A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação Raul Max Lucas da Costa I


O alcoólico anônimo: do poder disciplinar à biopolítica



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O alcoólico anônimo: do poder disciplinar à biopolítica

Ao  longo  do  século  XX,  assistimos  à  passagem  da  lógica  disciplinar  cujo  modelo 

institucional era o da fábrica para uma gestão do poder que tem como referência a 

empresa. Deleuze (1992) nomeia essa fase de Sociedade de Controle. A expansão 

do modelo empresarial para outras instituições (escolas, igrejas) e a sua plasticidade 

terão suas repercussões na produção de subjetividade. 

Essa passagem reflete também a mudança de paradigma da sociedade de produção 

para a de consumo. No modelo fabril, a produção é a grande meta e a preocupação 

disciplinar se estende da fábrica para outras instituições sociais. Porém, com o avanço 

do capitalismo financeiro e do crédito, nas últimas décadas do século XX estabeleceu-

-se o consumo como objetivo social. Agora o modelo é o da empresa, cujo princípio é 

o da flexibilidade de seu funcionamento e do investimento endógeno (Safatle, 2008). 

Em Foucault (2008) a passagem do poder disciplinar para o poder sobre a vida das 

populações é nomeada como biopolítica. Uma de suas premissas é a introdução da 

terminologia e da lógica econômica na governamentalidade populacional (taxas de 

natalidade  e  mortalidade,  a  situação  de  bem-estar,  a  qualidade  de  vida,  o  capital 

humano). Além dessa abordagem econômica da vida populacional, temos no con-

texto biopolítico uma economização da subjetividade. Aqui, uma reflexão importante 

a se fazer é sobre os efeitos subjetivos quando o sujeito se torna o próprio capital 

foco  de  investimentos,  pois  tal  situação  aponta  para  uma  mudança  do  paradigma 

clássico revelado por Marx (2006) de produção da mais-valia que pressupõe o capi-

talista detentor do capital e o proletário explorado.




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A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação

 Em seus estudos sobre a vertente neoliberal estadunidense, Foucault (2008) situa 

um momento decisivo do debate entre seus defensores: a questão do trabalho. Dife-

rentemente da teoria econômica clássica calcada na tríade renda, terra e trabalho, os 

arautos neoliberais a partir da teoria do capital humano da Escola de Chicago passa-

ram a estudar o trabalho como uma prática que deve ser racionalizada e calculada. 

Uma  mudança  de  paradigma  introduzida  seria  a  de  medir  o  trabalhador  não  pela 

força de trabalho que ele oferta no mercado, mas pelo critério “capital-competência”.

Em suma, nesta perspectiva o sujeito seria seu próprio capital que consiste em “tudo 

o  que  pode  ser  […]  uma  fonte  de  renda  futura”,  ou  ainda,  “o  conjunto  de  todos 

os fatores físicos e psicológicos que tornam uma pessoa capaz de ganhar este ou 

aquele salário” (Foucault, 2008, p. 308). O efeito disso é que não só não haveria 

uma diferença entre o sujeito e o seu capital. Temos uma relação indissociável entre 

trabalhador e a máquina, entendendo-se a máquina não em sua conotação exterior 

e alienante, mas em sua acepção positiva, produtiva, no caso em questão, de fluxos 

de renda.

Será a partir desses elementos que surge uma releitura da noção clássica de Homo 

Oeconomicus,  termo  que  fazia  referência  às  trocas  comerciais  entre  o  sujeito  e 

seus parceiros, para uma concepção de um funcionamento empresarial de si. Nas 

palavras de Foucault: “O homo oeconomicus é um empresário, e um empresário de 

si mesmo. […] sendo ele próprio seu capital, sendo para si mesmo seu produtor, 

sendo para si mesmo sua fonte de renda” (Foucault, 2008, p. 311). É possível per-

ceber com esta noção que o projeto neoliberal ultrapassa a economia e se estabe-

lece como uma racionalidade. A própria perspectiva de sociedade passa a ser de um 

conjunto de pequenas unidades empresariais, sem falar nas instituições-empresas.

Uma problemática que se constitui a partir de então é a preocupação com os inves-

timentos  de  melhoria  e  aperfeiçoamento  do  capital  humano  inato  e  adquirido. 

O investimento na criação dos filhos, por exemplo, ocorre a partir do bom capital 

humano dos pais. Ao mesmo tempo, as políticas governamentais nas esferas edu-

cacionais, sociais e culturais se estruturam tendo como foco a qualidade de vida, 

o  bem-estar,  os  quantitativos  de  natalidade  e  mortalidade.  Podemos  conjecturar 

sobre a situação daqueles que não se adaptam a este projeto, todos aqueles defi-

citários em seu capital humano. Mais adiante, Foucault (2008) situa a Psicologia, 

especificamente  a  comportamental,  como  uma  técnica  coerente  com  a  racionali-

dade neoliberal ao utilizar a lógica econômica no estudo do comportamento e na 

adaptação do sujeito à “realidade”. 

No contexto biopolítico, a droga passa a ser tratada como objeto de mercado ascen-

dente, sobretudo na década de 1970. Enquanto uma mercadoria de alta demanda, 

a  intervenção  governamental  funciona  basicamente  na  tentativa  de  regular  um 

mercado que foi absorvido pela criminalidade. Vale ressaltar que o criminoso tam-

bém segue a lógica empresarial ao se apresentar como um investidor de alto risco 

(Foucault, 2008). 

Considerando a correlação entre a emergência do alcoolismo no contexto da socie-

dade disciplinar e a ascensão da toxicomania no modelo de sociedade de controle

nos chama a atenção que a preocupação com o alcoolismo ultrapasse essa passa-

gem hegemônica do poder disciplinar para a biopolítica. Neste contexto biopolítico, 

o adicto representa justamente o avesso de uma microempresa de si: não trabalha, 

não produz e não participa dos vínculos de sociabilidade. Se no âmbito fabril o alco-

olista representava o avesso do trabalhador sadio e produtivo, no contexto biopo-

lítico e neoliberal a preocupação com o alcoolismo segue como oposição ao sujeito 

empresarial (Dardot, & Laval, 2016). O contraste passar a ser entre o empreendedor 



versus o falido. A consequência lógica de um sujeito microempresa de si é o temor 

pela falência de seu empreendimento pessoal. 




Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 70 (3): 21-34

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Costa R. M. L. e Danziato L.

Nesse  contexto  de  capitalização  das  subjetividades,  o  projeto  de  AA  ultrapassa  a 

esfera terapêutica se se constitui como uma nova moral de vida calcada na abnegação 

aos bens materiais e ao consumismo representados pela figura alcoolista egocêntrico. 

Em seu testemunho pessoal, Bill Wilson ressalta que a recuperação do alcoolismo 

deve vir acompanhada pela anulação de si. O anonimato, nesse sentido, consiste no 

paulatino processo de esvaziamento egoico através dos 12 passos por considerar que 

o alcoólico “na ativa” se retrai dos vínculos sociais constituindo-se como centro de si 

mesmo. O tratamento do alcoolismo consiste então em uma mudança radical de posi-

ção subjetiva: do consumista egocêntrico ao abstinente anônimo. Campos (2010), 

em sua pesquisa antropológica, situa um exercício psicológico entre os membros de 

AA que consiste em diminuir o “bêbado seco”, termo utilizado para o alcoolista que 

apesar de abstêmio continua a agir enquanto alcoolista ativo, e fazer prevalecer o 

alcoólico em recuperação.

Podemos perceber um ponto de convergência entre as narrativas terapêuticas e a 

hegemonia do sujeito empresarial: ambas funcionam a partir da noção de indivíduo 

enquanto total detentor e responsável por suas ações. Entre os AA, a noção de indi-

vidualidade se apresenta já na execução dos primeiros passos de seu programa espi-

ritual, pois estes estabelecem um reconhecimento de si como uma pessoa doente

ou  ainda,  como  portador  de  uma  doença  incurável.  Tal  fato  leva  à  conclusão  de 

uma posição de impotência perante o álcool e um consequente reconhecimento da 

necessidade de um auxílio exterior de âmbito espiritual. Assim, a individualidade se 

apresenta como uma construção identitária concomitante à produção uma alteridade 

fraterna representada pelo grupo e pela construção de uma alteridade espiritual com 

a noção de “Poder Superior”.

Em suma, a doutrina de AA individualiza o alcoolismo e o ratifica como doença. Essa 

personalização é expressa pelo relato em narrativa de que todo alcoólico anônimo 

deve produzir em seu processo de recuperação. Entre o antes e depois da sobriedade 

cada membro de AA conta sua história a partir de referências e termos próprios da 

Irmandade. Daí se constitui seu paradoxo: doença individual, narrativa padronizada.




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