A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada



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adicionais para eliminar ambiguidades e corrigir erros. No entanto, era isso que a linguagem
dos tambores fazia. A redundância — ineficiente por definição — serve como antídoto para a
confusão.  Ela  proporciona  segundas  chances.  Toda  linguagem  natural  contém  algum  tipo  de
redundância. É por isso que as pessoas são capazes de compreender textos repletos de erros e
também  entender  conversas  num  ambiente  barulhento. A  redundância  natural  do  inglês  foi  a
inspiração  do  famoso  pôster  visto  no  metrô  de  Nova  York  nos  anos  1970  (e  do  poema  de
James Merrill):
 
if u cn rd ths
u cn gt a gd jb w hi pa!d
 
(“Este  contraencanto  pode  salvar-lhe  a  alma”,
23
  acrescenta  Merrill.)  Na  maior  parte  do
tempo,  a  redundância  na  linguagem  é  apenas  parte  do  segundo  plano.  Para  um  telegrafista,
trata-se  de  um  dispendioso  desperdício.  Para  um  percussionista  africano,  a  redundância  é
essencial.  Uma  outra  linguagem  especializada  nos  proporciona  uma  analogia  perfeita:  a
linguagem  das  comunicações  de  rádio  da  aviação.  Números  e  letras  compõem  boa  parte  das
informações  trocadas  entre  pilotos  e  controladores  do  tráfego  aéreo:  altitudes,  vetores,
números  de  identificação  das  aeronaves,  identificadores  de  pistas  de  trânsito  e  decolagem,
frequências de rádio. Trata-se de uma comunicação de importância fundamental, transmitida
por meio de um canal notoriamente ruidoso, e por isso um alfabeto especial é empregado para
minimizar a ambiguidade. Quando ditas, as letras B e V são fáceis de confundir; bravo e victor
são uma opção mais segura. M  e N  se  tornam mike  e november.  No  caso  dos  números, five  e


nine,  especialmente  dados  a  confusões,  são  falados  como fife  e niner. As  sílabas  adicionais
desempenham a mesma função que a verborragia adicional dos tambores falantes.
Depois  de  publicar  seu  livro,  John  Carrington  chegou  a  uma  forma  matemática  de
compreender  esse  aspecto.  Um  estudo  preparado  por  um  engenheiro  telefônico  dos
Laboratórios Bell, Ralph Hartley, continha até uma fórmula que parecia relevante: H = n log s,
sendo H a quantidade de informação, n o número de símbolos na mensagem, e s o número de
símbolos  disponíveis  nessa  linguagem.
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  O  colega  mais  jovem  de  Hartley,  Claude  Shannon,
seguiu  a  deixa,  e  um  de  seus  principais  projetos  passou  a  ser  uma  medição  precisa  da
redundância  na  língua  inglesa.  Os  símbolos  poderiam  ser  palavras,  fonemas,  ou  pontos  e
traços.  As  possibilidades  de  escolha  dentro  de  um  conjunto  de  símbolos  variavam  —  mil
palavras  ou  45  fonemas  ou  26  letras  ou  três  tipos  de  interrupção  num  circuito  elétrico.  A
fórmula  quantificava  um  fenômeno  relativamente  simples  (na  verdade,  considerado  simples
apenas  depois  de  ter  sido  percebido):  quanto  menor  a  quantidade  de  símbolos  disponíveis,
maior  o  número  de  símbolos  que  precisa  ser  transmitido  para  comunicar  uma  quantidade
determinada  de  informação.  Para  os  percussionistas  africanos,  as  mensagens  tinham  de  ter
cerca de oito vezes o comprimento de suas equivalentes faladas.
Hartley se esforçou bastante para justificar o uso que fez da palavra informação. “Em seu
emprego mais comum, informação é um termo muito elástico”, escreveu ele, “e primeiro será
necessário  prepará-lo  para  um  significado  mais  específico.”  Ele  propôs  que  pensássemos  na
informação  em  termos  “físicos”  —  palavra  empregada  por  ele  —,  e  não  em  termos
psicológicos.  Acabou  percebendo  que  as  complicações  se  multiplicavam.  De  maneira  um
pouco paradoxal, a complexidade emanava das camadas intermediárias de símbolos: letras do
alfabeto,  ou  pontos  e  traços,  que  eram  distintos  e,  portanto,  fáceis  de  contabilizar  por  si
mesmos.  Era  mais  difícil  medir  as  conexões  entre  esses  substitutos  e  a  camada  inferior:  a
própria  voz  humana.  Era  esse  fluxo  de  sons  repletos  de  significados  que  ainda  parecia  ser,
tanto  para  os  engenheiros  telefônicos  como  para  os  percussionistas  africanos,  a  verdadeira
forma  da  comunicação,  por  mais  que  o  som,  por  sua  vez,  servisse  como  um  código  para  o
conhecimento  ou  o  significado  subjacente.  Fosse  como  fosse,  Hartley  imaginou  que  um
engenheiro  deveria  ser  capaz  de  fazer  generalizações  a  partir  de  todos  os  casos  de
comunicação: a escrita e os códigos telegráficos, bem como a transmissão física do som por
meio de ondas eletromagnéticas percorrendo fios telefônicos ou atravessando o éter.
Ele  nada  sabia  a  respeito  dos  tambores,  claro.  E,  tão  logo  John  Carrington  começou  a
compreendê-los,  eles  começaram  a  desaparecer  da  cena  africana.  Carrington  notou  que  os
jovens  Lokele  praticavam  cada  vez  menos  a  percussão,  havia  meninos  em  idade  escolar  que
não sabiam nem mesmo seus próprios nomes na linguagem dos tambores.
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 Isso o entristeceu.
Ele tinha tornado os tambores falantes parte de sua própria vida. Em 1954, um visitante dos
Estados  Unidos  o  encontrou  administrando  uma  escola  missionária  no  posto  avançado


congolês de Yalemba.
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 Carrington ainda caminhava diariamente pela selva e, quando chegava
a  hora  do  almoço,  sua  mulher  o  convocava  com  um  recado  rápido.  Ela  batucava:  “Espírito
homem  branco  na  floresta  venha  venha  para  casa  de  tábuas  bem  alta  sobre  espírito  homem
branco na floresta. Mulher com inhames espera. Venha venha”.
Em  pouco  tempo,  surgiu  uma  geração  de  pessoas  para  quem  o  rumo  da  tecnologia  da
comunicação  saltou  diretamente  do  tambor  falante  para  o  celular,  pulando  os  estágios
intermediários.
a A viagem foi financiada pela Sociedade Defensora da Extinção do Comércio de Escravos e da Civilização da África,
com o objetivo de interferir na atividade dos traficantes de escravos.
b*“Uma  experiência  muito  breve,  no  entanto,  mostrou  a  superioridade  do  modo  alfabético”,  escreveu  ele
posteriormente,  “e  as  grandes  folhas  do  dicionário  numerado,  que  me  custaram  tanto  trabalho,  […]  foram  descartadas  e
substituídas pelo alfabético.” “The superiority of the alphabetic mode”. Samuel F. B. Morse, carta a Leonard D. Gale, em

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