A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação Raul Max Lucas da Costa I



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A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação

Nomeamos o fundamento dessa moral de vida como dietética da abstinência, fazendo 

aqui um apelo ao conceito de dietética isolado por Foucault (1998) em seu estudo 

sobre o uso dos prazeres entre os gregos antigos. A dietética consistia no conjunto 

de práticas de regime (exercícios físicos, práticas alimentares, sono) norteadas por 

recomendações  médicas  e  filosóficas  que  visavam  a  moderação  e  a  evitação  dos 

excessos. Ressaltamos que, entre os AA, tais práticas visam ultrapassar a concepção 

de terapêutica e se constituir como um modo de vida. 

No tocante aos AA, entendemos que seu conjunto doutrinário funciona como refe-

rência para a construção de uma moral de vida em torno da sobriedade alcoólica, 

daí a ideia de uma dietética da abstinência. A posição subjetiva do alcoólico anônimo 

implica em uma disciplina abstinente na qual o beber, nada apoiado em uma moral 

de vida disciplinar, se apresenta como uma produção de subjetividade. 

Nosso objetivo neste artigo, portanto, é analisar genealogicamente a formação dis-

cursiva dos AA, considerando suas consequências nos modos de subjetivação produ-

zidos a partir da prática discursiva da categoria nosológica alcoolismo. Tal empreen-

dimento é necessário para uma melhor apreciação da reconstrução subjetiva entre 

os AA, tema de nossa tese de doutorado

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.

Situamos, neste sentido, a permanência dos AA em um campo de discursividade 



mais  amplo  onde  a  busca  por  um  saber-fazer  e  pelas  referências  identitárias  são 

constantes. Nos tempos atuais, a profusão de manuais de autoajuda, dos grupos de 

ajuda mútua e de tecnologias comportamentais como o coaching e a Programação 

Neurolinguística (PNL) compõem um conjunto de práticas pedagógicas baseadas no 

“como fazer” e no pragmatismo funcional. Nos chama a atenção a difusão comercial 

desse tipo de “saber-fazer” enquanto promessa de êxito empresarial e na própria 

constituição do sujeito como empresário de si (Dardot, & Laval, 2016). 

Método

Enquanto  procedimento  metodológico,  realizamos  uma  pesquisa  bibliográfica 

sobre a constituição histórica dos AA através de um estudo sistemático de sua 

literatura oficial. Esta é composta por livros, livretos, revistas e informativos, cujo 

acesso  só  é  possível  direto  com  a  Irmandade,  já  que  não  são  comercializados 

por outro meio. Além dessa literatura oficial, consultamos fontes históricas como 

manuais psiquiátricos, revistas e jornais de época que fazem referência aos AA. As 

produções artísticas (filmes, escritos autobiográficos e literários) que fazem apelo 

à embriaguez e ao alcoolismo serão utilizados como recursos importantes para a 

devida contextualização histórica e genealógica, condição necessária para a nossa 

apreciação discursiva.

Como referencial teórico para a análise dos dados, buscamos na genealogia foucaul-

tiana  uma  ferramenta  analítica  crucial  para  a  historicização  das  problemáticas  do 

presente e das relações de poder-produção. Enquanto autor referenciado em diver-

sos campos do conhecimento, Foucault contribuiu não só com conceitos filosóficos, 

mas com um método de pesquisa que convida à leitura crítica de diversos elementos 

produzidos em sua dada época histórica.

Partindo da noção foucaultiana do poder enquanto produção (Foucault, 1998), uma 

questão  precedente  ao  surgimento  dos  AA  consiste  em  interrogar  a  relação  da 

emergência histórica da categoria médica o alcoolismo com a produção subjetiva 

Este artigo compõe a tese intitulada “Vivendo Sóbrio”: a produção discursiva do alcoólico anônimo.




Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 70 (3): 21-34

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Costa R. M. L. e Danziato L.

do trabalhador promovida pelas instituições e práticas disciplinares. Em seguida, 

situaremos a emergência da discursividade dos AA no momento de reestruturação 

do capitalismo pós-crise de 1929 e revogação da Dry Law (Lei Seca) a partir dos 

preceitos da economia neoliberal.






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