A guerra da Arte



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A Guerra da Arte - Steven Pressfield
A MAGIA DE CONTINUAR
Quando termino um dia de trabalho, saio para uma caminhada no alto das
colinas. Levo um gravador de bolso porque sei que, à medida que minha
mente superficial se esvazia com uma caminhada, outra parte de mim entra
na conversa e começa a falar.
A expressão "olhar malicioso" na página 342... deveria ser" olhar
sedutor".
Você se repetiu no Capítulo 21. A última frase é igual a outra no
meio do Capítulo 7.
Esse é o tipo de pensamento que me ocorre. Acontece a todos nós, a cada
dia, a cada minuto. Estes parágrafos que estou escrevendo agora me foram
ditados ontem; substituem uma abertura anterior, mais fraca, a este capítulo.
Estou desenrolando a versão nova e melhorada agora, diretamente do
gravador.
Este processo de auto-revisão e autocorreção é tão comum que nem
sequer o notamos. Mas é um milagre. E suas implicações são surpreendentes.
Afinal, quem está fazendo essa revisão? Que força está puxando nossa
manga?
O que isso nos diz a respeito da arquitetura de nossas psiques — que, sem
que exerçamos nenhum esforço ou mesmo pensemos no assunto, uma voz em
nossa cabeça abre a boca para nos aconselhar (e nos aconselhar sabiamente)
sobre como devemos fazer nosso trabalho e viver nossas vidas? A quem
pertence essa voz? Que software está rodando incansavelmente, varrendo
gigabytes, enquanto nós, nossos eus dominantes, estão ocupados de outra
forma?


Serão anjos?
Serão musas?
Será o Inconsciente?
O Self?
O que quer que seja. é mais inteligente do que nós. Muito mais
inteligente. Não precisa que lhe digamos o que fazer. Funciona por conta
própria. Parece querer funcionar. Parece gostar do que faz.
O que faz, exatamente?
Organiza.
O princípio de organização está embutido na natureza. O próprio caos se
auto-organiza. Fora da desordem primordial, as estrelas descobrem suas
órbitas; os rios descobrem seu caminho para o mar.
Quando nós, como deuses, partimos para criar um universo — um livro,
uma ópera, uma nova empresa —, o mesmo princípio se aplica. Nosso roteiro
de filme se resolve em uma estrutura de três atos; nossa sinfonia assume sua
forma em movimentos; nossa empresa de material hidráulico descobre sua
cadeia de comando ótima. Como experimentamos isso? Tendo ideias.
Insights saltam em nossas cabeças enquanto estamos fazendo a barba ou
tomando banho ou até mesmo, surpreendentemente, quando estamos de fato
trabalhando. Os duendes por trás desse fato são inteligentes. Se esquecemos
algo, eles nos lembram. Se nos desviamos do curso, eles orientam as velas e
nos conduzem de novo no rumo certo.
O que podemos concluir?
Obviamente, 
alguma 
forma 
de 
inteligência 
está 
atuando,
independentemente de nossa mente consciente e, ainda assim, em aliança
com ela, processando nosso material para nós e juntamente conosco.
E por isso que os artistas são modestos. Sabem que não são eles que estão
fazendo o trabalho; estão apenas tomando ditado. E por isso também que
“pessoas não-criativas” odeiam "pessoas criativas". Porque têm inveja.
Sentem que os artistas e escritores estão ligados a uma rede de energia e
inspiração com a qual não conseguem se conectar.
Claro, tudo isso é bobagem. Somos todos criativos. Todos nós temos a
mesma psique. Os mesmos milagres comuns estão acontecendo em todas as
nossas cabeças a cada dia, a cada minuto


LARGO
Aos vinte e poucos anos, trabalhei dirigindo caminhões-reboque para uma
empresa chamada Burton Lines, em Durham, Carolina do Norte. E u não era
muito bom naquilo; meus demônios de autodestruição dominavam-me.
Somente uma sorte cega me impediu de me matar e quaisquer outros pobres
idiotas que por acaso estivessem na estrada na mesma ocasião. Em um
período difícil. Eu estava sem dinheiro, afastado de minha mulher e da minha
família. Certa noite tive o seguinte sonho:
Eu fazia parte da tripulação de um porta-aviões. Só que o navio
estava encalhado em terra firme. Ele ainda lançava seus jatos e fazia o
que era preciso fazer, mas estava abandonado a uns oitocentos metros
do oceano. Todos os marinheiros sabiam o quanto a situação era
desesperadora; sentiam isso como uma aflição constante e aguda. A
única esperança é que havia um sargento da artilharia naval a bordo
cujo apelido em "Largo". No sonho, pareceu-me o nome mais
apropriado que alguém pudesse ter. Largo. Adorei. Largo era um
desses militares subalternos mais velhos e durões, como o personagem
de Bum Lancaster, Warden, em A um passo da eternidade, o único
sujeito no navio que sabe exatamente o que está se passando, o velho e
rude sargento que toma todas as decisões e quem realmente comanda o
espetáculo.
 
Mas onde estava Largo? Eu estava parado, angustiado,
junto à amurada quando o capitão aproximou-se e começou a
conversar comigo. Até ele estava perdido. Era seu navio, mas ele não
sabia como tirá-lo da terra firme. Eu estava nervoso, envolvido numa
conversa com o oficial e não conseguia pensar em nada para dizer. O
comandante não parecia notar, apenas virou-se para mim
informalmente e disse:


"Que diabos nós devemos fazer, Largo
Acordei eletrizado. Eu era Largo! Eu era o velho lobo-do-mar. O poder de
assumir o comando estava em minhas mãos; eu só precisava acreditar.
De onde veio esse sonho? Obviamente, sua intenção era benéfica. Qual a
sua origem? E o que esse acontecimento revela em termos do funcionamento
do universo?
Mais uma vez, todos nos já tivemos sonhos semelhantes. Mais uma vez,
são absolutamente comuns. O nascer do Sol também. Nem por isso ele deixa
de ser um milagre.
Antes de me mudar para a Carolina do Norte, trabalhei nos campos
petrolíferos próximos a Buras, Louisiana. Morava num alojamento de
funcionários com um bando de outros trabalhadores temporários. Um dos
rapazes comprara um livro sobre meditação numa livraria em Nova Orleans;
começou a me ensinar a meditar. Eu costumava ir para as docas depois do
trabalho e ver se conseguia entrar naquele estado de espirito. Um dia,
aconteceu o seguinte:
Eu estava sentado com as pernas cruzadas na posição de
meditação, quando uma águia apareceu e pousou no meu ombro. A
águia fundiu-se comigo e levantou vôo de modo que minha cabeça
tornou-se sua cabeça e meus braços suas asas. Senti-me
completamente autêntico. Podia sentir o ar sob minhas asas, de uma
maneira tão sólida quanto você sente a água quando esta remando.
Tinha substância. Você podia impelir-se e avançar através do ar.
Então era assim que os pássaros voavam! Compreendi que era
impossível para um pássaro cari do céu; tudo que ele precisava fazer
era estender as asas; o ar sólido sustentava com a mesma força que
sentimos quando estendemos nossa mão para fora da janela de um
carro em movimento. Fiquei muito impressionado com esse filme que
era passado em minha mente. Perguntei à águia: “Ei, o que devo
aprender com isso?” Uma voz (silenciosa) respondeu: “Deve aprender
que aquilo a que não dá nenhum valor, tão sem peso quanto o ar, são
na verdade forças poderosas que têm substância, tão reais e sólidas
quanto a terra”.
Compreendi. A águia me dizia que os sonhos, visões, meditações como
essa - que ate então eu desdenhara como fantasia ilusão - eram tão reais e tão


sólidas quanto qualquer outro acontecimento em minha vida desperta.
Acreditei na águia. Entendi o recado. Como poderia ser de outra forma?
Eu sentira a solidez do ar. Sabia que ela dizia a verdade.
O que nos leva de volta à pergunta: De onde veio a águia? Por que ela
apareceu na hora certa para me dizer aquilo que eu precisava ouvir?
Obviamente, alguma inteligência oculta criara a águia, dando-lhe a forma
de uma ave para que eu compreendesse o que ela queria me comunicar. Essa
inteligência estava me tratando como um bebê. Mantendo a mensagem
simples. Traduzindo-a em termos tão claros e elementares que até mesmo
alguém tão anestesiado e adormecido quanto eu pudesse compreender.



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