A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação Raul Max Lucas da Costa I



Baixar 138.91 Kb.
Pdf preview
Página6/10
Encontro08.10.2019
Tamanho138.91 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10
Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 70 (3): 21-34

27

Costa R. M. L. e Danziato L.

Tal distinção em torno do consumo alcoólico não se limitava às fronteiras da sexua-

ção e estabelecia também uma segregação social e econômica entre ricos e pobres 

evidenciada na espacialidade e nas bebidas consumidas (Costa, 2015). 

No  contexto  dos  EUA,  Burns  (2011)  destaca  a  atuação  decisiva  dos  movimentos 

femininos e religiosos na promulgação e na derrocada do ato constitucional Volstead

que  ficou  popularmente  conhecida  como  Dry Law  (Lei  Seca).  As  mulheres  passa-

ram a se manifestar publicamente contra a embriaguez de seus maridos nos bares 

saloons. Foi a união de várias entidades femininas e cristãs como a Anti-Saloon 



League que pressionou líderes religiosos e políticos a promulgar uma emenda cons-

titucional que proibisse a venda, a produção e a comercialização de bebidas alcoóli-

cas. De início, a proibição ocorreu no estado de Ohio e consequentemente em outros 

estados dos EUA. Somente em 1919 o Senador Volstead decreta que a Lei Seca terá 

âmbito nacional.

A proibição não inibiu o consumo de bebidas alcoólicas. O contrabando, a produção 

caseira e a venda ilegal prosseguiram a ponto de mobilizar a força policial e a fisca-

lização governamental. Um efeito da Lei Seca foi a aproximação das mulheres aos 

espaços de consumo ilegal de bebidas. Assim, homens, mulheres e minorias sociais 

compartilhavam do mesmo espaço em função do consumo etílico. Além desse fato 

social,  a  militância  de  mulheres  como  a  de  Pauline  Sabin,  socialite e membro do 

Partido Republicano, foi decisiva no final da década de 1920 para o fim da Lei Seca 

(Burns, 2011).

Podemos situar historicamente os AA como herdeiros direto dessa patologização e 

criminalização do álcool. A proibição longe de cumprir com sua meta de acabar com o 

alcoolismo, agravou sua problemática social, elevando o número de mortes e de into-

xicados por bebidas de fabricação autônoma. Tais bebidas possuíam um alto teor de 

metano, fator determinante de problemas de saúde. Ao mesmo tempo, a criminali-

dade se apropriou do produto ilegal para a criação do tráfico de bebidas que culminou 

no fortalecimento dos grupos mafiosos e de sua consequente violência (Escohotado, 

2002). Obviamente, a crise financeira de 1929 foi um dos fatores decisivos na revo-

gação da lei que proibia a produção e comercialização de bebidas alcoólicas. O fim 

da proibição acompanhou o anseio de retorno de crescimento econômico após a 

crise de superprodução. Vale ressaltar neste contexto, que um dos fundadores mais 

representativos da Irmandade, Bill Wilson, trabalhava como um investidor da Bolsa 

de Valores. 

 Outra especificidade do AA com relação aos tratamentos para alcoolistas reside em 

uma proposta terapêutica diferenciada da médica e da religiosa. A posição agnóstica 

da Irmandade é um de seus princípios fundamentais. Tal postura advém sobretudo 

da experiência espiritual de Bill Wilson e de sua apropriação da perspectiva religiosa 

de William James, filósofo e psicólogo norte-americano que foi um dos pioneiros do 

pragmatismo, corrente filosófica defensora da prática e utilidade dos conceitos filo-

sóficos. O movimento pragmatista surge no final do século XIX como uma oposição 

aos grandes sistemas filosóficos idealistas. Um dos preceitos chave do pragmatismo 

é que se algo funciona, então é verdadeiro (James, 2006).

Na literatura de AA (livros, livretos, folhetos e revistas), o tema do despertar espiri-

tual é constantemente explorado através de relatos pessoais de membros da Irman-

dade  (AA,  2011).  Bill  Wilson  remete  a  origem  dessa  proposta  espiritualista  à  sua 

leitura do livro de James intitulado Variantes da Experiência Religiosa. Nesta obra, o 

autor apresenta que a concepção de Deus é particular para cada um e que sua per-

tinência se deve à sua funcionalidade prática afastando-se de qualquer concepção 

teísta ontológica e dogmática. Partindo dessa leitura, Bill Wilson construiu para si a 

premissa de que se Deus funciona na manutenção da abstinência alcoólica. A prova 


1   2   3   4   5   6   7   8   9   10


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal