A mulher no fim do mundo



Baixar 1.34 Mb.
Página11/37
Encontro20.06.2021
Tamanho1.34 Mb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   37
3.2. DE SECO PARA LUA

A personagem Seco sempre foi motivo de inquietação para o restante da equipe e terceiros e de euforia para mim. Sempre que contava ou lia o roteiro para alguém, ouvia uma versão diferente do que a personagem significava. Um sonho, uma memória, uma alucinação, a personificação do medo, e até mesmo a representação infantilizada de Benedita foram percepções obtidas por quem conhecia Seco. De fato, a personagem é central para o entendimento do universo que busquei criar na construção do roteiro de A Mulher No Fim Do Mundo.

A inspiração veio da personagem Baleia, da obra literária Vidas Secas, escrita por Graciliano Ramos em 1938. O livro marcou minha vida. A forma árida que aquela família vivia, em contraste com a ternura de seus relacionamentos, era, para mim, o cerne da construção de um universo idílico. A base desse universo residia no fato do mais humano dos personagens ser um animal – a cadela Baleia. Assim como Benedita bebe da fonte de Sinha Vitória – outra personagem do romance –, principalmente pelo jeito forte e sonhador, Seco é a plenitude do que Baleia poderia significar. Se, em Vidas Secas Baleia é uma cadela que simboliza a humanização daquela família e daquele enredo, em A Mulher No Fim Do Mundo ela atinge sua forma humana através de Seco. Que, por sua vez, personifica em sua mudez e em seu jeito franzino e enrustido, a delicadeza e o animalesco de Baleia – que, mesmo sem as palavras, é a personagem que melhor se comunica.

Essa fantasia em torno de Seco era proposital e fruto do caráter idílico que resgatei e procurei transmitir – não somente na personagem, mas na trama, como um todo, dando a ideia de que o fim do mundo poderia ser algo de todos (real), algo peculiar de um indivíduo (devaneio, alucinação), ou o casamento entre os dois fatores. Seco se torna fio condutor do entendimento geral para todas as possibilidades criadas no filme. Não só ao que tange seu próprio passado, mas também em relação à Benedita e ao contexto em que são ambientados.

A dificuldade em achar um ator mirim que tivesse experiência atuando para câmeras e se encaixasse no perfil físico da personagem se tornou uma barreira intransponível para nós. Após realizarmos testes de elenco e constatarmos a inviabilidade das opções, partimos para uma mudança crucial no filme: a personagem Seco deixaria de ser um menino e seria uma menina.

A mudança passou por condições claras: não poderia haver qualquer tipo de perda na personagem – tanto em seu perfil psicológico, misbehaviour e seu background, mas principalmente na sua importância e representatividade no filme. Ficou entendido, após algumas reuniões com Ana do Carmo, que a personagem só iria engrandecer e potencializar o discurso tratado no filme. Pegamos as dificuldades e as transformamos em oportunidades para um novo direcionamento, que nos possibilitou uma compreensão melhor do que estávamos dispostos a lapidar. Portanto, não fora uma mera troca de personagens, mas sim uma guinada no curso da história que iríamos escrever, viver e compartilhar.

Primeiro por ser mais uma personagem feminina, segundo pela relação que poderia se desenvolver entre a personagem e Benedita. Agora, além de um laço maternal, passamos a trabalhar com a relação de mulher para mulher, onde Benedita transmite ensinamentos culturais sobre o ser mulher e o ser negra para a criança. A partir disso, criei Lua: a substituta de Seco.

A escolha do nome foi rápida e sugestiva: além de ser comum encontrar meninas e mulheres que atendam por esse nome – seja por batismo ou por alcunha –, a palavra que designa o satélite natural da Terra simboliza não só a relação da personagem com Benedita, mas também o fato de sua impossibilidade de sair ao sol, somente às noites.





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   37


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal