A noçÃo de ideologia em durkheim



Baixar 87.71 Kb.
Página1/7
Encontro25.06.2021
Tamanho87.71 Kb.
#16195
  1   2   3   4   5   6   7

A NOÇÃO DE IDEOLOGIA EM DURKHEIM

Nildo Viana*

Resumo:

O presente artigo discute a noção de ideologia no pensamento de Durkheim. A partir de uma análise do discurso de Durkheim e seu uso do termo ideologia, busca-se reconstituir o significado desta noção. Uma análise rigorosa do uso do termo em As Regras do Método Sociológico e em outras obras deste autor, permite entender o significado implícito da noção de ideologia e assim explicitá-la. A noção de ideologia em Durkheim é explicada pelo contexto social, cultural e discursivo do autor, sendo que ela remete ao problema da história das ciências e à transição do pensamento pré-científico para o pensamento científico, sendo que toda ciência, no seu período de nascimento, possui uma fase ideológica.


Palavras-Chave: Ideologia, Noção, Ciência, Discurso, Análise do Discurso.
Abstract:

This article discusses the notion of ideology in Durkheim's thought. From an analysis of Durkheim's discourse and his use of the term ideology, one seeks to reconstitute the meaning of this notion. A rigorous analysis of the use of the term in The Rules of Sociological Method and other works of this author, allows to understand the implicit meaning of the notion of ideology and thus to make it explicit. Durkheim's notion of ideology is explained by the social, cultural and discursive context of the author, which refers to the problem of the history of science and the transition from pre-scientific thought to scientific thought, all science in its period of birth, has an ideological phase.


Keywords: Ideology, Notion, Science, Speech, Speech Analysis.
O objetivo do presente artigo é discutir a noção de ideologia na sociologia de Émile Durkheim. Esse termo foi poucas vezes utilizado por Durkheim, mas cumpre um papel importante na sua sistematização da sociologia como ciência, tal como exposto em As Regras do Método Sociológico. Além disso, o termo “ideologia” é um dos mais trabalhados na tradição sociológica e nas ciências humanas em geral, sendo que assume importância verificar seu uso por parte de um autor considerado clássico da sociologia.

Além disso, uma análise da gênese e significado da noção de ideologia em Durkheim é importante por outros motivos. Sem dúvida, a sociologia do conhecimento, e mais ainda a sociologia da ciência, tem um campo amplo para desenvolver que a aproxima da epistemologia, que é a análise da linguagem científica. A linguagem científica, ao contrário da linguagem comum, se expressa através de conceitos, construtos, noções, que são complexos e que não podem ser entendidos como as palavras comuns. Isso pode ser visto, por exemplo, no fato de que a linguagem complexa não pode usar sinônimos como se faz na linguagem cotidiana. O processo social de constituição da linguagem científica e a análise da composição linguística dos cientistas é fundamental nesse processo de análise da ciência e seu caráter social. Outro motivo, relacionado ao anterior, é que a análise do termo ideologia em Durkheim tem o papel de recuperar um elemento do seu pensamento que geralmente é esquecido e abandonado, mas extremamente relevante para compreender a história do seu pensamento e suas ideias.

Este é o elemento mais importante, pois compreender a gênese e significado da noção de ideologia em Durkheim é fundamental para entender o seu pensamento, não somente no aspecto específico da sua concepção de história da ciência e, mais especificamente, da sociologia, mas no sentido mais geral do seu pensamento. O desenvolvimento da análise do discurso contribui para entender o processo de análise de autores e obras científicas. Ela demonstra que é fundamental, para compreender um determinado autor, o conjunto, a totalidade do seu pensamento, mas para isso é necessário entender suas unidades, as noções e conceitos no sentido fornecido pelo autor, permitindo assim uma compreensão mais adequada do mesmo. Um exemplo pode ajudar a entender isso. O conceito de partido em Marx (1988) no livro Manifesto do Partido Comunista tem um sentido cuja compreensão é dificuldade sem uma contextualização histórica. Nessa obra, Marx não usa o termo tal como o usamos hoje, no sentido dos partidos políticos formais existentes na democracia representativa. O termo partido, nessa obra, tem o significado de posição, assim como em sua outra obra, o Dezoito Brumário (1986), no qual ele fala do “partido de César”. No entanto, muitos leitores pensam que o termo partido na primeira obra citada é o que usamos hoje, promovendo um equívoco interpretativo e má compreensão do autor, não somente nessa obra como em seu pensamento em geral, confundindo sua concepção com a de um dos seus seguidores, Lênin, para o qual o partido assume importância fundamental e isso é atribuído equivocadamente a Marx. Apenas uma palavra, que nem sequer tinha o status de noção (e muito menos de conceito), no pensamento de um autor, promove inúmeros equívocos interpretativos.

É de conhecimento público que o termo ideologia possui diversas definições e que existe uma grande variedade de concepções a seu respeito (EAGLETON, 1997; ZIZEK, 1999; LENK, 1974). É possível entender os antecedentes do termo ideologia sob duas formas, a que podemos denominar “formal” e a que podemos chamar “substancial”. A análise formal é a que engloba quem usa o mesmo termo e, assim, no caso em questão, todos que os que usam o termo ideologia estariam no interior desse processo analítico, pois há uma semelhança formal, que é o uso da palavra, mesmo com significados distintos. A análise substancial é aquela que não engloba quem usa o termo ideologia, mas sim aqueles que atribuem significados e conteúdos a esta palavra que são definidos a priori pelo analista. Assim, podemos dizer que a análise formal do termo ideologia remete para o estudo dos autores que o usaram, independente do seu significado e a análise substancial realiza o processo analítico daquilo que, a priori, o pesquisador definiu como ideologia.

Podemos exemplificar o uso da análise formal a partir daqueles pesquisadores que fazem uma arqueologia da utilização do termo ideologia e que poderia englobar Desttut De Tracy, Napoleão, Marx, Mannheim, Korsch, Althusser, Gramsci e diversos outros1. Claro que apesar de haver semelhança formal, que é o uso do termo ideologia, o significado varia enormemente. Para Destutt De Tracy, a ideologia seria a “ciência das ideias”, enquanto que, para Gramsci, seria uma “visão de mundo”. Podemos encontrar diversos outros significados em diversos outros autores.

A análise substancial, por sua vez, pode ser exemplificada por algum autor que ao invés de analisar o uso do termo, centra sua seleção em um determinado significado atribuído a priori ao mesmo, tal como “falsa consciência”. Nesse caso, se poderia utilizar um conjunto de autores que discutiram formas de falsa consciência sem usar o termo ideologia, o que permitiria incluir Bacon (1979), que usa o termo idola, Proudhon (Bancal, 1984), que usa o termo ideomania, até autores mais recentes que podem usar qualquer outra palavra (imaginário, representações, etc.) que ele considera uma forma de falsa consciência ou mesmo ideologia nesse sentido, tal como Marx (MARX e ENGELS, 2002), Korsch (1977), Althusser (1989), entre outros. Sem dúvida, se a definição a priori de ideologia for outra, então há uma alteração nos autores analisados. Se for “visão de mundo”, então é possível discutir autores que não usaram o termo ideologia mas trabalharam tal ideia. Assim, seria possível incluir Gramsci e Lênin que usam ideologia, contrariamente a Marx, como “visão de mundo” (LÖWY, 1987) e autores que usam “visão de mundo”, tal como Weber e sua ideia de Weltanschauung (LÖWY, 1987) sem utilizar o termo ideologia.

É também possível mesclar as duas formas de análise. Esse é o caso quando aborda tanto o uso do termo em questão quanto outras abordagens a partir de determinada concepção a priori do analista. É o caso de tentar abordar o termo ou elementos de um determinado significado em diversos autores e concepções. Assim, por exemplo, é possível abordar a dialética a partir do surgimento do termo na filosofia antiga e sua evolução que traz novos significados e ao mesmo tempo analisar as contribuições de autores que não usaram o termo, mas apontaram elementos presentes e semelhantes à concepção do autor que faz tal análise, como, por exemplo, Heráclito, que anuncia elementos da dialética hegeliana e marxista (VIANA, 2015). No entanto, há autores que fazem as duas formas de análise mesclada, ou mesmo coletâneas, sem ter consciência ou afirmar que está fazendo isto, tal como o exemplo de Kurt Lenk (1974) e sua coletânea sobre ideologia, na qual apresenta desde os iluministas e suas análises dos erros e preconceitos, passando por Marx até chegar aos positivistas e sociologia do conhecimento, o que não deixa de ser confuso2.

Contudo, devemos evitar o equívoco de pensar o termo ideologia em determinados autores a partir do significado que atribuímos e não do significado que ele mesmo atribuiu. Da mesma forma, o erro oposto também deve ser evitado, no sentido de não atribuir ao autor o uso da palavra ideologia se ele não a utilizou efetivamente. O primeiro equívoco é comum no caso de Durkheim e o segundo no caso de Max Weber. Muitos fazem a leitura de Durkheim como se ideologia fosse “falsa consciência”, sentido que alguns marxistas darão ao termo, o que não é exato no caso deste pensador, tal como mostraremos adiante. Da mesma forma, Max Weber não usou o termo ideologia e por isso usar tal termo ao discutir sua concepção é algo bastante equivocado (e mais ainda dependendo que se entende por tal expressão).

No nosso caso, a análise que efetivaremos é formal, ou seja, é o uso da noção de ideologia por Durkheim e não uma concepção de ideologia a priori que possuímos3. O que nos interessa aqui é o termo ideologia no pensamento de Durkheim e não o significado que julgamos mais adequado para este termo. Assim, evitamos os equívocos comuns, entre os quais atribuir a Durkheim um significado à noção de ideologia que não é o dele, por mais usual que seja ou por mais que estejamos convencidos de sua pertinência e o de procurar em sua obra o conteúdo que nós entendemos estar associado ao termo ideologia ao invés do que ele associou a esta noção. Obviamente que as bases para tal entendimento remetem à análise do discurso, pois o sentido das palavras, noções, conceitos, remetem ao contexto discursivo onde elas emergem (VIANA, 2009) e por isso qualquer análise rigorosa deve ter isso em mente e evitar assim atribuições de significado que são equivocadas.

No que se refere ao termo ideologia e seu significado no discurso de Durkheim, podemos dizer que o pensador antecedente mais profundo, no sentido substancial, foi Francis Bacon, com sua concepção dos idola. No sentido formal do termo ideologia, os antecedentes de Durkheim foram Destutt de Tracy e Marx. Desde Bacon até Marx, ou seja, do século 16 ao século 19, diversas concepções (no sentido substancial e no formal, sendo que este último apenas a partir do século 19) existiram4. Quando Durkheim utiliza a palavra, ele faz um uso peculiar e que remonta algumas concepções, embora suas fontes inspiradoras mais importantes tenham sido Francis Bacon e Augusto Comte5.

Durkheim não elaborou uma definição exaustiva de ideologia. Ele nem sequer a definiu, bem como não deu uma grande importância a este termo no conjunto de sua obra e concepção. Ele, por conseguinte, não usou o termo ideologia como parte de sua produção científica, não elaborou um conceito ou construto de ideologia. Nesse sentido, podemos colocar que se trata de uma noção e não de um conceito, um esboço que não foi desenvolvido6. Nesse sentido, a noção é um intermediário entre as palavras comuns, a linguagem simples, e as palavras complexas, a linguagem complexa, expressa principalmente pelo saber complexo, tal como a ciência e a filosofia.

A noção de ideologia em Durkheim tem o problema de sua indefinição explícita. Ou seja, ao não definir o termo ideologia, Durkheim elaborou uma noção implícita. Caso tivesse definido, obviamente, seria uma noção explícita. Isso é relativamente comum na produção científica, embora tenha variações de acordo com o pensador, o filósofo ou o cientista em questão. Marx, por exemplo, produziu diversos conceitos implícitos, o que deu margem a inúmeras interpretações e reflexões, bem como definições distintas. Embora os conceitos explícitos dele também tenham sofrido a mesma sorte. Durkheim também não escapa disso e a noção de ideologia se coloca nesse caso. Mas como descobrir o significado de um conceito implícito? Ou, como é o caso aqui analisado, uma noção implícita? Já que o termo não foi definido, então o seu significado não foi explicitado e a única forma de descobri-lo é apelando para o uso e o contexto significativo do mesmo. Assim, o nosso procedimento é analisar o uso que Durkheim forneceu à noção de ideologia e o seu contexto significativo, ou seja, sua inserção num contexto marcado por diversos outros termos com seus significados e sua relação com eles, que constituem um campo linguístico (lexical e semântico).

Nesse sentido, a análise do discurso torna-se uma ferramenta importante para realizar a reconstituição do significado da noção de ideologia no pensamento de Durkheim. A análise do discurso, sem dúvida, possui diversas tendências (BRANDÃO, 1997) e não poderemos explicitá-las aqui. Por isso nos limitamos tão somente a apresentar os elementos básicos da análise do discurso que utilizaremos para nossa análise do significado da noção de ideologia em Durkheim, derivados de uma de suas tendências (VIANA, 2009). Para tal análise, destacamos o uso do procedimento metodológico de analisar o contexto social, cultural e discursivo, com foco neste último, pois este é o que nos permite descobrir o significado da noção. O contexto social remete ao conjunto das relações sociais que são condições de possibilidade de um determinado discurso. O contexto cultural, intimamente ligado ao social, também é fundamental, principalmente para entender as fontes de inspiração, as ideologias vigentes, etc. Por sua vez, o contexto discursivo tem importância fundamental, pois não isola um trecho ou texto da obra do autor ou mesmo uma obra ou período, pois tenta inserir sua produção no conjunto e destacando suas preocupações fundamentais, a evolução intelectual do autor7, o significado preciso dos termos utilizados, etc. (VIANA, 2009). Sem dúvida, devido à questão de espaço, aprofundaremos a questão do contexto discursivo e somente faremos algumas referências ao contexto social e cultural, mas que estarão presentes no processo analítico e explicativo, mesmo que implicitamente.


Catálogo: files -> journals
journals -> South Park e o Cristianismo: relações inter e hipertextuais. Scarabelot, Leandro 1 Resumo
journals -> Fabrizia Borges Duarte
journals -> Beleza pura: uma abordagem histórica e socioantropológica das representaçÕes do corpo e beleza no brasil
journals -> Clariane Ramos Lôbo- nutricionista pela Universidade Paulista (2012)
journals -> Ensinar e aprender na Educação a Distância: um estudo exploratório na perspectiva das práticas tutoriais Resumo
journals -> Rosa: as representações de Gênero na composição de Pixinguinha1
journals -> Cabral, Elisandra Barbosa.² Resumo
journals -> A construção da narrativa transmídia: Apropriação de contos de fadas na série televisiva Once Upon a Time
journals -> AvaliaçÃo do falso-açafrão na qualidade de sementes de milho zea Mays L

Baixar 87.71 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal