A guerra da Arte



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A Guerra da Arte - Steven Pressfield
ABORDANDO O MISTÉRIO
Por que ressaltei o profissionalismo com tanta ênfase nos capítulos
anteriores? Porque o mais importante a respeito de arte é trabalhar. Nada
mais importa exceto sentar-se todo dia e tentar.
Por que isso é tão importante?
Porque quando nos sentamos, diariamente, e continuamos a labutar, algo
misterioso começa a acontecer. É iniciado um processo pelo qual. inevitável e
infalivelmente, o céu acorre em nossa ajuda. Forças ocultas adotam nossa
causa; o feliz acaso reforça nosso intento.
Esse é o outro segredo que os verdadeiros artistas conhecem e os
aspirantes a escritores não. Quando nos sentamos diariamente e fazemos
nosso trabalho, o poder se concentra ao nosso redor. A Musa nota nossa
dedicação. Ela aprova. Aos seus olhos, nos tornamos merecedores de seu
favorecimento. Quando nos sentamos e trabalhamos, nos tornamos algo como
um bastão magnetizado que atrai limalhas de ferro. As idéias vêm. Os
insights acumulam-se.
Assim como a Resistência localiza-se no inferno, a Criação reside no céu.
E não apenas como testemunha, mas como um aliado ativo e entusiasmado.
O que denomino Profissionalismo outra pessoa pode chamar de Código
do Artista ou Procedimento do Guerreiro. E uma atitude caracterizada pelo
serviço e ausência do ego.
Os Cavaleiros da Távola Redonda eram simples e modestos. No entanto,
duelavam contra dragões.
Nós também enfrentamos dragões. Criaturas mitológicas soltando fogo
pelas ventas que devemos combater e vencer para obter o tesouro de nosso
eu-em-potencial e para liberar a donzela que é o destino e o plano de Deus
para nós mesmos, bem como a resposta para a razão de estarmos neste
planeta.


INVOCANDO A MUSA
A citação de Xenofonte que abre esta seção vem de um folheto chamado
comandante da cavalaria, no qual o célebre guerreiro e historiador oferece
ensinamentos àqueles jovens cavalheiros que aspiravam a ser oficiais das
tropas atenienses. Ele declara que o primeiro dever do comandante, antes de
mandar limpar um estábulo ou buscar financiamento junto ao Comitê de
Defesa, é sacrificar-se aos deuses e invocar sua ajuda.
Eu faço o mesmo. A última coisa que faço antes de me sentar para
trabalhar é fazer minha oração à Musa. Rezo em voz alta, com grande fervor.
Somente então começo a trabalhar.
Quando tinha quase 30 anos, aluguei uma pequena casa no norte da
Califórnia; mudei-me para lá para terminar um romance ou me matar
tentando. A essa altura eu já havia estragado um casamento com uma jovem
que amava de todo o coração, mandado duas carreiras pelos ares, blá, blá,
etc., tudo porque (embora eu não tivesse nenhum conhecimento disso na
época) eu não conseguia lidar com a Resistência. Eu tinha nove décimos de
um romance terminado e outro praticamente pronto quando os atirei na lata
de lixo. Não conseguia terminá-los. Não tinha a garra necessária. Ao ceder à
Resistência dessa forma, tornei-me presa de todo vício, distração, qualquer
mal já mencionado até aqui, todos levando a lugar algum. Acabei indo parar
naquela sonolenta cidadezinha da Califórnia, derrotado, com minha
caminhonete Chevrolet, meu gato Mo e minha velha Smith-Corona.
Um sujeito chamado Paul Rink morava mais embaixo na mesma rua.
Procure-o, ele está em Big Sur and the Oranges of Hieronymus Bosch, de
Henry Müler. Paul era escritor. Vivia em seu trailer, "Moby Dick".
Conversávamos todos os dias pela manhã, tomando café. Ele despertou meu
interesse para todos os tipos de autores de quem eu nunca ouvira falar, me
deu lições de autodisciplina, dedicação, falou-me dos males do mercado.


Mais que tudo, entretanto, ele compartilhou comigo sua oração, a Invocação
da Musa, da Odisséia, de Homero, tradução de T. E. Lawrence. Paul
datilografou-a para mim em sua Remington manual ainda mais antiga do que
a minha máquina de escrever. Eu ainda a tenho. Está amarelada e ressecada;
o menor sopro a transformaria em pó.
Em minha pequena casa, eu não tinha TV. Nunca lia um jornal ou ia ao
cinema. Eu apenas trabalhava. Certa tarde, eu martelava as teclas da minha
máquina no pequeno quarto que convertera em escritório, quando ouvi o
rádio do meu vizinho tocando lá fora. Alguém declamava em voz alta:
"...para preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados
Unidos." Saí. O que estava acontecendo? "Não ouviu? Nixon caiu; já tem
outro cara lá."
Eu perdera o caso Watergate completamente.
Estava determinado a continuar trabalhando. Fracassara tantas vezes e
causara tanta dor a mim mesmo e às pessoas que amava, que achava que se
estragasse tudo desta vez, teria que me enforcar. Na época, eu não sabia o que
era Resistência. Ninguém me instruíra sobre o conceito. Eu a sentia,
entretanto, com toda a sua força. Eu a sentia como uma compulsão
à autodestruição. Não conseguia terminar o que começara. Quanto mais
perto eu chegava, mais e novas formas eu encontrava de estragar tudo.
Trabalhei 26 meses sem parar, tirando apenas dois para fazer uma economia
com um trabalho temporário no estado de Washington, e finalmente um dia
cheguei à última página e datilografei:
FIM
Na verdade, nunca encontrei um comprador para meu livro. Nem para o
seguinte. Ainda se passariam dez anos até eu conseguir meu primeiro cheque
por algo que havia escrito e mais dez até um romance, The Legend of Bagger
Vance, ser publicado. Mas aquele momento, quando bati nas três teclas e
escrevi FIM, foi inesquecível. Lembro-me de desenrolar da máquina a última
página e acrescentá-la à pilha que constituía o original terminado. Ninguém
soube que eu havia terminado. Ninguém se importava. Mas eu sabia. Senti
como se um dragão contra o qual lutara toda a minha vida tivesse
simplesmente caído morto aos meus pés e bafejado seu último suspiro
sulfúrico.
Descanse em paz, desgraçado.


Na manhã seguinte, fui ao trailer de Paul para tomar um café e contei-lhe
que havia terminado.
— Melhor para você — disse sem levantar os olhos. —
Comece o próximo hoje.



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