A guerra da Arte


O DIA-A-DIA DE UM ESCRITOR



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A Guerra da Arte - Steven Pressfield
O DIA-A-DIA DE UM ESCRITOR
Acordo com uma sensação angustiante de insatisfação. Logo sinto medo.
Logo as pessoas que me cercam começam a desaparecer. Eu interajo. Eu
estou presente. Mas não estou.
Não estou pensando no trabalho. Já atribuí isso à Musa. O que me
preocupa é a Resistência. Sinto-a em minhas entranhas. Atribuo-lhe um
profundo respeito, porque sei que ela pode me derrotar em qualquer dia com
a mesma facilidade com que um único drinque pode derrotar um alcoólatra.
Ocupo-me das tarefas de rotina, da correspondência, das obrigações da
vida diária. Novamente, estou ali, mas não de verdade. O relógio está
correndo em minha mente: sei que posso me deixar levar pelos pequenos
afazeres diários durante algum tempo, mas tenho que suspendê-los quando o
alarme soar.
Tenho profunda consciência do Princípio de Prioridade, que determina (a)
você deve saber a diferença entre o que é urgente e o que é importante e (b)
deve fazer o que é importante primeiro.
O importante é o trabalho. Esse é o jogo para o qual tenho que me
preparar. Esse é o campo no qual tenho que deixar tudo que possuo.
Eu realmente acredito que meu trabalho é essencial para a sobrevivência
do planeta? Claro que não. Mas é tão importante para mim quanto pegar
aquele rato o é para o abutre que vejo voando em círculos pela minha janela.
Ele está faminto. Precisa de uma presa. Eu também.
Tenho meus afazeres domésticos. Já é hora. Faço minha oração e parto
para a caçada.
O Sol ainda não se levantou: faz frio: os campos estão encharcados.
Arbustos arranham meus tornozelos, galhos de árvores batem no meu rosto.
A colina é estafante, mas o que posso fazer? Colocar um pé à frente do outro
e continuar subindo.


Uma hora se passa. Já estou mais aquecido, a caminhada faz meu sangue
circular. Os anos ensinaram-me uma habilidade: como me sentir um pobre;
coitado. Sei como me fechar e prosseguir curvado e abatido.
Esse é um bem precioso porque é humano, o papel adequado a um mortal.
Não ofende os deuses, mas provoca a sua intervenção em nosso favor. Meu
eu amargurado começa a retirar-se. Os instintos começam a me dominar.
Outra hora se passa. Saio de um bosque cerrado e lá está ela: uma lebre bela e
gorda que eu sabia que iria aparecer se eu não desistisse.
De volta a casa, agradeço aos imortais e lhes ofereço sua porção da caça.
Eles a trouxeram para mim; merecem seu quinhão. Sou grato.
Brinco com meus filhos junto à lareira. Eles estão felizes: o pai trouxe-
lhes o alimento. A mãe está feliz; ela o cozinha. Eu estou feliz; ganhei meu
sustento no planeta, ao menos por este dia.
A Resistência agora já não é um fator. Não penso na caçada e não penso
no escritório. A tensão se esvai do meu pescoço e das minhas costas. O que
sentir, disser ou fizer esta noite não virá de nenhuma parte invalida ou não
resolvida de mim, nenhuma parte corrompida pela Resistência.
Vou dormir satisfeito, mas meu último pensamento é sobre a Resistência.
Acordarei com ela amanhã. Já estou me colocando em guarda contra ela.



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