A guerra da Arte



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A Guerra da Arte - Steven Pressfield
RESISTÊNCIA E ISOLAMENTO
PARTE DOIS
Os amigos às vezes perguntam: "Não se sente isolado sentado sozinho o
dia inteiro? " No começo, parecia estranho ouvir-me responder: 'Não".
Depois, percebi que não estava sozinho: estava no livro: estava com meus
personagem. Estava comigo mesmo.
Não só não me sinto sozinho com meus personagens, como eles são mais
vívidos e interessantes para mim do que as pessoas na minha vida real. Se
você pensar bem, não poderia ser diferente. Para que um livro (ou qualquer
projeto ou empreendimento) prenda nossa atenção pelo tempo necessário
para se realizar, tem que estar ligado a alguma perplexidade ou paixão interna
que seja de suprema importância para nós. Esse problema torna-se o tema de
nosso trabalho, mesmo que, no começo, não possamos compreendê-lo ou
defini-lo. À medida que os personagens despontam, cada qual infalivelmente
incorpora um aspecto desse dilema, dessa perplexidade. Tais personagens
podem não ser interessantes para mais ninguém, mas são absolutamente
fascinantes para nós. Eles são nós mesmos. Versões mais sensuais, mais
inteligentes, mais mesquinhas de nós mesmos. É divertido estar em sua
companhia porque eles se debatem com a mesma questão que nos anima. São
nossas almas gêmeas, nossos amantes, nossos melhores amigos. Até mesmo
os vilões. Especialmente os vilões.
Mesmo em um livro como este, que não possui nenhum personagem, não
me sinto sozinho porque estou imaginando o leitor, que fantasio como um ,
aspirante a artista muito parecido com meu próprio eu, mais novo e menos
grisalho. A esse leitor espero transmitir um pouco de firmeza e inspiração,
bem como aparelhá-lo, precariamente, com alguma sabedoria adquirida com
a experiência e alguns truques do ofício.


RESISTÊNCIA E CURA
Já esteve em Santa Fé? Há uma subcultura de ''cura" ali. A ideia é que
existe algo de terapêutico na atmosfera. Um lugar seguro para onde ir e se
recompor. Há outros lugares (ocorrem-me Santa Bárbara e Ojai, na
Califórnia), em geral habitados pela classe média-alta com mais tempo e
dinheiro do que sabem como gastar, onde uma cultura de cura também
prevalece. O conceito em todos esses ambientes parece ser que uma pessoa
precisa completar essa cura antes de estar pronta para realizar sua obra.
Essa forma de pensar (já está à minha frente?) é uma forma de
Resistência.
O que pretendemos curar, aliás? O atleta sabe que nunca chegará o dia em
que ele acordará sem dores. Ele tem que aceitar a dor.
Lembre-se, a parte de nós que acha que precisa de cura não é a parte com
a qual criamos; esta parte é muito mais forte e profunda. A parte com a qual
criamos não pode ser tocada por nada que nossos pais tenham feito ou que a
sociedade tenha feito. Essa parte é imaculada. Impoluta; à prova de som, à
prova d'água e à prova de bala. Na realidade, quanto mais problemas
tivermos, melhor e mais rica essa parte se tornará.
A parte que precisa de cura é nossa vida pessoal. A vida pessoal nada tem
a ver com trabalho. Além disso, que maneira melhor de curar do que
encontrar nosso centro de auto soberania? Não é esse o objetivo da cura?
Há duas décadas, fui parar em Nova York ganhando vinte dólares por
noite dirigindo um táxi e fugindo o tempo todo do trabalho que deveria fazer.
Certa noite, sozinho em meu apartamento sublocado a cento e dez dólares,
cheguei ao fundo do poço em termos de ter me desviado para tantos canais
estranhos, tantas vezes, que eu não conseguia racionalizar a questão por nem
mais uma noite. Peguei minha antiga Smith-Corona, temendo a experiência


como algo sem sentido, sem propósito, inútil, além de ser a medida mais
dolorosa que eu podia conceber. Durante duas horas, obriguei-me a ficar ali
sentado, produzindo com grande esforço textos sem valor que arremessava
imediatamente no lixo.
Foi o suficiente. Guardei a máquina de escrever. Voltei à cozinha. Na pia,
amontoavam-se dez dias de louças sujas.
Por alguma razão, sentia tanta energia que resolvi lavá-las. A água morna
transmitia uma sensação agradável. O sabão e a esponja faziam seu trabalho.
Uma pilha de pratos limpos começou a se erguer no escorredor. Para minha
surpresa, percebi que estava assobiando. Compreendi que havia virado uma
página. Eu estava bem. Estaria bem dali em diante. Compreende? Eu não
havia escrito nada de valor. Poderiam se passar anos até que eu o fizesse, se é
que chegaria a fazê-lo. Não importava. O que contava é que eu havia, após
anos de fuga, normalmente me sentado e feito meu trabalho.
Não me entenda mal. Não tenho nada contra a verdadeira cura. Todos nós
necessitamos dela. Mas não tem nada a ver com a realização do nosso
trabalho e pode ser um exercício colossal em Resistência. A Resistência
adora a “cura”. A Resistência sabe que, quanto mais energia psíquica
gastarmos remoendo as cansativas e aborrecidas injustiças de nossa vida
pessoal, menos tutano teremos para realizar nosso trabalho.



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