A reabilitação Cardíaca em Contexto Comunitário: aptidão física funcional da pessoa idosa com doença cardiovascular



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Classe III 
Limitação acentuada de atividade física diária. Angina ao caminhar apenas um ou dois quarteirões ou 
subir um lance de escadas em condições normais e ritmo normal. 
Classe IV 
Incapacidade de realizar qualquer tipo de atividade física sem sentir desconforto – A angina pode estar 
presente durante o repouso. 



 
Existem dois  grandes  tipos  de  EAM,  o tipo 1 é  caracterizado por uma rutura, ulceração, 
fissura, erosão ou dissecação da placa aterosclerótica que resulta na formação de um trombo que 
pode  ocorrer  apenas  numa  ou  em  várias  artérias  coronárias.  Este  desencadear  leva  a  uma 
diminuição  do  fluxo  sanguíneo  no  miocárdio  e/ou  a  uma  embolia  distal  e  a  uma  subsequente 
necrose  do  miocárdio. O  tipo  2  caracteriza-se  por  uma  necrose  do  miocárdio  onde  alguns 
mecanismos,  para  além  da instabilidade  da  placa  coronária,  contribuem  para  um  desequilíbrio 
entre  o  aporte  e  a  exigência  de  oxigénio  do miocárdio.  Mecanismos  como  espasmos  da  artéria 
coronária,  disfunção  endotelial  coronária,  taquiarritmias,  bradiarritmias,  anemia,  insuficiência 
respiratória e hipertensão severa (Roffi et al., 2016).   
Os  primeiros  exames  que  se  realizam  a  pessoas  com  suspeita  de  DAC  incluem  análises 
bioquímicas, ECG em repouso, ECG ambulatório, ecocardiograma em repouso e, em alguns casos, 
raio-X (Montalescot et al., 2013).  
As  análises  bioquímicas  são  utilizadas  para  identificar  possíveis  causas  de  isquémia, 
estabelecer  fatores  de  risco  cardiovasculares,  condições  que  possam  estar  associadas  e  para 
determinar o prognóstico. Na contagem total sanguínea avaliam-se os níveis de hemoglobina para 
excluir suspeitas de tiroidismo (relacionado com possíveis causas de isquémia) e a contagem total 
de células brancas (um elevado número está associado à presença de DAC) (Madjid & Fatemi, 2013). 
Analisar a glicemia plasmática em jejum, a hemoglobina glicada (HbA1c) e a tolerância à glucose é 
fundamental em  todas  as pessoas  com  suspeitas  de DAC  devido  à  relação  adversa  entre  DCV e 
diabetes (Bartnik et al., 2007). O perfil lipídico (colesterol total, colesterol HDL e LDL e triglicéridos) 
é  avaliado  periodicamente  para  determinar  a  eficácia  do  tratamento,  para  detetar  possível 
aparecimento de diabetes e  para estabelecer o perfil de  risco da pessoa  (Reiner et al., 2011). A 
disfunção  renal  pode  ocorrer  em  associação  com  a  hipertensão  e  diabetes  tendo  um  impacto 
negativo no prognóstico de pessoas com angina peitoral estável. Assim, a função renal é também 
avaliada  (Di  Angelantonio  et  al.,  2010).  Por  último,  os  níveis  de  troponina  são  utilizados  para 
identificar  pessoas  com  doença  instável  e  elevados  níveis  de  proteína  C-reativa,  que  estão 
associados a um maior risco de evento coronário agudo (Montalescot et al., 2013). 
 
Um  ECG  em  repouso  com  12  derivações  deve  ser  realizado  em  todas  as  pessoas  com 
suspeita de DAC, uma vez que permite identificar sinais de DAC como um EAM prévio ou um padrão 
de  repolarização  anormal,  alterações  no  segmento  ST,  anormalidades  como  hipertrofia  do 
ventrículo  esquerdo,  bloqueio  no  ramo  direito  ou  esquerdo,  arritmias  e  defeitos  na  condução 
elétrica. É, também, importante para auxiliar na definição dos mecanismos responsáveis pela dor 
no  peito,  e  para  selecionar  outros  exames  necessários  bem  como  o  tratamento  a  ser  realizado 
(Montalescot et al., 2013).  
 
Um ecocardiograma proporciona informações sobre a estrutura e  a função cardíaca. Na 
maior  parte  das  pessoas  com  suspeita  de  DAC  a  função  do  ventrículo  esquerdo  é  normal  mas 
podem ser detetadas anormalidades no movimento das paredes do miocárdio que aumentam a 
probabilidade  de  se  confirmar  DAC.  É  um  exame  particularmente  importante  em  pessoas  que 
tenham sopros cardíacos, tenham sofrido um EAM ou tenham sintomas e/ou sinais de insuficiência 
cardíaca. É um método de avaliação global ventricular importante para o prognóstico de DAC (Daly 
et al., 2006; Montalescot et al., 2013).  
 
Outro  exame  que  se  utiliza,  desta  vez  sem  ser  em  repouso,  é  a  monitorização  por  ECG 
ambulatório  (Holter)  que,  através  de  um  equipamento  portátil,  permite  identificar  isquémia  do 
miocárdio durante atividades do dia-a-dia através da monitorização da atividade elétrica do sistema 
cardiovascular,  e  tem  um  papel  muito  importante  em  pessoas  com  suspeita  de  arritmias  ou  já 


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diagnosticadas. Por  sua  vez,  o  Raio-X  é  frequentemente  utilizado  em  pessoas com  dor  no  peito 
apesar  de,  no  caso  da  DAC,  não  fornecer  informação  específica  para  o  diagnóstico  ou  para  a 
estratificação do risco. É mais utilizado em casos de suspeita de insuficiência cardíaca, mas pode 
ser útil em pessoas com problemas pulmonares (Montalescot et al., 2013). 
 
Após ter sido confirmado o diagnóstico de  DAC são tomadas as decisões  de tratamento 
dependendo  do  grau  de  severidade  dos  sintomas,  do  risco  de  a  pessoa  ter  eventos  cardíacos 
adversos e da preferência da pessoa. A escolha faz-se, entre realizar apenas medicação preventiva 
e  medicamentos  para  controlar  os  sintomas  ou,  adicionalmente,  realizar  revascularização 
(Montalescot et al., 2013). 
 
2.1.3  Tratamento cirúrgico e farmacológico 
 
As pessoas com DCV, antes de serem submetidos a uma revascularização passam por um 
processo  de  medicação  devido  aos  seus  benefícios  no  prognóstico  e  no  alívio  dos  sintomas.  Os 
principais métodos de revascularização são a intervenção coronária percutânea ou angioplastia e o 
bypass coronário. Estes são indicados para reduzir a isquémia do miocárdio e as suas manifestações 
clínicas adversas, quando existem obstruções nas artérias coronárias que limitem a passagem do 
fluxo sanguíneo (Windecker et al., 2014).  
A  revascularização  por  estes  dois  métodos  é  bastante  eficaz  no  alívio  da  angina  e  da 
isquémia do miocárdio, na redução da utilização de medicamentos anti isquémicos e na melhoria 
da capacidade física e qualidade de vida. A extensão, localização e gravidade da obstrução da(s) 
artéria(s) é previamente determinada através de vários exames como a angiografia coronária ou a 
angio-TC (tomografia computorizada) coronária (Windecker et al., 2014).  
De forma sucinta, a intervenção coronária percutânea consiste na colocação de um stent 
na zona da obstrução da artéria com o objetivo de normalizar a passagem do fluxo sanguíneo. Na 
revascularização por bypass coronário é colocado um enxerto (normalmente veia safena ou artéria 
mamária)  na  zona  da  artéria  após  a  obstrução,  oferecendo  uma  nova  passagem  para  o  fluxo 
sanguíneo chegar ao miocárdio (Windecker et al., 2014). 
Os medicamentos mais prescritos após EAM dividem-se em dois grupos, os anti isquémicos 
e  os  de  prevenção  de  novo  evento.  No  grupo  dos  anti  isquémicos, os  grupos de  fármacos mais 
utilizados são os nitratos, betabloqueadores e os bloqueadores dos canais de cálcio, no entanto, 
existem  outros  fármacos  como  a  ivabradina,  nicorandilo,  trimetazidina,  ranolazina,  alopurinol  e 
molsidomine. De entre os fármacos de prevenção de novo evento encontram-se os anti-agregantes 
plaquetários,  as  estatinas  e  os  bloqueadores  do  sistema  renina-angiotensina-aldosterona 
(Montalescot et al., 2013).  
De forma breve, os nitratos provocam a vasodilatação das artérias coronárias para aliviar a 
angina de esforço, existem os de curta duração (nitroglicerina sublingual ou nebulizador) e os de 
longa duração (Henderson & O'Flynn, 2012). Os betabloqueadores atuam diretamente no coração 
através da redução da frequência cardíaca, na contractilidade, na condução atrioventricular e na 
atividade ectópica. São bastante eficazes no controlo da angina induzida pelo exercício, melhora a 
capacidade física e limita assintomáticos e sintomáticos de isquémia. Em pessoas que sofreram um 
EAM, os betabloqueadores reduzem em 30% o risco de morte por DCV e por EAM (Yusuf, Wittes, 


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&  Friedman,  1988).  Os  bloqueadores  dos  canais  de  cálcio  ou  antagonistas  de  cálcio  atuam  na 
vasodilatação e na redução da resistência vascular periférica (Montalescot et al., 2013).  
Em  relação  aos  medicamentos  preventivos,  os  anti-agregantes  plaquetários  diminuem  a 
agregação plaquetária e podem prevenir a formação de trombos. A aspirina (dose baixa) previne a 
trombose arterial e os inibidores P2Y12 inibem a agregação plaquetária (Montalescot et al., 2013). 
As estatinas são muito prescritas pela associação que o perfil lipídico tem com o risco de DAC e por 
isso, o alvo da toma deste tipo de medicamento é atingir um valor de colesterol LDL de 1,8 mmol/L, 
ou seja, menos de 70 mg/dL (Reiner et al., 2011). Os bloqueadores do sistema renina-angiotensina-
aldosterona  reduzem  a  mortalidade  total,  o  EAM,  o  AVC  e  a  insuficiência  cardíaca  através  dos 
inibidores da enzima conversora da angiotensina (Montalescot et al., 2013). 
Após  estabilizar  a  doença,  é  aconselhado  que  a  pessoa  participe  num  programa  de 
reabilitação cardíaca (PRC) por este promover alterações no estilo de vida incluindo, entre outros, 
AF  e  regular  mudanças  de  hábitos  como  a  cessação tabágica e  hábitos  alimentares  (Roffi et  al., 
2016). 
 
2.2  Fatores de Risco 
As patologias descritas anteriormente, com ênfase na DAC,  derivam, na maior parte dos 
casos,  da  conjugação  de  vários  fatores  de  risco.  Na  décima  edição  das  recomendações  para  a 
avaliação e prescrição de exercício do American College of Sports Medicine (ACSM), encontram-se 
identificados os fatores de risco que podem ser divididos em modificáveis e não modificáveis. O 
tabagismo,  sedentarismo,  obesidade,  hipertensão,  dislipidemia  e  pré-diabetes  são  considerados 
fatores  de  risco  modificáveis,  ou  seja,  que  através  da  alteração  do  estilo  de  vida  e/ou  de 
tratamentos, podem ser revertidos ou melhorados. Já nos não modificáveis encontra-se a idade e 
a história familiar. A forma de como estes fatores de risco podem influenciar o desencadear de, por 
exemplo,  um  EAM,  é  percetível  ao  analisar  como  afetam  a  fisiologia  do  corpo  humano  (ACSM, 
2017). 
 Idade: 
Começando pela idade, esta é considerada um fator de risco quando os homens têm mais 
de 45 anos de idade e as mulheres mais de 55 anos (ACSM, 2017). Na revisão realizada por Lakatta 
&  Levi  (2003),  é  possível  constatar  que  o  processo  de  envelhecimento  leva  a  um  aumento  da 
espessura  e  da  rigidez  das  artérias  (túnica  íntima)  e  à  disfunção  endotelial,  o  que  pode  estar 
relacionado com o desenvolvimento da aterosclerose, com a hipertensão sistólica, com o AVC e 
com a hipertrofia ventricular esquerda.  
História Familiar: 
Segundo o ACSM, (2017), para a história familiar ser considerada um fator de risco a mãe 
e/ou o pai, ou outro parente de 1º grau têm que ter sofrido um  EAM, uma revascularização do 
miocárdio ou morte súbita em idades inferiores a 65 e 55 anos, respetivamente. Vários estudos já 
conseguiram  demonstrar  que  a  história  familiar  de  DCV  em  idades  jovens  (menos  de  65  anos) 
nomeadamente,  DAC,  tem  uma  associação  significativa  com  o  risco  de  a  vir  a  desenvolver 
(Bachmann, Willis, Ayers, Khera, & Berry, 2012; Chow et al., 2011; Lloyd-Jones et al., 2004). Cerca 
de  um  terço  das  pessoas  que  sofreram  um  EAM  apresentavam  como  fator  de  risco  a  história 
familiar. Vários estudos genéticos têm sido realizados para tentar compreender a hereditariedade 
da  DAC  com  o  objetivo  de  criar  e  validar  uma  tabela  de  pontuações,  com  base  nos  genes 


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identificados,  que  permita  fazer  uma  predição  do  risco  de  vida  e  implementar  estratégias  de 
prevenção (Dai, Wiernek, Evans, & Runge, 2016; Mayer, Erdmann, & Schunkert, 2007). 
Tabagismo:  
O tabagismo é uma das causas mais significativas de mortalidade e morbilidade por DCV 
em todo o mundo. No ano de 2000, estimou-se que 1,62 milhões de mortes devido a DCV, ou seja, 
11% das mortes por DCV, tiveram como principal causa o tabagismo (Ezzati, Henley, Thun, & Lopez, 
2005; White, 2007). Em Portugal, estima-se que em 2013, fumar possa ter contribuído para a morte 
de 2520 pessoas por DCV e para a morte de 306 pessoas por DAC apenas por exposição ao fumo 
ambiental (Nunes & Narigão, 2016). 
 Fumar tem como consequência, entre outras doenças, uma elevada incidência de casos de 
DAC,  doença  vascular  periférica,  doença  pulmonar  obstrutiva  e  AVC  (Mainali,  Pant,  Rodriguez, 
Deshmukh, & Mehta, 2015). De acordo com o ACSM
,
 para o tabagismo ser considerado um fator 
de risco, ou uma pessoa é fumadora atual ou deixou de fumar há menos de 6 meses ou encontra-
se exposta a ambientes de fumo (fumadora passiva) (ACSM, 2017). Em 2010, foi publicado um livro 
que  explica  como  o  tabaco  pode  levar  ao  desenvolvimento  de  várias  doenças  descrevendo,  no 
capítulo 6, exclusivamente da sua influência nas DCV. As conclusões desse capítulo são sintetizadas 
de seguida (Benjamin et al., 2010): 
•  Existe  uma  relação  dose-resposta  não  linear  entre  a  exposição  ao  tabaco  e  o  risco 
cardiovascular; 
•  Fumar tem como consequência lesões endoteliais e disfunções endoteliais tanto nas 
artérias coronárias como nas artérias periféricas, tendo como principais responsáveis a 
nicotina e os gases oxidantes
•  Estar exposto ao fumo do tabaco aumenta o risco de trombose;  
•  Fumar tabaco produz um estado inflamatório crónico que contribui para o processo de 
aterosclerose e eleva os níveis de biomarcadores inflamatórios conhecidos como bons 
preditores de eventos cardiovasculares
•  O tabaco produz um perfil lipídico aterogénico devido, principalmente, ao aumento dos 
triglicéridos  e  à  diminuição  das  lipoproteínas  de  alta  densidade  (HDL  –  high-density 



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