A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada


partícula,  cada  campo  de  força,  até  o  próprio  continuum  espaço-tempo”



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partícula,  cada  campo  de  força,  até  o  próprio  continuum  espaço-tempo”.
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  Essa  é  outra
maneira de considerar o paradoxo do observador: o fato de o resultado de um experimento ser
afetado, ou até determinado, quando este é observado. Além de estar observando, o observador
também  faz  perguntas  e  afirmações  que  por  fim  precisam  ser  expressas  em  bits  distintos.
“Aquilo  que  chamamos  de  realidade”,  escreveu  Wheeler,  timidamente,  “surge  em  última
análise  das  perguntas  no  formato  sim-ou-não  que  fazemos  a  nós  mesmos.”  Ele  acrescentou:
“Tudo  aquilo  que  é  físico  tem  uma  origem  informacional-teórica,  e  estamos  num  universo
participativo”. Todo o universo passa assim a ser visto como um computador — uma máquina
cósmica de processamento de informações.
Uma  chave  para  esse  enigma  é  um  tipo  de  relacionamento  que  não  tinha  lugar  na  física
clássica: o fenômeno conhecido como entrelaçamento quântico. Quando partículas ou sistemas


quânticos  estão  entrelaçados,  suas  propriedades  se  mantêm  correlacionadas  por  vastas
distâncias e longos períodos. Separados por anos-luz, eles partilham algo que é físico, mas não
apenas  físico.  Surgem  espantosos  paradoxos,  que  permanecem  insolúveis  até  que  alguém
compreenda como o entrelaçamento quântico codifica a informação, medida em bits ou no seu
equivalente quântico de nome cômico, os qubits. Quando fótons e elétrons e outras partículas
interagem entre si, o que estão fazendo, afinal? Trocando bits, transmitindo estados quânticos,
processando informação. As leis da física são os algoritmos. Cada estrela incandescente, cada
silenciosa  nebulosa,  cada  partícula  que  deixa  seu  rastro  fantasmagórico  numa  câmara  de
nuvens é um processador de informações. O universo computa seu próprio destino.
O  quanto  ele  computa? A  que  velocidade?  Qual  é  o  tamanho  de  sua  capacidade  total  de
processar  informações,  quanto  espaço  há  em  sua  memória?  Qual  é  o  elo  entre  energia  e
informação: qual é o custo energético de manipular um bit? São perguntas difíceis, mas não
tão místicas ou metafóricas quanto podem parecer. Físicos e teóricos quânticos da informação,
uma  nova  raça,  enfrentam-nas  juntos.  Eles  fazem  as  contas  e  produzem  respostas
experimentais.  (“A  contagem  total  de  bits  do  cosmos,  independentemente  de  como  seja
calculada, é igual a dez elevado a uma potência altíssima”,
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 de acordo com Wheeler. Segundo
Seth Lloyd: “Não mais que 10
120
 ops
b
 em 10
90
 bits”.
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) Eles contemplam com um novo olhar
os  mistérios  da  entropia  termodinâmica  e  aqueles  famosos  devoradores  de  informação,  os
buracos negros. “Amanhã”, declarou Wheeler, “teremos aprendido a compreender e expressar
toda a física nos termos da informação.”
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À medida que o papel desempenhado pela informação se expande para além dos limites da
capacidade humana, ela se torna excessiva. “É informação demais”, dizem as pessoas hoje em
dia.  Temos  fadiga  informacional,  ansiedade  informacional,  saturação  informacional.  Já
conhecemos  o  Demônio  da  Sobrecarga  de  Informações  e  seus  maléficos  filhotes,  o  vírus  de
computador, o sinal de ocupado, o link desativado e a apresentação em formato PowerPoint.
Tudo  isso  remonta  a  Shannon.  Foram  muitas  mudanças  em  muito  pouco  tempo.
Posteriormente, John Robinson Pierce (engenheiro dos Laboratórios Bell que cunhou o termo
transistor)  brincou:  “É  difícil  imaginar  como  era  o  mundo  antes  de  Shannon  mesmo  para
aqueles  que  o  habitavam.  É  difícil  recuperar  a  inocência,  a  ignorância  e  a  falta  de
compreensão”.
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Mas  o  passado  também  é  reexaminado  sob  essa  luz. No  princípio  era  o  verbo,  de  acordo
com  João.  Somos  a  espécie  que  batizou  a  si  mesma  de Homo  sapiens,  aquele  que  sabe  —  e
então, depois de refletir a respeito, corrigimos para Homo sapiens sapiens. A maior dádiva de
Prometeu à humanidade não foi o fogo, no fim das contas: “Também os números, a principal
entre  as  ciências,  fui  eu  que  inventei  para  eles,  e  a  combinação  das  letras,  mãe  criadora  das


artes das Musas, com a qual se torna possível reter tudo na memória”.
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  O  alfabeto  foi  uma
tecnologia fundadora da informação. O telefone, o aparelho de fax, a calculadora e, por fim, o
computador  são  apenas  as  mais  recentes  inovações  projetadas  para  armazenar,  manipular  e
transmitir  conhecimento.  Nossa  cultura  absorveu  um  vocabulário  funcional  dessas  úteis
invenções.  Falamos  em  comprimir  dados,  cientes  de  que  isso  é  bem  diferente  de  comprimir
um gás. Nossa parafernália inclui iPods e telas de plasma, nossas habilidades incluem o envio
de  mensagens  de  texto  e  a  capacidade  de  fazer  buscas  no  Google,  temos  autonomia,  somos
especialistas, e por isso vemos a informação em primeiro plano. Mas ela sempre esteve lá. Ela
também  permeava  o  mundo  de  nossos  ancestrais,  assumindo  formas  sólidas  ou  etéreas,
gravadas  no  granito  e  registradas  nos  sussurros  dos  cortesãos.  O  cartão  de  ponto,  a  caixa
registradora, a Máquina Diferencial do século xix, os fios do telégrafo, todos desempenharam
um  papel  na  teia  de  aranha  de  informações  à  qual  nos  agarramos.  À  sua  época,  cada  nova
tecnologia  da  informação  levou  a  avanços  em  seu  armazenamento  e  sua  transmissão.  Da
prensa de tipos móveis surgiram novos modelos de organizadores da informação: dicionários,
enciclopédias,  almanaques  —  compêndios  de  palavras,  classificadores  de  fatos,  árvores  do
conhecimento.  As  tecnologias  da  informação  dificilmente  se  tornam  obsoletas.  Cada  nova
tecnologia  traz  para  suas  antecessoras  um  alento.  Assim,  Thomas  Hobbes,  no  século xvii,
resistiu  à  empolgação  de  sua  era  com  o  novo  meio  de  comunicação  que  surgia:  “Ainda  que
genial,  a  invenção  da  imprensa  é  insignificante  se  comparada  à  invenção  das  letras”.
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  Até
certo ponto, ele tinha razão. Cada novo suporte transforma a natureza do pensamento humano.
No longo prazo, a História é a história da informação adquirindo consciência de si mesma.
Algumas tecnologias da informação tiveram seu valor reconhecido na própria época, mas
outras não. Entre as que foram muito pouco compreendidas estavam os tambores falantes da
África.
a  E  acrescentou,  secamente:  “Nesse  sentido,  o  homem  eletrônico  não  é  menos  nômade  do  que  seus  ancestrais
paleolíticos”.
b “Ops”: operações por segundo.

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