A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada



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caracteres.  Talvez  fosse  apenas  eletricidade.  Os  engenheiros  da  empresa  eram  engenheiros
elétricos.  Todos  compreendiam  que  a  eletricidade  servia  como  substituta  do  som,  o  som  da
voz humana, ondulações no ar que entravam no microfone do telefone e eram convertidas em
formas  de  onda  elétrica.  Essa  conversão  era  a  essência  do  avanço  do  telefone  em  relação  ao
telégrafo  —  a  tecnologia  anterior,  que  já  parecia  tão  obsoleta. A  telegrafia  dependia  de  um


tipo  diferente  de  conversão:  um  código  de  pontos  e  traços,  sem  relação  com  o  som  e  tendo
como  base  o  alfabeto  escrito,  que  era,  por  sua  vez,  um  código  em  si.  De  fato,  ao  analisar
atentamente  a  questão  hoje,  podemos  ver  uma  cadeia  de  abstração  e  conversão:  os  pontos  e
traços representando letras do alfabeto; as letras representando sons e, combinadas, formando
palavras;  as  palavras  representando  em  última  análise  algum  substrato  de  significado,  uma
questão que talvez pertencesse ao campo dos filósofos.
O sistema Bell não contava com nenhum desses pensadores, mas a empresa contratara seu
primeiro  matemático  em  1897:  George  Campbell,  um  morador  de  Minnesota  que  tinha
estudado em Göttingen e Viena. Ele confrontou logo de cara um problema sério das primeiras
transmissões  telefônicas.  Os  sinais  eram  distorcidos  conforme  passavam  pelos  circuitos;
quanto maior a distância, pior a distorção. A solução de Campbell era em parte matemática e
em parte engenharia elétrica.
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 Seus empregadores aprenderam a não se preocupar muito com
essa distinção. O próprio Shannon, quando estudante, nunca conseguiu decidir se optaria pela
carreira  de  engenheiro  ou  pela  de  matemático.  Para  os  Laboratórios  Bell  ele  era  ambas  as
coisas,  quer  desejasse  ou  não,  encarando  com  pragmatismo  os  circuitos  e  relês,  mas
demonstrando  mais  intimidade  com  o  domínio  da  abstração  simbólica.  A  maioria  dos
engenheiros  da  comunicação  concentrava  suas  atenções  em  problemas  físicos,  como
amplificação  e  modulação,  distorção  de  fase  e  degradação  na  proporção  entre  sinal  e  ruído.
Shannon  gostava  de  jogos  e  charadas.  Códigos  secretos  o  fascinavam  desde  quando  ele  era
apenas um menino que lia Edgar Allan Poe. Era capaz de relacionar diferentes assuntos com
uma capacidade espantosa. Na época de assistente de pesquisas em seu primeiro ano no mit,
trabalhou  num  protocomputador  de  cem  toneladas,  o  Analisador  Diferencial  de  Vannevar
Bush, capaz de solucionar equações com grandes engrenagens móveis, dutos e rodas. Aos 22
anos,  escreveu  uma  dissertação  que  aplicava  uma  ideia  do  século xix, a álgebra da lógica de
George  Boole,  ao  projeto  de  circuitos  elétricos.  (Lógica  e  eletricidade  —  uma  combinação
peculiar.) Mais tarde, trabalhou com o matemático e lógico Hermann Weyl, que ensinou a ele
o que era a teoria: “As teorias permitem que a consciência ‘salte por cima da própria sombra’,
deixando para trás aquilo que é dado, representando aquilo que transcende, ainda que, como é
autoevidente, apenas em símbolos”.
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Em  1943,  o  matemático  britânico  e  decifrador  de  códigos  Alan  Turing  visitou  os
Laboratórios  Bell  numa  missão  criptográfica  e  se  encontrou  com  Shannon  algumas  vezes  na
hora  do  almoço,  quando  trocaram  especulações  sobre  o  futuro  das  máquinas  pensantes
artificiais.  (“Shannon  não  quer  alimentar  um  Cérebro  apenas  com dados,  mas  também  com
elementos  culturais!”,
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  exclamou  Turing.  “Ele  quer  tocar  música  para  o  aparelho!”)  O
caminho de Shannon também se cruzou com o de Norbert Wiener, que tinha sido seu professor
n o mit  e,  em  1948,  já  propunha  a  criação  de  uma  nova  disciplina,  que  seria  batizada  de
“cibernética”,  o  estudo  da  comunicação  e  do  controle.  Enquanto  isso,  Shannon  começou  a


dedicar  uma  atenção  especial  aos  sinais  da  televisão,  e  com  um  ponto  de  vista  peculiar:
imaginando se o conteúdo deles poderia ser compactado ou comprimido de maneira a permitir
uma  transmissão  mais  rápida.  Lógica  e  circuitos  se  combinaram  para  criar  algo  novo  e
híbrido,  assim  como  os  códigos  e  os  genes.  À  sua  maneira  solitária,  na  busca  por  uma
estrutura  capaz  de  combinar  tantas  meadas,  Shannon  começou  a  elaborar  uma  teoria  para  a
informação.
 
 
A  matéria-prima  estava  por  toda  parte,  reluzindo  e  zumbindo  na  paisagem  do  início  do
século xx, letras e mensagens, sons e imagens, notícias e instruções, abstrações e fatos, sinais
e signos: uma mistura de espécies relacionadas. E estavam em movimento, fosse pelo correio,
por  fio  ou  via  onda  eletromagnética.  No  entanto,  não  havia  uma  palavra  que  denotasse  tudo
aquilo.  “Intermitentemente”,  escreveu  Shannon  a  Vannevar  Bush  no  mit  em  1939,  “tenho
trabalhado numa análise de algumas das propriedades fundamentais dos sistemas gerais para a
transmissão  da  inteligência.”
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  “Inteligência”:  esse  era  um  termo  flexível,  muito  antigo.
“Agora  usado  como  palavra  elegante”,  escreveu  Sir  Thomas  Elyot  no  século xvi,  “nas
situações de tratados mútuos ou compromissos, seja por carta, seja por mensagem.”
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 Mas esse
termo também tinha outros significados. Alguns engenheiros, especialmente nos laboratórios
telefônicos,  começaram  a  falar  em informação.  Eles  usavam  a  palavra  de  maneira  a  sugerir
algo técnico: quantidade de informação, ou medida de informação. Shannon adotou esse uso.
Para os propósitos da ciência, “informação” tinha de significar algo especial. Três séculos
antes, a nova disciplina da física só pôde tomar forma depois que Isaac Newton se apropriou
de palavras que eram antigas e vagas — “força”, “massa”, “movimento” e até “tempo” — e
conferiu a elas novos significados. Newton transformou esses termos em quantidades, medidas
adequadas  para  serem  usadas  em  fórmulas  matemáticas.  Até  então,  “movimento”  (por
exemplo) era um termo tão flexível e abrangente quanto “informação”. Para os aristotélicos, o
movimento dava conta de uma vasta família de fenômenos: o amadurecimento de um pêssego,
a queda de uma pedra, o crescimento de uma criança, a decadência de um corpo. Tudo isso era
vasto demais. A maioria das variedades de movimento teve de ser descartada antes que as leis
de  Newton  pudessem  se  aplicar  à  realidade  e  a  Revolução  Científica  pudesse  triunfar.  No
século xix, o termo “energia” começou a sofrer uma transformação parecida: uma palavra que
para  os  filósofos  naturais  significava  vigor  ou  intensidade  foi  transferida  para  o  âmbito  da
matemática,  conferindo  à  energia  seu  lugar  fundamental  na  visão  que  os  físicos  têm  da
natureza.
O mesmo ocorreu com a informação. Um ritual de purificação se tornou necessário.
E então, depois de ter sido transformada em algo mais simples, destilada, contabilizada em


bits, a informação passou a ser encontrada por toda parte. A teoria de Shannon construiu uma
ponte entre a informação e a incerteza; entre a informação e a entropia; e entre a informação e
o  caos.  Levou  aos cds  e  aos  aparelhos  de  fax,  aos  computadores  e  ao  ciberespaço,  à  lei  de
Moore  e  a  todas  as  empresas  pontocom  do  mundo.  Assim  nasceu  o  processamento  de
informações, junto com o armazenamento de informações e o acesso à informação. As pessoas
começaram a nomear uma sucessora para a Era do Ferro e a Era do Vapor. “O homem, coletor
de  comida,  reaparece  de  maneira  incongruente  como  coletor  de  informação”,
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  comentou
Marshall McLuhan em 1967.
a
 Ao escrever isso, ele se antecipou em alguns segundos à aurora
dos computadores e do ciberespaço.
Podemos  agora  ver  que  a  informação  é  aquilo  que  alimenta  o  funcionamento  do  nosso
mundo:  o  sangue  e  o  combustível,  o  princípio  vital.  Ela  permeia  a  ciência  de  cima  a  baixo,
transformando todos os ramos do conhecimento. A teoria da informação começou como uma
ponte da matemática para a engenharia elétrica e daí para a computação. Não à toa, a ciência
da computação também é conhecida pelo nome de informática. Hoje até a biologia se tornou
uma ciência da informação, sujeita a mensagens, instruções e códigos. Os genes encapsulam
informações  e  permitem  procedimentos  para  que  estas  sejam  lidas  a  partir  deles  e  inscritas
neles.  A  vida  se  expande  por  meio  do  estabelecimento  de  redes.  O  próprio  corpo  é  um
processador  de  informações. A  memória  reside  não  apenas  no  cérebro,  mas  em  cada  célula.
Não surpreende que a genética tenha florescido junto com a teoria da informação. O dna  é  a
molécula de informação quintessencial, o mais avançado processador de mensagens no nível
celular — um alfabeto e um código, bilhões de bits para formar um ser humano. “Aquilo que
jaz  no  coração  de  todas  as  coisas  vivas  não  é  uma  chama,  nem  um  hálito  quente,  nem  uma
‘faísca  de  vida’”,
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  declarou  o  teórico  da  evolução  Richard  Dawkins.  “É  a  informação,
palavras,  instruções.  […]  Se  quiser  compreender  a  vida,  não  pense  nas  gosmas  e  melecas
pulsantes  e  fluidas,  e  sim  na  tecnologia  da  informação.”  As  células  de  um  organismo  são
nódulos  de  uma  rede  de  comunicações  ricamente  entrelaçada,  transmitindo  e  recebendo,
codificando  e  decodificando.  A  própria  evolução  é  o  resultado  de  uma  troca  contínua  de
informações entre organismo e meio ambiente.
“O ciclo da informação se torna a unidade da vida”,
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 diz Werner Loewenstein depois de
trinta  anos  estudando  a  comunicação  intercelular.  Ele  nos  lembra  que informação  hoje
significa  algo  mais  profundo:  “O  termo  traz  a  conotação  de  um  princípio  cósmico  de
organização e ordem, e nos proporciona uma medida exata disso”. O gene também conta com
um  equivalente  cultural:  o  meme.  Na  evolução  cultural,  um  meme  é  um  replicador  e  um
propagador  —  uma  ideia,  uma  moda,  uma  corrente  de  correspondência.  Num  dia  ruim,  um
meme é um vírus.
A economia está se reorganizando nos moldes de uma ciência da informação, agora que o
próprio  dinheiro  está  concluindo  um  arco  de  desenvolvimento  da  matéria  para  os  bits,


armazenado na memória de computadores e em fitas magnéticas, e que as finanças mundiais
correm  pelo  sistema  nervoso  global.  Mesmo  quando  o  dinheiro  parecia  ser  um  tesouro
material,  ocupando  espaço  nos  bolsos,  nos  compartimentos  de  carga  dos  navios  e  nos  cofres
dos  bancos,  ele  sempre  foi  informação.  Moedas  e  notas,  siclos  e  búzios  foram  todas
tecnologias  de  vida  igualmente  curta  para  o  registro  da  informação  que  determina  quem  é
dono do quê.
E quanto aos átomos? A matéria tem sua própria moeda, e a ciência mais exata dentre as
naturais, a física, parece ter chegado à maturidade. Mas até a física hoje se vê varrida por um
novo modelo intelectual. Nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, momento de glória
dos físicos, as grandes notícias científicas pareciam ser a divisão do átomo e o controle sobre
a  energia  nuclear.  Os  teóricos  concentraram  seu  prestígio  e  seus  recursos  na  busca  por
partículas  fundamentais  e  pelas  leis  que  regem  a  interação  entre  elas,  a  construção  de
gigantescos  aceleradores  e  a  descoberta  de  quarks  e  glúons.  O  ramo  da  pesquisa  em
comunicação  não  poderia  parecer  mais  distante  desse  tão  festejado  empreendimento.  Nos
Laboratórios Bell, Claude Shannon não estava pensando na física. Os físicos que estudavam as
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