A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada



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Por todo o continente negro soam os tambores que nunca se calam:
a base de toda a música, o foco de cada dança;
os tambores falantes, a comunicação sem fios da selva desconhecida.
Irma Wassall, 19431
 
Ninguém falava de maneira simples e direta através dos tambores. Os percussionistas não
diziam “Volte para casa”, e sim:
 
Faça seus pés voltarem pelo caminho que vieram,
faça suas pernas voltarem pelo caminho que vieram,
plante seus pés e suas pernas logo abaixo
na vila que nos pertence.2
 
Eles não diziam apenas “cadáver”, preferiam elaborar: “que jaz de costas sobre montes de
terra”. Em vez de “Não tenha medo”, diziam: “Faça o coração descer da boca, tire o coração
da boca, obrigue-o a descer daí”. Os tambores geravam jorros de oratória. Isso não parecia ser
muito eficiente. Seria um caso de grandiloquência descontrolada? Ou outra coisa?
Durante  muito  tempo  os  europeus  presentes  na  África  subsaariana  não  souberam  a
resposta. Na verdade, eles nem sequer sabiam que os tambores transmitiam informações. Em
suas  próprias  culturas,  em  certos  casos  um  tambor  podia  ser  um  instrumento  de  sinalização,
bem  como  o  clarim  e  o  sino,  usados  para  transmitir  um  pequeno  conjunto  de  mensagens:
atacarrecuarir à igreja. Mas eles jamais poderiam imaginar que os tambores falassem. Em
1730,  Francis  Moore  navegou  rumo  ao  leste  pelo  rio  Gâmbia,  encontrando-o  navegável  até
quase  mil  quilômetros  acima,  admirando  pelo  caminho  as  belezas  do  país  e  curiosas
maravilhas  como  “ostras  que  cresciam  nas  árvores”  (mangues).
3
  Ele  não  era  um  grande
naturalista.  Estava  fazendo  um  reconhecimento  de  terreno  para  traficantes  de  escravos
ingleses  em  reinos  habitados  por,  aos  olhos  dele,  diferentes  raças  de  povos  de  cor  escura,
“como mundingoes, jolloiffs, pholeys, floops e portugueses”. Quando se deparou com homens
e  mulheres  que  carregavam  tambores,  feitos  de  madeira  entalhada  e  chegando  a  quase  um
metro  de  comprimento,  cuja  largura  se  estreitava  de  cima  para  baixo,  ele  destacou  que  as
mulheres dançavam agitadas ao som de sua música, e às vezes os tambores eram “tocados ao
ser  detectada  a  aproximação  de  um  inimigo”,  e  por  fim  que,  “em  certas  ocasiões  muito
extraordinárias”, os tambores invocavam a ajuda de cidades próximas. Mas isso foi tudo que
ele foi capaz de perceber.


Um  século  mais  tarde,  o  capitão  William Allen,  numa  expedição  ao  rio  Níger,
a
  fez  mais
uma descoberta, depois de prestar atenção ao comportamento de seu piloto camaronês, a quem
chamava  de  Glasgow.  Eles  estavam  na  cabine  do  barco  a  vapor  quando,  de  acordo  com  a
lembrança de Allen:
 
De repente, ele se mostrou completamente alheio, e assim permaneceu, concentrado no que estava ouvindo. Quando
foi chamada sua atenção, ele disse: “Você não ouve meu filho falar?”. Como não estávamos escutando nenhuma voz,
perguntamos  a  Glasgow  como  ele  sabia  daquilo.  Ele  respondeu:  “Tambor  me  falou,  me  diz  subir  no  convés”.  Isso
pareceu ser bastante singular.4
 
O ceticismo do capitão deu lugar ao assombro, à medida que Glasgow o convencia de que
cada pequena vila tinha essa “capacidade de correspondência musical”. Por mais que custasse
a  acreditar,  o  capitão  finalmente  aceitou  que  mensagens  detalhadas  de  muitas  frases  podiam
ser  transmitidas  à  distância  de  quilômetros.  “Muitas  vezes  ficamos  surpresos”,  escreveu  ele,
“ao perceber o quanto o som do trompete é bem compreendido em nossas evoluções militares;
mas  isso  fica  muito  aquém  do  resultado  obtido  por  aqueles  selvagens  incultos.”  Aquele
resultado era uma tecnologia muito desejada na Europa: comunicação de longa distância mais
rápida do que qualquer mensageiro, fosse a pé, fosse a cavalo. Cortando o ar parado da noite
sobre  um  rio,  o  bater  do  tambor  podia  chegar  a  uma  distância  de  aproximadamente  dez
quilômetros.  Transmitidas  de  vilarejo  em  vilarejo,  as  mensagens  podiam  percorrer  mais  de
150 quilômetros em questão de uma hora.
O anúncio de um nascimento em Bolenge, vilarejo do Congo Belga, dizia mais ou menos o
seguinte:
 

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