A mulher no fim do mundo



Baixar 1.34 Mb.
Página8/37
Encontro20.06.2021
Tamanho1.34 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   37
2.4. A FIGURA “ELZA SOARES”

Na condição de homem, cresci ao lado de mulheres inspiradoras que sempre me induziram ao olhar admirador da grandeza feminina. Como realizador, e diante do cenário social atual brasileiro – não só ao que tange ao machismo e racismo, mas em sua consequente invisibilidade política e cultural –, busquei esse privilégio acadêmico que me é concedido para promover um discurso de diversidade, resistência e identificação. É a forma mais justa que encontrei quando um retorno à sociedade me é requisitado pela Graduação.

Na construção da personagem Benedita, uma referência era evidente: Elza Soares. Não somente pelo seu álbum A Mulher do Fim do Mundo, de 2015 – quase homônimo a este projeto de curta-metragem –, mas principalmente pela história de vida da cantora. A sua imagem me surgiu como uma proposta de representatividade do feminino: de Elza, através de Benedita, procurei reverenciar o poder do feminino em toda a história milenar da humanidade.

Assim, alguns elementos pessoais da cantora me inspiraram no tracejar da personalidade e background da personagem Benedita. Para isso, destaquei elementos resgatados em entrevistas, letras de música, fatos marcantes da história de vida, análises e críticas artísticas e comentários que significassem o que a figura de Elza Soares representa a terceiros (sejam estes, mulheres, negros, admiradores, colegas de profissão, jornalistas…).

A pescaria que acompanha Benedita durante todo o curta-metragem, por exemplo, vem da relação de Elza Soares com o mar. A cantora por diversas vezes expôs seu vínculo afetivo com o oceano. À revista Época, em entrevista às jornalistas Graziela Salomão e Luciana Borges, no dia oito de março de 2016, Elza revelou que, para ela, “ficar olhando essa imensidão do oceano cura a alma da gente. Cura até febre”2. Surge, então, a ideia de reduto que o mar representa para Benedita, que, como em um ritual religioso, se põe perante o oceano, de olhos fechados.

A escolha do nome da personagem protagonista surge de uma canção presente no álbum A Mulher do Fim do Mundo, já citado aqui como grande influência na criação do roteiro deste projeto. A própria Elza revelou, na entrevista à revista Época de março de 2016, considerar a letra de Benedita como uma das mais fortes do disco, “porque é muito intensa e fala de tudo que está relacionado à mulher”. Elza disse ainda que a história de Benedita é algo que faz parte de sua negritude. Vale lembrar que Benedito é nome de santo católico, negro, comumente conhecido como ‘O Africano’ ou ‘O Negro’, e sua devoção virou símbolo de resistência no período da escravidão. No Brasil, através do sincretismo religioso, São Benedito é considerado o rei dos pretos velhos, entidades de terreiros de umbanda.

A fé, por sinal, também é elemento resgatado de Elza Soares e presente em Benedita. Nas suas falas, é possível perceber que a cantora é uma pessoa religiosa, que dedica seu tempo na manifestação e preservação de sua fé. Benedita, por sua vez, veste sua fé, literalmente, em suas contas, turbante e roupas. A personagem, recorrentemente, também demonstra sua fé com gestos, como o sinal da Santa Cruz.

Como se dedica a uma reverência, e não somente uma homenagem, era fundamental trazer na narrativa uma característica tão peculiar à carreira e que tanto nos diz sobre a figura de Elza Soares: resiliência. A cantora viveu altos e baixos durante os anos, alternando momentos de amplo reconhecimento – inclusive internacional –, e instantes de ostracismo. Em qualquer circunstância, Elza jamais perdeu a força e a ternura, sempre tocantes e inspiradoras.

Agora, após o seu álbum do fim do mundo, ela renasce, no seu auge, como símbolo imortal de luta e resistência. Foi preciso ir, literalmente, até o fim do mundo para descobrir que Deus é mulher: a mulher que nela habita e que em outras convoca. E nessa ponte entre seus dois últimos álbuns [A Mulher do Fim do Mundo e Deus é Mulher (2018)] em que consiste o arco dramático de Benedita, protagonista do curta-metragem.

O fato do fim do mundo ser tratado de uma forma quase que idílica, traz consigo as várias interpretações possíveis sobre esse fim. Abre a perspectiva de que precisamos ruir nossos mundos interiores – estruturados com nossas convicções, gostos, prazeres, vícios, comportamentos, etc. – para, no fim, encontrar a paz divina e própria. Assim, é como se Benedita precisasse caminhar pelo árido fim do mundo, contorná-lo, para, então, encontrar-se com Deus e consigo mesma – sendo isto, uma coisa só.






Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   37


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal