A ideia de colonização africana versus projeto de colonização europeia na imprensa da corte: 1854-1860



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Keywords: african colonization; colonization; press

O discurso por uma ideia de colonização africana surgiu na imprensa sempre com o mesmo argumento: a falta de braços para a lavoura e a necessidade urgente para supri-la. Precisamente ainda não temos como determinar quanto à gênese do discurso em prol dessa ideia. Entretanto, pudemos perceber que o debate da realização de uma colonização começou a aparecer já na década de 1840. Havia o entendimento que a procura por alternativas para suprir as necessidades dos agricultores brasileiros sobre a mão de obra tinha se iniciado. O reconhecimento da escassez de braços, mesmo que discretamente, era um fato. Nas pesquisas realizadas nos periódicos cariocas, destacamos dois folhetos, O Instincto e o Diário do Rio que, já naquela época, abordavam tal assunto. Em 3 de janeiro de 1840, O Instincto publicou um artigo denominado O aijesu do Instincto1 onde promoveu seu apoio à colonização africana, com críticas ao governo e aos legisladores brasileiros além da Inglaterra. No trecho abaixo, destaca-se que:


De todas as partes recebemos reclamações, e o que é mais as reputamos justas, por não termos há vários números dito nem sequer uma palavra sobre o nosso maior interesse; ou por outra, sobre a tão necessária como justa colonização dos africanos em nosso país. [...] Maldito governo que não só fere moralmente os mais preciosos interesses do país, mas desvia aos que deles com o intuito só de felicitarem! Não há hoje um brasileiro de boa-fé, que deixe de reconhecer o grande mal que ao Brasil fez o ominoso tratado de abolição do tráfico de africanos, em 1826; a razão calma e circunspecta condena tal tratado como o mais infenso a ordem e prosperidade pública. [...] Força é que nossos legisladores, desprezando as iniquas e interessadas e demandas intenções do Governo Pirata, revoguem a lei que obsta ao resgate dos negros cativos em África, e sua útil e necessária colonização no Brasil. Feito este relevante serviço à Religião, à Humanidade e à Pátria, em tudo se entenda conseguido, resta que os brasileiros esclarecidos, e interessados na prosperidade e grandeza de sua terra, multipliquem as sociedades, ou companhias de colonização africana (mais útil sem dúvida do que a dos fidalgos ilhéus) à medida que o Governo Pirata da Grã-Bretanha for duplicando seus esforços para obstar o progresso dos nossos melhoramentos, e a felicidade dos ditos negros cativos da África. [...]2
Interessante a análise do periódico a respeito das necessidades provocadas sobre o efeito da abolição do tráfico, pois demonstrou preocupação e urgência quanto à carência de braços para a lavoura. A esse aspecto, Tâmis Parron afirma que, durante a década de 1840, foi a política do contrabando que “condicionou o que poderia ser dito ou salientado nos espaços públicos”. Ainda no seu entendimento, isso interferiu nas decisões do Estado nacional sobre o que era aceito ou negado e criado e omitido nos discursos artísticos.3 A imprensa carioca trocou suas impressões e reflexões acerca da ideia de colonização africana. Em 1842, em resposta ao periódico Brasil o jornal O Diario do Rio publicou o artigo “Colonização Africana” em 24 de novembro. Nele, externou suas preocupações e indagações se a colonização africana seria o melhor caminho a seguir. Reconheceu os problemas da agricultura e a questão inglesa em relação à vigilância e seu poder. Os argumentos usados foram também uma resposta ao periódico Brasil que insinuou em fazer acordo com os ingleses no que diz respeito às verificações da entrada de africanos.

Diante dos questionamentos da escassez de mão de obra, o historiador Robert Conrad relata que “no final de 1836 os principais mercados costeiros da província do Rio de Janeiro e áreas vizinhas de São Paulo contavam com estoques excessivos”.4 O abastecimento de cativos africanos continuou, apesar da lei de 1831. Parece-nos que a retórica dos fazendeiros quanto ao problema da mão de obra estava pronta dentro da lógica escravista de mercado, a construção da riqueza condizia em não perder a possibilidade de usar o escravo. O discurso pela preferência ao braço do africano entrou pela década de 1850 com a alegação em favor da continuidade sobre aquilo que vinha dando certo até o momento. A colonização africana, neste entendimento, parecia ser o caminho.

A compreensão de que o africano era o mais propício ao trabalho duro da lavoura brasileira, pois se aclimatava e se adaptava com mais facilidade do que o europeu, foi usada como uma justificativa para a continuidade, além de o fato de que o agricultor estava acostumado com o seu trato. Alguns periódicos, como O Paiz, A Patria, Echo da Nação e A Revolução Pacífica defenderam a ideia de um projeto de colonização africana, principalmente o primeiro. O Paiz, por exemplo, manteve a coluna denominada “Colonisação” nas suas publicações em 1860. Nela, promoveu e sustentou as ideias para tal projeto, além da defesa sistemática da agricultura, como a grande produtora de riquezas para o país. Endossando esse discurso, o jornal, em 24 de março de 1860, publicou seu posicionamento a respeito do uso da mão de obra do africano na estrutura agrária escravista do país com indagações e afirmações quanto à melhor solução. Assegurou também que o país e a agricultura há muito tempo sofriam pela falta de braços. Chamou a atenção pela ausência de fábricas que pudessem prover a economia brasileira. Traçou a condição que somente com a presença do africano seria resolvida, era a defesa veemente da colonização africana:
[...] Quando se extinguiu o tráfico, proclamou-se para contentar os agricultores, que um bem entendido e estudado sistema de colonização substituiria os braços africanos com grande vantagem para a agricultura do país. Declamou-se contra o serviço do africano, que sendo bruto não podia entrar em paralelo com o homem livre; até se fizeram cálculos do custo de cada colono em relação ao africano e tiraram por conclusão que era mais barato o colono e que produziria mais e melhor. [...]

Unamo-nos e reclamemos providências em prol da agricultura; venham braços africanos e vamos demonstrando que eles são necessários e que em nada afetam os interesses da civilização, antes pelo contrário são os melhores elementos dela: parecerá aos utopistas esta nossa asserção um paradoxo, mas nós iremos mostrando que o erro está da parte daqueles que só enxergam vantagens na colonização europeia, porque se não lembram que o Brasil deve tudo e o que é ao braço africano.5


No trecho final, o periódico fez questão de certificar sobre a importância de se ter braços africanos e tentou desconstruir a colonização europeia como solução. Apresentou e aduziu o problema como uma necessidade dentro da carestia vigente. Seria um momento de incertezas para a produção das riquezas provenientes da agricultura, afinal não adiantava ter tanta terra fértil se lhes faltavam quem trabalhasse nelas. O africano, para o jornal, era o ponto fundamental para sustentar os mecanismos da geração da sobrevivência do próprio país.

Na contramão dos periódicos que saíram em defesa da colonização africana, temos jornais como Jornal do Commercio, O Correio da Tarde, Diario do Rio de Janeiro e o Correio Mercantil. O alinhamento desses jornais estava em consonância com o momento de uma nova mentalidade no país, a do uso de mão de obra assalariada. Consideram que a introdução do colono europeu livre resolveria o problema da falta de braços, além de romper com o antigo sistema escravista, após a abolição do tráfico. No dia 9 de janeiro de 1856, o jornal O Correio da Tarde argumentou sobre se promover a colonização da seguinte maneira:


Nada nos surpreende, por que temos dito repetidas vezes, que a falta de braços há de tornar audazes os contrabandistas e, ainda mais, que serão secundados pelos fazendeiros, visto que a necessidade a isso obrigará estes, em parte, por não haver colonização, por nela não acreditarem. Eis porque temos impertinente em insistir na urgência que há em promover-se a colonização por todos os meios possíveis, torna-la aceitável. [...] Se aqui no Rio de Janeiro os fazendeiros recalcitraram contra a colonização, nas outras províncias daqui para o Norte o mesmo acontece, ou ainda pior: antes se quer comprar escravos muito caros, do que ter colonos baratos, porque, dizem eles, em resultados, os colonos ficam muito mais caros não servem, abandonam o trabalho, ou tornam-se mandriões; e sobre os escravos nós temos o direito de senhores, o direito do castigo para constrangê-los.6
O curioso foi que O Correio da Tarde traçou sua análise e percebeu que houve um momento onde ao mesmo tempo se demonstrou a necessidade pela colonização como também pela presença do africano. Essa crítica do periódico era em função de como a mentalidade contra o europeu apareceu na imprensa pró-colonização africana. A desqualificação como fomento analítico foi uma realidade. Os jornais tornaram-se espaços onde a escravidão e o escravo apareciam com frequência, afinal o jogo das palavras impressas poderia influenciar o leitor. A colonização abriu espaço em suas páginas para a imprensa da escravidão. Marco Morel e Mariana Barros destacam essa forma de atuar afirmando que:
Os grandes jornais das cidades e capitais publicavam, em profusão, veementes defesas da escravidão, apologias (disfarçadas ou não) do racismo e disseminação mais ou menos subliminar de preceitos contra o negro. Em alguns casos, eram os mesmos jornais que acolhiam protestos ligados ao abolicionismo, especialmente à medida que a campanha contra a escravidão foi avançando e a crise do escravismo tornou-se mais patente. Parece mais adequado afirmar que tais meios de comunicação expressavam os embates da sociedade, agindo como reprodutores e criadores desse movimento.7
A imprensa da corte refletia as ações deliberadas tanto na sociedade como na política. A mentalidade escravista trazia nas tintas dos impressos periódicos o pensamento de uma tradição escravocrata dos defensores desse processo, enquanto isso, por outro lado, o crescimento de um movimento pelo trabalho livre agitava as páginas dos jornais, principalmente depois de 1850. Nesse raciocínio, Marialva Barbosa afirma que: “pensar as formas como o mundo dos escravos está inserido nos periódicos do século XIX é também se referir às suas imagens representadas nas publicações”.8 A propósito, O Paiz, que se intitulou um “órgão da lavoura”, criticou as pressões inglesas e ponderou com outros periódicos favoráveis ao projeto de colonização europeia, tentando impor suas ideias sobre a necessidade de se inserir africanos nas fazendas, tema recorrente nas páginas desse jornal ao longo do ano de 1860. Na edição de 13 de maio, o jornal se posicionou categoricamente sobre a importância do africano para o trabalho no campo, aproveitando para enumerar os três motivos da preferência dos fazendeiros pelo trabalho do africano:
Comparamos, analisamos, e fomos mesmo perscrutar os segredos do nosso agricultor e compreendemos que, a lavoura no Brasil carece só e unicamente do braço africano. Ninguém está no caso de melhor apreciar os resultados do trabalho europeu, de compara-los aos do africano do que o fazendeiro e é dele próprio que recebemos a inspiração para hastear a bandeira da colonização africana. [...]

Os fazendeiros preferem os africanos por muitas razões e essas muito poderosas. Primeiro, porque o africano nativo de um solo cálido aclima-se facilmente nas matas do nosso país; suporta a intensidade do calor que estamos habituados a sofrer; a variação de nossas estações nenhum mal lhes causa. Segundo os africanos alimentam-se com os próprios alimentos que trivialmente se usam no Brasil e sobretudo no campo; prefere o feijão, a carne seca, o arroz, fubá, etc. etc. às comidas europeias. Terceiro, sendo a condição do africano muito aviltante, no solo da África aqui encontra ele cômodos que não conhecia até então, encontra a simpatia no seio de nossas famílias e identifica-se perfeitamente com nossos usos e costumes. Em suma, o africano está pronto para o trabalho, resiste as intempéries, adapta-se aos nossos usos e costumes, e obedece a voz do amo, se é livre e do senhor se é escravo.9


Com o desenvolvimento da imprensa no Brasil durante o século XIX, os periódicos passaram também por mudanças e foram se transformando em um lugar de promoção de ideias. Pierre Clastres afirma que a palavra e o poder mantêm relações onde o desejo de um é a realização da conquista do outro.10 Dentro dessa perspectiva, o movimento da imprensa da escravidão assumiu uma relação complexa repleta de matizes, onde havia jornais declaradamente contra a continuidade do africano nas terras, e outros de cunho conservador que não deixavam de publicar debates sobre o escravismo.11 Nesse contexto de expressar com certa delicadeza, mas com contundência suas concepções, O Regenerador teceu comentários sobre a imprensa da corte:
É notável o movimento que vai tendo a imprensa: a par do terceiro número do Imperio que vimos anunciado no Correio Mercantil, saiu um novo número do O Paiz, insistindo nas suas considerações acerca da lavoura e da colonização africana, e contendo alguns artigos de sua doutrina sobre o espírito da especulação favoniado pela conciliação. Em deferência ao colega, havemos de dizer todo o nosso pensamento acerca da colonização, e da colonização africana.12
Ainda em resposta ao que era o discutido sobre a ideia de colonização africana na imprensa carioca, O Regenerador expôs seu pensamento e argumentos na mesma edição de 10 de abril daquele ano. Em deferência ao colega de O Paiz, o periódico dedicou a coluna intitulada “A Colonisação Africana”, com um arsenal argumentativo indicando diretamente de que lado estava redigindo:
Cumpre sair dessa posição, disseram alguns, o tráfico de africanos é indispensável, e se recuemos diante da sua necessidade, em atenção ao progresso da civilização e da moralidade pública, em atenção as complicações exteriores, venha ao menos o tráfico disfarçado, venha a colonização africana. O primeiro na imprensa que aventou essa ideia foi A Patria, de Niterói, hoje O Paiz a pregoa. Confessamo-lo, a ideia serve aos que não pensam nas possibilidades, aos que só cuidam do presente. [...] Felizmente o bom senso brasileiro fez justiça dela, deixou-a morrer na folha de Niterói, e se a herda O Paiz, não acreditamos que tenha muito aproveitar na herança. A colonização europeia não é possível nem desejável, a colonização africana ainda é menos possível e menos desejável. Ocupemos neste número somente com a colonização africana, reservemos para outra ocasião o que pretendemos dizer da colonização europeia. [...] Já vem os propagadores da colonização africana, que lhes fazemos boa condição, damos por não existente e como removido obstáculo tal que nunca a diplomacia da mais poderosa e apavonada nação removeria. Ainda assim a colonização africana é impossível. [...]13



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