A proposta desse trabalho é entender o atual bairro Três Figueiras



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A proposta desse trabalho é entender o atual bairro Três Figueiras

a partir das suas próprias características e sua história. É evidente

o contraste entre esse bairro e bairros próximos, verticalizados,

como   o   Petrópolis.   São   duas   concepções   de   cidade.   Numa

primeira parte vamos entender a origem da concepção urbana

que constitui o Três Figueiras e na segunda parte, apresentar sua

história, que explica suas características atuais.

PARTE I  MOVIMENTO CIDADE-JARDIM



1. Introdução

Várias características físicas do atual bairro Três Figueiras se relacionam direta e indiretamente

com um importante movimento social, econômico e urbanístico, que teve repercussão mundial, o

Garden-City Moviment, idealizado pelo pensador inglês Ebenezer Howard (1850 – 1928).

Durante séc. XIX, a revolução industrial havia trazido muitas indústrias para as áreas urbanas. Essa

oferta maior de emprego atraiu levas de trabalhadores do campo, que não podiam pagar aluguéis

de boas residências. As grandes capitais europeias começavam a perder qualidade de vida. Ruas

estreitas com muitas casas pequenas, baratas e de péssima qualidade, pouco iluminadas, mesmo

durante o dia, e a noite na completa escuridão, superpopulação sem a infraestrutura necessária,

falta de condições sanitárias, sem ventilação, lixo na rua, poluição, poeira, doenças infecciosas,

falta de segurança. Eram quase como favelas que se espalhavam por todas as grandes cidades e

Londres, sem dúvida, era a cidade símbolo dessa situação. Grandes escritores da época, como

Dickens   e   Victor   Hugo,   retrataram   essa   situação   social   grave   nas   grandes   cidades   em   seus

romances.

Nesse contexto, onde ao lado de grande progresso econômico e tecnológico a qualidade de vida

parecia diminuir, vários pensadores sociais, políticos, filantropos, empresários, líderes religiosos,

arquitetos, engenheiros e urbanistas, começaram a propor  soluções  para os  males  da cidade

moderna industrializada. Em 1882, Arturo Soria y Mata, propõe a Cidade Linear para Madrid, em

1889, o austríaco Camillo Sitte, a Cidade Artística. No princípio do séc. XX a situação era a mesma.

Em   1904,   Tony   Garnier   propõe   a   Cidade   Industrial,   e   finalmente,   em   1922,   surge   a   Cidade

Modernista, de Le Corbusier.

A questão de fundo para várias dessas propostas urbanas era a relação entre cidade e campo, na

separação que aconteceu nessa época entre a tradicional agricultura e a nova indústria. Mas sem

dúvida o movimento que ficou mais conhecido e que teve a maior influência em todo o mundo, e

ainda tem hoje em dia, foi a proposta de Cidades-Jardim, de Howard. Sua solução radical era se

afastar da grande cidade vitoriana e seus problemas – poluição, cortiços e especulação imobiliária

– e criar de forma planejada cidades de pequena e controlada dimensão no interior da

Inglaterra. Como o solo rural era mais barato que o solo urbano, uma associação ou cooperativa,

formada por indivíduos e/ou empresas, compraria a terra e planejaria uma nova cidade completa,

com   características   ideais   para   atrair   as   pessoas   que   viviam   na   grande   metrópole   e   que

enfrentavam todas as dificuldades. 



A diferença do esquema cidade-jardim de Howard era que ele havia estudado todas as propostas

anteriores, desde as mais radicais e revolucionárias às mais reformistas e propôs um conceito

completo, um modelo real para ser implantado de forma pragmática. A reunião e harmonização

entre agricultura e indústria, entre cidade e campo, devia acontecer dentro de cidades novas, as

cidades-jardim. Na origem, a cidade-jardim não era apenas uma forma de urbanização, mas uma

forma de vida, uma experiência sociopolítica para todas as classes sociais, que envolvia indústria,

serviços e agricultura.

Seu ponto de partida era criar emprego nessas pequenas cidades no interior que deviam ter no

máximo cerca de 30.000 habitantes. Howard queria levar a indústria para essas pequenas cidades,

onde também haveria emprego na agricultura. Algumas propostas comunistas e socialistas na

época defendiam a coletivização dos meios de produção. Somente o Estado teria a capacidade de

organizar cidades desse forma. 

A cidade-jardim também tem uma série de atividades coletivas, o município tem o seu papel como

organizador da vida social. Mas Howard criticava comunistas e socialistas porque estes esqueciam

uma característica importante do ser humano, a vontade de empreender por si próprio. A cidade -

jardim, para que funcionasse, devia promover a iniciativa individual, o empreendedorismo. Se

fosse mais viável economicamente a organização pelo município, os habitantes decidiriam por essa

solução, mas sempre haveria a possibilidade dos indivíduos apresentarem as suas propostas de

oferecer serviços, como, por exemplo, água ou eletricidade. 

A partir dessas premissas, casamento do campo e da cidade, harmonização entre o coletivo e o

individual, Howard desenhou um modelo, que na verdade é apenas uma sugestão, para que em

cada situação cada cidade-jardim descobrisse o melhor caminho para trazer aos seus habitantes a

qualidade de vida que não encontrariam nunca nas grandes metrópoles. Em 1898, publica  To-

Morrow: A Peaceful Path to Real Reform e, em 1902, a segunda edição tem o título Garden Cities

of To-morrow

Este livro foi sem dúvida um dos mais influentes em planejamento urbano no séc. XX e muitas

características das cidades em que vivemos, em seu melhor aspecto, vem direta ou indiretamente

das ideias de Howard. No primeiro título vemos duas intenções claras, primeiro que não se trata

de uma proposta utópica, e sim de uma reforma real, e por isso o autor entrou em todo o tipo de

detalhe no planejamento dessa cidade. E, em segundo lugar, que essa transformação se faria de

forma pacífica, sem forçar as pessoas. Ao contrário, a cidade-jardim apresentaria tantas qualidades

para se viver que naturalmente atrairia os moradores da cidade grande, desejosos de uma vida

mais plena, harmônica, perto da natureza.

Em resumo, a cidade deveria ter um contato maior com o campo e as atividades agrícolas, que

formariam um cinturão verde (green belt) em torno a área urbana. A própria cidade deveria ter

muitas áreas verdes públicas, jardins, grandes parques, onde a população poderia encontrar o

lazer   em   esportes   como   o   cricket   ou   tênis,   esporte   recente,   que   havia   ganhado   grande

popularidade na época. As ruas deveriam ser grandemente arborizadas e com formato curvo, uma

forma mais orgânica que as grades retilíneas de ruas que se encontram em algumas cidades

planejadas.   Em   contrate   com   as   ruas   apinhadas   e   movimentadas   de   Londres,   haveria   pouca

densidade de residências, com espaçamento entre elas, que seriam como jardins de uso coletivo,

criando uma atmosfera bucólica, tranquila, com segurança e muitas amenidades, em harmonia

com a natureza.



No diagrama abaixo, Howard mostrava o esquema geral de uma cidade de no máximo 32 mil

habitantes, rodeada por um cinturão verde de terra para agricultura e  pecuária. O formato circular

era  apenas   uma  sugestão,   cada  cidade-jardim  devia  ter  a  melhor  forma  para a  sua  situação

geográfica.

A parte urbana devia possuir zonas específicas para diversas atividades, mas todas bem próximas

umas das outras. Numa posição central, equidistante, deveria estar o “centro”, o núcleo com as

atividades cívicas mais nobres. Na proposta do livro, haveria um jardim central e, pelo menos, seis

edifícios públicos: 

A sede administrativa (“Prefeitura”), Hospital, Biblioteca, Museu/Galeria, Teatro,

Sala de Concertos e Auditório.

Esse núcleo seria rodeado por um grande parque central com áreas

de recreação, como campos de cricket, quadras de tênis e parques

infantis. Deveria haver um setor comercial com lojas de todos os

tipos. Neste diagrama Howard propõe uma arcada coberta de vidro,

que seria uma enorme galeria comercial, o  Crystal Palace. Essas

arcadas cobertas começaram a surgir na Inglaterra no início do séc.

XIX e foram a origem dos shoppings centers atuais, iluminados com

luz solar através de seus tetos de vidro (A direita, Burlington Arcade,

Londres, 1819). Nesse mesmo espaço envidraçado haveria setores para jardins de inverno.

Envolvendo esse conjunto, um grande parque circular (Grand Avenue), com escolas públicas e

igrejas para diferentes denominações. No circulo mais externo da cidade os equipamentos com

funções   econômicas,   como   mercados,   armazéns,   leiterias,   diferentes   fábricas   (alimentos,

bicicletas, roupas, sapatos, mobiliário) e depósitos para madeira, carvão e pedras.



Toda a área urbana estaria circundada por uma estrada de ferro, que faria a conexão de pessoas e

produtos   com   cidades   próximas   e   distantes.   Na   área   rural,   grandes   fazendas,   pequenas

propriedades rurais, parcelas rurais, pastagens, fazenda de gado leiteiro. Todas essas atividades

econômicas deveriam tornar a cidade autossustentável, através de empreendedores individuais ou

cooperativas. Mas também exportar e importar bens. Howard foi precursor na proposta de utilizar

lixo e esgoto urbano para a fertilização das terras agrícolas. Entidades filantrópicas de apoio aos

desamparados   como   órfãos,   viúvas   ou   idosos   seriam   convidadas   a   participar   do   projeto.   A

municipalidade seria responsável por pensões e tratamento médico, antecipando o ideal do estado

de bem-estar social. A cidade seria administrada por um Conselho, com participação de homens e

mulheres, lembrando que o voto feminino no Reino Unido foi permitido apenas muitos anos

depois em 1918.

Essa nova cidade não seria um ponto isolado no mapa, desconectado da realidade social do país.

Linhas  de trem, o novo  transporte  para longas  distâncias, e autoestradas,  ligariam diferentes

cidades-jardim próximas. O modelo de crescimento não seria o das grandes metrópoles, que




expandem infinitamente a sua área urbana, mas pela criação de novas cidades, que sempre teriam

entre si um cinturão verde, que permitiria o contato constante com a natureza

A medida que a população fosse conhecendo todas as vantagens das cidades-jardim, onde haveria,

por   um   lado,   bons   empregos   e   salários,   e   por   outro,   qualidade   urbana   para   todos   os   seus

habitantes,   em   harmonia   com   a   natureza,   toda   uma   rede   de   cidades-jardim   se   constituiria,

interligadas, formando o que Howard chamou de Cidade Social, uma ampla rede cidade-campo.




 

Enquanto   várias   propostas   nessa   época   ou   eram   simplesmente   utópicas,   ou   defendiam   uma

revolução,   com  violência,   Howard   acreditava  que  era  realizável  e  se  poderia  pouco   a pouco,



começando por pequenas experiências estender esse novo modelo urbano a todo o país e a outros

países e era isso o que ele queria ver realizado.





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