A filosofia e sua presença nos currículos brasileiros: um breve resgate histórico


partir de uma educação baseada pela fé



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crisforoni, A FILOSOFIA E SUA PRESENÇA NOS CURRÍCULOS BRASILEIROS

partir de uma educação baseada pela fé.
Existiam dois cursos secundários e um de nível superior ofertado pelos jesuítas, a 
saber, Letras Humanas e Filosofia e Ciências ou Curso de Artes, como também era denominado, 
curso secundário. E o curso de nível superior caracterizado de curso de Teologia e Ciências 
Sagradas (Horn, 2000). É aqui que “ouviremos” falar em um ensino de Filosofia - “maquiado” 
através do latim – a língua oficial – a partir do uso de textos adaptados à doutrina católica, como 
por exemplo, “[...] os escritos moralistas de Cícero, Quinto Cúrcio e Sêneca” (HORN, 2000, 
p.19).
De acordo com Horn (2009) a visão dos jesuítas acerca da educação acabou por reduzir 
o ensino de Filosofia, assim como o ensino das ciências a uma simples erudição e retórica, uma 
vez que se restringiam apenas a conceder títulos (graus) acadêmicos; estavam indiferentes a 
toda construção dos pensadores do período moderno, as descobertas científicas; davam pouca 
importância ao ensino da História, da Geografia e da Matemática – esta se limitava apenas as 
classes mais adiantadas -; e quanto à Filosofia, centravam-se no ensino da Filosofia escolástica 
nos estudos de textos de filósofos como Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. Filósofos como 
Locke, Hobbes, Rousseau, Spinoza e Voltaire, assim como outros eram tidos como 
influenciadores de ideias perniciosas que exerceriam sobre o homem, a apropriação de 
concepções deístas, ateístas, materialistas, etc.
De acordo com Belieri e Sforni (2013), por ser uma educação organizada nos moldes 
da escolástica, fazia-se necessário um controle minucioso em torno dos professores de Filosofia 
e Teologia. Todos os textos filosóficos ou teológicos, assim como as questões selecionadas 
eram cuidadosamente supervisionadas, pois, poderiam incitar “certo” sentimento de liberdade 
no espírito que viesse a comprometer os dogmas católicos. 


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ISSN 1984-3879, SABERES, Natal RN, v. 19, n. 2, Agosto, 2018
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A Filosofia, portanto, que se fazia presente no ensino do “homem branco” no Brasil, 
acabou por tornar-se um “artigo de luxo” de um homem que antes chegara a essa “nova” região 
degredado, mas que em pouco tempo iria constituir uma classe elitizada dominante. Essa classe 
elitizada dominante acabou por incorporar os costumes aristocráticos da metrópole, que por 
fim, viu na Filosofia – esta que já vinha “pronta” da Europa - um sinal de grande cultura. 
Constituía-se assim, um “grande homem culto”, aquele que conseguir reproduzir as ideias 
recentemente chegadas. Igualmente, é possível perceber um ensino livresco e/ou jornalístico 
que consistia apenas na reprodução da novidade, ao invés da análise minuciosa, e da curiosidade 
no lugar da crítica. De modo geral, 
[...] cabia ao aluno receber e memorizar o conhecimento pronto e acabado 
transmitido pelo professor para que pudesse ser bom súdito, recebendo, com 
base em uma concepção essencialista, os valores, o correto modo de agir e a 
mais adequada forma de ação política. É esse conhecimento que, de acordo 
com o pensamento tomista, da qual a Igreja nesse período é a mais fiel 
conservadora e divulgadora, ajudaria o homem a se encontrar com a sua 
verdadeira essência e garantir a salvação de sua alma (BELIERI; SFORNI, 
2013, p. 3). 
Temos, portanto, um ensino de Filosofia de natureza enciclopédica, possuidor de um 
caráter autoritário e dogmático, com diretrizes constituídas pela Companhia de Jesus com 
normas que foram sistematizadas no RatioStudiorum. O RatioStudiorum publicado em 1599
foi utilizado pelos jesuítas com o objetivo de possibilitar a organização dos seus planos de 
estudos concentrando toda a sua programação em elementos da cultura europeia. Os estudos 
RatioStudiorum perduraram até o começo do século XX, e segundo Ceppas (2010) mesmo 
assim, não possibilitaram a formação de uma “cultura letrada”, para além de uma retórica e de 
uma cultura livresca entre nós. Toda a formação dos filhos de colonos, assim como o dos futuros 
sacerdotes, estava logicamente estruturada nesse plano de estudos – RatioStudiorum – e, seguia 
os seguintes passos. “O coroamento dos cursos de humanidades, depois, o Curso de Filosofia e 
em seguida de Teologia, era à viagem a Europa para o aperfeiçoamento” (Horn, 2010, p. 22). 
Dessa forma, fica claro que o ensino de Filosofia nesse período está centrado num monopólio 
do pensamento focalizado por visões teocráticas e jesuíticas. Um poder que fez do pensamento 
filosófico predominante, tornar-se um saber voltado para a erudição livresca onde toda a 
Filosofia partia da argumentação teológica com bases na escolástica e no aristotelismo. Foi esse 
monopólio do pensamento teocrático-jesuítico, que fez com que Portugal se afastasse de todo 
movimento científico que nascia na Europa no século XVII. 


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Cabe ressaltar assim, que a Filosofia, por conseguinte, ficou a cargo de um poder 
político e religioso hegemônico centrado nos interesses de uma elite; onde a educação filosófica 
tinha como principal objetivo a formação de homens letrados, eruditos, de boa retórica, mas 
principalmente, católicos. Todo esse conteúdo cultural, constituída com bases nas humanidades 
clássicas e na escolástica, não passava de uma (re) afirmação do poder e autoridade da Igreja e 
dos clássicos. Se materializando contra o espírito crítico que nascia na Europa, como o 
movimento da reforma e o movimento científico.
No Brasil Colônia, um pequeno grupo elitizado recebia uma educação erudita, 
enquanto o outro estava desprovido de tal conhecimento. Apesar de tal privilégio é importante 
ressaltar que o que se esperava do aluno era apenas o desenvolvimento da memória. Assim, é 
possível perceber que essa concepção – que exercia funções ideológicas - de educação, atrofiava 
qualquer outra concepção filosófica que viesse de encontro com as diretrizes vigentes. Toda 
formação – e aqui é importante “acrescentar” as outras áreas do conhecimento – estava a serviço 
das concepções e interesses de uma ideologia historicamente dominante, ou seja, conforme 
Belieri e Sforni (2013) atendiam a interesses históricos específicos de uma sociedade pré-
capitalista. 
Segundo, “A educação do Brasil Colônia ajudava a tornar legítima a superestrutura 
organizada sobre os ideais mercantilistas, formando um indivíduo que pudesse garantir a 
efetivação dos interesses políticos e econômicos dos dirigentes da Colônia e da Metrópole” 
(Belieri e Sforni, 2013 p.4). Todos os meios de produção estavam concentrados nas mãos de 
um pequeno grupo de proprietários de grandes extensões de terra com centenas de trabalhadores 
que dependiam exclusivamente da produção dessas terras para sobreviverem. Deste modo, para 
que essa estrutura político-econômica continuasse a subsistir, fazia-se necessária uma política 
educacional que possibilitasse a imobilidade das reflexões críticas do pensamento. Mantendo-
se assim, uma dependência passiva de um saber pronto e acabado. O ensino de Filosofia – assim 
como as demais áreas – fazia parte de uma política educacional que levava a perpetuar a 
dependência da colônia em relação à metrópole, tanto em sentido de uma alienação objetiva 
(questões de existência, subsistência) – uma vez que as reservas da Colônia eram destinadas a 
Metrópole -; como em sentido de uma alienação subjetiva, que conforme Severino (1986), não 
permitia uma percepção mais “crítica” dessas condições. 
Ressalta-se assim que o ensino de Filosofia no Brasil Colônia, não possuía autonomia. 
Visto que este se adaptava aos interesses de uma Monarquia que começava a se consolidar, e o 
que mais esperavam da escola, era nada menos do que a conformação por parte da população, 


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em relação à estrutura social, que estava vigorando nesse momento histórico. Houve, contudo, 
um segundo momento do ensino de Filosofia no Brasil, marcado pela reforma pombalina, e 
pelos ideais iluministas, descritos a seguir. 

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