A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação Raul Max Lucas da Costa I


Os Alcoólicos Anônimos (AA) e a reinvenção do alcoolismo



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Os Alcoólicos Anônimos (AA) e a reinvenção do alcoolismo

A emergência dos AA pode ser compreendida a partir de dois acontecimentos corre-

lacionados. O primeiro consiste no surgimento do alcoolismo como “doença social” 

em meados do século XIX, momento de intensa mercantilização da força de traba-

lho através da formação do proletariado. O segundo, as investidas governamentais, 

médicas e jurídicas ocorridas nas décadas iniciais do século XX que culminaram no 

higienismo e na Lei Seca norte-americana (Carneiro, 2010).

O  alcoolismo  foi  categorizado  como  doença  pelo  médico  sueco  Magnus  Huss  em 

1847. O autor define a “doença alcoólica” como uma intoxicação crônica dos órgãos 

vitais. Anteriormente à sua categorização, havia a categoria “dipsomania” para refe-

rir a compulsão por beber caracterizada por sede constante. Magnus Huss não hesita 

em associar o alcoolismo com uma doença típica dos trabalhadores pobres consumi-

dores de bebidas destiladas (Santos, 2004). 

No contexto dessa categorização já era corrente uma distinção e uma segregação 

social a partir do tipo de bebidas consumidas. Carneiro (2010) destaca os quadros 

do pintor William Hogart Gin Lane (Travessa do Gim) e Beer Street (Rua da Cerveja), 

de 1751, como uma das formas de representação da distinção social a partir do tipo 

de bebida consumida. No quadro Gin Lane, os bebedores de gim (bebida destilada) 

foram retratados como pobres, desnutridos e desordeiros em uma espacialidade pre-

cária e caótica. Já na Beer Street, os consumidores de cerveja foram representados 

de forma asseada, amistosa e inclinados à produção artística. 

Durante os séculos XVIII e XIX era comum a crença de que as bebidas fermenta-

das como o vinho e a cerveja possuíam qualidades terapêuticas em detrimento das 

bebidas destiladas. Tal perspectiva favoreceu a concepção do alcoolismo como con-

sequência do consumo de destilados e que sua terapêutica seria possível pela via de 

ingestão dos produtos fermentados (Costa, 2015; Santos, 2004).

Nas primeiras décadas do século XX, o movimento higienista atuante em países como 

os EUA, Brasil e Alemanha tinha como uma de suas principais metas a erradicação 

do alcoolismo considerado como um mal social justamente por corroer o corpo dos 

trabalhadores. Nessa época, as campanhas antialcoólicas alcançaram grande adesão 

por parte das elites sociais. No Brasil, foram a principal forma de intervenção higie-

nista no espaço urbano (Costa, 2007). 

As práticas higienistas de profilaxia das doenças mentais tinham como referencial 

teórico a eugenia que buscava promover o aperfeiçoamento da raça humana através 

da ciência. Nos EUA, berço do higienismo e da política proibitiva, fora a união entre 

o higienismo-eugenismo e a impactante atuação das ligas femininas cristãs antialco-

ólicas que, através de seus representantes políticos, instituíram a Lei Volstead, mais 

conhecida como Lei Seca entre os anos de 1920 a 1933. O legado da proibição é bas-

tante conhecido: aumento da criminalidade, da violência e das mortes por alcoolismo 

(Burns, 2011; Escohotado, 2000). 

Será justamente na década de 1930 que ocorrerá uma progressiva organização de 

uma nova irmandade de ex-bebedores na cidade norte-americana de Akron, Ohio. 




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A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação

O propósito do novo movimento era ofertar um tratamento do alcoolismo por uma via 

diferente da Medicina e da religião. Os AA surgem a partir da parceria entre Bill Wil-

son e Robert Smith. O primeiro foi um investidor da bolsa de valores de Wall Street 

e o segundo médico-cirurgião. 

Ambos já  haviam  participado  dos  grupos  Oxford, movimento  religioso  pioneiro  na 

abordagem do alcoolismo a partir de um método de sete passos (AA, 2009). Em 1935, 

Bill Wilson e Robert Smith junto de um pequeno grupo de ex-bebedores estabelece-

ram a Fundação do Alcoólico que, pouco tempo depois, se tornou AA. O motivo do 

anonimato se dava por uma razão prática: era necessário ocultar a adicção alcoólica 

para poder trabalhar diante a possibilidade de demissão ou mesmo de não admissão. 

Bill Wilson justificou o anonimato com as seguintes palavras:

É importante permanecermos anônimos porque somos, atualmente, muito poucos para 

atender o enorme número de pedidos pessoais que possa resultar desta publicação. 

Por sermos, na maioria, profissionais liberais ou homens de negócios, não poderíamos, 

em tal eventualidade, continuar a nos dedicar a nossas ocupações. Gostaríamos que 

todos  compreendessem  que  nosso  trabalho  como  alcoólicos  não  é  nosso  ganha-pão 

(AA, 2009, p. 11).

Somente em 1939 o nome Alcoólicos Anônimos se torna oficial com a publicação do 

livro intitulado com o nome da Irmandade. Conhecido também como o “grande livro” 

(por conta do tamanho) ou “livro azul” (devido à cor da capa), a obra apresenta de 

forma sistemática a filosofia, o método dos 12 passos, o conceito de alcoolismo, além 

da proposta de funcionamento das reuniões. Uma marca de distinção do programa 

terapêutico  dos  AA  foi  sua  declarada  apropriação  de  preceitos  cristãos,  filosóficos 

pragmáticos e psicológicos. Foi baseado no pragmatismo de William James que Bill 

Wilson estabeleceu o despertar espiritual como condição fundamental para o engaja-

mento e a prática dos 12 passos. Seguindo essa via pragmatista, os relatos pessoais 

de ex-bebedores, assim como o aval de profissionais e líderes religiosos servem como 

um reconhecimento e autorização do programa de AA. 

A formação discursiva de AA tem como fundamento sua definição de alcoolismo e 

por consequência de alcoólico anônimo. O alcoolismo é concebido como uma doença 

orgânica  alérgica,  fato  que  impossibilitaria  algumas  pessoas  de  consumir  bebidas 

alcoólicas. Esta concepção empírica do alcoolismo como uma alergia corporal é con-

sequência a experiência pessoal dos fundadores e dos membros pioneiros da Irman-

dade. Nas palavras de Bill Wilson, “Tudo ao meu redor era areia movediça. Eu havia 

encontrado um adversário imbatível. Eu fora dominado. O álcool era meu senhor” 

(AA, 2010, p. 44). Por consequência, o alcoólico será concebido como o portador de 

uma doença incurável, cuja solução possível consiste na abstinência alcoólica através 

de um método prático e espiritual. O propósito então maior da Irmandade é a manu-

tenção diária da sobriedade. 

Desde sua origem, os AA se apresentam como um grupo eminentemente masculino. 

É nesse sentido que o livro azul abrange capítulos dedicados a orientações a familia-

res, aos empregadores e às mulheres. Em síntese, o perfil do alcoolista anônimo é de 

um homem, profissional liberal, cristão e chefe de família. Apesar do reconhecimento 

de  haver  mulheres  alcoolistas,  estas  não  figuram  como  protagonistas  nos  relatos 

publicados na literatura de AA. Nas primeiras décadas do século XX, o consumo de 

bebidas alcoólicas se constituiu como uma prática eminentemente masculina (Matos, 

2000), dada a estreita relação entre trabalho braçal e consumo de bebidas alcoólicas 

no cotidiano urbano (Chalhoub, 2001). 

A distinção social em torno do consumo alcoólico até as primeiras décadas do século 

XX era demarcada pelo uso das bebidas destiladas, como a cachaça, pelos homens e 

as bebidas licorosas pelas mulheres. O consumo de aguardente era considerado uma 

prática de desafio masculino, dada a dificuldade de ingestão alcoólica de destilados. 


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