A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada



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Talking Drums of Africa.
Para solucionar o enigma dos tambores, Carrington encontrou a chave num fato central a
respeito  dos  idiomas  africanos  mais  relevantes.  Eles  são  idiomas  tonais,  nos  quais  o
significado  é  determinado  tanto  pelas  variações  mais  agudas  ou  graves  da  entonação  como
pelas distinções entre as consoantes ou as vogais. Essa característica está ausente na maioria
das  línguas  indo-europeias,  que  limitam  a  tonalidade  a  usos  sintáticos:  para  distinguir,  por
exemplo, entre perguntas (“você está feliz  ”) e declarações (“você está feliz  ”). Para outros
idiomas, porém, dentre os quais os mais conhecidos são o mandarim e o cantonês, a tonalidade
tem um significado primário na distinção entre as palavras. O mesmo ocorre na maioria dos
idiomas africanos. Mesmo quando aprendiam a se comunicar nesses idiomas, os europeus em
geral negligenciavam a importância da tonalidade, pois não tinham experiência com esse tipo
de  característica.  Quando  traduziam  as  palavras  que  ouviam  para  o  alfabeto  latino,
descartavam totalmente a questão dos sons mais graves ou agudos. Na verdade, era como se
fossem cegos para esse detalhe.
Três palavras diferentes do idioma kele são transliteradas pelos europeus como lisaka. As
palavras se distinguem somente pela tonalidade de seus fonemas. Assim sendo, 
lisaka
 com três
sílabas  graves  é  uma  poça  d’água; 
lisa
ka
  com  a  última  sílaba  mais  aguda  (mas  não
necessariamente destacada) é uma promessa; e li
saka
 com as duas últimas sílabas agudas é um
veneno. Li
a
la
,  com  a  segunda  sílaba  aguda,  significa  noiva  e 
liala
,  com  as  três  sílabas  graves,
uma  fossa  de  lixo.  Na  transliteração,  as  palavras  parecem  ser  homônimas,  mas  não  são.
Quando  finalmente  se  deu  conta  disso,  Carrington  recordou:  “Devo  muitas  vezes  ter  sido
culpado de pedir a um menino que ‘remasse para um livro’ ou que ‘pescasse que o amigo dele
estava  chegando’”.
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  Aos  europeus  simplesmente  faltava  o  apuro  auditivo  para  captar  as
distinções. Carrington percebeu o quanto a confusão poderia se tornar cômica:
 
alambaka boili [– _ – – _ _ _ ] = ele vigiou a margem
alambaka boili [– – – – _ – _ ] = ele ferveu a sogra
 
Desde  o  final  do  século xix  os  linguistas  identificaram  o  fonema  como  a  menor  unidade
acústica  capaz  de  fazer  diferença  no  significado.  A  palavra  inglesa  chuck  compreende  três
fonemas: diferentes significados podem ser criados ao trocar ch por d, ou u por e, ou ck por m.
Trata-se  de  um  conceito  útil,  mas  imperfeito:  os  linguistas  se  surpreenderam  com  a
dificuldade enfrentada para se chegar a um acordo quanto ao inventário preciso dos fonemas
presentes no inglês ou em qualquer outro idioma (para o inglês, a maioria das estimativas fala
em  45  fonemas).  O  problema  é  que  um  fluxo  de  fala  representa  uma  continuidade;  um
linguista pode separá-lo, abstrata e arbitrariamente, em unidades distintas, mas o significado


dessas unidades varia de falante para falante e depende do contexto. A compreensão instintiva
da maioria dos falantes em relação aos fonemas também é parcial, afetada pelo conhecimento
do alfabeto escrito, que codifica a linguagem à sua própria maneira, às vezes arbitrária. Seja
como for, os idiomas tonais, com sua variável adicional, contêm muito mais fonemas do que
pareceu inicialmente aos linguistas inexperientes.
Como os idiomas falados na África elevaram a tonalidade a um papel crucial, a linguagem
dos tambores foi obrigada a dar um difícil passo adiante. Ela empregava a tonalidade, apenas a
tonalidade.  Tratava-se  de  uma  linguagem  que  continha  um  único  par  de  fonemas,  uma
linguagem  composta  inteiramente  por  contornos  entoacionais.  Os  tambores  variavam  quanto
ao material e à técnica de construção. Alguns eram de fenda, tubos de padauk, ocos, com uma
incisão longa e estreita que produz uma extremidade de som agudo e uma extremidade de som
mais  grave;  outros  eram  cobertos  por  pelica,  e  eram  usados  aos  pares.  O  único  detalhe
importante  era  que  os  tambores  precisavam  produzir  duas  notas  distintas,  com  um  intervalo
entre elas aproximadamente equivalente a uma terça maior.
Dessa  forma,  ao  fazer  a  correspondência  da  linguagem  falada  com  a  linguagem  dos
tambores,  a  informação  se  perdia. A  fala  dos  tambores  se  tornava  uma  forma  deficitária  de
conversa. Para cada vilarejo e cada tribo, a linguagem dos tambores começava com a palavra
falada, que se desfazia das consoantes e vogais. Tratava-se de uma perda substancial. O fluxo
da informação restante se via repleto de ambiguidade. Um golpe duplo na extremidade aguda
do tambor [_ _] era equivalente ao padrão tonal da palavra da língua kele para pai, sango, mas,
naturalmente,  podia  também  corresponder  a songe,  a  Lua; koko,  a  ave  doméstica; fele,  uma
espécie  de  peixe;  ou  qualquer  outra  palavra  formada  por  dois  tons  agudos.  Até  o  limitado
dicionário  dos  missionários  em  Yakusu  continha  130  palavras  desse  tipo.
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  Ao  reduzir  as
palavras  faladas,  com  toda  a  sua  riqueza  sônica,  a  um  código  tão  minimalista,  como  os
tambores poderiam distingui-las umas das outras? A resposta estava em parte na ênfase e no
ritmo, mas essas características não podiam compensar a falta de consoantes e vogais. Sendo
assim,  como  descobriu  Carrington,  um  percussionista  invariavelmente  acrescentava  “uma
pequena frase” a cada palavra curta. Songe, a Lua, é referida como songe li tange la manga —
“a Lua vê a Terra de cima”. Koko, a ave doméstica, é referida como koko olongo la bokiokio
—  “a  ave  doméstica,  a  pequenina  que  diz  kiokio”.  Longe  de  serem  supérfluas,  as  batucadas
excedentes proporcionam o contexto. Cada palavra ambígua começa numa nuvem de possíveis
interpretações  alternativas,  mas  então  as  possibilidades  indesejadas  evaporam.  Isso  ocorre
abaixo do nível da consciência. Os ouvintes estão escutando apenas um staccato de batucadas
nos tambores, em tons mais graves e agudos, mas, na verdade, “escutam” também as vogais e
consoantes ausentes. É por isso que ouvem frases inteiras, e não palavras individuais. “Entre
os povos que nada sabem da escrita e da gramática, uma palavra em si mesma, recortada de
seu grupo sonoro, parece quase deixar de ser uma articulação inteligível”,
21
 relatou o capitão


Rattray.
As expressões recorrentes também fazem sua parte, usando sua redundância para vencer a
ambiguidade. A linguagem dos tambores é criativa, produzindo livremente neologismos para
as inovações vindas do norte: barcos a vapor, cigarros e o Deus cristão são três dos exemplos
destacados  por  Carrington.  Mas  os  percussionistas  começam  pelo  aprendizado  das  fórmulas
tradicionais fixas. Na verdade, as fórmulas dos percussionistas  africanos  às  vezes  preservam
palavras arcaicas que foram esquecidas na linguagem falada do cotidiano. Para os Yaunde, o
elefante é sempre “o ser grande e desajeitado”.
22
 A semelhança com as formas homéricas —
não apenas Zeus, mas Zeus, aquele que reúne as nuvens; não apenas o mar, mas o mar escuro
como o vinho — não é acidental. Numa cultura oral, a inspiração precisa atender primeiro à
clareza e à memória. As Musas são as filhas de Mnemósine.
 
 
Nem  o  idioma  kele  nem  o  inglês  tinham  na  época  palavras  para  dizer: disponibilize  bits

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