A invenção dos Alcoólicos Anônimos: alcoolismo e subjetivação Raul Max Lucas da Costa I



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Palabras clave: Alcohólicos Anónimos; Alcoholismo; Subjetivación; Historia y Genealogía.

Introdução

A emergência histórica dos Alcoólicos Anônimos (AA) na década de 1930 como um 

grupo de ajuda mútua, com o propósito de tratar o beber excessivo através da absti-

nência, inaugurou uma discursividade peculiar sobre o alcoolismo diferente até então 

das intervenções médicas e governamentais vigentes baseadas no higienismo e na 

segregação. Não à toa a categoria nosológica “alcoolismo” teve sua origem no con-

texto  da  Revolução  Industrial  do  século  XIX,  momento  de  excessiva  preocupação 

com a figura do trabalhador (Carneiro, 2010; Santos, 2004).

Uma  das  especificidades  dos  AA  consiste  no  recurso  a  um  programa  terapêutico 

espiritual composto por 12 passos, 12 tradições e 12 conceitos (Alcoólicos Anônimos 

[AA], 2010) e na construção identitária da figura do “alcoólico anônimo” (Campos, 

2010). Este conjunto doutrinário serve como alicerce tanto para os princípios práticos 

necessários para uma vida sóbria (AA, 2005) como também direciona o funciona-

mento institucional dos pequenos grupos que constituem a Irmandade.

Tal conjunto de preceitos normatizam a terapêutica espiritual, a estrutura institucio-

nal e o funcionamento administrativo da Irmandade em qualquer lugar do mundo. 

Dessa forma, cada grupo de AA se insere em um modelo universalizante de funciona-

mento que doa um aspecto unitário e coeso à instituição. Assim, a unidade aliada ao 

serviço (a organização do trabalho institucional) e a recuperação como fundamento 

constituem o chamado legado de AA.

Apesar do surgimento e do crescimento das terapêuticas psicofarmacológicas e psi-

cológicas a partir da segunda metade do século XX, a proposta terapêutica dos AA 

se mantém inalterada, assim como sua concepção de alcoolismo. Em suma, o alco-



Arquivos Brasileiros de Psicologia; Rio de Janeiro, 70 (3): 21-34

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Costa R. M. L. e Danziato L.

olismo é uma doença alérgica e seu tratamento respalda-se em um despertar espi-

ritual e do vínculo fraterno entre um alcoólico e outro (AA, 2010). Tais fundamentos 

doutrinários estabelecem que os membros de AA não podem se envolver em con-

trovérsias públicas, ou ainda, opinar sobre pesquisas científicas e propostas políticas 

para o alcoolismo. O objetivo maior da Irmandade é a prática da sobriedade alcoó-

lica a partir da aplicabilidade de seu conjunto doutrinário na reconstrução subjetiva 

de cada alcoólico anônimo (Campos, 2010). A vinculação fraterna dos AA pode ser 

entendida como uma resistência comunitária em tempos de individualismo e declínio 

das práticas solidárias (Mota, 2004).

O lugar da Irmandade no laço social é marcado pelo paradoxo de perspectivas entre 

seu ideal de sobriedade (“evite o primeiro gole”) e a prédica de temperança da atual 

política governamental (“beba com moderação”). O anonimato de seus membros 

e a intencional abstenção dos AA sobre questões políticas, religiosas e científicas 

doam à instituição um caráter peculiar: seu funcionamento reservado e tradicio-

nal convive com seu privilégio e prestígio na cultura brasileira. O estabelecimento 

dos AA no Brasil, ao longo dos 70 anos de sua presença no país se reflete hoje em 

sua grande recepção, circulação social e institucional. A Irmandade está presente 

em  todos  os  estados  brasileiros  com  um  número  significativo  de  grupos:  5.099, 

conforme as informações de seu site oficial (AA, 2017). Sua recomendação como 

terapêutica para o alcoolismo é constante pelos profissionais de saúde atuantes nas 

políticas  públicas  (Diehl,  Cordeiro,  &  Laranjeiras,  2010).  A  sigla  AA  é  facilmente 

reconhecida na espacialidade urbana, mesmo para aqueles que desconhecem seu 

funcionamento e propósitos. 

Contudo, mesmo com seu estabelecimento como prática alternativa ou “grupo de 

apoio” no campo da saúde coletiva, surgem hoje questionamentos sobre sua efi-

cácia.  Em  pesquisa  realizada  pela  Universidade  Federal  de  São  Paulo  (Unifesp), 

constatou-se que a recuperação do alcoolismo é maior para aqueles que não estão 

engajados em AA, estejam ou não em tratamento médico e psicológico (Terra, 

Barros, Stein, Figueira, Athayde, & Silveira, 2011). O relato de ex-membros, como 

o de Bahia (2008), visa desconstruir os fundamentos doutrinários e a história oficial 

dos AA, denunciando sua ineficácia enquanto tratamento do alcoolismo, justamente 

por se distanciar das contribuições atuais do campo da saúde, sobretudo da Medi-

cina e da Psicologia.

Cresce também, no âmbito internacional, o número de relatos nas redes sociais de 

pessoas que abandonaram os AA devido à dificuldade de praticar a crença em um 

Poder Superior, condição necessária para o cumprimento do programa espiritual dos 

12 passos (Leaving AA, 2017). O documentário The 13th Step (Richardson, 2015) 

apresenta uma gama de depoimentos de pessoas, sobretudo mulheres, que sofre-

ram abuso ou assédio sexual durante as reuniões de grupos de AA estadunidenses. 

O filme foi produzido por militantes feministas, ex-membros de AA, médicos e ins-

tituições alternativas à proposta dos AA, considerada hegemônica no campo do tra-

tamento do alcoolismo. Essa investida nas redes sociais e na mídia documental se 

articula e conflui para um significativo movimento anti-AA nos EUA. 

Para além do desempenho terapêutico dos AA, nos interessa a subjetivação implí-

cita no processo de engajamento institucional, já evidenciada no campo de pesquisa 

das ciências sociais (Campos, 2010; Mota, 2004). Uma leitura atenta da “literatura 

de AA” (livros, revistas, folhetos) revela a intenção de produção (ou reconstrução) 

subjetiva através de um saber-fazer pragmático que tem o alcoolismo como baliza 

identificatória. A identificação entre os membros, o ideal de abstinência alcoólica 

e a construção de um saber-fazer espiritualista, produzem uma concepção singu-

lar sobre a categoria alcoólico anônimo. Tal fato evidencia que a proposta dos AA 

ultrapassa uma simples técnica terapêutica e se configura na verdade como uma 

moral de vida.


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