A quebra da autoridade do historiador acadêmico sobre a produção do conhe



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common reader, Richard Altick apresentava “um mapa preliminar de um vasto 

território ainda virtualmente inexplorado, que aguarda os pesquisadores”. “Há 

espaço”, dizia, “para literalmente centenas de estudos que estão apenas esbo-

çados” (Altick, 1957, p.8-9).

Alguns historiadores avançaram no estudo das bibliotecas públicas, do co-

mércio de livros, da imprensa de jornais e periódicos, da educação popular, da 

história social e econômica da autoria e edição de livros, e todos os subcampos 

que Altick abriu com seu estudo.

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 Esse autor se esforçou para formular um campo 



voltado à história das editoras, dos catálogos das bibliotecas e registros de em-

préstimos, do nível de instrução, com vistas a determinar que livros um deter-

minado corpo de leitores possuía ou lia. A geração seguinte da historiografia dos 

livros e leitores, que inclui autores como david Hall (1986), Margaret Spufford 

(1981), Robert darnton (1987; 2010a; 2010b; darnton & Roche, 1996) e Roger 

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Chartier (1998; 2003; Chartier & Cavallo, 1998; 1999) deu um passo além dos 

objetivos de Altick. Essa geração posterior levantou questões como a “revolução 

da leitura” que se alastrou no Mundo Atlântico por volta da virada para o século 

XIX, quando a leitura de livros e jornais passou a ser praticamente um hábito 

cotidiano, não mais a leitura comunitária em voz alta, e sim individual, silenciosa 

e solitária. Porém, o desafio fundamental de Altick foi negligenciado num ponto 

central por essas novas gerações. Onde a antiga história dos livros estudava o que 

as pessoas liam, e a história do livro mais recente estuda como elas liam, nenhu-

ma delas explorou realmente respostas intelectuais de massa à questão da leitura 

propriamente dita. Efetivamente, ninguém atacou sistematicamente a questão 

básica colocada por Altick: “como os textos mudam as mentes e as vidas dos 

leitores comuns (não profissionais)?” (Rose, 1992, p.48ss).

Num artigo já antigo, de 1992, intitulado “Rereading the English Common 

Reader: a preface to a history of audiences” e publicado no Journal of the 



History of Ideas, jonathan Rose apontava como críticos de todas as cepas, de 

historiadores literários aos teóricos mais vanguardistas, tentaram discernir as 

mensagens ideológicas que os livros levam aos leitores. Mas ao fazê-lo se co-

meteu, segundo Rose, pelo menos uma das seguintes falácias em relação à 

resposta do leitor:

Primeira: toda literatura é política, no sentido de que ela sempre influencia a 

consciência do leitor; 

Segunda: a influência de um dado texto é diretamente proporcional à sua circu-

lação;

Terceira: a cultura “popular” tem uma base muito maior que a “alta” cultura e, 



por conseguinte, reflete com precisão as atitudes das massas;

Quarta: a “alta” cultura tende a reforçar a aceitação da ordem política e social; e

Quinta: o cânone dos “grandes livros” é definido somente pelas elites sociais. Os 

leitores comuns ou não reconhecem esse cânone, ou então o aceitam apenas por 

adesão à opinião da elite. (Rose, 1992, p.48ss)

Essas cinco falácias estariam enraizadas num erro metodológico funda-

mental, que pode ser definido como a falácia da recepção. Ou seja, o crítico 

admite que o que quer que um autor coloque em seu texto – ou o que quer que 

seja que o crítico leia nesse texto – será sempre a mensagem que o leitor co-

mum recebe, sem estudar as respostas de qualquer outro leitor real que não o 

próprio crítico.



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Efetivamente, na maior parte das vezes só se especulou sobre as reações dos 

hipotéticos leitores: a estética da recepção de Hans Robert jauss (1979), o “leitor 

implícito” de Wolfgang Iser (1996), o “leitor informado” de Stanley Fish (1970; 

1980), o “leitor qualificado” de jonathan Culler (1982; 1997), o “leitor médio” 

ou “superleitor” de Michael Riffaterre (1971), o “leitor-modelo” (ou leitor-pa-

drão), de Umberto Eco (1984) ou o “leitor-maduro”, de Ronald Wardhaugh 

(1969). Mesmo que qualquer um desses formuladores canônicos da teoria da 

recepção tivesse em mente uma suposta audiência “real”, essa audiência dificil-

mente pode ser entendida como “comum”. Os leitores que interessam a jonathan 

Culler, por exemplo, são todos membros da comunidade acadêmica (estudantes, 

críticos, professores). E o que dizer, então, do leitor do passado? Rose propõe 

então um terceiro nível de história da leitura: uma história das audiências, a qual 

“subverteria a perspectiva usual da historiografia intelectual”. Tal história das 

audiências deverá primeiro definir um grande público, determinar sua dieta 

cultural, e por fim medir a resposta coletiva dessa audiência não apenas em re-

lação a obras particulares de literatura, mas também em relação a educação 

formal, religião, arte e qualquer outra atividade cultural. Enquanto as histórias 

da recepção em geral traçavam as respostas de intelectuais profissionais (críticos 

literários, acadêmicos, membros do clero), uma história das audiências deverá 

centrar o foco no leitor comum – definido como qualquer leitor que não tenha 

a leitura como profissão.

Trazendo essa problemática para o campo da historiografia, é mister abrir 

um longo parêntese para mencionar o trabalho de quem, a meu ver, mais tem 

avançado nessa discussão no Brasil. Em artigo pioneiro, Fernando Nicolazzi 

(2010) busca “as condições de legitimidade cultural para os escritos históricos, 

sua razão de ser dentro da sociedade”. É uma de suas hipóteses que “as condi-

ções de legitimidade para a escrita historiográfica residem, não apenas nos 

procedimentos escriturários de que se valem os historiadores para fundamen-

tar seus relatos, mas também no intervalo incerto e impreciso que articula a 

prática da escrita com o ato de leitura” (ibidem). Resgatando George Macaulay 

Trevelyan, Nicollazi lembra que “falando diante de uma associação de livreiros, 

ele ressaltou a crise no mundo da leitura logo após os conflitos que varreram 

boa parte da Europa e que ainda produziriam efeitos devastadores em outras 

partes do planeta”, e que, “num arroubo aristocrático”, Trevelyan

considerou prejudicial, pelo menos neste ponto em específico, a nova formação 

social que se estabeleceria no pós-guerra, marcada pelo princípio de igualdade 

social e que, num inusitado raciocínio, fez o autor sugerir que novas e menores 



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habitações seriam construídas acarretando o fim das grandes bibliotecas particu-

lares, sendo que as públicas não conseguiriam suprir a demanda pela leitura. (Ni-

colazzi, 2010, p.528)

Parece imperativo contextualizar nossa problemática. Não se trata, no 

caso, de um “arroubo aristocrático”. Trevelyan era um aristocrata, terceiro 

filho de Sir George Otto Trevelyan, segundo baronete, e sobrinho-neto de 

Thomas Babington Macaulay, cujos firmes princípios liberais whig ele expôs 

em obras acessíveis ao leitor comum; além disso, Trevelyan teve passagens 

como professor régio na University of Cambridge, diretor do Trinity College 

e chanceler da universidade de durham

 

(Hernon jr., 1976, p.66-97).



Com o foco na questão de “como se deveria ler a história”, Nicollazi pro-

blematiza outros pontos fundamentais: “as formas e condições de legitimidade 

do discurso produzido pelos historiadores”. Trata-se de questão absolutamente 

legítima e pertinente, mas que deve, a meu ver, ser ampliada. “Como se deveria 

ler a história” ressoa quase como uma proposição normativa. Uma história das 

audiências, que pense a relação entre historiador e público, deverá investigar 

como se conhece a história: como se lê, se vê, se ouve, se vive a história. 

Nicolazzi está correto ao apontar para as vicissitudes da leitura, que agem sobre 

a escrita e determinam seu resultado, uma vez que o trabalho de leitura é per-

passado pelos princípios da crítica e pela dimensão da imaginação. O problema 

maior, a meu ver, é que jamais teremos acesso a sequer uma amostragem mí-

nima da recepção da historiografia pelo leitor comum, ou médio. Seu parâme-

tro são as sugestões de como fazer a leitura histórica oferecidas por grandes 

historiadores como o próprio Trevelyan, Charles-Claude Ruelle, W. von 

Humboldt, Augustin Thierry, desmarest e outros autores dos séculos XVIII e 

XIX.


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 Esses autores esperavam do leitor a mesma erudição e o mesmo senso 

crítico dos escritores (eruditos!) de história, o que nos permite inferir que suas 

reflexões sobre a pragmática da leitura se dirigiam a seus pares mesmos – um 

vício que em boa medida estamos praticando hoje.

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Reconheçamos que o propósito de Nicolazzi é oferecer, não um estudo 



sobre a leitura ou o leitor da história, mas sobre textos normativos de como, 

na expectativa desses historiadores aristocráticos, eruditos, a leitura da história 

deveria ser feita, ou seja, de como os autores de história desenhavam seus 

leitores ideais. A questão da leitura e do uso da história requereria, porém, a 

consideração do dimensionamento do público leitor vis-à-vis a população, o 

sistema de ensino e a alfabetização, as obras e os autores de vulgarização. A 




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história, até o século XIX, não era escrita para o grande público e sim para 

estadistas e as classes superiores da sociedade.

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Essas são questões metodológicas relevantes da relação entre o historiador 



e seu público quando consideramos que o meio – a mídia – que os ligava era 

exclusivamente – ou ao menos massivamente – o livro, quando o historiador 

era o profissional treinado na pesquisa crítica e documental e o leitor era o 

homem educado, o leigo letrado. Mas será ainda assim? Nos dias de hoje, a 

equação historiador/historiografia/público tornou-se mais complexa. A “his-

tória pública” surgiu no contexto dessa amplificação dos públicos: não como 

exclusivamente “audiências”, consumidores de história, mas, em alguma me-

dida, como debatido a seguir, público gerador de história.

Sobre história pública não vou revolver o que todos já sabem e eu mesmo 

já disse em artigo publicado na História da Historiografia,

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 mas apenas enfa-



tizar alguns aspectos centrais para meu argumento. Se, no começo dessa aven-

tura, lá pelo final dos anos 1970, autores como Roy Rosenzweig, que 

começaram a formular esse conceito, tinham uma intenção vocal, de dar voz, 

de tornar autores as pessoas comuns (Rosenzweig; david, 1998), com o tempo 

o conceito fixou-se nas potencialidades de ação profissional dos historiadores 

fora do universo acadêmico. Não vou desenvolver aqui o que já trabalhei na-

quela ocasião, mas apenas destacar um ponto fundamental a se considerar na 

busca de uma definição categórica de Public History, a saber, a questão das 






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