A responsabilidade social e política dos cristãOS: história e memória da união cristã de estudantes do brasil



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como a igreja-com-os-outros”. 
No terceiro capítulo, de forma mais detida, descreveremos a história e memória 
da  União  Cristã  de  Estudantes  do  Brasil,  desde  o  seu  estágio  incipiente  em  1924,  como 
Grêmio  dos  Obreiros  Evangélicos,  passando  pela  União  de  Estudantes  para  o  Trabalho  de 
Cristo  -  UETC,  até  a  sua  configuração  final  como  União  Cristã  de  Estudantes  do  Brasil  – 
UCEB,  afiliada  à  Federação  Universal  do  Movimento  Estudantil  Cristão  -  FUMEC.  A 
presente pesquisa constatou  três  fases  distintas  e correlacionadas que nos  ajudam a entender 
melhor as transições sofridas pelo movimento. A primeira fase ficou marcada pela sua ênfase 
mais piedosa. Ora, o movimento dos jovens seminaristas seguia o modelo das missões norte-
americanas.  O  projeto  de  “salvar  e  educar”  deveria  ser  aplicado  com  o  objetivo 
                                                 
1
  PLOU,  Dafne  Sabanes.  Caminhos  da  Unidade:  itinerário  do  diálogo  ecumênico  na  América  Latina.  São 
Leopoldo: Sinodal, 2002, 232p. 
2
  BOSCH,  David.  Missão  transformadora:  mudanças  de  paradigma  na  teologia  da  missão.  São  Leopoldo: 
Sinodal, 2002, 694p. 


21 
 
conversionista,  de  “conquistar  almas  para  Cristo”,  ou  seja,  proselitista.  Posteriormente, 
principalmente  depois  da  1ª  Guerra  Mundial,  cristãos  de  todo  mundo  começaram  a  se 
preocupar  de  forma  mais  sensível  com  a  realidade  sociopolítica,  como  fonte  de  tantas 
tragédias  e  sofrimentos.  O  conceito  de  responsabilidade  social  dos  cristãos  ganha  corpo  e 
consistência  teológica,  passando  a  ser  motivação  central  das  principais  organizações 
internacionais do mundo protestante, como a FUMEC, e logo depois, o CMI.  
A  segunda  fase  da  UCEB  é  marcada  pela  recepção  dessas  novas  motivações 
teológicas.  Esdras  Borges  Costa  destaca  que  uma  das  marcas  da  UCEB  era  o  seu  cuidado 
pastoral.  Portanto,  não  é  demais  afirmar  que  Jorge  César  Mota  e  Richard  Shaull  foram  de 
grande  inspiração  para  o  movimento.  De  fato,  Mota  deu  importante  contribuição  para  a 
consolidação  da  perspectiva  teológica  de  responsabilidade  social  na  UCEB,  sendo  uma 
espécie de âncora do movimento.  
A  terceira  e  última  fase  da  UCEB  foi  marcada  pela  ênfase  na  ação 
sociopolítica.  A  descoberta  da  política  como  espaço  privilegiado  do  testemunho  cristão 
deveu-se tanto às novas influências teológicas emanadas do movimento ecumênico como da 
prática  existencial  dos  jovens  estudantes,  motivados  pelo  novo  momento  vivido  pelo  país. 
Ambas as influências marcaram decisivamente a vida da UCEB, colocando-a em sintonia com 
a atmosfera de transformação experimentada pela sociedade brasileira.  Essas três  dimensões 
apresentadas,  ou  seja,  a  piedosa,  a  social  e  a  política  estiveram  presentes  nos  perfis  dos 
estudantes  que  compunham  a  UCEB,  resultando  daí  uma  piedade  social  ou  mesmo  uma 
piedade  política.  Serão  fundamentais  neste  capítulo  os  registros  encontrados  no  arquivo 
pessoal de J. C. Mota. De igual modo, as entrevistas com os remanescentes, a autobiografia de 
Shaull:  “Surpreendido  pela  Graça”,  assim  como  periódicos,  artigos  em  revistas,  cartas, 
depoimentos e obras secundárias de aporte teórico.  
Um  último  objetivo  desta  dissertação  será  pontuar  algumas  evidências  que 
ajudarão a responder à inquietante pergunta sobre o alijamento da UCEB. Na década de 1940, 
a UCEB passou a ser marcada pelo inconformismo e a contestação diante do injusto quadro 
social  brasileiro.  Por  isso,  os  jovens  de  várias  denominações  protestantes  que  não 
encontravam  respostas  às  suas  inquietações  nos  espaços  destinados  ao  estudo  da  Bíblia  nas 
igrejas,  buscavam  apoio  e  sentido  nos  grupos  de  estudos  deste  movimento.  Além  desse 
aspecto,  a  UCEB  sempre  promoveu  o  diálogo  ecumênico.  Inclusive,  na  sua  fase  mais 
politizada, a aproximação com a JUC e com os dominicanos se caracterizou como uma ação 
de  vanguarda.  O  ecumenismo,  após  a  década  de  1970,  tem  nessa  iniciativa  da  UCEB  a  sua 


22 
 
raiz.  Foi  no  borbulhar  das  crises  sociais  presentes  na  década  de  1960  que  esses  diálogos  se 
aprofundaram.  O  Concílio  Vaticano  II  (1962  a  1965)  e  as  Conferências  Episcopais  Latino-
americanas  de  Medellín  (1968)  e  de  Puebla  (1979),  bem  como  a  expressiva  afirmação  da 
opção preferencial pelos pobres”, favoreceram a criação de novas entidades promotoras da 
aproximação de lideranças de ambos os lados  – católicos e protestantes. De qualquer forma, 
desde 1934, a primeira organização ecumênica do Brasil, a saber, a Confederação Evangélica 
Brasileira (CEB) estimulava a integração de igrejas numa proposta missionária para além do 
gueto  denominacional.  Em  fins  dos  anos  de  1950  e  inícios  de  1960,  o  Setor  de 
Responsabilidade Social da Confederação Evangélica Brasileira era basicamente formado por 
membros  da  UCEB.  Richard  Shaull,  Waldo  César,  entre  outros,  davam  a  linha  político-
teológica ao referido setor. 
Esperamos  que  os  aspectos  mais  característicos  da  UCEB  sejam  aqui  postos 
em  relevo,  embora  tenhamos  de  compartilhar  um  sentimento  de  impotência  diante  de  um 
movimento  de  amplo  significado  para  a  história  do  Protestantismo  Brasileiro.  Pretendemos, 
assim, contribuir para que a redenção histórica da UCEB siga a lógica daquilo que o ucebiano 
Jovelino  Ramos  disse:  “De  certa  forma,  a  UCEB  nunca  desapareceu.  Os  laços  que  uniam 
essa comunidade continuam vigorando. Como dizia William Faulkner, THE PAST IS NEVER 
DEAD. IT'S NOT EVEN THE PAST”.
3
 
                                                 
3
  Entrevista  de  Jovelino  Ramos  concedida  ao  autor.  Tradução  da  frase  de  Faulkner:  “O  passado  nunca  está 
morto. Ele nem mesmo é passado”. Veja Anexos, p.185. 


 
 
 
 
 
 


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