotente para reverter um decreto mais forte que seu desejo, toma o corpo do 

amigo e o leva para Trezena. Ali, junto a um templo em homenagem a ela própria, Diana, está 

colocado para sempre o túmulo do mortal Hipólito. 

AQUILES E ESCAMANDRO

 

A Guerra de Tróia, travada pelos gregos para recuperar Helena de belos braços das mãos 



de seus raptores, ainda ardia em seu furor. 

O irado Aquiles já se reconciliara com o chefe da expedição grega, Agamenon, para quem 

perdera  a  posse  de  uma  escrava,  abstendo-se,  em  revanche,  de  participar  da  maior  parte  da 

guerra. O herói estava de volta à luta, com todo o furor de sua alma. 

Como o lobo ferido que, estando longo tempo retirado na floresta por não ter condições 

de perseguir e dilacerar com seus afiados dentes a presa ambicionada, retorna, enfim curado, com 

redobrada voracidade, assim era Aquiles, semelhante aos deuses, quando, empunhando sua lança 

e o escudo forjados por Vulcano, colocava outra vez seus pés de sólidas grevas sobre o campo de 

batalha. 

— Eia, gregos de longas cabeleiras! — gritava o heróico filho de Tétis, a deusa dos pés 

argênteos. — Assolemos o inimigo até que, recuando às portas Céias, os obriguemos a nos dar 

entrada na sagrada cidade de Príamo, semelhante aos deuses! 

Aquiles de pés velozes, louco de fúria por haver perdido seu fiel amigo Pátroclo, morto às 

mãos de Heitor de elmo reluzente, matava troianos sem fazer a conta. Seu carro, avançando com 

fragor,  esmagava  os  corpos  e  escudos  dos  inimigos  abatidos,  de  tal  forma  que  o  pêlo  alvo  dos 

seus cavalos estava agora todo tinto do sangue dos guerreiros mortos. 

—  Aqui,  às  margens  do  Escamandro,  misturarei  as  suas  águas  cristalinas  com  o  sangue 

torvo destes cães! — bradava sempre. 

De  fato,  cumpria  o  guerreiro  grego  regiamente  o  que  dizia:  após  encurralar  os  troianos 

assustados até as margens do rio que nasce no monte Ida, começou a passá-los na sua comprida 

lança,  assim  como  fazem  os  pescadores  quando  os  peixes  em  desova,  na  estação  dos  calores, 

abundam, atropelando-se uns aos outros sobre as margens espumosas dos férteis rios. 

As  águas  do  torrentoso  Escamandro  absorviam  o  sangue  que  jorrava  dos  corpos 

ajuntados em seu leito, quando, de repente, do centro das águas escarlates e revoltas, ergueu-se 

aos  poucos,  bem  em  frente  a  Aquiles  de  insaciável  lança,  a  cabeça  e  o  corpo  de  um  velho 

descabelado.  Seu  semblante  era  irado  e  suas  vestes,  antes  alvas  e  orladas  de  franjas  espumosas, 

agora estão tintas do sumo amargo das batalhas. 

— Basta, Aquiles! — grita o velho e iracundo Escamandro. — Vá saciar a sua sede nas 

planícies, pois não posso mais beber o produto amargo da sua ira! 



—    Silencie  suas  queixas,  portentoso  rio  que  desce  do  elevado  Ida!  —  diz  Aquiles  de 

sólidas grevas, afrontando de espada erguida o próprio rio de sagradas águas.-Minha vontade já 

decidiu  que  o  curso  de  suas  espumosas  águas  será  interrompido  até  que  os  peixes  que  nelas 

sobrenadam tenham despido com as bocas toda a gordura que reveste os ossos desses inimigos! 

Escamandro, rio irado, mergulha de volta às torvas águas. Dali a instantes um turbilhão 

furioso começa a sacudir o leito inteiro do rio, e ondas altas como aquelas que o proceloso mar 

ergue em dias de tempestade começam a sublevar-se também por todo o seu majestoso curso. 

Assim como as águas dos rios nas épocas de cheia expulsam de si os corpos dos animais 

mortos, tragados pela correnteza em sua inconsiderada sede, tal é o furor com que o Escamandro 

de revoltas águas lança para o alto os corpos dos troianos de fundas feridas, fazendo no ar um 

horrendo concerto de armaduras e escudos que se entrechocam. 

—  Aquiles,  semelhante  aos  deuses!  —  exclama  o  velho  rio,  cuja  face  engelhada  e 

gigantesca surge misturada às revoltas águas. — Sua sede de sangue ultrapassou todos os limites e 

agora  infringe  também  os  sagrados  limites  do  temor  aos  deuses.  Por  isto,  farei  desabar,  agora, 

sobre você, a força de meus milhares de braços embebidos pela ira! 

Uma  tremenda  cortina  de  ondas  espumosas  envolve,  então,  o  valoroso  filho  de  Tétis, 

fazendo  com  que  desapareça  diante  de  seus  olhos  a  luz  que  o  carro  do  Sol  ainda  esparge 

generosamente por todo o azulado empíreo. 

Assim  como  o  caminhante  descuidado,  que  se  metendo  por  ravinas  pouco  conhecidas 

mete o pé por tudo, de maneira inconsiderada, indo acabar por cair no profundo fosso, cercado 

pelas paredes úmidas e impossíveis de serem escaladas, assim Aquiles de grande cabeleira vê-se 

cercado pela parede sólida das águas do irado Escamandro. 

— Rio divino, por que se mete em um assunto que não lhe diz respeito? -brada Aquiles, 

de espada luzente ao punho. 

Mas Escamandro de cenho franzido não se digna mais em responder e faz desabar sobre 

o herói, filho de Peleu, todo o fragor de suas águas. Aquiles de pés velozes, dando um salto, põe-

se então a correr, após furar a cortina d'água com um golpe furibundo de sua cortante espada. 

O  rio,  afrontado  ainda  mais  por  este  golpe  que  uma  mão  mortal  ousa  lhe  desferir, 

convoca todas as suas águas para que, deixando o leito onde até então descansavam mornamente, 

se  ergam  como  uma  só  corrente  para  esmagar  o  agressor  de  longas  cabeleiras.  Aquiles  de  pés 

velozes faz então valer a sua alcunha: virando o escudo para as costas, corre com quantas pernas 

tenha para longe das ameaçadoras águas. 

Uma onda gigantesca, com o formato de um poderoso braço, ameaça abater-se sobre o 

escudo que Aquiles de sólidas grevas traz preso às costas. 




— Por mais que corra, bravo Aquiles, não poderá fugir ao meu fero braço, que só busca 

vingar a torva ofensa que fez aos deuses! — ruge o proceloso e irado rio. — Mesmo que seus pés 

ligeiros tentem levar-lhe adiante, com este imenso escudo preso às costas você parecerá sempre, 

diante  de  minha  rapidez,  como  o  lerdo  animal  de  que  a  ira  de  Juno  soberana  se  serviu  para 

castigar Quelone, a preguiçosa ninfa! 

Assim como o braço do gigante aborrecido serve para espantar a pequena e frágil mosca 

que  teima  em  lhe  perturbar  o  sono,  assim  o  braço  líquido  do  Escamandro,  de  forte  corrente, 

abate-se sobre o audaz guerreiro. 

Aquiles  de  longas  cabeleiras  é  lançado  longe,  mas  ainda  tem  vigor  bastante  nos  pulsos 

para  agarrar-se  ao  robusto  galho  do  olmo  alto  e  frondoso  que  está  à  sua  frente.  Mas  nem  as 

sólidas raízes da portentosa árvore, metidas nas profundezas da terra dura, são fortes o bastante 

para parar o curso impetuoso das águas do encolerizado rio, que leva adiante a árvore, as raízes e 

o guerreiro valoroso, que em um de seus galhos segue preso, a mal de sua sina. 

Então,  estirando  os  braços  de  sólida  musculatura,  Aquiles,  filho  de  Peleu,  lança-se  com 

um  grito  de  guerra  ao  peito  portentoso  do  Escamandro  irado,  bracejando  em  suas  águas 

temperadas  pelo  sangue  dos  troianos  de  sólidas  armaduras.  Após  travar  rude  combate,  num 

corpo a corpo viril com o próprio rio, alcança com seus pés cansados a planície, que agora serve 

de margem às águas expandidas do revoltoso Escamandro. 

—  É  debalde,  Aquiles  semelhante  aos  deuses,  que  procura  a  planície  ou  outra  elevação 

qualquer para escapar à minha ira — diz o rio, insaciável de furor -, pois onde as pegadas fundas 

de  seus  velozes,  porém  já  cansados  pés,  pisarem,  em  seguida  as  farei  apagar  com  o  curso 

furibundo de minhas niveladoras águas. 

Neste  momento,  Aquiles,  apoiando-se  a  um  rochedo,  ergue  os  olhos  até  a  morada  de 

Júpiter celestial e clama, assim, em sua voz: 

— Pai dos deuses, por que permite que a fúria de um deus menor se sobreponha ao seu 

poder infinitamente maior? Por que consente que o filho da sua querida Tétis, esposa de meu pai 

Peleu,  passe  pela  vergonha  de  ter  de  morrer  afogado  como  um  reles  pastor,  que  tomando  pé 

errado  afunda  sobre  as  águas  de  um  córrego  raso  e  acaba  por  entregar  ao  Hades  sombrio,  de 

maneira esquecida e vexatória, a sua alma reles? Quer dar, então, este mesmo e lastimoso fim ao 

rompedor das muralhas de escudos que troianos de sangue audaz erguem todo dia à sua frente, e 

que os rompe com o poder de sua incansável lança? 

Enquanto  diz  tal,  os  joelhos  de  Aquiles  avançam  a  custo  sobre  a  água,  que