A guerra da Arte



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A Guerra da Arte - Steven Pressfield
A VIDA NÃO-VIVIDA
A maioria de nós possui duas vidas. A vida que vivemos e a vida não-
vivida que existe entro de nós. Entre as duas, encontra-se a Resistência.
Você já levou para casa uma esteira ergométrica e deixou-a acumulando
poeira no sótão? Já abandonou uma dieta, um curso de yoga, uma prática de
meditação? Já se esquivou de um chamado para envolver-se numa prática
espiritual, para dedicar-se a uma vocação humanitária, para consagrar sua
vida ao serviço de outros? Já que ser mãe, médico, advogado dos fracos e
desamparados? Concorrer a um cargo público, tomar parte numa cruzada
para salvar o planeta, fazer campanha pela paz mundial ou pela preservação
do meio ambiente? Tarde da noite, já experimentou uma visão da pessoa que
você poderia se tornar, da obra que conseguiria realizar, do ser realizado que
você deveria ser? Você é um escritor que não escreve, um pintor que não
pinta, um empresário que nunca se aventurou num empreendimento de risco?
Então você sabe o que é Resistência.
Uma noite, quando eu estava deitado,
Ouvi papai conversando com mamãe.
Ouvi papai dizer para deixar o garoto tocar o boogie-woogie.
Porque isso está dentro dele e ele tem que colocar para fora.*
John Lee Hooker. Letra da canção Boogie Chillen
A Resistência ê a força mais tóxica do planeta. É fonte de mais
infelicidade do que pobreza, doença e disfunção erétil. Ceder à Resistência
deforma nosso espírito. Atrofia-nos e nos torna menores do que nascemos
para ser. Se você acredita em Deus (e eu acredito), deve considerar a
Resistência um mal, pois nos impede de alcançar a vida que Deus planejou
* No original em inglês: "One night l was laying’down. / I heard Papa Talkin’ to Mama. / I heard Papa say to let


tat boy boogie-woogie. / ‘Cause it’s sit to came out.”
para nós ao dotar cada ser humano de seu próprio e único gênio criativo.
A palavra gênio vem do latim genius. Os romanos usavam-na nua
designar um espírito interior, sagrado e inviolável que nos protege, guiando-
nos para nossa vocação. Um escritor escreve com seu gênio; um artista pinta
com o seu; todo aquele que cria o faz a partir deste centro sagrado. É a
morada de nossa alma, o receptáculo que abriga nosso ser potencial, é o
nosso farol, nossa estrela polar.
Todo sol lança uma sombra e a sombra do gênio é a Resistência. Por mais
forte que seja o chamado de nossa alma para a realização, igualmente
potentes são as forças da Resistência reunidas contra ele. A Resistência é
mais rápida do que o projétil de uma arma, mais poderosa do que uma
locomotiva, mais difícil de renegar do que cocaína. Não estaremos sozinhos
se formos dizimados pela Resistência: milhões de mulheres e homens bons
foram derrubados antes de nós. E o pior é que nem ficamos sabendo o que
nos atingiu. Eu nunca soube. Dos 24 aos 32 anos, a Resistência me jogou
treze vezes da Costa Leste para a Oeste e novamente para a Leste e eu nem
sequer sabia de sua existência. Procurava o inimigo em toda parte e não
conseguia vê-lo bem diante de mim.
Você provavelmente Já ouviu a história: mulher fica sabendo que tem
câncer, seis meses de vida. Em poucos dias, pede demissão do trabalho,
retoma seu sonho de compor canções Tex-Mex que abandonou para cuidar da
família (ou começa a estudar grego clássico ou muda-se para a cidade e
dedica-se a cuidar de bebês com AIDS). Os amigos da mulher acham que ela
enlouqueceu; ela mesma nunca se sentiu mais feliz. Há um pós-escrito: o
câncer da mulher começa a regredir.
É necessário tudo isso? É preciso encarar a morte para nos levantarmos e
confrontarmos a Resistência? É preciso que a Resistência aleije e desfigure
nossas vidas para despertarmos para a sua existência? Quantos de nós se
tornaram bêbados e viciados, desenvolveram tumores e neuroses sucumbiram
a analgésicos, mexericos e uso compulsivo do telefone celular, simplesmente
por não fazer "a aquilo que nossos corações, nosso génio interior, nos impele
a fazer? A Resistência nos derrota. Se amanhã de manhã, por algum passe de
mágica. Toda alma atordoada e ignorante acordasse com o poder de dar o
primeiro passo para ir atrás de seus sonhos, todo psiquiatra na lista telefônica
fechasse as portas do consultório. As prisões se esvaziariam. As indústrias de
bebidas alcoólicas e de cigarro iriam à falência, assim como os negócios de


comida pronta de má qualidade, de cirurgia cosmética e de programas de
entretenimento “instrutivos” na TV, sem mencionar indústrias farmacêuticas,
hospitais e a profissão médica de alto a baixo. Os maus-tratos domésticos se
extinguiriam, assim como o vício, a obesidade, enxaquecas, fúria no trânsito
em caspa.
Olhe no fundo do seu coração. A menos que eu seja louco, neste mesmo
instante uma vozinha fraca está sussurrando, dizendo-lhe, como já fez
milhares de vezes, qual é a vocação que é sua e apenas sua. Você sabe.
Ninguém tem que lhe dizer. E a menos que eu seja louco, você não está mais
perto de tomar uma atitude em relação a ela do que estava ontem ou estará
amanhã. Acha que a Resistência não é real? A Resistência o matará.
Sabe, Hitler queria ser artista. Aos 18 anos, pegou sua herança, setecentos
kronen, e mudou-se para Viena para viver e estudar. Inscreveu-se na
Academia de Belas-Artes e posteriormente na Faculdade de Arquitetura. Já
viu algum quadro dele? Eu também não. A Resistência o derrotou. Pode
achar que é exagero, mas vou dizer mesmo assim: foi mais fácil para Hitler
deflagrar a 2ª Guerra Mundial do que encarar uma tela em branco.



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