A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação Raul Max Lucas da Costa I



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A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação

disso, consiste em sua própria experiência quando passou a acreditar em um poder 

maior à sua maneira.

Enquanto uma “narrativa terapêutica” (Illouz, 2011, p. 37), ou seja, um tipo de dis-

cursividade  performática na  qual  o  narrador  apresenta uma  história  de  superação 

pessoal a partir de um contraste entre um antes (momento crítico) e depois (êxito), 

através de um método inovador, a doutrina pragmática e espiritual dos AA introduz 

no campo das terapêuticas do alcoolismo, a noção de uma doença individual. O enun-

ciado “sou alcoólico” é uma novidade no campo das representatividades em torno 

do consumo alcoólico. Tal narrativa tornar-se terapêutica justamente por autorizar 

que uma experiência pessoal, registrada em livros e demais relatos escritos, possa 

servir de modelo de superação para aqueles em semelhante situação de sofrimento. 

No caso dos AA, é notória que as experiências de seus fundadores, sobretudo de Bill 

Wilson, sirvam ainda hoje como referências para os iniciados na Irmandade. 

 Até as primeiras décadas do século XX o termo alcoolismo era corrente entre os 

higienistas e seus aliados, mas não era um termo utilizado pela população em geral 

(Costa, 2015). Em relatos autobiográficos como o do escritor Lima Barreto não há 

menção  aos  termos  alcoolismo,  alcoólatra  ou  alcoolista.  Para  expressar  seu  sofri-

mento que o levou a internação asilar o autor literário dizia ter “problemas com a 

bebida” (Costa, 2008). Em outro escrito literário, na novela de Jorge Amado A Morte 



e a Morte de Quincas Berro D’Agua (2008) não há menção ao termo alcoolismo ou 

alcoólatra, e sim a termos como cachaceiro. Mesmo em outro campo artístico como 

o cinema, um filme emblemático como O Ébrio de 1947 (Abreu, 1947), também não 

refere à categoria médica.

Considerar a si mesmo como um doente alcoólico revela um processo de psicologiza-

ção na própria concepção de alcoolismo. Apesar de a doutrina de AA ressaltar a “aler-

gia alcoólica” como uma questão somática, a doença alcoolismo é de cada um, daí o 

tratamento produzir basicamente uma dupla alteridade: com o outro semelhante e 

com o Outro do Poder Superior. 

No  Brasil,  os  primeiros  registros  sobre  AA  datam  entre  os  anos  de  1945  e  1947, 

quando membros dos AA de origem estadunidense começaram a viajar a trabalho e 

a residir no Rio de Janeiro. Esse foi o caso de Lynn Gondale, Don Newton, Herbert L. 

e Douglas Claders que morando no país buscaram materiais impressos e informações 

junto da Secretaria-Geral nos EUA sobre outros membros de AA registrados e tam-

bém residentes no Rio de Janeiro. Herbert L. destacou-se ao fundar o primeiro grupo 

oficial de AA no Brasil (AA, 2011).

Na década seguinte é possível observar nos manuais de Higiene Mental uma modi-

ficação no conceito de alcoolismo. O que antes era tratado em termos como “dege-

nerescência” passou a ser concebido como uma questão “psicodinâmica”. O Manual 

de Higiene Mental, de Yahn (1953), listava os fatores necessários para a abordagem 

do  adoecer  mental:  o  psíquico,  o  social,  a  infância,  o  desenvolvimento  individual. 

Se  constituía,  portanto,  uma  nova  concepção  higienista  do  alcoolismo  enfatizando 

sua dimensão de doença psíquica e individual deixando a ideia de doença social em 

segundo plano:

Até há 10 anos atrás não se tinha uma concepção exata médico-científica do problema 

do alcoolismo. Os conceitos vigentes provinham de pesquisa em minoria da população 

alcoolista,  constituída  pelos  alcoólatras  em  período  avançado  da  doença.  Era  então  o 

alcoolista considerado um marginal ou delinqüente, tanto pela justiça, como pela polícia 

ou pelas sociedades beneficentes. [...] A psicologia do homem obrigado a destruir-se por 

auto-intoxicação alcoólica estava a cargo do sacerdote, das instituições sociais beneficen-

tes e penais, dos proibicionistas ou do demônio. [...] só ultimamente médicos, sociólogos 

e especialmente, psicanalistas e psicólogos chegaram à conclusão de ser o alcoolista um 

doente, e como tal passaram a tratá-lo (Szerling, 1953, p. 276).




Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 70 (3): 21-34

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Costa R. M. L. e Danziato L.

Para essa Medicina Higienista brasileira dos anos 1950, a “toxicomania alcoólica” era 

consequência das influências socioculturais nas quais o consumo alcoólico era per-

missivo nas comemorações sociais, na publicidade das cervejas dirigida às crianças, 

na ausência da educação familiar e no contexto de penúria e esgotamento físico dos 

trabalhadores. Como proposta terapêutica institucional para a política de saúde bra-

sileira, Szerling (1953) recomendava a experiência estadunidense da Universidade 

de Yale conhecida como “Plano Yale” que consistia em um centro de pesquisa e trata-

mento do alcoolismo. Tais intervenções institucionais privilegiavam o tratamento em 

conjunto de diversas especialidades como a Medicina, a Psicologia e a Antropologia. 

A partir de suas pesquisas o Centro de Yale construiu um plano de intervenção com-

binando psicanálise, psicoterapia de grupo, tratamento medicamentoso e o enga-

jamento nos “Alcoolistas Anônimos”. O funcionamento dos AA é descrito como uma 

proposta inovadora:

[...] só podem fazer parte dela, os alcoolistas que conseguiram tornar-se abstêmios, ou 

que se esforçam por consegui-lo. Sua base é a seguinte: o antigo alcoolista encontra-se 

em melhores condições que qualquer pessoa para ajudar a outro a se tornar abstêmio; o 

melhor meio de mantê-lo será fazer que ele ajude outros indivíduos a se livrarem do álcool 

(Szerling, 1953, p. 292).

Vale ressaltar que a referência à psicanálise em questão é à sua vertente estaduni-

dense conhecida como Psicologia do Ego. Esta ampliação da etiologia do alcoolismo 

na  perspectiva  da  Higiene  Mental  reflete  a  própria  mudança  de  perspectiva  das 

concepções higienistas a partir da apropriação dos saberes psi hegemônicos nas 

décadas de 1950 e 1960 (Costa, 2014). Permaneciam, contudo, o ideal preventivo 

e a gestão dos corpos a partir da lógica do poder disciplinar. O propósito dos AA de 

recuperação do alcoolismo através da manutenção metódica da sobriedade consiste 

também em recuperar a imagem do homem trabalhador, produtivo e chefe de famí-

lia (Matos, 2000). 




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