A ideia de colonização africana versus projeto de colonização europeia na imprensa da corte: 1854-1860



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O Regenerador, nessa análise sobre o que pensava a respeito da colonização africana, indicou os jornais A Patria e O Paiz como os propagadores da ideia. Demonstrou que a sua inviabilidade estava no fato de ser um tráfico de escravos disfarçado, sendo o uso da mão de obra do africano fora do momento, não mais indicada e viável. Isso se dava também, ao ver do jornal, pelo fato de que a “poderosa e apavoada nação”, a Inglaterra, não concordaria. Um detalhe importante sobre O Regenerador diz respeito ao seu redator, Justiniano José da Rocha, professor e membro do Partido Conservador que fundou ao longo de sua vida outros periódicos, sendo este, em 1860, o último que redigiu.14 Mesmo sendo um jornalista que emergiu diante do poder político absoluto que os fazendeiros do café exerceram, Nelson Werneck Sodré se refere a ele como um “personagem de destaque na imprensa áulica do tempo, trazido pelas mãos protetoras de Paulino José Soares”15, Justiniano José da Rocha, em O Regenerador, não adotou o tom preconizado pelo grupo de fazendeiros que estava ávido por braços africanos para a lavoura após a proibição do tráfico. Pelo contrário, como podemos perceber, o periódico fazia um contraponto ao projeto de colonização africana e apoiando o que o governo ansiava, o uso do colono europeu para o trabalho nas lavouras do país.

Quanto à participação na imprensa, os grupos dominantes através da política, depois de 1850, agiram em nome de si próprios e controlaram sem hesitação os seus interesses. Isso, politicamente, funcionou a partir de uma prática de apadrinhamento e favores, afastando assim a população comum que apenas assistia como espectadora sem participação ativa, como esclarece Marialva Barbosa.16 Essa elite do império atuava firmemente na imprensa defendendo seus interesses.

A representatividade dos periódicos da capital passou pela política e é incisivo dizer que não há como se separar a imprensa dos homens que atuavam no Parlamento. De acordo com José Murilo de Carvalho, esse momento foi na história brasileira aquele onde a imprensa esteve mais livre. Tal liberdade, entretanto, não constituía poder de independência igual à exercida pelo governo e pelos partidos. O autor argumenta que a maioria dos periódicos estava vinculada a um partido ou mesmo a políticos. Isso possibilitava, ainda, que muitos deles escrevessem para alguns jornais mantendo o anonimato como uma forma de declarar seus pensamentos sem se expor na Câmara ou no Senado.17 Parece-nos, que esse tenha sido o caso do jornal O Paiz em 1860, já que em nenhuma coluna sobre colonização ou opinião livre a respeito desse tema, principalmente sobre colonização africana, era assinada. Muito menos seu cabeçalho indicava o redator responsável.

A discussão entre a colonização africana e a europeia foi ganhando capítulos na imprensa. Precisamos compreender que implementar uma ideia e transformá-la em realidade não era tarefa fácil. Após 1850, o Brasil passava por mudanças de entendimento quanto à utilização do africano. O escravismo tinha suas raízes na tradição e em um sistema que operacionalmente para o fazendeiro funcionava. A imprensa que tentou emplacar a ideia de colonização africana, primeiramente através do A Patria depois do O Paiz via na possibilidade do africano livre a continuidade do seu processo já devidamente testado. Assim, o imigrante europeu não foi visto como boa solução. A insistência no modelo da colonização africana, como solução para a carência de braços, provocou ecos na década de 1860. Tanto que no dia 30 de janeiro de 1864, Tavares Bastos, político do Partido Liberal discursou no Parlamento expondo suas ponderações em relação à ideia do africano livre:


E os fatos demonstraram e demonstram ainda que a emigração forçada africana deteve e embaraçou a corrente espontânea, que começava a romper, da emigração europeia. A sombra do negro seria sempre uma imagem repulsiva do trabalho livre. [...] Esse é o motivo da crise que durante um certo período sucederá à inevitável abolição da escravidão. Será preciso, na verdade, auxiliar aqueles que reclamarem de braços, facilitando-os, ou, pelo menos, será preciso que o governo, alvo de violentar agressões durante a crise, possa oferecer essa corrente como compensação dos escravos que gradualmente se forem emancipando. Os imigrantes, atenuando a soma dos produtores, dos consumidores, dos contribuintes, atenuarão os efeitos da crise.18
A crise sobre a qual o deputado se refere é a da pouca oferta de mão de obra para o trabalho na lavoura. Enquanto alguns fazendeiros reclamaram durante a década de 1850 a respeito da insuficiência de braços, sobre o aumento do preço do cativo e a inconsistência do europeu como substituto do escravo, ainda sim, a tentativa de emplacar a colonização europeia prosseguiu. Segundo Kaori Kodama, com intuito de promover a colonização europeia, o governo criou a “Sociedade contra o Tráfico e a Favor da Civilização dos Indígenas”, em 1850, e o jornal O Philantropo passou a ser, na imprensa, seu representante. Políticos ligados ao Partido Liberal que defenderam a colonização e criticaram o sistema escravista eram também representados por este jornal.19 Mais uma vez, podemos perceber que a imprensa e a política estiveram imbricadas, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, por causa das alterações no sistema escravista provocado pelo fim do tráfico de escravos e pela Lei de Terras.

Alguns anos antes das leis de 1850 (Euzébio de Queiroz e Lei de Terras) entrarem em vigor, o Minerva Brasiliense, em 1844, publicou o artigo “Colonisação” de Francisco de Sales de Torres Homem, o Visconde de Inhomirim, em que demonstrava a necessidade de incentivar a vinda de imigrantes europeus como colono. As justificativas se encontravam no mesmo perfil daqueles que entendiam o quanto a escravidão prejudicava o país. Argumentos, como o atraso civilizatório, o retardo do desenvolvimento tecnológico, a pressão inglesa, o prejuízo do agricultor e as críticas ao governo, estavam presentes. Torres Homem advertiu que uma possível cessação do tráfico estava próxima e traria prejuízos alegando que a forte pressão inglesa contribuiria para tanto. O Visconde de Inhomirim cobrou dos legisladores atitudes que viessem amenizar os prejuízos dos agricultores. Para isso, sugeriu uma lei de colonização como forma preventiva através de colonos europeus. Concluiu afirmando sobre os males da escravidão:


A existência dos escravos, e o que é mais fatal à civilização, a sua continuada importação desses sertões da África, perpetua a ignorância, e a ignava em uma classe numerosa dos nossos lavradores, e torna impossível desbastar os erros, que na agricultura tem introduzido a rotina cega dos tempos passados. O escravo não tem interesse algum no aperfeiçoamento, o mesmo estímulo do lucro não punge para melhorar o método, porque desempenha a sua aborrecida tarefa, máquina caduca, embrutecido pelo seu próprio estado, e pela vida selvática, que passou na terra natal, ele não pode ser senão um imperfeitíssimo instrumento para o adiantamento da nossa lavoura, e é de todo inútil para as artes, e costeio de qualquer manufatura. [...] Possa a carta, que passamos a transcrever, contribuir a despertar a esse respeito os cuidados de quem nos governa.20
No artigo, o Visconde de Inhomirim firma a sua posição diante de um quadro que ia se desenhando e que acabou tendo a sua construção mais determinante com a crise do escravismo no processo de transição da mão de obra escrava para a livre, durante a década de 1850. A sua avaliação era própria de um pensamento não só contrário à escravidão como também concernente para o progresso social que, provavelmente, viria com o colono europeu trabalhando nas terras brasileiras. Esse tipo de ideia, consequentemente, se destacou na imprensa do Império. Diante desses fatos, os historiadores Lúcia Bastos e Humberto Machado ressaltam que “a imprensa abolicionista desempenhou um papel importante na derrocada do escravismo”. Seguem afirmando que os homens da imprensa criticavam o escravismo e consideravam que a escravidão trazia a “barbárie” para o país.21 Junto a isso, a opinião pública se mostrou também sensibilizada com os sofrimentos dos escravos, o que provocou, no Parlamento, debates contra o cativeiro.22 Em nosso entendimento, portanto, a contribuição da imprensa, principalmente depois de 1850, para que se aplicasse no Brasil o projeto de colonização europeia foi primordial nas discussões e alegações contra a ideia de colonização africana.

Em 1857, o jornal A Carapuça, periódico satírico como se autodeclarava, publicou em 2 de agosto uma crítica ao processo de colonização, utilizando um tom irônico humorístico em forma de anedota que provocou uma reflexão sobre a necessidade de braços para o trabalho na lavoura e a quantidade de dinheiro aplicado para este fim. Intitulada Lembrança Chistosa, o jornal assim declarava:


Um sujeito que veio a esta cidade pela primeira vez, desejoso de ver as maravilhas deste belo solo, pediu a um amigo que o guiasse para o dito fim. Na sua excursão extasiou-se de tudo quanto observou, e, chegando à Rua do Ouvidor, ficou encantado do primor das suas lindas lojas. Causando-lhe admiração um chapéu de palha com grandes abas e rendas que viu em quase todas as lojas, perguntou ao amigo que chapéus eram aqueles, e quem deles usava. O amigo o satisfez, dizendo-lhe que os tais chapéus denominavam-se chapéus parteiras, que estavam em rigor da moda, e que deles faziam uso muitas senhoras. No dia seguinte, continuando o sujeito no seu instrutivo passeio, e encontrando imensas senhoras com os referidos chapéus, parou, voltou-se para o amigo, e cheio de candidez exclamou: - Com efeito! Pelo grande número de parteiras que vejo não me resta a menor dúvida de que a procriação desta bela cidade deve de ser espantosa! E, se assim é, para que apregoa a nossa necessidade de colonização estrangeira, para qual se decretou uns 15 milhões de cruzados?! O amigo desatou a rir, e ambos prosseguiram sua jornada.23
A observação do periódico entre a relação da natalidade e os gastos com o processo de colonização europeia implicava em uma reflexão quanto a uma questão importante: o uso do próprio contingente populacional para o trabalho na lavoura. Conforme a interpretação do jornal, a mão de obra ociosa que poderia ser usada para suprir os braços escassos estava disponível aqui mesmo. A imprensa cumpriu, assim, uma nova atribuição, a da crítica humorística que se desenvolveu, principalmente, por causa das inovações técnicas que permitiu o surgimento da gravura. Nelson Werneck Sodré, afirma que, por consequência, fez aparecer também a caricatura, o que assegurou “novas condições à crítica e ampliaram a sua influência”.24

Não é de se espantar que a imprensa do império detivesse forte e determinante importância para que todos os assuntos de grande relevância estivessem estampados em suas páginas, e o processo de colonização não fugiu a essa regra.

Para emplacar a ideia de colonização africana, a mesma dependia do fracasso do projeto de colonização europeia, juntamente com a pressão por braços para o trabalho nas lavouras. Outrora, os fazendeiros tinham esses braços abundantemente por causa do tráfico. O desenvolvimento de uma mentalidade de trabalho escravo se formou e foi uma questão de sustentar a estrutura do país em cima da produção econômica proporcionada pelo café, calcado no braço africano. Assim, não causava estranheza que um discurso pró-colonização africana tentasse se sustentar mesmo depois da proibição do infame comércio de escravos. O africano passou a ser ao mesmo tempo a salvação da lavoura para uns e a desgraça da continuidade para outros. A fronteira entre o fim do tráfico e a imprensa foi equidistante, afinal não se tratou, na época, de se promover uma nova era no país em relação ao trabalho. O intuito estava calcado no aproveitamento de uma mão de obra, que mais cedo ou mais tarde chegaria ao Brasil por vias legais, para tentar diminuir o atraso.

A resistência da ordem do pensamento escravista para fins econômicos tentou manter não só a tradição de uma sociedade como também de forma lenta de evitar a perda de vez dos cativos na lida com a lavoura. É concreto afirmar que o ano de 1850 foi um marco na história brasileira para fins de estratégia, mudança e tentativa de continuidade do processo presente na sociedade brasileira do século XIX. A colonização africana ou europeia esbarrara por si só na imprensa em duas vertentes: Primeira, factível que o país precisou de mão de obra e houve a tentativa de se formar através do europeu uma nova realidade para o futuro, dentro da qual o africano não representava mais essa visão. Segunda, a ideia de trazer africanos livres como colonos não se justificou simplesmente pela carestia de braços. Era preciso dialogar entre os benefícios de um ou de outro e o que podemos afirmar foi que as divergências encostaram no entendimento legal que, a partir daquele momento, as portas estavam abertas para uma nova realidade estrutural do trabalho no Brasil.

A discussão política fez parte do processo, afinal urgiu que providências fossem tomadas. A necessidade por braços tomou o noticiário da imprensa sobre a colonização e politicamente tornou-se assunto para alguns parlamentares de extrema importância. Mesmo que a tentativa pela ideia de colonização fosse aventada, a colonização europeia teve apoio do governo e da maior parte da imprensa na capital do Império.




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