A informação Uma história, uma teoria, uma enxurrada



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Para Cynthia


Seja  como  for,  aquelas  passagens,  as  antigas,  não  informavam  o  destino,  e  muito  menos  o  ponto  de
partida.  Ele  não  conseguia  se  lembrar  de  ter  visto  nelas  nenhum  tipo  de  data,  e  certamente  não  era  feita
nenhuma  menção  ao  horário.  Tudo  era  diferente  agora,  claro.  Todas  aquelas  informações.  Archie  se
perguntou qual seria a razão daquilo.
Zadie Smith
 
O que chamamos de passado é construído sobre bits.
John Archibald Wheeler
 
 


Prólogo
O  problema  fundamental  da  comunicação  é  reproduzir  num  determinado  ponto,  seja  exata,  seja
aproximadamente, uma mensagem selecionada num outro ponto. As mensagens costumam ter um significado.
Claude Shannon, 1948
 
Depois de 1948, que foi o ano crucial, as pessoas imaginaram ser capazes de apontar um
propósito  claro  a  inspirar  a  obra  de  Claude  Shannon,  mas  esse  é  um  olhar  contaminado  por
desdobramentos posteriores. A visão dele era bem outra:  Minha mente vaga por aí, e penso em
coisas diferentes dia e noite. Como um autor de ficção científica, ponho-me a pensar: “E se as
coisas fossem assim?”.
1
Por  acaso,  1948  foi  o  ano  em  que  os  Laboratórios  Telefônicos  da  Bell  anunciaram  a
invenção  de  um  pequeno  semicondutor  eletrônico,  “um  dispositivo  de  simplicidade
impressionante”, capaz de fazer tudo aquilo que uma válvula termiônica fazia, e de modo mais
eficiente. Consistia numa lasca cristalina, tão pequena que centenas delas caberiam na palma
de uma mão. Em maio, os cientistas formaram uma comissão para batizar o invento, e foram
distribuídas  cédulas  de  papel  aos  principais  engenheiros  de  Murray  Hill,  Nova  Jersey,
relacionando  algumas  opções: triodo  semicondutor…  iotatron…  transistor  (um  híbrido  de
varistor e transcondutância). Transistor foi o nome vencedor. “Isto pode ter um significado de
grande alcance na eletrônica e na comunicação elétrica”, declararam os Laboratórios Bell num
comunicado  à  imprensa  e,  fugindo  à  regra,  a  realidade  superou  as  expectativas.  O  transistor
deu início a uma revolução na eletrônica, colocando a tecnologia no rumo da miniaturização e
da  onipresença,  e  logo  garantiu  para  seus  três  principais  inventores  o  prêmio  Nobel.  Para  o
laboratório, aquela era a joia da coroa. Mas esse foi apenas o segundo avanço mais importante
daquele ano. O transistor era apenas um equipamento.
Uma invenção ainda mais profunda e fundamental surgiu numa monografia publicada em
79  páginas  da Revista Técnica dos Sistemas Bell nas edições de julho e outubro. Ninguém se
preocupou em fazer um comunicado à imprensa. Ela trazia um título ao mesmo tempo simples
e grandioso — “Uma teoria matemática da comunicação” —, e a mensagem era difícil de ser
resumida.  Mas  ela  se  tornou  o  fulcro  em  torno  do  qual  o  mundo  passou  a  girar.  Como  o
transistor, esse avanço também envolveu um neologismo: a palavra “bit”, escolhida nesse caso
não por uma comissão, e sim pelo autor, um homem de 32 anos chamado Claude Shannon.
2
 O
bit  então  se  juntou  à  polegada,  à  libra,  ao  quarto  de  galão  e  ao  minuto  e  passou  a  ser  visto
como uma quantidade determinada — uma unidade fundamental de medida.
Mas para medir o quê? “Uma unidade de medida da informação”, escreveu Shannon, como
se algo como a informação fosse mensurável e quantificável.
Shannon supostamente pertencia ao grupo de pesquisas matemáticas dos Laboratórios Bell,


mas  costumava  trabalhar  sozinho.
3
  Quando  o  grupo  abandonou  a  sede  da  empresa  em  Nova
York em busca de novos e reluzentes escritórios nos subúrbios de Nova Jersey, ele ficou para
trás,  ocupando  um  cubículo  no  prédio  antigo,  um  edifício  de  doze  andares  construído  com
tijolos  de  barro  em  West  Street,  com  os  fundos  industriais  voltados  para  o  rio  Hudson  e  a
fachada de frente para o Greenwich Village. Ele gostava de ir a pé para o trabalho, e gostava
do  bairro,  próximo  ao  centro  da  cidade,  onde  podia  ouvir  clarinetistas  de  jazz  nas  casas
noturnas que ficavam abertas até tarde. Flertava timidamente com uma jovem que trabalhava
no  grupo  de  pesquisas  com  micro-ondas  dos  Laboratórios  Bell  na  antiga  fábrica  da  Nabisco,
uma construção de dois andares que ficava do outro lado da rua. As pessoas o consideravam
um  jovem  inteligente.  Logo  depois  de  se  formar  pelo  Massachusetts  Institute  of  Technology
(mit)  ele  mergulhou  no  trabalho  realizado  pelos  laboratórios  para  a  guerra,  primeiro
desenvolvendo um direcionador automático de controle de fogo para as baterias antiaéreas, e
depois se concentrando nos fundamentos matemáticos da comunicação secreta — criptografia
—  e  criando  uma  prova  matemática  para  demonstrar  que  o  chamado  Sistema x,  uma  linha
telefônica direta entre Winston Churchill e o presidente Roosevelt, era seguro. Por tudo isso, a
chefia  enfim  concordou  em  deixá-lo  trabalhar  em  paz,  apesar  de  não  saberem  exatamente  o
que ele estava fazendo.
Em  meados  do  século,  a  American  Telephone  &  Telegraph  Company  ( at&t)  não  exigia
resultados imediatos de sua divisão de pesquisas. A empresa permitia desvios para os ramos
da matemática e da astrofísica sem nenhuma motivação comercial aparente. Fosse como fosse,
a  ciência  moderna  fazia  parte,  direta  e  indiretamente,  da  missão  da  empresa,  que  era  vasta,
monopolista  e  de  abrangência  quase  ilimitada.  Ainda  assim,  por  mais  ampla  que  fosse,  o
assunto  principal  tratado  pela  empresa  de  telefonia  permaneceu  um  pouco  fora  de  foco.  Em
1948  mais  de  125  milhões  de  conversas  passavam  diariamente  pelos  222  milhões  de
quilômetros  de  cabos  da  Bell  System  e  por  31  milhões  de  aparelhos  telefônicos.
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  O  Bureau
Censitário  relatou  esses  fatos  sob  a  rubrica  “Comunicações  nos  Estados  Unidos”,  mas  tudo
isso  não  passava  de  medidas  primitivas  para  mensurar  o  volume  de  comunicação  no  país.  O
censo  contou  também  vários  milhares  de  estações  emissoras  de  rádio  e  algumas  dúzias  de
emissoras  de  televisão,  além  de  jornais,  livros,  panfletos  e  correspondência  em  geral.  O
correio contava as cartas e os pacotes que passavam por suas agências, mas o que, exatamente,
transportava  o  sistema  da  Bell,  e  qual  unidade  deveríamos  usar  para  quantificar  esse
transporte?  Certamente  não  seriam  as conversas;  nem  as palavras  e,  sem  dúvida,  nem  os

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