A mulher no fim do mundo


A COMUNICAÇÃO APOCALÍPTICA



Baixar 246.19 Kb.
Página7/37
Encontro20.06.2021
Tamanho246.19 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   37
2.3. A COMUNICAÇÃO APOCALÍPTICA

Na construção do roteiro de A Mulher No Fim Do Mundo, busquei elementos da comunicação, estudados ao longo da graduação, que se manifestassem na narrativa. Por apresentar um cenário pós-apocalíptico, que tanto me desperta o interesse, busquei, através da criação das personagens Benedita e Lua, construir a ideia do surgimento de uma nova humanidade.

A noção de que uma nova espécie humana se desenvolveria neste “novo mundo” é muito ligada à forma com que essa nova espécie se comunicaria. Isso porque, desde o século XIX, a comunicação ganhou papel de destaque nas sociedades ocidentais e se tornou um dos pilares do racionalismo e intelectualismo humano. Portanto, meu desafio consiste em imaginar e propor como seria a comunicação humana nesse contexto onde não só há a ausência de regimentos morais, éticos ou legais, como também há uma ruptura na forma de se comunicar – aqui, causado e potencializado pela mudez da personagem Lua. A busca por esta proposta, todavia, passa antes pelo tipo de entendimento acerca da comunicação em que me debrucei.

O filósofo tcheco radicado no Brasil, Vilém Flusser (1920-1991) já alertava sobre o papel da comunicação na ideia de uma identidade humana. Em seu livro "O mundo codificado" (2007), Flusser aponta, no capítulo "O que é comunicação", a afirmação de que "a comunicação humana é um processo artificial" (p. 89), diferenciando do processo natural dos animais – como o miado dos gatos, ou o latido dos cachorros. O fato de ser artificial, entretanto não significa que não seja este um processo naturalizado. De acordo com Flusser, "após aprendermos um código, tendemos a esquecer a sua artificialidade. [...] Os códigos (e os símbolos que os constituem) tornam-se uma espécie de segunda natureza" (FLUSSER, 2007, p.90, parênteses no original).

O teor “artificial” da comunicação humana citado consiste no seu uso de artifícios, técnicas e tecnologias sejam estes desde a cotidiana linguagem verbal (ou gestual, utilizada nos diálogos entre Benedita e Lua), às modernas ferramentas e a inserção de novos símbolos (os emojis), ou até mesmo as pinturas rupestres, que narravam a rotina do homem pré-histórico. De todas as formas, têm-se símbolos sendo sintetizados em códigos, que por sua vez, constituem o eixo do fazer comunicacional.

Em sua tese apresentada para obtenção do título de Doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, intitulada “Admirável comunicação nova: um estudo sobre a comunicação nas distopias literária” (2011), Carolina Dantas de Figueredo revela que “a crença nas tecnologias da comunicação como redentoras da humanidade é herdeira do esclarecimento, ou antes do pensamento esclarecido sobre a comunicação no qual estas tecnologias nos manteriam afastados da barbárie” (p.75). Isso aponta para o grau de relevância atrelado à comunicação, percebido desde os filósofos do Iluminismo, e que corroboraram para o desenvolvimento e a consolidação do campo de estudo comunicacional e o surgimento de diversas escolas e, por conseguinte, do retorno que as propostas e teorias impactaram a sociedade.

A partir desse entendimento indissociável entre a humanidade e comunicação – e a condição artificial desta –, inicia-se a formulação do que aqui é trazido como comunicação apocalíptica. Ao analisarmos a historicidade dos fatos ao que compete à compreensão acerca da comunicação e seus efeitos, principalmente com o mass media, nota-se que a existência humana foi condicionada pelo maquinário comunicacional. A utopia da tecnologia, criada e massivamente propagada desde a Revolução Industrial, de que as máquinas possibilitariam uma vida livre e prolongada aos seres humanos, deu lugar a uma lógica distópica que evidencia um controle da técnica sobre nós.

O objetivo da comunicação humana é nos fazer esquecer desse contexto insignificante em que nos encontramos – completamente sozinhos e 'incomunicáveis –, ou seja, é nos fazer esquecer desse mundo em que ocupamos uma cela solitária e em que somos condenados à morte – o mundo da 'natureza'. (FLUSSER, 2007, p. 90, travessões no original)


Essa lógica foi usada como uma premissa elementar na hora de uma construção da comunicação que envolve as personagens Benedita e Lua: um hibridismo entre o animalesco e o humano, no que diz respeito à comunicação exercida e às suas novas técnicas empregadas. Eis, assim, a proposta de comunicação apocalíptica envolvida no curta-metragem.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   37


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal