A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada



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Samuel F. B. Morse: His Letters and Journals, v. 2, p. 65.
c  Os  operadores  logo  aprenderam  a  distinguir  entre  os  espaços  de  diferentes  durações  —  entre  as  letras  e  entre  as
palavras —, de modo que o código Morse empregava na verdade quatro sinais.
d Uma tradução possível seria: “s vc csg lr sto/ pd enct um bm empg de slr lt!”.


2. A persistência da palavra
(Não existe dicionário na mente)
Odisseu  chorou  quando  ouviu  o  poeta  cantar  seus  grandes  feitos  no  exterior  porque,  uma  vez  cantados,
estes deixavam de ser apenas seus. Passavam a pertencer a quem quer que ouvisse a canção.
Ward Just, 20041
 
“Tente imaginar”, propôs Walter J. Ong, padre jesuíta, filósofo e historiador cultural, “uma
cultura  na  qual  ninguém  nunca  ‘deu  uma  olhada’  em  nada.”
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  Para  subtrair  as  tecnologias  da
informação internalizadas no decorrer de dois milênios, é necessário um salto da imaginação
de  volta  a  um  passado  esquecido.  A  tecnologia  que  mais  temos  dificuldade  em  apagar  da
mente é a primeira de todas elas: a escrita. Esta surge na própria aurora da história, como deve
ser, pois a história tem início com a escrita. A anterioridade do passado depende disso.
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São  necessários  alguns  milhares  de  anos  para  que  o  mapeamento  da  linguagem  num
sistema  de  símbolos  se  torne  natural  e,  depois  disso,  não  há  como  voltar  a  um  estado  de
ingenuidade. Foi esquecida a época em que a nossa própria consciência das palavras vinha de
vê-las. “Numa cultura fundamentalmente oral”, como destacou Ong,
a  expressão  “dar  uma  olhada”  numa  informação  é  uma  expressão  vazia:  ela  não  teria  nenhum  significado
concebível.  Sem  a  escrita,  as  palavras  em  si  não  têm  presença  visual,  mesmo  quando  os  objetos  que  representam  são
visuais. Elas são sons. Pode-se “chamá-las” de volta à memória — “rememorá-las”. Mas não existe nenhum lugar onde
se possa “dar uma olhada” nelas. As palavras não têm foco nem deixam vestígio.
 
Nos anos 1960 e 1970, Ong declarou que a era eletrônica seria uma nova era da oralidade
— mas de uma “oralidade secundária”, com a palavra dita ampliada e difundida como nunca
antes,  mas  sempre  no  contexto  da  alfabetização:  vozes  ouvidas  contra  um  fundo  de
comunicação  impressa  onipresente.  A  primeira  era  da  oralidade  tinha  durado  mais  tempo.
Correspondeu  a  quase  toda  a  existência  da  espécie  humana,  tendo  sido  a  escrita  um
desenvolvimento  muito  posterior,  e  a  alfabetização  universalizada,  um  ponto  ínfimo  nessa
trajetória.  Como  Marshall  McLuhan,  com  quem  foi  muitas  vezes  comparado  (“o  outro
eminente profeta católico-eletrônico”,
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 afirmou um desdenhoso Frank Kermode), Ong teve a
infelicidade  de  expor  suas  interpretações  visionárias  de  uma  nova  era  pouco  antes  de  ela  ter
início. As novas mídias pareciam ser o rádio, o telefone e a televisão. Mas estes eram apenas
fracos raios de luz que despontavam no céu noturno, uma indicação da fonte de luminosidade
que ainda estava além do horizonte. Qualquer que fosse a interpretação de Ong a respeito do
ciberespaço — se seria fundamentalmente oral ou alfabético —, ele sem dúvida reconheceria
sua qualidade transformadora: não apenas uma revitalização de formas mais antigas, mas algo
inteiramente  novo.  Ele  pode  ter  pressentido  a  descontinuidade  que  viria  a  seguir,  algo


semelhante ao surgimento da própria alfabetização. Poucos compreendiam melhor do que Ong
a profundidade daquela descontinuidade.
Quando ele começou seus estudos, “literatura oral” era uma expressão muito usada. Trata-
se  de  um  oximoro  envolto  no  anacronismo  —  as  palavras  implicam  uma  abordagem
demasiadamente inconsciente do passado por meio do presente. A literatura oral era, em geral,
tratada como uma variação da escrita. Isso, de acordo com Ong, era “um pouco como pensar
nos cavalos como automóveis sem rodas”.
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Pode-se,  é  claro,  tentar  fazê-lo.  Imagine  escrever  um  tratado  sobre  cavalos  (para  pessoas  que  nunca  viram  tal
animal) que comece não com o conceito de “cavalo”, e sim com o de “automóvel”, valendo-se da vivência direta dos
leitores  com  os  automóveis.  O  texto  se  dedicaria  então  a  discursar  a  respeito  dos  cavalos  por  meio  de  constantes
referências a eles como “automóveis sem rodas”, explicando a leitores fortemente automobilizados todos os pontos que
os diferenciam. […] Em vez de rodas, os automóveis sem rodas têm unhas do pé maiores, chamadas cascos; em vez de
faróis,  olhos;  em  vez  de  um  revestimento  de  cera,  algo  chamado  crina;  em  vez  de  usar  a  gasolina  como  combustível,
usam o feno, e assim por diante. No fim, os cavalos seriam apenas aquilo que não são.
 
No  que  diz  respeito  à  compreensão  do  passado  pré-alfabetização,  nós,  indivíduos
contemporâneos, somos irreversivelmente automobilizados. A palavra escrita é o mecanismo
por meio do qual sabemos aquilo que sabemos. Ela organiza nosso pensamento. Podemos ter o
desejo de compreender a ascensão da escrita tanto histórica como logicamente, mas história e
lógica são elas mesmas produtos do pensamento alfabetizado.
Por ser uma tecnologia, a escrita exige premeditação e o domínio de uma certa arte. Já a
linguagem não é uma tecnologia, independentemente de seu grau de desenvolvimento e de sua
eficácia.  Não  dá  para  enxergá-la  como  algo  distinto  da  consciência  —  ela  é  aquilo  que  a
consciência  produz.  “A  linguagem  guarda  em  relação  ao  conceito  da  consciência  a  mesma
relação  que  a  legislação  guarda  com  o  conceito  do  parlamento”,  afirma  Jonathan  Miller:
“trata-se de uma competência perpetuamente encarnada numa série de atos concretos.”
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 Mais
ou menos o mesmo pode ser dito a respeito da escrita — trata-se de um ato concreto — mas,
quando a palavra é representada no papel ou na pedra, assume uma existência separada como
artifício.  Ela  é  o  produto  de  ferramentas,  e  é  ela  própria  uma  ferramenta.  E,  como  muitas
tecnologias que se seguiram, imediatamente encontrou detratores.
Um improvável luddista foi também um dos primeiros beneficiados a longo prazo. Platão
(ecoando Sócrates, que não escrevia) alertou que tal tecnologia significava empobrecimento:
 
Pois  esta  invenção  vai  produzir  esquecimento  na  consciência  daqueles  que  aprenderem  a  usá-la,  porque  estes
deixarão de treinar a memória. Sua confiança na escrita, produzida por caracteres externos que não fazem parte deles,
vai desencorajar o uso de sua própria memória, contida dentro deles. Vocês inventaram um elixir não da memória, mas
da lembrança; e oferecem a seus pupilos a aparência da sabedoria, e não a sabedoria verdadeira.7

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